{"id":5953,"date":"2017-11-14T09:50:51","date_gmt":"2017-11-14T11:50:51","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=5953"},"modified":"2017-11-13T13:53:38","modified_gmt":"2017-11-13T15:53:38","slug":"boaventura-o-risco-da-desimaginacao-social%ef%bb%bf","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/11\/14\/boaventura-o-risco-da-desimaginacao-social%ef%bb%bf\/","title":{"rendered":"Boaventura: o risco da desimagina\u00e7\u00e3o social\ufeff"},"content":{"rendered":"<p><b>Boaventura de Sousa Santos &#8211;\u00a0<\/b>Em tempos de crise, capital flerta com hiper individualismo. Segundo sua l\u00f3gica, competi\u00e7\u00e3o \u00e9 o m\u00e1ximo; cabe \u00e0 cultura, e \u00e0 religi\u00e3o, aceitar a guerra de todos contra todo.<\/p>\n<p>O social \u00e9 o conjunto de dimens\u00f5es da vida coletiva que n\u00e3o podem ser reduzidas \u00e0 exist\u00eancia e experi\u00eancia particular dos indiv\u00edduos que comp\u00f5em uma dada sociedade. Esta defini\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 neutra. Define o social pela negativa, o que permite atribuir-lhe uma infinidade de atributos que variam de \u00e9poca para \u00e9poca. \u00c9, por outro lado, uma defini\u00e7\u00e3o euroc\u00eantrica porque pressup\u00f5e uma distin\u00e7\u00e3o categorial entre o social e o indiv\u00edduo, uma distin\u00e7\u00e3o que, longe de ser universal ou imemorial, \u00e9 espec\u00edfica da filosofia e da cultura ocidentais, e nestas s\u00f3 se tornou dominante com o racionalismo, o individualismo e o antropocentrismo renascentista do s\u00e9culo XV, os quais viriam a ter em Descartes o seu mais brilhante teorizador. Tanto \u00e9 assim que a m\u00e1xima express\u00e3o desta filosofia\u2013<em>cogito ergo sum,<\/em>\u00a0\u201cpenso logo existo\u201d\u2013 n\u00e3o tem tradu\u00e7\u00e3o adequada em muitas l\u00ednguas e culturas n\u00e3o euroc\u00eantricas. Para muitas destas culturas, a exist\u00eancia de um ser individual \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 problem\u00e1tica como absurda. \u00c9 o caso das filosofias da \u00c1frica austral e do seu conceito fundamental de<em>\u00a0Ubuntu<\/em>, que se pode traduzir por \u201ceu sou porque tu \u00e9s\u201d, ou seja, eu n\u00e3o existo sen\u00e3o na minha rela\u00e7\u00e3o com outros. Os africanos n\u00e3o precisaram esperar por Heidegger para conceber o ser como ser-com (<em>Mitsein<\/em>).<\/p>\n<p>Muito esquematicamente, podemos distinguir na cultura euroc\u00eantrica que serviu de base ao capitalismo moderno dois entendimentos extremos do social. De um lado, o entendimento reacion\u00e1rio, que confere total primazia ao indiv\u00edduo e o concebe como um ser amea\u00e7ado pelo social. Segundo tal l\u00f3gica, os indiv\u00edduos, longe de serem iguais, s\u00e3o naturalmente diferentes e essas diferen\u00e7as determinam hierarquias que o social deve respeitar e ratificar. Entre essas diferen\u00e7as, duas s\u00e3o fundamentais: as diferen\u00e7as de ra\u00e7a e as diferen\u00e7as de sexo. No outro extremo est\u00e1 o entendimento solidarista, que confere primazia ao social e que o concebe como o conjunto de regras de sociabilidade que neutralizam as desigualdades entre os indiv\u00edduos. Entre estes dois extremos foram muitos os entendimentos interm\u00e9dios, nomeadamente os entendimentos liberais (no plural), que viram no social o garante da igualdade dos indiv\u00edduos como ponto de partida, e os entendimentos socialistas (tamb\u00e9m no plural), que viram no social o garante da igualdade dos indiv\u00edduos como ponto de chegada.