{"id":5294,"date":"2018-01-21T15:51:37","date_gmt":"2018-01-21T17:51:37","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=5294"},"modified":"2018-01-11T13:48:14","modified_gmt":"2018-01-11T15:48:14","slug":"a-loucura-terrorista-e-a-enfermidade-do-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/01\/21\/a-loucura-terrorista-e-a-enfermidade-do-capitalismo\/","title":{"rendered":"A loucura terrorista e a enfermidade do capitalismo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Alan Woods<\/strong> &#8211; Na brilhante e ensolarada tarde de 22 de maio, milhares de pessoas, principalmente jovens adolescentes, reuniram-se em um concerto de m\u00fasica pop na Manchester Arena. Mas o que se pretendia ser um momento feliz se transformou em um banho de sangue quando um suicida solit\u00e1rio detonou um dispositivo explosivo improvisado cheio de estilha\u00e7os no vest\u00edbulo lotado onde os pais esperavam por seus filhos.<\/p>\n<p>A maioria dos mortos e feridos eram crian\u00e7as e jovens, um deles com oito anos de idade. Muitos ainda est\u00e3o recebendo tratamento nos hospitais. Fotos desgarradoras das primeiras jovens v\u00edtimas que participavam do concerto foram postadas online. O atentado em Manchester foi o pior ataque terrorista na hist\u00f3ria da cidade.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, em 3 de junho, um novo atentado terrorista em Londres deixou sete pessoas mortas e 48 feridas. Este foi o terceiro incidente terrorista mortal na Gr\u00e3-Bretanha em menos de tr\u00eas meses. Por volta das 10 horas da noite, um furg\u00e3o foi lan\u00e7ado em velocidade sobre pedestres na London Bridge. Quando o furg\u00e3o se deteve, tr\u00eas homens sa\u00edram e percorreram os pubs e restaurantes lotados apunhalando indiscriminadamente as pessoas na \u00e1rea em torno de Borough Market, ao Sul do T\u00e2misa. Os homens, que gritavam \u201cIsto \u00e9 por Al\u00e1\u201d, foram mortos a tiros pela pol\u00edcia.<\/p>\n<p>Os recentes atentados terroristas em Manchester e Londres enviaram uma onda de choque e repulsa atrav\u00e9s da sociedade. Mas eles parecem ter sido de car\u00e1ter diferente. A \u00f3bvia crueza do \u00faltimo assalto contrastava com o ataque em Manchester, no qual uma bomba relativamente sofisticada foi utilizada para matar o n\u00famero m\u00e1ximo de pessoas.<\/p>\n<p>Quem ou o que est\u00e1 por tr\u00e1s desses ataques terroristas? Isis reivindicou a responsabilidade, embora isto n\u00e3o tenha sido investigado. Em comunicado publicado no domingo pela ag\u00eancia de not\u00edcias Amaq da organiza\u00e7\u00e3o, afirmava-se que \u201cum destacamento de combatentes do Estado Isl\u00e2mico executou o ataque de ontem em Londres\u201d.<\/p>\n<p>A escolha de um concerto de m\u00fasica pop como alvo para o ataque parecia muito ao massacre de Bataclan, em Paris, em novembro de 2015. Os terroristas jihadistas, inspirados por ISIS e Al-Qaeda, deliberadamente selecionam os grandes locais que acolhem os eventos, em parte por seu valor simb\u00f3lico como exemplos da \u201cdecad\u00eancia Ocidental\u201d, mas principalmente porque s\u00e3o alvos vulner\u00e1veis \u201cbrandos\u201d, que podem ser atacados com risco m\u00ednimo. O fato de que muitas das v\u00edtimas desse tipo de ataque sejam crian\u00e7as e adolescentes n\u00e3o se v\u00ea como fator negativo. Muito pelo contr\u00e1rio, adapta-se muito bem a sua agenda deformada devido \u00e0 dimens\u00e3o adicional de horror.<\/p>\n<p>O ataque deliberado a crian\u00e7as e adolescentes em um concerto, atrav\u00e9s de um terrorista suicida portando uma bomba recheada de pregos e parafusos, parece \u00e0 maioria das pessoas um crime t\u00e3o hediondo que somente poderia ser o produto de uma mente doente e desvairada. Tal julgamento \u00e9 bastante l\u00f3gico, mas n\u00e3o proporciona nenhuma explica\u00e7\u00e3o. Podemos concordar que este tipo de terrorismo indiscriminado \u00e9 uma forma de loucura. Mas certamente \u00e9 necess\u00e1rio dizer de onde vem essa loucura.<\/p>\n<div class=\"getty embed image\">\n<div><a href=\"http:\/\/www.gettyimages.com\/detail\/686991058\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Embed from Getty Images<\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>O assassino de Manchester, Salman Abedi, um mu\u00e7ulmano brit\u00e2nico de 22 anos de idade, era conhecido pelas for\u00e7as brit\u00e2nicas de combate ao terrorismo. Nascida e criada em Manchester, a fam\u00edlia de Abedi \u00e9 de origem L\u00edbia e ele viajava frequentemente de ida e volta \u00e0 L\u00edbia, onde seu pai \u00e9 ativo em uma organiza\u00e7\u00e3o jihadista terrorista. Algu\u00e9m que conhecia Abedi o descreveu como um \u201cfan\u00e1tico\u201d, com uma reputa\u00e7\u00e3o de envolvimento em pequenos crimes. \u201cOntem eram traficantes de droga, hoje s\u00e3o mu\u00e7ulmanos\u201d, disse ele, adicionando que ele acreditava que Abedi tamb\u00e9m tinha sido amigo de Anil Khalil Raoufi, um recrutador do Estado Isl\u00e2mico de Didsbury que foi morto na S\u00edria em 2014.<\/p>\n<p>As investiga\u00e7\u00f5es policiais n\u00e3o encontraram evid\u00eancias s\u00f3lidas para confirmar a teoria de uma c\u00e9lula terrorista e conclu\u00edram que esse ato criminoso foi realizado por um s\u00f3 terrorista suicida. No entanto, outros fatores sugerem, pelo menos, que o autor desse ataque pode haver sido treinado na L\u00edbia. Abedi esteve recentemente na L\u00edbia. Seu irm\u00e3o e pai foram presos em Tr\u00edpoli em 24 de maio. A mil\u00edcia que os sustenta disse que o irm\u00e3o \u00e9 membro de ISIS e estava planejando um atentado em Tr\u00edpoli.<\/p>\n<p><strong>Theresa May: a hipocrisia como uma m\u00e1scara para a impot\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Imediatamente ap\u00f3s a atrocidade em Manchester, Theresa May, com seu olhar de p\u00e1ssaro firmemente fixado na frente eleitoral, elevou o n\u00edvel de amea\u00e7a terrorista de \u201cgrave\u201d para \u201ccr\u00edtico\u201d. Pela primeira vez o ex\u00e9rcito recebeu ordens de sair \u00e0s ruas da Gr\u00e3-Bretanha continental. Um gesto altamente dram\u00e1tico, para n\u00e3o dizer teatral! Mas quais foram os resultados concretos disto? Nada que produzisse alguma consequ\u00eancia. Durante um dia ou um pouco mais os soldados ficaram parados torpemente nas esquinas das ruas, sem saber o que deveriam fazer. Logo foram enviados de volta aos quart\u00e9is. Os suspeitos, que haviam sido detidos t\u00e3o rapidamente, foram liberados um a um sem acusa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Dentro de poucos dias t\u00ednhamos os terroristas no tumulto da London Bridge. Depois do atentado em London Bridge, a senhora May nos informa que: \u201cBasta, j\u00e1 \u00e9 o suficiente\u201d, que essas coisas devem mudar e assim por diante. Se, para derrotar o terrorismo, tudo o que se necessita s\u00e3o discursos proferidos no n\u00famero 10 de Downing Street, todas as for\u00e7as combinadas de ISIS, Al Qaeda e Talib\u00e3 teriam baixado as armas e come\u00e7ado a praticar a jardinaria h\u00e1 muito. Mas, lamentavelmente, nenhuma quantidade de ret\u00f3rica da senhora May produzir\u00e1 o menor efeito.<\/p>\n<p>Theresa May \u00e9 Primeiro Ministro h\u00e1 alguns meses e, antes, era ministro do interior desde 2010. Isto significa que ela estava no comando da pol\u00edcia e da seguran\u00e7a. Fica-se tentado a perguntar: por que o que hoje \u201cbasta\u201d n\u00e3o \u2018bastava\u201d h\u00e1 sete anos? O povo da Gr\u00e3-Bretanha tem que esperar por uma campanha eleitoral antes de a senhora May chegar \u00e0 conclus\u00e3o que \u201cas coisas devem mudar\u201d? Podemos ter certeza de uma coisa: independentemente das medidas que os Tories possam tomar, ser\u00e3o impotentes para impedir futuros atentados terroristas, que s\u00e3o o resultado direto da pol\u00edtica de interfer\u00eancia da Gr\u00e3-Bretanha no Oriente M\u00e9dio junto com o imperialismo estadunidense. A a\u00e7\u00e3o militar, longe de salvar o povo brit\u00e2nico do terrorismo, teve precisamente o efeito oposto.<\/p>\n<p>Como para sublinhar este fato evidente, em 31 de maio, um dispositivo explosivo escondido em um caminh\u00e3o-cisterna explodiu durante a hora do rush em uma \u00e1rea cheia de gente em Cabul. A explos\u00e3o rompeu janelas a milhas de dist\u00e2ncia e lan\u00e7ou nuvens de fuma\u00e7a negra que se espalharam pela cidade. Pelo menos 90 pessoas foram mortas e mais de 460 feridas. Foi um dos atentados mais mortais na capital em 16 anos de guerra civil. Supunha-se ser esta uma \u201c\u00e1rea segura\u201d perto de v\u00e1rias embaixadas estrangeiras. A bomba que explodiu em Cabul foi uma clara evid\u00eancia de que a chamada guerra ao terror fracassou.