{"id":581,"date":"2016-06-13T12:16:59","date_gmt":"2016-06-13T15:16:59","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=581"},"modified":"2016-06-07T16:21:01","modified_gmt":"2016-06-07T19:21:01","slug":"a-esquerda-em-pane","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/06\/13\/a-esquerda-em-pane\/","title":{"rendered":"A esquerda em pane"},"content":{"rendered":"<p><strong>Renaud Lambert<\/strong> &#8211; Derrota acachapante na Venezuela, virada \u00e0 direita na Argentina, crise econ\u00f4mica e pol\u00edtica no Brasil, manifesta\u00e7\u00f5es de rua no Equador: a esquerda latino-americana entrou em pane. As maquina\u00e7\u00f5es de Washington n\u00e3o bastam para explicar tal esgotamento.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.diplomatique.org.br\/upload\/editor\/images\/diplo001.jpg?w=640\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p>Na avenida que leva ao centro da cidade, uma enorme picha\u00e7\u00e3o chama aten\u00e7\u00e3o: \u201cN\u00e3o vamos pagar pela crise dos banqueiros\u201d. Nos \u00faltimos anos, a frase se tornou banal na maioria das capitais europeias, mas surpreende aqui. Estamos no Rio de Janeiro, onde, h\u00e1 dois anos, se estava em plena festa.<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o de 2013, no mesmo local, a pista dupla parecia atravessar uma floresta de gruas. O clima geral inspirara uma cobertura de destaque na publica\u00e7\u00e3o semanal brit\u00e2nica The Economist: no meio da tormenta financeira, sob a bruma, a est\u00e1tua do Cristo Redentor parecia flutuar no alto do Corcovado. \u201cBrasil decola\u201d, proclamava a revista, que dedicou catorze p\u00e1ginas ao \u201cmais belo sucesso latino-americano\u201d (14 nov. 2009).<\/p>\n<p>Sem conseguir tirar proveito da derrocada liberal, a esquerda europeia voltou seus olhos para o outro lado do Atl\u00e2ntico, em busca de raz\u00f5es para ter esperan\u00e7a. Os sucessos do \u201claborat\u00f3rio latino-americano\u201d \u2013 celebrados no ritmo do samba brasileiro, da morenada boliviana, do pasillo equatoriano, do joropo venezuelano \u2013 n\u00e3o davam motivos para que ela tamb\u00e9m pudesse sonhar com a vit\u00f3ria?<\/p>\n<p>No entanto, ap\u00f3s uma desacelera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica internacional que afetou particularmente as economias do subcontinente (ver p\u00e1g. 18), o quadro ficou obscuro.<\/p>\n<p>Vamos recordar. Em 6 de novembro de 2013, o presidente equatoriano, Rafael Correa, lan\u00e7ou uma acusa\u00e7\u00e3o intransigente contra o liberalismo, durante uma confer\u00eancia na Sorbonne, em Paris. Um ano depois, assinava um acordo de livre-com\u00e9rcio com a Uni\u00e3o Europeia (ver boxe \u201cTrai\u00e7\u00e3o?\u201d, na pr\u00f3xima p\u00e1g.).<\/p>\n<p>Apesar das dificuldades, a \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Bolivariana\u201d foi sempre ilustrada por sua determina\u00e7\u00e3o em melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida dos venezuelanos. Em 26 de janeiro de 2015, um documento da \u2013 bastante neutra \u2013 Comiss\u00e3o Econ\u00f4mica para a Am\u00e9rica Latina e o Caribe (Cepal) anunciou que a taxa de pobreza no pa\u00eds aumentou de 25,4% para 32,1% entre 2012 e 2013.1<\/p>\n<p>Na campanha presidencial de outubro de 2014, uma r\u00e9plica de Dilma Rousseff, ent\u00e3o candidata \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o, durante um debate na TV, marcou os esp\u00edritos. Acusando seu oponente A\u00e9cio Neves, do (PSDB, direita), por seu gosto pelo arrocho, ela exclamou: \u201cA \u00fanica coisa que voc\u00ea sabe fazer \u00e9 cortar, cortar, cortar!