{"id":5436,"date":"2017-09-28T12:39:45","date_gmt":"2017-09-28T15:39:45","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=5436"},"modified":"2017-09-26T12:45:28","modified_gmt":"2017-09-26T15:45:28","slug":"como-foi-criada-a-heterossexualidade-como-a-conhecemos-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/09\/28\/como-foi-criada-a-heterossexualidade-como-a-conhecemos-hoje\/","title":{"rendered":"Como foi criada a heterossexualidade como a conhecemos hoje"},"content":{"rendered":"<p><strong>Brandon Ambrosino<\/strong> &#8211;\u00a0A heterossexualidade n\u00e3o &#8220;estava simplesmente l\u00e1&#8221; desde sempre &#8211; e n\u00e3o h\u00e1 por que imaginar que sempre estar\u00e1<\/p>\n<blockquote><p>O dicion\u00e1rio m\u00e9dico Dorland, de 1901, definiu a heterossexualidade como &#8220;um apetite anormal ou pervertido em rela\u00e7\u00e3o ao sexo oposto&#8221;.<\/p><\/blockquote>\n<p>Mais de duas d\u00e9cadas depois, em 1923, o dicion\u00e1rio Merriam Webster definia a orienta\u00e7\u00e3o sexual como &#8220;paix\u00e3o sexual m\u00f3rbida por algu\u00e9m do sexo oposto&#8221;. Apenas em 1934 a heterossexualidade teve o significado atualizado: &#8220;manifesta\u00e7\u00e3o de paix\u00e3o sexual por algu\u00e9m do sexo oposto&#8221;.<\/p>\n<p>Pessoas costumam reagir com incredulidade ao conhecer essas defini\u00e7\u00f5es: &#8220;Isso n\u00e3o pode ser verdade&#8221;, dizem. A sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de que a heterossexualidade sempre &#8220;esteve presente&#8221;.<\/p>\n<p>H\u00e1 alguns anos, circulava na internet um v\u00eddeo de um homem que perguntava \u00e0s pessoas na rua se achavam que homossexuais nascem com essa orienta\u00e7\u00e3o sexual. As respostas variavam, mas a maioria dizia que era uma &#8220;combina\u00e7\u00e3o de natureza e cria\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>O entrevistador ent\u00e3o fazia outra pergunta na sequ\u00eancia, fundamental ao experimento: &#8220;Quando voc\u00ea decidiu ser h\u00e9tero?&#8221; A maioria confessou nunca ter pensado nisso.<\/p>\n<p>Ao sentir que seus preconceitos ficaram \u00e0 mostra, as pessoas acabavam concordando com o ponto do entrevistador: as pessoas nascem gays, assim como nascem heterossexuais.<\/p>\n<p>O v\u00eddeo parecia sugerir que todas as sexualidades &#8220;simplesmente est\u00e3o a\u00ed&#8221;, ou seja, n\u00e3o precisamos de uma explica\u00e7\u00e3o para a homossexualidade assim como n\u00e3o precisamos de uma para a heterossexualidade.<\/p>\n<p>Parece n\u00e3o ter passado pela cabe\u00e7a dos produtores do v\u00eddeo, ou das milh\u00f5es de pessoas que o compartilharam, que precisemos de uma explica\u00e7\u00e3o para ambas.<\/p>\n<p><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/4D36\/production\/_96266791_563a7c6d-b78d-472f-9309-87d2077a1027.jpg?resize=640%2C360&#038;ssl=1\" alt=\"Casal heterossexual\" width=\"640\" height=\"360\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/p>\n<p><em>Enquanto sexo heterossexual \u00e9 t\u00e3o antigo quanto a humanidade, o conceito de heterossexualidade como uma identidade \u00e9 algo muito recente<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 trabalhos muitos bons, tanto acad\u00eamicos quanto populares, sobre a constru\u00e7\u00e3o social do desejo e da identidade homossexuais. Na verdade, a maioria de n\u00f3s aprendeu que a identidade homossexual passou a existir em um momento espec\u00edfico da hist\u00f3ria humana. O que n\u00e3o aprendemos por\u00e9m, \u00e9 que um fen\u00f4meno parecido aconteceu com o surgimento da heterossexualidade.<\/p>\n<p>H\u00e1 v\u00e1rias raz\u00f5es para essa omiss\u00e3o educacional, incluindo vi\u00e9s religioso e outros tipos de homofobia. Mas a principal raz\u00e3o pela qual n\u00e3o fazemos perguntas sobre a origem da heterossexualidade \u00e9 provavelmente porque ela parece natural. Normal.