{"id":5424,"date":"2017-09-27T09:20:03","date_gmt":"2017-09-27T12:20:03","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=5424"},"modified":"2017-09-26T12:23:30","modified_gmt":"2017-09-26T15:23:30","slug":"gays-e-criancas-como-moeda-eleitoral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/09\/27\/gays-e-criancas-como-moeda-eleitoral\/","title":{"rendered":"Gays e crian\u00e7as como moeda eleitoral"},"content":{"rendered":"<p><strong>ELIANE BRUM<\/strong> &#8211; As mil\u00edcias em benef\u00edcio pr\u00f3prio descobriram como barganhar com a vida dos brasileiros e ganhar adeptos manipulando o medo e o \u00f3dio<\/p>\n<p>O\u00a0fechamento da mostra\u00a0Queer Museum \u2013 Cartografia da Diferen\u00e7a na Arte Brasileira\u00a0aponta a crescente articula\u00e7\u00e3o entre setores da pol\u00edtica tradicional e mil\u00edcias como o\u00a0Movimento Brasil Livre\u00a0(MBL). Essa articula\u00e7\u00e3o est\u00e1 desenhando o Brasil deste momento \u2013 e poder\u00e1 ter muita influ\u00eancia na\u00a0elei\u00e7\u00e3o de 2018. Nesta coliga\u00e7\u00e3o n\u00e3o formalizada, velhas t\u00e1ticas ganham apar\u00eancia de novidade pelo uso das redes sociais, com enorme efici\u00eancia de comunica\u00e7\u00e3o. \u00c9 velho e novo ao mesmo tempo. A v\u00edtima maior n\u00e3o \u00e9 a arte ou a liberdade de express\u00e3o, mas os mesmos de sempre: os mais fr\u00e1geis, os primeiros a morrer.<\/p>\n<div id=\"elpais_gpt-INTEXT\" data-google-query-id=\"CPTi0OiSw9YCFQ0PkQodbEkCzw\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/opinion\/intext_0__container__\">A exposi\u00e7\u00e3o era exibida desde 15 de agosto, em Porto Alegre, no Santander Cultural. Contava com obras de artistas brasileiros de diversas gera\u00e7\u00f5es, como C\u00e2ndido Portinari, Alfredo Volpi, Ligia Clark, Leonilson e Adriana Varej\u00e3o. \u00c9 justamente de Varej\u00e3o uma das obras mais atacadas: \u201cCenas do interior 2\u201d tem quatro imagens de atos sexuais, incluindo sexo com um animal. Outra obra demonizada foi a de Bia Leite, que exp\u00f4s desenhos baseados em frases e imagens do Tumblr \u201cCrian\u00e7a Viada\u201d, que re\u00fane fotos enviadas por internautas deles mesmos na inf\u00e2ncia. Liderados por mil\u00edcias como o MBL, pessoas come\u00e7aram a ofender o p\u00fablico da mostra e a acusar os artistas de promover a \u201cpedofilia\u201d, a \u201czoofilia\u201d e a \u201csensualiza\u00e7\u00e3o precoce de crian\u00e7as\u201d. As mil\u00edcias tamb\u00e9m promoveram um boicote ao banco. O Santander recuou, e\u00a0a exposi\u00e7\u00e3o, que deveria se estender at\u00e9 outubro, foi encerrada.<\/div>\n<\/div>\n<p>O MBL, uma das mil\u00edcias que lideraram os ataques \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o, foi um dos principais articuladores das manifesta\u00e7\u00f5es contra o PT e pelo\u00a0impeachment de Dilma Rousseff, que levaram \u00e0s ruas milh\u00f5es de brasileiros vestidos de amarelo. Na ocasi\u00e3o, sua bandeira era a luta contra a \u201ccorrup\u00e7\u00e3o\u201d. E propagavam ideias \u201cliberais\u201d. Como bem apontou Pablo Ortellado,\u00a0em sua coluna na\u00a0<em>Folha de S. Paulo<\/em>, o MBL descobriu que \u201cas chamadas \u2018guerras culturais\u2019 eram um \u00f3timo instrumento de mobiliza\u00e7\u00e3o e que por meio do discurso punitivista e contr\u00e1rio aos movimentos feminista, negro e LGBTT podiam atrair conservadores morais para a causa liberal\u201d. Passaram ent\u00e3o a gritar contra as cotas raciais, o aumento do encarceramento (num pa\u00eds em que a maioria dos presos \u00e9 composta por negros) e um projeto que espertamente foi batizado de \u201cEscola Sem Partido\u201d.