{"id":6015,"date":"2017-11-19T12:03:09","date_gmt":"2017-11-19T14:03:09","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=6015"},"modified":"2017-11-17T11:07:16","modified_gmt":"2017-11-17T13:07:16","slug":"google-e-facebook-se-preocupam-apenas-com-os-proprios-interesses","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/11\/19\/google-e-facebook-se-preocupam-apenas-com-os-proprios-interesses\/","title":{"rendered":"Google e Facebook se preocupam apenas com os pr\u00f3prios interesses"},"content":{"rendered":"<p><b>NOAM COHEN &#8211;\u00a0<\/b>Autor afirma que gigantes digitais como Google e Facebook n\u00e3o merecem o benef\u00edcio da d\u00favida em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s situa\u00e7\u00f5es comprometedoras nas quais se envolveram. Ele sustenta a necessidade de romper o monop\u00f3lio dessas empresas, antes que elas consigam controlar \u2014e manipular\u2014 todos os setores da sociedade.<\/p>\n<p>H\u00e1 pouco mais de um m\u00eas, Mark Zuckerberg escreveu um breve texto no\u00a0<a href=\"http:\/\/m.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2017\/09\/1920816-cada-macaco-no-seu-galho---zuckerman.shtml?mobile\" data-href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2017\/09\/1920816-cada-macaco-no-seu-galho---zuckerman.shtml\">Facebook<\/a>, ao final do Yom Kippur, pedindo perd\u00e3o aos amigos n\u00e3o s\u00f3 por suas falhas pessoais mas tamb\u00e9m por suas falhas profissionais \u2013sobretudo &#8220;a maneira pela qual meu trabalho foi usado para dividir as pessoas, em lugar de uni-las&#8221;. Atendendo ao apelo do Dia do Perd\u00e3o judaico e refletindo sobre o ano que passa, ele prometia &#8220;trabalhar para fazer melhor&#8221;.<\/p>\n<div id=\"hidden-content\">\n<p>Uma declara\u00e7\u00e3o soturna e autocr\u00edtica como essa n\u00e3o \u00e9 t\u00edpica de Zuckerberg, um sujeito em geral ensolarado que certa vez exortou seus comandados no Facebook a &#8220;agir r\u00e1pido e quebrar coisas&#8221;.<\/p>\n<p>No passado, ser\u00e1 que Zuckerberg ou qualquer de seus pares teria sentido necessidade de pedir perd\u00e3o pelo que faz no trabalho? Por ter criado sites incrivelmente legais que conectam bilh\u00f5es de pessoas a seus amigos e ao imenso reposit\u00f3rio do conhecimento mundial sem nenhuma dificuldade?<\/p>\n<p>Ultimamente, por\u00e9m, tornou-se imposs\u00edvel ignorar os pecados da ruptura que o Vale do Sil\u00edcio lidera.<\/p>\n<p>O Facebook vem enfrentando constantes\u00a0<a href=\"http:\/\/m.folha.uol.com.br\/mundo\/2017\/11\/1932057-facebook-faz-mea-culpa-sobre-brecha-para-interferencia-russa-em-eleicao.shtml?mobile\" data-href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mundo\/2017\/11\/1932057-facebook-faz-mea-culpa-sobre-brecha-para-interferencia-russa-em-eleicao.shtml\">revela\u00e7\u00f5es negativas<\/a>\u00a0sobre o uso de sua plataforma por agentes russos, que promoveram o \u00f3dio racial com o objetivo de influenciar a elei\u00e7\u00e3o dos EUA em 2016.<\/p>\n<p>O Google teve papel semelhante ao direcionar mensagens inflamat\u00f3rias durante a elei\u00e7\u00e3o e, meses atr\u00e1s, pareceu fazer papel de vil\u00e3o quando um importante &#8220;think tank&#8221; progressista, o instituto New America, cortou la\u00e7os com um renomado estudioso que \u00e9 cr\u00edtico ao poder dos monop\u00f3lios digitais.