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0s medidas policiais, tamb\u00e9m tiveram efeito limitado. M15 tem em suas listas mais de 3 mil pessoas consideradas como extremistas religiosos, mas somente tem recursos para o monitoramento constante de apenas 40 deles; a vigil\u00e2ncia durante 24 horas de um s\u00f3 suspeito requer at\u00e9 18 policiais. E h\u00e1 regras sobre quanto tempo essa vigil\u00e2ncia intensiva de um indiv\u00edduo pode continuar. Em qualquer caso, os cortes de austeridade introduzidos pela senhora May levaram \u00e0 perda de 20 mil policiais durante os \u00faltimos sete anos.<\/p>\n<p>Para se derrotar os terroristas o que se requer \u00e9 o apoio ativo da popula\u00e7\u00e3o, e em particular o apoio da popula\u00e7\u00e3o mu\u00e7ulmana. Mas as pessoas j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam mais qualquer confian\u00e7a no governo ou no establishment pol\u00edtico. A maioria das pessoas est\u00e3o alienadas de Westminster, e o grau de aliena\u00e7\u00e3o aumenta em propor\u00e7\u00e3o ao aumento do desemprego, da pobreza, da m\u00e1 moradia, do racismo e da discrimina\u00e7\u00e3o. Este \u00e9 o terreno sobre o qual o \u00e2nimo terrorista pode florescer entre uma camada de jovens alienados e desencantados. A guerra contra o terrorismo somente pode ser ganha quando essas coisas forem erradicadas de nossa sociedade.<\/p>\n<p>Relan\u00e7ando a campanha eleitoral trabalhista depois de uma pausa de tr\u00eas dias ap\u00f3s a atrocidade de Manchester, Jeremy Corbyn teve a coragem de chamar a aten\u00e7\u00e3o para a conex\u00e3o entre os atentados terroristas, como o atentado suicida de Manchester, e as guerras externas da Gr\u00e3-Bretanha. Ele estabeleceu uma conex\u00e3o causal entre \u201cas guerras que nosso governo tem apoiado ou lutado em outros pa\u00edses e o terrorismo aqui em casa\u201d.<\/p>\n<p>Essa declara\u00e7\u00e3o naturalmente provocou uma resposta furiosa dos Tories alegando que Corbyn estava \u201cculpando a Gr\u00e3-Bretanha pelos atos terroristas\u201d e \u201cproporcionando uma desculpa para o terrorismo\u201d. Isso apesar do fato de ele ter enfatizado que sua avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 compartilhada pelos servi\u00e7os de intelig\u00eancia e de seguran\u00e7a, e que \u201cde forma alguma reduz a culpa daqueles que atacaram nossas crian\u00e7as\u201d. \u201cEsses terroristas ser\u00e3o para sempre vilipendiados e responsabilizados por suas a\u00e7\u00f5es\u201d, disse ele.<\/p>\n<p>Prometendo \u201cmudar o que fazemos no exterior\u201d, Corbyn acrescentou: \u201cUma compreens\u00e3o fundamentada das causas do terrorismo \u00e9 parte essencial para uma resposta efetiva que proteger\u00e1 a seguran\u00e7a de nossa gente, e que mais combata do que alimente o terrorismo. Devemos ser suficientemente corajosos para admitir que \u2018a guerra ao terror\u2019 simplesmente n\u00e3o funciona. Necessitamos de uma forma mais inteligente de reduzir a amea\u00e7a dos pa\u00edses que nutrem terroristas e geram o terrorismo\u201d.<\/p>\n<p>Apesar dos protestos furiosos dos Tories, n\u00e3o pode haver a menor d\u00favida de que h\u00e1 uma liga\u00e7\u00e3o causal entre o envolvimento da Gr\u00e3-Bretanha em aventuras militares no Iraque, Afeganist\u00e3o, L\u00edbia e S\u00edria, e o terrorismo. \u00c9 fato reconhecido que antes da invas\u00e3o do Iraque \u2013 este ato b\u00e1rbaro e criminoso organizado por Tony Blair e George W Bush \u2013 n\u00e3o houve nenhum ato terrorista na Gr\u00e3-Bretanha \u2013 nem um s\u00f3. Antes disso, Al Qaeda n\u00e3o tinha uma s\u00f3 base no Iraque ou na S\u00edria, e ISIS sequer existia. Estes s\u00e3o os fatos, e os fatos s\u00e3o coisas teimosas.<\/p>\n<p><strong>A conex\u00e3o L\u00edbia<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 por acaso que o terrorista de Manchester, Salman Abedi, tivesse fortes conex\u00f5es l\u00edbias. Seu pai era um fundamentalista isl\u00e2mico que escapou de Kaddafi e foi bem recebido na Gr\u00e3-Bretanha sob o reconhecido princ\u00edpio de que o inimigo de meu inimigo \u00e9 meu amigo. Mas a diplomacia \u00e9 um p\u00e2ntano muito trai\u00e7oeiro, e o inimigo de hoje pode rapidamente se transformar no amigo e aliado de amanh\u00e3.<\/p>\n<p>Geralmente n\u00e3o se sabe que as autoridades brit\u00e2nicas encorajaram ativamente jovens mu\u00e7ulmanos a viajar \u00e0 S\u00edria para ajudar na derrubada do governo de Assad. Muitos desses jovens se radicalizaram na S\u00edria onde foram recrutados por organiza\u00e7\u00f5es terroristas jihadistas. Muitos retornaram \u00e0 Gr\u00e3-Bretanha, onde representam um s\u00e9rio potencial para atentados terroristas como os que vimos recentemente em Manchester e Londres.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi s\u00f3 na S\u00edria que o governo brit\u00e2nico promoveu ativamente a\u00e7\u00f5es terroristas. O caso da L\u00edbia \u00e9 ainda mais claro. Nessa ocasi\u00e3o, foram a Gr\u00e3-Bretanha e a Fran\u00e7a que bateram os tambores de guerra em favor da interven\u00e7\u00e3o para derrubar Kaddafi (os estadunidenses n\u00e3o ficaram interessados com a ideia). E todos se lembram do espet\u00e1culo de David Cameron dirigindo-se a uma multid\u00e3o animada em Benghazi na sequ\u00eancia da chamada \u201clibera\u00e7\u00e3o\u201d da L\u00edbia. Mas o que se conseguiu com isto?<\/p>\n<p>Esse pa\u00eds \u201cliberado\u201d est\u00e1 numa completa bagun\u00e7a. Est\u00e1 inundado de terroristas jihadistas, com uma s\u00e9rie de quadrilhas criminosas rivalizando pelo controle. Temos o espet\u00e1culo de contrabandistas de pessoas saqueando refugiados desesperados que s\u00e3o diariamente enviados para a morte em barcos lotados e sem condi\u00e7\u00f5es de navegar. Assassinatos, viola\u00e7\u00f5es, pilhagens, caos, mis\u00e9ria e crime s\u00e3o tudo o que substituiu o governo de Kaddafi. Foi este o \u00fanico resultado da interfer\u00eancia da Gr\u00e3-Bretanha na L\u00edbia.<\/p>\n<p>O LIFG,\u00a0<i>Lybian Islamic Fighting Group<\/i>, era um grupo terrorista isl\u00e2mico anti-Kaddafi, formado em 1990 por jihadistas l\u00edbios e que foi usado para lutar contra a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica no Afeganist\u00e3o. Ap\u00f3s a aproxima\u00e7\u00e3o entre os governos brit\u00e2nico e l\u00edbio, selada pelo chamado \u201cAcordo do Deserto\u201d entre o ent\u00e3o primeiro-ministro Tony Blair e Kaddafi, em 2004, muitos l\u00edbios exilados no Reino Unido com liga\u00e7\u00f5es ao LIFG foram colocados sob ordens de controle e submetidos \u00e0 vigil\u00e2ncia e monitoramento.<\/p>\n<p>O cinismo das autoridades brit\u00e2nicas foi revelado por documentos secretos recuperados dos escrit\u00f3rios saqueados da ag\u00eancia de intelig\u00eancia L\u00edbia depois da queda de Kaddafi do poder em 2011. Esses documentos mostram que o governo brit\u00e2nico sob Tony Blair entrou em coopera\u00e7\u00e3o estreita com o regime de Kaddafi, incluindo a coopera\u00e7\u00e3o entre os servi\u00e7os secretos l\u00edbio e brit\u00e2nico. De acordo com esses documentos, os servi\u00e7os de seguran\u00e7a brit\u00e2nicos reprimiram os dissidentes l\u00edbios no Reino Unido como parte do acordo, e ajudaram na entrega de dois altos l\u00edderes da LIFG, Abdel Hakim Belhaj e Sami al-Saadi, a Tr\u00edpoli, onde foram torturados.<\/p>\n<p>Em um desses documentos incriminadores h\u00e1 uma carta que Tony Blair escreveu a Kaddafi em abril de 2007, dirigida ao \u201cQuerido Mu\u2019amma\u201d, na qual Blair expressava o seu pesar pelo fato de o governo brit\u00e2nico ter falhado em suas tentativas de deportar certo n\u00famero de advers\u00e1rios de Kaddafi do Reino Unido, e agradecia ao ditador pela \u201cexcelente coopera\u00e7\u00e3o\u201d de suas ag\u00eancias de intelig\u00eancia com suas contrapartes brit\u00e2nicas.<\/p>\n<p>Mas depois a atitude de Londres mudou para o seu oposto. Mais uma vez Kaddafi tornou-se o inimigo. Sua derrubada foi acelerada pelos ataques a\u00e9reos da OTAN liderados pela Fran\u00e7a e Gr\u00e3-Bretanha. O governo brit\u00e2nico agora operava uma pol\u00edtica de \u201cportas abertas\u201d que permitiu aos exilados l\u00edbios e aos cidad\u00e3os brit\u00e2nicos-l\u00edbios se juntar ao levante de 2011 que derrubou Muammar Kaddafi, embora alguns deles estivessem submetidos a ordens de controle anti-terrorista.<\/p>\n<p>As ordens de controle foram introduzidas como parte da legisla\u00e7\u00e3o antiterror elaborada na sequ\u00eancia dos atentados de 2005 em Londres. Ziad Hashem, membro do LIFG que recebeu asilo no Reino Unido, disse que foi preso durante 18 meses sem acusa\u00e7\u00e3o e em seguida confinado em sua casa por mais tr\u00eas anos com base em informa\u00e7\u00f5es que ele acreditava terem sido proporcionadas pela intelig\u00eancia L\u00edbia.<\/p>\n<p>Mas ele acrescentou: \u201cQuando a revolu\u00e7\u00e3o come\u00e7ou, as coisas mudaram na Gr\u00e3-Bretanha. Suas maneiras de falar comigo e de me tratar eram diferentes. Ofereceram-me benef\u00edcios, at\u00e9 permiss\u00e3o de permanecer indefinidamente ou a cidadania\u201d.