\u201d (Bandeirantes, 14 out. 2014). Menos de um ano depois, ela advogava o \u201crem\u00e9dio amargo\u201d da austeridade, cortando justamente os programas sociais que prometera defender (O Estado de S. Paulo, 9 set. 2015).<\/p>\n<p>Enquanto Cuba, o s\u00edmbolo regional da luta contra o imperialismo, inaugura um \u201cConselho de Neg\u00f3cios\u201d em parceria com a C\u00e2mara de Com\u00e9rcio dos Estados Unidos, o peronismo de esquerda \u00e9 derrotado no segundo turno da elei\u00e7\u00e3o presidencial argentina de novembro de 2015. No Brasil, no Equador e na Venezuela, manifesta\u00e7\u00f5es de rua exigem a ren\u00fancia de governos eleitos gra\u00e7as a poderosos movimentos sociais.<\/p>\n<p><strong>O \u00f4nus de chegar ao poder<\/strong><\/p>\n<p>\u201cOntem, a Am\u00e9rica Latina era uma fonte de inspira\u00e7\u00e3o para a esquerda europeia. Quando passam a aplicar aqui as mesmas pol\u00edticas de austeridade da Europa, ocorre o oposto\u201d, observa Guilherme Boulos, l\u00edder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Para depois lan\u00e7ar: \u201cMuita gente aqui fala da necessidade de criar um Podemos brasileiro\u201d.<\/p>\n<p>Nascido com o objetivo de importar para a Europa o sucesso da esquerda latino-americana, estaria o partido espanhol se transformando em um modelo para a regi\u00e3o que o inspirou? Ocorre que os progressistas parecem ter perdido a b\u00fassola. Estar\u00edamos condenados a ca\u00e7ar a esperan\u00e7a pelo mundo afora, correndo o risco de andar em c\u00edrculos? Se acreditarmos que a den\u00fancia ritual de trai\u00e7\u00f5es e viradas de casaca esgota a an\u00e1lise das dificuldades da esquerda no poder, talvez. Se n\u00e3o for esse o caso, o interesse do \u201claborat\u00f3rio latino-americano\u201d n\u00e3o desaparece, embora tenha dificuldade de alcan\u00e7ar novas vit\u00f3rias. Tentar entender as tens\u00f5es que o atravessam pode revelar-se muito instrutivo.<\/p>\n<p>Impens\u00e1vel, poderiam retrucar. Nem as hist\u00f3rias, nem os l\u00edderes, nem os projetos pol\u00edticos dos pa\u00edses da regi\u00e3o s\u00e3o os mesmos. Como comparar o Brasil de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, ansioso por satisfazer tanto os banqueiros quanto os pobres, com a Venezuela de Hugo Ch\u00e1vez, determinado a construir o \u201csocialismo do s\u00e9culo XXI\u201d? Essa n\u00e3o \u00e9 uma obje\u00e7\u00e3o falsa. Mas do altiplano boliviano \u00e0 Fran\u00e7a de 1981, do Caribe venezuelano aos Estados Unidos do New Deal, as for\u00e7as de esquerda muitas vezes enfrentam dem\u00f4nios parecidos&#8230;<\/p>\n<p>\u201cCada vez que um partido de esquerda chega ao poder, ele se fragiliza\u201d,2 observou Lula recentemente. A via das urnas tem vantagens valiosas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 das armas, a come\u00e7ar pela maior probabilidade de n\u00e3o ser assassinado, preso ou torturado antes que a revolu\u00e7\u00e3o aconte\u00e7a. Mas ela tamb\u00e9m imp\u00f5e certas restri\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de fornecer os quadros para o governo e os minist\u00e9rios cujas r\u00e9deas assumiu em 2003, o PT de Dilma Rousseff e de Lula viu suas for\u00e7as esva\u00eddas em escala local. Em 2000, ele contava com 187 n\u00facleos municipais; em 2008, com 559 \u2013 tr\u00eas vezes mais. Embora recrute novos militantes, isso se d\u00e1 em um contexto no qual a forma\u00e7\u00e3o de quadros \u201catrofiou-se gradualmente em torno de quest\u00f5es pr\u00e1ticas: como gerenciar um mandado? Como legislar? Como comunicar suas pol\u00edticas p\u00fablicas?