{"id":5958,"date":"2017-11-14T15:56:13","date_gmt":"2017-11-14T17:56:13","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=5958"},"modified":"2017-11-13T13:58:16","modified_gmt":"2017-11-13T15:58:16","slug":"saude-gasto-a-ser-cortado%ef%bb%bf","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/11\/14\/saude-gasto-a-ser-cortado%ef%bb%bf\/","title":{"rendered":"Sa\u00fade, \u201cgasto\u201d a ser cortado?\ufeff"},"content":{"rendered":"<p><strong>Carlos Grabois Gadelha &#8211;\u00a0<\/strong>Pesquisador da Fiocruz aponta: o SUS n\u00e3o salva apenas vidas. Ele movimenta uma rede industrial e de servi\u00e7os que comp\u00f5e 10% do PIB, tem alto grau de sofistica\u00e7\u00e3o e chega at\u00e9 os pequenos munic\u00edpios. Vale a pena \u201cenxug\u00e1-la\u201d?<\/p>\n<p><em>O Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) representa um dos principais desafios da pol\u00edtica p\u00fablica brasileira. Desde a sua cria\u00e7\u00e3o, h\u00e1 29 anos, sofre com insufici\u00eancia de recursos financeiros, humanos e tecnol\u00f3gicos. Nos \u00faltimos anos, o que sempre foi conhecido por subfinanciamento da \u00e1rea de sa\u00fade tem evolu\u00eddo para um desfinanciamento que p\u00f5e em risco parte das conquistas e avan\u00e7os aportados \u00e0 sociedade brasileira. Um dos principais or\u00e7amentos dos governos federal, estaduais e municipais, os gastos com sa\u00fade s\u00e3o eleg\u00edveis aos cortes que gestores p\u00fablicos v\u00eam como \u00fanica alternativa para tirar o Brasil da situa\u00e7\u00e3o de crise.<\/em><\/p>\n<p><em>Na vis\u00e3o do economista e pesquisador da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz), Carlos Grabois Gadelha, o sistema de sa\u00fade brasileiro precisa ser visto como algo maior que sua capacidade de assist\u00eancia aos cidad\u00e3os. \u00c9 preciso um olhar diferente e integrado sobre o potencial da \u00e1rea da sa\u00fade para promover desenvolvimento e trazer qualidade de vida. Com atividades produtivas, tecnol\u00f3gicas, de pesquisa e de inova\u00e7\u00e3o que mobilizam 10% do PIB e empregam cerca de 12 milh\u00f5es de trabalhadores qualificados, a sa\u00fade no Brasil apresenta capacidade de gerar empregos e renda e carrega uma oportunidade \u00edmpar de investimentos em ci\u00eancia, tecnologia e inova\u00e7\u00e3o que podem ajudar o Brasil a acender a luz que guiar\u00e1 o pa\u00eds ao longo das pr\u00f3ximas d\u00e9cadas.<\/em><\/p>\n<p><em>E n\u00e3o \u00e9 apenas a sa\u00fade. Segundo Gadelha, a mobilidade urbana truncada, o desenvolvimento energ\u00e9tico e a garantia de seguran\u00e7a alimentar para a popula\u00e7\u00e3o brasileira comp\u00f5em alguns dos itens que devem ser abordados com uma vis\u00e3o integrada entre sistema produtivo e pol\u00edticas p\u00fablicas de melhoria da qualidade de vida. Esses setores, junto com o da sa\u00fade, podem ser a grande alavanca para tirar o Brasil da crise e ajudar a construir um novo modelo de desenvolvimento, que atenda as necessidades mais urgentes e complexas do pa\u00eds. Principalmente agora que os setores da constru\u00e7\u00e3o civil e de petr\u00f3leo e g\u00e1s est\u00e3o paralisados ou desmontados. Apesar de o pa\u00eds estar diante de um cen\u00e1rio econ\u00f4mico, social e pol\u00edtico incerto e com a pol\u00edtica de cortes vigendo, parece ut\u00f3pico pensar nessas alternativas. Mas conhecer as possibilidades \u00e9 fundamental para ajudar o pa\u00eds a pensar novos caminhos para o futuro.<\/em><\/p>\n<p><strong><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-530753 size-full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/171023-Gadelha-e1508794687455.jpg?resize=500%2C320\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" srcset=\"http:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/171023-Gadelha-e1508794687455-485x310.jpg 485w, http:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/171023-Gadelha-e1508794687455.jpg 500w\" alt=\"171023-Gadelha\" width=\"500\" height=\"320\" \/><\/strong><\/p>\n<p><strong>Quando se fala em Complexo Econ\u00f4mico e Industrial da Sa\u00fade (CEIS), do que exatamente estamos falando?