<\/p>\n<p><strong>\u201cTreinamento do SAS\u201d<\/strong><\/p>\n<p>O conluio entre a intelig\u00eancia brit\u00e2nica e os jihadistas n\u00e3o se limitou a fechar os olhos para jovens que viajavam \u00e0 L\u00edbia para lutar contra Kaddafi. H\u00e1 muitas evid\u00eancias que mostram que as For\u00e7as Especiais Brit\u00e2nicas (SAS) realmente os armaram e treinaram. Um cidad\u00e3o brit\u00e2nico de origem L\u00edbia, que foi submetido a uma ordem de controle \u2013 pris\u00e3o domiciliar de fato \u2013 devido a temores de que se reuniria a grupos militantes no Iraque, disse que \u201cse surpreendeu\u201d de poder viajar \u00e0 L\u00edbia em 2011 pouco depois de que fosse revogada sua ordem de controle: \u201cpermitiram-me ir sem fazer perguntas\u201d, disse. Conheceu outros brit\u00e2nicos de origem L\u00edbia em Londres, a quem tamb\u00e9m foram revogadas as ordens de controle em 2011, \u00e0 medida em que a guerra contra Kaddafi se intensificava, e o Reino Unido, a Fran\u00e7a e os EUA realizavam ataques a\u00e9reos e enviavam soldados das For\u00e7as Especiais em apoio aos rebeldes.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o tinham passaportes, procuravam passaportes falsos ou uma forma de atravessar ilegalmente\u201d, disse ele. Mas aos poucos dias de serem revogadas suas ordens de controle, as autoridades brit\u00e2nicas lhes entregaram seus passaportes.<\/p>\n<p>\u201cEstes eram antigos membros do LIFG, eles [as autoridades brit\u00e2nicas] sabiam o que estavam fazendo\u201d, disse. O governo brit\u00e2nico tinha a LIFG dentro da lista de organiza\u00e7\u00f5es terroristas em 2005, ao que consideravam como promotor de um \u201cestado isl\u00e2mico de linha dura\u201d e como \u201cparte do movimento isl\u00e2mico extremista mais amplo e inspirado por Al Qaeda\u201d.<\/p>\n<p>Belal Younis, outro cidad\u00e3o brit\u00e2nico que foi para a L\u00edbia, descreveu como foi detido em seu regresso ao Reino Unido em 2011 pelo dispositivo antiterrorista \u201cschedule 7\u201d, que permitia \u00e0 pol\u00edcia e aos funcion\u00e1rios da imigra\u00e7\u00e3o deter e interrogar a qualquer pessoa que passasse atrav\u00e9s dos controles fronteiri\u00e7os em portos e aeroportos, para determinar se estavam envolvidos em atividades relativas ao terrorismo.<\/p>\n<p>Disse que, depois da deten\u00e7\u00e3o, um oficial da intelig\u00eancia do M15, a ag\u00eancia de seguran\u00e7a nacional do Reino Unido, lhe perguntou: \u201cVoc\u00ea est\u00e1 disposto a batalhar?\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEnquanto pensava para encontrar uma resposta, voltou-se para mim e me disse que o governo brit\u00e2nico n\u00e3o tinha nenhum problema com as pessoas que estavam lutando contra Kaddafi\u201d<\/p>\n<p>Quando viajava de regresso \u00e0 L\u00edbia, em maio de 2011, dois agentes da pol\u00edcia antiterrorista aproximaram-se dele no port\u00e3o de embarque e lhe disseram que, se ia lutar, estaria cometendo um delito. Mas depois de lhes dar o nome e o n\u00famero do telefone do oficial do M15 com quem havia falado antes, e depois de uma r\u00e1pida chamada telef\u00f4nica a tal oficial, foi autorizado a viajar. Enquanto esperava para embarcar no avi\u00e3o, disse que o mesmo oficial do M15 o chamou para lhe dizer que havia \u201csolucionado\u201d o problema.<\/p>\n<p>\u201cO governo brit\u00e2nico n\u00e3o p\u00f4s obst\u00e1culos para ir \u00e0 L\u00edbia. A grande maioria dos rapazes brit\u00e2nicos tinham 20 anos de idade. Havia alguns com 18 e 19 anos. A maioria dos que foram provinham de Manchester\u201d.<\/p>\n<p>Outro cidad\u00e3o brit\u00e2nico de origem L\u00edbia descreveu como havia realizado \u201ctrabalhos de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas\u201d para os rebeldes nos meses anteriores \u00e0 derrubada e assassinato de Kaddafi em outubro de 2011. Disse que foi contratado para editar v\u00eddeos que mostrassem rebeldes L\u00edbios sendo treinados por ex-agentes das SAS brit\u00e2nicas e mercen\u00e1rios das For\u00e7as Especiais Irlandesas em Benghazi, a cidade onde come\u00e7ou o levantamento contra Kaddafi:<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o eram v\u00eddeos baratos com\u00a0<i>nasheeds<\/i>\u00a0[can\u00e7\u00f5es] \u00e1rabes, eram fitas bem-feitas e profissionais, que mostr\u00e1vamos em Qatar e Emirados \u00c1rabes, para apoiar as mil\u00edcias que estavam recebendo o treinamento de elite das SAS\u201d. Tamb\u00e9m esteve a cargo de ensinar a jovens L\u00edbios a usar c\u00e2maras para poder vender imagens exclusivas aos meios internacionais.<\/p>\n<p>Em uma miss\u00e3o em um acampamento-base rebelde, em uma escola de Misrata, encontrou-se com um grupo de oito jovens brit\u00e2nicos de origem L\u00edbia. Depois de brincar sobre seus sotaques nortistas, inteirou-se de que nunca haviam estado na L\u00edbia antes, \u201ctinham em torno de 17 ou 18 anos, talvez um tivesse 20 anos no m\u00e1ximo, tinham um perfeito sotaque de Manchester\u201d, disse. \u201cEstavam vivendo ali, lutando e fazendo tudo o que podiam\u201d.<\/p>\n<p><strong>Do otimismo ao caos<\/strong><\/p>\n<p>A derrubada e assassinato de Kaddafi foram acompanhados por um per\u00edodo de otimismo embriagador. Em um com\u00edcio em Benghazi, em setembro de 2011, o ent\u00e3o primeiro-ministro brit\u00e2nico, David Cameron, e o presidente franc\u00eas, Nicolas Sarkozy, dirigiram-se a uma grande multid\u00e3o entre bandeiras francesas e brit\u00e2nicas. \u201c\u00c9 estupendo estar aqui em uma Benghazi livre e em uma L\u00edbia livre\u201d, disse-lhes Cameron.<\/p>\n<p>Esta euforia n\u00e3o durou muito tempo e hoje ningu\u00e9m mais deseja recordar o momento de \u201cgl\u00f3ria\u201d de David Cameron. Igual ao Iraque, a queda do antigo regime foi acompanhada de uma ruptura completa, anarquia e caos. Um acordo de paz respaldado pela ONU, assinado por alguns dos advers\u00e1rios em 2015, n\u00e3o logrou unir o pa\u00eds nem criar um Estado est\u00e1vel sob o \u201cgoverno de acordo nacional\u201d (GNA). Numerosos grupos armados, alinhados em linhas gerais com governos rivais no oriente e no ocidente, competem pelo poder. Isis prosperou no caos e o aumentou ainda mais, ultimamente est\u00e1 atacando dutos e esta\u00e7\u00f5es de bombeamento.<\/p>\n<p>Surgiram pistoleiros jihadistas, mil\u00edcias rivais de senhores da guerra e bandidos. O povo indefeso da L\u00edbia saltou da frigideira ao fogo. E seus \u201caliados\u201d brit\u00e2nicos e franceses rapidamente os deixaram na estaca. A L\u00edbia se converteu em um ref\u00fagio de terroristas e em um \u00edm\u00e3 para os poss\u00edveis jihadistas da Europa, incluindo a Gr\u00e3-Bretanha. Os jovens de Manchester e de outras cidades viajaram de um lado para o outro sem impedimentos, inclu\u00eddos os que estavam sob vigil\u00e2ncia por suspeitas de vincula\u00e7\u00e3o a grupos terroristas. Entre estes rapazes que viajaram livremente \u00e0 L\u00edbia, que lutaram e que tiveram v\u00ednculos conhecidos com organiza\u00e7\u00f5es terroristas, encontrava-se Salman Abedi.<\/p>\n<p>Foi Abedi um desses rapazes de Manchester que \u201cdeu tudo de si\u201d, um dos que recebeu treinamento das m\u00e3os do SAS? Provavelmente era demasiado jovens nesse momento, mas n\u00e3o parece haver d\u00favidas de que foi treinado por pessoas consideravelmente habilidosas na arte mortal da fabrica\u00e7\u00e3o de bombas. E muito provavelmente recebeu a forma\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria pela m\u00e3o de especialistas brit\u00e2nicos. Seja como for, a participa\u00e7\u00e3o da Gr\u00e3-Bretanha na a\u00e7\u00e3o militar secreta e aberta na L\u00edbia se transformou agora em ca\u00e7a ao povo da Gr\u00e3-Bretanha.<\/p>\n<p>A ministra do Interior, Amber Rudd, admitiu que Abedi era conhecido pelos servi\u00e7os de seguran\u00e7a. Um trabalhador da comunidade local disse \u00e0 BBC que v\u00e1rias pessoas o haviam denunciado \u00e0 pol\u00edcia atrav\u00e9s de uma linha telef\u00f4nica antiterrorista. O irm\u00e3o mais novo e o pai de Abedi, que regressaram \u00e0 L\u00edbia depois da derrubada de Kaddafi, tamb\u00e9m foram detidos por suspeita de v\u00ednculos com Isis, a quem foi atribu\u00edda a responsabilidade do ataque em Manchester.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 o jihadismo uma forma de fascismo?<\/strong><\/p>\n<p>A pequena burguesia \u00e9 a mais impotente de todas as classes sociais. Esmagada entre os grandes monop\u00f3lios e o proletariado, est\u00e1 historicamente condenada \u00e0 extin\u00e7\u00e3o. No entanto, luta desesperadamente contra tal extin\u00e7\u00e3o. Odeia os grandes bancos e monop\u00f3lios que a est\u00e3o arruinando, mas teme e odeia o proletariado em cujas fileiras se v\u00ea precipitada cada vez mais.