<\/p>\n<p>Mas qual \u00e9 o contexto e o que o MBL e outras mil\u00edcias semelhantes defendem? Se este tipo de grupo se formou erguendo a bandeira da \u201canticorrup\u00e7\u00e3o\u201d e n\u00e3o promove nenhuma manifesta\u00e7\u00e3o nas ruas contra um\u00a0presidente denunciado duas vezes\u00a0e um dos governos mais corruptos da hist\u00f3ria do Brasil, \u00e9 poss\u00edvel levantar a hip\u00f3tese bastante \u00f3bvia de que a \u201ccorrup\u00e7\u00e3o\u201d nunca foi o alvo.<\/p>\n<p>Quando s\u00e3o citados na imprensa, MBL e assemelhados s\u00e3o tachados de \u201cconservadores\u201d e \u201cliberais\u201d. Isso os coloca sempre num polo contra outro polo, o que \u00e9 essencial para este tipo de mil\u00edcia sobreviver, se replicar e agir em rede. E d\u00e1 a estas mil\u00edcias uma consist\u00eancia que n\u00e3o condiz com a realidade de seu conte\u00fado. Liberais de fato jamais tentariam fechar uma mostra de arte, para ficar apenas num exemplo. Nem faz sentido dizer que s\u00e3o \u201cconservadores\u201d ou mesmo de \u201cdireita\u201d. Eles s\u00e3o o que lhes for conveniente ser.<\/p>\n<p>A dificuldade de nomear o que s\u00e3o, \u00e9 importante perceber, os favorece. E acabam se beneficiando de r\u00f3tulos aos quais lhes interessa estar associados num momento ou outro e que lhes emprestam um conte\u00fado que n\u00e3o possuem, mas do qual sempre podem escapar quando lhes conv\u00eam. Neste sentido, apesar de exibirem como imagem um corpo compacto, essas mil\u00edcias s\u00e3o fluidas. Embora ajam sobre os corpos, n\u00e3o h\u00e1 corpo algum. Isso lhes facilita se moverem, por exemplo, da luta anticorrup\u00e7\u00e3o para as bandeiras morais, agora que n\u00e3o lhes interessa mais derrubar o presidente.<\/p>\n<section id=\"sumario_1|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">A for\u00e7a de mil\u00edcias como MBL \u00e9 sua capacidade de influenciar tanto eleitores quando odiadores, num momento hist\u00f3rico em que estas duas identidades se confundem<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>O que se pode afirmar sobre mil\u00edcias como o MBL \u00e9 que elas t\u00eam um projeto de poder \u2013 ou t\u00eam um poder que pode servir a determinados projetos de poder. O poder destas mil\u00edcias est\u00e1 em mostrar que s\u00e3o capazes de se comunicar com as massas e, portanto, de influenciar tanto eleitores quando odiadores, num momento hist\u00f3rico em que estas duas identidades se confundem. E este \u00e9 um enorme poder, que claramente tem sido colocado a servi\u00e7o de pol\u00edticos e de partidos tradicionais. Al\u00e9m e principalmente, claro, de a servi\u00e7o de seu pr\u00f3prio benef\u00edcio.<\/p>\n<p>A descoberta de que temas \u201cmorais\u201d s\u00e3o uma excelente moeda de barganha n\u00e3o \u00e9 prerrogativa do MBL e de seus assemelhados. Esta moeda sempre esteve em circula\u00e7\u00e3o. Na Nova Rep\u00fablica, que se seguiu \u00e0\u00a0ditadura civil-militar\u00a0(1964-1985), ela esteve na primeira elei\u00e7\u00e3o presidencial da redemocratiza\u00e7\u00e3o, quando Fernando Collor de Mello, que depois se tornaria o primeiro presidente a sofrer impeachment, usou fartamente contra Lula o fato de que ele tinha uma filha de uma rela\u00e7\u00e3o anterior ao seu casamento com Marisa Let\u00edcia e que teria sugerido um aborto \u00e0 ent\u00e3o namorada.