{"id":5759,"date":"2017-10-26T12:54:51","date_gmt":"2017-10-26T14:54:51","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=5759"},"modified":"2017-10-23T16:57:39","modified_gmt":"2017-10-23T18:57:39","slug":"um-mundo-insano-capitalismo-e-a-epidemia-de-doencas-mentais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/10\/26\/um-mundo-insano-capitalismo-e-a-epidemia-de-doencas-mentais\/","title":{"rendered":"Um Mundo Insano: Capitalismo e a Epidemia de Doen\u00e7as Mentais"},"content":{"rendered":"<p><strong>Rod Tweedy e Mark Fisher<\/strong> &#8211;\u00a0E se n\u00e3o for a gente quem est\u00e1 doente, mas um sistema em desacordo com quem somos como seres sociais?<\/p>\n<blockquote><p>[N<strong>ota de Tradu\u00e7\u00e3o:<\/strong>\u00a0Apresentamos abaixo dois textos discutindo a rela\u00e7\u00e3o, cada vez mais escancarada, entre os valores incentivados em uma sociedade capitalista e os diversos tipos de sofrimento mental que se alastram por nossas sociedades modernas, deixando para tr\u00e1s a ideia dessas doen\u00e7as como meras quest\u00f5es individuais:<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/ominhocario.wordpress.com\/2017\/09\/02\/um-mundo-insano-capitalismo-e-a-epidemia-de-doencas-mentais\/#um-mundo-insano-tweedy\">I. Um Mundo Insano<\/a><\/strong>, de Rod Tweedy, comenta sobre pesquisas recentes nas \u00e1reas de psicologia e neurobiologia que v\u00eam trazendo \u00e0 luz quest\u00f5es coletivas relacionadas \u00e0s doen\u00e7as mentais, suas conex\u00f5es com aspectos fundamentais da sociedade atual e desmontando os pressupostos b\u00e1sicos sobre o ser humano que permeiam os valores sociais sob o capitalismo.<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/ominhocario.wordpress.com\/2017\/09\/02\/um-mundo-insano-capitalismo-e-a-epidemia-de-doencas-mentais\/#nao-prestar-pra-nada-fisher\">II. N\u00e3o Prestar Pra Nada<\/a><\/strong>, de Mark Fisher (publicado originalmente no\u00a0<a href=\"https:\/\/medium.com\/@marques.v\/n%C3%A3o-prestar-pra-nada-5c51034c65d9\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">medium do parceiro Victor Marques<\/a>), apresenta a for\u00e7a de seu relato pessoal de luta contra a depress\u00e3o e seu lento caminho de reflex\u00f5es at\u00e9 a compreens\u00e3o desse mal como uma quest\u00e3o pol\u00edtica e social, para muito al\u00e9m de seu sofrimento individual. ]<\/p><\/blockquote>\n<hr \/>\n<h3 id=\"um-mundo-insano-tweedy\"><strong>I. Um Mundo Insano<\/strong><\/h3>\n<p>por Rod Tweedy, no\u00a0<a href=\"http:\/\/www.redpepper.org.uk\/a-mad-world-capitalism-and-the-rise-of-mental-illness\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">site da Red Pepper<\/a>, Agosto de 2017<\/p>\n<p>As doen\u00e7as mentais s\u00e3o agora reconhecidas como uma das maiores causas de sofrimento e mis\u00e9ria individual em nossas sociedades e cidades, compar\u00e1veis \u00e0 pobreza e ao desemprego. Um em cada quatro adultos no Reino Unido hoje foi diagnosticado com uma doen\u00e7a mental e quatro milh\u00f5es de pessoas tomam antidepressivos todos os anos. \u201cQue maior acusa\u00e7\u00e3o poderia existir contra um sistema do que uma epidemia de doen\u00e7a mental?\u201d,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/commentisfree\/2016\/oct\/12\/neoliberalism-creating-loneliness-wrenching-society-apart\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">pergunta George Monbiot<\/a>.<\/p>\n<p>A extens\u00e3o chocante desta \u201cepidemia\u201d \u00e9 ainda mais perturbadora pelo conhecimento de que grande parte disso poderia ser evitado. Isso se deve \u00e0 correla\u00e7\u00e3o significativa entre as condi\u00e7\u00f5es sociais e ambientais e a preval\u00eancia de transtornos mentais. Richard Bentall, professor de psicologia cl\u00ednica na Universidade de Liverpool, e Peter Kinderman, presidente da Sociedade Brit\u00e2nica de Psicologia, t\u00eam escrito de forma convincente sobre essa conex\u00e3o em anos recentes, atraindo uma aten\u00e7\u00e3o poderosa para \u201cos determinantes sociais do nosso bem-estar psicol\u00f3gico\u201d. \u201cA evid\u00eancia \u00e9 irresist\u00edvel, \u201d observa Kinderman, \u201cn\u00e3o \u00e9 s\u00f3 que existem determinantes sociais, eles s\u00e3o esmagadoramente importantes\u201d.<\/p>\n<h4><b>Uma Sociedade Doente<\/b><\/h4>\n<p>Experi\u00eancias de isolamento social, desigualdade, sentimentos de aliena\u00e7\u00e3o e dissocia\u00e7\u00e3o, e at\u00e9 mesmo os pressupostos e a ideologia b\u00e1sicos do materialismo e do neoliberalismo\u00a0<a id=\"nota1-volta\" href=\"https:\/\/ominhocario.wordpress.com\/2017\/09\/02\/um-mundo-insano-capitalismo-e-a-epidemia-de-doencas-mentais\/#nota1\">[1]<\/a>\u00a0em si, s\u00e3o hoje vistos como impulsionadores significativos \u2013 se refletindo nos t\u00edtulos de uma s\u00e9rie de artigos e palestras recentes sobre esse assunto, tais como as dos inovadores podcasts \u2018<a href=\"https:\/\/freudconference.wordpress.com\/2016\/05\/11\/frontier-psychoanalyst-radio-podcasts-episodes-1-7\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Frontier Psychoanalyst<\/a>\u2019 do consultor em psicoterapia David Morgan, que inclu\u00edram discuss\u00f5es sobre se \u201cO neoliberalismo \u00e9 perigoso para sua sa\u00fade mental\u201d e \u201cO neoliberalismo est\u00e1 nos deixando doentes?