<\/p>\n<p>Mas a heterossexualidade n\u00e3o &#8220;estava simplesmente presente&#8221; desde sempre. E n\u00e3o h\u00e1 por que imaginar que sempre estar\u00e1.<\/p>\n<p class=\"story-body__crosshead\"><strong>Quando a heterossexualidade era anormal<\/strong><\/p>\n<p>A primeira contesta\u00e7\u00e3o de que a heterossexualidade foi inventada geralmente envolve um apelo \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o: parece \u00f3bvio que o sexo entre genitais diferentes existiu desde o in\u00edcio da humanidade &#8211; e n\u00e3o ter\u00edamos sobrevivido at\u00e9 aqui sem isso. Mas essa contesta\u00e7\u00e3o presume que heterossexualidade \u00e9 a mesma coisa que sexo reprodutivo. N\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>&#8220;O sexo n\u00e3o tem hist\u00f3ria&#8221;, escreve o te\u00f3rico queer David Halperin, professor da Universidade de Michigan, &#8220;porque \u00e9 baseado no funcionamento do corpo&#8221;. A sexualidade, por outro lado, tem uma hist\u00f3ria, precisamente porque \u00e9 uma &#8220;constru\u00e7\u00e3o cultural&#8221;.<\/p>\n<p>Em outras palavras, enquanto o sexo parece ser algo programado na maioria das esp\u00e9cies, a nomea\u00e7\u00e3o e classifica\u00e7\u00e3o desses atos e de quem os pratica \u00e9 um fen\u00f4meno hist\u00f3rico que pode e deve ser estudado como tal.<\/p>\n<p>Em outras palavras: sempre houve instintos sexuais no mundo animal (sexo). Mas em um momento espec\u00edfico na hist\u00f3ria, os humanos criaram significados para esses instintos (sexualidade). Quando humanos falam sobre heterossexualidade, estamos tratando da segunda defini\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Hanne Blank trouxe uma maneira \u00fatil de discutir isso em seu livro\u00a0<i>H\u00e9tero: A Surpreendentemente Curta Hist\u00f3ria da Heterossexualidade,<\/i>\u00a0com uma analogia da hist\u00f3ria natural.<\/p>\n<p>Em 2007, o Instituto Internacional para Explora\u00e7\u00e3o das Esp\u00e9cies listou o peixe\u00a0<i>Electrolux addisoni\u00a0<\/i>na lista das &#8220;top 10 novas esp\u00e9cies&#8221; do ano. Mas \u00e9 claro que essas esp\u00e9cies n\u00e3o passaram simplesmente a existir havia dez anos &#8211; foi apenas quando elas foram descobertas e cientificamente nomeadas.<\/p>\n<p>&#8220;Documentos escritos de um certo tipo, por um certo tipo de autoridade, transformaram o\u00a0<i>Electrolux\u00a0<\/i>de uma coisa que j\u00e1 existia para uma coisa que ficou conhecida&#8221;, conclui Blank.<\/p>\n<p><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/7446\/production\/_96266792_676735a5-7ecd-485e-8b8a-230129702b50.jpg?resize=640%2C360&#038;ssl=1\" alt=\"Oscar Wilde\" width=\"640\" height=\"360\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><em>O julgamento de Oscar Wilde por &#8220;indec\u00eancia&#8221; frequentemente \u00e9 considerado um momento chave para a forma\u00e7\u00e3o da identidade gay<\/em><\/p>\n<p>Algo parecido aconteceu com os heterossexuais, que, ao final do s\u00e9culo 19, passaram da mera exist\u00eancia para o conhecimento p\u00fablico. &#8220;Antes de 1868, n\u00e3o havia nenhum heterossexual&#8221;, escreve Blank. Nem homossexuais.<\/p>\n<p>Os humanos n\u00e3o haviam pensado ainda que eles poderiam ser diferenciados entre si de acordo com o tipo de amor ou desejo sexual que sentiam. Comportamentos sexuais, \u00e9 claro, haviam sido identificados e catalogados, e at\u00e9 proibidos em certos momentos. Mas a \u00eanfase estava no ato, n\u00e3o em quem o praticava.<\/p>\n<p class=\"story-body__crosshead\"><strong>Ent\u00e3o o que mudou?<\/strong><\/p>\n<p>A linguagem. No final dos anos 1860, o jornalista h\u00fangaro Karl Maria Kertbeny criou quatro termos para descrever experi\u00eancias sexuais: heterossexual, homossexual e dois termos que hoje n\u00e3o s\u00e3o usados mas que na \u00e9poca descreviam masturba\u00e7\u00e3o e bestialidade, monossexual e heterogenit.