<\/p>\n<p>Nos anos trinta, a pequena burguesia alem\u00e3 \u2013 os pequenos empres\u00e1rios e comerciantes arruinados \u2013 foi mobilizada por Hitler em torno a um programa falso e demag\u00f3gico que se supunha estar dirigido contra os bancos e o grande capital (especialmente o capital financeiro). Na realidade, Hitler era somente o agente das grandes empresas alem\u00e3s. Dirigiu habilmente a f\u00faria da pequena burguesia contra um setor do capital, que ele identificou com os judeus. O \u00f3dio do pequeno comerciante arruinado foi desviado assim do capitalismo para outro objeto diferente.<\/p>\n<p>Como indiv\u00edduo, o pequeno-burgu\u00eas \u00e9 insignificante. Mas mobilizada em um ex\u00e9rcito, dotada com um poderoso senso de prop\u00f3sito comum e equipada com slogans de superioridade racial e nacional, a pequena burguesia se sente a si pr\u00f3pria como um poder. A poeira humana se converte em uma for\u00e7a. A raiva impotente do pequeno burgu\u00eas vestiu um uniforme, os intensos sentimentos de humilha\u00e7\u00e3o receberam um falso sentimento de satisfa\u00e7\u00e3o na forma de um sentimento de superioridade nacional e racial. O verme se converteu (pelo menos em sua pr\u00f3pria mente) em um drag\u00e3o. A loucura resultante se chama fascismo. Dirigido contra a classe oper\u00e1ria, este se converteu na mais poderosa das ag\u00eancias da rea\u00e7\u00e3o: um ar\u00edete poderoso para destruir o movimento oper\u00e1rio. Um movimento que se supunha ir dirigido contra as grandes empresas, mas que acabou sendo o meio mais eficiente para a manuten\u00e7\u00e3o do capital monopolista.<\/p>\n<p>A pequena burguesia entregou-se fanaticamente a Hitler porque este lhe prometeu uma sa\u00edda para a crise do capitalismo alem\u00e3o. De um ponto de vista l\u00f3gico, suas ideias eram irracionais, m\u00edsticas, confusas e contradit\u00f3rias. Mas a l\u00f3gica n\u00e3o \u00e9 necessariamente a ferramenta mais poderosa para movimentar as massas. A emo\u00e7\u00e3o joga um papel ainda maior nos momentos decisivos. E Hitler sabia muito bem como jogar com as emo\u00e7\u00f5es das massas, especialmente com a pequena burguesia enfurecida, \u00e0 qual ele pr\u00f3prio pertencia. O nacional-socialismo afirmava a superioridade da \u201cra\u00e7a\u201d sobre tudo o mais. O pequeno-burgu\u00eas alem\u00e3o, individualmente impotente, sentia-se fazendo parte de um Todo \u2013 a Na\u00e7\u00e3o e a Ra\u00e7a \u2013 que era todo-poderoso. Neste caso, a fraude da superioridade racial serviu de folha de parreira aos crus interesses do imperialismo alem\u00e3o.<\/p>\n<p>Que rela\u00e7\u00e3o guarda este fen\u00f4meno com o fanatismo isl\u00e2mico? Alguns se referiram a este \u00faltimo como fascismo isl\u00e2mico. A f\u00f3rmula atrai superficialmente, mas \u00e9 enganosa. O fascismo \u00e9 um produto do capitalismo monopolista em um per\u00edodo de declive capitalista. \u00c9 a express\u00e3o extrema do racismo, que \u00e9 a ess\u00eancia destilada do imperialismo. A ideia da superioridade racial sobre os povos \u201cinferiores\u201d proporciona uma cobertura \u00fatil para a agress\u00e3o imperialista e para a escraviza\u00e7\u00e3o de uma na\u00e7\u00e3o por outra. Pelo contr\u00e1rio, os movimentos jihadistas n\u00e3o surgiram nas na\u00e7\u00f5es imperialistas avan\u00e7adas, mas em alguns dos pa\u00edses mais oprimidos do Oriente: as antigas col\u00f4nias que lograram a independ\u00eancia formal do governo direto imperialista, mas que, sobre a base do capitalismo, encontram-se em um beco sem sa\u00edda.<\/p>\n<p>Os jihadistas de hoje em dia diferem dos nacional-socialistas na medida em que s\u00e3o uma express\u00e3o das penosas contradi\u00e7\u00f5es sociais que existem nas na\u00e7\u00f5es pobres, ex-col\u00f4nias, e n\u00e3o nos poderosos estados imperialistas predadores. Contudo, em sua composi\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica de classe oferecem muitos pontos de compara\u00e7\u00e3o. Como classe condenada a desaparecer, a pequena burguesia \u00e9 particularmente propensa \u00e0s ilus\u00f5es. Isso est\u00e1 muito claro no lixo m\u00edstico e pseudo-hist\u00f3rico com que Hitler envolveu sua mensagem reacion\u00e1ria e disfar\u00e7ou o seu conte\u00fado real. Vemos fen\u00f4meno similar com a ideologia confusa e m\u00edstica do jihadismo, embora seu conte\u00fado concreto n\u00e3o seja o mesmo do fascismo e tenha ra\u00edzes completamente distintas.<\/p>\n<p><strong>O conte\u00fado de classe e a ideologia do jihadismo<\/strong><\/p>\n<p>\u00c0 sua maneira, o islamismo \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o extrema de \u201cpol\u00edtica identit\u00e1ria\u201d, oferecendo um sentimento de identidade a um grupo social particular que, sem d\u00favida, sofre de opress\u00e3o, marginaliza\u00e7\u00e3o e aliena\u00e7\u00e3o na sociedade ocidental. Mas, como todas as demais manifesta\u00e7\u00f5es da \u201cpol\u00edtica identit\u00e1ria\u201d, n\u00e3o oferece nenhuma solu\u00e7\u00e3o para as pessoas a que se dirige. Em vez de vincular os problemas dos jovens mu\u00e7ulmanos desempregados \u00e0 classe trabalhadora em uma linha comum contra o capitalismo, os separa de outros estratos oprimidos e explorados e, de fato, os rejeita. Ao semear a divis\u00e3o e o \u00f3dio, desempenha um papel completamente reacion\u00e1rio e contrarrevolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>O \u00fanico tipo de pol\u00edtica identit\u00e1ria que pode servir genuinamente a um prop\u00f3sito progressista e revolucion\u00e1rio \u00e9 a pol\u00edtica de classe contra classe.<\/p>\n<p>Qualquer outro tipo de identidade \u00e9, no melhor dos casos, um substituto ilus\u00f3rio e divisor da verdadeira luta revolucion\u00e1ria e, no pior dos casos, uma cobertura para os objetivos mais reacion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Os jihadistas jogam com os sentimentos de humilha\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o que existem entre amplas camadas da popula\u00e7\u00e3o nos pa\u00edses ex-col\u00f4nias. O estudante desempregado do Cairo, o desesperado habitante dos bairros de Karachi, o comerciante arruinado de Jacarta, todos eles proporcionam audi\u00eancia j\u00e1 preparada para uns movimentos reacion\u00e1rios bem financiados que lhes informam que todos os seus problemas se devem \u00e0 decadente cultura ocidental e que a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o \u00e9 voltar ao Isl\u00e3 \u201cpuro\u201d.<\/p>\n<p>Mais tarde, vamos nos ocupar do conte\u00fado real deste Isl\u00e3 \u201cpuro\u201d. No momento basta assinalar que com muita frequ\u00eancia na hist\u00f3ria um movimento de descontentamento massivo cont\u00e9m um elemento de querer voltar a um passado dourado que realmente nunca existiu, mas que expressa o \u00f3dio ardente pela ordem existente e o desejo de escapar de suas contradi\u00e7\u00f5es. Estes sonhos de um mundo melhor tiveram, frequentemente, car\u00e1ter m\u00edstico e religioso. A ideologia jihadista \u00e9 simples e, por isso mesmo, atraente: todos os nossos problemas se devem \u00e0 domina\u00e7\u00e3o dos valores e da cultura ocidentais; somos oprimidos e humilhados; nossa cultura, valores e religi\u00e3o s\u00e3o desprezados. Devemos recuperar nosso pa\u00eds, afugentar os infi\u00e9is, apagar todos os rastros de ideias estranhas, morais e religiosas, voltar \u00e0s velhas formas e estabelecer a comunidade dos verdadeiros crentes. Ent\u00e3o, tudo ficar\u00e1 bem.<\/p>\n<p>A imprecis\u00e3o da ideia \u00e9, por sua vez, sua for\u00e7a e sua debilidade. Numa sociedade que se encontra cruelmente dividida entre ricos e pobres, predica um tipo de identidade que supostamente transcende a classe. Esta \u00e9 uma mensagem poderosa. D\u00e1 \u00e0s pessoas um sentimento de identidade e comunidade, uma fraternidade religiosa em vez da cruel atomiza\u00e7\u00e3o e aliena\u00e7\u00e3o do capitalismo. Mas esta \u201csolu\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9, de fato, ilus\u00f3ria. Como toda religi\u00e3o, resolve o problema n\u00e3o na realidade, mas apenas na mente, n\u00e3o no aqui e agora, mas na vida al\u00e9m-tumba.<\/p>\n<p>\u201cNa mesquita, todos os mu\u00e7ulmanos s\u00e3o iguais\u201d. Isso pode ser correto at\u00e9 certo ponto, mas passa por alto o fato de que, ao sair da mesquita, o mu\u00e7ulmano rico, que possui terras ou uma f\u00e1brica, explorar\u00e1, roubar\u00e1 e enganar\u00e1 ao pobre trabalhador ou campon\u00eas mu\u00e7ulmano. Os pobres continuar\u00e3o sendo pobres e ter\u00e3o que esperar sua recompensa em outra vida, enquanto os ricos governar\u00e3o a sociedade como antes e receber\u00e3o sua recompensa terrena sem demora.<\/p>\n<p>Naturalmente, \u00e9 in\u00fatil discutir com a f\u00e9 religiosa, que, por defini\u00e7\u00e3o, n\u00e3o responde ante as leis da l\u00f3gica. As contradi\u00e7\u00f5es insuport\u00e1veis da sociedade capitalista podem levar as pessoas a buscar solu\u00e7\u00f5es desesperadas, inclusive contra toda a l\u00f3gica.