{"id":5635,"date":"2017-10-13T12:50:28","date_gmt":"2017-10-13T15:50:28","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=5635"},"modified":"2017-10-11T12:52:41","modified_gmt":"2017-10-11T15:52:41","slug":"vivemos-em-um-mundo-de-transicao-e-sem-alternativas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/10\/13\/vivemos-em-um-mundo-de-transicao-e-sem-alternativas\/","title":{"rendered":"Vivemos em um mundo de transi\u00e7\u00e3o e sem alternativas"},"content":{"rendered":"<p><strong>Hel\u00f4 D&#8217;Angelo<\/strong> &#8211;\u00a0\u201cEu diria que vivemos em um mundo de transi\u00e7\u00e3o. Um sistema que se recusa a acabar\u201d. A senten\u00e7a, proferida com voz grave e forte sotaque ingl\u00eas, \u00e9 do jornalista, ativista internacional e cinegrafista paquistan\u00eas Tariq Ali, um dos nomes mais conhecidos quando se trata de movimentos de resist\u00eancia ao capitalismo.<\/p>\n<p>Nascido no Paquist\u00e3o, \u00e9 um dos editores da revista\u00a0<em>New Left Review<\/em>\u00a0e colaborador do\u00a0<em>The Guardian<\/em>, e autor de 12 livros anal\u00edticos e sete romances (alguns deles publicados no Brasil pela Record, pela Boitempo e pela Zahar).\u00a0\u00c9 tamb\u00e9m cr\u00edtico das pol\u00edticas neoliberais, do neocolonialismo e da pol\u00edtica externa dos Estados Unidos \u2013\u00a0 sendo um dos 19 signat\u00e1rios do Manifesto de Porto Alegre, documento que re\u00fane propostas para a constru\u00e7\u00e3o de \u201coutro mundo poss\u00edvel\u201d, em 2005.<\/p>\n<p>\u201cMudan\u00e7as precisam ser feitas, n\u00e3o porque queremos, mas porque o futuro do planeta n\u00e3o est\u00e1 seguro no capitalismo\u201d, disse \u00e0 CULT, em entrevista concedida na regi\u00e3o central de S\u00e3o Paulo, no sagu\u00e3o do hotel em que esteve hospedado para participar do semin\u00e1rio internacional \u201c1917: O ano que abalou o mundo\u201d, promovido pela editora Boitempo entre 26 e 29 de setembro.<\/p>\n<p>As viv\u00eancias entre o \u201cterceiro mundo\u201d e o \u201cprimeiro mundo\u201d do jornalista, somadas \u00e0 intensa participa\u00e7\u00e3o nos movimentos libert\u00e1rios da d\u00e9cada de 1960 \u2013 e em recentes ocupa\u00e7\u00f5es como a Occupy Wall Street -, formaram um intelectual com conhecimentos acad\u00eamicos e saberes emp\u00edricos, qualidades que permitem a Ali tecer cr\u00edticas de forma \u00fanica e precisa.<\/p>\n<p>Entusiasta do MST (Movimento Sem Terra) enquanto forma de resist\u00eancia ao capital, Ali \u00e9 cr\u00edtico da atua\u00e7\u00e3o do PT desde o impeachment de Dilma Rousseff. Para o ativista, muito do conservadorismo que a classe trabalhadora tem demonstrado ultimamente no Brasil deriva de uma inabilidade do partido \u201ccuidar dos mais pobres\u201d.<\/p>\n<p>Na quarta (27), Ali falou ao p\u00fablico brasileiro sobre o papel de L\u00eanin na Revolu\u00e7\u00e3o Russa, assunto de seu \u00faltimo livro,\u00a0<em>The dilemmas of Lenin: terrorism, war, empire, love, revolution<\/em>\u00a0(ainda sem tradu\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas), no qual coloca o revolucion\u00e1rio como condi\u00e7\u00e3o para os eventos de 1917. Tamb\u00e9m s\u00e3o da autoria de Ali as introdu\u00e7\u00f5es de\u00a0<em>Manifesto comunista\/Teses de abril<\/em>, lan\u00e7adas em volume \u00fanico pela Boitempo neste m\u00eas.