<\/p>\n<p>Entre estes dois entendimentos, por sua vez, foram poss\u00edveis v\u00e1rias combina\u00e7\u00f5es. Com as revolu\u00e7\u00f5es francesa e americana os dois \u00faltimos entendimentos passaram a ser os \u00fanicos leg\u00edtimos no plano ideol\u00f3gico. Foi com base neles que se iniciou a luta contra a escravatura e a discrimina\u00e7\u00e3o contra as mulheres. No entanto, ao contr\u00e1rio do que se sup\u00f5e, o entendimento reacion\u00e1rio da desigualdade natural-social entre os indiv\u00edduos sempre se manteve como corrente subterr\u00e2nea. At\u00e9 hoje. E \u00e9 intrigante que assim seja depois de dois s\u00e9culos de lutas contra a desigualdade e a discrimina\u00e7\u00e3o. Houve progressos? E, se houve, por que \u00e9 que os retrocessos ocorrem recorrentemente e aparentemente com tanta facilidade? Estaremos hoje numa fase de retrocesso hist\u00f3rico em que o entendimento socialista se desfaz no ar e o liberal parece perigosamente amea\u00e7ado pelo entendimento reacion\u00e1rio?<\/p>\n<p>As respostas a estas perguntas dependem da considera\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios fatores. Vou limitar-me a um deles e, por isso, assumo \u00e0 partida que a minha resposta \u00e9 incompleta. O que o pensamento liberal designou por sociedade moderna democr\u00e1tica e o pensamento marxista por sociedade moderna capitalista foi de fato uma sociedade cujo modelo de desenvolvimento econ\u00f4mico exigia dois tipos de explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho: a explora\u00e7\u00e3o de seres humanos teoricamente iguais aos seus exploradores e a explora\u00e7\u00e3o de seres humanos inferiores ou sub-humanos. Daqui decorreram dois tipos de desvaloriza\u00e7\u00e3o do trabalho: uma desvaloriza\u00e7\u00e3o controlada, porque regulada pelo princ\u00edpio da igualdade, e por isso assente em direitos supostamente universais; e uma desvaloriza\u00e7\u00e3o mais intensa porque \u201cnatural\u201d, exercida sobre seres ontologicamente degradados, seres racializados e seres sexualizados \u2014 basicamente, negros e mulheres. O capitalismo n\u00e3o inventou nem o colonialismo (racismo, escravatura, trabalho for\u00e7ado) nem o patriarcado (discrimina\u00e7\u00e3o sexual) mas ressignificou-os como formas de trabalho super-desvalorizado, ou mesmo n\u00e3o pago ou sistematicamente roubado. Sem essa super-desvaloriza\u00e7\u00e3o do trabalho de popula\u00e7\u00f5es tidas por inferiores n\u00e3o seria poss\u00edvel a explora\u00e7\u00e3o rent\u00e1vel da for\u00e7a de trabalho assalariado em que tanto liberais como marxistas se concentraram, ou seja, o capitalismo n\u00e3o se poderia manter e expandir de forma sustentada.<\/p>\n<p>Mas, se assim foi, n\u00e3o ter\u00e1 sido apenas nos alvores do capitalismo? Em meu entender, n\u00e3o, e s\u00f3 o dom\u00ednio do pensamento liberal e do pensamento marxista nos impediu de ver que desde o s\u00e9culo XV, pelo menos, at\u00e9 hoje vivemos em sociedades capitalistas, colonialistas e patriarcais. Obviamente que ao longo dos s\u00e9culos houve lutas e movimentos sociais que eliminaram algumas das formas mais selvagens de desvaloriza\u00e7\u00e3o humana, mas s\u00f3 o dom\u00ednio daquelas duas formas de pensamento moderno foi capaz de nos criar a ilus\u00e3o de que a elimina\u00e7\u00e3o dessa desvaloriza\u00e7\u00e3o seria progressiva e at\u00e9 acabaria um dia, mesmo sem o capitalismo acabar.