{"id":5897,"date":"2017-11-09T12:46:41","date_gmt":"2017-11-09T14:46:41","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=5897"},"modified":"2017-11-08T07:54:19","modified_gmt":"2017-11-08T09:54:19","slug":"parabens-atingimos-a-burrice-maxima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/11\/09\/parabens-atingimos-a-burrice-maxima\/","title":{"rendered":"Parab\u00e9ns, atingimos a burrice m\u00e1xima"},"content":{"rendered":"<p><strong>ELIANE BRUM<\/strong> &#8211; A \u201cbaranga\u201d Simone de Beauvoir e a import\u00e2ncia de um livro que ensina a conversar com fascistas.<\/p>\n<p>A fogueira de Simone de Beauvoir a partir da quest\u00e3o do ENEM mostrou que a burrice se tornou um problema estrutural do Brasil. Se n\u00e3o for enfrentada, n\u00e3o h\u00e1 chance. Hordas e hordas de burros que ocupam espa\u00e7os institucionais, burros que ocupam bancadas de TV, burros pagos por dinheiro p\u00fablico, burros pagos por dinheiro privado, burros em lugares privilegiados, atacaram a fil\u00f3sofa francesa porque o Exame Nacional de Ensino M\u00e9dio colocou na prova um trecho de uma de suas obras, O Segundo Sexo, come\u00e7ando pela frase c\u00e9lebre: \u201cUma mulher n\u00e3o nasce mulher, torna-se mulher\u201d. Bastou para os burros levantarem as orelhas e relincharem sua ignor\u00e2ncia em volumes constrangedores. Debater com seriedade a burrice nacional \u00e9 mais urgente do que discutir a crise econ\u00f4mica e o baixo crescimento do pa\u00eds. A burrice est\u00e1 na raiz da crise pol\u00edtica mais ampla. A burrice corrompe a vida, a privada e a p\u00fablica. Dia ap\u00f3s dia.<\/p>\n<p>Recapitulando alguns espasmos do mais recente surto de burrice. O verbete de Simone de Beauvoir (1908-1986) na Wikipedia, conforme mostrou uma reportagem da BBC, foi invadido para tachar a escritora de \u201cped\u00f3fila\u201d e \u201cnazista\u201d. A C\u00e2mara de Vereadores de Campinas, no estado de S\u00e3o Paulo, aprovou uma \u201cmo\u00e7\u00e3o de rep\u00fadio\u201d \u00e0 fil\u00f3sofa. O deputado Marco Feliciano (PSC-SP), da Bancada da B\u00edblia, descobriu na frase \u201cuma escolha adrede, ardilosa e discrepante do que se tem decidido sobre o que se deve ensinar aos nossos jovens\u201d. Em sua p\u00e1gina no Facebook, o promotor de justi\u00e7a do munic\u00edpio paulista de Sorocaba, Jorge Alberto de Oliveira Marum, chamou Beauvoir de \u201cbaranga francesa que n\u00e3o toma banho, n\u00e3o usa suti\u00e3 e n\u00e3o se depila\u201d. Como o tema da reda\u00e7\u00e3o do ENEM era \u201ca persist\u00eancia da viol\u00eancia contra a mulher na sociedade brasileira\u201d, houve gente que estudou em col\u00e9gios caros afirmando que este era um tema de esquerda, e portanto um sinal inequ\u00edvoco de uma conspira\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica por parte do governo federal. Como sugeriu o cr\u00edtico de cinema In\u00e1cio Ara\u00fajo em seu blog, se defender que a mulher tenha o direito de andar sem ser perturbada, agredida e chutada \u00e9 tema de esquerda, isso s\u00f3 pode significar que a direita vai muito mal.