<\/strong><\/p>\n<p>Essa no\u00e7\u00e3o do Complexo Econ\u00f4mico Industrial da Sa\u00fade foi desenvolvida no in\u00edcio dos anos 2000 a partir dos estudos de competitividade do Instituto de Economia da Unicamp e do Instituto de Economia da UFRJ. A proposta era dar um passo al\u00e9m das pol\u00edticas meramente setoriais para estabelecer pol\u00edticas e vis\u00f5es que tivessem uma articula\u00e7\u00e3o de grandes sistemas produtivos de inova\u00e7\u00e3o, e a sa\u00fade \u00e9 um grande sistema pol\u00edtico de inova\u00e7\u00e3o que depois foi assumido como prioridade na pol\u00edtica governamental.<\/p>\n<p>A sa\u00fade, ao mesmo tempo que constitui um direito b\u00e1sico de cidadania, uma conquista civilizat\u00f3ria que o Brasil teve e que culminou na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, tamb\u00e9m mobiliza um grande complexo produtivo de inova\u00e7\u00e3o, que \u00e9 dos mais importantes para o pa\u00eds. S\u00f3 para voc\u00ea ter alguma ordem de grandeza, se eu pensar a sa\u00fade como sistema integrado, produtivo e articulado, e n\u00e3o apenas como um fragmento de setores de medicamentos e de vacina, a sa\u00fade mobiliza 10% do PIB. Se eu pegar o PIB do ano passado, que est\u00e1 na faixa dos R$ 6 trilh\u00f5es, a sa\u00fade mobiliza cerca de R$ 600 bilh\u00f5es na economia brasileira. O peso da sa\u00fade \u00e9 maior que todo o peso da ind\u00fastria manufatureira no PIB.<\/p>\n<p>As atividades produtivas, tecnol\u00f3gicas, de pesquisa e de inova\u00e7\u00e3o em sa\u00fade mobilizam cerca de 12 milh\u00f5es de trabalhadores qualificados, ou seja, tem tudo a ver com a sociedade do conhecimento. Aqui no Brasil, 35% das pesquisas s\u00e3o feitas no campo da sa\u00fade ou de \u00e1reas muito pr\u00f3ximas, como das ci\u00eancias biol\u00f3gicas e biom\u00e9dicas.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fazer pol\u00edticas sociais e pol\u00edticas de desenvolvimento e de inova\u00e7\u00e3o de modo desarticulado\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Os economistas compartilham da ideia de que pol\u00edtica industrial \u00e9 importante, mas \u00e0s vezes se perde um pouco o elo de que a pol\u00edtica social e a infraestrutura produtiva e econ\u00f4mica s\u00e3o interdependentes. Se h\u00e1 setores que s\u00e3o mais intensivos em tecnologia, que t\u00eam maior capacidade de atender demandas sociais e que mobilizam empregos qualificados, a base econ\u00f4mica e tecnol\u00f3gica do pa\u00eds est\u00e1 associada a um certo modelo de sociedade.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, quando elegemos e selecionamos o complexo da sa\u00fade como uma grande aposta de longo prazo da pol\u00edtica nacional, a gente est\u00e1 simultaneamente atuando na dimens\u00e3o econ\u00f4mica da gera\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o, emprego, renda, inova\u00e7\u00e3o, e na dimens\u00e3o social. H\u00e1 uma grande aposta, uma grande perspectiva, de que n\u00f3s n\u00e3o podemos ter sistemas universais no campo da sa\u00fade, e isso vale tamb\u00e9m para educa\u00e7\u00e3o e para outras \u00e1reas. Mas se n\u00e3o tivermos um sistema produtivo forte que ancore as pol\u00edticas sociais, n\u00e3o h\u00e1 condi\u00e7\u00e3o de conformar o estado de bem-estar no Brasil.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a grande perspectiva e que foi assumida como pol\u00edtica p\u00fablica, causando verdadeira transforma\u00e7\u00e3o do ponto de vista dos instrumentos de pol\u00edtica p\u00fablica. A partir de 2008, quando foi lan\u00e7ada a pol\u00edtica de desenvolvimento produtivo (PDP), colocou-se o complexo industrial da sa\u00fade como uma das cinco prioridades da pol\u00edtica industrial brasileira. Com o apoio do BNDES, o primeiro objetivo foi reduzir a vulnerabilidade do SUS. De outro lado, o Mist\u00e9rio da Sa\u00fade criou uma pol\u00edtica de desenvolvimento produtivo para usar o poder de compra do Estado para internalizar a capacidade de produ\u00e7\u00e3o e de inova\u00e7\u00e3o no Brasil.