{"id":6035,"date":"2017-11-21T12:28:18","date_gmt":"2017-11-21T14:28:18","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=6035"},"modified":"2017-11-19T13:32:13","modified_gmt":"2017-11-19T15:32:13","slug":"por-que-a-proxima-decada-pode-ver-o-surgimento-de-uma-nova-ordem%ef%bb%bf","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/11\/21\/por-que-a-proxima-decada-pode-ver-o-surgimento-de-uma-nova-ordem%ef%bb%bf\/","title":{"rendered":"Por que a pr\u00f3xima d\u00e9cada pode ver o surgimento de uma nova ordem?\ufeff"},"content":{"rendered":"<p><strong>Almir Felitte &#8211;\u00a0<\/strong>A hist\u00f3ria, certamente, n\u00e3o \u00e9 c\u00edclica. Embora acontecimentos hist\u00f3ricos distantes possam guardar alguma semelhan\u00e7a, cada \u00e9poca possui suas pr\u00f3prias caracter\u00edsticas espec\u00edficas. Assim, n\u00e3o estamos condenados a repetir indefinidamente erros antigos, tampouco temos o poder de prever os fatos futuros sem qualquer tipo de d\u00favida. Por\u00e9m, ao estudarmos o passado, \u00e9 poss\u00edvel analisar com maior clareza as possibilidades de consequ\u00eancias das decis\u00f5es que tomamos em nosso presente.<\/p>\n<p>E, no momento hist\u00f3rico em que vivemos, analisar o passado se faz mais necess\u00e1rio do que nunca. Isso porque o atual contexto guarda muitas semelhan\u00e7as com uma \u00e9poca de grandes mudan\u00e7as que ocorreu h\u00e1 quase um s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Este per\u00edodo \u00e9 o chamado \u201cEntreguerras\u201d, que se estende do fim da 1\u00aa Guerra Mundial, em 1918, ao come\u00e7o da 2\u00aa Grande Guerra, em 1939, passando pela Crise de 1929, um abalo econ\u00f4mico que mudou substancialmente as pol\u00edticas p\u00fablicas em todo o mundo.<\/p>\n<p>Antes dessa \u00e9poca, o epicentro ocidental vivia, ainda, as consequ\u00eancias das Revolu\u00e7\u00f5es Industriais, experimentando uma capacidade produtiva jamais vista na hist\u00f3ria da humanidade, turbinada pelas pol\u00edticas neocolonialistas na qual submeteu pa\u00edses da \u00c1frica e da \u00c1sia.<\/p>\n<p>Foi o per\u00edodo da Partilha Africana pelas pot\u00eancias europeias e da Belle \u00c9poque, uma era de alta produ\u00e7\u00e3o de riquezas e efervesc\u00eancia cultural para a Europa, mas tamb\u00e9m de agravamento das desigualdades sociais e regionais em todo o mundo. Foi, tamb\u00e9m, o in\u00edcio de um grande crescimento industrial nos EUA, que culminaria, pouco antes do in\u00edcio da 1\u00aa Guerra, no in\u00edcio do sistema fordista de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No Brasil, pass\u00e1vamos da Monarquia \u00e0 Rep\u00fablica, e v\u00edamos nascer uma falsa democracia onde oligarquias ligadas \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de caf\u00e9 e leite davam as cartas na pol\u00edtica do pa\u00eds. Abol\u00edamos a escravid\u00e3o sem, contudo, adotar pol\u00edticas que integrassem os negros a nossa economia. Ao mesmo tempo, uma fraca industrializa\u00e7\u00e3o dava in\u00edcio \u00e0 irrevers\u00edvel urbaniza\u00e7\u00e3o do Brasil, sobretudo em S\u00e3o Paulo. N\u00e3o tardariam a surgir, ent\u00e3o, os primeiros grandes focos de organiza\u00e7\u00e3o de trabalhadores brasileiros.<\/p>\n<p>Em suma, o mundo vivia um sistema de alta produtividade capitalista-liberal ao mesmo tempo em que caminhava para os \u00edndices mais altos de desigualdade que o s\u00e9culo XX experimentaria, como comprovado por Piketty em sua obra mais famosa. O surgimento de novas pot\u00eancias como Alemanha e It\u00e1lia, rec\u00e9m unificadas, e a disputa crescente por mercado levou ao choque inevit\u00e1vel dos imperialistas, que se materializaria na 1\u00aa Guerra Mundial.