<\/p>\n<p>Ledo engano. O que aconteceu foi a substitui\u00e7\u00e3o, real ou apenas jur\u00eddica, de alguns instrumentos de desvaloriza\u00e7\u00e3o por outros ou a desloca\u00e7\u00e3o do exerc\u00edcio da desvaloriza\u00e7\u00e3o de um campo social para outro ou de uma regi\u00e3o do mundo para outra. N\u00e3o ter isto em conta fez com que confund\u00edssemos o fim do colonialismo hist\u00f3rico (de ocupa\u00e7\u00e3o territorial por pa\u00eds estrangeiro) com o fim total do colonialismo, quando de facto o colonialismo continuou sob outras formas: neocolonialismo, colonialismo interno, imperialismo, racismo, xenofobia, \u00f3dio anti-imigrante e anti-refugiado, e, para espanto de muitos, a pr\u00f3pria escravatura, como a ONU hoje reconhece. Da mesma forma que a discrimina\u00e7\u00e3o contra as mulheres deixou de se manifestar no sufr\u00e1gio eleitoral e nos direitos sociais, mas continuou sob as formas de pagamento desigual para trabalho igual, ass\u00e9dio sexual e viol\u00eancia, da dom\u00e9stica ao\u00a0<em>gang rape<\/em>\u00a0e feminic\u00eddio. Esta cegueira anal\u00edtica impediu-nos de dar relevo \u00e0 composi\u00e7\u00e3o etno-cultural da for\u00e7a de trabalho desde o in\u00edcio \u2014 por exemplo, \u00e0s diferen\u00e7as entre trabalhadores ingleses e irlandeses, ou [na Espanha] entre trabalhadores de Castela e da Andaluzia.<\/p>\n<p>Por que raz\u00e3o \u00e9 este argumento mais facilmente aceito hoje do que h\u00e1 vinte anos? Em meu entender, isso deve-se ao facto de a atual fase do capitalismo exigir hoje, talvez mais do que nunca, a super-desvaloriza\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho e a submiss\u00e3o de vastas popula\u00e7\u00f5es \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00f5es descart\u00e1veis, popula\u00e7\u00f5es a quem se pode roubar o trabalho e sujeitar a trabalho for\u00e7ado ou \u201can\u00e1logo\u201d a trabalho escravo; popula\u00e7\u00f5es eliminadas por guerras onde s\u00f3 morrem civis inocentes, abandonadas \u00e0 sua \u201csorte\u201d em caso de acontecimentos clim\u00e1ticos extremos ou encarceradas, como acontece a boa parte da popula\u00e7\u00e3o jovem negra dos EUA. Estes fatos devem-se \u00e0 conjuga\u00e7\u00e3o de dois fatores epocais e, portanto, de larga dura\u00e7\u00e3o: as revolu\u00e7\u00f5es eletr\u00f4nicas e digitais e o dom\u00ednio global do capital financeiro, o setor do capitalismo mais anti-social por criar riqueza artificial com escass\u00edssimo recurso \u00e0 for\u00e7a de trabalho.<\/p>\n<p>A super-desvaloriza\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho e o car\u00e1ter descart\u00e1vel de vastas popula\u00e7\u00f5es est\u00e3o hoje a ser ideologicamente respaldados pela reemerg\u00eancia do pensamento reacion\u00e1rio da desigualdade natural-social entre os indiv\u00edduos, o qual sempre se manteve como corrente subterr\u00e2nea da modernidade ocidental. Ele reemerge sob formas t\u00e3o diferentes que facilmente se disfar\u00e7am de desvios conjunturais ou idiossincrasias sem significado. Aflora no crescimento da extrema-direita europeia e brasileira e do supremacismo branco nos EUA. Aflora na chocante virul\u00eancia classista, racista, sexista e homof\u00f3bica\u00a0 de organiza\u00e7\u00f5es brasileiras de extrema-direita, algumas delas financiadas por\u00a0 ag\u00eancias p\u00fablicas e privadas norte-americanas. Aflora na generaliza\u00e7\u00e3o da precariedade do trabalho assalariado e da transforma\u00e7\u00e3o dos direitos dos trabalhadores em privil\u00e9gios ileg\u00edtimos. Aflora em senten\u00e7as judiciais que invocam a B\u00edblia para justificar a inferioridade das mulheres. Aflora no aumento do trabalho escravo. E aflora, pasme-se, na relegitima\u00e7\u00e3o do colonialismo hist\u00f3rico, um fen\u00f4meno que pela sua aparente novidade merece uma refer\u00eancia especial.