\u201d,3 lamenta Valter Pomar, do PT. Consequentemente, nas palavras de Marco Aur\u00e9lio Garcia, assessor especial para Assuntos Internacionais da Presid\u00eancia brasileira: \u201cPerdemos o contato com a sociedade, paramos de refletir e nos burocratizamos\u201d.4 Em suma, o PT n\u00e3o consegue mais mobilizar, especialmente no que diz respeito a uma juventude reivindicativa que n\u00e3o conheceu as grandes batalhas que o partido travou antes de chegar ao poder.<\/p>\n<p>Assim como o vice-presidente boliviano (ver artigo na p\u00e1g. 14), o presidente equatoriano, Rafael Correa, tamb\u00e9m se mostra consciente dessa dificuldade. Enquanto a direita organizava sua contraofensiva, ele confiou a seu ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, Ricardo Pati\u00f1o \u2013 um de seus pr\u00f3ximos \u2013, a miss\u00e3o de \u201crefor\u00e7ar as bases\u201d de seu movimento, o Alianza Pa\u00eds. O objetivo: \u201cQue em duas horas estejamos em condi\u00e7\u00f5es de encher a Plaza Grande\u201d, o principal ponto de encontro da capital equatoriana (El Universo, 16 jul. 2015).<\/p>\n<p>No entanto, militantes e movimentos sociais aceitam mais facilmente o papel de correia de transmiss\u00e3o do poder quando este tolera suas cr\u00edticas \u2013 disposi\u00e7\u00e3o nem sempre manifesta por Correa. Um exemplo: em outubro de 2013, um grupo de deputados do Alianza Pa\u00eds, apoiado por muitos militantes, queria a legaliza\u00e7\u00e3o do aborto, em um novo c\u00f3digo penal. Contr\u00e1rio \u00e0 ideia, o presidente logo declarou: \u201cSe esse tipo de trai\u00e7\u00e3o e comportamento desleal continuar [&#8230;], eu renuncio\u201d.5 Os deputados recuaram.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de afastar os l\u00edderes pol\u00edticos de sua base, a institucionaliza\u00e7\u00e3o os divide. Em 2014, o cientista pol\u00edtico norte-americano Steve Ellner criticou o peso que os representantes eleitos t\u00eam dentro do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV): \u201cOs sete vice-presidentes do partido, que representam as regi\u00f5es do pa\u00eds, s\u00e3o governadores ou membros do gabinete do presidente Nicolas Maduro\u201d. Ao contr\u00e1rio do que aconteceu no primeiro congresso, em 2009, os delegados de 2014 n\u00e3o foram eleitos pelos militantes: eram governadores, prefeitos e deputados, al\u00e9m de militantes \u201cescolhidos \u2018por consenso\u2019\u201d.6<\/p>\n<p>Constata\u00e7\u00e3o semelhante um pouco mais ao sul. \u201cAntes de chegar ao poder, a vida interna do PT refletia o contraste entre as diferentes correntes e an\u00e1lises estrat\u00e9gicas\u201d, observa o economista Reinaldo Gon\u00e7alves. \u201cDepois, os eleitos tomaram o poder.\u201d7 Artur Henrique, ex-presidente da maior central sindical brasileira (CUT), confidencia que os mandatos podem transformar os militantes: \u201cEm nome da \u2018governabilidade\u2019 do pa\u00eds, eles agora nos dizem que n\u00e3o podemos fazer isso, n\u00e3o podemos fazer aquilo&#8230;\u201d. Quando a t\u00e1tica \u2013 encarar as elei\u00e7\u00f5es como uma etapa rumo \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o do mundo \u2013 se transforma em estrat\u00e9gia \u2013 adaptar suas convic\u00e7\u00f5es ao objetivo eleitoral \u2013, a ambi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica se esgar\u00e7a. Pode at\u00e9 desaparecer: agora, \u201co PT \u00e9 mais um obst\u00e1culo do que um trunfo\u201d, dispara Jean Tible, militante do partido.8 Teria ele chegado \u00e0 mesma conclus\u00e3o caso sua forma\u00e7\u00e3o tivesse se dedicado a transformar o sistema pol\u00edtico brasileiro, a fim de \u201cdemocratizar a democracia\u201d no pa\u00eds? O partido n\u00e3o pensou nisso. Assim, abriu m\u00e3o de combater o poder do dinheiro, a corrup\u00e7\u00e3o e os lobbies&#8230;<\/p>\n<p>As dificuldades da via democr\u00e1tica para o socialismo n\u00e3o se limitam, por\u00e9m, aos efeitos