<\/p>\n<p>Kertneby usou o termo heterossexual uma d\u00e9cada depois quando foi convidado a escrever um cap\u00edtulo de um livro a favor da descriminaliza\u00e7\u00e3o da homossexualidade. O editor do livro, Gustav Jager, decidiu n\u00e3o public\u00e1-lo, mas acabou usando os termos de Kertneby em um livro que ele publicou em 1880.<\/p>\n<p>A vez seguinte em que a palavra foi publicada foi em 1889, quando o psiquiatra austr\u00edaco-alem\u00e3o Richard von Krafft-Ebing a incluiu em um cat\u00e1logo de &#8220;doen\u00e7as sexuais&#8221; chamado\u00a0<i>Psicopatia Sexualis<\/i>. Mas, em quase 500 p\u00e1ginas, a palavra &#8220;heterossexual&#8221; \u00e9 usada apenas 24 vezes, e nem sequer consta no \u00edndice.<\/p>\n<p>Isso se deu porque Krafft-Ebing estava mais interessado em &#8220;instinto sexual contr\u00e1rio&#8221; (&#8220;pervers\u00f5es&#8221;) do que em &#8220;instinto sexual&#8221;, sendo que o \u00faltimo \u00e9 o que ele considerava &#8220;normal&#8221; em termos de desejo sexual de humanos.<\/p>\n<p>&#8220;Normal&#8221; \u00e9 uma palavra cheia de significado, e foi usada de maneira err\u00f4nea na hist\u00f3ria. A ordena\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica de ra\u00e7as que levou \u00e0 escravid\u00e3o j\u00e1 foi aceita como normal, assim como a cosmologia geoc\u00eantrica. Os fundamentos desses consensos vistos como fen\u00f4menos normais perderam suas posi\u00e7\u00f5es de privil\u00e9gio apenas ap\u00f3s serem alvo de questionamentos.<\/p>\n<p>Para Krafft-Ebing, desejo sexual normal estava situado em um contexto maior de utilidade de procria\u00e7\u00e3o, uma ideia que combinava com as teorias dominantes sobre sexo no Ocidente. No mundo ocidental, muito antes dos atos sexuais serem divididos em h\u00e9tero e homo, j\u00e1 havia uma ordem bin\u00e1ria: sexo procriativo e n\u00e3o-procriativo.<\/p>\n<p>A B\u00edblia, por exemplo, condena o sexo homossexual pela mesma raz\u00e3o que condena a masturba\u00e7\u00e3o: porque a &#8220;semente&#8221; \u00e9 desperdi\u00e7ada no ato.<\/p>\n<p>Enquanto essa vis\u00e3o foi amplamente ensinada, mantida e refor\u00e7ada pela Igreja Cat\u00f3lica e depois por outras religi\u00f5es crist\u00e3s, \u00e9 importante sublinhar que ela n\u00e3o vem originalmente das escrituras judaicas ou crist\u00e3s, mas do estoicismo &#8211; doutrina fundada por Zen\u00e3o de C\u00edcio (335-264 a.C.) que se caracteriza por uma \u00e9tica em que a elimina\u00e7\u00e3o das paix\u00f5es e a aceita\u00e7\u00e3o do destino s\u00e3o caracter\u00edsticas do homem s\u00e1bio.<\/p>\n<p><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/9B56\/production\/_96266793_73e871ca-39c1-4bec-abc9-f4a6b052b011.jpg?resize=640%2C360&#038;ssl=1\" alt=\"Karl Maria Kertbeny\" width=\"640\" height=\"360\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><em>Karl Maria Kertbeny criou o r\u00f3tulo &#8216;heterosexual&#8221;<\/em><\/p>\n<p>Como a te\u00f3rica cat\u00f3lica Margaret Farley explica, os estoicos &#8220;tinham fortes pontos de vista sobre o poder dos humanos de regular emo\u00e7\u00f5es e sobre o desejo dessa regulamenta\u00e7\u00e3o para encontrar a paz interior&#8221;. O fil\u00f3sofo estoico Musonius Rufus, por exemplo, argumentava que as pessoas deveriam se proteger contra autoindulg\u00eancias, incluindo excesso sexual.<\/p>\n<p>Para evitar sua indulg\u00eancia sexual, diz o te\u00f3logo Todd Salzman, Rufus e outros estoicos tentaram classific\u00e1-la em &#8220;um contexto mais amplo de significado humano&#8221; &#8211; argumentando que o sexo s\u00f3 poderia ser moral se buscasse a procria\u00e7\u00e3o. Antigos te\u00f3logos crist\u00e3os adotaram essa \u00e9tica conjugal-reprodutiva e o sexo reprodutivo virou a \u00fanica forma normal de sexo j\u00e1 \u00e9poca de Agostinho (354-430).