\u201d<\/p>\n<p>O psic\u00f3logo cl\u00ednico e psicoterapeuta Jay Watts\u00a0<a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/commentisfree\/2017\/apr\/12\/is-mental-illness-real-google-answer\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">observa no Guardian<\/a>\u00a0que:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cfatores psicol\u00f3gicos e sociais s\u00e3o pelo menos t\u00e3o significativos e, para muitos, a principal causa do sofrimento. Pobreza, desigualdade relativa, estar sujeito ao racismo, ao sexismo, demiss\u00e3o e a uma cultura competitiva aumentam a probabilidade de sofrimento mental. Governos e empresas farmac\u00eauticas n\u00e3o est\u00e3o t\u00e3o interessados nesses resultados, lan\u00e7ando financiamento em estudos que analisam gen\u00e9tica e biomarcadores f\u00edsicos em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s causas ambientais do sofrimento. Da mesma forma, h\u00e1 pouca vontade pol\u00edtica de relacionar o aumento do sofrimento mental com desigualdades estruturais, embora a associa\u00e7\u00e3o seja robusta e muitos profissionais pensem que esta seria a melhor maneira de enfrentar a atual epidemia de sa\u00fade mental\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Existem, claramente, interesses e agendas muito poderosos e arraigados, que conscientemente ou inconscientemente agem para esconder ou tentar negar esse relacionamento \u2013 o que tamb\u00e9m faz com que a recente disposi\u00e7\u00e3o entre tantos psicanalistas e terapeutas para abra\u00e7ar esse contexto mais amplo seja t\u00e3o excitante e emocionante.<\/p>\n<p>Comentaristas freq\u00fcentemente falam sobre sociedade, contexto social, pensamento de grupo e determinantes ambientais em conex\u00e3o com desordens e dist\u00farbios mentais, mas acredito que podemos ser um pouco mais precisos sobre qual aspecto da sociedade \u00e9 o principal dirigente disso, o principal respons\u00e1vel. E neste contexto provavelmente \u00e9 hora de falarmos sobre aquela-palavra-com-c \u2013 o capitalismo.<\/p>\n<p>Muitas das formas contempor\u00e2neas de doen\u00e7a e ang\u00fastia individual que tratamos e com as quais nos envolvemos certamente parecem ser correlacionadas e amplificadas pelos processos e subprodutos do capitalismo. Na verdade, voc\u00ea pode dizer que o capitalismo \u00e9, em muitos aspectos, um sistema de gera\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as mentais \u2013 e se estivermos falando s\u00e9rio sobre abordar n\u00e3o s\u00f3 os efeitos do sofrimento e da doen\u00e7a mental, mas tamb\u00e9m suas causas e origens, precisamos olhar mais de perto, com mais precis\u00e3o, e de forma mais anal\u00edtica a natureza do \u00fatero pol\u00edtico e econ\u00f4mico a partir do qual emergem, e como a psicologia est\u00e1 fundamentalmente entrela\u00e7ada com cada aspecto dele.<\/p>\n<h4><b>Neurose Ub\u00edqua<\/b><\/h4>\n<p>Talvez um dos exemplos mais \u00f3bvios dessa conex\u00e3o \u00edntima entre capitalismo e sofrimento mental seja o predom\u00ednio de neurose. Como observa Joel Kovel, ex-psiquiatra e professor de ci\u00eancia pol\u00edtica: \u201cUm tra\u00e7o muito marcante da neurose dentro do capitalismo \u00e9 a sua ubiquidade\u201d. Em seu ensaio cl\u00e1ssico \u201cTerapia no capitalismo tardio\u201d (reimpresso no livro \u2018<a href=\"http:\/\/us.karnacbooks.com\/product\/the-political-self-understanding-the-social-context-for-mental-illness\/38036\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">The Political Self<\/a>\u2019 [\u2018O Eu Pol\u00edtico\u2019]), Kovel se refere ao \u201cfardo colossal de mis\u00e9ria neur\u00f3tica na popula\u00e7\u00e3o, um peso que, de forma cont\u00ednua e palp\u00e1vel, trai a ideologia capitalista \u2013 que sustenta que a civiliza\u00e7\u00e3o da mercadoria promove a\u00a0<i>felicidade humana<\/i>\u201c:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cSe, com toda essa racionaliza\u00e7\u00e3o, conforto, divers\u00e3o e escolhas, as pessoas ainda est\u00e3o desoladas, incapazes de amar, acreditar ou sentir alguma integridade em suas vidas, elas tamb\u00e9m podem come\u00e7ar a concluir que algo est\u00e1 seriamente errado com sua ordem social.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m alguns trabalhos fascinantes nesse sentido feitos mais recentemente por Eli Zaretsky (\u2018<a href=\"http:\/\/www.karnacbooks.com\/product\/political-freud-a-history\/38230\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Political Freud<\/a>\u2019, [\u2018Freud Pol\u00edtico\u2019]) e Bruce Cohen (autor da \u2018<a href=\"http:\/\/www.palgrave.com\/de\/book\/9781137460509\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Psychiatric Hegemony<\/a>\u2019 [\u2018Hegemonia Psiqui\u00e1trica\u2019]), que escreveram sobre as rela\u00e7\u00f5es entre fam\u00edlia, sexualidade e capitalismo na gera\u00e7\u00e3o de neuroses.<\/p>\n<p>\u00c9 significativo, por exemplo, que uma das caracter\u00edsticas mais proeminentes do cen\u00e1rio psicol\u00f3gico que Freud encontrou na Viena do final do s\u00e9culo XIX foram as neuroses \u2013 o que, como Kovel observa, Freud viu como estando inteiramente de acordo com o desenvolvimento \u201cnormal\u201d em sociedades modernas \u2013 com grande parte disso, ele acrescenta, estando enraizado em nossa experi\u00eancia moderna de aliena\u00e7\u00e3o. \u201cA neurose\u201d, diz Kovel, \u201c\u00e9 a auto-aliena\u00e7\u00e3o de um sujeito que foi preparado para a liberdade, mas isso entra em conflito com sua hist\u00f3ria pessoal\u201d.<\/p>\n<p>Marx foi, \u00e9 claro, o grande analista da aliena\u00e7\u00e3o, mostrando como a economia capitalista gera aliena\u00e7\u00e3o como parte de seu pr\u00f3prio tecido ou estrutura \u2013 mostrando como, por exemplo, a aliena\u00e7\u00e3o fica \u201cperdida\u201d ou \u201cpresa\u201d, incorporada em produtos, mercadorias \u2013 desde exemplos \u00f3bvios (como Nikes feitos em\u00a0<i>sweatshops<\/i>\u00a0e\u00a0<i>sweatshops<\/i>\u00a0incorporados em Nikes) \u2013 at\u00e9 um sentido mais largo e muito mais generalizado de que todo o sistema de produ\u00e7\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o \u00e9 de alguma forma alienante.