perversos do exerc\u00edcio do poder. Elas tamb\u00e9m envolvem definir com quais eleitores contar. Nos pa\u00edses onde as ditaduras reprimiram as organiza\u00e7\u00f5es comunistas, o neoliberalismo pulverizou os raros basti\u00f5es de trabalhadores e a m\u00eddia permanece nas m\u00e3os do setor privado, querer forjar uma base eleitoral majorit\u00e1ria focando exclusivamente os segmentos radicalizados da popula\u00e7\u00e3o equivale \u2013 por enquanto&#8230; \u2013 a perseguir uma quimera; renunciar a eles, a entreabrir a porta ao pragmatismo, sem saber at\u00e9 que ponto ela vai se escancarar.<\/p>\n<p><strong>Quando come\u00e7amos a governar para a direita?<\/strong><\/p>\n<p>As alian\u00e7as s\u00e3o forjadas principalmente no campo progressista. Nem Ch\u00e1vez nem Correa surgiram em forma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas j\u00e1 existentes. Nos contextos de crise pol\u00edtica, eles foram apresentados por movimentos heterog\u00eaneos, cuja coes\u00e3o n\u00e3o se baseava em uma compatibilidade real, mas em uma certeza: a de que o retorno de uma verdadeira democracia era um pr\u00e9-requisito indispens\u00e1vel para a realiza\u00e7\u00e3o das ambi\u00e7\u00f5es de cada componente da coaliz\u00e3o. As novas Constitui\u00e7\u00f5es, redigidas ap\u00f3s a chegada ao poder da esquerda na Venezuela, Equador e Bol\u00edvia, \u00e0s vezes refletem essa indefini\u00e7\u00e3o. E anunciam, nas entrelinhas, algumas decep\u00e7\u00f5es futuras \u2013 como no que concerne \u00e0 quest\u00e3o da prote\u00e7\u00e3o da \u201cM\u00e3e Terra\u201d.<\/p>\n<p>Por fora do arco de for\u00e7as que comp\u00f5em a esquerda, as concess\u00f5es devem continuar sendo tempor\u00e1rias e limitadas a \u201cconsiderar uma parte das necessidades de seus advers\u00e1rios\u201d,9 avalia o vice-presidente da Bol\u00edvia, \u00c1lvaro Garc\u00eda Linera. Nada de alian\u00e7a com a direita, mas com alguns dos setores que ela tradicionalmente representa: a classe m\u00e9dia, certas franjas do patronato. Concordando em trabalhar dentro de institui\u00e7\u00f5es mais restritivas para chegar ao Poder Executivo, o PT atravessou o rubic\u00e3o. Em 1980, quando foi criado, ele declarava-se \u201csem patr\u00f5es\u201d; em 2002, aliou-se ao empres\u00e1rio evang\u00e9lico Jos\u00e9 Alencar para ganhar a presid\u00eancia e a v\u00e1rios partidos conservadores para constituir seu governo.<\/p>\n<p>Da pequena concess\u00e3o ao amplo comprometimento, n\u00e3o h\u00e1 fronteira clara, mas um d\u00e9grad\u00e9 cujas nuances s\u00e3o percebidas de maneiras diversas, conforme se esteja do lado do governo ou do lado dos movimentos sociais. Em que momento se deixa de governar com a direita e passa-se a governar para ela? No Brasil, Dilma adotou o roteiro de seus advers\u00e1rios pol\u00edticos. As ren\u00fancias acumulam-se ainda mais rapidamente pelo fato de que a press\u00e3o eleitoral n\u00e3o se dissipa ap\u00f3s o t\u00e9rmino das elei\u00e7\u00f5es: os brasileiros votam a cada dois anos, saindo de uma campanha apenas para cair no turbilh\u00e3o da pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>\u201cAcusam-nos de n\u00e3o sermos \u2018verdadeiros democratas\u2019, por\u00e9m, desde 2007, ganhamos dez elei\u00e7\u00f5es, mais de uma por ano\u201d, afirma um alto funcion\u00e1rio equatoriano. \u201cMas o calend\u00e1rio eleitoral n\u00e3o \u00e9 o da pol\u00edtica, e eu devo admitir que \u00e0s vezes seria prefer\u00edvel podermos nos dedicar \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o de nossa pol\u00edtica a ter de fazer campanha.