{"id":607,"date":"2016-06-17T15:11:44","date_gmt":"2016-06-17T18:11:44","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=607"},"modified":"2016-06-08T15:06:57","modified_gmt":"2016-06-08T18:06:57","slug":"sobre-meninos-e-monstros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/06\/17\/sobre-meninos-e-monstros\/","title":{"rendered":"Sobre meninos e monstros"},"content":{"rendered":"<p><strong>Matheus Pichonelli<\/strong> \u2014\u00a0O Brasil se assusta ao ver que tudo o que sempre ocorreu \u00e0s escondidas agora \u00e9 gravado e viralizado. Falta entender o que n\u00e3o est\u00e1 no v\u00eddeo<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"discreet\">Quando o crime \u00e9 comprovado, a loucura, sempre ela, \u00e9 a justificativa para a barb\u00e1rie, sempre ela, para justificar os crimes da civiliza\u00e7\u00e3o<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Uma amiga desapareceu ao fim do colegial. Tinha acabado de se tornar m\u00e3e. Nunca mais tivemos not\u00edcias dela.<\/p>\n<p>Duas amigas se mataram desde o fim da faculdade. Uma delas estudava comigo desde a segunda s\u00e9rie do fundamental. Era uma das jovens mais inteligentes da turma, mas poucos queriam saber disso &#8211; alta, loira, magra, foi a representante da escola num concurso de beleza durante a viagem de formatura.<\/p>\n<p>Perto dos 30, enforcou-se pouco depois de desmanchar o noivado. Os amigos dos amigos diziam, \u00e0 boca pequena, que a rela\u00e7\u00e3o havia desandado porque ela ficara <em>estranha<\/em> demais desde que o irm\u00e3o morrera, cerca de dois anos antes, num acidente de carro. Ela tinha depress\u00e3o.<\/p>\n<p>As trag\u00e9dias envolvendo nossas amigas s\u00e3o uma esp\u00e9cie de tabu em qualquer roda de conversa. De alguma forma, preferimos atribuir \u00e0 insanidade, ao desespero, ao ato incalcul\u00e1vel o que chamamos de absurdo ou loucura. &#8220;A vida segue&#8221;, diz a prud\u00eancia quando precisamos eliminar o sofrimento ou o entendimento &#8211; quase sempre consequ\u00eancia um do outro.<\/p>\n<p>Em nosso pr\u00e9dio, muitos casais tiveram filhos de uns tempos pra c\u00e1. Os homens, depois de cinco dias, voltamos aos trabalhos. As mulheres se encontram na \u00e1rea comum com seus carrinhos, trocam sorrisos, cumprimentos, as primeiras impress\u00f5es.<\/p>\n<p>A maioria tem olheiras, sorrisos cansados, suspiros. Muitas deixam para depois, ou para nunca mais, o retorno ao trabalho \u2013 e \u00e0 qualquer possibilidade de autorrealiza\u00e7\u00e3o fora dos afazeres do lar.<\/p>\n<p>Em casa, as perguntas chegam t\u00edmidas, discretas. &#8220;O que ele tem? Gripe?&#8221;. As exig\u00eancias s\u00e3o sempre direcionadas \u00e0 m\u00e3e. Inclusive o dever de sorrir. \u201cN\u00e3o \u00e9 m\u00e1gico?\u201d Com as lupas v\u00eam as dicas. Se faltou leite, faltou f\u00e9. Faltou amor. Faltou milho \u2013 a m\u00e3e e seu est\u00f4mago n\u00e3o suportam milho, pipoca, canjica e derivados, mas suportam menos a acusa\u00e7\u00e3o de neglig\u00eancia.<\/p>\n<p>O coitado vai ficar com o pai. A m\u00e3e \u2013 \u201c\u00e9 doida?\u201d \u2013 vai arejar as ideias com uma caminhada no parque. Volta mais cedo porque uns marmanjos a seguiram depois de oferecerem gracejos, ru\u00eddos e sons com a l\u00edngua. \u201cQuem mandou sair de casa?\u201d<\/p>\n<p>O pai, explicam os mais velhos, tem alguns genes mal desenvolvidos que inibem a sensibilidade ao choro, \u00e0 fome, \u00e0 sujeira. S\u00e3o, em compensa\u00e7\u00e3o, respons\u00e1veis por sair \u00e0 ca\u00e7a durante o dia para trazer a presa \u00e0 noite \u2013 \u00e0s vezes com o h\u00e1lito da embriaguez e da amargura por n\u00e3o ser mais o beb\u00ea da casa.