<\/p>\n<p>Aqui, Piketty lembra da profecia n\u00e3o concretizada de Marx, de que o ac\u00famulo infinito de capital fazia com que os capitalistas cavassem suas pr\u00f3prias covas. Fosse levando-os a guerras cujas vit\u00f3rias pudessem melhorar suas taxas de rendimento, como foi o caso da crise marroquina entre Fran\u00e7a e Alemanha no pr\u00e9-guerra, fosse pela press\u00e3o para que a classe trabalhadora aceitasse uma parcela cada vez menor da renda nacional, resultando em uma revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria.<\/p>\n<p>Se Marx acertou nas primeiras consequ\u00eancias nefastas do ac\u00famulo infinito de capital, errou (ao menos at\u00e9 hoje) em pensar que isto significaria o fim do capitalismo. \u00c9 certo que, nessa \u00e9poca, a revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria at\u00e9 aconteceu na R\u00fassia, pa\u00eds de industrializa\u00e7\u00e3o extremamente tardia se comparada a seus pares europeus. A situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica levou, tamb\u00e9m, \u00e0 1\u00aa Guerra Mundial. Mas o que parecia ser o fim inevit\u00e1vel do capitalismo acabou representando apenas uma grande adapta\u00e7\u00e3o do sistema para que ele sobrevivesse.<\/p>\n<p>A Guerra chegaria ao fim, em 1918, mas suas consequ\u00eancias econ\u00f4micas, somadas aos problemas sist\u00eamicos e c\u00edclicos do capitalismo liberal, estavam longe de serem superadas. Durante a d\u00e9cada de 20, os EUA passariam a dar sinais de uma crise de superprodu\u00e7\u00e3o que, aliada a uma especula\u00e7\u00e3o desenfreada, levaria \u00e0 ic\u00f4nica Quebra da Bolsa de Nova York, em 1929, gerando uma crise que duraria mais de uma d\u00e9cada para ser realmente vencida.<\/p>\n<p>A crise se espalharia pela Europa, tamb\u00e9m, que j\u00e1 vivia a sombra do fascismo na It\u00e1lia e veria crescer assustadoramente o nazismo alem\u00e3o, ambos amplificados por sentimentos revanchistas e nacionalistas da extrema-direita de pa\u00edses devastados pela \u00faltima guerra.<\/p>\n<p>Se \u00e9 verdade que o nazifascismo foi constru\u00eddo em cima do \u201cperigo vermelho\u201d e de um forte discurso anti-esquerdista, n\u00e3o se podem ignorar as cr\u00edticas que o movimento fazia \u00e0 forma liberal do capitalismo. N\u00e3o que Hitler e Mussolini fossem anticapitalistas, afinal, seus discursos negavam a luta de classes e n\u00e3o atacavam a propriedade privada, o Estado e o capital. Seus movimentos representaram uma sa\u00edda capitalista extremista \u00e0 crise liberal.<\/p>\n<p>No Brasil, as grandes greves de trabalhadores na d\u00e9cada de 10, a crescente organiza\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria e a crise do sistema cafeeiro se juntariam \u00e0 crise mundial para botar a elite do pa\u00eds em alerta. Tudo isso culminaria na Revolu\u00e7\u00e3o de 30 e no in\u00edcio da Era Vargas, marcada por uma forte interven\u00e7\u00e3o estatal na economia capitalista brasileira.<\/p>\n<p>Mas a resposta mais ic\u00f4nica \u00e0 crise viria justamente de seu epicentro. Nos EUA, ap\u00f3s alguns anos em profunda crise, a elei\u00e7\u00e3o de Roosevelt resultaria no New Deal, pol\u00edtica bastante influenciada pelas ideias de Keynes, com uma maior interven\u00e7\u00e3o estatal no jogo econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, j\u00e1 come\u00e7a a ser poss\u00edvel ver ao menos uma queda na desigualdade mundial. Na v\u00e9spera da crise de 29, o d\u00e9cimo superior (mais ricos) dos EUA tinham uma participa\u00e7\u00e3o de quase 50% na renda nacional. Logo ap\u00f3s a crise, esse \u00edndice se estabilizou perto dos 45%. S\u00f3 ap\u00f3s o in\u00edcio da 2\u00aa Guerra \u00e9 que ele cairia vertiginosamente, at\u00e9 abaixo dos 35%.