<\/p>\n<p><strong>Os jihadistas e o imperialismo<\/strong><\/p>\n<p>A \u00fanica forma de se sair deste terr\u00edvel beco sem sa\u00edda \u00e9 tomando o caminho da revolu\u00e7\u00e3o socialista. Isto foi realmente poss\u00edvel. A classe trabalhadora do Iraque, Sud\u00e3o, Indon\u00e9sia, \u00cdndia e muitos outros pa\u00edses, mostrou um hero\u00edsmo enorme e via o comunismo como sa\u00edda. Mas os partidos comunistas desses pa\u00edses, sob o controle de Moscou (ou de Pequim, no caso da Indon\u00e9sia) continuaram a pol\u00edtica criminosa das \u201cetapas\u201d que declarava que a classe trabalhadora devia entregar o poder \u00e0 \u201cburguesia nacional\u201d. Isso paralisou o proletariado, isolou sua vanguarda comunista e a entregou ao verdugo como ovelhas no matadouro.<\/p>\n<p>A trai\u00e7\u00e3o dos estalinistas e a destrui\u00e7\u00e3o do movimento oper\u00e1rio de um pa\u00eds a outro foi o que lan\u00e7ou estes pa\u00edses no abismo da mis\u00e9ria em que se encontram atualmente. O v\u00e1cuo foi preenchido pela rea\u00e7\u00e3o jihadista. Mas este processo n\u00e3o se logrou sem a ativa interven\u00e7\u00e3o do imperialismo.<\/p>\n<p>Alguns grupos de esquerda deixaram-se enganar pela ret\u00f3rica \u201canti-imperialista\u201d dos jihadistas. Mas h\u00e1 que se levar em conta que \u00e9 poss\u00edvel estar \u201ccontra o imperialismo\u201d por muitas e diferentes raz\u00f5es, nem todas de car\u00e1ter progressista. Ao redigir as\u00a0<i>Teses sobre a quest\u00e3o nacional e colonial<\/i>\u00a0no II Congresso da Internacional Comunista, Lenin enfatizou a necessidade de manter uma oposi\u00e7\u00e3o intransigente ante os elementos reacion\u00e1rios, feudais e religiosos nos pa\u00edses coloniais:<\/p>\n<p>\u201c11. Com refer\u00eancia aos Estados e \u00e0s na\u00e7\u00f5es mais atrasadas, onde predominam as rela\u00e7\u00f5es feudais, patriarcais ou patriarcal-camponesas, \u00e9 preciso ter presente sobretudo:<\/p>\n<ol>\n<li>A obriga\u00e7\u00e3o de todos os partidos comunistas de ajudar ao movimento democr\u00e1tico-burgu\u00eas de libera\u00e7\u00e3o nesses pa\u00edses: o dever de prestar a ajuda mais ativa incumbe, em primeiro lugar, aos oper\u00e1rios do pa\u00eds do qual, no sentido colonial ou financeiro, depende a na\u00e7\u00e3o atrasada;<\/li>\n<li><i>A necessidade de lutar contra o clero e os demais elementos reacion\u00e1rios e medievais que exercem influ\u00eancia nos pa\u00edses atrasados<\/i>;<\/li>\n<li><i>A necessidade de lutar contra o pan-islamismo e outras correntes desta \u00edndole que tratam de combinar o movimento de libera\u00e7\u00e3o contra o imperialismo europeu e norte-americano com o fortalecimento das posi\u00e7\u00f5es dos khans, dos latifundi\u00e1rios, dos mul\u00e1s etc.\u201d\u00a0<\/i>(\u00eanfases nossas).<\/li>\n<\/ol>\n<p>Estas palavras s\u00e3o muito claras e completamente relevantes na hora de se determinar nossa atitude em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s tend\u00eancias jihadistas reacion\u00e1rias que pretendem \u201clutar contra o imperialismo\u201d sob a bandeira negra da rea\u00e7\u00e3o. Na ideologia de Isis e outros grupos jihadistas n\u00e3o h\u00e1 um s\u00f3 fragmento de conte\u00fado progressista. De fato, representam a forma mais raivosa de rea\u00e7\u00e3o. Sua pretens\u00e3o de \u201ccombater o imperialismo\u201d tamb\u00e9m \u00e9 completamente falsa, como qualquer um que conhe\u00e7a remotamente os fatos saber\u00e1 deduzir muito bem.<\/p>\n<p>O imperialismo isl\u00e2mico foi alentado e financiado pelo imperialismo \u2013 especialmente o imperialismo estadunidense \u2013 como um meio de combater o comunismo no Oriente M\u00e9dio durante a guerra fria. Depois da revolu\u00e7\u00e3o afeg\u00e3 de 1979, a CIA apoiou, armou e financiou as quadrilhas de jihadistas que, mais tarde, se converteram nos talib\u00e3s. Osama bin Laden \u2013 o filho de um multimilion\u00e1rio saudita \u2013 era um agente da CIA nesse momento. Os EUA n\u00e3o tinham nenhum problema com Al Qaeda enquanto este matava russos. Mas, quando o ex\u00e9rcito sovi\u00e9tico se retirou do Afeganist\u00e3o e os jihadistas come\u00e7aram a atacar aos estadunidenses, deixaram de ser \u201clutadores pela liberdade\u201d e foram convertidos em \u201cterroristas\u201d.<\/p>\n<p><strong>O papel da Ar\u00e1bia Saudita<\/strong><\/p>\n<p>O isl\u00e3 \u201cpuro\u201d do qual falam os jihadistas \u00e9, naturalmente, o importado da Ar\u00e1bia Saudita, onde uma camarilha parasit\u00e1ria de pr\u00edncipes e xeiques mimados e degenerados leva um estilo de vida luxuoso de riqueza obscena. Estes \u201cdefensores dos Lugares Santos\u201d habitam pal\u00e1cios imensos, usam limusines caras e gozam de todos os mais recentes luxos que o infiel Ocidente pode proporcionar. Quando n\u00e3o passam o tempo em seus pal\u00e1cios, est\u00e3o nos bord\u00e9is e cassinos de Londres e Paris em estado de gozo mergulhado no u\u00edsque.<\/p>\n<p>S\u00e3o estes os homens que guardam zelosamente as virtudes mais sagradas do Isl\u00e3 \u201cpuro\u201d em sua forma wahabista mais intransigente. Quem se atrever a transgredir o r\u00edgido c\u00f3digo moral que impuseram, ou quem se atrever a questionar o seu governo de qualquer forma, pode esperar ser submetido \u00e0 mais rigorosa corre\u00e7\u00e3o. Entre os delicados costumes deste para\u00edso wahabista encontramos a flagela\u00e7\u00e3o, o corte de membros do corpo, a lapida\u00e7\u00e3o at\u00e9 a morte, a decapita\u00e7\u00e3o e a crucifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A quadrilha reacion\u00e1ria de Riad, de onde se exporta, al\u00e9m do petr\u00f3leo, o venenoso fanatismo wahabista, mant\u00e9m excelentes rela\u00e7\u00f5es com os imperialistas ocidentais e Israel (com quem acaba de estabelecer uma conex\u00e3o a\u00e9rea direta). Ao dispor de grandes quantidades de dinheiro em efetivo, compram os servi\u00e7os de agentes que difundem sua ideologia atrav\u00e9s de milhares de organiza\u00e7\u00f5es: desde os semin\u00e1rios do Paquist\u00e3o e organiza\u00e7\u00f5es \u201cde benefic\u00eancia\u201d no Norte da \u00c1frica at\u00e9 movimentos armados jihadistas no Iraque, S\u00edria e L\u00edbia.<\/p>\n<p>Se seguirmos os fios que unem todas as diferentes quadrilhas terroristas jihadistas at\u00e9 a sua fonte original, veremos que a maioria, se n\u00e3o todos, conduzem a Riad. A maior parte dos que realizaram o ataque terrorista de 11-S contra as Torres G\u00eameas era saudita. Tamb\u00e9m havia jordanianos, mas nem um s\u00f3 iraquiano. No entanto, foi o Iraque e n\u00e3o a Ar\u00e1bia Saudita ou a Jord\u00e2nia o pa\u00eds que foi invadido. No dia seguinte ao 11-S, o presidente Bush ordenou que todos os avi\u00f5es que sobrevoavam os EUA permanecessem em terra, com uma \u00fanica exce\u00e7\u00e3o: os avi\u00f5es que levavam cidad\u00e3os sauditas para fora dos EUA, inclu\u00eddos os parentes de Osama bin Laden.<\/p>\n<p>Aos imperialistas conv\u00e9m fechar os olhos antes estas atividades de seus amigos em Riad, que n\u00e3o s\u00f3 s\u00e3o os seus servidores mais fi\u00e9is, como tamb\u00e9m a fonte de lucrativos acordos de armamentos, como o assinado recentemente pelo presidente Trump em torno de cem bilh\u00f5es de d\u00f3lares. O fato de que estas armas sejam utilizadas para matar o povo do I\u00e9men n\u00e3o lhes preocupa minimamente.<\/p>\n<p><strong>Como os sauditas recompensam nossos \u201cdemocratas\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Pode parecer surpreendente que o fato reconhecido de que os sauditas e seus agentes wahabistas constituem a principal for\u00e7a motriz por tr\u00e1s das bandas jihadistas que operam na S\u00edria, Afeganist\u00e3o, Iraque e L\u00edbia, e que est\u00e3o por tr\u00e1s dos ataques terroristas na Gr\u00e3-Bretanha, Fran\u00e7a, B\u00e9lgica e Alemanha, nunca seja mencionado por ningu\u00e9m. Mas n\u00e3o h\u00e1 nada de surpreendente a respeito. O regime saudita paga a um grande ex\u00e9rcito de jornalistas e assessores em muitos pa\u00edses, cujo trabalho \u00e9 silenciar qualquer cr\u00edtica a seu regime e suas atividades.<\/p>\n<p>Como parte da vasta rede de corrup\u00e7\u00e3o paga com o dinheiro do petr\u00f3leo saudita, funcion\u00e1rios do governo conservador e membros do Parlamento brit\u00e2nico receberam presentes e dinheiro da parte do governo saudita. Os la\u00e7os financeiros do reino com os parlamentares conservadores est\u00e3o detalhados no registro de interesses financeiros publicado pelo Parlamento brit\u00e2nico. Os deputados Tories embolsaram 99.396 libras na forma de presentes, gastos de viagem e \u201chonor\u00e1rios de consultoria\u201d do governo da Ar\u00e1bia Saudita desde que come\u00e7ou a guerra do I\u00e9men;<\/p>\n<p>Quando Philip Hammond, agora ministro da economia, era ministro do exterior, foi criticado por defender uma execu\u00e7\u00e3o massiva na Ar\u00e1bia Saudita que inclu\u00eda um cr\u00edtico n\u00e3o violento do governo. O pr\u00f3prio Philip Hammond aceitou um rel\u00f3gio do embaixador saudita no valor de 1.950 libras esterlinas. A deputada Tory Charlotte Leslie, que presidiu um debate parlamentar sobre pol\u00edtica exterior no Oriente M\u00e9dio, recebeu uma caixa de alimentos da Embaixada da Ar\u00e1bia Saudita no valor estimado de 500 libras, um presente menor, mas bem-vindo de toda forma.