<\/p>\n<p>Ou seja, uma clara articula\u00e7\u00e3o impens\u00e1vel nos anos 1970 e 1980, quando se falava que a melhor pol\u00edtica industrial era n\u00e3o ter uma pol\u00edtica industrial. A retomada da pol\u00edtica industrial toma o campo da sa\u00fade como um campo de intera\u00e7\u00e3o. Institui\u00e7\u00f5es de desenvolvimento econ\u00f4mico, como o BNDES, e institui\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas de desenvolvimento social, como o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, come\u00e7am a dialogar e a fazer pol\u00edticas articuladas. O Minist\u00e9rio da Sa\u00fade usando seu poder de compra e o BNDES financiando projetos industriais e de inova\u00e7\u00e3o no Brasil.<\/p>\n<p><strong>A l\u00f3gica de um sistema e n\u00e3o de um setor\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Na verdade, quando voc\u00ea faz qualquer programa, por exemplo, um programa de aten\u00e7\u00e3o em c\u00e2ncer, simultaneamente mobilizam-se equipamentos de radioterapia, produtos farmac\u00eauticos biotecnol\u00f3gicos e atua-se na ponta, com hospitais que t\u00eam que ter alta complexidade de conhecimento e tecnologia tanto para o tratamento em c\u00e2ncer quanto para as pesquisas cl\u00ednicas em c\u00e2ncer. Eu peguei o exemplo do c\u00e2ncer, mas podia ser de uma vacina contra dengue. Trabalha-se no desenvolvimento da vacina, no diagn\u00f3stico, em materiais que possam ser usados no controle da dengue, trabalha-se no controle de vetores e mosquitos e \u00e9 preciso mobilizar os servi\u00e7os em sa\u00fade para disseminar os produtos, as tecnologias e os conhecimentos, inclusive na \u00e1rea de saneamento que tem a ver com a dengue. Ent\u00e3o, quando eu trabalho por problema eu n\u00e3o posso ser setorial. A sa\u00fade \u00e9 o problema e n\u00e3o, individualmente, os setores que a comp\u00f5e. Isso \u00e9 uma reflex\u00e3o. Em vez de o problema ser a ind\u00fastria farmac\u00eautica (<em>como \u00e9 que eu produzo cada vez mais medicamento?<\/em>), meu problema \u00e9 a sa\u00fade. Talvez para algumas doen\u00e7as ou algumas quest\u00f5es de sa\u00fade p\u00fablica a abordagem n\u00e3o seja mais medicamento e sim saneamento, ou ter vacinas que v\u00e3o prescindir de medicamentos.<\/p>\n<p>\u00c9 o mesmo que, em vez de eu fazer pol\u00edtica automobil\u00edstica, fazer pol\u00edtica para a mobilidade. Ou nosso objetivo \u00e9 ter cada vez mais cidades mais entupidas de carro? E, ao mesmo tempo, quando tenho pol\u00edtica de mobilidade eu estou abrindo oportunidades de investimento, de gera\u00e7\u00e3o de renda e emprego, de oportunidade de lucro, mas pautado numa dimens\u00e3o social do padr\u00e3o de desenvolvimento. No campo da energia poderia dizer: se eu estou mudando a minha matriz energ\u00e9tica para uma matriz de energia limpa, por exemplo, energia solar e energia e\u00f3lica, estou abrindo oportunidade de investimento, mas estou pensando numa sociedade que tem de ser mais ambientalmente sustent\u00e1vel e com melhor qualidade de vida.<\/p>\n<p><strong>Isso n\u00e3o se faz sem Estado forte e planejamento de longo prazo\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Se eu pensar em Coreia, Jap\u00e3o, Alemanha, EUA, China, todos tiveram uma participa\u00e7\u00e3o ativa do Estado e uma articula\u00e7\u00e3o virtuosa entre Estado e setor privado. No Brasil s\u00f3 come\u00e7amos e estamos engatinhando. Ent\u00e3o, isso come\u00e7a a partir dos anos 2000. Essas pol\u00edticas s\u00e3o pol\u00edticas para 20 ou 30 anos ou \u00e9 melhor nem fazer. Porque s\u00e3o pol\u00edticas estruturantes sobre o sistema produtivo. A nossa capacidade de inova\u00e7\u00e3o, a capacidade de desenvolver tecnologias de fronteira, a capacidade de articular o sistema industrial com o sistema de servi\u00e7o, todas s\u00e3o apostas que est\u00e3o no est\u00e1gio inicial. Longe de ter conclu\u00eddo o trabalho. O trabalho foi apenas iniciado e demanda, sim, um aprofundamento dessas pol\u00edticas.