<\/p>\n<p>Alguns integrantes da organiza\u00e7\u00e3o questionaram se o pesquisador teria sido dispensado num esfor\u00e7o para apaziguar o Google e o presidente de seu conselho, Eric Schmidt, ambos importantes doadores de verbas para a organiza\u00e7\u00e3o \u2013ainda que a presidente do New America e um representante do Google tenham negado qualquer rela\u00e7\u00e3o entre os fatos.<\/p>\n<p>Enquanto isso, a Amazon,\u00a0<a href=\"http:\/\/m.folha.uol.com.br\/mercado\/2017\/06\/1893416-amazon-anuncia-plano-de-compra-da-rede-whole-foods-por-us-137-bilhoes.shtml?mobile\" data-href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2017\/06\/1893416-amazon-anuncia-plano-de-compra-da-rede-whole-foods-por-us-137-bilhoes.shtml\">ao adquirir a cadeia de lojas de comida natural Whole Foods<\/a>\u00a0e construir lojas f\u00edsicas pr\u00f3prias, parece seguir uma estrat\u00e9gia espantosamente lucrativa de tentar alavancar o monop\u00f3lio que exerce online tamb\u00e9m offline.<\/p>\n<p><b>CONTRADI\u00c7\u00d5ES<\/b><\/p>\n<p>Essas amea\u00e7adoras reviravoltas v\u00eam causando inquieta\u00e7\u00e3o no p\u00fablico, contrariando tudo aquilo que o\u00a0<a href=\"http:\/\/m.folha.uol.com.br\/mercado\/2017\/10\/1929413-especialistas-em-inteligencia-artificial-faturam-milhoes-no-vale-do-silicio.shtml?mobile\" data-href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2017\/10\/1929413-especialistas-em-inteligencia-artificial-faturam-milhoes-no-vale-do-silicio.shtml\">Vale do Sil\u00edcio<\/a>\u00a0costumava pregar a seu pr\u00f3prio respeito.<\/p>\n<p>O Google, por exemplo, diz ser seu objetivo &#8220;organizar a informa\u00e7\u00e3o do mundo, tornando-a universalmente acess\u00edvel e \u00fatil&#8221; \u2014miss\u00e3o que poderia descrever tanto sua biblioteca local quanto uma megacorpora\u00e7\u00e3o. Em tom similar, o Facebook almeja &#8220;dar \u00e0s pessoas o poder de construir uma comunidade e aproximar o mundo&#8221;.<\/p>\n<p>At\u00e9 a Amazon olhou fora dos limites da empresa para realizar-se, buscando se tornar, nas palavras de seu fundador, Jeff Bezos, &#8220;a companhia mais obcecada com o consumidor que j\u00e1 existiu na Terra&#8221;.<\/p>\n<p>Praticamente desde que foi criada, a world wide web gerou ansiedade p\u00fablica \u2013seu computador se tornaria parte de uma rede sobre a qual voc\u00ea n\u00e3o teria controle e poderia enviar diversos tipos de v\u00edrus at\u00e9 voc\u00ea\u2013, mas ainda assim t\u00ednhamos a tend\u00eancia de dar a esses diligentes inovadores o benef\u00edcio da d\u00favida.<\/p>\n<p>Eles estavam do nosso lado tornando a rede segura e \u00fatil, o que tornou f\u00e1cil interpretar cada mau passo como um acidente infeliz no caminho da utopia digital, e n\u00e3o como um subterf\u00fagio cujo objetivo era garantir hegemonia global.<\/p>\n<p>Agora que Google, Facebook e Amazon se tornaram dominadores mundiais, as perguntas do momento s\u00e3o: pode o p\u00fablico ser convencido a ver o Vale do Sil\u00edcio como a m\u00e1quina de demoli\u00e7\u00e3o que ele de fato \u00e9? Ser\u00e1 que ainda dispomos das ferramentas regulat\u00f3rias e da coes\u00e3o social necess\u00e1rias para restringir esses monop\u00f3lios antes que eles destruam as funda\u00e7\u00f5es de nossa sociedade?