{"id":6090,"date":"2017-11-26T15:59:53","date_gmt":"2017-11-26T17:59:53","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=6090"},"modified":"2017-11-21T15:03:20","modified_gmt":"2017-11-21T17:03:20","slug":"como-era-o-brasil-quando-as-armas-eram-vendidas-em-shoppings-e-municao-nas-lojas-de-ferragem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/11\/26\/como-era-o-brasil-quando-as-armas-eram-vendidas-em-shoppings-e-municao-nas-lojas-de-ferragem\/","title":{"rendered":"Como era o Brasil quando as armas eram vendidas em shoppings e muni\u00e7\u00e3o nas lojas de ferragem"},"content":{"rendered":"<p><strong>GIL ALESSI<\/strong> &#8211; Antes do Estatuto do Desarmamento taxas de homic\u00eddio cresciam de forma alarmante. Parlamentares tentam mudar a lei para permitir acesso facilitado \u00e0 compra de armas.<\/p>\n<p>Imagine um pa\u00eds onde qualquer pessoa com mais de 21 anos\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2015\/12\/25\/politica\/1451073160_565712.html\">pudesse andar armada na rua, dentro do carro<\/a>, nos bares, festas, parques e shoppings centers. Em um passado n\u00e3o muito distante, esse pa\u00eds era o Brasil. At\u00e9 2003, aqui era poss\u00edvel, sem muita burocracia, comprar uma pistola ou um rev\u00f3lver em lojas de artigos esportivos, onde as\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/armas_cortas\/a\/\">armas<\/a>\u00a0ficavam em prateleiras na se\u00e7\u00e3o de artigos de ca\u00e7a, ao lado de varas de pesca e anz\u00f3is. Grandes magazines, como os hoje finados Mesbla e Sears, ofereciam aos clientes registro gr\u00e1tis e pagamento parcelado em tr\u00eas vezes sem juros. An\u00fancios de p\u00e1gina inteira nas principais revistas e jornais anunciavam promo\u00e7\u00f5es na compra de armas, apelando para o j\u00e1 existente sentimento de inseguran\u00e7a da popula\u00e7\u00e3o: \u201cEu n\u00e3o teria medo se possu\u00edsse um leg\u00edtimo rev\u00f3lver da marca Smith &amp; Wesson\u201d, dizia um deles, com a imagem de uma mulher assustada dentro de casa. Outra propaganda, da empresa brasileira Taurus, dizia \u201cpasse as f\u00e9rias com seguran\u00e7a\u201d.<\/p>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p>E as coisas foram assim por d\u00e9cadas. As empresas fabricantes de armas e muni\u00e7\u00f5es, assim como ocorre nos Estados Unidos, financiavam campanhas de pol\u00edticos com doa\u00e7\u00f5es milion\u00e1rias. A pr\u00e1tica n\u00e3o se perdeu, entretanto. At\u00e9 as elei\u00e7\u00f5es de 2014 ainda era poss\u00edvel encontrar no site do Tribunal Superior Eleitoral registros destes aportes feitos por ind\u00fastrias b\u00e9licas, que ajudaram a fortalecer a bancada da bala do Congresso. O porte de armas era t\u00e3o comum que em alguns Estados os locais p\u00fablicos eram obrigados a oferecer uma chapelaria exclusiva para guardar os rev\u00f3lveres ou pistolas dos clientes. Uma lei de 2001, aprovada no\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/rio_de_janeiro\/a\">Rio de Janeiro<\/a>, por exemplo, estipulava que \u201ccasas noturnas, boates, cinemas, teatros, est\u00e1dios escola de samba e outros estabelecimentos do tipo possuam, em suas instala\u00e7\u00f5es, guarda-volumes apropriados para o dep\u00f3sito de armas\u201d. Nestes lugares era proibido o acesso portando armamentos.<\/p>\n<p>Mas, de acordo com os indicadores da \u00e9poca, os anos em que a popula\u00e7\u00e3o podia se armar para teoricamente \u201cfazer frente \u00e0 bandidagem\u201d n\u00e3o foram de paz absoluta, mas de crescente viol\u00eancia, segundo dados do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade e do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada. De 1980 at\u00e9 2003, as taxas de homic\u00eddios subiram em ritmo alarmante, com alta de aproximadamente 8% ao ano. A situa\u00e7\u00e3o era t\u00e3o cr\u00edtica que, em 1996, o bairro Jardim \u00c2ngela, em S\u00e3o Paulo, foi considerado pela ONU como o mais violento do mundo, superando em viol\u00eancia at\u00e9 mesmo a guerra civil da antiga Iugosl\u00e1via, que \u00e0 \u00e9poca estava a todo o vapor. Em 1983 o Brasil tinha 14 homic\u00eddios por 100.000 habitantes. Vinte anos depois este n\u00famero mais do que dobrou: alcan\u00e7ando 36,1 assassinatos para cada 100.000. Para conter o avan\u00e7o das mortes foi sancionado, em 2003, o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/estatuto_desarmamento_brasil\/a\">Estatuto do Desarmamento<\/a>, que restringiu drasticamente a posse e o acesso a armas no pa\u00eds e\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2015\/05\/13\/politica\/1431545595_563619.html\">salvou mais de 160.000 vidas, segundo estudos<\/a>.