<\/p>\n<p>Como Pavon Cuellar observa: \u201cMarx foi o primeiro a perceber que essa aliena\u00e7\u00e3o na verdade fica contida e encarnada nas coisas \u2013 nas \u201cmercadorias\u201d (\u2018<a href=\"http:\/\/www.karnacbooks.com\/product\/marxism-and-psychoanalysis-in-or-against-psychology\/39982\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marxism and Psychoanalysis<\/a>\u2019 [\u2018marxismo e psican\u00e1lise\u2019]). Essas mercadorias \u201cfetichizadas\u201d, acrescenta, parecem manter e prometer devolver, quando consumidas, a parte subjetivo-social perdida por aqueles que foram alienados enquanto as produziam: \u201cos alienados perderam o que eles imaginam [ou esperam] encontrar naquilo que \u00e9 fetichizado.\u201d<\/p>\n<p>Essa compreens\u00e3o da aliena\u00e7\u00e3o \u00e9 realmente a quest\u00e3o central para Marx. As pessoas provavelmente o conhecem hoje por suas teorias sobre capital \u2013 como quest\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o, lucro e controle caracterizam e ressurgem continuamente no capitalismo \u2013 mas para mim a principal preocupa\u00e7\u00e3o de Marx, e uma que \u00e9 constantemente negligenciada ou mal interpretada, \u00e9 sua vis\u00e3o sobre a centralidade e a import\u00e2ncia da criatividade e da produtividade humanas \u2013 o \u201cpoder produtivo colossal\u201d do homem, como ele o chama \u2013 exatamente como de fato o era para William Blake, um pouco mais cedo no mesmo s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Marx se refere a essa energia e capacidade de a\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1rias, capazes de \u00a0transformar o \u00a0mundo, como nossa \u201cvida como esp\u00e9cie ativa\u201d, nosso \u201cser-da-esp\u00e9cie\u201d\u00a0<a id=\"nota2-volta\" href=\"https:\/\/ominhocario.wordpress.com\/2017\/09\/02\/um-mundo-insano-capitalismo-e-a-epidemia-de-doencas-mentais\/#nota2\">[2]<\/a>\u00a0\u2013 nossas \u201cenergias f\u00edsicas e espirituais\u201d. Mas sob o sistema atual, estas imensas energias criativas e capacidades transformadoras s\u00e3o, ele observa, imediatamente tiradas de n\u00f3s e convertidas em algo estranho, objetivo, escravizador, fetichizado.<\/p>\n<h4><b>Reestruturando o desejo<\/b><\/h4>\n<p>A imagem que ele evoca \u00e9 de m\u00e3es dando \u00e0 luz \u2013 outra forma de trabalho, talvez \u2013 com o beb\u00ea imediatamente sendo levado e convertido em algo estranho, algo como uma boneca \u2013 uma mercadoria. Ele considera o efeito que isso deve ter sobre o esp\u00edrito da m\u00e3e. Essa, para Marx, \u00e9 a fonte da aliena\u00e7\u00e3o e do mal-estar, o tipo de desloca\u00e7\u00e3o profunda do esp\u00edrito humano que caracteriza o capitalismo industrial. E, como mostra Pavon Cuelar, n\u00e3o podemos comprar nossa sa\u00edda dessa aliena\u00e7\u00e3o \u2013 produzindo mais brinquedos, mais bonecas \u2013 porque \u00e9 a\u00ed que a aliena\u00e7\u00e3o ocorre e \u00e9 incorporada e gerada.<\/p>\n<p>De fato, o consumismo e o materialismo s\u00e3o hoje amplamente reconhecidos como impulsionadores b\u00e1sicos de uma s\u00e9rie de problemas de sa\u00fade mental, desde o v\u00edcio at\u00e9 a depress\u00e3o. Como\u00a0<a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/commentisfree\/2013\/dec\/09\/materialism-system-eats-us-from-inside-out\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">observa<\/a>\u00a0George Monbiot, \u201ccomprar mais coisas est\u00e1 associado \u00e0 depress\u00e3o, ansiedade e relacionamentos partidos. \u00c9 socialmente destrutivo e autodestrutivo\u201d. A psicoterapeuta psicanal\u00edtica Sue Gerhardt escreveu de forma muito convincente sobre essa associa\u00e7\u00e3o, sugerindo que nas sociedades modernas muitas vezes \u201cconfundimos o bem-estar material com o bem-estar psicol\u00f3gico\u201d. Em seu livro \u2018<i>The Selfish Society<\/i>\u2019 [\u2018A Sociedade Ego\u00edsta\u2019], ela mostra como o capitalismo de consumo reestrutura nossos c\u00e9rebros de forma exitosa e implac\u00e1vel, reconstruindo nossos sistemas nervosos \u00e0 sua pr\u00f3pria imagem. Pois \u201cdeixamos passar muito do que \u00e9 o capitalismo\u201d, observa ela, \u201cse ignoramos seu papel na reestrutura\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios desejos e impulsos\u201d.<\/p>\n<p>Outro aspecto fundamental do capitalismo e seu impacto nas doen\u00e7as mentais sobre o qual poder\u00edamos falar \u00e9 a desigualdade. O capitalismo \u00e9 tanto um sistema gerador de desigualdade quanto um sistema de produ\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as mentais. Como\u00a0<a href=\"http:\/\/www.rcpsych.ac.uk\/pdf\/Position%20Statement%204%20website.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">um relat\u00f3rio do Royal College of Psychiatrists observou<\/a>: \u201cA desigualdade \u00e9 um dos principais determinantes da doen\u00e7a mental: quanto maior o n\u00edvel de desigualdade, piores os resultados de sa\u00fade. Crian\u00e7as das fam\u00edlias mais pobres t\u00eam um risco tr\u00eas vezes maior de doen\u00e7a mental do que as crian\u00e7as das fam\u00edlias mais ricas. Adoecimento mental est\u00e1 consistentemente associado \u00e0 priva\u00e7\u00e3o, baixa renda, desemprego, educa\u00e7\u00e3o pobre, menor sa\u00fade f\u00edsica e aumento de comportamentos de risco para a sa\u00fade\u201d.<\/p>\n<p>Alguns comentaristas at\u00e9 t\u00eam sugerido que o pr\u00f3prio capitalismo, como forma de ser ou modo de pensar sobre o mundo, pode ser visto como um sistema \u201cpsicop\u00e1tico\u201d ou patol\u00f3gico. H\u00e1 certamente algumas correspond\u00eancias not\u00e1veis entre sistemas financeiros e corporativos modernos e \u00a0indiv\u00edduos com diagn\u00f3stico de psicopatia cl\u00ednica, como muitos analistas t\u00eam notado.