<\/p>\n<p>Bons tempos aqueles &#8211; tudo em n\u00f3s, os meninos, era lindo. A barrigudinha. A flatul\u00eancia. O arroto \u00e0 mesa. O cabelo despenteado. A roupa suja. A cal\u00e7a do avesso &#8211; um charme. At\u00e9 a briga na sa\u00edda da escola. A resposta atravessada aos professores &#8211; \u00e9 da idade, \u00e9 da natureza, \u00e9 da rebeldia.<\/p>\n<p>Na brinquedoteca, as crian\u00e7as discutem. O mais novinho, desavisado das leis da natureza, pede para brincar de cozinha e toma um pescotapa do pai. Meninos, ensina o pai (e tamb\u00e9m os professores), gostam de aventura &#8211; de lama, de corre, de bola, de pol\u00edcia, de ladr\u00e3o. Meninas gostam de boneca, de panela e de vestido &#8211; <i>ai<\/i> se chegar em casa suja de lama, diz m\u00e3e natureza na voz dos pais.<\/p>\n<p>Gostam tamb\u00e9m dos contos de fadas. Vamos ler um? &#8220;A Princesa e a Ervilha&#8221;. O pr\u00edncipe queria se casar, mas n\u00e3o havia ningu\u00e9m no reino que fosse da sua estatura. Numa noite de muita chuva, uma princezinha bate \u00e0 porta do castelo e pede abrigo. A rainha desconfia: deve ser <i>golpe<\/i>.<\/p>\n<p>Coloca uma ervilha embaixo de uma sequ\u00eancia de colch\u00f5es na cama onde a jovem passar\u00e1 a noite. Se for uma princesa de verdade, pensa, ela vai se incomodar. Pois s\u00f3 uma princesa de verdade tem a pele sens\u00edvel o suficiente para perceber uma ervilha entre tantos colch\u00f5es. A princezinha passou no teste: reclamou, pela manh\u00e3, que dormiu como se estivesse deitada sobre pedras. Estava apta a se casar com o pr\u00edncipe.<\/p>\n<p>O castelo \u00e9 da princesa, e ele est\u00e1 repleto de revistas com dicas para ter o corpo perfeito, para agradar, para n\u00e3o envelhecer jamais. O mundo \u00e9 do pr\u00edncipe: ele est\u00e1 nos livros, nas arquibancadas, no esporte popular, nos festivais, nos filmes, nas chamadas dos sites porn\u00f4, nos shows, nas letras &#8211; &#8220;esse cara sou eu&#8221; diz a mel\u00f4 do <em>stalker<\/em> com selo de can\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica &#8211; nos p\u00f4steres, nas delegacias, nos cargos de comando, nas colunas de opini\u00e3o, no Congresso \u2013 generoso, faz as vezes de cabo eleitoral da filha e da conjugue e \u00e9 homenageado nas grandes vota\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Quem est\u00e1 ali sem licen\u00e7a de outro homem ouve nos corredores que s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 estuprada por que n\u00e3o merece. Quem est\u00e1 livre para dizer o que d\u00e1 na telha, porque desde cedo aprendeu de quem \u00e9 o mundo, pode homenagear inclusive torturador que violentava mulheres na ditadura. Azar de quem n\u00e3o leva na brincadeira.<\/p>\n<p>O estupro e a tortura t\u00eam algo de comum: o delinquente s\u00f3 reconhece a v\u00edtima como um corpo do qual se pode arrancar o que se quer sem reconhecer a sua dor, a sua vontade, a sua capacidade de sentir e pensar. Se ficasse em casa \u2013 em vez de contestar, em vez de lutar, em vez de existir \u2013 nada disso teria acontecido.<\/p>\n<p>A cada 11 minutos, um caso de estupro \u00e9 notificado no pa\u00eds, segundo o F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica. <a class=\"internal-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/www.cartacapital.com.br\/sociedade\/ping-ana-rita\" target=\"_self\">O n\u00famero \u00e9 subestimado<\/a> \u2013 boa parte das v\u00edtimas tem receio, medo ou vergonha de fazer a den\u00fancia.