<\/p>\n<p>\u00c0 CULT, Ali falou sobre os \u201cLenins\u201d atuais, relacionou o capitalismo \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o ambiental, deu diretrizes para as elei\u00e7\u00f5es presidenciais \u2013 e, no contexto das comemora\u00e7\u00f5es do centen\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o Russa, falou sobre as possibilidades de uma nova revolu\u00e7\u00e3o: \u201cAcredito que algo est\u00e1 para acontecer\u201d.<\/p>\n<p><b>CULT \u2013 Em seu livro mais recente,\u00a0<em>The dilemmas of Lenin<\/em>, voc\u00ea se aprofunda na figura do revolucion\u00e1rio e defende que ele foi essencial para a Revolu\u00e7\u00e3o Russa. Acha que existem \u201cL\u00eanins\u201d nos dias atuais?<\/b><\/p>\n<p><strong>Tariq Ali \u2013<\/strong>\u00a0N\u00e3o acredito que haja uma pessoa assim atualmente. H\u00e1 muitas pessoas que tentam compreender a crise presente no mundo, mas ningu\u00e9m com a certeza de L\u00eanin, porque essa certeza derivou daquele tempo. Se olharmos para todos os partidos, no mundo inteiro, sociais-democrata ou de esquerda, n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m com uma capacidade de pensar t\u00e3o claramente quanto L\u00eanin, e essa era uma qualidade dele.<\/p>\n<p><b>Por que n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m com esta qualidade?<\/b><\/p>\n<p>\u00c9 outro contexto. \u00c9 importante lembrar que o mundo n\u00e3o \u00e9 o mesmo que era em 1917. 100 anos depois, muito mudou. O capitalismo mudou sua forma de opera\u00e7\u00e3o, mudou suas prioridades, mudou suas tecnologias, o que criou formas de capital que n\u00e3o eram sequer consideradas por muitas pessoas no \u00faltimo s\u00e9culo porque, naquela \u00e9poca, pareciam ser imposs\u00edveis. As pessoas costumavam dizer, no final do s\u00e9culo passado, que est\u00e1vamos vivendo o fim do capitalismo.<\/p>\n<p>Hoje n\u00e3o sabemos se isso \u00e9 verdade. Poderia ser o meio do capitalismo, poderia ser um capitalismo jovem. Mas o fato \u00e9 que o capitalismo sempre ter\u00e1 crises, e \u00e9 a\u00ed que est\u00e3o as similaridades com a \u00e9poca da Revolu\u00e7\u00e3o Russa. A quebra da Bolsa de 1929, a crise econ\u00f4mica dos anos 1930, que polarizou pa\u00edses, tudo isso come\u00e7ou a acontecer de novo depois da quebra da Bolsa em 2008, quando a polariza\u00e7\u00e3o voltou. Mesmo que, pouco antes dela, as pessoas achassem que viv\u00edamos o fim da hist\u00f3ria, uma sociedade est\u00e1vel, um tempo em que nada acontece. Todas essas esperan\u00e7as foram destru\u00eddas depois da crise de 2008, e muitas pessoas deixaram de acreditar que este sistema pode benefici\u00e1-las de forma permanente. Mas ainda falta algu\u00e9m que possa ter a clareza de L\u00eanin.<\/p>\n<p><b>O que essas crises significaram, em termos de cria\u00e7\u00e3o de uma consci\u00eancia cr\u00edtica ao capitalismo?<\/b><\/p>\n<p>Se pergunt\u00e1ssemos para as pessoas no mundo quem mais se beneficia do sistema capitalista, a maioria diria que s\u00e3o os ricos, n\u00e3o a popula\u00e7\u00e3o como um todo. A diferencia\u00e7\u00e3o de classe, depois das crises e principalmente depois de 2008, se tornou pior. Os n\u00edveis de desigualdade se tornaram muito altos no mundo inteiro. Ent\u00e3o, h\u00e1 uma base para a organiza\u00e7\u00e3o de classes trabalhadoras, que hoje j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 apenas nas grandes f\u00e1bricas, mas s\u00e3o trabalhadores migrantes, trabalhadores sazonais, jovens que est\u00e3o tentando se educar e encontrar trabalhos que, em muitos casos, simplesmente n\u00e3o existem. Eu diria que vivemos um mundo de transi\u00e7\u00e3o. Um sistema se recusa a acabar, e os sintomas disso, como\u00a0<a href=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/tag\/gramsci\/\">Gramsci<\/a>\u00a0disse uma vez, s\u00e3o extremamente m\u00f3rbidos, fazem as pessoas infelizes \u2013 mas n\u00e3o h\u00e1 alternativas ainda. E este \u00e9 o mundo em que vivemos. Por isso, a oposi\u00e7\u00e3o ao capital tem, em alguns pontos, aumentado.