<\/p>\n<p>Robert Hare, por exemplo, uma das principais autoridades mundiais em psicopatia e o criador da amplamente aceita \u201cLista de verifica\u00e7\u00e3o de Hare\u201d [\u2018<i>Hare Checklist<\/i>\u2019] para testar a psicopatia,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.jonronson.com\/psycho.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">comentou com Jon Ronson<\/a>: \u201cEu n\u00e3o deveria ter feito minha pesquisa apenas em pris\u00f5es. Eu deveria ter passado algum tempo dentro da Bolsa de Valores tamb\u00e9m.\u201d \u201cMas certamente os psicopatas do mercado de a\u00e7\u00f5es n\u00e3o podem ser t\u00e3o maus quanto os psicopatas do tipo assassino em s\u00e9rie?\u201d, pergunta o entrevistador. \u201cAssassinos em s\u00e9rie arruinam fam\u00edlias\u201d, respondeu Bob, encolhendo os ombros. \u201cPsicopatas corporativos e pol\u00edticos arruinam economias. Eles arruinam sociedades.\u201d<\/p>\n<h4><b>Institui\u00e7\u00f5es Patol\u00f3gicas<\/b><\/h4>\n<p>Esses tra\u00e7os, como Joel Bakan sugeriu brilhantemente em seu livro \u2018<i>The Corporation<\/i>\u2019 [\u2018A Corpora\u00e7\u00e3o\u2019], est\u00e3o criptografados no pr\u00f3prio tecido das corpora\u00e7\u00f5es modernas \u2013 s\u00e3o parte de seu DNA e modo de opera\u00e7\u00e3o b\u00e1sicos. \u201cO mandato legalmente definido das corpora\u00e7\u00f5es\u201d, ele observa, \u201c\u00e9 perseguir, de forma implac\u00e1vel e sem exce\u00e7\u00f5es, seu pr\u00f3prio interesse, independentemente das consequ\u00eancias muitas vezes nocivas que podem causar aos outros\u201d. Por sua pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o legal, portanto, a corpora\u00e7\u00e3o \u00e9 \u201cuma institui\u00e7\u00e3o patol\u00f3gica\u201d, e Bakan, de maneira muito \u00fatil, enumera os diagn\u00f3sticos\u00a0caracter\u00edsticos de sua patologia padr\u00e3o (falta de empatia, busca de interesse pr\u00f3prio, ilus\u00e3o de grandeza, afetos pouco profundos, agressividade e indiferen\u00e7a social) para mostrar de forma confi\u00e1vel que paciente perturbado \u00e9 uma corpora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por que todas estas pr\u00e1ticas e processos sociais e econ\u00f4micos contempor\u00e2neos geram tantas doen\u00e7as, tantos dist\u00farbios? Para responder a isso, penso que precisamos olhar para tr\u00e1s, de volta para o projeto Iluminista mais amplo e os modelos psicol\u00f3gicos de\u00a0<em>natureza humana<\/em>\u00a0<a id=\"nota3-volta\" href=\"https:\/\/ominhocario.wordpress.com\/2017\/09\/02\/um-mundo-insano-capitalismo-e-a-epidemia-de-doencas-mentais\/#nota3\">[3]<\/a>\u00a0que dele emergiram. O capitalismo moderno surgiu dos conceitos de\u00a0<i>homem<\/i>\u00a0do s\u00e9culo XVII como uma esp\u00e9cie de\u00a0<i>eu<\/i>desconectado, descont\u00ednuo e desvinculado \u2013 um ser impulsionado pela\u00a0<em>competi\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0e por um estreito<em>\u00a0interesse pr\u00f3prio \u201cracional\u201d<\/em>\u00a0\u2013 o conceito de\u00a0<i>homo economicus<\/i>\u00a0que dirigiu e subscreveu grande parte do todo o projeto Iluminista, incluindo seus modelos econ\u00f4micos. Como\u00a0<a href=\"http:\/\/yalebooks.co.uk\/display.asp?k=9780300188370\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Iain McGilchrist observa<\/a>: \u201cCapitalismo e consumismo, formas de conceber rela\u00e7\u00f5es humanas como baseadas em pouco mais do que utilidade, gan\u00e2ncia e competi\u00e7\u00e3o, vieram a suplantar aquelas baseadas em conex\u00e3o sentida e continuidade cultural\u201d.<\/p>\n<p>N\u00f3s agora sabemos qu\u00e3o equivocado e destrutivo \u00e9 esse modelo do\u00a0<i>eu<\/i>. Pesquisas neurocient\u00edficas recentes sobre o \u201c<i>c\u00e9rebro social<\/i>\u201c, juntamente de desenvolvimentos emocionantes nas teorias modernas do apego, psicologia do desenvolvimento e neurobiologia interpessoal, est\u00e3o revisando e atualizando de forma significativa esta vis\u00e3o bastante exc\u00eantrica e antiquada do indiv\u00edduo isolado e \u201cracional\u201d \u2013 e tamb\u00e9m revelando uma compreens\u00e3o muito mais rica e sofisticada do desenvolvimento e da identidade humana, atrav\u00e9s do aumento do conhecimento da intersubjetividade do \u201chemisf\u00e9rio direito\u201d do c\u00e9rebro, dos processos inconscientes, de comportamento grupal, do papel da empatia e da mentaliza\u00e7\u00e3o no desenvolvimento cerebral e do significado do contexto e da socializa\u00e7\u00e3o em desenvolvimento emocional e cognitivo.<\/p>\n<p>Como o neurocientista David Eagleman observa, o pr\u00f3prio c\u00e9rebro humano depende de outros c\u00e9rebros para sua pr\u00f3pria exist\u00eancia e crescimento \u2013 o conceito de \u201ceu\u201d, ele observa, depende da realidade de \u201cn\u00f3s\u201d:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cN\u00f3s somos um \u00fanico e vasto superorganismo, uma rede neural incorporada em uma rede de redes neurais muito maior. Nossos c\u00e9rebros est\u00e3o t\u00e3o fundamentalmente conectados para interagir que nem sequer \u00e9 claro onde cada um de n\u00f3s come\u00e7a e termina. Quem voc\u00ea \u00e9 tem tudo a ver com quem n\u00f3s somos. N\u00e3o h\u00e1 como evitar a verdade que est\u00e1 gravada em nossos circuitos neurais: precisamos uns dos outros.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>A depend\u00eancia est\u00e1, portanto, incorporada ao tecido de quem somos como seres sociais e biol\u00f3gicos, conectada diretamente em nosso \u201csuper-computador central\u201d: \u00e9 \u201ccomo o amor se torna carne\u201d, na\u00a0<a href=\"http:\/\/www.karnacbooks.com\/product\/the-neuroscience-of-human-relationships-attachment-and-the-developing-social-brain-second-edition\/35568\/?MATCH=1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">frase marcante de Louis Cozolino<\/a>. \u201cN\u00e3o existem c\u00e9rebros sozinhos\u201d, observa Cozolino, ecoando Winnicott, \u201cc\u00e9rebros s\u00f3 existem dentro de redes de outros c\u00e9rebros\u201d. Algumas pessoas t\u00eam denominado essa nova compreens\u00e3o neurol\u00f3gica e cient\u00edfica sobre os padr\u00f5es profundos de interdepend\u00eancia, coopera\u00e7\u00e3o m\u00fatua e o c\u00e9rebro social de \u201cneuro-marxismo\u201d, por causa das implica\u00e7\u00f5es envolvidas.