<\/p>\n<p><b>GOOGLE<\/b><\/p>\n<p>At\u00e9 onde se sabe, todos esses programadores que viraram empreendedores acreditavam em suas nobres palavras e se mostraram, inicialmente, indiferentes sobre enriquecer com suas ideias.<\/p>\n<p>Um estudo acad\u00eamico publicado em 1998 por Sergey Brin e Larry Page, ent\u00e3o alunos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em ci\u00eancia da computa\u00e7\u00e3o na Universidade Stanford, enfatizava os benef\u00edcios sociais de seu novo servi\u00e7o de busca, o Google, que seria aberto ao escrut\u00ednio de outros pesquisadores e n\u00e3o teria a publicidade como for\u00e7a motriz.<\/p>\n<p>Era preciso assegurar ao p\u00fablico que as buscas seriam incorrupt\u00edveis, que ningu\u00e9m influenciaria as respostas de uma pesquisa no Google por motivos comerciais.<\/p>\n<p>Para ilustrar seu ponto, Brin e Page se vangloriavam da pureza dos resultados de uma busca sobre o termo &#8220;telefone celular&#8221;: uma das primeiras respostas levava a um estudo que alertava para os perigos de dirigir falando ao telefone.<\/p>\n<p>O prot\u00f3tipo do Google n\u00e3o tinha publicidade, mas e os demais, que tinham an\u00fancios? Brin e Page expressaram d\u00favidas: &#8220;Antecipamos que os servi\u00e7os de buscas bancados por publicidade apresentar\u00e3o resultados inerentemente distorcidos em favor dos anunciantes e contra as necessidades dos consumidores.&#8221;<\/p>\n<p>Era crucial que houvesse um &#8220;servi\u00e7o de busca competitivo que fosse transparente e estivesse no \u00e2mbito acad\u00eamico&#8221;, e o Google foi criado para ser a ferramenta de internet nessa torre de marfim.<\/p>\n<p>At\u00e9 que Brin e Page fossem varridos na onda de empreendedorismo generalizado em Stanford \u2014uma reuni\u00e3o com um professor os levou a uma reuni\u00e3o com um investidor, que lhes deu um cheque de US$ 100 mil antes mesmo que o Google se tornasse uma empresa.<\/p>\n<p>Em 1999, o Google anunciou uma rodada de capitaliza\u00e7\u00e3o por investidores de US$ 25 milh\u00f5es, insistindo que nada havia mudado. Quando rep\u00f3rteres perguntaram a Brin como o Google planejava ganhar dinheiro, ele respondeu que &#8220;a meta \u00e9 maximizar a experi\u00eancia de busca, n\u00e3o maximizar a receita com buscas&#8221;.<\/p>\n<p><b>FACEBOOK<\/b><\/p>\n<p>Mark Zuckerberg escolheu um caminho parecido nos prim\u00f3rdios do Facebook. Uma rede social era importante demais para ser maculada com com\u00e9rcio, ele disse ao jornal &#8220;Harvard Crimson&#8221; em 2004. &#8220;Claro, podemos ganhar muito dinheiro \u2013mas a meta n\u00e3o \u00e9 essa&#8221;, ele disse sobre sua rede social, ent\u00e3o ainda conhecida como thefacebook.com.<\/p>\n<p>&#8220;Qualquer pessoa de Harvard pode arranjar um emprego e ganhar muito dinheiro. Nem toda pessoa de Harvard \u00e9 capaz de ter uma rede social. Eu valorizo isso mais como recurso do que, tipo, qualquer dinheiro.&#8221;<\/p>\n<p>Zuckerberg insistiu que n\u00e3o cederia aos que buscam lucro, o Facebook se manteria fiel \u00e0 sua miss\u00e3o de conectar o mundo.<\/p>\n<p>Sete anos mais tarde, Zuckerberg tamb\u00e9m havia sucumbido ao capital de risco do Vale do Sil\u00edcio, mas parecia lamentar o fato.