{"id":5654,"date":"2017-10-15T12:06:01","date_gmt":"2017-10-15T14:06:01","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=5654"},"modified":"2017-10-11T14:08:05","modified_gmt":"2017-10-11T17:08:05","slug":"em-sao-paulo-muros-contam-historia-de-uma-metropole-violenta-e-desigual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/10\/15\/em-sao-paulo-muros-contam-historia-de-uma-metropole-violenta-e-desigual\/","title":{"rendered":"Em S\u00e3o Paulo, muros contam hist\u00f3ria de uma metr\u00f3pole violenta e desigual"},"content":{"rendered":"<p><b>FERNANDA MENA &#8211;\u00a0<\/b>Os\u00a0<a href=\"http:\/\/arte.folha.uol.com.br\/mundo\/2017\/um-mundo-de-muros\/\">muros<\/a>\u00a0de S\u00e3o Paulo contam a hist\u00f3ria de uma cidade que cresceu depressa, assim como sua desigualdade social e, com ela, a criminalidade, o medo e a segrega\u00e7\u00e3o. N\u00e3o marcam fronteiras nem\u00a0<a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2017\/09\/1918764-globalizacao-gerou-inseguranca-e-ao-inves-de-derrubar-reforcou-fronteiras.shtml\">barram imigrantes<\/a>. Em vez disso, isolam os espa\u00e7os privados, procurando evitar o olhar do outro e a presen\u00e7a de intrusos.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>O port\u00e3o baixo ganhou altura. Foi, depois, substitu\u00eddo por dois ou tr\u00eas metros de ferro e concreto. De dentro, j\u00e1 n\u00e3o se enxergava a rua. De fora, tudo o que se via era um pared\u00e3o, que ainda receberia ornamentos: cacos de vidro, lan\u00e7as, concertina, cercas eletrificadas, sensores infravermelhos, c\u00e2meras de vigil\u00e2ncia. \u00c0s vezes, v\u00e1rios deles combinados.<\/p>\n<p>Os muros de S\u00e3o Paulo contam a hist\u00f3ria de uma cidade que cresceu depressa, assim como sua desigualdade social e, com ela, a criminalidade, o\u00a0<a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2017\/06\/1895452-violencia-e-medo-insuflam-defesa-de-autoritarismo-no-brasil.shtml\">medo<\/a>\u00a0e a segrega\u00e7\u00e3o. N\u00e3o marcam fronteiras entre pa\u00edses nem pretendem impedir a entrada de imigrantes ilegais ou refugiados; em vez disso, isolam os espa\u00e7os privados, procurando evitar o olhar do\u00a0<a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/bernardo-carvalho\/2017\/08\/1907188-o-outro-depende-de-uma-disposicao-radical-para-o-que-e-inesperado.shtml\">outro<\/a>\u00a0e a presen\u00e7a de intrusos.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio dos aparatos monumentais que existem mundo afora e que chamam a aten\u00e7\u00e3o tanto por seu tamanho como pela funcionalidade, as fortifica\u00e7\u00f5es paulistanas s\u00e3o menores e dispersas, numa onipresen\u00e7a que lhes garante paradoxal invisibilidade.<\/p>\n<p>&#8220;Os muros est\u00e3o totalmente naturalizados em S\u00e3o Paulo. A gente convive com eles e vive atr\u00e1s deles, separados e com medo&#8221;, diz a antrop\u00f3loga Teresa Caldeira. Chefe do departamento de planejamento urbano e regional da Universidade da Calif\u00f3rnia, Berkeley (EUA), ela \u00e9 autora de &#8220;Cidade de Muros &#8211; Crime, Segrega\u00e7\u00e3o e Cidadania em S\u00e3o Paulo&#8221; (Editora 34\/Edusp), livro que, no in\u00edcio dos anos 2000, j\u00e1 apontava para um fen\u00f4meno que apenas se aprofundou.<\/p>\n<p>Caldeira afirma que os muros cotidianos da capital paulista, como aqueles erguidos em anos recentes em diversos pa\u00edses com o objetivo de separar povos, surgiram e proliferaram a partir da elabora\u00e7\u00e3o de discursos do medo.<\/p>\n<p>Tijolo por tijolo, a escalada dos muros em S\u00e3o Paulo coincide com a da criminalidade violenta, que explodiu nos anos 1980.