<\/p>\n<p>Apesar de Krafft-Ebing tomar essa l\u00f3gica procriativa como natural, ele a expandiu bastante. &#8220;No amor sexual, o verdadeiro prop\u00f3sito do instinto, a reprodu\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie, n\u00e3o \u00e9 consciente&#8221;, escreveu.<\/p>\n<p>Em outras palavras, o instinto sexual cont\u00e9m algo como um objetivo reprodutivo programado &#8211; um objetivo que est\u00e1 presente at\u00e9 mesmo nos que fazem &#8220;sexo normal&#8221; e n\u00e3o o percebem.<\/p>\n<p>Em seu livro\u00a0<i>A Inven\u00e7\u00e3o da Heterossexualidade<\/i>, Jonathan Ned Katz v\u00ea um grande impacto na abordagem de Krafft-Ebing. &#8220;Ao colocar o reprodutivo separado do inconsciente, Krafft-Ebing criou um espa\u00e7o pequeno e obscuro onde uma nova forma de prazer come\u00e7ou a se desenvolver.&#8221;<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia desse movimento &#8211; de instinto reprodutivo para desejo er\u00f3tico &#8211; n\u00e3o pode ser diminu\u00edda, j\u00e1 que \u00e9 crucial para as no\u00e7\u00f5es modernas de sexualidade.<\/p>\n<p>Em geral, quando as pessoas hoje pensam em heterossexualidade, imaginam algo como: Jo\u00e3o sabe desde muito pequeno que \u00e9 eroticamente atra\u00eddo por garotas. Certo dia ele canaliza essa energia er\u00f3tica em Suzana e ele a conquista. O casal se apaixona, d\u00e1 express\u00f5es sexuais e f\u00edsicas aos seus desejos er\u00f3ticos e os dois vivem felizes para sempre.<\/p>\n<p><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/C266\/production\/_96266794_69e50f61-390d-4cfb-9cf7-a137481e9524.jpg?resize=640%2C360&#038;ssl=1\" alt=\"Est\u00e1tuas\" width=\"640\" height=\"360\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><em>Foi apenas na virada do s\u00e9culo 20 que os pensadores come\u00e7aram a separar desejo sexual da reprodu\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>Sem o trabalho de Krafft-Ebing, essa narrativa talvez nem fosse considerada &#8220;normal&#8221;. N\u00e3o havia qualquer men\u00e7\u00e3o, mesmo que impl\u00edcita, \u00e0 procria\u00e7\u00e3o. Definir instinto sexual como normal de acordo com desejo er\u00f3tico foi uma revolu\u00e7\u00e3o fundamental para pensar sobre sexo.<\/p>\n<p>O trabalho de Krafft-Ebing deu base para uma mudan\u00e7a cultural que aconteceu entre a defini\u00e7\u00e3o de 1923 de heterossexualidade como &#8220;m\u00f3rbida&#8221; para a de 1934 como &#8220;normal&#8221;.<\/p>\n<p class=\"story-body__crosshead\"><strong>O sexo e a cidade<\/strong><\/p>\n<p>Ideias e palavras frequentemente s\u00e3o produtos de sua \u00e9poca. Esse certamente \u00e9 o caso da heterossexualidade, que nasceu em um momento em que a vida americana estava ficando mais regulamentada. Segundo afirma Blank, a inven\u00e7\u00e3o da heterossexualidade corresponde com o surgimento da classe m\u00e9dia.<\/p>\n<p>No final do s\u00e9culo 19, as popula\u00e7\u00f5es nas cidades na Europa e na Am\u00e9rica do Norte come\u00e7aram a explodir. Em 1900, por exemplo, a cidade de Nova York tinha 3,4 milh\u00f5es de moradores &#8211; 56 vezes sua popula\u00e7\u00e3o apenas um s\u00e9culo antes.<\/p>\n<p>Conforme as pessoas se mudavam para os centros urbanos, traziam consigo suas &#8220;pervers\u00f5es sexuais&#8221;. Ao menos era o que parecia. &#8220;Em compara\u00e7\u00e3o com os vilarejos rurais, as cidades pareciam antros de excessos sexuais&#8221;, escreve Blank.<\/p>\n<p>Quando as popula\u00e7\u00f5es nas cidades eram menores, diz Blank, era mais f\u00e1cil controlar esse tipo de comportamento, assim como era mais f\u00e1cil control\u00e1-lo quando acontecia em \u00e1reas rurais onde a familiaridade entre vizinhos era uma norma. A fofoca das cidades pequenas podia ser um grande motivador.<\/p>\n<p>Devido ao conhecimento maior dessas pr\u00e1ticas sexuais em paralelo com o fluxo de classes mais baixas \u00e0s cidades, &#8220;a culpa pelo comportamento sexual urbano impr\u00f3prio geralmente era jogada sobre as classes mais baixas&#8221;, diz Blank.