<\/p>\n<p>&#8220;Se eu estivesse come\u00e7ando hoje&#8221;, disse a um entrevistador em 2011, &#8220;acho que teria simplesmente continuado em Boston&#8221;. E acrescentou: &#8220;h\u00e1 aspectos da cultura aqui que eu acredito serem ainda imediatistas demais de uma maneira que me incomoda. Voc\u00ea sabe, seja por pessoas que querem come\u00e7ar uma empresa simplesmente por come\u00e7ar uma empresa, sem nem saber do que gostam, s\u00f3 para vend\u00ea-la&#8221;.<\/p>\n<p>Por fim, entretanto, os fundadores do Google e do Facebook tiveram de enfrentar os fatos. Os investidores n\u00e3o haviam se alistado por caridade e come\u00e7aram a exigir presta\u00e7\u00e3o de contas. No final, Brin e Page aceitaram, sob press\u00e3o, que publicidade fosse veiculada ao lado dos resultados de busca e tamb\u00e9m permitiram que um executivo de fora da empresa, Schmidt, fosse nomeado presidente-executivo.<\/p>\n<p>Zuckerberg concordou em veicular publicidade no feed de not\u00edcias do Facebook e transferiu um de seus programadores favoritos para a divis\u00e3o de publicidade em dispositivos m\u00f3veis, dizendo: &#8220;N\u00e3o seria divertido construir um neg\u00f3cio de US$ 1 bilh\u00e3o em seis meses?&#8221;<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que havia fortunas de bilh\u00f5es de d\u00f3lares a serem feitas pela explora\u00e7\u00e3o do nebuloso relacionamento entre o p\u00fablico e as empresas de tecnologia. Todos n\u00f3s sab\u00edamos que n\u00e3o existe almo\u00e7o gr\u00e1tis, uma sacada encapsulada de forma memor\u00e1vel em 2010 por um comentarista do site MetaFilter: &#8220;Se voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 pagando por algo, voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 cliente, voc\u00ea \u00e9 o produto que est\u00e1 sendo vendido&#8221;.<\/p>\n<p><b>CONFUS\u00d5ES<\/b><\/p>\n<p>Mas, de fato, como saber? Tanto do que est\u00e1 acontecendo entre o p\u00fablico e o Vale do Sil\u00edcio n\u00e3o \u00e9 vis\u00edvel \u2014estamos falando de algoritmos escritos e controlados por magos capazes de extrair valor da sua identidade de formas que voc\u00ea jamais seria capaz de fazer.<\/p>\n<p>Quando Brin, Page e Zuckerberg voltaram atr\u00e1s quanto \u00e0 busca de lucros, eles perceberam algo de estranho: o p\u00fablico parecia n\u00e3o se incomodar.<\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00ea sabe qual a rea\u00e7\u00e3o mais comum, honestamente?&#8221;, Brin disse em 2002 quando lhe perguntaram como o p\u00fablico reagia \u00e0 presen\u00e7a de publicidade no Google. &#8220;\u00c9: &#8216;que an\u00fancios?&#8217;. As pessoas ou n\u00e3o fizeram buscas que resultaram em an\u00fancios ou n\u00e3o perceberam sua presen\u00e7a. Uma terceira possibilidade \u00e9 que tenham visto an\u00fancios durante suas buscas, mas logo se esqueceram disso \u2014o que me parece o cen\u00e1rio mais prov\u00e1vel&#8221;.<\/p>\n<p>As intera\u00e7\u00f5es entre pessoas e seus computadores sempre estiveram destinadas a ser confusas e, para programadores, seria f\u00e1cil explorar essa confus\u00e3o.<\/p>\n<p>John McCarthy, pioneiro da ci\u00eancia da computa\u00e7\u00e3o que cultivou os primeiros hackers no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e depois gerenciou o laborat\u00f3rio de intelig\u00eancia artificial na Universidade Stanford, preocupava-se com o fato de os programadores n\u00e3o compreenderem suas responsabilidades.