{"id":5817,"date":"2017-11-01T15:36:44","date_gmt":"2017-11-01T17:36:44","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=5817"},"modified":"2017-10-26T14:38:00","modified_gmt":"2017-10-26T16:38:00","slug":"avancamos-e-levamos-porrada-ao-mesmo-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/11\/01\/avancamos-e-levamos-porrada-ao-mesmo-tempo\/","title":{"rendered":"Avan\u00e7amos e levamos porrada ao mesmo tempo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Lu\u00eds Brasilino<\/strong> &#8211; Em entrevista, Klecius Borges, psic\u00f3logo especialista em terapia afirmativa para gays, l\u00e9sbicas, bissexuais e seus familiares, celebra conquistas dos homossexuais, como o aumento da visibilidade e da toler\u00e2ncia, mas destaca que ainda h\u00e1 um longo caminho para que os LGBT\u00b4s sejam plenamente aceitos na sociedadeLu\u00eds Brasilino<\/p>\n<p>LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL \u2013 O cotidiano LGBT vem melhorando no Brasil nos \u00faltimos anos?<\/p>\n<p>KLECIUS BORGES\u2013 A grande mudan\u00e7a das \u00faltimas duas d\u00e9cadas foi o aumento da visibilidade do que a gente chama de as diferen\u00e7as de sexualidade e identidade. At\u00e9 ent\u00e3o, a homossexualidade ou as sexualidades menos de acordo com a heteronormatividade viviam muito marginalizadas, restritas a guetos gays como bares e boates. A sociedade sabia que existia, mas o contato direto com essa realidade era muito pequeno. Normalmente, a representa\u00e7\u00e3o que existia era em cima de um estere\u00f3tipo, que a televis\u00e3o mostrava nos programas humor\u00edsticos, ou de figuras p\u00fablicas como estilistas, costureiros\u2026 Uma imagem muito voltada para um estere\u00f3tipo mais feminino, exagerado. Ent\u00e3o, nos anos 1980, a grande visibilidade gay come\u00e7ou a crescer nos Estados Unidos com o surgimento da aids, por mais paradoxal que possa ser. O que aconteceu? Com a s\u00edndrome, a sociedade come\u00e7ou a descobrir que aquelas pessoas existiam, que muitas eram homossexuais e ningu\u00e9m sabia. Ent\u00e3o passamos a perceber que o dentista do meu filho, o professor n\u00e3o sei do qu\u00ea, o m\u00e9dico etc. eram homossexuais. Houve uma sa\u00edda do arm\u00e1rio entre aspas. Nos Estados Unidos, essa visibilidade provocou, em fun\u00e7\u00e3o de toda uma cultura voltada para os direitos civis e o politicamente correto dos anos 1990, o aumento da representa\u00e7\u00e3o do gay na sociedade, n\u00e3o s\u00f3 com o Village People ou aquela coisa mais caricata do showbiz, mas no dia a dia. Assim, as s\u00e9ries norte-americanas come\u00e7aram a apresentar personagens gays, veio o filme Filad\u00e9lfia\u2026 Essas representa\u00e7\u00f5es, juntamente com todo o movimento chamado de orgulho gay, fizeram que de fato houvesse uma grande visibilidade. No Brasil, de uma maneira um pouco diferente, tamb\u00e9m fomos acompanhando isso. Vieram as paradas gays, que inicialmente eram muito marginais; come\u00e7ou a vir pelo lado negativo, com algumas figuras como o Cazuza e o Renato Russo, com a homossexualidade infelizmente associada \u00e0 aids\u2026 E isso vem evoluindo. Nos \u00faltimos anos, houve avan\u00e7os nas leis, nos direitos.<\/p>\n<p>DIPLOMATIQUE \u2013 A aceita\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m cresceu nesse per\u00edodo?