<\/p>\n<blockquote><p>A \u00fanica arma capaz de derrotar a burrice \u00e9 o pensamento<\/p><\/blockquote>\n<p>Est\u00e1 cada vez mais dif\u00edcil fazer humor no Brasil. Como nada do que foi relatado acima \u00e9 piada, somos submetidos cotidianamente a uma experi\u00eancia de pervers\u00e3o. Tamb\u00e9m n\u00e3o tem sido f\u00e1cil escrever quando n\u00e3o se \u00e9 humorista, por que o que se pode dizer, seriamente, diante de uma mo\u00e7\u00e3o de rep\u00fadio \u00e0 Simone de Beauvoir? Mas \u00e9 preciso tratar com seriedade, porque talvez n\u00e3o exista nada mais s\u00e9rio do que a bo\u00e7alidade que atravessa o pa\u00eds. Torna-se urgente, priorit\u00e1rio, fazer um esfor\u00e7o coletivo e enfrentar a burrice com o \u00fanico instrumento capaz de derrot\u00e1-la: o pensamento.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a pot\u00eancia e a generosidade de um livro lan\u00e7ado pela fil\u00f3sofa Marcia Tiburi, escritora e professora universit\u00e1ria. O t\u00edtulo vai direto ao ponto, afinal os tempos s\u00e3o graves demais para papinhos de sal\u00e3o: Como conversar com um fascista \u2013 reflex\u00f5es sobre o cotidiano autorit\u00e1rio brasileiro (Record). Nas 194 p\u00e1ginas, Marcia enfrenta as v\u00e1rias faces do cotidiano atual com profundidade, mas de forma acess\u00edvel a quem n\u00e3o est\u00e1 familiarizado com os conceitos. Faz o mais dif\u00edcil: escrever simples sem simplificar. \u00c9 um livro que se pretende para todos, e n\u00e3o para os seus pares. Quem acompanha a trajet\u00f3ria da fil\u00f3sofa conhece a sua coragem. E este \u00e9 um livro de coragem, j\u00e1 que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil quanto arriscado escrever sobre o que est\u00e1 em movimento, sem a prote\u00e7\u00e3o assegurada pelo distanciamento hist\u00f3rico. Poucos s\u00e3o os intelectuais que se arriscam a sair do conforto de seus feudos para enfrentar o debate p\u00fablico com suas d\u00favidas. E por isso aqueles que se arriscam de forma honesta, sem ficar arrotando suas certezas e suas credenciais, ou usando-as para massacrar aqueles que j\u00e1 s\u00e3o massacrados, s\u00e3o t\u00e3o preciosos.<\/p>\n<blockquote><p>O confronto atual n\u00e3o \u00e9 entre direita e esquerda, mas entre os que pensam e os que n\u00e3o pensam<\/p><\/blockquote>\n<p>\u201cEu queria saber por que dialogar \u00e9 imposs\u00edvel\u201d, conta Marcia Tiburi, sobre a pergunta que a moveu nessa busca. Para enfrentar a aus\u00eancia do pensamento, a fil\u00f3sofa prop\u00f5e a resist\u00eancia pelo di\u00e1logo. Este \u00e9 um esfor\u00e7o de cada um \u2013e de todos. Arriscar-se a deixar o \u201cisolamento em comunidade\u201d, a forma atual da vida social e pol\u00edtica, para confrontar o que ela chama de \u201cconsumismo da linguagem\u201d. Compreender o confronto atual como um confronto entre direita e esquerda, desenvolvimentistas e ecologistas, governistas e oposicionistas, machistas e feministas \u00e9, segundo ela, uma redu\u00e7\u00e3o. O confronto atual seria mais profundo e tamb\u00e9m mais dram\u00e1tico: entre os que pensam e os que n\u00e3o pensam.