<\/p>\n<p>Mas o marco fundador do que vivemos hoje pode ser localizado bem mais tarde, na elei\u00e7\u00e3o de 2010. Naquele momento, ao perceber o potencial eleitoral do crescimento dos evang\u00e9licos no Brasil, em especial dos neopentecostais, alguns oportunistas perceberam que jogar o tema do aborto no palanque poderia ser conveniente. Tanto para conquistar o voto religioso quanto para derrubar opositores.<\/p>\n<p>No final do primeiro turno de 2010, a internet e as ruas foram tomadas por uma campanha an\u00f4nima, na qual se afirmava que Dilma Rousseff era \u201cabortista\u201d e \u201cassassina de fetos\u201d. Rousseff come\u00e7ou a perder votos entre os evang\u00e9licos e parte dos bispos e padres cat\u00f3licos exortou os fi\u00e9is a n\u00e3o votar nela. Jos\u00e9 Serra (PSDB) empenhou-se em tirar proveito do ataque vindo das catacumbas, determinando o rumo da campanha dali em diante. E Rousseff correu a buscar o apoio de religiosos, acabando por escrever uma carta declarando-se \u201cpessoalmente contra o aborto\u201d. Nela, comprometia-se, em caso de vencer a elei\u00e7\u00e3o, a n\u00e3o propor nenhuma medida para alterar a legisla\u00e7\u00e3o sobre o tema.<\/p>\n<p>Quem peregrinou por templos evang\u00e9licos defendendo Rousseff e garantindo que ela era contra o aborto foi justamente\u00a0Eduardo Cunha (PMDB), que depois lideraria o processo de impeachment da presidente eleita e hoje est\u00e1 preso. Naquele momento, o debate pol\u00edtico, que nas elei\u00e7\u00f5es anteriores tinha se mantido dentro de certos par\u00e2metros \u00e9ticos, foi rebaixado. E os oportunistas religiosos e n\u00e3o religiosos farejaram que estes eram o temas com que poderiam garantir vantagens para si mesmos e para seus grupos, traficando-os no balc\u00e3o de neg\u00f3cios de Bras\u00edlia. Quando os limites s\u00e3o superados, mesmo aqueles que promoveram a sua supera\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o capazes de prever at\u00e9 onde isso pode chegar. Desde ent\u00e3o, o corpo de mulheres e de gays, l\u00e9sbicas, travestis e transexuais tornou-se uma das principais moedas de barganha eleitoral.<\/p>\n<p>As mil\u00edcias rapidamente compreenderam esse potencial. Seu trunfo \u00e9 comprovar que podem levar as massas para onde quiserem, o que as torna valiosas para pol\u00edticos com grandes ambi\u00e7\u00f5es eleitorais e valiosas para seus l\u00edderes com ambi\u00e7\u00f5es eleitorais. Mas s\u00f3 podem lev\u00e1-las porque se comunicam com uma popula\u00e7\u00e3o que se sente cada vez mais insegura e desamparada e que \u00e9 a primeira a sofrer com a crise econ\u00f4mica e a crescente dureza dos dias sem sa\u00fade, sem escola, sem servi\u00e7os b\u00e1sicos, enquanto assiste a um notici\u00e1rio que \u00e9 quase todo ele sobre malas de dinheiro da corrup\u00e7\u00e3o. Uma popula\u00e7\u00e3o que h\u00e1 anos tem sido treinada por programas policialescos\/sensacionalistas na TV que atribuem todas as dificuldades a fac\u00ednoras \u00e0 solta, adestrando-a a ver as mazelas da vida cotidiana como culpa de algu\u00e9m que pode e deve ser eliminado \u2013 e n\u00e3o a uma estrutura mais complexa que a mant\u00e9m cimentada no lugar dos explorados.