<\/p>\n<figure id=\"attachment_62572\" class=\"wp-caption alignleft\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-62572\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistacult.uol.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/tariq.jpg?resize=640%2C341&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px\" srcset=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/tariq.jpg 1500w, https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/tariq-300x160.jpg 300w, https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/tariq-768x410.jpg 768w, https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/tariq-1024x546.jpg 1024w, https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/tariq-600x320.jpg 600w, https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/tariq-165x88.jpg 165w, https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/tariq-216x115.jpg 216w, https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/tariq-356x190.jpg 356w, https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/tariq-360x192.jpg 360w, https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/tariq-1200x640.jpg 1200w\" alt=\"Vanessa Redgrave e Tariq Ali em protesto contra a Guerra do Vietn\u00e3 em Londres,, 1968 (Divulga\u00e7\u00e3o)\" width=\"640\" height=\"341\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\"><em>Vanessa Redgrave e Tariq Ali em protesto contra a Guerra do Vietn\u00e3 em Londres, 1968<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><b>H\u00e1 exemplos desse aumento da oposi\u00e7\u00e3o ao capital?<\/b><\/p>\n<p>Isso \u00e9 vis\u00edvel se compararmos nosso presente ao passado. Por exemplo, nos anos 1920, havia enormes f\u00e1bricas na Europa e havia polariza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, mas o que n\u00e3o existia eram movimentos estudantis particularmente radicais ou cr\u00edticos ao sistema. Na Alemanha, nos Estados Unidos e em muitos outros pa\u00edses ocidentais, os estudantes eram muito reacion\u00e1rios, porque vinham das classes mais abastadas e da classe m\u00e9dia. Hoje, a enorme expans\u00e3o da universidade significou, na pr\u00e1tica, uma participa\u00e7\u00e3o maior de jovens radicais nos movimentos estudantis no mundo inteiro.<\/p>\n<p><b>Voc\u00ea diz que as pessoas est\u00e3o criando uma consci\u00eancia de classe, e compreendendo que o capitalismo lhes faz mal. Mas, no Brasil, a classe trabalhadora parece ter ficado mais conservadora. Como v\u00ea isso?<\/b><\/p>\n<p>Acho que isso aconteceu porque as pessoas ficaram muito desapontadas com o PT. Este \u00e9 um resultado direto da inabilidade e incapacidade do PT de fazer algo significativo para a classe trabalhadora e para os setores mais pobres da sociedade. O Bolsa Fam\u00edlia n\u00e3o foi suficiente, foi como caridade dada pelo Estado, mais ou menos como o Oxfam [ONG que trabalha no combate \u00e0 pobreza e \u00e0 desigualdade]. Claro, isso \u00e9 bom, ningu\u00e9m deveria fazer obje\u00e7\u00f5es ao Estado ajudando a sociedade, mas faltava estrutura, faltava deixar claro o que o projeto deixaria para o futuro. Seria preciso haver um programa social em escala maior, com programas de moradias p\u00fablicas, educa\u00e7\u00e3o de base, sa\u00fade, eletricidade, esgoto, \u00e1gua. E isso, acredito, nem Lula nem Dilma fizeram. E agora voc\u00eas pagam o pre\u00e7o disso na forma do desencantamento da classe trabalhadora. Eles sentem que elegeram pessoas que se diziam parte do povo mas que, na realidade, n\u00e3o fizeram muito pelo povo. Acho que isso \u00e9 o que tem criado essa situa\u00e7\u00e3o especial no Brasil.