<\/p>\n<p>O exerc\u00edcio que fa\u00e7o, deste par\u00e1grafo em diante, \u00e9 buscar compreender a fogueira em que Simone de Beauvoir foi jogada nos \u00faltimos dias, entre outros fatos recentes, a partir das ideias deste livro. Para come\u00e7ar, a seriedade do epis\u00f3dio do ENEM pode ser demonstrada neste trecho t\u00e3o agudo: \u201cSe levarmos em conta que falar qualquer coisa est\u00e1 muito f\u00e1cil, que falamos em excesso e falamos coisas desnecess\u00e1rias, um novo consumismo emerge entre n\u00f3s, o consumismo da linguagem. O problema \u00e9 que ele produz, como qualquer consumismo, muito lixo. E o problema de qualquer lixo \u00e9 que ele n\u00e3o retorna \u00e0 natureza como se nada tivesse acontecido. Ele altera profundamente nossas vidas em um sentido f\u00edsico e mental. O que se come, o que se v\u00ea, o que se ouve, numa palavra, o que se introjeta, vira corpo, se torna exist\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Vale perguntar. Num pa\u00eds em que a preocupa\u00e7\u00e3o com a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma flatul\u00eancia, em que a n\u00e3o educa\u00e7\u00e3o \u00e9 a regra, para onde vai o lixo e que tipo de impacto ele produz na tessitura do cotidiano, nos cora\u00e7\u00f5es e mentes de quem o consome? O que acontece com a fogueira de Simone de Beauvoir num contexto em que aqueles que a jogaram no fogo possivelmente sequer a leram? Que restos dos discursos vazios sobre a fil\u00f3sofa permanecer\u00e3o na mem\u00f3ria de uma popula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tem seus livros na estante e que tipo de eco produzir\u00e3o?<\/p>\n<p>Como dimensionar a gravidade de um vereador eleito, pago com dinheiro p\u00fablico para legislar e, portanto, para decidir destinos coletivos, dizer que a escolha da frase de Simone de Beauvoir para uma prova do ENEM \u00e9 algo \u201cdemon\u00edaco\u201d, como afirmou Campos Filho (DEM)? E como enfrent\u00e1-la com a seriedade necess\u00e1ria?<\/p>\n<p>Com a palavra, o autor da \u201cmo\u00e7\u00e3o de rep\u00fadio\u201d: \u201cForam buscar l\u00e1 Simone de Beauvoir, l\u00e1 pro ano de mil trocentos e p\u00f4co&#8230;. (&#8230;) A grande maioria \u00e9 favor\u00e1vel \u00e0 lei da natureza. Homem \u00e9 homem. Mulher \u00e9 mulher. (&#8230;) Cuidado com essa puls\u00e3o, essa puls\u00e3o pode levar \u00e0 cadeia. O senhor pode passar na frente do caixa eletr\u00f4nico e ter uma puls\u00e3o de vontade de roubar e vai preso. Pode ter uma puls\u00e3o de vontade de estuprar e vai preso. Ent\u00e3o, tomem cuidado com essa puls\u00e3o, ah, hoje de manh\u00e3 sou menina, agora \u00e0 noite eu sou homem&#8230;.\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>O vazio de pensamento n\u00e3o \u00e9 silencioso, mas repleto de clich\u00eas, frases prontas e repeti\u00e7\u00f5es<\/p><\/blockquote>\n<p>O vereador nem sequer sabe em que s\u00e9culo Simone de Beauvoir nasceu, viveu e produziu pensamento \u2013 \u201cmil trocentos e p\u00f4co\u201d. Nem sequer tentou compreender o que a frase citada no ENEM significa. N\u00e3o \u00e9 engra\u00e7ado. \u00c9 a ru\u00edna causando mais ru\u00edna. O que interessa \u00e9 fazer barulho, porque o barulho encobre o vazio de ideias. O que importa \u00e9 perverter a palavra, usando o que sequer tentou entender para enclausurar o pensamento e reafirmar a certeza em nome de uma suposta \u201clei da natureza\u201d que jamais existiu. A pervers\u00e3o do fascista \u00e9 a de acusar o outro