<\/p>\n<section id=\"sumario_2|html\" class=\"sumario_html derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">As mil\u00edcias encontraram o canal de comunica\u00e7\u00e3o com o medo e com o \u00f3dio de uma popula\u00e7\u00e3o acuada e, assim, o inimigo pode ser mudado conforme a conveni\u00eancia<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>As mil\u00edcias compreendem o potencial desse medo e desse \u00f3dio. E sabem se comunicar com esse medo e esse \u00f3dio. Encontraram o canal, o ponto a ser tocado. Encontrado o canal, o inimigo pode ser mudado conforme a conveni\u00eancia. Se agora n\u00e3o interessa derrubar o presidente denunciado por corrup\u00e7\u00e3o, h\u00e1 que se encontrar um outro alvo para canalizar esse \u00f3dio e esse medo e manter o n\u00famero de seguidores cativos e, de prefer\u00eancia, crescendo, atingindo p\u00fablicos mais amplos. E, principalmente, manter o valor de mercado das mil\u00edcias em alta, em especial \u00e0s v\u00e9speras de uma campanha eleitoral das mais imprevis\u00edveis.<\/p>\n<p>Assim, testemunhamos um fen\u00f4meno de ilus\u00e3o na semana passada. O problema do Brasil j\u00e1 n\u00e3o era a desigualdade nem a pobreza que voltou a crescer. Nem mesmo o desemprego. Nem a crescente viol\u00eancia no campo e nas periferias promovidas em grande parte pelas pr\u00f3prias for\u00e7as de seguran\u00e7a do Estado a servi\u00e7o de grupos no poder. Nem o desinvestimento na sa\u00fade e na educa\u00e7\u00e3o. Nem a destrui\u00e7\u00e3o da floresta amaz\u00f4nica e o ataque aos povos ind\u00edgenas e quilombolas pelos chamados \u201cruralistas\u201d. Nem projetos que mexem em direitos conquistados na \u00e1rea trabalhista e da previd\u00eancia sendo levados adiante sem debate por um governo corrupto. N\u00e3o.<\/p>\n<p>De repente, na semana passada, o problema do Brasil tornou-se, para milh\u00f5es de brasileiros, a certeza de que o pa\u00eds \u00e9 dominado por ped\u00f3filos e defensores do sexo com animais. Agora, s\u00e3o artistas que devem ser perseguidos, presos e at\u00e9, como se viu em algumas manifesta\u00e7\u00f5es nas redes sociais, mortos. E n\u00e3o s\u00f3 artistas, mas tamb\u00e9m quadros e pe\u00e7as de teatro. O problema do Brasil \u00e9 que ped\u00f3filos querem corromper as crian\u00e7as e transg\u00eaneros querem destruir as fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Assim como pouco antes o problema do Brasil era o fato de os negros, maioria da popula\u00e7\u00e3o, passarem a ter o acesso \u00e0 universidade ampliado por a\u00e7\u00f5es afirmativas. E o problema do Brasil seria uma suposta doutrina\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria nas escolas \u2013 e n\u00e3o a falta de investimento em educa\u00e7\u00e3o e o sal\u00e1rio de fome dos professores e as escolas caindo aos peda\u00e7os. Com esse truque de ilusionismo coletivo se desvia da necessidade de mudar algo muito mais estrutural em um dos pa\u00edses mais desiguais do mundo.<\/p>\n<section id=\"sumario_3|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">O preju\u00edzo causado pelo ataque \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o \u00e9 menos a quest\u00e3o da liberdade de express\u00e3o e mais o apagamento dos massacres reais<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>O preju\u00edzo causado pelo ataque \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o de arte \u00e9 menos a quest\u00e3o da censura e do cerceamento da liberdade de express\u00e3o, como foi colocado por parte dos que reagiram contra o fechamento da mostra, e mais o apagamento que ataques como este ajudam a produzir e a perpetuar. Como o n\u00famero assombroso de homossexuais assassinados e de estupros de mulheres no pa\u00eds. Para lembrar: segundo o Grupo Gay da Bahia, que documenta a viol\u00eancia produzida por homofobia, s\u00f3 neste ano 251 pessoas foram assassinadas por sua orienta\u00e7\u00e3o sexual. No ano passado, ocorreram 343 assassinatos. Os