{"id":5842,"date":"2017-11-03T12:15:09","date_gmt":"2017-11-03T14:15:09","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=5842"},"modified":"2017-11-01T19:17:52","modified_gmt":"2017-11-01T21:17:52","slug":"sair-da-zona-de-conforto-e-outras-bobagens-do-mundo-corporativo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/11\/03\/sair-da-zona-de-conforto-e-outras-bobagens-do-mundo-corporativo\/","title":{"rendered":"Sair da \u2018zona de conforto\u2019 e outras bobagens do mundo corporativo"},"content":{"rendered":"<p><strong>SERGIO C. FANJUL<\/strong> &#8211; Empresas usam t\u00e9cnicas psicol\u00f3gicas para obter ades\u00e3o mais \u00edntima e emocional de funcion\u00e1rios<\/p>\n<p>Adri\u00e1n era amarelo: ao ser contratado por uma pequena empresa de marketing digital, aplicaram-lhe um teste de personalidade. Vermelhos s\u00e3o os l\u00edderes; amarelos, os criativos; verdes, os criadores de um clima bom; e azuis, os d\u00f3ceis. Ao chegar ao trabalho, todas as manh\u00e3s, ele tinha de escolher um\u00a0emoticon\u00a0que expressasse o seu estado de \u00e2nimo do momento, assim como ao sair, depois da jornada de trabalho (embora ele nem sempre fosse sincero e costumasse abrandar suas emo\u00e7\u00f5es, para n\u00e3o transmitir uma impress\u00e3o ruim aos seus superiores). Em certos dias havia aulas de\u00a0yoga, em outros\u00a0<em>mindfulness<\/em>\u00a0ou din\u00e2micas para ele se abrir com os demais e vencer a timidez; em alguns finais de semana, pr\u00e1ticas de\u00a0<em>team building<\/em>.<\/p>\n<p>Adrian era guiado por um mentor, que definiu o seu n\u00famero dentro da teoria\u00a0psicol\u00f3gica\u00a0do eneagrama da personalidade. Era o tr\u00eas. E todas essas informa\u00e7\u00f5es eram compartilhadas com a dire\u00e7\u00e3o da empresa. \u201cTudo tinha um ar de pensamento positivo, de modernidade tipo\u00a0Vale do Sil\u00edcio\u201d, lembra Adri\u00e1n, que prefere n\u00e3o revelar sua identidade, \u201cmas eu tinha a sensa\u00e7\u00e3o de que estavam invadindo a minha intimidade, de que manipulavam a minha mente. Eu preferia fazer os meus trabalhos de car\u00e1ter psicol\u00f3gico por conta pr\u00f3pria\u201d. Por raz\u00f5es como essas, Adri\u00e1n acabou deixando o emprego.<\/p>\n<p>Pr\u00e1ticas e discursos desse tipo (embora nem sempre com a mesma intensidade descrita nesse caso) proliferam cada vez mais nas empresas, em especial no setor da chamada nova economia: consultoria, marketing, tecnologia etc. E vem, sobretudo, do mundo anglo-sax\u00e3o e n\u00f3rdico, onde s\u00e3o mais comuns. Elas s\u00e3o justificadas como algo que faz bem \u00e0 empresa e ao funcion\u00e1rio, como uma forma de inova\u00e7\u00e3o e aproxima\u00e7\u00e3o, formas mais humanas, mais\u00a0<em>friendlies<\/em>. Para muitas pessoas, por\u00e9m, elas s\u00e3o vistas como invasivas, assemelhando-se, mais, a um m\u00e9todo de controle.