<\/p>\n<p>BORGES \u2013 O que aumentou nesses anos foi a visibilidade e, com isso, o grau de toler\u00e2ncia da sociedade. Grau de toler\u00e2ncia porque j\u00e1 existe no imagin\u00e1rio coletivo a figura do gay, de um homossexual que n\u00e3o necessariamente \u00e9 o sujeito que vive na noite, marginal, que muitas vezes era misturado com o travesti, com o transexual. J\u00e1 existe a figura do gay bacana, o cara jovem e bonito que vai \u00e0 balada. E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o que as pessoas fazem na cama; os gays come\u00e7am a produzir um estilo de vida. Com esse aumento da visibilidade, h\u00e1 uma representa\u00e7\u00e3o social e cultural muito maior, com literatura, filmes com personagens gays, novelas com gays que fogem do estere\u00f3tipo. Assim, come\u00e7a-se a ver toda uma luta da milit\u00e2ncia contra o preconceito, contra as representa\u00e7\u00f5es degradantes da figura do homossexual\u2026 Enfim, hoje h\u00e1 uma nova visibilidade, uma maior toler\u00e2ncia, mas aceita\u00e7\u00e3o \u00e9 uma coisa complicada, que n\u00e3o \u00e9 tudo ou nada. Voc\u00ea diz: \u201cA sociedade aceita o gay?\u201d. Depende. Por exemplo, dizem: \u201cVoc\u00ea \u00e9 livre, tudo bem\u201d. Agora, quer que seu pai seja gay? N\u00e3o, a\u00ed \u00e9 diferente. E se for o professor do meu filho? H\u00e1 diferentes graus de aceita\u00e7\u00e3o. Ainda n\u00e3o chegamos a um n\u00edvel social e cultural em que haja aceita\u00e7\u00e3o da diversidade sexual com mais naturalidade.<\/p>\n<p>DIPLOMATIQUE \u2013 Como esse aumento da toler\u00e2ncia se reflete no dia a dia familiar?<\/p>\n<p>BORGES \u2013 \u00c9 muito dif\u00edcil saber como uma fam\u00edlia vai reagir. O preconceito \u00e9 sempre emocional. Ent\u00e3o, \u00e9 uma bobagem pensar que vou lidar melhor porque tenho a informa\u00e7\u00e3o de que a homossexualidade \u00e9 mais uma variante dentro das possibilidades da sexualidade humana. Claro que um peda\u00e7o do preconceito vem da falta de informa\u00e7\u00e3o, mas o peda\u00e7o inconsciente \u00e9 muito maior. \u00c9 irracional. Voc\u00ea at\u00e9 acha bacana, \u201ctudo bem, mas n\u00e3o na minha casa\u201d. At\u00e9 muito pouco tempo, a psiquiatria e a pr\u00f3pria psican\u00e1lise colocaram [a homossexualidade] como sendo, se n\u00e3o uma anormalidade, algum erro psicossexual. \u201cSe tudo der certo, o sujeito vai ser heterossexual.\u201d Mesmo n\u00e3o mais considerada uma doen\u00e7a, no coletivo h\u00e1 uma compreens\u00e3o de que seria uma anormalidade; n\u00e3o uma express\u00e3o natural, mas algo que est\u00e1 fora do ideal. Na fam\u00edlia, a primeira pergunta \u00e9: \u201cOnde eu errei?\u201d. S\u00e3o elementos mais irracionais do que racionais. O segundo comportamento que se v\u00ea na fam\u00edlia \u00e9 este: \u201cTudo bem, amo meu filho, mas como as outras pessoas v\u00e3o lidar com isso?\u201d. Vem o medo da rea\u00e7\u00e3o da sociedade, de como o filho vai sofrer e uma s\u00e9rie de frustra\u00e7\u00f5es. A primeira ideia de uma m\u00e3e e de um pai de um gay \u00e9: \u201cN\u00e3o vou ser av\u00f4(\u00f3)\u201d. De alguma maneira, aquele filho idealizado n\u00e3o vai acontecer. Isso \u00e9 muito claro em uma sexualidade que n\u00e3o \u00e9 a normativa. Das frustra\u00e7\u00f5es v\u00eam os medos, e a\u00ed surgem imagens que s\u00e3o muito poderosas. Sempre ou\u00e7o: \u201cMinha m\u00e3e diz que eu preciso tomar cuidado, que vou ficar sozinho, n\u00e3o vou ter filhos e morrerei sozinho\u201d. Existem imagens no inconsciente coletivo que s\u00e3o muito negativas, e isso \u00e9 internalizado inclusive nos pr\u00f3prios gays, que se preocupam com a velhice. Outra mudan\u00e7a muito interessante que vejo hoje \u00e9 que, na minha gera\u00e7\u00e3o, se um gay quisesse ser pai, ele s\u00f3 poderia fazer isso por meio de um casamento heterossexual \u2013 provavelmente uma mentira, n\u00e3o mentira do desejo de ser pai. Hoje essa possibilidade j\u00e1 existe. Ent\u00e3o, voc\u00ea j\u00e1 pode, como homem gay, se imaginar sendo pai.<\/p>\n<p>DIPLOMATIQUE \u2013 E existem outras conquistas no plano institucional.