{"id":5667,"date":"2017-10-16T12:01:04","date_gmt":"2017-10-16T14:01:04","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=5667"},"modified":"2017-10-15T16:05:28","modified_gmt":"2017-10-15T18:05:28","slug":"escravidao-e-nao-corrupcao-define-sociedade-brasileira-diz-jesse-souza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/10\/16\/escravidao-e-nao-corrupcao-define-sociedade-brasileira-diz-jesse-souza\/","title":{"rendered":"Escravid\u00e3o, e n\u00e3o corrup\u00e7\u00e3o, define sociedade brasileira, diz Jess\u00e9 Souza"},"content":{"rendered":"<p><b>JESS\u00c9 SOUZA <\/b>&#8211; O autor argumenta que a vis\u00e3o do brasileiro como vira-lata, pr\u00e9-moderno, emotivo e corrupto decorre de uma leitura liberal, conservadora e equivocada de nosso passado. Para ele, \u00e9 preciso reinterpretar a hist\u00f3ria do Brasil tomando a escravid\u00e3o como o elemento definitivo que nos marca como sociedade at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Quem sintetizou a interpreta\u00e7\u00e3o dominante do Brasil, que todos aprendemos nas escolas e nas universidades, foi\u00a0Gilberto Freyre\u00a0(1900-87). \u00c9 a ideia de que viemos de Portugal e que de l\u00e1 herdamos um jeito espec\u00edfico de ser. Para o autor de &#8220;Casa-Grande e Senzala&#8221; e para seguidores como\u00a0Darcy Ribeiro\u00a0(1922-97), essa heran\u00e7a era positiva ou, pelo menos, amb\u00edgua.<\/p>\n<p>S\u00e9rgio Buarque de Holanda\u00a0(1902-82), outro filho de Freyre, reinterpreta a ideia como pura negatividade em registro liberal. Cria, assim, o brasileiro como vira-lata, pr\u00e9-moderno, emotivo e corrupto. Tal vis\u00e3o prevaleceu, e quase todos a seguem, de Raymundo Faoro (1925-2003), Fernando Henrique Cardoso e\u00a0Roberto DaMatta\u00a0a Deltan Dallagnol e Sergio Moro.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a \u00fanica interpreta\u00e7\u00e3o totalizante da sociedade brasileira que existe at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2017\/09\/21\/150602851359c42be1c05d0_1506028513_3x2_md.jpg?resize=620%2C413&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"413\" border=\"0\" \/><\/p>\n<p>Obra de Johann Moritz Rugendas (1802-1858)<\/p>\n<p>A &#8220;esquerda&#8221;, entendida como a perspectiva que contempla os interesses da maioria da sociedade, jamais construiu alternativa a essa leitura liberal e conservadora. Existem contribui\u00e7\u00f5es t\u00f3picas geniais, mas elas esclarecem fragmentos da realidade social, n\u00e3o a sua totalidade, permitindo que, por seus poros e lacunas, penetre a explica\u00e7\u00e3o dominante.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"160\" width=\"160\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/images1.folha.com.br\/livraria\/images\/a\/e\/1369374-160x160.png?resize=160%2C160\" alt=\"l\" border=\"0\" \/><\/p>\n<p><em>A Elite do Atraso &#8211; Da Escravid\u00e3o \u00e0 Lava Jato<\/em><\/p>\n<p>Para Faoro, por exemplo, a hist\u00f3ria do Brasil \u00e9 a hist\u00f3ria da corrup\u00e7\u00e3o transplantada de Portugal e aqui exercida pela elite do Estado. Nessa narrativa, senhores e escravos raramente aparecem e nunca t\u00eam o papel principal.A aus\u00eancia de interpreta\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria fez com que a esquerda sempre fosse dominada pelo discurso do advers\u00e1rio. Reescrever essa hist\u00f3ria \u00e9 a ambi\u00e7\u00e3o de meu novo livro, &#8220;A Elite do Atraso &#8211; Da Escravid\u00e3o \u00e0 Lava Jato&#8221; [Leya, 240 p\u00e1gs., R$ 44,90]. O fio condutor \u00e9 a ideia de que a escravid\u00e3o nos marca como sociedade at\u00e9 hoje \u2014e n\u00e3o a suposta heran\u00e7a de corrup\u00e7\u00e3o, como se convencionou sustentar.