\u201d Uma das virtudes da democracia tamb\u00e9m \u00e9 seu principal desafio: o poder, sempre em jogo, torna-se prec\u00e1rio. Quando a oposi\u00e7\u00e3o \u00e9 suficientemente conservadora, ela pode contar com o apoio dos meios de comunica\u00e7\u00e3o e do setor privado. Quando o ambiente econ\u00f4mico impede que a esquerda sustente o discurso de esperan\u00e7a, seria um equ\u00edvoco a direita n\u00e3o se apropriar dele.<\/p>\n<p>Basta saber mensurar a import\u00e2ncia das quest\u00f5es sociais na popula\u00e7\u00e3o, e eis que a direita se traveste de nova vanguarda. H\u00e1 dois anos, Henrique Capriles, representante da direita venezuelana, mais sutil que seus aliados golpistas, exp\u00f4s suas novas convic\u00e7\u00f5es ao jornal Le Monde. Dizendo-se \u201cdistante da direita\u201d, o bom rapaz que participou do golpe (fracassado) de 2002 contra Ch\u00e1vez declarou, com a m\u00e3o no peito: \u201cA chave para a mudan\u00e7a est\u00e1 nos barrios [favelas]\u201d; por isso, seria necess\u00e1rio \u201cvoltar aos m\u00e9todos tradicionais de milit\u00e2ncia: contato direto, porta a porta, assembleias de bairro, trabalho de formiguinha\u201d (3 abr. 2014).<\/p>\n<p>Dificuldade adicional quando se depende de eleitores: o \u201cadvers\u00e1rio cujas necessidades devem ser satisfeitas\u201d, retomando as palavras de Garc\u00eda Linera, n\u00e3o se encontra apenas em c\u00edrculos conservadores. Ele tamb\u00e9m se cristaliza na rela\u00e7\u00e3o mantida por todo mundo com a sociedade de consumo, inclusive pela esquerda. Questionado sobre as raz\u00f5es pelas quais n\u00e3o iria mais longe na transforma\u00e7\u00e3o de seu pa\u00eds, o ex-presidente uruguaio Jos\u00e9 \u201cPepe\u201d Mujica respondeu: \u201cPorque as pessoas querem iPhones!\u201d.10 Ser pobre n\u00e3o significa ser revolucion\u00e1rio. E nem todos os revolucion\u00e1rios sonham com assembleias gerais febris.<\/p>\n<p><strong>\u201cN\u00e3o sou mais pobre, voto na direita\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Ocorre que o aumento do padr\u00e3o de vida, principal conquista da esquerda latino-americana, favorece certos reacionarismos. \u00c0s v\u00e9speras do primeiro turno das elei\u00e7\u00f5es presidenciais argentinas, em outubro de 2015, as redes sociais progressistas exibiam um gr\u00e1fico intitulado \u201cOs ciclos econ\u00f4micos da Argentina\u201d. O esquema apresentava as diferentes etapas de um processo circular: 1) \u201cA direita destr\u00f3i a classe m\u00e9dia\u201d; 2) \u201cA classe m\u00e9dia, pauperizada, vota em um governo popular\u201d; 3) \u201cEleito, esse governo melhora o n\u00edvel de vida da classe m\u00e9dia\u201d; 4) \u201cA classe m\u00e9dia acha que \u00e9 parte da oligarquia e vota na direita\u201d. De volta \u00e0 estaca zero.<\/p>\n<p>E o fen\u00f4meno n\u00e3o se restringe \u00e0s camadas intermedi\u00e1rias da popula\u00e7\u00e3o. Quando questionamos o enfraquecimento da capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Brasil, o professor universit\u00e1rio Armando Boito oferece uma explica\u00e7\u00e3o: embora t\u00edmidas, as pol\u00edticas do PT transformaram uma fra\u00e7\u00e3o do movimento em pequenos camponeses estabelecidos. Sua radicalidade foi atenuada quando eles passaram a ter algo mais a perder al\u00e9m de suas correntes. O que mais impulsiona o sonho conservador de uma \u201csociedade de propriet\u00e1rios\u201d?