<\/p>\n<p>Esses dados corroboram para a tese de Piketty de que n\u00e3o apenas a reforma no capitalismo foi importante para a queda das desigualdades no mundo. O economista franc\u00eas coloca as duas Grandes Guerras como eventos de import\u00e2ncia fundamental nesse movimento.<\/p>\n<p>Nessa linha, at\u00e9 1910 o capital privado na Alemanha superava a renda nacional em 600%, e, na Fran\u00e7a e no Reino Unido, em quase 700%. Ap\u00f3s a 1\u00aa Guerra, esses \u00edndices ca\u00edram abaixo de 500% para o Reino Unido e perto dos 300% para Fran\u00e7a e Alemanha. Depois da 2\u00aa Guerra, os n\u00fameros cairiam ainda mais.<\/p>\n<p>Piketty diz que a Guerra, ao destruir patrim\u00f4nios, atinge muito mais os mais velhos que, logicamente, acumularam riquezas durante mais tempo, do que os jovens, que t\u00eam bem menos a perder. Do mesmo modo pode agir uma crise. Por isso, \u00e9 preciso levar em conta que n\u00e3o s\u00f3 as interven\u00e7\u00f5es estatais foram as respons\u00e1veis pelo capitalismo p\u00f3s-liberal apresentar \u00edndices mais baixos de desigualdade. As duas Grandes Guerras e a crise de 29 tamb\u00e9m tiveram seu papel.<\/p>\n<p>Fato \u00e9 que o capitalismo mundial, no Entreguerras, passou por uma fase de transforma\u00e7\u00e3o, saindo de um longo per\u00edodo liberal para enfim encontrar alguma estabilidade ao fim da 2\u00aa Guerra Mundial, com o acordo de Bretton Woods, dando in\u00edcio ao sistema que Varoufakis chama de Plano Global.<\/p>\n<p>Assim, esta nova ordem surgia em um mundo bipolarizado entre o capitalismo americano e o comunismo sovi\u00e9tico. Do lado capitalista ocidentalizado, o Breton Woods lan\u00e7aria suas bases na preocupa\u00e7\u00e3o com a recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da Europa e do Jap\u00e3o, ambos devastados pela guerra, e na forma\u00e7\u00e3o de um sistema monet\u00e1rio. A cria\u00e7\u00e3o do FMI e do BIRD, a taxa cambial fixa, a dolariza\u00e7\u00e3o e o d\u00f3lar atrelado ao ouro marcariam essa nova pol\u00edtica econ\u00f4mica, baseada nas ideias do New Deal.<\/p>\n<p>O New Deal, ali\u00e1s, apesar de baseado em ideias keynesianas, apresentava algumas peculiaridades que tinham rela\u00e7\u00e3o com os interesses americanos. Keynes propunha que fossem impostos limites aos super\u00e1vits dos pa\u00edses. O Plano Global, por\u00e9m, contrariou esta ideia ao ter como pilar principal os grandes super\u00e1vits dos EUA, que se consolidaria como o grande exportador de bens para a Europa e para o Jap\u00e3o, retribuindo estes com o investimento de seus excedentes.<\/p>\n<p>Para isso, o Plano Marshall, que consistia em uma s\u00e9rie de medidas do governo americano para reerguer a Alemanha e o Jap\u00e3o, era essencial. \u00c9 um caso quase in\u00e9dito de um pa\u00eds vencedor auxiliando pa\u00edses derrotados como uma forma de manter seu poder hegem\u00f4nico. Para o Plano Global dos EUA funcionar, os derrotados Jap\u00e3o e Alemanha teriam que virar pot\u00eancias industriais para absorverem os excedentes americanos.<\/p>\n<p>O Estado de bem-estar social se consolida na Europa. Nos EUA, a \u201cNova Fronteira\u201d de Kennedy e a \u201cGrande Sociedade\u201d de Lyndon Johnson representavam grandes investimentos sociais que ajudariam a evitar um alto crescimento de desigualdade. Entre 1950 e 1970, o capital privado n\u00e3o ultrapassaria 300% da renda mundial, algo bastante inferior aos 500% que o mundo apresentava em 1910.<\/p>\n<p>Os 30 Gloriosos, como ficou conhecido esse per\u00edodo entre 45 e 75, pareciam demonstrar que o capitalismo conseguira se recuperar com sucesso da crise de 29 e de duas guerras mundiais e seguiria sem maiores abalos, apesar das desigualdades que lhe s\u00e3o inerentes. Mas os anos 70 trouxeram novas crises e o capitalismo, mais uma vez, se remodelaria.