<\/p>\n<p>N\u00e3o me refiro a pol\u00edticos como o presidente Nicolas Sarkozy, que em 2007 dissertou em Dakar sobre as vantagens do colonialismo para os povos africanos, cuja trag\u00e9dia seria n\u00e3o terem at\u00e9 hoje entrado plenamente na hist\u00f3ria. Refiro-me \u00e0 justifica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do colonialismo hist\u00f3rico e \u00e0 sua invoca\u00e7\u00e3o como solu\u00e7\u00e3o para os \u201cEstados falidos\u201d do nosso tempo. Refiro-me ao artigo de Bruce Gilley, professor do Departamento de Ci\u00eancia Pol\u00edtica da Universidade Estadual de Portland, publicado em 2017 na respeitada revista\u00a0<em>Third World Quarterly<\/em>\u00a0dedicada aos problemas p\u00f3s-coloniais. O artigo, intitulado \u201cThe Case for Colonialism\u201d, defende o papel hist\u00f3rico do colonialismo e advoga que se volte a recorrer a ele para resolver problemas que os \u201cestados falidos\u201d do nosso tempo n\u00e3o podem resolver. Mais especificamente, prop\u00f5e tr\u00eas solu\u00e7\u00f5es: \u201crecomendar modos de governa\u00e7\u00e3o colonial; recolonizar algumas \u00e1reas; criar novas col\u00f4nias de raiz.\u201d A pol\u00eamica que o artigo suscitou foi t\u00e3o grande que o autor acabou por retirar o artigo (foi retirado da vers\u00e3o eletr\u00f4nica da revista, mas pode ser lido na vers\u00e3o em papel). A minha suspeita \u00e9, no entanto, que o artigo, longe de ser apenas uma prova das defici\u00eancias do sistema de avalia\u00e7\u00e3o \u201can\u00f4nima\u201d de artigos cient\u00edficos, \u00e9 um sintoma da \u00e9poca, e a pol\u00eamica que ele levantou n\u00e3o ficar\u00e1 por aqui.<\/p>\n<p>O que designo por\u00a0<em>desimagina\u00e7\u00e3o do social<\/em>\u00a0\u00e9 a imagina\u00e7\u00e3o anti-social do social. Segundo ela, numa sociedade de desigualdade natural-social entre os indiv\u00edduos, a responsabilidade coletiva pelos males da sociedade n\u00e3o existe. O que existe \u00e9 a culpa individual daqueles que n\u00e3o querem ou n\u00e3o podem competir por aquilo que a sociedade nunca oferece e apenas concede a quem merece. Os que fracassam, em vez de apoiar-se na sociedade, devem apoiar-se nas religi\u00f5es que por a\u00ed pregam a teologia da prosperidade e consolo para quem n\u00e3o prospera. A educa\u00e7\u00e3o, em vez de criar a miragem da responsabilidade cidad\u00e3 e da solidariedade social, deve ensinar os jovens a ser competitivos e saber que est\u00e3o numa guerra de todos contra todos.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o \u00e9 isto que queremos, \u00e9 bom termos bem a no\u00e7\u00e3o do inimigo contra o qual temos de lutar com todas as for\u00e7as democr\u00e1ticas, e sem complac\u00eancia.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"fUyBkal2jo\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/desigualdades-mundo\/boaventura-o-risco-da-desimaginacao-social\/\">Boaventura: o risco da desimagina\u00e7\u00e3o social<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Boaventura: o risco da desimagina\u00e7\u00e3o social&#8221; &#8212; Outras Palavras\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/desigualdades-mundo\/boaventura-o-risco-da-desimaginacao-social\/embed\/#?secret=ELRQWVRGhz#?secret=fUyBkal2jo\" data-secret=\"fUyBkal2jo\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Boaventura de Sousa Santos &#8211;\u00a0Em tempos de crise, capital flerta com hiper individualismo. 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