<\/p>\n<p>&#8220;O muro paulistano vem do medo do crime ligado a marcadores de diferen\u00e7a, como ra\u00e7a e origem. O criminoso que se teme \u00e9 sempre o pobre, o preto e o migrante, apesar de serem justamente eles, nas periferias da cidade, as\u00a0<a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/cotidiano\/2017\/06\/1890315-negro-e-jovem-sem-estudo-sao-maiores-vitimas-de-violencia-mostra-pesquisa.shtml\">maiores v\u00edtimas<\/a>\u00a0da viol\u00eancia urbana&#8221;, diz Caldeira.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que o modelo de moradia fortificada, que surgiu h\u00e1 cerca de 30 anos em condom\u00ednios erguidos no entorno do munic\u00edpio \u2013cercados como cidades medievais\u2013, alastrou-se para os\u00a0<a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/cotidiano\/2017\/08\/1912588-abordagem-nos-jardins-tem-de-ser-diferente-diz-comandante-da-rota.shtml\">bairros de elite<\/a>\u00a0e de classe m\u00e9dia do centro expandido at\u00e9 alcan\u00e7ar as periferias, onde mesmo constru\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias ganham contornos murados.<\/p>\n<p>&#8220;Aqui a gente s\u00f3 tinha medo de cobra e aranha&#8221;, lembra a baiana Maria da Gl\u00f3ria Oliveira, 72, no quintal da casa onde vive desde 1963 no Jardim Lapenna, regi\u00e3o de S\u00e3o Miguel Paulista, a 28 km do centro da cidade.<\/p>\n<p>&#8220;Era tudo mato. As casas ficavam abertas. O progresso trouxe benfeitorias e malef\u00edcios. E a dana\u00e7\u00e3o dos anjinhos sem asas fez a gente levantar os muros&#8221;, conta Oliveira, que hoje vive rodeada deles, com tr\u00eas vezes a sua estatura, interrompidos apenas por um grande port\u00e3o autom\u00e1tico. &#8220;N\u00e3o condeno ningu\u00e9m, porque cada um tem a sua hist\u00f3ria, mas o fato \u00e9 que meu muro vive cheio de buraco de bala.&#8221;<\/p>\n<p><b>DESIGUALDADE<\/b><\/p>\n<p>A ascens\u00e3o de muros nas \u00faltimas tr\u00eas ou quatro d\u00e9cadas contraria o esp\u00edrito que passou a vigorar s\u00e9culos atr\u00e1s. Com a derrubada dos muros das cidades medievais, obst\u00e1culos \u00e0 circula\u00e7\u00e3o de pessoas e mercadorias tornaram-se mal vistos. &#8220;A constru\u00e7\u00e3o de muros era motivo de vergonha, porque cindia a ideia de mobilidade e liberdade&#8221;, diz Teresa Caldeira.<\/p>\n<p>Tanto que, em 1963, diante do Muro de Berlim \u2013o mais famoso da hist\u00f3ria ocidental contempor\u00e2nea\u2013, John Kennedy (1917-63), ent\u00e3o presidente dos EUA, p\u00f4de afirmar que o pared\u00e3o era &#8220;uma ofensa n\u00e3o s\u00f3 contra a hist\u00f3ria, mas contra a humanidade&#8221;.<\/p>\n<p>A partir dos anos 1990, no entanto, os muros deixaram de ser uma ofensa. &#8220;Os discursos de toler\u00e2ncia est\u00e3o em baixa no mundo todo, e tamb\u00e9m no Brasil. E, quanto mais intoler\u00e2ncia, mais muros&#8221;, diz Caldeira. &#8220;Sabemos que somos desiguais, mas hoje o pa\u00eds n\u00e3o disfar\u00e7a mais sua desigualdade, antes tratada com alguma cerim\u00f4nia.&#8221;<\/p>\n<p>Para ela, os muros tamb\u00e9m se tornaram uma quest\u00e3o de status. &#8220;Se voc\u00ea quer se dar ao respeito, tem de ter um muro para indicar que h\u00e1 aqueles que merecem estar ali e outros que n\u00e3o, porque n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o bons quanto voc\u00ea&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Regina Meyer, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e autora de &#8220;S\u00e3o Paulo Metr\u00f3pole&#8221; (Imesp\/Edusp), afirma que o abismo entre as classes sociais no pa\u00eds aparece na forma como novos espa\u00e7os urbanos s\u00e3o ocupados. &#8220;A desigualdade foi para a rua, degradada ao extremo, o que levou a uma supervaloriza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o privado, do interior das casas.