<\/p>\n<p>Era importante para uma classe m\u00e9dia emergente se diferenciar desses excessos. A fam\u00edlia burguesa precisava de uma forma de proteger seus membros da &#8220;decad\u00eancia aristocr\u00e1tica por um lado e dos horrores da cidade lotada do outro&#8221;. Isso demandava &#8220;sistemas reproduz\u00edveis e universalmente aplic\u00e1veis para uma administra\u00e7\u00e3o social que pudesse ser implementada em larga escala&#8221;.<\/p>\n<p>No passado, esses sistemas podiam ser baseados na religi\u00e3o, mas o &#8220;novo Estado secular exigia uma justificativa secular para suas leis&#8221;, diz Blank. A\u00ed entram especialistas como Krafft-Ebing, que deixou claro que a classe m\u00e9dia ascendente n\u00e3o podia considerar o desvio da sexualidade normal (h\u00e9tero) como simplesmente um pecado, mas como uma degenera\u00e7\u00e3o moral &#8211; um dos piores r\u00f3tulos que algu\u00e9m poderia ter ent\u00e3o.<\/p>\n<p><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/8E19\/production\/_96277363_daee416c-3dd5-4ab4-a52e-f108edd37d9b.jpg?resize=640%2C360&#038;ssl=1\" alt=\"Cidade no s\u00e9culo 19\" width=\"640\" height=\"360\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><em>O anonimato da vida urbana no s\u00e9culo 19 frequentemente era culpada por um comportamento sexual mais &#8220;imoral e livre&#8221;<\/em><\/p>\n<p>&#8220;Chame um homem de &#8216;canalha&#8217; e voc\u00ea define seu status social&#8221;, escreveu William James em 1895. &#8220;Chame ele de &#8216;degenerado&#8217; e voc\u00ea o colocou no grupo mais repugnante da ra\u00e7a humana&#8221;. Como diz Blank, degenera\u00e7\u00e3o sexual se tornou uma r\u00e9gua para medir as pessoas.<\/p>\n<p>A degenera\u00e7\u00e3o, afinal de contas, era o processo contr\u00e1rio do darwinismo social. Se o sexo procriador era fundamental para a evolu\u00e7\u00e3o cont\u00ednua das esp\u00e9cies, desviar dessa norma era uma amea\u00e7a para toda a sociedade. Por sorte, esse desvio poderia ser revertido, se fosse observado cedo o bastante, pensavam os especialistas da \u00e9poca.<\/p>\n<p>A forma\u00e7\u00e3o da &#8220;invers\u00e3o sexual&#8221; acontecia, para Krafft-Ebing, em v\u00e1rios est\u00e1gios e era cur\u00e1vel j\u00e1 no primeiro. &#8220;Krafft-Ebing enviou uma mensagem clara contra a degenera\u00e7\u00e3o e a pervers\u00e3o. Todas as pessoas com dever c\u00edvico deveriam se tornar observadoras&#8221;, escreve Ralph M. Leck, autor do livro\u00a0<i>Vita Sexualis<\/i>.<\/p>\n<p>E isso certamente era uma quest\u00e3o de civilidade: a maioria do efetivo colonial vinha da classe m\u00e9dia, que era grande e estava em crescimento.<\/p>\n<p class=\"story-body__crosshead\"><strong>Freud<\/strong><\/p>\n<p>Apesar de Krafft-Ebing ter ficado relativamente conhecido, foi Freud quem deu ao p\u00fablico maneiras cient\u00edficas de pensar sobre sexualidade. Por mais que seja dif\u00edcil reduzir as teorias do m\u00e9dico a algumas frases, seu maior legado \u00e9 a teoria psicossexual do desenvolvimento, segundo a qual as crian\u00e7as desenvolvem suas sexualidades por meio de uma dan\u00e7a psicol\u00f3gica elaborada dos pais.<\/p>\n<p>Para Freud, heterossexuais n\u00e3o nascem assim, mas s\u00e3o feitos assim. Como diz Katz, a heterossexualidade para Freud foi uma conquista, aqueles que a conquistavam com sucesso navegavam por seu desenvolvimento infantil sem sair da linha.<\/p>\n<p>Ainda assim, como diz Katz, exigia muita imagina\u00e7\u00e3o classificar essa navega\u00e7\u00e3o em termos de normalidade. Segundo Freud, o caminho convencional para a normalidade heterossexual \u00e9 pavimentado com o tes\u00e3o incestuoso do menino e da menina pelo pai ou m\u00e3e, com o desejo das crian\u00e7as de assassinar seus rivais &#8211; ou seja, o pai no caso do menino e a m\u00e3e no caso da menina &#8211; e com o desejo de exterminar qualquer irm\u00e3o ou irm\u00e3 rivais.