<\/p>\n<p>&#8220;Os computadores terminar\u00e3o com uma psicologia conveniente para os seus designers (e eles ser\u00e3o bastardos fascistas se os designers n\u00e3o pararem para pensar)&#8221;, ele escreveu em 1983.<\/p>\n<p>&#8220;Os criadores de programas t\u00eam a tend\u00eancia de pensar nos usu\u00e1rios como idiotas que precisam ser controlados. Mas na verdade deveriam pensar em seus programas como servos, cujo mestre, o usu\u00e1rio, deveria ser capaz de controlar.&#8221;<\/p>\n<p><b>IGNOR\u00c2NCIA<\/b><\/p>\n<p>Podemos definir o dilema como o &#8220;problema Eliza&#8221;. Em 1966, Joseph Weizenbaum, professor do MIT, revelou um programa de computador, o Eliza, que imitava o comportamento de um psicoterapeuta.<\/p>\n<p>O programa, seguindo um roteiro, interrogava o interlocutor sobre os seus sentimentos em rela\u00e7\u00e3o aos pais ou tentava estimul\u00e1-lo a reformular o que havia dito em forma de pergunta.<\/p>\n<p>O programa imediatamente tocou um nervo e se tornou uma esp\u00e9cie de fen\u00f4meno nacional, para surpresa de Weizenbaum. O jornal &#8220;The New York Times&#8221;, por exemplo, perdeu o f\u00f4lego: &#8220;Computador est\u00e1 sendo ensinado a falar ingl\u00eas&#8221;.<\/p>\n<p>Eliza n\u00e3o entendia nada, na verdade, e nunca seria capaz alcan\u00e7ar uma percep\u00e7\u00e3o compartilhada com um &#8220;paciente&#8221;. Eliza mecanicamente respondia o que quer que aparecesse em sua tela.<\/p>\n<p>Uma t\u00edpica sess\u00e3o de terapia logo se tornava um quadro de Monty Python. (Paciente: Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 muito agressiva, mas eu acho que voc\u00ea n\u00e3o quer que eu perceba isso. Eliza: O que te faz pensar que eu n\u00e3o sou muito agressiva? Paciente: Voc\u00ea n\u00e3o discute comigo. Eliza: Por que voc\u00ea acha que n\u00e3o discuto com voc\u00ea? Paciente: Voc\u00ea tem medo de mim. Eliza: Te d\u00e1 prazer acreditar que eu tenho medo de voc\u00ea?)<\/p>\n<p>Imagine a surpresa de Weizenbaum quando sua secret\u00e1ria interrompeu um di\u00e1logo com Eliza, olhou para ele e disse &#8220;Voc\u00ea se incomodaria de sair, por favor?&#8221;. Ela queria privacidade para conversar com a m\u00e1quina!<\/p>\n<p>Weizenbaum, chocado, percebeu o potencial de estrago por programadores que poderiam manipular os computadores e, potencialmente, todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>Ele, rapidamente, mudou de rumo e dedicou seus anos restantes a protestar contra o que considerava a imoralidade de seus colegas na ci\u00eancia da computa\u00e7\u00e3o, frequentemente se referindo \u00e0s suas experi\u00eancias como um jovem refugiado da Alemanha nazista.<\/p>\n<p><b>MANIPULA\u00c7\u00d5ES<\/b><\/p>\n<p>Em sua \u00e9pica obra anti-intelig\u00eancia artificial da metade dos anos 70, &#8220;Computer Power and Human Reason&#8221; (poder da computa\u00e7\u00e3o e raz\u00e3o humana), Weizenbaum descrevia o cen\u00e1rio dos laborat\u00f3rios de computa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Homens jovens e brilhantes de apar\u00eancia desmazelada, frequentemente com olhos afundados e brilhantes, podem ser vistos diante de seus consoles, bra\u00e7os tensos e dedos preparados para o ataque aos bot\u00f5es e teclas que parecem controlar sua aten\u00e7\u00e3o da mesma forma que dados controlam as aten\u00e7\u00f5es de apostadores ao serem rolados&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Eles existem, ao menos quando est\u00e3o t\u00e3o envolvidos, somente atrav\u00e9s e para os computadores. Eles s\u00e3o como parasitas de computadores, programadores compulsivos.