<\/p>\n<p>N\u00e3o basta desejar o nascimento do \u201chomem novo\u201d, caro a Ernesto \u201cChe\u201d Guevara, para que ele exista, nem mesmo em Cuba. Mas algumas pol\u00edticas talvez dificultem as coisas. Presidente do Banco Central da Bol\u00edvia em diferentes governos conservadores, o atual ministro da Economia, Luis Arce, comemora: \u201cAgora todo mundo tem a oportunidade de ficar rico na Bol\u00edvia\u201d. Dever\u00edamos ficar surpresos? Esse eco de Fran\u00e7ois Guizot, um dos pensadores conservadores e liberais da Restaura\u00e7\u00e3o francesa, facilita a emerg\u00eancia de uma nova burguesia nativa, n\u00e3o necessariamente mais progressista que a anterior, sendo a \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d resumida nos seguintes termos por um de seus membros: \u201cEu tenho dinheiro, posso fazer o que quiser\u201d.11<\/p>\n<p>Embora o \u201cprocesso bolivariano\u201d seja ilustrado por sua capacidade de estimular a politiza\u00e7\u00e3o do povo (ver artigo na p\u00e1g. 17), parte de sua base tamb\u00e9m est\u00e1 tentada a virar-lhe as costas. O embaixador da Venezuela em Paris, H\u00e9ctor Michel Mujica Ricardo, conta uma hist\u00f3ria. \u00c0s v\u00e9speras da elei\u00e7\u00e3o presidencial de 2013, ele conheceu uma jovem de um bairro popular. Ela encarna, a seu ver, a categoria da popula\u00e7\u00e3o que mais se beneficiou das pol\u00edticas redistributivas ambiciosas do governo: \u201cAntes, eu vivia na mis\u00e9ria. Foi gra\u00e7as a Ch\u00e1vez que sa\u00ed de l\u00e1\u201d, ela confirma, antes de acrescentar, como prova: \u201cAgora que n\u00e3o sou mais pobre, voto na oposi\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Da Argentina \u00e0 Venezuela, seria necess\u00e1rio ent\u00e3o concluir que a melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida afasta mecanicamente seus benefici\u00e1rios da esquerda? \u201cH\u00e1 muitas maneiras de elevar o n\u00edvel de vida das pessoas\u201d, objeta Pomar. \u201cO que fizemos no Brasil foi aumentar o consumo, o que aumentou a submiss\u00e3o \u00e0s l\u00f3gicas do mercado.\u201d Assim, o PT permitiu que os mais pobres colocassem seus filhos em escolas privadas, tivessem acesso \u00e0 medicina particular, planejassem sua aposentadoria por meio de planos de capitaliza\u00e7\u00e3o. \u201cN\u00e3o \u00e9 desse modo que se desenvolve consci\u00eancia pol\u00edtica. Seria mais eficiente construir servi\u00e7os p\u00fablicos. Mas teria sido necess\u00e1rio aumentar os impostos, portanto enfrentar a burguesia. Uma via incompat\u00edvel com a estrat\u00e9gia de concilia\u00e7\u00e3o adotada por Lula, e depois por Dilma&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Em um contexto de desacelera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, a via das concess\u00f5es conduz ao impasse. Nenhum dos governos progressistas latino-americanos conseguiu transformar sua estrutura produtiva: dependentes de suas exporta\u00e7\u00f5es de mat\u00e9rias-primas, eles se veem entregues \u00e0 turbul\u00eancia internacional. As coisas n\u00e3o parecem ir melhor na \u00e1rea fiscal. Quando a renda colapsa e a economia estagna (ou recua), o montante dispon\u00edvel para a redistribui\u00e7\u00e3o derrete como neve sob o sol. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel aliviar os mais fracos sem perturbar os poderosos. Mas, para confrontar os interesses destes, \u00e9 melhor contar com a mobiliza\u00e7\u00e3o daqueles. Ap\u00f3s um per\u00edodo de afastamento, conseguir\u00e3o os l\u00edderes progressistas se reintegrar aos movimentos sociais? E estes conseguir\u00e3o reacender a esperan\u00e7a?<\/p>\n<p><strong>BOX 1: TRAI\u00c7\u00c3O<br \/>\n<\/strong><br \/>\nA l\u00f3gica de que o livre-com\u00e9rcio beneficia a todos \u00e9 uma mentira, uma loucura, que parece mais religi\u00e3o do que ci\u00eancia.