<\/p>\n<p><strong>O senhor disse que n\u00e3o d\u00e1 para garantir um direito universal se n\u00e3o houver um sistema produtivo forte. Como essas pol\u00edticas industriais e de inova\u00e7\u00e3o podem ajudar a dar sustenta\u00e7\u00e3o ao SUS?<\/strong><\/p>\n<p>Eu acho que existe hoje uma vis\u00e3o mesquinha e med\u00edocre do ajustamento recessivo. Temos baixo grau de crescimento, finan\u00e7as p\u00fablicas quebradas e estamos entrando no c\u00edrculo vicioso, e n\u00e3o virtuoso, de corte nos gastos sociais e nos direitos. Um olhar mesquinho sobre o desenvolvimento em que, para obter o ajuste, eu limito e corto os gastos sociais e as condi\u00e7\u00f5es de bem-estar da popula\u00e7\u00e3o. Ao inv\u00e9s de isso permitir que eu saia da crise, isso aprofunda a crise.<\/p>\n<p>Ou seja, o sistema de bem-estar social \u00e9 um multiplicador de renda que se aproxima de dois, ou seja, cada gasto social gera o dobro de renda e emprego. Mas se eu pegar a dimens\u00e3o tecnol\u00f3gica, a sa\u00fade e a educa\u00e7\u00e3o, o sistema de bem-estar social representa 50% da capacidade de inova\u00e7\u00e3o e de pesquisa do pa\u00eds. Quer dizer, se olharmos o gasto social com esses \u00f3culos eu saio da vis\u00e3o m\u00edope de ver isso apenas como gasto.<\/p>\n<p>Quando falo de gasto estou falando em uma popula\u00e7\u00e3o mais saud\u00e1vel. Estamos falando em gastos que v\u00e3o gerar empregos de alta qualidade, s\u00e3o empregos formais. Dos setores que mais empregam trabalho formal no pa\u00eds, um \u00e9 a \u00e1rea de sa\u00fade. E ao mesmo tempo estou falando de abrir mercados para toda a pesquisa brasileira, ou seja, 35% da pesquisa brasileira ficam sem mercado. Isso n\u00e3o faz sentido algum! \u00c9 desperdi\u00e7ar uma oportunidade hist\u00f3rica, porque temos o Sistema \u00danico de Sa\u00fade e temos uma base de pesquisa e um olhar med\u00edocre sobre as possibilidades dessa pol\u00edtica para alavancar o desenvolvimento.<\/p>\n<p>Na verdade, temos dois modelos de ajuste: um que crescentemente vai-se cortando mais e mais e vai-se quebrando os horizontes de crescimento futuro; e outro, um modelo virtuoso, em que voc\u00ea pode tratar o sistema de bem-estar social, mais do que apenas a sa\u00fade, como alavanca que gera inova\u00e7\u00e3o, imposto, emprego e renda. Um pa\u00eds s\u00f3 atinge as condi\u00e7\u00f5es de ser mais equ\u00e2nime e mais desenvolvido se tem uma base produtiva qualificada e diversificada. O pa\u00eds que tem uma base produtiva pobre, baseada em produtos prim\u00e1rios exportadores, \u00e9 um pa\u00eds que ter\u00e1 uma p\u00e9ssima distribui\u00e7\u00e3o de renda e n\u00e3o ter\u00e1 um estado social.<\/p>\n<p><strong>Estamos mergulhados em crises, sem alternativas nem perspectivas interessantes. Que modelo de pa\u00eds \u00e9 preciso para fazer avan\u00e7ar essa perspectiva?<\/strong><\/p>\n<p>Esse \u00e9 o centro da quest\u00e3o. Eu acho que preside qualquer discuss\u00e3o sobre ajuste macroecon\u00f4mico, sobre gasto social, sobre pol\u00edtica de ci\u00eancia e tecnologia. \u00c9 uma premissa que a gente coloque na mesa qual \u00e9 o modelo de sociedade pretendido pelos brasileiros.<\/p>\n<p>O Brasil soube, em momentos graves de crise, como foram os anos 1930 e os anos 1950, que n\u00e3o podemos entrar na depress\u00e3o econ\u00f4mica, porque isto \u00e9 ficarmos passivos frente \u00e0 crise, e \u00e9 momento de formula\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica de projetos de desenvolvimento. Ent\u00e3o, temos como modelo de sociedade um pa\u00eds que seja justo, inclusivo.