\u00a0 Atualmente a taxa est\u00e1 em 29,9 o que pressup\u00f5e que o desarmamento n\u00e3o reduziu drasticamente os homic\u00eddios mas estancou seu crescimento.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/10\/25\/politica\/1508939191_181548_1508941316_sumario_normal.jpg?resize=360%2C586&#038;ssl=1\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/10\/25\/politica\/1508939191_181548_1508941316_sumario_normal_recorte1.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/10\/25\/politica\/1508939191_181548_1508941316_sumario_normal.jpg 360w\" alt=\"An\u00fancio loja de departamentos em revista nos anos de 1980.\" width=\"360\" height=\"586\" \/><\/p>\n<p><em>An\u00fancio loja de departamentos em revista nos anos de 1980<\/em><\/p>\n<p>O tema \u00e9 sens\u00edvel, uma vez que um grupo de deputados e senadores quer voltar para os velhos tempos, quando era poss\u00edvel comprar armas com facilidade. O tema ganha eco tamb\u00e9m em alguns setores da sociedade que enxergam no direito de se armar \u2013 e a reagir \u00e0 viol\u00eancia \u2014 uma possibilidade de \u201csalvar vidas\u201d.<\/p>\n<p>Daniel Cerqueira, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada, explica que uma grave crise econ\u00f4mica ocorrida durante a d\u00e9cada de 1980 ampliou a desigualdade social e foi um dos fatores respons\u00e1veis pelo aumentos das taxas de homic\u00eddio. \u201cO que observamos \u00e9 que a partir dessa que ficou conhecida como a d\u00e9cada perdida, h\u00e1 uma fal\u00eancia do sistema de Justi\u00e7a e Seguran\u00e7a P\u00fablica, e as pessoas, no meio desse processo, come\u00e7aram a comprar mais armas\u201d, explica. Isso fez, segundo Cerqueira, com que o ciclo de viol\u00eancia se autoalimentasse. \u201cQuanto mais medo as pessoas sentem e mais homic\u00eddios ocorrem, mais elas se armam. Quanto mais se armam, mais mortes teremos\u201d, afirma. Ele destaca que ao contr\u00e1rio do que frequentemente se diz, a maior parte dos crimes com morte n\u00e3o s\u00e3o praticados pelo &#8220;criminoso contumaz&#8221;, e sim &#8220;pelo cidad\u00e3o de bem, que em um momento de ira perde a cabe\u00e7a&#8221;.<\/p>\n<p>Nem todos concordam com Cerqueira. \u201cAs pessoas se sentiam mais seguras naquela \u00e9poca\u201d, afirma Ben\u00ea Barbosa, um dos mais antigos militantes pr\u00f3-armas do Brasil. Fundador do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.mvb.org.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Movimento Viva Brasil<\/a>\u00a0e pioneiro em fazer frente ao Estatuto do Desarmamento e \u00e0 \u201crestri\u00e7\u00e3o do direito\u201d de porte, ele afirma que o crime que mais preocupava era &#8220;o furto&#8221;. &#8220;Na d\u00e9cada de 1970 eu morava no litoral de S\u00e3o Paulo, na Praia Grande, em um bairro de ruas de terra. No ver\u00e3o todo mundo colocava as cadeiras na cal\u00e7ada e ficava conversando, ningu\u00e9m tinha medo de fazer isso\u201d relembra. De acordo com Barbosa, nos anos de 1990 deveria haver \u201caproximadamente meio milh\u00e3o de pessoas armadas em S\u00e3o Paulo, e voc\u00ea n\u00e3o tinha bangue-bangue nas ruas\u201d. Para ele, o Estatuto do Desarmamento \u201celitizou\u201d a posse de armas, ao instituir a cobran\u00e7a de taxas proibitivas. \u201cAntigamente era comum pessoas de baixa renda comprarem armas. Hoje s\u00f3 em exames e papelada voc\u00ea gasta mais de 2.000 reais, dependendo do Estado\u201d, diz.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/10\/25\/politica\/1508939191_181548_1508941461_sumario_normal.jpg?resize=360%2C599&#038;ssl=1\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/10\/25\/politica\/1508939191_181548_1508941461_sumario_normal_recorte1.