&#8221;<\/p>\n<p><b>N\u00c3O \u00c9 UMA CIDADE<\/b><\/p>\n<p>De acordo com ela, nos anos 2000 houve um segundo momento de dissemina\u00e7\u00e3o dos muros, ap\u00f3s a desindustrializa\u00e7\u00e3o de bairros como Mooca, Bel\u00e9m, Br\u00e1s e Barra Funda. &#8220;A disponibilidade de grandes glebas era uma oportunidade para mudan\u00e7as, mas esses terrenos foram tomados por um mar de condom\u00ednios fechados&#8221;, diz.<\/p>\n<p>O resultado, na vis\u00e3o de Meyer, \u00e9 delet\u00e9rio: &#8220;Caminhar ao longo de um muro da dimens\u00e3o de condom\u00ednios d\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o de profundo estranhamento. O lado de fora se torna algo que n\u00e3o \u00e9 cidade: \u00e9 s\u00f3 muro e ilumina\u00e7\u00e3o p\u00fablica&#8221;.<\/p>\n<p>A atomiza\u00e7\u00e3o dos diferentes grupos sociais, o isolamento das moradias em rela\u00e7\u00e3o ao seu entorno e a desvaloriza\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os p\u00fablicos levaram o fil\u00f3sofo tcheco naturalizado brasileiro Vil\u00e9m Flusser (1920-91) a decretar, num ensaio de 1988, que S\u00e3o Paulo n\u00e3o era uma cidade, mas um assentamento.<\/p>\n<p>Segundo Flusser, que viveu na metr\u00f3pole por mais de 30 anos, S\u00e3o Paulo precisaria de um grau de civilidade na vida urbana que n\u00e3o tinha, uma vez que o crescimento econ\u00f4mico n\u00e3o motivou um desenvolvimento baseado nos espa\u00e7os comuns e nos direitos iguais. Seu texto \u00e9 uma das bases da proposta curatorial da exposi\u00e7\u00e3o &#8220;S\u00e3o Paulo N\u00e3o \u00c9 uma Cidade&#8221;, que trata das transforma\u00e7\u00f5es da regi\u00e3o central e inaugurou o novo Sesc 24 de Maio.<\/p>\n<p>Esse aspecto simb\u00f3lico do muro, que ressalta a diferen\u00e7a entre aqueles de um lado e do outro, est\u00e1 na raiz de outro fen\u00f4meno t\u00edpico de S\u00e3o Paulo: a picha\u00e7\u00e3o, reconhecida como manifesta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e est\u00e9tica por uns, execrada como polui\u00e7\u00e3o visual e vandalismo por outros.<\/p>\n<p>&#8220;Ela s\u00f3 existe porque o muro foi erguido antes. E n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que S\u00e3o Paulo \u00e9 a capital mundial da picha\u00e7\u00e3o&#8221;, afirma o pichador Djan Ivson, 33, que j\u00e1 exp\u00f4s suas letras criptografadas na Funda\u00e7\u00e3o Cartier, em Paris.<\/p>\n<p>&#8220;O pixo \u00e9 uma ocupa\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o que nos foi negado e reivindica uma cidade que nos \u00e9 negada ao chamar a aten\u00e7\u00e3o para os muros, que s\u00e3o interven\u00e7\u00f5es privadas e permanentes&#8221;, diz. &#8220;O muro \u00e9 muito mais impositivo e autorit\u00e1rio que o pixo, que \u00e9 ef\u00eamero. Por que o muro pode e o pixo n\u00e3o pode?&#8221;<\/p>\n<p><b>SEGURAN\u00c7A<\/b><\/p>\n<p>\u00cdcone da desigualdade, o muro exerce a fun\u00e7\u00e3o de primeiro c\u00edrculo de prote\u00e7\u00e3o contra uma criminalidade violenta que \u00e9 real, ainda que sua percep\u00e7\u00e3o possa ser exagerada. A cidade de S\u00e3o Paulo convive com uma taxa de homic\u00eddios de 7,3 por 100 mil habitantes, muito abaixo da m\u00e9dia nacional (25,7\/100 mil), mas acima do padr\u00e3o de pa\u00edses desenvolvidos (menos de 5\/100 mil).<\/p>\n<p>Registrados sobretudo nos bairros perif\u00e9ricos, os assassinatos despencaram desde 1999, quando a taxa era de 52,3\/100 mil \u2013trajet\u00f3ria oposta \u00e0 dos\u00a0<a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/cotidiano\/2017\/08\/1911084-latrocinios-avancam-20-e-estado-de-sao-paulo-contabiliza-237-casos-no-ano.shtml\">crimes patrimoniais<\/a>\u00a0violentos, concentrados no centro expandido e em pleno crescimento.