\u201d Em 2006, Rafael Correa, ent\u00e3o candidato \u00e0 presid\u00eancia do Equador, n\u00e3o mediu palavras: ele jamais assinaria um acordo de livre-com\u00e9rcio. Oito anos mais tarde, em 12 de dezembro de 2014, seu governo rubricava um com a Uni\u00e3o Europeia. Virou a casaca? Certamente. Mas trai\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Na noite de 31 de dezembro de 2014, o acordo que autorizava o Equador a contar com o Sistema Geral de Prefer\u00eancias (SPG+) da Uni\u00e3o Europeia expirou. Esse dispositivo de redu\u00e7\u00e3o das barreiras alfandeg\u00e1rias aplicava-se a quase 6,5 mil produtos, o equivalente a 60% do montante das exporta\u00e7\u00f5es do pa\u00eds para a Europa (em um total de 2,5 bilh\u00f5es de euros em 2013).<\/p>\n<p>Entre esses produtos estava a banana, que responde por 30% das vendas na Europa. Mas ela tamb\u00e9m est\u00e1 entre as exporta\u00e7\u00f5es da Col\u00f4mbia e do Peru. Em 2012, estes \u00faltimos assinaram um acordo com a Europa, atenuando de maneira ainda mais generosa que o SPG+ as barreiras comerciais a que est\u00e3o sujeitos. Um desastre para o Equador, cujas vendas de banana no exterior ca\u00edram 25% em 2013. Apenas uma pequena amostra do que viria acontecer, uma vez que o acordo previa a redu\u00e7\u00e3o gradual dos direitos aplic\u00e1veis \u00e0s bananas colombianas e peruanas at\u00e9 um piso de 75 euros por tonelada em 2020 (contra 114 euros para o Equador).<\/p>\n<p>Entre suas convic\u00e7\u00f5es e a banana, o presidente Correa tentou, primeiro, n\u00e3o escolher. Quando a Europa prop\u00f4s assinar o mesmo texto com a Col\u00f4mbia e o Peru, ele tentou discutir os termos. Esfor\u00e7o v\u00e3o: a Uni\u00e3o Europeia mostrou-se t\u00e3o pouco inclinada a negociar com ele quanto com o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras. Era pegar ou largar. Exclu\u00eddo do SPG+, o Equador \u201cn\u00e3o teve outra escolha sen\u00e3o assinar o acordo de livre-com\u00e9rcio\u201d, explicou um dos l\u00edderes europeus a seus parceiros equatorianos nas negocia\u00e7\u00f5es. \u201cA menos que desejasse optar pelo isolamento\u201d (El Diario, 8 nov. 2014). (R.L.)<\/p>\n<p><strong>BAIXO 2: Contra a originalidade excessiva<\/strong><\/p>\n<p>Em janeiro de 2014, os zapatistas de Chiapas, no M\u00e9xico, convidaram centenas de intelectuais internacionais para comemorar o vig\u00e9simo anivers\u00e1rio de sua revolta. Nenhuma pergunta ficaria sem resposta, prometeram, desde que os convidados concordassem em compartilhar o cotidiano da organiza\u00e7\u00e3o: sua resist\u00eancia \u00e0s agress\u00f5es do Ex\u00e9rcito mexicano, sua batalha pela subsist\u00eancia alimentar, sua busca por n\u00e3o reproduzir as estruturas autorit\u00e1rias do passado. Durante a cerim\u00f4nia de encerramento, ap\u00f3s uma semana de imers\u00e3o, os visitantes puderam fazer as perguntas que lhes ardiam nos l\u00e1bios. Uma jovem norte-americana levantou a m\u00e3o: \u201cTudo o que vi aqui me deixou muito interessada, mas continuo um pouco desapontada a respeito de um assunto: qual \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o de voc\u00eas sobre a quest\u00e3o gay?\u201d. Na tribuna, o representante dos zapatistas permaneceu impass\u00edvel&#8230;1<\/p>\n<p>Um Sul excessivamente despreocupado com a luta de certos militantes ocidentais? Ocorrem tamb\u00e9m censuras em sentido inverso. Em um artigo criticando o interesse de seus colegas latino-americanos pela obra do marxista brit\u00e2nico David Harvey, o intelectual uruguaio Eduardo Gudynas denunciou uma forma de \u201ccolonialismo amig\u00e1vel\u201d. O sistema de pensamento \u201cocidental\u201d de Harvey seria incompat\u00edvel com a realidade andina. A prova? As an\u00e1lises do brit\u00e2nico, consagradas \u00e0 geografia ou \u00e0 exegese de O capital, de Karl Marx, n\u00e3o reservam \u201cnenhum espa\u00e7o ao sumak kawsay equatoriano ou ao suma qama\u00f1a boliviano\u201d\u2013 conceitos geralmente traduzidos por \u201cbem viver\u201d.2<\/p>\n<p>A emancipa\u00e7\u00e3o, portanto, n\u00e3o seria pensada da mesma maneira de um lado e de outro do Atl\u00e2ntico. O socialismo latino-americano n\u00e3o seria \u201cnem um decalque nem uma c\u00f3pia\u201d3 de sua vers\u00e3o europeia, j\u00e1 alertava o marxista Jos\u00e9 Carlos Mari\u00e1tegui em 1928. Desde ent\u00e3o, o autor e essa ideia ficaram t\u00e3o associados um ao outro que digitar \u201cMari\u00e1tegui\u201d no motor de busca Google produz imediatamente os termos \u201cni calco ni copia\u201d, em espanhol.