<\/p>\n<p>O capitalismo est\u00e1, aparentemente, enraizado em um modelo fundamentalmente falho, ing\u00eanuo e antiquado (do s\u00e9culo XVII!) de quem somos \u2013 ele tenta nos fazer pensar que somos isolados, aut\u00f4nomos, desvinculados, competitivos, descontextualizados \u2013 em \u00faltima inst\u00e2ncia, uma entidade bem dissociada e implac\u00e1vel. O mal que essa vis\u00e3o do\u00a0<i>eu<\/i>\u00a0fez a n\u00f3s e aos nossos filhos \u00e9 incalcul\u00e1vel.<\/p>\n<p>Muitas pessoas acreditam (e s\u00e3o encorajadas a acreditar) que esses problemas e dist\u00farbios \u2013 psicose, esquizofrenia, ansiedade, depress\u00e3o, auto-mutila\u00e7\u00e3o -,que esses sintomas de um \u201cmundo doente\u201d (para usar a fant\u00e1stica descri\u00e7\u00e3o de James Hillman) s\u00e3o deles pr\u00f3prios, em vez de serem do mundo. \u201cMas e se seus problemas emocionais n\u00e3o forem apenas\u00a0<em>seus<\/em>?\u201d, pergunta Tom Syverson. \u2018E se eles forem\u00a0<i>nossos<\/i>\u00a0problemas? E se o verdadeiro problema \u00e9 que estamos vivendo em uma\u00a0<em>sociedade errada<\/em>?\u201d Talvez Adorno estivesse correto quando disse: \u201cUma<em>vida errada<\/em>\u00a0n\u00e3o pode ser vivida corretamente\u201d.<\/p>\n<p>A raiz deste \u201cviver erroneamente\u201d parece ser porque vivemos em um sistema social e econ\u00f4mico em desacordo com nossa psicologia e nossa neurologia, com quem somos como seres sociais. Como sugiro no meu livro, precisamos perceber que nossos mundos internos e externos interagem constantemente e profundamente e se moldam mutuamente e, portanto, em vez de separar nossa compreens\u00e3o das pr\u00e1ticas econ\u00f4micas e sociais da nossa compreens\u00e3o da psicologia e do desenvolvimento humano, precisamos aproxim\u00e1-los, alinh\u00e1-los. E para que isso aconte\u00e7a, precisamos de um novo di\u00e1logo entre os mundos pol\u00edtico e pessoal, um novo modelo integrado de sa\u00fade mental e uma nova pol\u00edtica.<\/p>\n<p><i>Tradu\u00e7\u00e3o: Everton Louren\u00e7o<\/i><\/p>\n<p><b>Rod Tweedy \u00e9 um autor e editor da Karnac Books, uma das principais editoras independentes de livros sobre sa\u00fade mental e terapia. Sua cole\u00e7\u00e3o editada,\u00a0<\/b><a href=\"http:\/\/www.karnacbooks.com\/product\/the-political-self-understanding-the-social-context-for-mental-illness\/38036\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">The Political Self: Understanding the Social Context for Mental Illness<\/a><b>\u00a0[\u2018O Eu Pol\u00edtico: Compreendendo o Contexto Social da Doen\u00e7a Mental\u2019], foi publicada pela Karnac.<\/b><\/p>\n<hr \/>\n<h3 id=\"nao-prestar-pra-nada-fisher\" class=\"graf graf--h3 graf-after--p\"><strong class=\"markup--strong markup--h3-strong\">II. N\u00e3o Prestar Pra\u00a0Nada<\/strong><\/h3>\n<p id=\"e8cb\" class=\"graf graf--p graf-after--h3\">por Mark Fisher, no\u00a0<a href=\"https:\/\/theoccupiedtimes.org\/?p=12841\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">site do Occupied Times<\/a>\u00a0<em class=\"markup--em markup--p-em\"><br \/>\n<\/em><\/p>\n<p id=\"72cd\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Sofro intermitentemente de depress\u00e3o desde a adolesc\u00eancia. Alguns desses epis\u00f3dios foram altamente debilitantes\u200a\u2014\u200aresultando em auto-mutila\u00e7\u00e3o, isolamento (onde passava meses confinado em meu pr\u00f3prio quarto, aventurando-me sair apenas para procurar emprego ou para comprar as quantidades m\u00ednimas de comida que consumia), e visitas frequentes a enfermarias psiqui\u00e1tricas. N\u00e3o diria que me recuperei inteiramente dessa condi\u00e7\u00e3o, mas tenho satisfa\u00e7\u00e3o de dizer que tanto a incid\u00eancia quanto a gravidade dos epis\u00f3dios depressivos diminu\u00edram muito nos \u00faltimos anos. Em parte, isso \u00e9 consequ\u00eancia de mudan\u00e7as na minha situa\u00e7\u00e3o de vida, mas tamb\u00e9m tem a ver com uma distinta compreens\u00e3o a que cheguei sobre minha depress\u00e3o e suas causas. Exponho aqui minhas pr\u00f3prias experi\u00eancias de ang\u00fastia mental n\u00e3o porque ache que h\u00e1 algo especial ou \u00fanico sobre elas, mas em apoio \u00e0 tese de que muitas formas de depress\u00e3o s\u00e3o melhor compreendidas\u200a\u2014\u200ae combatidas\u200a\u2014\u200apor meio de quadros anal\u00edticos impessoais e pol\u00edticos, e n\u00e3o individuais e \u201cpsicol\u00f3gicos\u201d.<\/p>\n<p id=\"4bfb\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Escrever sobre sua pr\u00f3pria depress\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil. Faz parte da depress\u00e3o uma voz \u201cinterior\u201d desdenhosa que nos acusa de auto-indulg\u00eancia\u200a\u2014\u200a\u201cvoc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 deprimido\u201d, \u201cvoc\u00ea est\u00e1 apenas sentindo pena de si mesmo\u201d, \u201cd\u00ea um jeito nisso\u201d \u2014, pass\u00edvel de se disparada ao tornarmos p\u00fablica a condi\u00e7\u00e3o. \u00c9 claro que n\u00e3o se trata bem de uma voz \u201cinterior\u201d\u00a0, e sim da express\u00e3o internalizada de for\u00e7as sociais reais, algumas das quais t\u00eam um interesse escuso em negar qualquer conex\u00e3o entre depress\u00e3o e pol\u00edtica.