<\/p>\n<p>O governo da Ar\u00e1bia Saudita tamb\u00e9m custeou amavelmente quatro viagens a esse fascinante reino, efetuadas por deputados conservadores desde que come\u00e7ou a guerra no I\u00e9men. Os custos de alojamento, viagens e alimenta\u00e7\u00e3o para os legisladores oscilam entre umas modestas 2.888 libras at\u00e9 umas, j\u00e1 mais aceit\u00e1veis, 6.722 libras. Segundo o registro de interesses financeiros, pelo menos 18 deputados conservadores participaram dessas viagens. Rehman Christi, um dos benefici\u00e1rios desta espl\u00eandida hospitalidade saudita no ano passado, recebeu, ademais, 2.000 libras ao m\u00eas como assessor do Centro Rei Faisal de Investiga\u00e7\u00f5es e Estudos Isl\u00e2micos, um \u201cthink-tank\u201d da Ar\u00e1bia Saudita. O acordo come\u00e7ou em fevereiro de 2016. N\u00e3o ficou claro se ainda est\u00e3o \u201cpensando\u201d \u2013 mas, por certo, est\u00e3o ganhando dinheiro\u2026<\/p>\n<p>Mas \u00e9 preciso ter muita imagina\u00e7\u00e3o para acreditar que t\u00e3o generosas doa\u00e7\u00f5es n\u00e3o fazem parte de um esfor\u00e7o para comprar influ\u00eancia de ambos os lados do Atl\u00e2ntico. O jornal\u00a0<i>The Intercept<\/i>\u00a0informou que \u201co governo da Ar\u00e1bia Saudita expandiu rapidamente a sua presen\u00e7a como lobby em Washington, contratando consultores e experts em rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas com v\u00ednculos estreitos com o presidente Donald Trump. Desde 2015, o n\u00famero de agentes registrados que trabalham para o Reino da Ar\u00e1bia Saudita cresceu de 25 a 145 pessoas\u201d. A julgar pela recente visita de Donald Trump, o esfor\u00e7o foi muito proveitoso.<\/p>\n<p>Os la\u00e7os dos Tories com a Ar\u00e1bia Saudita foram recompensados com recordes de vendas de armas. Os governos conservadores autorizaram 3.3 bilh\u00f5es de libras em vendas de armas \u00e0s mil\u00edcias sauditas desde o in\u00edcio do massacre no I\u00e9men, um tema sobre o qual estes humanistas renomados nada t\u00eam a dizer \u2013 da mesma forma como os \u201ccampe\u00f5es da democracia\u201d mostram uma mais que not\u00e1vel retic\u00eancia ao criticar os abusos aos direitos humanos, quando os mesmos s\u00e3o realizados por seus amigos sauditas.<\/p>\n<div class=\"getty embed image\">\n<div><a href=\"http:\/\/www.gettyimages.com\/detail\/665199648\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Embed from Getty Images<\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>Theresa May visitou Riad antes de seu amigo Donald Trump e saiu muito satisfeita consigo mesma, ao ter logrado outro formoso tratado de venda de armas com os sauditas. De volta a Londres, apressou-se a negar todas as acusa\u00e7\u00f5es sobre agress\u00e3o brutal saudita contra o I\u00e9men, que a Gr\u00e3-Bretanha est\u00e1 respaldando ativamente. No fim das contas, dinheiro \u00e9 dinheiro, e todos sabemos que n\u00e3o fede, n\u00e3o importa de onde tenha sa\u00eddo.<\/p>\n<p>Pode-se supor que antes de que Santa Theresa de Downing Street viajasse a Riad, fosse ela informada pela Intelig\u00eancia brit\u00e2nica. Pode-se supor, ademais, que o M16 est\u00e1 muito consciente dos v\u00ednculos estreitos entre o regime saudita e o terrorismo wahabista. Apesar disso, a Sra. May, como Donald Trump, fez gala do mais humilhante servilismo para com esses monstros que continuam apoiando, armando e financiando bandos terroristas na S\u00edria, Iraque e L\u00edbia \u2013 incluindo a quadrilha vinculada \u00e0 atrocidade de Manchester. Agora se tornou p\u00fablico que o governo conservador da primeira-ministra Theresa May pretende suprimir um relat\u00f3rio sobre o financiamento estrangeiro a grupos extremistas, que se sup\u00f5e documentar os la\u00e7os sauditas com os fundamentalistas isl\u00e2micos.<\/p>\n<p><strong>Ar\u00e1bia Saudita e Qatar<\/strong><\/p>\n<p>A Ar\u00e1bia Saudita e seus sat\u00e9lites do Golfo (Emirados \u00c1rabes Unidos e Bahrein) romperam rela\u00e7\u00f5es com o Qatar. Os sauditas anunciaram que n\u00e3o s\u00f3 estavam rompendo rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas, como tamb\u00e9m estavam fechando suas comunica\u00e7\u00f5es a\u00e9reas, mar\u00edtimas e terrestres, o que significa que a \u00fanica fronteira terrestre de Qatar deve ser fechada. Os qataris devem abandonar a Ar\u00e1bia Saudita e lhes ser\u00e1 negada a entrada posteriormente. Os sauditas expulsaram \u00e0 for\u00e7a uns 1.000 soldados de Qatar de sua coaliz\u00e3o contra o I\u00e9men.<\/p>\n<p>Os meios de comunica\u00e7\u00e3o sauditas dizem que as medidas s\u00e3o em repres\u00e1lia pelo \u201capoio ao terrorismo\u201d de Qatar, incluindo Al Qaeda. Este \u00e9 um caso do sujo falando do mal lavado. \u00c9 verdade que os qataris, que t\u00eam grandes ambi\u00e7\u00f5es, estiveram apoiando grupos terroristas na S\u00edria e em outros lugares \u2013 \u00e0s vezes, os mesmos e, \u00e0s vezes, terroristas diferentes dos respaldados pela Ar\u00e1bia Saudita. O Qatar patrocina e proporciona santu\u00e1rios \u00e0 Fraternidade Mu\u00e7ulmana, que os Emirados \u00c1rabes Unidos (EAU) classificam como grupo terrorista. Tamb\u00e9m financia e aloja Al Jazeera, uma cadeia de TV que oferece uma plataforma aos dissidentes \u00e1rabes \u2013 de todas as partes, com exce\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Qatar.<\/p>\n<p>O problema principal \u00e9 que os qataris n\u00e3o est\u00e3o dispostos a aceitar o dom\u00ednio saudita na regi\u00e3o. Um ponto particularmente doloroso para Riad \u00e9 que o Qatar ainda mant\u00e9m rela\u00e7\u00f5es relativamente cordiais com o Ir\u00e3 (da mesma forma que o Kuwait e Om\u00e3). Seu\u00a0<i>emir<\/i>, Tamin bin Hamad Al Thani, expressou reservas sobre a postura cada vez mais beligerante da Ar\u00e1bia Saudita para com o Ir\u00e3.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1920, como parte de sua estrat\u00e9gia de divide e vencer\u00e1s, os brit\u00e2nicos defenderam Qatar contra os sauditas, impedindo-lhes de estender o seu dom\u00ednio aos seus protetorados costeiros. Atualmente Qatar esteve cortejando Israel, Ir\u00e3, Turquia e EUA, em busca de apoio. Contudo, ultimamente, suas alian\u00e7as est\u00e3o sob amea\u00e7a. O Qatar alberga a maior base estadunidense no Oriente M\u00e9dio, al-Udeid, situada no caminho \u00e0 fronteira saudita, algo que os qataris consideraram durante muito tempo como sua melhor defesa contra uma invas\u00e3o por terra. Mas a decis\u00e3o de Donald Trump de escolher Riad como primeiro destino de sua presid\u00eancia no estrangeiro e a calorosa acolhida que recebeu por parte dos sauditas, acompanhada de importantes contratos de armamento, provocou calafrios nos qataris. Este \u00e9 outro fator que cria mais instabilidade em uma parte j\u00e1 inst\u00e1vel do mundo.<\/p>\n<p><strong>Terrorismo \u2013 o velho e o novo<\/strong><\/p>\n<p>O terrorismo sempre existiu de uma forma ou de outra. De fato, \u00e9 um sintoma da exist\u00eancia de contradi\u00e7\u00f5es insuport\u00e1veis na sociedade. Mas o car\u00e1ter do terrorismo moderno sofreu uma mudan\u00e7a que reflete a enfermidade do capitalismo em sua \u00e9poca de decad\u00eancia senil. A loucura do terrorismo \u00e9 a imagem especular de um mundo que se tornou louco. Para citar as palavras de Hegel: a Raz\u00e3o se converte em Insensatez.<\/p>\n<p>O Marxismo russo, em particular, nasceu de uma luta implac\u00e1vel contra o terrorismo individual. A marca moderna do terrorismo \u00e9 muito diferente do antigo terrorismo ao estilo da\u00a0<i>Narodnaya Volya<\/i>\u00a0russa (A Vontade do Povo). Os terroristas russos eram jovens heroicos e idealistas que estavam comprometidos em um combate isolado com o monstruoso regime czarista. Naquela \u00e9poca, a classe oper\u00e1ria russa encontrava-se em fase embrion\u00e1ria de desenvolvimento. As massas camponesas estavam em estado de letargia. Os estudantes revolucion\u00e1rios trataram de despert\u00e1-las mediante a \u201cpropaganda do fato\u201d, ou seja, assassinando figuras proeminentes do regime.<\/p>\n<p>Comparados \u00e0 moderna estirpe de terroristas, os terroristas russos eram como santos, guiados por altos princ\u00edpios e estritos c\u00f3digos morais. Nunca plantaram bombas para matar gente comum. Seus objetivos eram os chefes de pol\u00edcia, torturadores not\u00f3rios e ministros reacion\u00e1rios. Na maioria das vezes, depois de realizar um assassinato, entregavam-se \u00e0 pol\u00edcia para serem submetidos a julgamento e sentenciados a longos per\u00edodos de pris\u00e3o ou ex\u00edlio nas frias e congeladas terras da Sib\u00e9ria.