<\/p>\n<p>A Europa monta seu Estado de bem-estar no p\u00f3s-guerra, depois da experi\u00eancia terr\u00edvel da barb\u00e1rie nazista, quando se falou: \u201colha, n\u00f3s temos que ter uma sociedade pautada por princ\u00edpios gerais que est\u00e3o na Declara\u00e7\u00e3o dos Direitos Humanos, orientada por princ\u00edpios gerais de cidadania, de direitos, de direitos sociais como premissa\u201d. O modelo de sociedade e os direitos sociais devem presidir todas as pol\u00edticas p\u00fablicas, inclusive as pol\u00edticas industrial e tecnol\u00f3gica. A conforma\u00e7\u00e3o e a organiza\u00e7\u00e3o do Estado na \u00e1rea de desenvolvimento industrial e tecnol\u00f3gica devem ser pautadas pelos grandes desafios sociais. Ent\u00e3o, em vez de ser pol\u00edtica industrial automobil\u00edstica, \u00e9 pol\u00edtica industrial de inova\u00e7\u00e3o para mobilidade. Em vez de ser pol\u00edtica industrial para farmac\u00eautica, \u00e9 pol\u00edtica industrial de inova\u00e7\u00e3o para a sa\u00fade. Em vez de ser pol\u00edtica industrial para petr\u00f3leo e g\u00e1s, \u00e9 pol\u00edtica industrial para matriz energ\u00e9tica do futuro, que inclui petr\u00f3leo e g\u00e1s, mas tamb\u00e9m as demais v\u00e1rias matrizes energ\u00e9ticas. Em vez de eu ter uma pol\u00edtica espec\u00edfica, por exemplo, de infraestrutura urbana, eu tenho que criar pol\u00edticas com cidades saud\u00e1veis e cidades inteligentes em uma agenda de desenvolvimento e inclus\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 ter cidades inteligentes em alguns bairros cercados por favelas que n\u00e3o t\u00eam acesso sequer a condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de saneamento. A pol\u00edtica para agroind\u00fastria, \u00e9 pol\u00edtica para alimentos, que envolvem aspectos de seguran\u00e7a alimentar. As demandas e os desafios desta sociedade t\u00eam que anteceder a pol\u00edtica industrial e a pol\u00edtica de inova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Todo o sistema de ci\u00eancia e tecnologia montado depois dos anos 1950 \u00e9 forte no Brasil. Alguns sistemas de bem-estar t\u00eam muitas falhas, mas como o SUS foram constitu\u00eddos nesse Brasil e s\u00e3o patrim\u00f4nios do povo brasileiro. S\u00f3 que tudo isso est\u00e1 em pleno processo de constru\u00e7\u00e3o. Enquanto nos pa\u00edses europeus foi preciso uma guerra que matou 50 milh\u00f5es de pessoas para se criar o estado de bem-estar, e isso foi constru\u00eddo nos 30 anos seguintes \u00e0 Segunda Guerra Mundial, a gente corre o risco de matar o nosso incipiente sistema de bem-estar no momento que precis\u00e1vamos avan\u00e7ar incorporando a dimens\u00e3o tecnol\u00f3gica e industrial. N\u00e3o podemos tratar a pol\u00edtica social como pol\u00edtica compensat\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>Quem hoje representa e faz esse debate com essa clareza no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p>Temos que retornar \u00e0s energias ut\u00f3picas. Nos anos 1980 falava-se em energias ut\u00f3picas, a utopia n\u00e3o \u00e9 algo descolado da realidade. Hoje temos uma desmobiliza\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira porque estamos sem projeto de futuro.<\/p>\n<p>Temos uma s\u00e9rie de institui\u00e7\u00f5es, e o pr\u00f3prio sistema universit\u00e1rio, que est\u00e1 sendo tensionado a mostrar respostas para a sociedade. Eu participo da principal institui\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia e tecnologia em sa\u00fade do Brasil, a Fiocruz. Ao mesmo tempo que \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o essencial para a forma\u00e7\u00e3o do SUS, \u00e9 a maior institui\u00e7\u00e3o de biotecnologia do pa\u00eds e \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o do SUS.