<\/p>\n<p>BORGES \u2013 Existem conquistas objetivas, mas estou falando mais do aspecto interiorizado. Objetivamente, h\u00e1 a parceria civil, algumas leis em alguns estados que protegem as rela\u00e7\u00f5es homoafetivas, iniciativas de boas pol\u00edticas p\u00fablicas. Mas n\u00f3s estamos falando de um sentimento que vai al\u00e9m do objetivo. Falei da ci\u00eancia, mas queria falar de outras verdades, como a religi\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma tradi\u00e7\u00e3o religiosa que considere natural a express\u00e3o da homossexualidade, nenhuma. Algumas s\u00e3o mais r\u00edgidas, outras menos, mas basicamente todas dizem: \u201cO homossexual tamb\u00e9m \u00e9 nosso filho, mas n\u00e3o [aprovamos] a sexualidade\u201d. Qual seria a solu\u00e7\u00e3o? N\u00e3o exercer a homossexualidade. Ent\u00e3o, ci\u00eancia e religi\u00e3o refletem uma postura diante da homossexualidade como uma express\u00e3o n\u00e3o natural. O que se sabe \u00e9 que se trata de uma varia\u00e7\u00e3o da sexualidade que sempre existiu e que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 do humano \u2212 muitos estudos mostram a homossexualidade em v\u00e1rias esp\u00e9cies. Mas o que n\u00f3s chamamos de ser homossexual, na nossa cultura, \u00e9 algo espec\u00edfico e culturalmente constru\u00eddo, a cultura gay.<\/p>\n<p>DIPLOMATIQUE \u2013 Isso n\u00e3o partiria de uma necessidade de dar um r\u00f3tulo, na verdade criando uma distin\u00e7\u00e3o do que seria \u201cnormal\u201d?<\/p>\n<p>BORGES \u2013 Do ponto de vista cultural, o que acontece \u00e9 que essa identidade homossexual \u00e9 uma forma de defesa em uma sociedade heteronormativa, e as pessoas se autoidentificam com isso. Na minha gera\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se sabia o que era. Havia um desejo diferente, mas n\u00e3o havia ningu\u00e9m na fam\u00edlia para perguntar, n\u00e3o existiam modelos. Hoje, qualquer menino de 13 anos que sentir um desejo homoer\u00f3tico j\u00e1 sabe que isso tem um nome, que isso \u00e9 ser gay.<\/p>\n<p>DIPLOMATIQUE \u2013 N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um estere\u00f3tipo.<\/p>\n<p>BORGES \u2013 \u00c9 isso que a gente chama de espelho. Quando eu era jovem, via figuras conhecidas, mas eu n\u00e3o era aquilo, n\u00e3o essa pessoa afetada, n\u00e3o tinha nada a ver comigo. Mas onde ia achar um modelo? N\u00e3o havia. Ent\u00e3o h\u00e1 a\u00ed um movimento cultural gay que, como qualquer movimento de minoria, vai formar uma identidade, trabalhar esse conceito de orgulho, que \u00e9 uma forma de prote\u00e7\u00e3o em um mundo muito hostil.<\/p>\n<p>DIPLOMATIQUE \u2013 Ent\u00e3o, esse movimento promove um avan\u00e7o importante no sentido da autoaceita\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>BORGES \u2013 Para o sujeito entrar nesse grupo, ele tem um longo caminho at\u00e9 dizer: \u201cDe fato, eu sou gay\u201d. Embora isso aconte\u00e7a mais facilmente agora, muitas pessoas n\u00e3o se aceitam, ou se aceitam em graus menores. \u00c9 complicado. Uma coisa \u00e9 o sujeito ter um comportamento homossexual, fazer sexo com outros homens, outra \u00e9 se autoidentificar como tal. Dizer \u201ceu sou gay\u201d \u00e9 um est\u00e1gio avan\u00e7ado da autoaceita\u00e7\u00e3o e de afirma\u00e7\u00e3o diante de uma cultura heteronormativa. Ent\u00e3o chegamos ao ponto em que existe uma maior visibilidade dessa cultura que estou chamando de gay, que h\u00e1 espet\u00e1culo de teatro, literatura, festival Mix Brasil, parada, eventos. Mais recentemente vemos outro movimento, que s\u00e3o lugares cada vez mais misturados. Se voc\u00ea for para o Baixo Augusta [na cidade de S\u00e3o Paulo], os bares n\u00e3o s\u00e3o gays. Passamos de uma situa\u00e7\u00e3o de invisibilidade, de uma situa\u00e7\u00e3o de uma vida marginal, para a ocupa\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os p\u00fablicos. O grande problema