<\/p>\n<p>Apesar de seu hero\u00edsmo indubit\u00e1vel e de seu compromisso revolucion\u00e1rio, os m\u00e9todos terroristas de A Vontade do Povo eram incorretos e contraproducentes. No final, chegaram inclusive a matar o czar. Mas o \u00eaxito dos terroristas ao eliminar a figura situada no \u00e1pice da odiada autocracia, simultaneamente causou o golpe mortal ao partido que o havia organizado.<\/p>\n<p>O idealismo de A Vontade do Povo contrasta fortemente com os terroristas modernos, que, deliberadamente, se prop\u00f5em a matar e mutilar mulheres e crian\u00e7as inocentes. N\u00e3o est\u00e3o guiados por altos princ\u00edpios, mas por um fanatismo cego e uma ideologia reacion\u00e1ria. A mentalidade destas pessoas n\u00e3o tem nada em comum com o ing\u00eanuo socialismo ut\u00f3pico da\u00a0<i>Narodnaya Volya<\/i>.<\/p>\n<p>Houve muitas tentativas de comparar a recente atrocidade com o atentado do IRA em 1996. A variante moderna do terrorismo jihadista \u00e9 diferente em esp\u00e9cie \u00e0 praticada pelo IRA. Os Marxistas se opuseram \u00e0 chamada luta armada do IRA, que foi respons\u00e1vel por muitas mortes sem sentido e n\u00e3o conduziu a parte alguma. Mas, pelo menos, o IRA tinha um programa claro que todos entendiam: a unifica\u00e7\u00e3o da Irlanda. Pode-se estar de acordo ou em desacordo com isso, mas era algo tang\u00edvel. O tipo de terrorismo praticado pelos fan\u00e1ticos jihadistas tem um objetivo diferente, com correspondentes m\u00e9todos diferentes.<\/p>\n<p>Isto \u00e9 o que The Economist \u2013 uma revista conservadora \u2013 tem a dizer sobre esse tema:<\/p>\n<p>\u201cMuitos compararam este atentado com outro ataque em Manchester, em 1996, quando o Ex\u00e9rcito Republicano Irland\u00eas (IRA) detonou a maior quantidade poss\u00edvel de explosivos em um ataque terrorista na Gr\u00e3-Bretanha, em Corporation Street, pr\u00f3ximo ao centro comercial Arndale. Foi feita uma advert\u00eancia de antem\u00e3o, e embora centenas de pessoas resultassem feridas, ningu\u00e9m foi morto. Na ocasi\u00e3o, a cidade se recuperou rapidamente. De fato, o dinheiro do governo gasto para reconstruir o local alentou a regenera\u00e7\u00e3o de toda a cidade. Mas o ataque do IRA foi um assalto \u00e0 economia da cidade. O atentado desta semana foi planejado para matar e mutilar tantas pessoas quanto fosse poss\u00edvel, a maioria delas crian\u00e7as. Foi um ataque profundamente emotivo, planejado para dividir as comunidades, para desgarrar o sentimento de inclus\u00e3o de Manchester, um objetivo comum dos ataques do chamado Estado Isl\u00e2mico, que assumiu a responsabilidade\u201d (The Economist, 24 de maio).<\/p>\n<p>O Marxismo sempre se op\u00f4s ao terrorismo individual, que \u00e9 uma forma de luta t\u00edpica da pequena burguesia, do campesinato e do lumpenproletariado \u2013 o intelectual desclassificado de classe m\u00e9dia, os elementos criminosos que se \u201cradicalizaram\u201d no c\u00e1rcere em contato com jihadistas e elementos desesperados da juventude.<\/p>\n<p><strong>A sociedade em um beco sem sa\u00edda<\/strong><\/p>\n<p>Ao longo da hist\u00f3ria, a religi\u00e3o foi inimiga do progresso e da civiliza\u00e7\u00e3o. O florescimento de tantas seitas religiosas, que brotam como cogumelos envenenados depois de uma chuva, \u00e9 um indicador seguro de que, sob o capitalismo, o progresso humano chegou a um beco sem sa\u00edda.<\/p>\n<p>Para o estudante s\u00e9rio da hist\u00f3ria, isto n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno novo. Pelo contr\u00e1rio, o vemos repetido em toda a sociedade onde uma determinada forma socioecon\u00f4mica sobreviveu \u00e0 sua utilidade e se converteu em um obst\u00e1culo para o desenvolvimento social. Nestes per\u00edodos, as pessoas perdem a f\u00e9 na ordem social existente, em seus valores, moralidade e religi\u00e3o. A decad\u00eancia do Imp\u00e9rio Romano foi acompanhada pela extens\u00e3o de todos os tipos de ideias m\u00edsticas e supersti\u00e7\u00f5es do Oriente, enquanto os velhos deuses e templos permaneciam vazios porque as pessoas n\u00e3o acreditavam mais neles. Vemos um cen\u00e1rio similar no \u00faltimo per\u00edodo do feudalismo, quando as pessoas acreditavam que o fim do mundo se aproximava. De fato, o que se aproximava n\u00e3o era o fim do mundo, mas simplesmente o fim de um dado sistema social.<\/p>\n<p>Hoje em dia \u00e9 comum se referir ao fundamentalismo como se estivesse confinado ao Isl\u00e3. Mas o fundamentalismo crist\u00e3o (Donald Trump e a renascida quadrilha Republicana que o rodeia s\u00e3o um excelente exemplo deste fen\u00f4meno), o fundamentalismo judeu, o fundamentalismo hindu tamb\u00e9m existem. Todos eles expressam tend\u00eancias irracionais na sociedade, que, por sua vez, s\u00e3o o reflexo da natureza irracional da sociedade em que vivemos.<\/p>\n<p>O programa jihadista \u00e9 simples: a conquista do mundo inteiro pela variante mais extrema do Isl\u00e3. Os meios pelos quais se deve alcan\u00e7ar este objetivo s\u00e3o igualmente simples: matar a tantos\u00a0<i>kafirs<\/i>\u00a0(infi\u00e9is) quanto for poss\u00edvel e, no processo, ganhar um passaporte para o para\u00edso.<\/p>\n<p>N\u00e3o est\u00e1 de todo claro como estas demandas poderiam ser negociadas satisfatoriamente. A experi\u00eancia mostra que n\u00e3o se pode negociar com um fan\u00e1tico religioso. O fanatismo religioso nega todo argumento l\u00f3gico e o substitui pela \u201cf\u00e9\u201d cega que \u00e9 superior a tudo o mais. Nos indiv\u00edduos, esta \u00e9 uma forma de loucura que pode ser descartada como uma forma de excentricidade inofensiva. Mas \u00e9 uma esp\u00e9cie de loucura que, sob certas condi\u00e7\u00f5es, pode exercer uma poderosa atra\u00e7\u00e3o para classes e estratos sociais definidos. Quando assume a forma de um movimento de massas, est\u00e1 muito distante de ser inofensivo.<\/p>\n<p><strong>Impot\u00eancia terrorista<\/strong><\/p>\n<p>A partir dos acontecimentos recentes a popula\u00e7\u00e3o pode facilmente tirar a conclus\u00e3o de que os terroristas est\u00e3o em todas as partes, prontos para atacar sem aviso pr\u00e9vio. Contra este inimigo invis\u00edvel e misterioso, as for\u00e7as do Estado parecem impotentes. Desta forma, cria-se a impress\u00e3o de uma for\u00e7a todo-poderosa e onipresente. De fato, o terrorismo n\u00e3o \u00e9 uma express\u00e3o de for\u00e7a, e sim muito pelo contr\u00e1rio. O terrorismo \u00e9 sempre uma arma dos d\u00e9beis contra os fortes.<\/p>\n<p>A recente vaga de atrocidades terroristas na Europa n\u00e3o \u00e9 uma express\u00e3o da marcha triunfal do islamismo, mas somente o eco de sua agonia no Iraque e na S\u00edria. A interven\u00e7\u00e3o russa e iraniana na S\u00edria virou rapidamente a situa\u00e7\u00e3o militar. At\u00e9 ent\u00e3o, o Ocidente n\u00e3o havia feito praticamente nada para combater a amea\u00e7a jihadista. Concentrando todos os seus esfor\u00e7os para derrubar Assad, na realidade estavam dando alento aos terroristas armados e financiados pela Ar\u00e1bia Saudita, Qatar e Turquia.<\/p>\n<p>A queda de Alepo foi o ponto decisivo. Agora n\u00e3o se tratava mais de eliminar Assad, pelo menos em futuro previs\u00edvel. Os jihadistas tiveram que abandonar Alepo e continuar a guerra em outra parte. Os estadunidenses e seus aliados viram-se obrigados a participar no assalto a Mosul, que agora est\u00e1 a ponto de entrar em colapso. O fim est\u00e1 \u00e0 vista para o autoproclamado \u201ccalifado\u201d do ISIS.<\/p>\n<p>No entanto, isto n\u00e3o significa o fim do terrorismo isl\u00e2mico, que agora se espalhou para outras terras: L\u00edbia, Som\u00e1lia, Nig\u00e9ria, Indon\u00e9sia e mesmo as Filipinas. E o ISIS est\u00e1 se vingando das derrotas que sofreu na S\u00edria e no Iraque ao animar seus simpatizantes na Europa a devastar e vingar-se dos \u201ccruzados\u201d, como se referem ao povo da Europa: homens, mulheres e crian\u00e7as sem nenhuma distin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Incapazes de derrotar as for\u00e7as armadas do Estado, os terroristas recorrem a ataques isolados, geralmente sobre alvos \u201cbrandos\u201d que n\u00e3o requerem grandes for\u00e7as, mas causam impacto consider\u00e1vel na mente da popula\u00e7\u00e3o. Mas, al\u00e9m de criar uma atmosfera de medo, os efeitos reais no Estado s\u00e3o m\u00ednimos. O efeito principal \u00e9, de fato, o contr\u00e1rio do que se pretendia. O terrorismo sempre serviu para fortalecer o Estado e seus \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o. Depois de cada ataque, h\u00e1 um grito ensurdecedor para aumentar os poderes do Estado e limitar os direitos democr\u00e1ticos. O ato terrorista mais not\u00f3rio \u2013 o bombardeio das Torres G\u00eameas \u2013 levou \u00e0 Lei Patri\u00f3tica e a outras leis reacion\u00e1rias e repressivas.