&#8221;<\/p>\n<p>Weizenbaum se preocupava com eles enquanto jovens estudantes desprovidos de perspectiva sobre a vida e se inquietava com a possibilidade de que aquelas almas perturbadas se tornassem nossos novos l\u00edderes.<\/p>\n<p>Nem Weizenbaum e nem McCarthy mencionaram, embora fosse dif\u00edcil ignorar, que aquela gera\u00e7\u00e3o ascendente era quase toda formada por\u00a0<a href=\"http:\/\/m.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2017\/08\/1911832-demissao-de-engenheiro-do-google-expoe-tabu-na-discussao-sobre-genero.shtml?mobile\" data-href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2017\/08\/1911832-demissao-de-engenheiro-do-google-expoe-tabu-na-discussao-sobre-genero.shtml\">homens brancos<\/a>com forte prefer\u00eancia por pessoas como eles pr\u00f3prios. Em uma palavra: eles eram incorrig\u00edveis, acostumados com controle total do que aparecia em suas telas.<\/p>\n<p>&#8220;Nenhum dramaturgo, nenhum diretor de teatro, nenhum imperador, por mais poderoso que seja&#8221;, escreveu Weizenbaum, &#8220;jamais exerceu tamanha autoridade para organizar um palco ou um campo de batalha e comandou atores ou soldados t\u00e3o inflexivelmente obedientes.&#8221;<\/p>\n<p>Bem-vindo ao Vale do Sil\u00edcio em 2017.<\/p>\n<p>Como temia Weizenbaum, os atuais l\u00edderes da tecnologia descobriram que as pessoas confiam em seus computadores e ficam lambendo os bei\u00e7os diante das possibilidades.<\/p>\n<p>Os exemplos de manipula\u00e7\u00e3o pelo Vale do Sil\u00edcio s\u00e3o numerosos demais para listar: notifica\u00e7\u00f5es for\u00e7adas, pre\u00e7os de hor\u00e1rio de pico, recomenda\u00e7\u00f5es de poss\u00edveis amigos, sugest\u00f5es de filmes, pessoas que compraram isso tamb\u00e9m compraram aquilo.<\/p>\n<p>Bem cedo o Facebook percebeu que era dif\u00edcil convencer as pessoas a ficarem conectadas. &#8220;Chegamos a esse n\u00famero m\u00e1gico de que voc\u00ea precisava encontrar dez amigos&#8221;, lembrou Zuckerberg em 2011. &#8220;E uma vez que voc\u00ea tivesse dez amigos, haveria conte\u00fado suficiente em seu feed de not\u00edcias para que em intervalos razo\u00e1veis valesse a pena voltar para o site&#8221;.<\/p>\n<p>O Facebook projetaria seu site para novas chegadas de modo que tudo girasse em torno de encontrar pessoas para adicionar como amigos.<\/p>\n<p><b>EFEITO REDE<\/b><\/p>\n<p>A regra dos dez amigos \u00e9 exemplo de uma forma de manipula\u00e7\u00e3o muito querida das empresas de tecnologia, o efeito rede. Pessoas usar\u00e3o o seu servi\u00e7o \u2014por mais cretino que ele seja\u2014 se outros o usarem. Trata-se de um racioc\u00ednio tautol\u00f3gico que se provou verdadeiro: se todo mundo est\u00e1 no Facebook, ent\u00e3o todo mundo est\u00e1 no Facebook.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso fazer o que for preciso para que as pessoas continuem conectadas e, se rivais surgirem, eles devem ser esmagados ou, caso se provem persistentes, adquiridos.