<\/p>\n<p>Se dissermos na rua \u201c<em>olha, eu tenho tecnologia para viabilizar o acesso p\u00fablico, para reduzir a dengue, ou para prevenir e tratar o c\u00e2ncer\u201d<\/em>, eu garanto que o apoio social vir\u00e1 com grande \u00eanfase. Mas se dissermos que o sistema tecnol\u00f3gico est\u00e1 apenas a servi\u00e7o da competitividade, isso n\u00e3o tem apelo social nenhum.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m temos que estabelecer o di\u00e1logo com a pol\u00edtica e com a sociedade, colocando a agenda do desenvolvimento a servi\u00e7o da agenda social. Eu duvido que a quest\u00e3o da mobilidade urbana e das tecnologias da mobilidade n\u00e3o se tornem prioridade se a gente souber esclarecer a popula\u00e7\u00e3o devidamente. Hoje um trabalhador leva cinco horas do seu dia de trabalho para chegar ao trabalho e voltar para casa em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias de transporte e de seguran\u00e7a e de viol\u00eancia. H\u00e1 uma falta de entendimento e clareza dos formuladores de pol\u00edticas p\u00fablicas e da nossa pr\u00f3pria intelectualidade em estabelecer esse di\u00e1logo. A popula\u00e7\u00e3o sabe onde o sapato aperta. Se voc\u00ea falar de mobilidade, do custo da energia para as fam\u00edlias, se voc\u00ea falar de alimentos, se voc\u00ea falar de sa\u00fade, as pessoas entendem. Agora se falar os termos t\u00e9cnicos, que atendam apenas \u00e0 l\u00f3gica da competitividade e do desenvolvimento de algumas empresas, as pessoas n\u00e3o v\u00e3o querem entender, e com muita raz\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 \u00f3bvio que estamos em um per\u00edodo triste do pa\u00eds, mas temos que sair dessa tristeza para reavivar um di\u00e1logo com a sociedade, em que pol\u00edtica de desenvolvimento comece a ter uma interlocu\u00e7\u00e3o com os problemas reais das pessoas. N\u00f3s somos um dos pa\u00edses mais desiguais do mundo, do ponto de vista da distribui\u00e7\u00e3o de renda e do ponto de vista regional. Por exemplo, o desenvolvimento regional brasileiro, ou a desigualdade regional, n\u00e3o ocorre apenas entre as macrorregi\u00f5es.<\/p>\n<p>Dentro do Amazonas, 90% do PIB est\u00e1 na regi\u00e3o metropolitana de Manaus. Isto \u00e9 um grande problema? Sim, \u00e9 um grande problema, mas tamb\u00e9m uma grande oportunidade. Um estado com aquela biodiversidade \u00e9 capaz de criar um projeto de desenvolvimento que n\u00e3o seja t\u00e3o concentrado numa regi\u00e3o metropolitana. Isso vale para diversas regi\u00f5es do pa\u00eds. Se eu pego S\u00e3o Paulo, tem o Vale da Ribeira. Se eu pego Minas Gerais tem o Vale do Jequitinhonha. Na verdade, \u00e9 preciso fazer uma invers\u00e3o nessa perspectiva que eu chamo de med\u00edocre e m\u00edope, que v\u00ea o brasileiro como problema quando na verdade deveria ser visto como oportunidade de expans\u00e3o. Rigorosamente, inova\u00e7\u00e3o s\u00e3o novos campos de oportunidade de investimento. Quando se abrem novos espa\u00e7os econ\u00f4micos, se faz inova\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso produzir em territ\u00f3rios onde n\u00e3o h\u00e1 uma capacidade produtiva e uma popula\u00e7\u00e3o exclu\u00edda.<\/p>\n<p>Temos que oferecer ao cidad\u00e3o brasileiro uma proposta que atenda as suas necessidades. N\u00e3o \u00e9 uma proposta de distribui\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria e da escassez, \u00e9 uma proposta que aponta para um horizonte din\u00e2mico de futuro.<\/p>\n<p><strong>Como est\u00e3o estruturadas as pol\u00edticas de desenvolvimento no Brasil? Existe alguma articula\u00e7\u00e3o em curso ou estamos \u00e0 deriva?