<\/p>\n<p><b>Ainda assim, em outros pa\u00edses, a situa\u00e7\u00e3o se repete.<\/b><\/p>\n<p>\u00c9 parecido em outros pa\u00edses, como no Paquist\u00e3o, onde eu nasci. Muitas pessoas est\u00e3o dizendo que os pol\u00edticos falharam, que s\u00e3o todos corruptos, que os militares deveriam intervir e limpar as coisas. Mas no Paquist\u00e3o, como no Brasil, n\u00f3s tivemos ditaduras militares, e ditaduras muito perversas, que mostraram que os militares s\u00e3o perfeitamente capazes de corrup\u00e7\u00e3o \u2013 todos aqueles que governam o Estado t\u00eam este poder. Ent\u00e3o, um golpe militar n\u00e3o \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o, \u00e9 apenas um sinal de desespero da classe trabalhadora. Se o ex\u00e9rcito tomasse o poder, em seis meses as pessoas perceberiam o erro em clamar por isso. \u00c9 um sinal de desespero que eles n\u00e3o consigam pensar em nada al\u00e9m da salva\u00e7\u00e3o militar. Eles sabem como \u00e9 a direita, eles veem Temer, um tolo corrupto que basicamente n\u00e3o tem nada a oferecer exceto fazer mais dinheiro a seus associados. Nada a oferecer \u00e0 maioria esmagadora da popula\u00e7\u00e3o brasileira. No entanto, eles acabaram de experimentar o PT, ent\u00e3o temos de entender por que a classe trabalhadora est\u00e1 chateada.<\/p>\n<p><b>H\u00e1 solu\u00e7\u00e3o?<\/b><\/p>\n<p>Sim, mas n\u00e3o \u00e9 o caso de simplesmente sentar-se entre intelectuais na Vila Madalena e reconhecer nossos erros e pensar planos. Porque isso n\u00e3o chega \u00e0 maioria das pessoas. E acho que o PT errou depois que Dilma foi removida ilegalmente \u2013 ou semi-legalmente. O PT deveria ter feito um an\u00fancio publico admitindo seus erros para a popula\u00e7\u00e3o. Dizendo que algumas atitudes tomadas pelo partido foram erradas e que outras foram insuficientes; pedindo desculpas e dizendo que aprender\u00e3o com os erros. Nada foi feito. Eles n\u00e3o admitem nada. Acreditam que s\u00e3o as v\u00edtimas, e realmente s\u00e3o, mas tamb\u00e9m precisam se perguntar por que n\u00e3o h\u00e1, hoje, grandes mobiliza\u00e7\u00f5es de massa para defend\u00ea-los. Sou muito cr\u00edtico disso. Esta era a minha opini\u00e3o mesmo durante o primeiro mandato de Lula. Estive muito no Brasil nesta ocasi\u00e3o e j\u00e1 pensava que era um erro tremendo seguir os conselhos de Palocci e dos antigos esquerdistas que se tornaram neoliberais, e que depois que aconselharam o governo a n\u00e3o tomar a\u00e7\u00f5es que ferissem os Estados Unidos ou os mercados. Bem, este \u00e9 o resultado de tudo isso.<\/p>\n<p><b>Al\u00e9m disso, o pensamento de esquerda tem sido cada vez mais confinado \u00e0 vida acad\u00eamica, de onde as massas est\u00e3o afastadas. Como levar este conhecimento \u00e0 classe trabalhadora?<\/b><\/p>\n<p>A \u00fanica forma pela qual os trabalhadores compreendem \u00e9 por meio da experi\u00eancia pr\u00f3pria. \u00c9 claro que voc\u00ea pode escrever livros e criar grupos de estudo, mas as pessoas aprendem principalmente pelas suas experi\u00eancias. \u00c9 a experi\u00eancia que mostra \u00e0s pessoas aqui no Brasil que ningu\u00e9m cuidou delas, que mesmo os pol\u00edticos em quem eles confiaram, mesmo aqueles que elegeram duas, tr\u00eas vezes, as desapontaram. \u00c9 imposs\u00edvel vencer a experi\u00eancia com f\u00f3rmulas artificiais.