de manipula\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica quando \u00e9 ele o manipulador. \u00c9 acusar o outro de impor um pensamento quando \u00e9 ele que empreende todo os esfor\u00e7os para barrar qualquer pensamento. \u00c9 impedir o di\u00e1logo denunciando o outro pelo ato que ele pr\u00f3prio cometeu. \u00c9 nessa repeti\u00e7\u00e3o de bo\u00e7alidades que seguem os discursos de outros vereadores, invocando clich\u00eas b\u00edblicos, lembrando de Sodoma e Gomorra e Ad\u00e3o e Eva, abusando de Deus.<\/p>\n<p>Para perverter a realidade, o fascista conta com o consumismo da linguagem. Trata-se, como aponta Marcia Tiburi, de um vazio repleto de falas prontas. N\u00e3o \u00e9 um vazio silencioso, espa\u00e7o aberto para buscar o outro, o inusitado, o surpreendente. Mas sim um vazio barulhento, abarrotado de clich\u00eas, de frases repetidas e repetitivas, usadas para se proteger do pensamento. Os lugares-comuns, neste caso espec\u00edfico a constante invoca\u00e7\u00e3o de Deus e de leis b\u00edblicas, s\u00e3o usados como um escudo contra a reflex\u00e3o. Todo o esfor\u00e7o \u00e9 empreendido para n\u00e3o existir qualquer chance de pensamento, ainda que um bem pequenino.<\/p>\n<p>Neste vazio, a fil\u00f3sofa acredita que os meios tecnol\u00f3gicos e a m\u00eddia desempenham um papel crucial. Repete-se o que \u00e9 dito na TV, no r\u00e1dio. Fala-se, muito, sem pensar no que se diz. No gesto do mero \u201ccompartilhar\u201d sem ler, t\u00e3o f\u00e1cil quanto comprar com um clique pela internet, foge-se do pensamento anal\u00edtico e cr\u00edtico, trocando-o pelo vazio consumista da linguagem e da a\u00e7\u00e3o repetitiva. \u00c9 assim que a burrice se multiplica em cliques, propagando-se em rede. O t\u00edtulo deste artigo \u00e9 esperan\u00e7oso, mas n\u00e3o corresponde \u00e0 realidade: a burrice n\u00e3o tem limites, ela sempre pode atingir patamares ainda mais extremos.<\/p>\n<blockquote><p>Se n\u00e3o houver limites para a idiotice, resta isolar-se e estocar alimentos<\/p><\/blockquote>\n<p>Epis\u00f3dios semelhantes \u00e0 \u201cmo\u00e7\u00e3o de rep\u00fadio\u201d \u00e0 Simone de Beauvoir ocorriam esporadicamente em rinc\u00f5es afastados, e logo eram ridicularizados. Hoje, acontecem na C\u00e2mara de Vereadores de uma das maiores e mais ricas cidades do estado de S\u00e3o Paulo, no sudeste do Brasil, uma cidade que abriga v\u00e1rias universidades, entre elas a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), uma das mais respeitadas do pa\u00eds. E cad\u00ea os intelectuais? Rindo dos burros nas cantinas universit\u00e1rias? Ser\u00e1? N\u00e3o era de se esperar mais iniciativas de busca do di\u00e1logo, de cria\u00e7\u00e3o de oportunidades para explicar quem \u00e9 Simone de Beauvoir e refletir sobre sua obra, ou mesmo a ocupa\u00e7\u00e3o da C\u00e2mara, para produzir rea\u00e7\u00e3o e movimento que permitisse o conhecimento e combatesse a ignor\u00e2ncia?