<\/p>\n<p>O alto super\u00e1vit da balan\u00e7a comercial americana, essencial para que o Plano Global funcionasse, deixa de existir quando os EUA se tornam deficit\u00e1rios. Os gastos sociais e a Guerra do Vietn\u00e3 endividam o pa\u00eds, levando uma crise de infla\u00e7\u00e3o ao resto do mundo. A crise do petr\u00f3leo e a desvaloriza\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar causam estagfla\u00e7\u00e3o na Europa. Era o fim do Plano Global.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, o capitalismo mundial volta a viver uma guinada liberal. O novo plano americano era que o mundo passasse a financiar seus d\u00e9ficits fiscal e comercial, invertendo o fluxo de capital que vigorava at\u00e9 ent\u00e3o. Os EUA come\u00e7am a importar de maneira desenfreada, recebendo, em troca, um alto fluxo de capital de todo o mundo para Wall Street. Era o in\u00edcio do sistema financeirizado que Varoufakis chama de Minotauro Global.<\/p>\n<p>O processo de (re)liberaliza\u00e7\u00e3o da economia mundial ganharia ainda mais for\u00e7a nos anos 80 com figuras como Reagan e Thatcher. A ideia econ\u00f4mica do \u2018thrickledown\u2019, a qual acredita que o ac\u00famulo de dinheiro pelos mais ricos escoa a riqueza para os mais pobres de forma mais r\u00e1pida que os impostos, ganha for\u00e7a.<\/p>\n<p>Como resultado desse processo de liberaliza\u00e7\u00e3o, a economia mundial se torna mais globalizada, o sistema privado financeiro ganha uma for\u00e7a extrema e os \u00edndices de desigualdade voltam a piorar. A rela\u00e7\u00e3o entre capital privado e renda mundial, que n\u00e3o ultrapassou os 300% durante os 30 Gloriosos, aumentaria, chegando a mais de 400% em 2010, perto dos 500% observados em 1910. Em pa\u00edses como Fran\u00e7a e Reino Unido, esse \u00edndice j\u00e1 superou os 500%. A distribui\u00e7\u00e3o desse capital privado, por\u00e9m, foi apenas piorando ao longo dos anos.<\/p>\n<p>O rendimento sobre o capital passava a aumentar de forma muito mais acelerada que o pr\u00f3prio crescimento econ\u00f4mico mundial. Nospa\u00edses mais ricos, a renda sobre o capital passou a representar cerca de 30% de toda a renda nacional, \u00edndice bem superior aos 20% observados em 1975, ao passo que a renda sobre o trabalho passou a ver sua participa\u00e7\u00e3o diminuir. Na Fran\u00e7a, a participa\u00e7\u00e3o dos alugueis na renda nacional subiria de cerca de 5% em 1970 para 10% em 2010.<\/p>\n<p>Em todo o mundo, a diferen\u00e7a entre os 10% superior da pir\u00e2mide social e o restante da popula\u00e7\u00e3o passa a aumentar. A financeiriza\u00e7\u00e3o da economia tinha levado a um sistema perverso em que a renda sobre capital, privil\u00e9gio daqueles que conseguem acumular riquezas, passava a ser cada vez mais lucrativa que a renda sobre o trabalho. Os que possu\u00edam dinheiro para investir no mercado financeiro ou em im\u00f3veis tinham um lucro cada vez maior do que aqueles que possu\u00edam apenas sua for\u00e7a de trabalho.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o foi ficando cada vez mais parecida com a do in\u00edcio do s\u00e9culo passado e alguns \u00edndices econ\u00f4micos come\u00e7aram a ficar cada vez mais pr\u00f3ximos do per\u00edodo pr\u00e9-crise de 29. No entanto, os altos lucros pareciam inebriar os agentes do mercado financeiro que, com pouca regula\u00e7\u00e3o estatal, ganhavam rios de dinheiro criando valores fict\u00edcios. Tudo parecia levar o mundo a viver um novo 1929.<\/p>\n<p>As crises c\u00edclicas do capitalismo liberal pareciam anunciar que o sistema n\u00e3o duraria muito tempo. E, em 2008, uma crise em escala global feriu de morte o sistema que Varoufakis deu o nome de Minotauro. A crise iniciada com a farra do mercado financeiro no setor imobili\u00e1rio americano revelaria o mar de lama em que estavam mergulhados banqueiros, pol\u00edticos e especuladores.