<\/p>\n<p id=\"70f5\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">No meu caso, a depress\u00e3o sempre esteve conectada \u00e0 convic\u00e7\u00e3o de que eu literalmente n\u00e3o prestava para nada. Passei a maior parte de minha vida, at\u00e9 os trinta anos, acreditando que nunca conseguiria ter uma profiss\u00e3o. Aos vinte e poucos, alternava entre a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, per\u00edodos de desemprego e empregos tempor\u00e1rios. Em qualquer um desses casos, o sentimento era de que n\u00e3o me encaixava\u200a\u2014\u200ana vida acad\u00eamica, porque sentia que n\u00e3o era um pesquisador s\u00e9rio, apenas um diletante que tinha de alguma forma fraudado meu caminho at\u00e9 ali; no desemprego, porque n\u00e3o estava realmente desempregado como aqueles que buscavam trabalho honestamente, mas \u201cvagabundo\u201d se aproveitando do sistema;\u00a0<em class=\"markup--em markup--p-em\">e<\/em>\u00a0em empregos tempor\u00e1rios por sentir-me incompetente e que, em todo caso, n\u00e3o pertencia exatamente a trabalhos de escrit\u00f3rio ou de f\u00e1brica, n\u00e3o porque fosse \u201cbom demais\u201d para eles, mas\u200a\u2014\u200amuito pelo contr\u00e1rio\u200a\u2014\u200aem virtude de excessivamente instru\u00eddo e in\u00fatil, tirando o trabalho de algu\u00e9m que precisava e merecia aquilo mais do que eu. Mesmo na enfermaria psiqui\u00e1trica, sentia como se n\u00e3o estivesse realmente deprimido\u200a\u2014\u200aera como se estivesse apenas simulando a condi\u00e7\u00e3o para evitar o trabalho, ou, na l\u00f3gica infernalmente paradoxal da depress\u00e3o, simulando-o para esconder o fato de que eu era incapaz de trabalhar, e que n\u00e3o havia lugar para mim na sociedade.<\/p>\n<p id=\"537c\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Quando finalmente consegui um emprego como professor em uma faculdade de Educa\u00e7\u00e3o Complementar, fiquei exultante por um tempo\u200a\u2014\u200aembora esta alegria, por sua pr\u00f3pria natureza, mostrasse que ainda eu n\u00e3o havia me livrado do sentimento de inutilidade que logo desencadearia novos epis\u00f3dios depressivos. Como professor, faltava-me a calma confian\u00e7a de quem nasceu para o papel. Em algum n\u00edvel n\u00e3o muito profundo, eu evidentemente ainda n\u00e3o acreditava que fosse o tipo de pessoa que poderia fazer um trabalho como aquele.<br \/>\nMas de onde vinha essa cren\u00e7a? A escola dominante de pensamento em psiquiatria localiza as origens de tais \u2018cren\u00e7as\u2019 no mau funcionamento da qu\u00edmica cerebral, que deve ser corrigido por produtos farmac\u00eauticos; a psican\u00e1lise e demais formas de terapia por ela influenciadas s\u00e3o famosas por procurar as ra\u00edzes da ang\u00fastia mental no contexto familiar, enquanto a Terapia Cognitiva-Comportamental est\u00e1 menos interessada em localizar a fonte de cren\u00e7as negativas do que simplesmente substitu\u00ed-las por um conjunto de alternativas positivas. N\u00e3o \u00e9 que esses modelos sejam inteiramente falsos, \u00e9 que eles deixam escapar\u200a\u2014\u200ae necessariamente t\u00eam que deixar escapar\u200a\u2014\u200aa causa mais prov\u00e1vel de tais sentimentos de inferioridade: o poder social. A forma de poder social que mais teve efeito sobre mim foi o poder de classe, embora, naturalmente, o g\u00eanero, a ra\u00e7a e outras formas de opress\u00e3o funcionem produzindo o mesmo sentimento de inferioridade ontol\u00f3gica, melhor expressado justamente no pensamento que articulei acima: que voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 o tipo de pessoa capaz de desempenhar pap\u00e9is destinados ao grupo dominante.<\/p>\n<p id=\"e0ba\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">A pedido de um dos leitores do meu livro \u201cRealismo Capitalista\u201d, comecei a investigar o trabalho de David Smail. Smail\u200a\u2014\u200aum terapeuta, mas que tomou a quest\u00e3o do poder como central para sua pr\u00e1tica\u200a\u2014\u200acorroborou as hip\u00f3teses sobre a depress\u00e3o nas quais eu havia esbarrado por acaso. Em seu livro crucial, \u201cAs Origens da Infelicidade\u201d, Smail descreve como as marcas de classe s\u00e3o projetadas para serem indel\u00e9veis. Para aqueles que foram ensinados desde o nascimento a se verem como inferiores, a aquisi\u00e7\u00e3o de qualifica\u00e7\u00f5es ou renda raramente ser\u00e1 suficiente para apagar\u200a\u2014\u200aem suas pr\u00f3prias mentes ou na mente dos outros\u200a\u2014\u200ao sentido primordial de inutilidade que os marca t\u00e3o cedo na vida. Algu\u00e9m que sai da esfera social a qual estaria \u201cdesignado\u201d a ocupar estar\u00e1 sempre sujeito ao perigo de ser dominado por sentimentos de vertigem, p\u00e2nico e horror: \u201c\u2026 isolado, separado, cercado de espa\u00e7o hostil, voc\u00ea de repente se v\u00ea sem conex\u00f5es, sem estabilidade, sem nada para mant\u00ea-lo firme ou no lugar; uma irrealidade vertiginosa e nauseante se apossa de voc\u00ea; voc\u00ea se v\u00ea amea\u00e7ado por uma completa perda de identidade, um sentimento de completa fraude; voc\u00ea n\u00e3o tem o direito de estar aqui, agora, habitando este corpo, vestido desta maneira; voc\u00ea \u00e9 um nada, e \u2018nada\u2019 \u00e9, literalmente, o que voc\u00ea sente que est\u00e1 prestes a se tornar.