<\/p>\n<p>De 1986 e 2016, a taxa de roubo por 100 mil habitantes na capital (exclu\u00eddos os roubos de ve\u00edculos) aumentou 224%, muito mais que a de furtos (delitos que n\u00e3o envolvem grave amea\u00e7a nem viol\u00eancia), que avan\u00e7ou 50% no mesmo per\u00edodo.<\/p>\n<p>&#8220;Os muros respondem a uma mudan\u00e7a no padr\u00e3o de criminalidade que se intensificou e se tornou mais\u00a0<a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/cotidiano\/2017\/08\/1909472-crimes-contra-o-patrimonio-fazem-uma-vitima-em-sp-a-cada-30-segundos.shtml\">violenta<\/a>, avalia Renato S\u00e9rgio de Lima, do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica. &#8220;Erguer muros, portanto, n\u00e3o \u00e9 uma rea\u00e7\u00e3o desprovida de sentido. Mas eles promoveram uma mudan\u00e7a tremenda de comportamento na cidade: as pessoas passaram a desconhecer seus vizinhos, afrouxando la\u00e7os comunit\u00e1rios e nos tornando ref\u00e9ns da inseguran\u00e7a.&#8221;<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 saber se os muros cumprem sua fun\u00e7\u00e3o a contento. A crimin\u00f3loga Monique Marks, chefe do Centro de Futuro Urbano da Universidade de Durban, na \u00c1frica do Sul, desafia o senso comum. Em um estudo de 2015, ela comparou crimes ocorridos num bairro de classe m\u00e9dia alta cheio de resid\u00eancias fortificadas em Durban com aqueles que se deram em outra regi\u00e3o da cidade, de perfil aproximado (embora menos elitista), na qual os muros n\u00e3o eram t\u00e3o presentes.<\/p>\n<p><b>PARADOXO<\/b><\/p>\n<p>&#8220;O bairro de casas sitiadas tinha maior incid\u00eancia de crimes violentos, como roubos e sequestros, enquanto aquele com menos muros era palco de crimes de menor potencial ofensivo, como furtos&#8221;, diz Marks. &#8220;Em sociedades muito desiguais, o crime \u00e9 algo esperado, ent\u00e3o a quest\u00e3o \u00e9 escolher qual voc\u00ea vai sofrer.&#8221;<\/p>\n<p>Segundo a crimin\u00f3loga, o muro quebra a chamada vigil\u00e2ncia natural. &#8220;Precisamos abrir nossos espa\u00e7os e mentes para o que \u00e9 externo, e isso nos protege n\u00e3o s\u00f3 porque cria transpar\u00eancia e visibilidade mas tamb\u00e9m porque nos conecta com os outros seres humanos.&#8221;<\/p>\n<p>Para Marks, se a criminalidade continua a subir, \u00e9 porque as estrat\u00e9gias atuais n\u00e3o est\u00e3o funcionando. &#8220;Precisamos revisar nossos m\u00e9todos e procurar alternativas.&#8221;<\/p>\n<p>Por aqui, a alvenaria come\u00e7ou a ceder lugar ao vidro. &#8220;Existe a preocupa\u00e7\u00e3o em fazer o muro ser menos ofensivo. O vidro \u00e9 um subterf\u00fagio, uma negocia\u00e7\u00e3o: voc\u00ea enxerga dentro, mas o elemento de separa\u00e7\u00e3o continua l\u00e1&#8221;, diz Regina Meyer.<\/p>\n<p>O \u00faltimo\u00a0<a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2015\/01\/1568784-o-cenario-arquitetonico-do-ano-que-passou.shtml\">Plano Diretor<\/a>, de 2015, restringiu a presen\u00e7a de muros no entorno dos novos edif\u00edcios a cerca de 25%. O restante tem de ser transparente, com grades ou vidros, o que deve come\u00e7ar a mudar a paisagem paulistana em breve.<\/p>\n<p>http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2017\/09\/1918763-em-sao-paulo-muros-se-alastram-e-isolam-cidadaos-em-espacos-privados.shtml<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>FERNANDA MENA &#8211;\u00a0Os\u00a0muros\u00a0de S\u00e3o Paulo contam a hist\u00f3ria de uma cidade que cresceu depressa, assim como sua desigualdade social e, com ela, a criminalidade, o medo e a segrega\u00e7\u00e3o. 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