crimes por homofobia v\u00eam crescendo: entre 2005 e 2014 foram 2181 homic\u00eddios e, apenas entre 2015 e 2017, j\u00e1 s\u00e3o 3093. Em 2014, metade dos casos registrados de transfobia letal no mundo ocorreu no Brasil. Este massacre, este que \u00e9 real, este que se d\u00e1 sobre os corpos de pessoas, este n\u00e3o produz nenhum protesto ou como\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A cada hora, no Brasil, cinco mulheres s\u00e3o estupradas. Isso significa que, enquanto voc\u00ea l\u00ea este texto, pelo menos uma mulher j\u00e1 sofreu ou est\u00e1 sofrendo um estupro. E isso s\u00e3o apenas os casos documentados. A estimativa, segundo estudo do IPEA (Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada), \u00e9 de que apenas 10% dos estupros s\u00e3o registrados pela pol\u00edcia. Assim, o n\u00famero verdadeiro seria de mais de meio milh\u00e3o de estupros por ano no Brasil. Este massacre, este que \u00e9 real, este que se d\u00e1 sobre os corpos de pessoas, este n\u00e3o produz como\u00e7\u00e3o no pa\u00eds.<\/p>\n<section id=\"sumario_4|html\" class=\"sumario_html derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">Ao denunciar a arte e os artistas como \u201cped\u00f3filos\u201d, o que se produz \u00e9 o apagamento de um fato bastante inc\u00f4modo: o de que a maioria das crian\u00e7as violadas \u00e9 violada por familiares e conhecidos<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Ao denunciar a arte e os artistas como \u201cped\u00f3filos\u201d, o que se produz \u00e9 o apagamento de um fato bastante inc\u00f4modo: o de que a maioria das crian\u00e7as violadas \u00e9 violada por familiares e conhecidos. Pelo menos um quarto dos casos de viola\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as tem como autor pais e padrastos. Ocorre, portanto, naquilo que a bancada da B\u00edblia tenta vender como a \u00fanica fam\u00edlia poss\u00edvel, formada por um homem e por uma mulher.<\/p>\n<p>Essa mesma estrat\u00e9gia faz com que a guerra contra as cotas raciais torne ainda mais invis\u00edvel o horror concreto: o genoc\u00eddio da juventude negra e pobre. E o \u201cEscola Sem Partido\u201d desloca o problema real, o desinvestimento na escola p\u00fablica, justamente a que abriga os mais pobres, para um falso problema, a suposta doutrina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. E assim, com os males reais sendo invisibilizados e apagados, tudo continua como est\u00e1. E aqueles que gritam seguem cimentados na mesma posi\u00e7\u00e3o na pir\u00e2mide social.<\/p>\n<section id=\"sumario_5|html\" class=\"sumario_html derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">Para que as mil\u00edcias sigam arregimentando odiadores \u00e9 preciso que a compreens\u00e3o do mundo seja cada vez mais literalizada, por isso \u00e9 t\u00e3o importante atingir a cultura, aquela que amplia as subjetividades<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>O fato de que as mais recentes ofensivas sejam contra a cultura n\u00e3o \u00e9 um dado qualquer. \u00c9 tamb\u00e9m por movimentos culturais surgidos nas periferias do pa\u00eds e apoiados por programas p\u00fablicos, especialmente nas gest\u00f5es de Gilberto Gil e de Juca Ferreira, que uma juventude politizada fortaleceu sua atua\u00e7\u00e3o. \u00c9 tamb\u00e9m nas artes e na literatura que se encontra a maior possibilidade de amplia\u00e7\u00e3o das subjetividades. E \u00e9 a subjetividade que nos ajuda a compreender o mundo em que vivemos para al\u00e9m do que nos \u00e9 dado para ver.