<\/p>\n<p>Muitos dos crimes acontecem dentro de casa e s\u00e3o praticados pelas pessoas mais pr\u00f3ximas \u2013 o vizinho, o tio, o pai, o marido. Muitas das v\u00edtimas s\u00e3o adolescentes. Quando decidem falar, passam por uma bateria de perguntas para provar que n\u00e3o se trata de um del\u00edrio \u2013 marmanjos do Congresso querem orientar a v\u00edtima a procurar a delegacia antes de buscar ajuda no hospital para que ningu\u00e9m saia por a\u00ed delirando dizendo em voz alta o que ningu\u00e9m, em consci\u00eancia, tem orgulho de relatar.<\/p>\n<p>Quando o crime \u00e9 comprovado, a loucura, sempre ela, \u00e9 a justificativa para a barb\u00e1rie, sempre ela, para justificar os crimes da civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nas rodas de conversa, os homens de fam\u00edlia, desconfiados das inten\u00e7\u00f5es de quem sai \u00e0s ruas em protesto contra a tal cultura do estupro \u2013 s\u00f3 podem ser partid\u00e1rios deste ou daquele governo; s\u00f3 podem estar tentando chamar a aten\u00e7\u00e3o; s\u00f3 podem estar levando algum \u2013 demonstram valentia para tratar dos criminosos. Pris\u00e3o perp\u00e9tua. Pena de morte. Estupro corretivo.<\/p>\n<p>No grupo de mensagens instant\u00e2neas, compartilham as ideias para salvar o mundo dos b\u00e1rbaros com as velhas piadas dos tempos do fund\u00e3o da sala. Compartilham tamb\u00e9m v\u00eddeos e coment\u00e1rios a respeito da novinha da vizinhan\u00e7a. Da <em>sweet child<\/em> da novela. A piada do humorista metido a militante. E do militante metido a humorista. O coment\u00e1rio pol\u00edtico segundo o qual a ideia de representatividade \u00e9 bobagem \u2013 o crit\u00e9rio deve ser a compet\u00eancia, e compet\u00eancia, ensinam os fil\u00f3sofos desde a Antiguidade, tem g\u00eanero.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o pode ter g\u00eanero \u00e9 a ideologia \u2013 j\u00e1 pensou o horror se os professores come\u00e7arem a dizer, em sala de aula, que meninas podem ter os mesmos direitos e anseios dos meninos? Que elas n\u00e3o est\u00e3o condenadas \u00e0 servid\u00e3o, ao confinamento do lar, \u00e0 obedi\u00eancia, aos cuidados com o vestido, com os cabelos ou com as ervilhas debaixo do colch\u00e3o? J\u00e1 imaginou se, em vez de transtornos, desenvolvem a autoestima em sala de aula? E as ferramentas para rebater quem tenta, de cima para baixo, referendar hierarquias desde o nascimento at\u00e9 o mercado de trabalho, passando pelas rela\u00e7\u00f5es afetivas e familiares?<\/p>\n<p>Melhor tirar o horror da vista. Chamar de barb\u00e1rie. Atribuir ao baile funk, \u00e0 favela, \u00e0 aus\u00eancia de valores desses pontos fora da curva que sa\u00edram da prote\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o por sua conta e risco.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas semanas, o Brasil se assustou ao saber que tudo aquilo que sempre ocorreu debaixo dos panos agora \u00e9 gravado, viralizado e exibido como trof\u00e9u. Falta entender o que n\u00e3o est\u00e1 no v\u00eddeo. O primeiro passo \u00e9 deixar de atribuir \u00e0 &#8220;loucura&#8221; tudo o que criamos e n\u00e3o ousamos reconhecer.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"jAKw8bA0ij\"><p><a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/sociedade\/sobre-meninos-e-monstros\/\">Sobre meninos e monstros<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Sobre meninos e monstros&#8221; &#8212; CartaCapital\" src=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/sociedade\/sobre-meninos-e-monstros\/embed\/#?secret=jAKw8bA0ij\" data-secret=\"jAKw8bA0ij\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Matheus Pichonelli \u2014\u00a0O Brasil se assusta ao ver que tudo o que sempre ocorreu \u00e0s escondidas agora \u00e9 gravado e viralizado. 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