<\/p>\n<p>Talvez o pol\u00eamico livro Submisss\u00e3o (Alfaguara), do franc\u00eas Michel Houellebecq, possa ter alguma resson\u00e2ncia maior por aqui. Nele, s\u00f3 para lembrar, o protagonista \u00e9 um acad\u00eamico desencantado que se depara com a vit\u00f3ria de um partido isl\u00e2mico nas elei\u00e7\u00f5es da Fran\u00e7a. Depois de assistir ao desenrolar dos acontecimentos pela TV, j\u00e1 que n\u00e3o se sente motivado a participar de nenhum debate que n\u00e3o seja sobre a sua pr\u00f3pria tese acad\u00eamica (ou nem mesmo sobre ela), se choca com o resultado eleitoral. \u00c9 o protagonista que n\u00e3o protagoniza \u2013ou s\u00f3 protagoniza por omiss\u00e3o (ou submiss\u00e3o). Aos poucos, os novos donos do poder lhe acenam n\u00e3o s\u00f3 com a manuten\u00e7\u00e3o dos privil\u00e9gios, mas com uma consider\u00e1vel amplia\u00e7\u00e3o dos privil\u00e9gios. E ele, afinal, conclui que aderir pode n\u00e3o ser t\u00e3o ruim assim.<\/p>\n<p>Os burros est\u00e3o por toda parte e muitos deles estudaram nas melhores escolas e, o pior, muitos ensinam nas melhores escolas. A \u201cmo\u00e7\u00e3o de rep\u00fadio\u201d \u00e0 Simone de Beauvoir foi aprovada pela C\u00e2mara de Campinas por 25 votos a cinco. Assim, os burros s\u00e3o a maioria. \u00c9 preciso enfrent\u00e1-los com pensamento, fazer a resist\u00eancia pelo di\u00e1logo. Ou, como diz Marcia Tiburi: \u201cSem pensamento n\u00e3o h\u00e1 di\u00e1logo poss\u00edvel nem emancipa\u00e7\u00e3o em n\u00edvel algum. Se n\u00e3o houver limites para a idiotice, resta isolar-se e estocar alimentos\u201d.<\/p>\n<p>O promotor e professor universit\u00e1rio que reduziu Simone de Beauvoir a \u201cuma baranga\u201d, ao comentar a quest\u00e3o do ENEM em sua p\u00e1gina no Facebook, fez o seguinte coment\u00e1rio: \u201cExame Nacional-Socialista da Doutrina\u00e7\u00e3o Sub-Marxista. Aprendam jovens: mulher n\u00e3o nasce mulher, nasce uma baranga francesa que n\u00e3o toma banho, n\u00e3o usa suti\u00e3 e n\u00e3o se depila. S\u00f3 depois \u00e9 pervertida pelo capitalismo opressor e se torna mulher que toma banho, usa suti\u00e3 e se depila\u201d. Depois da repercuss\u00e3o negativa, o que incluiu uma nota de rep\u00fadio por parte da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Jorge Alberto de Oliveira Marum apagou os posts e defendeu-se, em outra postagem, alegando que pretendia ter sido ir\u00f4nico: \u201cIronia, para quem n\u00e3o sabe, \u00e9 uma figura de linguagem que consiste em afirmar o contr\u00e1rio do que se pensa\u201d. Interprete-se.<\/p>\n<blockquote><p>A burrice, tanto como categoria cognitiva quanto moral, venceu<\/p><\/blockquote>\n<p>\u201cDistorcer \u00e9 poder\u201d \u00e9 o t\u00edtulo de um dos cap\u00edtulos do livro em que a fil\u00f3sofa enfrenta a pr\u00e1tica amplamente difundida de esvaziar as palavras pela distor\u00e7\u00e3o. Como transformar a v\u00edtima em culpada, como se faz rotineiramente com as mulheres no falso debate do aborto, por exemplo, ou no tratamento do estupro. Ou distorcer para que aquele que det\u00e9m os privil\u00e9gios pare\u00e7a ser o que t\u00eam seus direitos amea\u00e7ados: o branco, por exemplo, quando se apresenta como prejudicado pelo sistema de cotas raciais que busca reparar injusti\u00e7as hist\u00f3ricas cometidas contra os negros, ocultando assim que sempre foi o privilegiado; ou quando se invoca um suposto \u201corgulho heterossexual\u201d na tentativa de mascarar a viol\u00eancia contra os homossexuais, alegando que querem privil\u00e9gios, quando todos sabem que a heterossexualidade jamais foi contestada ou atacada, nem em sua express\u00e3o nem em seus direitos. E tamb\u00e9m \u00e9 por essa convers\u00e3o que os manifestantes de junho de 2013 foram tachados de \u201cv\u00e2ndalos\u201d por parte da m\u00eddia e, hoje, uma lei em discuss\u00e3o no Congresso amea\u00e7a converter quem protesta em \u201cterrorista\u201d.