<\/p>\n<p>E isso tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 um detalhe: para as mil\u00edcias seguirem arregimentando eleitores e odiadores \u00e9 preciso que a compreens\u00e3o do mundo siga literalizada \u2013 ou seja, sem a possibilidade de recursos como met\u00e1foras, ironias e inven\u00e7\u00f5es de linguagem. Nesse ritmo, daqui a pouco, quando algu\u00e9m disser coisas como \u201cboca da noite\u201d, um outro vai rebater com a afirma\u00e7\u00e3o de que \u201cnoite n\u00e3o tem boca\u201d. \u00c9 tamb\u00e9m isso que aconteceu quando muitos olharam para a exposi\u00e7\u00e3o e s\u00f3 literalizaram o que viram l\u00e1, bloqueados em qualquer outra possibilidade de entrar em contato com seus pr\u00f3prios sentidos e realidades inconscientes.<\/p>\n<section id=\"sumario_6|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">Se os programas policialescos\/sensacionalistas colaboraram para a compreens\u00e3o unidimensional do Brasil, as novas igrejas evang\u00e9licas cumpriram o papel de literalizar a linguagem de parte dos brasileiros<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Se os programas policialescos\/sensacionalistas de TV desempenharam e desempenham um papel fundamental para a compreens\u00e3o simplista do Brasil e dos problemas do Brasil, ao eleger um \u201cculpado\u201d individualizado, sem tocar em quest\u00f5es de desigualdade racial e social e quest\u00f5es de acesso a direitos b\u00e1sicos como a pr\u00f3pria justi\u00e7a, as igrejas evang\u00e9licas neopentecostais cumpriram e cumprem o papel de literalizar a linguagem. H\u00e1 gera\u00e7\u00f5es sendo formadas na interpreta\u00e7\u00e3o literal da B\u00edblia, para muitos o \u00fanico livro que leem. O que mil\u00edcias como MBL perceberam \u00e9 a possibilidade de manipular essa mesma mat\u00e9ria-prima, arregimentando massas j\u00e1 bem treinadas em enxergar inimigos e literalizar a linguagem.<\/p>\n<p>H\u00e1 um ponto nesse epis\u00f3dio que \u00e9 revelador de onde mil\u00edcias como MBL querem chegar. \u00c9 o ponto de encaixe. As mil\u00edcias sempre vociferaram contra os \u201cv\u00e2ndalos\u201d e \u201cdesordeiros\u201d que quebravam fachadas de bancos em protestos contr\u00e1rios \u00e0 sua bandeira de ocasi\u00e3o. Desta vez, aparentemente investiram contra o Santander, um dos maiores bancos do mundo, ao pregar um boicote. Mas n\u00e3o era contra o Santander, e sim contra o fato de uma exposi\u00e7\u00e3o que afirmaram ser de \u201capologia \u00e0 pedofilia e \u00e0 zoofilia\u201d ter sido financiada por dinheiro de ren\u00fancia fiscal via lei Rouanet. O verdadeiro alvo do ataque \u00e9 o investimento de dinheiro p\u00fablico em cultura. Se a lei Rouanet tem problemas e pode ser aprimorada, ela significou um investimento importante numa \u00e1rea sempre relegada e que tem sofrido enormemente no atual governo.<\/p>\n<p>Neste ponto, vale a pena perceber quais s\u00e3o os candidatos que apoiam e s\u00e3o apoiados por mil\u00edcias como o MBL. Em S\u00e3o Paulo, Jo\u00e3o Doria Jr (PSDB), o pol\u00edtico cuja pol\u00edtica \u00e9 se dizer n\u00e3o pol\u00edtico. Volta e meia s\u00e3o postadas nos sites das mil\u00edcias as fotos de Doria serelepando pelo Brasil em seu jatinho particular. Nestes posts, \u00e9 enaltecido o fato de que ele n\u00e3o gasta dinheiro p\u00fablico para se locomover \u201ca servi\u00e7o de S\u00e3o Paulo\u201d.