<\/p>\n<p>Ou seja, a estrada para a heterossexualidade \u00e9 pavimentada de tes\u00e3o e desejo de sangue. A inven\u00e7\u00e3o do heterossexual, na vis\u00e3o de Freud, \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o profundamente perturbada.<\/p>\n<p>O fato dessa vis\u00e3o de \u00c9dipo ter sobrevivido por tantos anos, assim como a explica\u00e7\u00e3o para a sexualidade normal, &#8220;\u00e9 uma das maiores ironias da hist\u00f3ria da heterossexualidade&#8221;, diz Katz.<\/p>\n<p><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/DC39\/production\/_96277365_d74cd5e0-d3f2-4efa-b640-de330ab6daf0.jpg?resize=640%2C360&#038;ssl=1\" alt=\"Alfred Kinsey\" width=\"640\" height=\"360\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><em>Alfred Kinsey (no centro da foto) pode ter diminu\u00eddo o tabu sobre o sexo, mas seus estudos reafirmaram as categorias j\u00e1 existentes de comportamento homo e heterossexual<\/em><\/p>\n<p>Ainda assim, a explica\u00e7\u00e3o de Freud parecia satisfazer a maioria do p\u00fablico, que, continuando com sua obsess\u00e3o com a regula\u00e7\u00e3o sobre todo e qualquer aspecto da vida, aceitou de bom grado a nova ci\u00eancia sobre a normalidade.<\/p>\n<p>Essas atitudes tiveram um novo embasamento cient\u00edfico com o trabalho de Alfred Kinsey, cujo estudo\u00a0<i>Comportamento Sexual do Macho Humano<\/i>, de 1948, classificava a sexualidade dos homens em uma escala de zero (exclusivamente heterossexual) a seis (exclusivamente homossexual).<\/p>\n<p>Suas descobertas o levaram a concluir que grande parte da popula\u00e7\u00e3o masculina &#8220;tem ao menos uma experi\u00eancia homossexual entre a adolesc\u00eancia e a idade avan\u00e7ada&#8221;.<\/p>\n<p>Enquanto o estudo de Kinsey ampliou as categorias de homo e h\u00e9tero ao permitir um certo cont\u00ednuo sexual, ele tamb\u00e9m &#8220;reafirmou enfaticamente a ideia de que a sexualidade \u00e9 dividida entre dois polos&#8221;, como diz Katz.<\/p>\n<p class=\"story-body__crosshead\"><strong>O futuro da heterossexualidade<\/strong><\/p>\n<p>Essas categorias permanecem at\u00e9 hoje. &#8220;Ningu\u00e9m sabe exatamente por que heterossexuais e homossexuais seriam diferentes&#8221;, escreveu Wendell Rickets, autor do estudo\u00a0<i>Pesquisa Biol\u00f3gica sobre Homossexualidade<\/i>, de 1984.<\/p>\n<p>A melhor resposta que temos \u00e9 um tanto tautol\u00f3gica: &#8220;Heterossexuais e homossexuais s\u00e3o considerados diferentes porque eles podem ser divididos em dois grupos com base na cren\u00e7a de que eles podem ser divididos em dois grupos&#8221;.<\/p>\n<p>Apesar da divis\u00e3o h\u00e9tero\/homo parecer eterna e um fato indestrut\u00edvel da natureza, ela n\u00e3o o \u00e9. Trata-se meramente de uma gram\u00e1tica recente que os humanos inventaram para falar sobre o que o sexo significa para n\u00f3s.<\/p>\n<p>A heterossexualidade, afirma Katz, &#8220;\u00e9 inventada no discurso como algo que est\u00e1 fora do discurso. Ela \u00e9 constru\u00edda como se fosse um discurso que \u00e9 universal e fora da temporalidade&#8221;. Ou seja, \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 apresentada como se n\u00e3o fosse.<\/p>\n<p>Como qualquer fil\u00f3sofo franc\u00eas ou crian\u00e7a com um lego poder\u00e1 lhe dizer, qualquer coisa que foi constru\u00edda pode ser desconstru\u00edda tamb\u00e9m. Se a heterossexualidade n\u00e3o existia no passado, ela n\u00e3o precisa existir no futuro.<\/p>\n<p>Jane Ward, autora de\u00a0<i>Not Gay<\/i>\u00a0(&#8220;N\u00e3o Gay&#8221;, em tradu\u00e7\u00e3o livre), questiona o futuro da sexualidade.<\/p>\n<p>&#8220;O que significaria pensar sobre a capacidade das pessoas para cultivar seus desejos sexuais da mesma maneira em que cultivam um gosto por uma certa comida?