<\/p>\n<p>Crescimento se torna a motiva\u00e7\u00e3o suprema \u2014algo que \u00e9 apreciado em si e por si, e n\u00e3o por qualquer coisa que propicie ao mundo.<\/p>\n<p>Facebook e Google podem invocar uma utilidade maior que deriva de serem reposit\u00f3rios essenciais de todas as pessoas, toda a informa\u00e7\u00e3o, mas tamanho dom\u00ednio de mercado tem suas \u00f3bvias desvantagens, e n\u00e3o s\u00f3 a falta de concorr\u00eancia.<\/p>\n<p>Como temos visto, a extrema concentra\u00e7\u00e3o de riqueza e poder \u00e9 uma amea\u00e7a \u00e0 nossa democracia por eximir certas pessoas e empresas de responsabilidade.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de seu poder, as empresas de tecnologia t\u00eam uma ferramenta que as demais ind\u00fastrias poderosas n\u00e3o t\u00eam: o sentimento em geral benigno do p\u00fablico em rela\u00e7\u00e3o a elas.<\/p>\n<p>Quem se op\u00f5e ao Vale do Sil\u00edcio parece estar se opondo ao progresso, mesmo que o progresso na pr\u00e1tica possa ser definido como a cria\u00e7\u00e3o de monop\u00f3lios online, propaganda que distorce elei\u00e7\u00f5es, carros e caminh\u00f5es sem motorista que amea\u00e7am os empregos de milh\u00f5es de pessoas e a &#8220;uberiza\u00e7\u00e3o&#8221; da vida profissional, em que cada um de n\u00f3s deve lutar por si pr\u00f3prio num mercado impiedoso.<\/p>\n<p>Como est\u00e1 se tornando \u00f3bvio, essas empresas n\u00e3o merecem o benef\u00edcio da d\u00favida. Precisamos de maior regulamenta\u00e7\u00e3o, mesmo que isso dificulte a introdu\u00e7\u00e3o de novos servi\u00e7os.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o conseguirmos barrar suas propostas \u2014se n\u00e3o pudermos afirmar que carros sem motorista talvez n\u00e3o sejam um objetivo nobre, para dar apenas um exemplo\u2014, ser\u00e1 que ainda estamos no controle de nossa sociedade?<\/p>\n<p>Precisamos romper esses monop\u00f3lios online porque se algumas poucas pessoas tomam as decis\u00f5es sobre como nos comunicamos, compramos, recebemos not\u00edcias, de novo: ser\u00e1 que controlamos nossa sociedade?<\/p>\n<p>Por curiosidade, outro dia pesquisei &#8220;celulares&#8221; no Google. Antes de encontrar um artigo minimamente cr\u00edtico quanto a eles, tive que passar por an\u00fancios e listas de aparelhos \u00e0 venda, guias para compra e mapas com a localiza\u00e7\u00e3o de lojas, cerca de 20 resultados no total. Em algum lugar, uma dupla de antigos estudantes idealistas deve estar dizendo: &#8220;Est\u00e1 vendo! Eu n\u00e3o te disse?&#8221;.<\/p>\n<p>http:\/\/m.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2017\/11\/1932325-empresas-como-google-e-facebook-so-se-preocupam-consigo-nao-com-voce.shtml?utm_source=facebook&#038;utm_medium=social&#038;utm_campaign=compfb<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>NOAM COHEN &#8211;\u00a0Autor afirma que gigantes digitais como Google e Facebook n\u00e3o merecem o benef\u00edcio da d\u00favida em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s situa\u00e7\u00f5es comprometedoras nas quais se envolveram. Ele sustenta a necessidade de romper o monop\u00f3lio dessas empresas, antes que elas consigam controlar \u2014e manipular\u2014 todos os setores da sociedade. 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