<\/p>\n<p>Estes s\u00e3o tempos de reflex\u00e3o, de pensar, de esperar, para ver quando as coisas mudar\u00e3o de novo. A trag\u00e9dia real \u00e9 que os movimentos sociais diminu\u00edram tremendamente no Brasil. O MST, uma organiza\u00e7\u00e3o que eu respeito imensamente, ainda est\u00e1 l\u00e1, e ele faz um trabalho excelente de levar o conhecimento \u00e0 classe trabalhadora, aos camponeses e aos estudantes em diferentes partes do Brasil. Essas pessoas t\u00eam agora a capacidade de formar algo novo. Acredito que voc\u00eas precisem de algu\u00e9m como [o ativista e economista Jo\u00e3o Pedro] St\u00e9dile, que tem um hist\u00f3rico limpo, para ser o novo candidato \u00e0 presid\u00eancia. Se o PT fosse inteligente, eles o apoiariam. E ele, sim, poderia criar uma campanha forte para a classe trabalhadora e para os camponeses, e dizer que luta pelos pobres sem que ningu\u00e9m diga que ele foi domesticado pela pol\u00edtica. Mesmo que ele n\u00e3o ven\u00e7a, isto criar\u00e1 algo novo para o futuro. Voc\u00eas precisam alguma mudan\u00e7a dram\u00e1tica como esta.<\/p>\n<p><b>Voc\u00ea mencionou o MST, mas qual o papel de os outros movimentos sociais, como o feminismo e o movimento negro, na cr\u00edtica ao capital?<\/b><\/p>\n<p>Acho que s\u00e3o muito importantes, sempre os apoiei. Eles est\u00e3o a\u00ed, mas por conta pr\u00f3pria. Mas h\u00e1 outra quest\u00e3o a\u00ed: se voc\u00ea olhar para grande parte do mundo ocidental, ver\u00e1 que, quando estes movimentos est\u00e3o ligados \u00e0 burguesia, vencem qualquer demanda. O feminismo burgu\u00eas, por exemplo, conquistou muitas demandas que o feminismo socialista n\u00e3o conseguiu. As feministas burguesas conseguiram o direito de lutar no ex\u00e9rcito, embora me seja muito estranho incentivar mulheres a irem \u00e0 guerra e morrer. Muitos l\u00edderes burgueses tamb\u00e9m usam a legaliza\u00e7\u00e3o do casamento gay como um term\u00f4metro para ver se s\u00e3o ou n\u00e3o progressistas \u2013 e, de novo, \u00e9 claro que sou a favor, mas na minha \u00e9poca de ativismo jovem, \u00e9ramos opostos \u00e0 ideia de casamento de qualquer tipo, porque casar-se \u00e9 sobre propriedade. \u00c9 sobre heran\u00e7a. Essas coisas pelas quais os movimentos sociais burgueses lutam s\u00e3o importantes, claro, mas n\u00e3o contribuem para uma real transforma\u00e7\u00e3o da sociedade.<\/p>\n<figure id=\"attachment_62571\" class=\"wp-caption alignleft\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-62571\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistacult.uol.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Tariq-Ali-palestra.jpg?resize=640%2C341&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px\" srcset=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Tariq-Ali-palestra.jpg 1500w, https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Tariq-Ali-palestra-300x160.jpg 300w, https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Tariq-Ali-palestra-768x410.jpg 768w, https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Tariq-Ali-palestra-1024x546.jpg 1024w, https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Tariq-Ali-palestra-600x320.jpg 600w, https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Tariq-Ali-palestra-165x88.jpg 165w, https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Tariq-Ali-palestra-216x115.jpg 