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria \u201cdemocracia\u201d pode ser vista a partir da pr\u00e1tica da distor\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que h\u00e1 aquela, mais difundida, que \u00e9 vendida pelo mercado. \u201cDe um lado, h\u00e1 uma democracia que deve parecer como realizada, contra outra democracia, que est\u00e1 na ordem do desejo e do sonho e que n\u00e3o teria pre\u00e7o\u201d. O capitalismo sequestra a democracia tamb\u00e9m como palavra, que passa a ser consumida, junto com outras: felicidade, \u00e9tica, liberdade, oportunidade, m\u00e9rito. Palavras que a fil\u00f3sofa chama de \u201cm\u00e1gicas\u201d, invocadas a servi\u00e7o do ocultamento da opress\u00e3o. \u201cAntidemocr\u00e1tico, o capitalismo precisaria ocultar sua \u00fanica democracia verdadeira: a partilha da mis\u00e9ria e, hoje em dia, cada vez mais, a matabilidade\u201d, afirma Marcia Tiburi.<\/p>\n<p>Quando se invade o verbete de Simone de Beauvoir na Wikipedia \u00e9 tamb\u00e9m disso que se trata: distorcer e replicar at\u00e9 virar \u201cverdade\u201d. Aliena-se os fatos de seu contexto hist\u00f3rico para produzir r\u00f3tulos. Assim, ap\u00f3s o ENEM, a fil\u00f3sofa foi tachada de \u201cped\u00f3fila\u201d e de \u201cnazista\u201d. Ambas as afirma\u00e7\u00f5es j\u00e1 foram retiradas da p\u00e1gina pelo respons\u00e1vel, avisando que a manteria fechada at\u00e9 \u201cque o furor acabasse e as pessoas perdessem o interesse em danificar o artigo\u201d. Entre as dezenas de distor\u00e7\u00f5es do verbete, segundo a mat\u00e9ria da BBC, um usu\u00e1rio disse que a fil\u00f3sofa havia escrito um &#8220;livro de estupro&#8221;. Outro informou que Beauvoir era uma &#8220;antifeminista&#8221;. Um terceiro disse ainda que ela era &#8220;muito conhecida por seu comodismo e pela luta na justi\u00e7a por uma lei que proibia o trabalho das mulheres fora de casa\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>Se a linguagem nos tornou seres pol\u00edticos, a destrui\u00e7\u00e3o da linguagem nos tornar\u00e1 o qu\u00ea?<\/p><\/blockquote>\n<p>As distor\u00e7\u00f5es servem \u00e0 reprodutibilidade da burrice. Ao converter a fil\u00f3sofa no que \u00e9 interpretado como o mais monstruoso \u2013 \u201cped\u00f3fila\u201d e \u201cnazista\u201d \u2013 o objetivo \u00e9 tornar imposs\u00edvel refletir sobre o que ela escreveu: \u201cuma mulher n\u00e3o nasce mulher, torna-se mulher\u201d. A ampla distor\u00e7\u00e3o das palavras serve, de novo, ao vazio do pensamento. Pede-se aos burros que a repliquem \u00e0 exaust\u00e3o em cliques hist\u00e9ricos. A linguagem, como escreve Marcia Tiburi, tem sido rebaixada \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia \u2013 tamb\u00e9m pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o e pelas redes sociais. \u201cVivemos no imp\u00e9rio da canalhice, onde a burrice, tanto como categoria cognitiva quanto moral, venceu\u201d, afirma. \u201cEla se transformou no todo do poder.