<\/strong><\/p>\n<p>Considero que n\u00f3s estamos em um momento de risco. Como eu disse, o que foi feito no per\u00edodo recente tem que ser visto como iniciativa incipiente de colocar a dimens\u00e3o social e a dimens\u00e3o industrial e tecnol\u00f3gica na prioridade da agenda, mas longe de ter consolidado isto para o futuro. A nossa tarefa seria essa agora. A gente est\u00e1 no meio da crise e a capacidade de articula\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es e do pr\u00f3prio Estado, inclusive com o setor privado em torno de um projeto, est\u00e1 fragilizada. Existe uma base produtiva de inova\u00e7\u00e3o e de bem-estar que precisa ser articulada. Mas estamos em um momento de crise e de ataque aos tr\u00eas pilares de um novo projeto de desenvolvimento, o pilar da produ\u00e7\u00e3o, o pilar da inova\u00e7\u00e3o e o pilar do bem-estar.<\/p>\n<p>Quando temos o or\u00e7amento de ci\u00eancia e tecnologia reduzido pela metade, um horizonte de congelamento dos gastos sociais por 20 anos e uma desqualifica\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica industrial percebemos que est\u00e3o sob ataque os tr\u00eas pilares centrais de uma estrat\u00e9gia central de desenvolvimento.<\/p>\n<p>Estamos num ponto de inflex\u00e3o. E a\u00ed eu acho que a hist\u00f3ria tem muito de reversibilidade. No momento que estamos entrando na quarta revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, na interconectividade, no uso da\u00a0<em>big size<\/em>, no grande uso de dados, no\u00a0<em>big data<\/em>, tudo isso impacta na \u00e1rea social, na educa\u00e7\u00e3o. A sa\u00fade p\u00fablica do futuro vai ser baseada no\u00a0<em>big data<\/em>, na interconectividade, nas tecnologias de informa\u00e7\u00e3o que permitem organizar um sistema universal de sa\u00fade. Ou seja, no momento em que alguns pa\u00edses entram na revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, se a gente ficar estagnado talvez percamos uma janela hist\u00f3rica na oportunidade do desenvolvimento. Acredito que ou entramos na quarta revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica em curso, ou correremos o risco de ficar, definitivamente, na armadilha do subdesenvolvimento, sendo apenas mercado consumidor de produtos, servi\u00e7os e tecnologias gerados em poucos pa\u00edses desenvolvidos.<\/p>\n<p><strong>Nessa discuss\u00e3o de bem estar, cidadania e desenvolvimento, como tem aparecido a quest\u00e3o do enfrentamento das desigualdades regionais? O planejamento regional est\u00e1 contemplado nessa discuss\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, existem algumas ideias importantes nisso. Primeiro, o desenvolvimento regional, mais uma vez, abre espa\u00e7o de crescimento. Num per\u00edodo recente, os estados da regi\u00e3o Nordeste foram os que tiveram melhor desempenho da economia brasileira. Ent\u00e3o, acho que do ponto de vista global vale para dentro do Brasil. Isso \u00e9 outro esfor\u00e7o que os intelectuais devem fazer, ou seja, se a gente quer fazer desenvolvimento regional para valer, a sociedade do conhecimento, as novas tecnologias tem que estar\u2026 por exemplo, a gente n\u00e3o pode s\u00f3 fazer telemedicina em grandes centros, como Rio e S\u00e3o Paulo, onde o conhecimento \u00e9 gerado. Desse modo, os estados da regi\u00e3o Norte e Nordeste viram apenas consumidores e estaremos reproduzindo a l\u00f3gica do subdesenvolvimento para dentro do pa\u00eds, como ali\u00e1s vem sendo reproduzido historicamente.<\/p>\n<p>Vou dar um exemplo: hoje um dos estados que est\u00e1 conseguindo avan\u00e7ar no complexo industrial da sa\u00fade \u00e9 o Cear\u00e1, que montou um parque tecnol\u00f3gico onde a Fiocruz est\u00e1 presente com produtos de biotecnologia de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o. E isso foi motivado n\u00e3o por uma an\u00e1lise est\u00e1tica de custo-benef\u00edcio, mas por uma an\u00e1lise din\u00e2mica pautada por um projeto nacional, em que essas \u00e1reas s\u00e3o as novas fronteiras de crescimento. O que hoje parece deficiente, amanh\u00e3 pode ser oportunidade de gera\u00e7\u00e3o de emprego e renda. H\u00e1 um certo esgotamento das grandes metr\u00f3poles e quando se chega em regi\u00f5es novas para come\u00e7ar um processo de desenvolvimento criam-se c\u00edrculos virtuosos de abertura de novos espa\u00e7os econ\u00f4micos. Onde n\u00e3o havia coisa alguma come\u00e7a a existir mobilidade de pessoas, mobilidade de conhecimento, pessoas que se formam no sistema universit\u00e1rio e param de migrar para o Sudeste. Ficam l\u00e1 no Norte, no Nordeste.