<\/p>\n<p>\u201cEssas culturas empresariais novas buscam obter do trabalhador um compromisso diferente daquele que se pedia tradicionalmente\u201d, explica\u00a0Carlos Jes\u00fas Fern\u00e1ndez, professor do Departamento de Sociologia da Universidade Aut\u00f4noma de Madrid (UAM). \u201cAntes era preciso saber fazer um trabalho e desempenhar uma fun\u00e7\u00e3o durante oito horas por dia. Agora se procuram caracter\u00edsticas pessoais, compet\u00eancias ligadas \u00e0 personalidade\u201d. Da\u00ed as palestras motivacionais que estimulam palavras m\u00e1gicas como lideran\u00e7a, empreendimento, risco ou o mantra t\u00e3o difundido do \u201c\u00e9 preciso sair da zona de conforto\u201d. Da\u00ed, tamb\u00e9m, a prolifera\u00e7\u00e3o de livros de autoajuda ligados ao mundo corporativo. O problema, segundo Fern\u00e1ndez, \u00e9 que \u201cexiste um vazio de regulamenta\u00e7\u00e3o no controle dessas pr\u00e1ticas\u201d, o que faz com que elas, muitas vezes, cheguem longe demais.<\/p>\n<blockquote><p>\n\u201cDiscursos sobre inova\u00e7\u00e3o aumentam, mas se trabalha cada vez mais, com mais disciplina e com um consumo cada vez maior de calmantes\u201d, comenta especialista\n<\/p><\/blockquote>\n<p>\u201cO que essas t\u00e9cnicas visam \u00e9, principalmente, que os funcion\u00e1rios se identifiquem com a empresa\u201d, afirma\u00a0\u00d3scar P\u00e9rez Zapata, professor de Organiza\u00e7\u00e3o de Empresas no ICADE e na Universidade Carlos III de Madri e diretor de pesquisas do\u00a0<em>think tank<\/em>Dubitare. \u201cO que se pretende \u00e9 criar uma cultura corporativa forte em que os elementos emocionais e \u00edntimos, como os apelos \u00e0 paix\u00e3o, s\u00e3o cada vez mais importantes\u201d, acrescenta. O que, a rigor, n\u00e3o \u00e9 algo novo, pois h\u00e1 d\u00e9cadas que os trabalhadores se identificam com suas empresas, sobretudo no caso de companhias grandes e poderosas. Mas antes, cabe dizer, os contratos de trabalho eram de uma vida inteira.<\/p>\n<p>Tudo \u00e9 coberto por um verniz de sorrisos, desse pensamento positivo t\u00e3o em voga e criticada por livros como\u00a0<em>Sorria ou Morra<\/em>, de Barbara Ehrenreich, ou\u00a0<em>A Ind\u00fastria da Felicidade<\/em>, de William Davies. \u201cTrata-se de uma mentalidade que se encaixa muito bem com o objetivo pretendido\u201d, avalia P\u00e9rez Zapata. \u201cO pensamento positivo elimina qualquer possibilidade de cr\u00edtica e desloca a culpa e a d\u00favida para o indiv\u00edduo e n\u00e3o para a estrutura onde ele atua. Liga-se, assim, \u00e0 concep\u00e7\u00e3o fantasiosa do eu empreendedor, da iniciativa pessoal do her\u00f3i que tudo pode com a autogest\u00e3o e que, no limite, \u00e9 o \u00fanico respons\u00e1vel pelos \u00eaxitos ou pelos fracassos\u201d.<\/p>\n<p>Esses problemas s\u00e3o analisados pelos chamados\u00a0<em>critical management studies<\/em>(CMS), um conjunto de disciplinas surgidas nos anos noventa e que estudam o funcionamento das empresas de forma cr\u00edtica a partir das obras de pensadores como\u00a0Michel Foucault\u00a0(sobretudo seus estudos sobre a sociedade disciplinadora), a teoria cr\u00edtica da Escola de Frankfurt ou a teoria do processo de trabalho, entre outras fontes te\u00f3ricas. Elas foram criadas por professores de escolas de neg\u00f3cios e faculdades de administra\u00e7\u00e3o de empresas, como Mats Alvesson ou Hugh Willmott, que propunham uma vis\u00e3o cr\u00edtica e procuravam trazer \u00e0 luz as rela\u00e7\u00f5es de poder no seio das organiza\u00e7\u00f5es empresariais. \u201cEmbora a palavra cr\u00edtica pare\u00e7a muito beligerante, pode se tratar de uma cr\u00edtica construtiva para a empresa\u201d, afirma P\u00e9rez Zapata. \u201cNo que se refere a essas t\u00e9cnicas, o veneno est\u00e1 na dosagem\u201d.