\u201d<\/p>\n<p>Aderir \u00e9 viver. Esta parece ser a frase deste momento de orgulho da ignor\u00e2ncia e exalta\u00e7\u00e3o da burrice. Aqui, a pergunta se imp\u00f5e: \u201cse a linguagem nos tornou seres pol\u00edticos, a destrui\u00e7\u00e3o da linguagem nos tornar\u00e1 o qu\u00ea?\u201d.<\/p>\n<p>Na semana passada, foi divulgado na p\u00e1gina da Secretaria de Assuntos Estrat\u00e9gicos da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica um estudo que reuniu pesquisadores de diversas institui\u00e7\u00f5es, apresentado como o mais completo j\u00e1 feito no Brasil sobre os efeitos da mudan\u00e7a clim\u00e1tica. Refletir seriamente sobre a mudan\u00e7a clim\u00e1tica \u00e9 urgente, mas h\u00e1 muito menos pensamento e a\u00e7\u00e3o do que o momento exigiria, apesar de estarmos \u00e0s v\u00e9speras da Confer\u00eancia do Clima em Paris. Assim, a divulga\u00e7\u00e3o de um estudo com as conclus\u00f5es a que se chegou poderia ser uma oportunidade excelente para promover participa\u00e7\u00e3o e di\u00e1logo. Mas, entre as tantas previs\u00f5es que apontaram para um poss\u00edvel drama clim\u00e1tico daqui a 25 anos, em 2040 \u2013 doen\u00e7as, calor extremo, falta d\u2019\u00e1gua e de energia etc \u2013, uma foi destacada por diferentes ve\u00edculos da imprensa: a poss\u00edvel perda de uma \u00e1rea imobili\u00e1ria avaliada em R$ 109 bilh\u00f5es no Rio de Janeiro, devido \u00e0 eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar causada pelo aquecimento global.<\/p>\n<p>N\u00e3o as perdas humanas, n\u00e3o a corros\u00e3o da vida, n\u00e3o o aniquilamento dos mais pobres e dos mais fr\u00e1geis. N\u00e3o. O que se destaca \u00e9 aquilo que se monetariza, \u00e9 a perda do patrim\u00f4nio material, no caso imobili\u00e1rio. O que merece t\u00edtulo \u00e9 o cifr\u00e3o. O epis\u00f3dio evoca um dos cap\u00edtulos mais interessantes de Como conversar com um fascista: \u201cO capitalismo \u00e9 a redu\u00e7\u00e3o da vida ao plano econ\u00f4mico. (&#8230;) O pensamento est\u00e1 minado pela l\u00f3gica do \u2018rendimento\u2019. Viver torna-se uma quest\u00e3o apenas econ\u00f4mica. A economia torna-se uma forma de vida administrada com regras pr\u00f3prias, tais como o consumo, o endividamento, a seguran\u00e7a pela qual se pode pagar. Tudo isso \u00e9 sist\u00eamico e, ao mesmo tempo, algo hist\u00e9rico. (&#8230;) As palavras funcionam como estigmas ou como dogmas que sustentam ideias orientadoras de pr\u00e1ticas\u201d. Se a ordem do discurso capitalista \u00e9 basicamente teol\u00f3gica, \u00e9 porque ele funciona como uma religi\u00e3o no \u00e2mbito das escrituras e das prega\u00e7\u00f5es (em geral no p\u00falpito tecnol\u00f3gico da televis\u00e3o)\u201d. Se depois de tanto calarmos sobre a mudan\u00e7a clim\u00e1tica, falarmos dela a partir da l\u00f3gica monet\u00e1ria, estamos todos (mais) perdidos.