da Avenida Paulista \u00e9 esse. Os atos homof\u00f3bicos s\u00e3o contra a ocupa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o heterossexual, heteronormativo, por essas pessoas. H\u00e1 uma garotada que n\u00e3o se identifica mais, n\u00e3o quer ir ao bar, \u00e0 boate gay. Ent\u00e3o, passam a existir baladas que s\u00e3o misturadas. Na minha vis\u00e3o, o que acontece \u00e9 que, na medida em que a sociedade fica mais tolerante, n\u00e3o preciso me esconder tanto, e a sociedade deixa de me definir apenas pela minha orienta\u00e7\u00e3o homossexual. Antes, era assim: gay \u00e9 gay. Hoje, as pessoas j\u00e1 conseguem entender que ser homossexual ou homoafetivo \u00e9 um atributo da identidade. Esse atributo ficou durante um longo tempo muito importante, porque ele precisava sobreviver.<\/p>\n<p>DIPLOMATIQUE \u2013 E como voc\u00ea analisa a aceita\u00e7\u00e3o nos espa\u00e7os p\u00fablicos em geral?<\/p>\n<p>BORGES \u2013 H\u00e1 muitos mais espa\u00e7os p\u00fablicos, n\u00e3o no sentido de espa\u00e7o f\u00edsico, mas, por exemplo, de presen\u00e7a na m\u00eddia, em eventos, congressos, no mundo corporativo. Temos as paradas e o festival Mix Brasil, al\u00e9m de lugares de lazer, bares, restaurantes, baladas, grupos de atividades que se re\u00fanem, como o Gay Bikers e um grupo que joga v\u00f4lei no Parque do Ibirapuera\u2026 No n\u00edvel internacional, h\u00e1 as olimp\u00edadas gays\u2026 N\u00e3o h\u00e1 uma s\u00e9rie de televis\u00e3o norte-americana que n\u00e3o tenha um personagem gay, normalmente mostrado de maneira muito positiva. Claro que isso n\u00e3o representa a cultura norte-americana como um todo, mas mostra o grau de visibilidade que isso atingiu no pa\u00eds. No Brasil, \u00e9 um pouco menos, mas j\u00e1 est\u00e1 acontecendo.<\/p>\n<p>DIPLOMATIQUE \u2013 E no trabalho, os LGBTs s\u00e3o mais aceitos?<\/p>\n<p>BORGES \u2013 Tradicionalmente, muitos gays se deram bem em certas profiss\u00f5es em que ser gay n\u00e3o \u00e9 grande problema. Muitos gays escolheram inconscientemente profiss\u00f5es nas quais eles n\u00e3o iriam sofrer, na cabe\u00e7a deles pelo menos, grandes press\u00f5es. S\u00e3o profiss\u00f5es mais ligadas \u00e0 arte, \u00e0 cria\u00e7\u00e3o etc., ou profissionais liberais, que tamb\u00e9m conseguem ter um grau de independ\u00eancia maior. No mundo corporativo \u00e9 outra realidade. Houve uma grande mudan\u00e7a. As empresas norte-americanas, por causa da cultura dos Estados Unidos que nos anos 1990 passou a encarar a diversidade como um diferencial de mercado, trouxeram programas de diversidade, uma cultura que dizia: \u201cOlha, tudo bem se voc\u00ea \u00e9 gay\u201d. Isso existe h\u00e1 anos. Hoje, no Brasil, h\u00e1 um perfil de organiza\u00e7\u00f5es mais sofisticadas, nas quais isso n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o problem\u00e1tica. Para voc\u00ea ter uma ideia, h\u00e1 pouco tempo fui chamado por uma multinacional para preparar a equipe porque um dos gerentes havia sa\u00eddo de f\u00e9rias e quando voltasse teria mudado de sexo. Agora, essa n\u00e3o \u00e9 a realidade em empresas de m\u00e9dio porte nem em algumas companhias com uma vis\u00e3o mais tradicional. No Brasil, essas empresas trabalham na linha do \u201ctodo mundo sabe, mas n\u00e3o se fala nesse assunto\u201d. Ent\u00e3o, podemos dividir o mercado assim: uma elite de organiza\u00e7\u00f5es em que essa quest\u00e3o \u00e9 tranquila, os trabalhadores podem levar o companheiro na festa de fim de ano etc.; e a grande maioria, em que se tolera.<\/p>\n<p>DIPLOMATIQUE \u2013 Voc\u00ea acha que a viol\u00eancia homof\u00f3bica tem aumentado?