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/10\/25\/politica\/1508939191_181548_1508941461_sumario_normal.jpg 360w\" alt=\"An\u00fancio de armas nos anos de 1980.\" width=\"360\" height=\"599\" \/><\/p>\n<p><em>An\u00fancio de armas nos anos de 1980<\/em><\/p>\n<p>Barbosa relembra ainda que em alguns Estados, como Minas Gerais, era poss\u00edvel comprar muni\u00e7\u00f5es de baixo calibre e p\u00f3lvora em lojas de ferragens e el\u00e9trica. At\u00e9 1997, o porte ilegal de arma de fogo era enquadrado apenas como uma contraven\u00e7\u00e3o penal, uma ofensa menor (assim como o jogo do bicho), com pena de 15 dias a seis meses de pris\u00e3o ou multa \u2013 prevalecendo na maioria dos casos a segunda op\u00e7\u00e3o. Naquele ano foi aprovada uma lei que criminalizou o porte sem autoriza\u00e7\u00e3o devida \u2013 mas mesmo assim ainda era relativamente f\u00e1cil comprar um rev\u00f3lver.<\/p>\n<p>Acess\u00f3rios\u00a0<em>fashion<\/em>\u00a0tamb\u00e9m tinham um tratamento especial para receber as armas. Era comum que as bolsas (principalmente masculinas), valises e maletas executivas viessem com um coldre em seu interior, um local espec\u00edfico para guardar a arma. E alguns fabricantes de ve\u00edculos tinham modelos que j\u00e1 saiam de f\u00e1brica com um compartimento no forro da porta ou no porta-luvas para acomodar a pistola do motorista.<\/p>\n<p>Uma das categorias profissionais que mais investia em armas como forma de prote\u00e7\u00e3o eram os taxistas. \u00c0 \u00e9poca n\u00e3o era aceito pagamento com cart\u00f5es, e os aplicativos de celular ainda eram um sonho distante. Assim, o dinheiro vivo corria solto. Natal\u00edcio Bezerra Silva, 81 anos, na profiss\u00e3o desde os 22, lembra com pesar os muitos amigos \u201cde pra\u00e7a\u201d [ponto de t\u00e1xi] que perdeu em tentativas de rea\u00e7\u00e3o a assaltos. \u201cUm deles foi morto com a pr\u00f3pria arma. O ladr\u00e3o estava no banco de tr\u00e1s, anunciou o assalto, e ele tentou pegar o rev\u00f3lver. O assaltante tomou dele e o matou\u201d, recorda. Al\u00e9m disso, o taxista tamb\u00e9m lembra o fasc\u00ednio que as armas exerciam sobre os colegas: \u201cO sujeito ficava mostrando o rev\u00f3lver pra todo mundo na pra\u00e7a\u201d. Atualmente Natal\u00edcio \u00e9 presidente do Sindicato dos Taxistas Aut\u00f4nomos de S\u00e3o Paulo. \u201c\u00c0s vezes o cara matava algu\u00e9m por uma besteira. Se estiver sem arma e com paci\u00eancia, esfria a cabe\u00e7a e j\u00e1 era\u201d.<\/p>\n<p>A falta de controle e de cultura de auto-defesa, por\u00e9m, \u00e9 algo que tamb\u00e9m jogaria contra a tese do rearmamento da popula\u00e7\u00e3o. O caso do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/10\/28\/politica\/1509207896_681997.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">adolescente de Goi\u00e1s que<\/a>\u00a0matou dois colegas de classe h\u00e1 dez dias, ap\u00f3s carregar a arma dos pais policiais para a escola sem o conhecimento deles, mostra que a facilidade do acesso abre outros perigos. Neste final de semana, na cidade de Niter\u00f3i, na Grande Rio de Janeiro, o assunto tamb\u00e9m ganhou for\u00e7a. O prefeito Rodrigo Neves (PV) decidiu perguntar \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, por meio de um plebiscito, se a guarda municipal deveria andar armada para ampliar a seguran\u00e7a nas ruas.\u00a0 A ideia do prefeito era encontrar apoio para a medida, num momento de forte viol\u00eancia na capital do Estado. Mas o resultado da vota\u00e7\u00e3o frustrou Neves. Dos quase 19.000 eleitores que compareceram \u00e0s urnas, 70% foi contra o armamento da guarda municipal, contra 28,9% que votaram a favor da proposta. A elei\u00e7\u00e3o era facultativa, e contou com 5,1% das pessoas que poderiam votar no pleito.<\/p>\n<p>https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/10\/25\/politica\/1508939191_181548.html<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GIL ALESSI &#8211; Antes do Estatuto do Desarmamento taxas de homic\u00eddio cresciam de forma alarmante. 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