216w, https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Tariq-Ali-palestra-356x190.jpg 356w, https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Tariq-Ali-palestra-360x192.jpg 360w, https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Tariq-Ali-palestra-1200x640.jpg 1200w\" alt=\"Tariq Ali durante palestra no Subversive Festival, 2013 em Zagreb (Robert Crc)\" width=\"640\" height=\"341\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\"><em>Tariq Ali palestra no Subversive Festival, 2013, em Zagreb<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><b>Os movimentos sociais foram apropriados pelo capitalismo?<\/b><\/p>\n<p>Bem, sim, o mercado \u00e9 capaz de fazer isso. Tudo o que parece popular, como a imagem de Che Guevara, \u00e9 rapidamente apropriado. Ent\u00e3o, o que podemos fazer sobre isso? Imediatamente, nada. A burguesia pode fazer o que quiser, t\u00eam o poder para faz\u00ea-lo. Agora, o que precisamos trabalhar, enquanto resist\u00eancia, s\u00e3o as nossas pr\u00f3prias ideias. Como elas funcionar\u00e3o na pr\u00e1tica? Que demandas s\u00e3o interessantes para a maioria das pessoas, n\u00e3o s\u00f3 trabalhadores, mas para outras pessoas que sofrem? Mesmo dentro do movimento feminista, h\u00e1 feministas burguesas e feministas socialistas; h\u00e1 feministas da classe trabalhadora e feministas empres\u00e1rias, mas a quest\u00e3o \u00e9: o que todos t\u00eam em comum? Faz sentido o fato de as mulheres quererem ocupar os mesmos lugares que os homens na dire\u00e7\u00e3o de multinacionais, ou lutar no ex\u00e9rcito, por exemplo, mas nada disso me deixa particularmente animado. N\u00e3o me parece positivo que elas queiram ser t\u00e3o exploradoras e opressoras quanto os homens. Ou que elas queiram matar a mesma quantidade de \u00e1rabes que os homens, no ex\u00e9rcito. H\u00e1 alguns anos, algumas fotografias de prisioneiros iraquianos da Guerra do Iraque vieram \u00e0 tona, e elas mostravam militares americanas torturando homens, at\u00e9 sexualmente. Eram imagens t\u00e3o chocantes que o pent\u00e1gono amea\u00e7ou processar qualquer um que as publicasse. Ent\u00e3o, n\u00e3o vejo sentido nisso.<\/p>\n<p><b>Ultimamente, a esquerda parece estar dormente: embora esteja presente nas redes sociais, os protestos t\u00eam diminu\u00eddo. Como voc\u00ea v\u00ea esta rela\u00e7\u00e3o?<\/b><\/p>\n<p>Acho que varia muito. Tu\u00edtes e posts no Facebook, se forem bem utilizados, podem ser muito efetivos. Por exemplo, na campanha para eleger Jeremy Corbyn, um radical, como l\u00edder do partido Partido Trabalhista Brit\u00e2nico, as redes sociais foram usadas para desafiar a grande m\u00eddia, que o estava atacando sem parar. E algumas pessoas realmente fizeram bom trabalho. Ent\u00e3o, de um lado, esses desenvolvimentos tecnol\u00f3gicos transformaram o jeito de pensar, de lutar e de trabalhar das pessoas. Mas \u00e9 claro que tudo depende de como os utilizamos. Inerentemente, eles n\u00e3o s\u00e3o bons nem ruins, s\u00e3o apenas tecnologia. Mas o Brasil \u00e9 um caso particular. N\u00e3o podemos ignorar o impacto do PT e seus governos em uma consci\u00eancia da classe trabalhadora que est\u00e1 em decl\u00ednio, mas que ao mesmo tempo tem acesso \u00e0 tecnologia. A sensa\u00e7\u00e3o geral \u00e9 de que todos os pol\u00edticos s\u00e3o a mesma coisa, corruptos, e isso est\u00e1 afetando a pr\u00f3pria democracia.<\/p>\n<p><b>Falando em democracia, os Estados Unidos se fortaleceram, segundo eles mesmos, na luta por este sistema pol\u00edtico. Ironicamente, eles t\u00eam se militarizado cada vez mais, e h\u00e1 quem afirme que eles t\u00eam se afastado da democracia. O que acha disso?