<\/p>\n<p>A crise se agravaria ainda mais pelo fato de que mesmo ind\u00fastrias produtoras, empolgadas com os grandes lucros proporcionados pelo sistema financeiro, estavam apostando seu capital nos falsos valores criados pelos bancos. Quando o sistema colapsou, o efeito domin\u00f3 gerou uma crise de desemprego que, at\u00e9 agora, assola o mundo todo.<\/p>\n<p>Os EUA acabaram perdendo sua capacidade de importa\u00e7\u00e3o, o que fez com que seus d\u00e9ficits, essenciais para alimentarem o sistema do Minotauro Global, diminu\u00edssem pela metade. At\u00e9 hoje, os EUA ainda n\u00e3o conseguiram recuperar a balan\u00e7a comercial que apresentavam antes da crise.<\/p>\n<p>Mas, ao contr\u00e1rio de 1929, a Crise de 2008 n\u00e3o teve uma resposta t\u00e3o en\u00e9rgica nas grandes pot\u00eancias. O capital privado financeiro tinha se tornado um ator pol\u00edtico t\u00e3o forte que, mesmo sendo o causador da crise, conseguiu colocar os governos de joelhos para que fossem salvos com dinheiro p\u00fablico.<\/p>\n<p>Nos EUA, o Plano Geithner-Summers permitiu que bancos se salvassem sem sofrerem puni\u00e7\u00f5es, apostando em suas pr\u00f3prias CDO\u2019s (esp\u00e9cies de seguros apontados como causadores da crise). Na Europa, o Mecanismo Europeu de Estabilidade Financeira tamb\u00e9m criava mais capital privado a partir de dinheiro p\u00fablico.<\/p>\n<p>Esses resgates ao sistema financeiro acabaram gerando uma crise de d\u00edvida p\u00fablica na Europa que ainda parece longe de acabar. O Tratado de Maastricht, em 92, tinha estabelecido que os pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia deveriam manter suas d\u00edvidas p\u00fablicas sempre inferiores \u00e0 60% do PIB. A m\u00e9dia na UE, at\u00e9 antes da crise de 2008 j\u00e1 circulava por volta de 60%. Ap\u00f3s o colapso, essa\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.tradingeconomics.com\/european-union\/government-debt-to-gdp\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">taxa come\u00e7aria a crescer desenfreadamente<\/a>, chegando ao pico de 86,7% em 2015. Hoje ela \u00e9 de 83,5%.<\/p>\n<p>Nos pa\u00edses da zona do Euro, mais prejudicados pela rigidez da moeda,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.pordata.pt\/DB\/Europa\/Ambiente+de+Consulta\/Tabela\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">esse \u00edndice chegou a 91,8%<\/a>. Em alguns pa\u00edses como Gr\u00e9cia, Portugal, Espanha e It\u00e1lia esses n\u00fameros atingiram patamares alt\u00edssimos. A press\u00e3o do FMI e da UE para empurrar austeridade a esses pa\u00edses escancarou a falsa unidade do bloco europeu e as desigualdades regionais do continente. Mostrou, ainda, o papel dominador da Alemanha na Europa, que para Varoufakis, boicota pol\u00edticas de igualdade regional para manter sua hegemonia.<\/p>\n<p>Se a crise grega, nesse ponto, foi emblem\u00e1tica, em outros pa\u00edses a ortodoxia do FMI foi chutada para longe, junto com a austeridade. Pa\u00edses como Portugal e Isl\u00e2ndia conseguiram, atrav\u00e9s de grande ades\u00e3o popular, organizar uma sa\u00edda \u00e0 esquerda para a crise.<\/p>\n<p>Na Isl\u00e2ndia, ali\u00e1s, os bancos respons\u00e1veis pela quebra do pa\u00eds foram nacionalizados e o povo conseguiu aprovar uma nova Constitui\u00e7\u00e3o que, entre outros, criava maiores mecanismos de controle estatal ao capital privado financeiro e de participa\u00e7\u00e3o popular no processo legislativo. O caso island\u00eas foi, tamb\u00e9m, um dos poucos onde os respons\u00e1veis pela crise foram punidos e presos. Hoje, tanto Isl\u00e2ndia quanto Portugal ganham elogios t\u00edmidos e um sorriso amarelo da Alemanha e do FMI.