<\/p>\n<p>O panorama descrito \u00e9 t\u00edpico da era\u00a0<em>p\u00f3s-fordista<\/em>, em que proliferam a aus\u00eancia de prote\u00e7\u00e3o,\u00a0a mobilidade e a flexibilidade no trabalho, a dissolu\u00e7\u00e3o das classes sociais bem definidas e a atomiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es trabalhistas. A conex\u00e3o permanente via\u00a0Internet, al\u00e9m disso, torna fluidos os limites dos hor\u00e1rios e das jornadas de trabalho. Tudo que se refira ao trabalho se torna l\u00edquido tamb\u00e9m. \u201cRompem-se, dessa maneira, os limites e as regulamenta\u00e7\u00f5es de quase tudo: onde se trabalha, quanto se trabalha, com quem, como etc, hoje em dia muito da responsabilidade recai sobre o trabalhador\u201d, diz P\u00e9rez Zapata. \u201cNormalmente h\u00e1 uma sobrecarga para o trabalhador, a quem se pede que ultrapasse seus limites e ao mesmo tempo saiba imp\u00f4-los a si mesmo\u201d.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 uma individualiza\u00e7\u00e3o e uma psicologiza\u00e7\u00e3o crescentes\u201d, observa\u00a0Luis Enrique Alonso, catedr\u00e1tico de Sociologia da UAM\u00a0e coordenador do grupo de pesquisas de Estudos sobre trabalho e cidadania. \u201cO que se busca \u00e9 uma ades\u00e3o psicol\u00f3gica integral e que n\u00e3o exista nada intermedi\u00e1rio entre o funcion\u00e1rio e a empresa, que n\u00e3o exista nenhum tipo de a\u00e7\u00e3o ou identidade coletiva\u201d, afirma. Esse ar de criatividade individualista e de modernidade\u00a0<em>hipster<\/em>\u00a0poderia ser visto como uma heran\u00e7a da contracultura dos anos sessenta assimilada pelo capitalismo contempor\u00e2neo: a rebeldia individualista antissistema transformada em ambi\u00e7\u00e3o individualista empresarial, como observam Chiapello e Boltanski em\u00a0<em>O novo esp\u00edrito do capitalismo<\/em>. O pebolim no escrit\u00f3rio. \u201cO fato \u00e9 que falar hoje em dia em organiza\u00e7\u00e3o e direitos coletivos soa como algo muito velho\u201d, conclui o professor, \u201co que nos leva a uma esp\u00e9cie de darwinismo social estimulado pela precariedade existente. Mascara-se, assim, a disputa encarni\u00e7ada pelos poucos postos dispon\u00edveis: salve-se quem puder\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEstamos agindo de forma \u00e9tica nas empresas?\u201d, questiona Fern\u00e1ndez. \u201cOs discursos sobre inova\u00e7\u00e3o aumentam, mas se trabalha cada vez mais, com mais disciplina e com um consumo cada vez maior de calmantes para suportar tudo isso\u201d, conclui.<\/p>\n<p>https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/10\/24\/economia\/1508848045_385114.html<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SERGIO C. FANJUL &#8211; Empresas usam t\u00e9cnicas psicol\u00f3gicas para obter ades\u00e3o mais \u00edntima e emocional de funcion\u00e1rios Adri\u00e1n era amarelo: ao ser contratado por uma pequena empresa de marketing digital, aplicaram-lhe um teste de personalidade. Vermelhos s\u00e3o os l\u00edderes; amarelos, os criativos; verdes, os criadores de um clima bom; e azuis, os d\u00f3ceis. 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