<\/b><\/p>\n<p>Ainda que muitas coisas boas tenha acontecido por l\u00e1, como o grande movimento anti-guerra do Vietn\u00e3, n\u00e3o tenho ilus\u00f5es sobre a democracia americana. Os EUA nunca foram uma democracia funcional. Sua constitui\u00e7\u00e3o, por exemplo, nunca reconheceu os direitos dos povos ind\u00edgenas ou dos negros escravizados no pa\u00eds. Este foi o \u201cpecado original\u201d da democracia americana, algo que eles nunca superaram. Eles massacraram os povos ind\u00edgenas, e quando voc\u00ea faz isso, fica uma marca em voc\u00ea. Se voc\u00ea faz isso em casa, faz isso fora de casa. S\u00f3 para dar uma ideia, o maior movimento pol\u00edtico da hist\u00f3ria dos Estados Unidos foi o Ku Klux Klan.<\/p>\n<p>Hoje, em termos de funcionamento, h\u00e1 dois grandes partidos que dominam o pa\u00eds por meio de um sistema eleitoral n\u00e3o democr\u00e1tico, e por meio de um tipo de presidencialismo semi-mon\u00e1rquico. Muitas pessoas sequer votam, a porcentagem de votos \u00e9 a mais baixa no mundo. E os dois partidos pol\u00edticos est\u00e3o ligados \u00e0s corpora\u00e7\u00f5es. Donald Trump, durante sua campanha para se tornar o candidato republicano, certa vez disse ao p\u00fablico \u201csabem porque eu acho que todos os nossos pol\u00edticos podem ser comprados? Porque eu comprei todas as pessoas que est\u00e3o nesta plataforma comigo\u201d. Ningu\u00e9m respondeu, porque era verdade. Dinheiro e pol\u00edtica t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o simbi\u00f3tica, e s\u00f3 h\u00e1 dois partidos para servir a diferentes clientelas, j\u00e1 que as diferen\u00e7as pol\u00edticas s\u00e3o m\u00ednimas.<\/p>\n<p>Muitas das atitudes pelas quais Trump foi atacado s\u00e3o coisas que outros presidentes americanos j\u00e1 fizeram, ainda que n\u00e3o de uma forma t\u00e3o bruta ou destrambelhada. A ideia de construir um muro para manter os mexicanos de fora, por exemplo, foi de Bill Clinton. Essa forma de democracia, uma democracia ritual, migrou completamente para muitas partes da Europa. Eu escrevi um pequeno livro sobre isso em 2015 chamado\u00a0<em>The extreme centre\u00a0<\/em>porque as pessoas falam de extrema esquerda e extrema direita, mas o sistema neoliberal criou um extremo centro, que tem liderado muitas partes do mundo. N\u00e3o s\u00e3o bons tempos, e reconhecer isso \u00e9 importante, porque a \u00faltima coisa que queremos \u00e9 um otimismo falso.<\/p>\n<p><b>E os movimentos como o Occupy Wall Street? O que deu errado?<\/b><\/p>\n<p>Fico feliz que esses movimentos tenham existido. Mas, um ano depois, me pergunto qual o impacto deles. O fato de n\u00e3o ter tido impacto foi compreendido por muitas pessoas como um impulso para fazer algo mais \u00fatil: apoiar Bernie Sanders. Se Sanders tivesse se tornado o candidato democrata, e se ele tivesse derrotado Trump, isso seria o nascimento de algo novo, a derrota de um\u00a0<i>stablishment<\/i>\u00a0dentro de um pol\u00edtico americano. \u00c9 claro, a radicaliza\u00e7\u00e3o come\u00e7ou com as ocupa\u00e7\u00f5es em Wall Street, mas eles n\u00e3o tinham demandas pr\u00e1ticas, nenhuma das ocupa\u00e7\u00f5es tinha. Lembro de falar em uma ocupa\u00e7\u00e3o em Bay Area, na costa oeste, e eles ficaram com raiva quando eu disse que eles deveriam deixar algo como legado, para quando as ocupa\u00e7\u00f5es terminassem, j\u00e1 que elas claramente n\u00e3o podiam durar para sempre. Eu disse que dever\u00edamos concordar em demandas b\u00e1sicas: sa\u00fade p\u00fablica de qualidade para todos, um n\u00edvel melhor de educa\u00e7\u00e3o, coisas assim. Alguns aplaudiram, mas outros disseram \u201cei, n\u00e3o gostamos dessas demandas, somos americanos\u201d. Ent\u00e3o, veja, n\u00e3o discutir pol\u00edtica n\u00e3o ajuda em nada, mas foi o que aconteceu.