<\/p>\n<p>Nos EUA, onde Obama havia aprovado uma j\u00e1 t\u00edmida forma de controle sobre Wall Street e n\u00e3o tinha poupado dinheiro p\u00fablico para resgatar as empresas americanas \u201ctoo big tofail\u201d, a recente elei\u00e7\u00e3o de Trump n\u00e3o tardou para derrubar o pouco que havia sido feito. Um dos primeiros atos do novo presidente foi, justamente, acabar com as amarras \u00e0 Wall Street.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, pa\u00edses em desenvolvimento e subdesenvolvidos, como o Brasil e outros latinos, experimentariam uma nova crise tardia a partir de 2013, quando, por consequ\u00eancia de 2008, o pre\u00e7o das commodities despencaria. A crise de desemprego chegaria, tamb\u00e9m, aqui no Brasil, com \u00edndices beirando os 14%.<\/p>\n<p>Mas por que, desta vez, a resposta dos governos, em geral, t\u00eam sido no sentido de tolher direitos populares e for\u00e7ar a austeridade? Por que, ao contr\u00e1rio da crises passadas, desta vez, os que est\u00e3o no poder querem manter-se l\u00e1 sem qualquer contrapartida ao povo?<\/p>\n<p>Wolfgang Streeck acredita que, agora, o capitalismo finalmente perdeu sua capacidade de \u2018comprar tempo\u2019. Ele afirma que, desde o fim do pacto social do p\u00f3s-guerra, com a onda liberal que se iniciou nos anos 70, o Estado perdeu sua legitimidade frente ao mercado financeiro. Assim, passou a ser um instrumento deste grande capital privado, atendendo a seus interesses, ao mesmo tempo em que cedia algumas pequenas reformas ao povo para aliviar as tens\u00f5es sociais. Era a chamada \u2018compra de tempo\u2019, adiando eternamente um levante popular que pusesse fim a esta ordem.<\/p>\n<p>Desse modo, o Estado usou o endividamento p\u00fablico para o financiamento de programas sociais durante os anos 80 e, a partir dos anos 90, passou a facilitar o endividamento familiar, aumentando o poder de compra das pessoas. Assim, a ordem neoliberal ia sobrevivendo apesar das corriqueiras crises.<\/p>\n<p>Para Streeck, por\u00e9m, esse processo foi distanciando cada vez mais os conceitos de capitalismo e democracia. E, em 2008, a crise global esgotou de vez a capacidade deste capitalismo de comprar tempo. N\u00e3o havendo mais uma forma de apaziguar as tens\u00f5es sociais, a ordem capitalista teria rompido de vez com o conceito de democracia e, por isso, a regra geral no p\u00f3s-crise seria o tolhimento de direitos e austeridade. Certamente, um reflexo de uma elite desesperada que j\u00e1 n\u00e3o v\u00ea mais outra sa\u00edda para se manter no poder que n\u00e3o seja a repress\u00e3o.<\/p>\n<p>O que o autor diz pode, claramente, ser visto na pr\u00e1tica. O exemplo da reforma trabalhista na Espanha \u00e9 emblem\u00e1tico. A reforma at\u00e9 diminui o desemprego no pa\u00eds, para 17%, algo ainda distante dos 9% anteriores \u00e0 crise. A\u00a0<a href=\"http:\/\/www.estoesmadridmadrid.com\/2016\/06\/08\/salarios-na-espanha\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">m\u00e9dia salarial espanhola<\/a>, por\u00e9m, sofreu uma grande queda no ano seguinte \u00e0 reforma e, pelo menos at\u00e9 2015, ainda n\u00e3o tinha se recuperado.<\/p>\n<p>Entre os jovens espanh\u00f3is, o desemprego chega \u00e0 40%. O sentimento generalizado de que as condi\u00e7\u00f5es de trabalho no pa\u00eds despencaram criaram uma multid\u00e3o de espanh\u00f3is que sa\u00edram do pa\u00eds em procura de emprego.<\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 outro caso emblem\u00e1tico dessa ruptura entre capitalismo e democracia. Se at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s viv\u00edamos uma explos\u00e3o de cr\u00e9dito popular, hoje experimentamos uma reforma trabalhista inspirada na espanhola, um teto de gastos p\u00fablicos que promete engessar qualquer desenvolvimento social e uma constante amea\u00e7a \u00e0 Previd\u00eancia, em um pa\u00eds que, a depender do bairro em que voc\u00ea mora, sua expectativa de vida n\u00e3o chega aos 60 anos.