<\/p>\n<blockquote><p>Precisamos resistir em nome de um di\u00e1logo que torne o \u00f3dio impotente<\/p><\/blockquote>\n<p>Mas \u00e9 em outro epis\u00f3dio destes \u00faltimos dias que a pervers\u00e3o do Brasil atual se revelou em toda a sua monstruosidade: a Divis\u00e3o de Homic\u00eddios da Pol\u00edcia Civil do Rio de Janeiro concluiu em inqu\u00e9rito que o policial que matou um menino de dez anos agiu em \u201cleg\u00edtima defesa\u201d. Eduardo de Jesus brincava na porta da sua casa, numa das favelas do Complexo do Alem\u00e3o, quando teve a cabe\u00e7a atingida por um tiro de fuzil. Sua m\u00e3e encontrou parte do seu c\u00e9rebro na sala. O inqu\u00e9rito isentou de qualquer responsabilidade os policiais envolvidos, por estarem supostamente em confronto com narcotraficantes. Eles teriam apenas \u201cerrado\u201d o tiro.<\/p>\n<p>Eduardo estava a cinco metros do policial que o matou. Terezinha de Jesus, a m\u00e3e do menino, afirma que n\u00e3o havia tiroteio naquele dia. \u201cEu parti para cima do policial. Gritei que tinha matado meu filho e ele me respondeu, com seu fuzil na minha cabe\u00e7a, que igual que tinha matado ele poderia tamb\u00e9m me matar, porque o menino era filho de bandido. Nunca vou esquecer aquilo. Posso estar em qualquer lugar do mundo, que nunca esquecerei a cara daquele policial\u201d. Ao ser informada por jornalistas que a pol\u00edcia concluiu que seu filho foi morto em leg\u00edtima defesa, Terezinha disse que sentia vontade \u201cde quebrar tudo\u201d.<\/p>\n<p>Quando a pervers\u00e3o supera tal limite \u00e9 porque estamos quase no ponto de n\u00e3o retorno. \u201cN\u00e3o acabaremos com o \u00f3dio pregando o amor\u201d, diz Marcia Tiburi. \u201cMas agindo em nome de um di\u00e1logo que n\u00e3o apenas mostre que o \u00f3dio \u00e9 impotente, mas que o torne impotente.\u201d<\/p>\n<p>Em Como conversar com um fascista, a fil\u00f3sofa defende a necessidade de come\u00e7ar a tentar falar de outro modo. O di\u00e1logo n\u00e3o como salva\u00e7\u00e3o, mas como experimento, como ativismo filos\u00f3fico para enfrentar a antipol\u00edtica. A pol\u00edtica, lembra a autora, \u201c\u00e9 la\u00e7o amoroso entre pessoas que podem falar e se escutar n\u00e3o porque sejam iguais, mas porque deixaram de lado suas carapa\u00e7as de \u00f3dio e quebraram o muro de cimento onde suas subjetividades est\u00e3o enterradas\u201d.<\/p>\n<p>Num pa\u00eds de antipol\u00edtica e antieduca\u00e7\u00e3o generalizada como o Brasil \u00e9 preciso se mover. \u00c9 urgente aprender a conversar com um fascista, mesmo que pare\u00e7a imposs\u00edvel. Expor ao outro aquele que n\u00e3o suporta a diferen\u00e7a. Revelar suas contradi\u00e7\u00f5es e confront\u00e1-lo pelo di\u00e1logo \u00e9 um ato de resist\u00eancia. Enfrentar a burrice com a \u00fanica arma que ela teme: o pensamento.<\/p>\n<p>\u00c9 isso ou n\u00e3o vai adiantar nem estocar alimentos.<\/p>\n<p>https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2015\/11\/09\/opinion\/1447075142_888033.html<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ELIANE BRUM &#8211; A \u201cbaranga\u201d Simone de Beauvoir e a import\u00e2ncia de um livro que ensina a conversar com fascistas. A fogueira de Simone de Beauvoir a partir da quest\u00e3o do ENEM mostrou que a burrice se tornou um problema estrutural do Brasil. Se n\u00e3o for enfrentada, n\u00e3o h\u00e1 chance. 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