<\/p>\n<p>Longe de combater o imperialismo e o Estado, o terrorismo serve para fortalecer as for\u00e7as da rea\u00e7\u00e3o, que alimentam avidamente o terrorismo, assim como o terrorismo recebe uma ajuda inestim\u00e1vel das medidas repressivas do Estado que empurram novas camadas de jovens mu\u00e7ulmanos descontentes para o extremismo. Os dois monstros, aparentemente vinculados em luta mortal, na realidade dependem um do outro para sua pr\u00f3pria exist\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Lutar contra o racismo! Pela unidade e solidariedade de classe!<\/strong><\/p>\n<p>Depois da atrocidade de Manchester houve temores compreens\u00edveis de uma rea\u00e7\u00e3o violenta. Muitos mu\u00e7ulmanos vivem com temor de repres\u00e1lias, de que sua comunidade servir\u00e1 de bode expiat\u00f3rio pelo sangrento crime de Abedi. Mas at\u00e9 agora houve poucos sinais disso. A Liga de Defesa Inglesa, de extrema-direita, tentou organizar uma pequena manifesta\u00e7\u00e3o no centro comercial Arndale, perto da Manchester Arena onde ocorreu o atentado. Mas foram vaiados por clientes zangados e depois dispersados pela pol\u00edcia. Na vig\u00edlia, as pessoas levavam letreiros feitos \u00e0 m\u00e3o. Em um se lia: \u201cO \u00f3dio n\u00e3o resolve o \u00f3dio\u201d. Essa \u00e9 a vis\u00e3o da maioria esmagadora das pessoas.<\/p>\n<p>Os trabalhadores correntes de Manchester e Londres responderam magnificamente a esta provoca\u00e7\u00e3o brutal. Tanta gente se ofereceu para doar sangue para as v\u00edtimas que, depois de somente algumas horas, foram recusados: os dep\u00f3sitos de sangue estavam saturados. Em Manchester, muitos haviam utilizado as redes sociais para oferecer uma cama aos que haviam fugido da sala de concertos depois do bombardeio, quando era demasiado tarde para regressar a suas casas em Liverpool, Stockport e outros lugares.<\/p>\n<p>Enfermeiros, m\u00e9dicos e param\u00e9dicos apareceram espontaneamente para trabalhar depois de seu turno terminado. \u00a0Os Sikhs estavam entregando bebidas e \u00e1gua gr\u00e1tis. Os taxistas Sikhs haviam se destacado durante toda a noite ao desligar os seus tax\u00edmetros e trasladar pessoas em dificuldades a lugares seguros por toda a cidade. Representantes de\u00a0<i>Muslim Aid<\/i>\u00a0(Ajuda Mu\u00e7ulmana) e da comunidade\u00a0<i>Ahmadiyya<\/i>\u00a0se ofereceram para ajudar. Havia um grupo de mulheres de uma mesquita local.<\/p>\n<p>A \u00fanica for\u00e7a que pode derrotar o terrorismo e conduzir uma luta s\u00e9ria contra o imperialismo e o capitalismo \u00e9 a classe trabalhadora. Tanto a classe dominante quanto os terroristas buscam dividir a classe trabalhadora, mas a maioria dos trabalhadores entendem que sua \u00fanica for\u00e7a est\u00e1 na unidade.<\/p>\n<p><strong>Socialismo ou barb\u00e1rie<\/strong><\/p>\n<p>Quando se olha para a situa\u00e7\u00e3o do mundo em que vivemos, muitas pessoas tiram conclus\u00f5es pessimistas. Isso n\u00e3o surpreende. O mundo do s\u00e9culo XXI apresenta uma imagem de obscuridade quase incessante: por todas as partes h\u00e1 dor, morte, destrui\u00e7\u00e3o, guerras sem fim e terrorismo, que t\u00eam o aspecto de uma epidemia incontrol\u00e1vel.<\/p>\n<p>As for\u00e7as produtivas estancam ou diminuem. As condi\u00e7\u00f5es de vida caem constantemente para a maioria, enquanto que um punhado tem a sua disposi\u00e7\u00e3o uma riqueza obscena. O ego\u00edsmo, a avareza e o desprezo insens\u00edvel pelo sofrimento humano se levantam como os princ\u00edpios morais mais elevados. A sociedade est\u00e1 enferma e ningu\u00e9m parece oferecer algum rem\u00e9dio para a enfermidade.<\/p>\n<p>Esta avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 exata, mas unilateral. As dores que vemos s\u00e3o as dores de um sistema socioecon\u00f4mico que sobreviveu h\u00e1 muito \u00e0 sua utilidade hist\u00f3rica, mas que se nega a abandonar a cena. O capitalismo est\u00e1 enfermo de morte, mas se nega a morrer. Em sua agonia, amea\u00e7a arrastar toda a sociedade com ele. S\u00e9culos de progresso humano, arte, ci\u00eancia, cultura e civiliza\u00e7\u00e3o se encontram amea\u00e7ados por um sistema socioecon\u00f4mico decadente e condenado.<\/p>\n<p>No entanto, isto \u00e9 somente um lado da imagem. Dentro do muro da velha sociedade, um mundo novo est\u00e1 lutando para nascer. Objetivamente falando, existem todas as condi\u00e7\u00f5es para resolver cada um dos problemas que enfrentamos. A ra\u00e7a humana tem em suas m\u00e3os todos os meios tecnol\u00f3gicos e cient\u00edficos necess\u00e1rios para erradicar a pobreza, a enfermidade, o desemprego, a fome, a falta de moradia e todos os demais males que causam infinitas mis\u00e9rias, guerras e conflitos.<\/p>\n<p>Se isto n\u00e3o se realiza n\u00e3o \u00e9 porque seja imposs\u00edvel de realizar, mas porque trope\u00e7amos com as limita\u00e7\u00f5es de um sistema econ\u00f4mico baseado puramente no lucro. As necessidades da humanidade n\u00e3o entram nos c\u00e1lculos s\u00e9rios dos banqueiros e capitalistas que governam o planeta. Esta \u00e9 a quest\u00e3o central, cuja resposta determinar\u00e1 o futuro da ra\u00e7a humana.<\/p>\n<p>Se tomarmos o Oriente M\u00e9dio e o Norte da \u00c1frica, que constituem uma grande parte do que se conhece como mundo isl\u00e2mico, podemos dizer com certeza que na vasta extens\u00e3o que se espalha desde o Eufrates at\u00e9 as costas do Oceano Atl\u00e2ntico, existem todas as condi\u00e7\u00f5es para se criar um jardim formoso, muito mais espl\u00eandido que os Jardins Suspensos da Babil\u00f4nia do mundo antigo. Mas d\u00e9cadas de governo capitalista e de explora\u00e7\u00e3o imperialista converteram o que deveria ser um jardim formoso em um inferno para milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p>Falando com objetividade, as enormes quantidades de riqueza mineral sob o solo, as vastas \u00e1reas de terras agricult\u00e1veis potencialmente ricas, os rios, o clima e os milh\u00f5es de homens e mulheres saud\u00e1veis que vivem ali constituem um colossal potencial produtivo que poderia transformar as vidas das pessoas. Mas este potencial colossal foi desperdi\u00e7ado.<\/p>\n<p>Milh\u00f5es de jovens, muitos estudantes com qualifica\u00e7\u00e3o para serem m\u00e9dicos, professores, engenheiros e agr\u00f4nomos, veem-se obrigados a viver uma exist\u00eancia miser\u00e1vel, privados de trabalho, de futuro e de qualquer esperan\u00e7a de melhora. Para piorar as coisas, a constante interfer\u00eancia e as interven\u00e7\u00f5es militares das pot\u00eancias imperialista devastaram o Iraque, a S\u00edria e a L\u00edbia, e reduziram suas popula\u00e7\u00f5es a um estado fronteiri\u00e7o \u00e0 barb\u00e1rie. Quem ainda est\u00e1 procurando as causas do terrorismo n\u00e3o necessita procurar mais.<\/p>\n<p>A barb\u00e1rie terrorista \u00e9 somente um reflexo das condi\u00e7\u00f5es b\u00e1rbaras a que foram reduzidas milh\u00f5es de pessoas. E esta barb\u00e1rie est\u00e1 golpeando agora \u00e0s portas da Europa, amea\u00e7ando a vida e a seguran\u00e7a de sua gente. \u00c9 um problema s\u00e9rio e requer uma solu\u00e7\u00e3o s\u00e9ria. A ideia de que se pode \u201clutar contra o terror\u201d com as pr\u00f3prias armas do terror \u00e9 uma ilus\u00e3o. \u00c9 como um m\u00e9dico que tenta curar uma enfermidade cortando os sintomas superficiais com uma faca. Este m\u00e9todo n\u00e3o somente \u00e9 doloroso, tamb\u00e9m \u00e9 in\u00fatil. Nunca curar\u00e1 a enfermidade, mas causar\u00e1 uma desfigura\u00e7\u00e3o permanente ao paciente.<\/p>\n<p>O socialista espanhol Largo Caballero disse h\u00e1 muito: n\u00e3o se pode curar o c\u00e2ncer com uma aspirina. Os problemas dr\u00e1sticos exigem solu\u00e7\u00f5es dr\u00e1sticas. O que se requer \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o radical. O problema \u00e9 o pr\u00f3prio capitalismo. H\u00e1 que se terminar com o papel dos bancos e dos grandes monop\u00f3lios. O controle da sociedade deve estar firmemente nas m\u00e3os da \u00fanica classe que cria toda sua riqueza e a \u00fanica classe que realmente se preocupa com o futuro da humanidade: a classe trabalhadora.<\/p>\n<p>Uma economia socialista planificada, dedicada \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades humanas e n\u00e3o aos lucros de uns pouco mimados, mobilizar\u00e1 os vastos recursos de nosso planeta em benef\u00edcio da ra\u00e7a humana. Podemos criar um para\u00edso neste mundo que tornar\u00e1 desnecess\u00e1rios todos os sonhos de um para\u00edso al\u00e9m tumba. Esta \u00e9 a \u00fanica esperan\u00e7a para a humanidade e a \u00fanica pela qual vale \u00e0 pena lutar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alan Woods &#8211; Na brilhante e ensolarada tarde de 22 de maio, milhares de pessoas, principalmente jovens adolescentes, reuniram-se em um concerto de m\u00fasica pop na Manchester Arena. 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