<\/p>\n<p>Os milhares que apertam a tecla de \u201ccurtir\u201d esse tipo de mensagem podem n\u00e3o perceber que se propagam ali duas ideias que prejudicam a maioria da popula\u00e7\u00e3o: 1) que s\u00f3 ricos podem ser eleitos; 2) que o investimento de dinheiro p\u00fablico \u00e9 ruim para o Brasil, quando justamente \u00e9 fundamental para combater a desigualdade e garantir o acesso a direitos b\u00e1sicos que se invista em sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e transporte p\u00fablico, entre outros temas priorit\u00e1rios. A ideia de que todo investimento p\u00fablico \u00e9 suspeito ou ser\u00e1 desviado para a corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 bastante conveniente para pol\u00edticos e candidatos da pol\u00edtica tradicional a servi\u00e7o do mercado. Quanto menos o Estado atuar e investir em \u00e1reas estrat\u00e9gicas para a vida cotidiana e a qualifica\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o, h\u00e1 mais espa\u00e7o para neg\u00f3cios que s\u00f3 crescem pela sua aus\u00eancia.<\/p>\n<p>Outro exemplo \u00e9 o prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan Jr, tamb\u00e9m do PSDB, not\u00f3rio apoiador e apoiado pelo MBL. A nota do Santander Brasil foi publicada\u00a0na p\u00e1gina oficial do prefeito, com a afirma\u00e7\u00e3o de que \u201ca exposi\u00e7\u00e3o mostrava imagens de pedofilia e zoofilia\u201d. Horas depois, foi apagada. A mil\u00edcia desempenhou um papel importante em sua vit\u00f3ria na \u00faltima elei\u00e7\u00e3o. E \u00e9 para a elei\u00e7\u00e3o de 2018 que o MBL vem ensaiando lances cada vez mais ousados, como o da exposi\u00e7\u00e3o, que pode ter levado alguns de seus apoiadores e apoiados a um afastamento tempor\u00e1rio. Mas o que importa \u00e9 e sempre ser\u00e1 o poder das mil\u00edcias de influenciar eleitores\/odiadores.<\/p>\n<section id=\"sumario_7|html\" class=\"sumario_html derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">Um grita: \u201cPed\u00f3filo!\u201d. O outro responde: \u201cNazista!\u201d. O que muda?<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>De nada adianta chamar as pessoas que se manifestaram contra a mostra de \u201cignorantes\u201d, \u201cfascistas\u201d e \u201cnazistas\u201d. \u00c9 tamb\u00e9m preciso escut\u00e1-los para al\u00e9m do \u00f3bvio. E para al\u00e9m do que \u00e9 dado a ver. Do contr\u00e1rio, aqueles que \u201centendem a arte\u201d se colocam no melhor lugar para as mil\u00edcias, o de um polo oposto que iguala a todos no patamar do rebaixamento e produz o apagamento das diferen\u00e7as. Um grita: \u201cPed\u00f3filo!\u201d. O outro responde: \u201cNazista!\u201d. O que muda? Se estes s\u00e3o \u201cos que entendem\u201d, h\u00e1 que usar esse entendimento para n\u00e3o fazer o jogo das mil\u00edcias.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o adianta gritar que as pessoas n\u00e3o compreendem o que \u00e9 arte. Se parte significativa da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o teve e n\u00e3o tem acesso \u00e0 arte \u00e9 tamb\u00e9m porque os privil\u00e9gios se mant\u00eam intactos neste pa\u00eds gra\u00e7as a muita gente que entende de arte. E nada, muito menos a arte, deve estar protegida do debate. O ataque \u00e9 abusivo. O debate \u00e9 necess\u00e1rio.