<\/p>\n<p>Se Streeck estiver certo, \u00e9 poss\u00edvel que a pr\u00f3xima d\u00e9cada vivencie uma grande transforma\u00e7\u00e3o social e o in\u00edcio de uma nova ordem. O estudo de Piketty corrobora para essa tese ao demonstrar que os n\u00edveis de desigualdade atuais est\u00e3o cada vez mais pr\u00f3ximos daqueles do in\u00edcio do s\u00e9culo passado. Varoufakis tamb\u00e9m vai nessa linha ao afirmar que a crise de 2008 foi, assim como a de 1929, uma crise com \u201cC\u201d mai\u00fasculo, ou seja, um abalo que p\u00f5e fim ao sistema vigente e leva \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de um novo.<\/p>\n<p>Certo \u00e9 que esse sistema capitalista neoliberal altamente financeirizado tem tentado, a todo custo se manter no poder, sem, contudo, conseguir produzir as poucas benfeitorias de que foi capaz anteriormente.<\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel, por\u00e9m, dizer o que poder\u00e1 vir depois do colapso total. O momento, agora, \u00e9 de multipolariza\u00e7\u00e3o das for\u00e7as. Na Europa, a extrema-direita come\u00e7a a dar as caras numa poss\u00edvel reedi\u00e7\u00e3o do fascismo. Ao mesmo tempo, os exemplos portugu\u00eas e island\u00eas e o crescimento de um candidato como M\u00e9lenchon na Fran\u00e7a mostram que a esquerda europeia tamb\u00e9m ganhou muita for\u00e7a no p\u00f3s-crise. \u00c0 esquerda e \u00e0 direita, todos parecem contestar os benef\u00edcios da Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n<p>Nos EUA, Trump venceu como um candidato antissistema, defendendo medidas protecionistas e o fim de acordos multilaterais, o que certamente poderia p\u00f4r fim no livre mercado t\u00e3o defendido pela ordem neoliberal. Do outro lado, a for\u00e7a do candidato Bernie Sanders, autodeclarado socialista, mostra que mesmo no Imp\u00e9rio Americano o atual sistema est\u00e1 em baixa.<\/p>\n<blockquote><p>J\u00e1 n\u00e3o t\u00e3o silenciosamente, a China parece crescer cada vez mais nas fraquezas dos EUA, ao mesmo tempo em que a R\u00fassia vai mostrando com cada vez menos vergonha seus interesses imperialistas.<\/p><\/blockquote>\n<p>Essa multipolariza\u00e7\u00e3o de poder parece precipitar a grande mudan\u00e7a que pode significar a pr\u00f3xima d\u00e9cada para o mundo, mas, como dito, suas consequ\u00eancias parecem, ainda, obscuras. O capitalismo pode apenas se reajeitar novamente, voltando a ideais keynesianos como se t\u00eam falado, ou, finalmente, inovando-se.<\/p>\n<p>Ou, talvez, Marx finalmente tenha sua teoria confirmada e os capitalistas enfim cavaram a sua pr\u00f3pria cova. O arrocho a que estamos sendo submetidos pode, sim, resultar em grandes levantes populares. De qualquer modo, ao contr\u00e1rio do que muitos j\u00e1 diziam desde os anos 90, a certeza \u00e9 de que a Hist\u00f3ria ainda n\u00e3o acabou.<\/p>\n<p>http:\/\/justificando.cartacapital.com.br\/2017\/11\/16\/por-que-proxima-decada-pode-ver-o-surgimento-de-uma-nova-ordem\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Almir Felitte &#8211;\u00a0A hist\u00f3ria, certamente, n\u00e3o \u00e9 c\u00edclica. Embora acontecimentos hist\u00f3ricos distantes possam guardar alguma semelhan\u00e7a, cada \u00e9poca possui suas pr\u00f3prias caracter\u00edsticas espec\u00edficas. Assim, n\u00e3o estamos condenados a repetir indefinidamente erros antigos, tampouco temos o poder de prever os fatos futuros sem qualquer tipo de d\u00favida. 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