<\/p>\n<p>Essa abordagem seria apenas rid\u00edcula se n\u00e3o fosse tr\u00e1gica. Faoro imagina a semente da corrup\u00e7\u00e3o j\u00e1 no s\u00e9culo 14, em Portugal, quando n\u00e3o havia nem sequer a concep\u00e7\u00e3o de soberania popular, que \u00e9 parteira da no\u00e7\u00e3o moderna de bem p\u00fablico. \u00c9 como ver um filme sobre a Roma antiga cheio de cenas rom\u00e2nticas que foram inventadas no s\u00e9culo 18. N\u00e3o obstante, o pa\u00eds inteiro acredita nessa bobagem.<\/p>\n<p><b>ESCRAVID\u00c3O<\/b><\/p>\n<p>Os adeptos dessa interpreta\u00e7\u00e3o dominante parecem n\u00e3o se dar conta de que, em uma sociedade, cada indiv\u00edduo \u00e9 criado pela a\u00e7\u00e3o di\u00e1ria de institui\u00e7\u00f5es concretas, como a fam\u00edlia, a escola, o mundo do trabalho.<\/p>\n<p>No Brasil Col\u00f4nia, a institui\u00e7\u00e3o que influenciava todas as outras era a escravid\u00e3o (que n\u00e3o existia em Portugal, a n\u00e3o ser de modo t\u00f3pico). Tanto que a (n\u00e3o) fam\u00edlia do escravo daquele per\u00edodo sobrevive at\u00e9 hoje, com poucas mudan\u00e7as, na (n\u00e3o) fam\u00edlia das classes exclu\u00eddas: monoparental, sem construir os pap\u00e9is familiares mais b\u00e1sicos, refletindo o desprezo e o abandono que existiam em rela\u00e7\u00e3o ao escravo.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m no mundo do trabalho a continuidade impressiona. A &#8220;ral\u00e9 de novos escravos&#8221;, mais de um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o, \u00e9 explorada pela classe m\u00e9dia e pela elite do mesmo modo que o escravo dom\u00e9stico: pelo uso de sua energia muscular em fun\u00e7\u00f5es indignas, cansativas e com remunera\u00e7\u00e3o abjeta.<\/p>\n<p>Em outras palavras, os estratos de cima roubam o tempo dos de baixo e o investem em atividades rent\u00e1veis, ampliando seu pr\u00f3prio capital social e cultural (com cursos de idiomas e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, por exemplo) e condenando a outra classe \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o de sua mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>A classe que chamo provocativamente de ral\u00e9 \u00e9 uma continua\u00e7\u00e3o direta dos escravos. Ela \u00e9 hoje em grande parte mesti\u00e7a, mas n\u00e3o deixa de ser destinat\u00e1ria da superexplora\u00e7\u00e3o, do \u00f3dio e do desprezo que se reservavam ao escravo negro. O assassinato indiscriminado de pobres \u00e9 atualmente uma pol\u00edtica p\u00fablica informal de todas as grandes cidades brasileiras.<\/p>\n<p>A nossa elite econ\u00f4mica tamb\u00e9m \u00e9 uma continuidade perfeita da elite escravagista. Ambas se caracterizam pela rapinagem de curto prazo. Antes, o planejamento era dificultado pela impossibilidade de calcular os fatores de produ\u00e7\u00e3o. Hoje, como o recente\u00a0<a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2016\/04\/1763753-quem-deu-o-golpe-e-contra-quem.shtml\">golpe<\/a>\u00a0comprova, ainda predomina o &#8220;quero o meu agora&#8221;, mesmo que a custo do futuro de todos.<\/p>\n<p>\u00c9 importante destacar essa diferen\u00e7a. Em outros pa\u00edses, as elites tamb\u00e9m ficam com a melhor fatia do bolo do presente, mas al\u00e9m disso planejam o bolo do futuro. Por aqui, a elite dedica-se apenas ao saque da popula\u00e7\u00e3o via juros ou \u00e0 pilhagem das riquezas naturais.