\u201d<\/p>\n<p id=\"ef40\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">J\u00e1 h\u00e1 algum tempo, uma das t\u00e1ticas mais bem-sucedidas da classe dominante tem sido a da \u201cresponsabiliza\u00e7\u00e3o\u201d. Cada membro individual da classe subordinada \u00e9 encorajado a sentir que sua pobreza, falta de oportunidades, ou desemprego \u00e9 culpa sua e somente sua. Os indiv\u00edduos culpar\u00e3o a si mesmos antes de culparem as estruturas sociais; estruturas que, em todo caso, eles foram induzidos a acreditar que de fato n\u00e3o existem (s\u00e3o apenas desculpas, invocadas pelos fracos). O que Smail chama de \u201cvoluntarismo m\u00e1gico\u201d\u200a\u2014\u200aa cren\u00e7a de que est\u00e1 dentro do poder de cada indiv\u00edduo se tornar o que quer que seja\u200a\u2014\u200a\u00e9 a ideologia dominante e a religi\u00e3o n\u00e3o oficial da sociedade capitalista contempor\u00e2nea, empurrada goela abaixo tanto pelos \u201cexperts\u201d da TV e gurus dos neg\u00f3cios quanto pelos pol\u00edticos. O voluntarismo m\u00e1gico \u00e9 ao mesmo tempo um efeito e uma causa do n\u00edvel historicamente baixo da consci\u00eancia de classe. \u00c9 o outro lado da depress\u00e3o\u200a\u2014\u200acuja convic\u00e7\u00e3o subjacente \u00e9 a de que somos todos exclusivamente respons\u00e1veis \u200b\u200bpela nossa pr\u00f3pria mis\u00e9ria e, portanto, a merecemos. Um duplo imperativo particularmente cruel \u00e9 imposto aos desempregados de longa dura\u00e7\u00e3o no Reino Unido: uma popula\u00e7\u00e3o que, durante toda a sua vida, foi levada a acreditar que n\u00e3o prestava para nada \u00e9 simultaneamente bombardeada pela injun\u00e7\u00e3o de que pode fazer tudo o que quiser fazer.<\/p>\n<p id=\"ecb0\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Devemos entender a submiss\u00e3o fatalista da popula\u00e7\u00e3o do Reino Unido \u00e0 austeridade como consequ\u00eancia de uma depress\u00e3o deliberadamente cultivada. Esta depress\u00e3o manifesta-se na aceita\u00e7\u00e3o de que as coisas v\u00e3o piorar (para todos, exceto para uma pequena elite), que temos sorte de ter um emprego que for (ent\u00e3o n\u00e3o devemos esperar que os sal\u00e1rios acompanhem a infla\u00e7\u00e3o), que n\u00e3o podemos nos dar o luxo de bancar servi\u00e7os p\u00fablicos providos coletivamente. A depress\u00e3o coletiva \u00e9 o resultado do projeto da classe dominante de ressubordina\u00e7\u00e3o. H\u00e1 algum tempo, temos cada vez mais nos resignado \u00e0 ideia de que n\u00e3o somos o tipo de pessoa que pode agir. Esta n\u00e3o \u00e9 uma falha de vontade individual, da mesma forma que uma pessoa deprimida n\u00e3o pode simplesmente sair da depress\u00e3o em um \u201cestalar de dedos\u201d ao \u201carrega\u00e7ar as mangas\u201d. A reconstru\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia de classe \u00e9, de fato, uma tarefa formid\u00e1vel, que n\u00e3o ser\u00e1 alcan\u00e7ada com solu\u00e7\u00f5es prontas e f\u00e1ceis. Mas, ao contr\u00e1rio do que nossa depress\u00e3o coletiva nos diz, \u00e9 uma tarefa que pode ser realizada: inventando novas formas de envolvimento pol\u00edtico, revitalizando institui\u00e7\u00f5es que se tornaram decadentes, convertendo o descontentamento privatizado em raiva politizada. Tudo isso pode acontecer, e, quando acontecer, quem sabe o que ser\u00e1 poss\u00edvel?<\/p>\n<p id=\"3e2e\" class=\"graf graf--p graf-after--p\"><em>Tradu\u00e7\u00e3o: Victor Marques<\/em><\/p>\n<p id=\"a92f\" class=\"graf graf--p graf-after--p graf--trailing\"><em>Revis\u00e3o: Jorge Adeodato<\/em><\/p>\n<blockquote><p>[Nota de Tradu\u00e7\u00e3o:\u00a0<em class=\"markup--em markup--p-em\">No dia 13 de janeiro desse ano, Mark Fisher nos deixou. Aos 48 anos tirou a pr\u00f3pria vida em um epis\u00f3dio agudo de depress\u00e3o, condi\u00e7\u00e3o com a qual lutava desde a juventude e sobre a qual escrevia abertamente. Ainda pouco conhecido no Brasil, Fisher era um respeitado cr\u00edtico cultural, um te\u00f3rico de crescente influ\u00eancia e um militante pol\u00edtico dedicado. Fundou na d\u00e9cada de 90, junto com Nick Land, o c\u00e9lebre\u00a0<\/em><strong class=\"markup--strong markup--p-strong\"><em class=\"markup--em markup--p-em\">Cybernetic Culture Research Unit<\/em><\/strong><em class=\"markup--em markup--p-em\">\u00a0(Ccru) e nos anos 2000 tornou-se conhecido por meio do seu blog\u00a0<\/em><a class=\"markup--anchor markup--p-anchor\" href=\"http:\/\/k-punk.org\/page\/115\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><em class=\"markup--em markup--p-em\">K-Punk<\/em><\/a><em class=\"markup--em markup--p-em\">, onde discutia m\u00fasica, cultura pop e pol\u00edtica. Ganhou notoriedade em 2009 a publicar o livro\u00a0<\/em><a class=\"markup--anchor markup--p-anchor\" href=\"http:\/\/www.zero-books.net\/books\/capitalist-realism\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><em class=\"markup--em markup--p-em\">Capitalist Realism<\/em><\/a><em class=\"markup--em markup--p-em\">\u00a0(Realismo Capitalista), no qual argumenta que a grande vit\u00f3ria do neo-liberalismo foi ter consolidado um senso comum no qual n\u00e3o h\u00e1 alternativa poss\u00edvel ao capitalismo, bloqueando nossa imagina\u00e7\u00e3o ut\u00f3pica e obliterando formas de consci\u00eancia que apontem para um horizonte emancipat\u00f3rio p\u00f3s-capitalista. Como escritor, palestrante e ativista Mark Fisher contribuiu imensamente para afrouxar as amarras do \u201crealismo capitalista\u201d na mente das novas gera\u00e7\u00f5es militantes, sobretudo na Inglaterra. Como homenagem, traduzi seu texto \u201c<\/em><a class=\"markup--anchor markup--p-anchor\" href=\"https:\/\/theoccupiedtimes.org\/?p=12841\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong class=\"markup--strong markup--p-strong\"><em class=\"markup--em markup--p-em\">Good for nothing<\/em><\/strong><\/a><em class=\"markup--em markup--p-em\">\u201d, na qual ele aborda sua pr\u00f3pria depress\u00e3o no esfor\u00e7o de politizar, e tornar mais coletivo, o debate sobre sa\u00fade mental. Espero que o texto possa servir para ati\u00e7ar a curiosidade a respeito do trabalho de Fisher, que segue \u00fatil e potente na nossa luta coletiva para abrir, contra o melanc\u00f3lico \u201ccancelamento do futuro\u201d imposto pelo neo-liberalismo, um novo futuro comum.