<\/p>\n<p>A obra do peruano n\u00e3o se limita, por\u00e9m, a essa meia d\u00fazia de palavras. Outras, menos citadas, completam sua an\u00e1lise: \u201cEmbora o socialismo tenha nascido na Europa, como o capitalismo, ele n\u00e3o \u00e9 [&#8230;] especificamente nem particularmente europeu. \u00c9 um movimento global do qual n\u00e3o se pode subtrair nenhum dos pa\u00edses que se movem na \u00f3rbita da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental. [&#8230;] Na luta entre dois sistemas, entre duas ideias, n\u00e3o nos vem \u00e0 mente nos sentir expectadores nem inventar uma terceira via. A originalidade excessiva \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e an\u00e1rquica\u201d.4 (R.L.)<\/p>\n<p>1 Agrade\u00e7o a H\u00e9l\u00e8ne Roux, que relatou essa hist\u00f3ria de sua estadia em Chiapas.<\/p>\n<p>2 \u201cLa necesidad de romper con un \u2018colonialismo simp\u00e1tico\u2019\u201d [A necessidade de romper com um \u201ccolonialismo simp\u00e1tico\u201d], Rebelion.org, 30 set. 2015.<\/p>\n<p>3 Jos\u00e9 Carlos Mari\u00e1tegui, 7 essais d\u2019interpr\u00e9tation de la r\u00e9alit\u00e9 p\u00e9ruvienne [Sete ensaios de interpreta\u00e7\u00e3o da realidade peruana], Maspero, Paris, 1968.<\/p>\n<p>4 Citado em Michael L\u00f6wy, Le Marxisme en Am\u00e9rique latine. Anthologie [O marxismo na Am\u00e9rica Latina. Antologia], Maspero, 1980.<\/p>\n<p>===================<\/p>\n<p>1 Segundo a Venezuela, a pobreza diminuiu no primeiro semestre de 2015.<\/p>\n<p>2 Col\u00f3quio no Instituto Lula, em S\u00e3o Paulo, 5 out. 2015.<\/p>\n<p>3 Valter Pomar, \u201cPour ne plus avoir peur de perdre\u201d [Para n\u00e3o ter mais medo de perder], Mani\u00e8re de Voir, n.131, out.\/nov. 2013.<\/p>\n<p>4 Entrevista concedida \u00e0 revista Brasileiros, S\u00e3o Paulo, 9 jun. 2015.<\/p>\n<p>5 \u201cRafael Correa amenaza con renunciar si el Congreso despenaliza el aborto\u201d [Rafael Correa amea\u00e7a renunciar caso o Congresso descriminalize o aborto], 11 out. 2013. Dispon\u00edvel em: Infobae.com.<\/p>\n<p>6 Steve Ellner, \u201cVenezuela: Chavistas debate the pace of change\u201d [Venezuela: chavistas debatem o ritmo da mudan\u00e7a], Report on the Americas, v.47, n.1, 2014.<\/p>\n<p>7 Entrevista concedida ao IHU On-line, 27 ago. 2015.<\/p>\n<p>8 Alana Moraes e Jean Tible, \u201c\u00bfFin de fiesta en Brasil?\u201d [Acabou a festa no Brasil?], Nueva Sociedad, Buenos Aires, set.\/out. 2015.<\/p>\n<p>9 \u00c1lvaro Garc\u00eda Linera, \u201cBolivie, \u2018les quatre contradictions de notre r\u00e9volution\u2019\u201d [Bol\u00edvia, \u201cas quatro contradi\u00e7\u00f5es de nossa revolu\u00e7\u00e3o\u201d], Le Monde Diplomatique, set. 2011.<\/p>\n<p>10 Hist\u00f3ria contada por Amador Fern\u00e1ndez-Savater, a quem agradecemos.<\/p>\n<p>11 As duas cita\u00e7\u00f5es s\u00e3o do Financial Times, Londres, 4 dez. 2014.<\/p>\n<p>http:\/\/www.diplomatique.org.br\/artigo.php?id=2013<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Renaud Lambert &#8211; Derrota acachapante na Venezuela, virada \u00e0 direita na Argentina, crise econ\u00f4mica e pol\u00edtica no Brasil, manifesta\u00e7\u00f5es de rua no Equador: a esquerda latino-americana entrou em pane. 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