<\/p>\n<p><b>INTERMEDI\u00c1RIAS<\/b><\/p>\n<p>Historicamente, a polariza\u00e7\u00e3o entre senhores e escravos em nossa sociedade permaneceu at\u00e9 o alvorecer do s\u00e9culo 20, quando surgiram dois novos estratos por for\u00e7a do capitalismo industrial: a classe trabalhadora e a classe m\u00e9dia.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o aos trabalhadores, a viol\u00eancia e o engodo sempre foram o tratamento dominante. Com a classe m\u00e9dia, por\u00e9m, a elite se viu contraposta a um desafio novo.<\/p>\n<p>A classe m\u00e9dia n\u00e3o \u00e9 necessariamente conservadora. Tampouco \u00e9 homog\u00eanea. O tenentismo, conhecido como nosso primeiro movimento pol\u00edtico de classe m\u00e9dia, na d\u00e9cada de 1920, j\u00e1 revelava essas caracter\u00edsticas, pois abrigava m\u00faltiplas posi\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>A elite paulistana, tendo perdido o poder pol\u00edtico em 1930, precisava fazer com que a heterodoxia rebelde da classe m\u00e9dia apontasse para uma \u00fanica dire\u00e7\u00e3o, agora em conformidade com os interesses das camadas mais abastadas. Como naquele momento os endinheirados de S\u00e3o Paulo n\u00e3o controlavam o Estado, o caminho foi dominar a esfera p\u00fablica e us\u00e1-la como arma.<\/p>\n<p>O que estava em jogo era a captura intelectual e simb\u00f3lica da classe m\u00e9dia letrada pela elite do dinheiro, para a forma\u00e7\u00e3o da alian\u00e7a de classe dominante que marcaria o Brasil dali em diante.<\/p>\n<p>O acesso ao poder simb\u00f3lico exige a constru\u00e7\u00e3o de &#8220;f\u00e1bricas de opini\u00f5es&#8221;: a grande imprensa, as grandes editoras e livrarias, para &#8220;convencer&#8221; seu p\u00fablico na dire\u00e7\u00e3o que os propriet\u00e1rios queriam, sob a m\u00e1scara da &#8220;liberdade de imprensa&#8221; e de opini\u00e3o.<\/p>\n<p>A imprensa, todavia, s\u00f3 distribui informa\u00e7\u00e3o e opini\u00e3o. Ela n\u00e3o cria conte\u00fado. A produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fado \u00e9 monop\u00f3lio de especialistas treinados: os intelectuais. A elite paulistana, ent\u00e3o, constr\u00f3i a USP, destinando-a a ser uma esp\u00e9cie de gigantesco &#8220;think tank&#8221; do liberalismo conservador brasileiro, de onde saem as duas ideias centrais dessa vertente: as no\u00e7\u00f5es de patrimonialismo e de populismo.<\/p>\n<p><b>LAVA JATO<\/b><\/p>\n<p>Enquanto conceito, o patrimonialismo procede a uma invers\u00e3o do poder social real, localizando-o no Estado, n\u00e3o no mercado. Abre-se espa\u00e7o, assim, para a estigmatiza\u00e7\u00e3o do Estado e da pol\u00edtica sempre que se contraponham aos interesses da elite econ\u00f4mica. Nesse esquema, a classe m\u00e9dia cooptada escandaliza-se apenas com a corrup\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos partidos ligados \u00e0s classes populares.<\/p>\n<p>A no\u00e7\u00e3o de populismo, por sua vez, sempre associada a pol\u00edticas de interesse dos mais pobres, serve para mitigar a import\u00e2ncia da soberania popular como crit\u00e9rio fundamental de uma sociedade democr\u00e1tica \u2014afinal, como os pobres (&#8220;coitadinhos!