<\/em>]<\/p><\/blockquote>\n<hr \/>\n<h3><strong>Notas<\/strong><\/h3>\n<p><a id=\"nota1\" href=\"https:\/\/ominhocario.wordpress.com\/2017\/09\/02\/um-mundo-insano-capitalismo-e-a-epidemia-de-doencas-mentais\/#nota1-volta\">[1]<\/a>\u00a0Alguns \u00f3timos textos para entender do que se trata o Neoliberalismo e seu estado atual:\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/ominhocario.wordpress.com\/2016\/11\/20\/neoliberalismo-a-ideologia-na-raiz-de-nossos-problemas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Neoliberalismo, A Ideologia na Raiz de Nossos Problemas<\/a><\/strong>, de George Monbiot;\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/ominhocario.wordpress.com\/2017\/01\/03\/como-vai-acabar-o-capitalismo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Como Vai Acabar o Capitalismo?<\/a><\/strong>, de Wolfgang Streeck;\u00a0<strong><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/posts\/o-ano-em-que-o-capitalismo-real-mostrou-o-que-e\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">O Ano em Que o Capitalismo Real Mostrou a Que Veio<\/a><\/strong>, de Jerome Roos; al\u00e9m de\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/ominhocario.wordpress.com\/2017\/06\/22\/realismo-capitalista-e-a-exclusao-do-futuro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Realismo Capitalista e a Exclus\u00e3o do Futuro<\/a><\/strong>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/ominhocario.wordpress.com\/2017\/07\/21\/como-matar-um-zumbi-elaborando-estrategias-para-o-fim-do-neoliberalismo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Como Matar Um Zumbi: Elaborando Estrat\u00e9gias Para o Fim do Neoliberalismo<\/strong><\/a>, do pr\u00f3prio Mark Fisher. [N.M.]<\/p>\n<p><a id=\"nota2\" href=\"https:\/\/ominhocario.wordpress.com\/2017\/09\/02\/um-mundo-insano-capitalismo-e-a-epidemia-de-doencas-mentais\/#nota2-volta\">[2]<\/a>\u00a0no original, \u2018active species-life\u2019, our \u2018species-being\u2019. Agrade\u00e7o sugest\u00f5es melhores de tradu\u00e7\u00e3o. [N.M.]<\/p>\n<p><a id=\"nota3\" href=\"https:\/\/ominhocario.wordpress.com\/2017\/09\/02\/um-mundo-insano-capitalismo-e-a-epidemia-de-doencas-mentais\/#nota3-volta\">[3]<\/a>\u00a0alguns outros textos muito interessantes sobre essa tal \u201cnatureza humana\u201d:\u00a0<strong><a title=\"\u201cNossa natureza compartilhada na verdade nos ajuda a construir e definir os valores de uma sociedade mais justa.\u201d\" href=\"https:\/\/ominhocario.wordpress.com\/2016\/07\/12\/o-socialismo-soa-bem-na-teoria-mas-a-natureza-humana-nao-o-torna-impossivel-de-se-realizar\/\">O Socialismo Soa Bem na Teoria, Mas a Natureza Humana N\u00e3o o Torna Imposs\u00edvel de Se Realizar?<\/a><\/strong>, de Adaner Usmani &amp; Bhaskar Sunkara;\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/ominhocario.wordpress.com\/2017\/05\/02\/por-que-socialismo-albert-einstein\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Por Que Socialismo?<\/a>,<\/strong>\u00a0de Albert Einstein; e\u00a0<a title=\"O Comunismo \u00e9 apenas um sonho de ingenuidade, utopia e perfei\u00e7\u00e3o? Ele ign0ra a maldade e o ego\u00edsmo que estariam na ess\u00eancia da natureza humana? Um tal sistema precisaria que todos pensassem e agissem de uma \u00fanica maneira, s\u00f3 poderia funcionar com pessoas perfeitas e harmoniosas como pe\u00e7as de rel\u00f3gio, nunca com os seres humanos diversos e falhos que realmente existem?\" href=\"https:\/\/ominhocario.wordpress.com\/2017\/01\/07\/o-comunismo-nao-passa-de-um-sonho-de-utopia-so-funcionaria-com-pessoas-perfeitas\/\"><strong>O Comunismo N\u00e3o Passa de Um Sonho de Utopia? S\u00f3 Funcionaria Com Pessoas Perfeitas?<\/strong><\/a>, de Terry Eagleton. [N.M.]<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"rkiHA3hiAu\"><p><a href=\"https:\/\/ominhocario.wordpress.com\/2017\/09\/02\/um-mundo-insano-capitalismo-e-a-epidemia-de-doencas-mentais\/\">Um Mundo Insano: Capitalismo e a Epidemia de Doen\u00e7as Mentais<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Um Mundo Insano: Capitalismo e a Epidemia de Doen\u00e7as Mentais&#8221; &#8212; O Minhoc\u00e1rio\" src=\"https:\/\/ominhocario.wordpress.com\/2017\/09\/02\/um-mundo-insano-capitalismo-e-a-epidemia-de-doencas-mentais\/embed\/#?secret=ETyEHyR7Xn#?secret=rkiHA3hiAu\" data-secret=\"rkiHA3hiAu\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rod Tweedy e Mark Fisher &#8211;\u00a0E se n\u00e3o for a gente quem est\u00e1 doente, mas um sistema em desacordo com quem somos como seres sociais? [Nota de Tradu\u00e7\u00e3o:\u00a0Apresentamos abaixo dois textos discutindo a rela\u00e7\u00e3o, cada vez mais escancarada, entre os valores incentivados em uma sociedade capitalista e os diversos tipos de sofrimento mental que se [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5760,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[8],"tags":[54],"class_list":["post-5759","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sociedade","tag-comportamento"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Um Mundo Insano: Capitalismo e a Epidemia de Doen\u00e7as Mentais - Controversia<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/10\/26\/um-mundo-insano-capitalismo-e-a-epidemia-de-doencas-mentais\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_PT\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Um Mundo Insano: Capitalismo e a Epidemia de Doen\u00e7as Mentais - Controversia\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Rod Tweedy e Mark Fisher &#8211;\u00a0E se n\u00e3o for a gente quem est\u00e1 doente, mas um sistema em desacordo com quem somos como seres sociais? 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