&#8221;<\/p>\n<p>Apesar da preocupa\u00e7\u00e3o de alguns com a possibilidade de uma fluidez sexual, \u00e9 importante lembrar que v\u00e1rios argumentos na linha\u00a0<i>Born This Way<\/i>\u00a0(&#8220;eu nasci assim&#8221;, em tradu\u00e7\u00e3o livre) n\u00e3o s\u00e3o aceitos por boa parte dos cientistas.<\/p>\n<p>Eles n\u00e3o sabem exatamente qual \u00e9 a &#8220;causa&#8221; da homossexualidade e eles certamente rejeitam qualquer teoria que proponha uma origem simples, como um &#8220;gene gay&#8221;.<\/p>\n<p>Desejos sexuais, como todos os nossos desejos, mudam e s\u00e3o reorientados ao longo de nossas vidas &#8211; e \u00e9 o que eles fazem, frequentemente nos sugerem novas identidades. Se isso for verdade, ent\u00e3o a sugest\u00e3o de Ward de que podemos cultivar prefer\u00eancias sexuais parece fazer sentido.<\/p>\n<p>Por tr\u00e1s da pergunta de Ward h\u00e1 um desafio sutil: se estamos desconfort\u00e1veis com o quanto de poder temos &#8211; se \u00e9 que temos algum &#8211; sobre a nossa sexualidade, qual \u00e9 o motivo? Da mesma maneira, por que estar\u00edamos desconfort\u00e1veis ao questionar a cren\u00e7a de que a homossexualidade, e por extens\u00e3o a heterossexualidade, s\u00e3o verdades eternas da natureza?<\/p>\n<p><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/12A59\/production\/_96277367_fc90e7a9-b865-47eb-8cd7-4b373ced5904.jpg?resize=640%2C360&#038;ssl=1\" alt=\"James Baldwin\" width=\"640\" height=\"360\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><em>O escritor James Baldwin criticou a defini\u00e7\u00e3o das pessoas como h\u00e9tero ou gay, dizendo que se trata de &#8220;um falso argumento, uma falsa acusa\u00e7\u00e3o&#8221;<\/em><\/p>\n<p>Em uma entrevista ao jornalista Richard Goldstein, o romancista e dramaturgo James Baldwin disse ter fantasias boas e ruins sobre o futuro. Uma das boas era que &#8220;ningu\u00e9m teria que se definir como gay&#8221;, um termo para o qual Baldwin dizia n\u00e3o ter paci\u00eancia. &#8220;Ele responde a um argumento falso, a uma acusa\u00e7\u00e3o falsa&#8221;, dizia.<\/p>\n<p class=\"story-body__crosshead\"><strong>Que acusa\u00e7\u00e3o \u00e9 essa?<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;A de que voc\u00ea n\u00e3o tem o direito de estar aqui, que voc\u00ea precisa provar seu direito de estar aqui. Eu estou dizendo que n\u00e3o tenho o que provar. O mundo tamb\u00e9m pertence a mim.&#8221;<\/p>\n<p>Era uma vez em que a heterossexualidade era necess\u00e1ria porque os humanos modernos precisavam provar quem eram e por que eram, e eles precisavam defender seu direito de estar ali. Conforme o tempo foi passando, por\u00e9m, esse r\u00f3tulo parece na verdade limitar o leque de maneiras pelas quais os humanos entendem seus desejos, amores e medos.<\/p>\n<p>Talvez essa seja uma raz\u00e3o pela qual uma pesquisa brit\u00e2nica recente descobriu que menos da metade dos jovens de 18 a 24 anos se identificam como &#8220;100% heterossexual&#8221;.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o sugere que a maioria desses jovens sejam bissexuais ou homossexuais, mas que eles n\u00e3o precisem mais desse termo como as gera\u00e7\u00f5es passadas precisavam no s\u00e9culo 20.<\/p>\n<p>Debates a respeito de orienta\u00e7\u00e3o sexual tendem a focar em um conceito mal definido de &#8220;natureza&#8221;. Porque o sexo entre genitais diferentes geralmente resulta na reprodu\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie, damos a ele um status moral especial.<\/p>\n<p>Mas a &#8220;natureza&#8221; n\u00e3o nos revela nossas obriga\u00e7\u00f5es morais &#8211; somos respons\u00e1veis por determin\u00e1-las, mesmo quando n\u00e3o percebemos que estamos fazendo isso. Como observou o fil\u00f3sofo David Hume, pular de uma observa\u00e7\u00e3o de como \u00e9 a natureza para uma f\u00f3rmula do que a natureza deve ser \u00e9 uma fal\u00e1cia l\u00f3gica.