<\/p>\n<p>BORGES \u2013 N\u00e3o. Veja, n\u00e3o tenho estat\u00edsticas, sou um observador dessas cenas. A minha leitura \u00e9 que isso \u00e9 consequ\u00eancia da maior visibilidade. Poderia acontecer, mas eu n\u00e3o sei de casos de gente que pega o carro e vai de um lado para outro para bater em ningu\u00e9m, n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>DIPLOMATIQUE \u2013 E na Avenida Paulista\u2026?<\/p>\n<p>BORGES \u2013 Existe. Na minha percep\u00e7\u00e3o, essa viol\u00eancia tem a ver com uma resposta da sociedade, ainda muito homof\u00f3bica, \u00e0 visibilidade. E h\u00e1 outra coisa, psicologicamente falando: aquelas pessoas t\u00eam uma quest\u00e3o muito espec\u00edfica com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sexualidade, e a agress\u00e3o tamb\u00e9m tem a ver com isso. Algumas pessoas podem n\u00e3o gostar; podem, num jogo de futebol, dizer \u201csua bicha\u201d\u2026 Outra coisa \u00e9 bater em algu\u00e9m. Nesse caso, estamos falando de uma coisa que tem a ver tamb\u00e9m com as quest\u00f5es sexuais. Para bater em algu\u00e9m e matar uma pessoa, est\u00e1 tentando matar algu\u00e9m dentro dele, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>DIPLOMATIQUE \u2013 De forma geral, seu balan\u00e7o \u00e9 positivo?<\/p>\n<p>BORGES \u2013 H\u00e1uma evolu\u00e7\u00e3o no mundo ocidental de maneira geral em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s conquistas de liberdades individuais. Ent\u00e3o, em primeiro lugar, o movimento dos gays vem atrelado a isso, \u00e0s liberdades individuais. Temos a quest\u00e3o da religi\u00e3o, da religi\u00e3o cat\u00f3lica, e isso conta muito no Brasil. Por exemplo, a Argentina tem leis muito adiantadas em rela\u00e7\u00e3o ao Brasil. Por qu\u00ea? Porque n\u00e3o somos t\u00e3o livres nos nossos costumes, e aqui h\u00e1 uma influ\u00eancia muito forte da religi\u00e3o. Por que n\u00e3o conseguimos aprovar uma legisla\u00e7\u00e3o contra a homofobia, que todo mundo j\u00e1 tem? Porque a bancada evang\u00e9lica n\u00e3o deixa. Todas as conquistas que tivemos no Brasil, como a parceria civil, vieram do Judici\u00e1rio. Mas posso dizer que nos \u00faltimos dez anos n\u00f3s andamos muito. Acabei de saber que um ex-paciente meu ganhou o Pr\u00eamio Esso e, na premia\u00e7\u00e3o, ele agradeceu ao companheiro dele. A gente avan\u00e7ou muito para ele poder fazer isso. Agora, o que falta no Brasil? Uma legisla\u00e7\u00e3o que garanta de fato a possibilidade de os homoafetivos poderem ter o direito de casar e seja contra a homofobia. Respondendo \u00e0 sua pergunta, acho que h\u00e1 um avan\u00e7o no movimento dos direitos individuais, e o Brasil tem acompanhado isso, democracia plena etc. Agora, a grande mudan\u00e7a cultural \u00e9 a visibilidade: voc\u00ea est\u00e1 no arm\u00e1rio e, quando sai, simbolicamente voc\u00ea ganha um espa\u00e7o na sociedade. Isso faz que voc\u00ea avance e leve porrada ao mesmo tempo. Mas n\u00e3o h\u00e1 conquista social sem isso.<\/p>\n<p>http:\/\/diplomatique.org.br\/avancamos-e-levamos-porrada-ao-mesmo-tempo\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lu\u00eds Brasilino &#8211; Em entrevista, Klecius Borges, psic\u00f3logo especialista em terapia afirmativa para gays, l\u00e9sbicas, bissexuais e seus familiares, celebra conquistas dos homossexuais, como o aumento da visibilidade e da toler\u00e2ncia, mas destaca que ainda h\u00e1 um longo caminho para que os LGBT\u00b4s sejam plenamente aceitos na sociedadeLu\u00eds Brasilino LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL \u2013 O [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1405,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[8],"tags":[54,51],"class_list":["post-5817","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sociedade","tag-comportamento","tag-preconceito"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.8 - 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