<\/p>\n<section id=\"sumario_8|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">H\u00e1 diferen\u00e7as entre as mil\u00edcias que lideram os ataques e aqueles que elas conseguem arregimentar para os ataques: \u00e9 essencial compreender essas diferen\u00e7as e aprender a dialogar com elas<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>H\u00e1 diferen\u00e7as entre as mil\u00edcias que lideram os ataques e aqueles que elas conseguem arregimentar para os ataques. \u00c9 importante compreender essas diferen\u00e7as e aprender a dialogar com elas. Durante a semana passada, por exemplo, evang\u00e9licos replicaram mensagens enviadas por seus pastores contra a mostra e a \u201capologia \u00e0 pedofilia\u201d. Mas algumas destas pessoas, com quem conversei, estavam replicando a mensagem ao mesmo tempo que participavam ativamente de debates p\u00fablicos sobre direitos humanos e maior investimento no SUS. Estas, por exemplo, s\u00e3o pessoas com quem \u00e9 poss\u00edvel conversar. E este \u00e9 apenas um exemplo. \u00c9 um erro confundir os l\u00edderes das mil\u00edcias com aqueles que ocasionalmente lideram. Assim como \u00e9 um erro colocar o complexo mundo evang\u00e9lico brasileiro no mesmo escaninho.<\/p>\n<p>A crise, como n\u00e3o custa repetir, \u00e9 tamb\u00e9m de palavra. Ou principalmente de palavra. E\u00a0o esvaziamento das palavras \u00e9 algo poderoso. Como o \u201clivre\u201d do Movimento Brasil Livre (MBL). Ou como \u201cEscola Sem Partido\u201d, um projeto que toma v\u00e1rios partidos. Mas as palavras que os confrontam j\u00e1 se esvaziaram. Como \u201cfascista\u201d, que j\u00e1 pouco ou nada diz. E agora tamb\u00e9m \u201cnazista\u201d j\u00e1 se desidrata. Para uma parte significativa da popula\u00e7\u00e3o, os conceitos de \u201cdireita\u201d e \u201cesquerda\u201d pouco significam. E \u201cped\u00f3filo\u201d agora pode ser algu\u00e9m que pintou um quadro. Assim como\u00a0as gentes na internet v\u00e3o virando fantasmagorias, as palavras tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>A literaliza\u00e7\u00e3o da linguagem \u00e9 apenas uma das faces da crise da palavra. Os brasileiros sempre tiveram uma linguagem riqu\u00edssima, complexa, de inven\u00e7\u00e3o, povoada por subjetividades. Guimar\u00e3es Rosa, um dos maiores \u00edcones da literatura brasileira, bebeu nesta fonte \u2013 e n\u00e3o o contr\u00e1rio. Alguns dos melhores momentos da m\u00fasica brasileira foram paridos por essa inventividade ousada. \u00c9 o teatro quem tem melhor dado conta do atual momento do Brasil.<\/p>\n<p>\u00c9 nesta resist\u00eancia que \u00e9 preciso apostar. E para isso \u00e9 preciso investir muito no fortalecimento dos movimentos culturais. E \u00e9 preciso fazer a disputa tamb\u00e9m ou principalmente pela linguagem. Quando tantos gritam \u201cped\u00f3filo\u201d \u00e9 preciso escutar e responder de forma que o di\u00e1logo seja poss\u00edvel. Quem ganha com o esvaziamento das palavras j\u00e1 sabemos. Quem perde nem sempre percebe que perde.<\/p>\n<p>Aqueles que investem no terror sabem apenas como come\u00e7a. Mas como ignoram a hist\u00f3ria e apostam na desmem\u00f3ria, n\u00e3o aprenderam uma li\u00e7\u00e3o b\u00e1sica: quando se manipula medos e \u00f3dios, o controle \u00e9 apenas uma ilus\u00e3o. Nunca se sabe at\u00e9 onde pode chegar nem como acaba.<\/p>\n<p>https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/09\/18\/opinion\/1505755907_773105.html<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ELIANE BRUM &#8211; As mil\u00edcias em benef\u00edcio pr\u00f3prio descobriram como barganhar com a vida dos brasileiros e ganhar adeptos manipulando o medo e o \u00f3dio O\u00a0fechamento da mostra\u00a0Queer Museum \u2013 Cartografia da Diferen\u00e7a na Arte Brasileira\u00a0aponta a crescente articula\u00e7\u00e3o entre setores da pol\u00edtica tradicional e mil\u00edcias como o\u00a0Movimento Brasil Livre\u00a0(MBL). 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