<\/p>\n<p><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/17879\/production\/_96277369_71ead215-be4b-4d6f-80ad-681b5df84f09.jpg?resize=640%2C360&#038;ssl=1\" alt=\"Casal homossexual\" width=\"640\" height=\"360\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><em>Conforme os direitos LGBT se tornam mais reconhecidos, muitas pessoas tamb\u00e9m descrevem seus desejos sexuais como parte de um espectro<\/em><\/p>\n<p>Por que julgar o que \u00e9 natural e \u00e9tico para um ser humano de acordo com sua natureza animal? Muitas das coisas que os humanos valorizam, como medicina e arte, n\u00e3o s\u00e3o naturais. Ao mesmo tempo, humanos detestam muitas coisas que s\u00e3o naturais, como doen\u00e7as e morte.<\/p>\n<p>Se considerarmos alguns fen\u00f4menos naturais como \u00e9ticos e outros como n\u00e3o-\u00e9ticos, isso significa que as nossas mentes (os que observam) est\u00e3o determinando o que fazer com a natureza (o que \u00e9 observado). A natureza n\u00e3o existe em algum lugar &#8220;l\u00e1 fora&#8221;, independentemente de n\u00f3s &#8211; sempre estamos interpretando-a de dentro dela.<\/p>\n<p>At\u00e9 este momento da hist\u00f3ria do planeta, a esp\u00e9cie humana se multiplicou por meio do coito de sexos diferentes. Cerca de um s\u00e9culo atr\u00e1s, demos significados espec\u00edficos a esse tipo de rela\u00e7\u00e3o sexual, parcialmente porque quer\u00edamos encoraj\u00e1-las.<\/p>\n<p>Mas o nosso mundo est\u00e1 bastante diferente hoje. Tecnologias como a implanta\u00e7\u00e3o de diagn\u00f3stico gen\u00e9tico e fertiliza\u00e7\u00e3o in vitro (FIV) est\u00e3o sendo cada vez mais desenvolvidas. Em 2013, mais de 63 mil beb\u00eas nasceram a partir de FIV. Na verdade, mais de cinco milh\u00f5es de crian\u00e7as nasceram atrav\u00e9s de tecnologias reprodutivas. Esse n\u00famero ainda mant\u00e9m esse tipo de reprodu\u00e7\u00e3o como minoria, mas toda evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica come\u00e7ou com os n\u00fameros contra ela.<\/p>\n<p>Socialmente, tamb\u00e9m, a heterossexualidade est\u00e1 &#8220;perdendo terreno&#8221;. Se havia um tempo em que indiscri\u00e7\u00f5es homossexuais eram o esc\u00e2ndalo do dia, mudamos para um outro mundo cheio de casos heterossexuais de pol\u00edticos e celebridades, com fotos, mensagens de texto e v\u00e1rios v\u00eddeos de sexo. A cultura popular est\u00e1 repleta de imagens de rela\u00e7\u00f5es e casamentos heterossexuais disfuncionais.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, entre 1960 e 1980, a taxa de div\u00f3rcio aumentou em 90%, lembra Katz. E enquanto ela caiu consideravelmente durante nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas, ela n\u00e3o se recuperou ao ponto em que seja poss\u00edvel falar que &#8220;instabilidade de relacionamento&#8221; seja algo exclusivo dos homossexuais, diz Katz.<\/p>\n<p>A t\u00eanue linha entre heterossexualidade e homossexualidade n\u00e3o \u00e9 apenas borrada, como alguns interpretam a partir da pesquisa de Kinsey &#8211; \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o, um mito, que j\u00e1 est\u00e1 defasado, diga-se. Homens e mulheres continuar\u00e3o fazendo sexo entre genitais diferentes at\u00e9 o fim da esp\u00e9cie humana. Mas a heterossexualidade enquanto marcador social, estilo de vida e identidade pode morrer muito antes disso.<\/p>\n<p>http:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/vert-fut-40093671?ocid=socialflow_facebook<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Brandon Ambrosino &#8211;\u00a0A heterossexualidade n\u00e3o &#8220;estava simplesmente l\u00e1&#8221; desde sempre &#8211; e n\u00e3o h\u00e1 por que imaginar que sempre estar\u00e1 O dicion\u00e1rio m\u00e9dico Dorland, de 1901, definiu a heterossexualidade como &#8220;um apetite anormal ou pervertido em rela\u00e7\u00e3o ao sexo oposto&#8221;. 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