<\/p>\n<p><b>Mesmo frente a esses \u201cfracassos\u201d, ainda \u00e9 poss\u00edvel pensar em revolu\u00e7\u00e3o?<\/b><\/p>\n<p>Bem, n\u00f3s podemos pensar nisso. Mas s\u00f3 pensar nisso n\u00e3o significa que acontecer\u00e1. O que n\u00e3o podemos imaginar \u00e9 que, se houver uma revolu\u00e7\u00e3o, ela ser\u00e1 uma repeti\u00e7\u00e3o de 1917 na R\u00fassia, ou de 1949 na China, ou mesmo de 1959, em Cuba. Acho que essas formas de agita\u00e7\u00e3o do passado s\u00e3o dif\u00edceis de acontecer hoje em dia, e que outra coisa vai emergir. Eu espero que sim, porque sen\u00e3o o mundo estar\u00e1 perdido. As pessoas falam sobre frear a mudan\u00e7a clim\u00e1tica, mas isso \u00e9 inalcan\u00e7\u00e1vel sem um planejamento em escala global. Para que isso seja feito, precisamos entender que o capitalismo n\u00e3o est\u00e1 alinhado aos interesses do planeta. Ent\u00e3o, acredito que algo est\u00e1 para acontecer, mas acho que sua forma nos surpreender\u00e1.<\/p>\n<p><b>O que podemos aprender com os revolucion\u00e1rios de 1917?<\/b><\/p>\n<p>Que \u00e9 poss\u00edvel fazer as mudan\u00e7as mais radicais em sociedades existentes no capitalismo. E, sublinho, as mudan\u00e7as precisam ser feitas, n\u00e3o porque queremos, mas porque o futuro do planeta n\u00e3o est\u00e1 seguro no capitalismo. Se essa forma de capitalismo continuar \u2013 e se nada acontecer, ela vai continuar -, \u00e9 imposs\u00edvel prever que tipos de desastres ecol\u00f3gicos as pessoas ter\u00e3o de aguentar no pr\u00f3ximo s\u00e9culo, ou mesmo neste s\u00e9culo. A Revolu\u00e7\u00e3o Russa nos mostra que se as pessoas realmente querem mudar, elas conseguem achar novos m\u00e9todos para isso. H\u00e1 exemplos bel\u00edssimos de generais mais velhos ordenando aos soldados do ex\u00e9rcito czarista, em 1917, que abrissem fogo contra os revolucion\u00e1rios, e os jovens soldados n\u00e3o s\u00f3 se recusaram, mas amea\u00e7aram atirar nos pr\u00f3prios superiores. Essas coisas ainda s\u00e3o importantes. O capitalismo \u00e9 um sistema sem ra\u00edzes, se necess\u00e1rio ele vive sem democracia. N\u00e3o dever\u00edamos assumir que a democracia e o capitalismo trabalharam sempre juntos, na verdade n\u00e3o era assim. Foi a Revolu\u00e7\u00e3o Russa que for\u00e7ou o capitalismo a fazer reformas. A social democracia deve \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Russa.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"TpeUEp7Arg\"><p><a href=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/tariq-ali-vivemos-em-um-mundo-de-transicao-e-sem-alternativas\/\">Tariq Ali: Vivemos em um mundo de transi\u00e7\u00e3o e sem alternativas<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Tariq Ali: Vivemos em um mundo de transi\u00e7\u00e3o e sem alternativas&#8221; &#8212; Revista Cult\" src=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/tariq-ali-vivemos-em-um-mundo-de-transicao-e-sem-alternativas\/embed\/#?secret=TpeUEp7Arg\" data-secret=\"TpeUEp7Arg\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hel\u00f4 D&#8217;Angelo &#8211;\u00a0\u201cEu diria que vivemos em um mundo de transi\u00e7\u00e3o. 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