&#8221;) n\u00e3o t\u00eam consci\u00eancia pol\u00edtica, a soberania popular sempre pode ser posta em quest\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 impressionante a prolifera\u00e7\u00e3o dessa ideia na esfera p\u00fablica a partir da sua &#8220;respeitabilidade cient\u00edfica&#8221; e, depois, pelo aparato legitimador midi\u00e1tico, que o repercute todos os dias de modos variados.<\/p>\n<p>As no\u00e7\u00f5es de patrimonialismo e de populismo, distribu\u00eddas em p\u00edlulas pelo veneno midi\u00e1tico diariamente, s\u00e3o as ideias-guia que permitem \u00e0 elite arregimentar a classe m\u00e9dia como sua tropa de choque.<\/p>\n<p>Essas no\u00e7\u00f5es legitimam a alian\u00e7a antipopular constru\u00edda no Brasil do s\u00e9culo 20 para preservar o privil\u00e9gio real: o acesso ao capital econ\u00f4mico por parte da elite e o monop\u00f3lio do capital cultural valorizado para a classe m\u00e9dia. \u00c9 esse pacto que permite a uni\u00e3o dos 20% de privilegiados contra os 80% de exclu\u00eddos.<\/p>\n<p>A\u00a0<a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2016\/09\/1817313-lava-jato-atacou-e-destruiu-as-bases-do-direito-brasileiro-diz-jesse-souza.shtml\">atual farsa da Lava Jato<\/a>\u00a0\u00e9 apenas a m\u00e1scara nova de um jogo velho que completa cem anos.<\/p>\n<p>Em conluio com a grande m\u00eddia, n\u00e3o se atacou apenas a ideia de soberania popular, pela estigmatiza\u00e7\u00e3o seletiva da pol\u00edtica e de empresas supostamente ligadas ao PT \u2014o saque real, obra dos oligop\u00f3lios e da intermedia\u00e7\u00e3o financeira, que capturam o Estado para seus fins, ficou invis\u00edvel como sempre. Destruiu-se tamb\u00e9m, com protagonismo da Rede Globo nesse particular, a validade do pr\u00f3prio princ\u00edpio da igualdade social entre n\u00f3s.<\/p>\n<p>O ataque seletivo ao PT, de 2013 a 2016, teve o sentido de transformar a luta por inclus\u00e3o social e maior igualdade em mero instrumento para um fim esp\u00fario: a suposta pilhagem do Estado.<\/p>\n<p>Desqualificada enquanto fim em si mesma, a demanda pela igualdade se torna suspeita e inadequada para expressar o leg\u00edtimo ressentimento e a raiva que os exclu\u00eddos sentem, mas que agora n\u00e3o podem mais expressar politicamente.<\/p>\n<p>Assim, abriu-se caminho para quem surfa na destrui\u00e7\u00e3o dos discursos de justi\u00e7a social e de valores democr\u00e1ticos \u2014Jair Bolsonaro como amea\u00e7a real \u00e9 filho do casamento entre a Lava Jato e a Rede Globo.<\/p>\n<p>O pacto antipopular das classes alta e m\u00e9dia n\u00e3o significa apenas manter o abandono e a exclus\u00e3o da maioria da popula\u00e7\u00e3o, eternizando a heran\u00e7a da escravid\u00e3o. Significa tamb\u00e9m capturar o poder de reflex\u00e3o aut\u00f4noma da pr\u00f3pria classe m\u00e9dia (assim como da sociedade em geral), que \u00e9 um recurso social escasso e literalmente impag\u00e1vel.<\/p>\n<p>http:\/\/m.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2017\/09\/1920559-escravidao-e-nao-corrupcao-define-sociedade-brasileira-diz-jesse-souza.shtml?utm_source=facebook&#038;utm_medium=social&#038;utm_campaign=compfb<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>JESS\u00c9 SOUZA &#8211; O autor argumenta que a vis\u00e3o do brasileiro como vira-lata, pr\u00e9-moderno, emotivo e corrupto decorre de uma leitura liberal, conservadora e equivocada de nosso passado. Para ele, \u00e9 preciso reinterpretar a hist\u00f3ria do Brasil tomando a escravid\u00e3o como o elemento definitivo que nos marca como sociedade at\u00e9 hoje. 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