<\/p>\n<p>Essa vis\u00e3o de bem-estar inclui a dimens\u00e3o da desigualdade social e dos direitos sociais, a dimens\u00e3o da desigualdade regional e a dimens\u00e3o da sustentabilidade ambiental. Eu acho que isso tamb\u00e9m \u00e9 importante dizer. N\u00e3o d\u00e1 mais para as pol\u00edticas de desenvolvimento do s\u00e9culo XXI n\u00e3o terem avaliado a sustentabilidade ambiental. Como eu cobro da sociedade uma agenda do desenvolvimento sustent\u00e1vel se eu n\u00e3o coloco para a sociedade que isto pode gerar renda, emprego, melhor qualidade de vida?<\/p>\n<p><strong>O senhor enfatizou a quest\u00e3o da sociedade e da democracia para al\u00e9m do debate t\u00e9cnico e burocr\u00e1tico. Como incluir a sociedade nessa discuss\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Acredito que os modelos pret\u00e9ritos de desenvolvimento precisam ser repensados, mas tamb\u00e9m acho que a pr\u00f3pria democracia e as formas de participa\u00e7\u00e3o democr\u00e1ticas precisam ser repensadas. Acho que os instrumentos de mobiliza\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica precisam ser repensados. Hoje a gente tem as redes sociais, temos as tecnologias de comunica\u00e7\u00e3o e informa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 verdade que os jovens s\u00e3o desinteressados. Mais uma vez: n\u00e3o estamos conseguindo fazer o di\u00e1logo com a juventude e o risco \u00e9 que essa energia da juventude se disperse. Ent\u00e3o, eu acho que essa radicaliza\u00e7\u00e3o da agenda de desenvolvimento tamb\u00e9m envolve uma radicaliza\u00e7\u00e3o da democracia. \u00c9 dar voz para as pessoas em participa\u00e7\u00f5es em f\u00f3runs locais. Por exemplo, eu acho que seria uma trag\u00e9dia o parlamentarismo hoje porque ele afasta mais ainda a sociedade de uma participa\u00e7\u00e3o nos rumos estrat\u00e9gicos do pa\u00eds.<\/p>\n<p>H\u00e1 um desencanto global com a pr\u00f3prias formas de participa\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica. A participa\u00e7\u00e3o nas elei\u00e7\u00f5es em diversos pa\u00edses est\u00e1 declinando fortemente. A gente pode citar a Fran\u00e7a, a Inglaterra, os EUA e outros pa\u00edses. Essa discuss\u00e3o de modelo de sociedade e projeto de desenvolvimento precisa contemplar isso. \u00c9 preciso di\u00e1logo dos intelectuais com a sociedade. Ficamos todos conversando em redes fechadas de Whatsapp e n\u00e3o estamos conseguindo utilizar os novos recursos tecnol\u00f3gicos e as novas formas de organiza\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria sociedade. \u00c9 absolutamente crucial.<\/p>\n<p>Um projeto de desenvolvimento inclusivo para a sociedade se faz com a sociedade. N\u00e3o \u00e9 uma elite intelectual trancada em um gabinete que vai fazer o projeto de desenvolvimento colado \u00e0s demandas sociais. Demanda quem faz \u00e9 a sociedade, numa articula\u00e7\u00e3o em que os intelectuais e a burocracia p\u00fablica t\u00eam o papel central de estabelecer esses canais de esclarecimento, de informa\u00e7\u00e3o e de di\u00e1logo.<\/p>\n<p>http:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/destaque-outras-midias\/saude-gasto-a-ser-cortado\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Grabois Gadelha &#8211;\u00a0Pesquisador da Fiocruz aponta: o SUS n\u00e3o salva apenas vidas. Ele movimenta uma rede industrial e de servi\u00e7os que comp\u00f5e 10% do PIB, tem alto grau de sofistica\u00e7\u00e3o e chega at\u00e9 os pequenos munic\u00edpios. Vale a pena \u201cenxug\u00e1-la\u201d? 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