{"id":5285,"date":"2017-09-15T15:42:19","date_gmt":"2017-09-15T18:42:19","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=5285"},"modified":"2017-09-07T18:45:51","modified_gmt":"2017-09-07T21:45:51","slug":"a-gramatica-neoliberal-o-bandido-bom-e-o-bandido-morto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/09\/15\/a-gramatica-neoliberal-o-bandido-bom-e-o-bandido-morto\/","title":{"rendered":"A gram\u00e1tica neoliberal, o bandido bom e o bandido morto"},"content":{"rendered":"<p><strong>PAULO MOTORYN<\/strong> &#8211; N\u00e3o \u00e9 exagerado afirmar que a express\u00e3o carrega certos marcadores sociais, e por tr\u00e1s dela se escondem dois problemas estruturais do Brasil: a desigualdade e o racismo<\/p>\n<p>No in\u00edcio de 2017, o Pa\u00eds assistiu \u00e0 explos\u00e3o de uma vultuosa crise carcer\u00e1ria.\u00a0N\u00e3o faltaram cenas dantescas de viol\u00eancia e barb\u00e1rie, de crueldade e terror, promovidas tanto pelo Estado quanto pelas fac\u00e7\u00f5es criminosas dentro dos pres\u00eddios. Nesse cen\u00e1rio, uma vez mais veio \u00e0 tona uma velha frase que d\u00e1 o que pensar.<\/p>\n<p>A express\u00e3o \u201cbandido bom \u00e9 bandido morto\u201d tornou-se uma esp\u00e9cie de s\u00edntese do pensamento autorit\u00e1rio brasileiro, criando no imagin\u00e1rio social algo como uma demarca\u00e7\u00e3o pol\u00edtica entre aqueles que a enunciam e por isso se op\u00f5em aos direitos de cidadania e aqueles que a recha\u00e7am e, portanto, se credenciam como defensores dos direitos humanos.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m dos meios militantes e acad\u00eamicos, entretanto, conv\u00e9m observar com mais cuidado tal dicotomia, pois nem sempre aquilo que se fala \u00e9 o que se quer dizer. Por tr\u00e1s da suposta cis\u00e3o entre o conservadorismo dos que apoiam a frase e do progressismo dos que a recusam, h\u00e1 uma s\u00e9rie de matizes que precisam ser tratados com mais aten\u00e7\u00e3o. Afinal, \u00e9 nas dicotomias e simplifica\u00e7\u00f5es que se escondem as maiores armadilhas.<\/p>\n<p>Quando se trata de observar a cultura pol\u00edtica brasileira, uma certa concep\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica insinua que a maioria da popula\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds sofre de uma esp\u00e9cie de conservadorismo at\u00e1vico e permanente. Disso se deduz automaticamente que somos um povo que adere majoritariamente ao justi\u00e7amento, ao encarceramento em massa, \u00e0 pena de morte e a toda sorte de arb\u00edtrios.<\/p>\n<p>Se, por um lado, \u00e9 ineg\u00e1vel que a viol\u00eancia \u00e9 parte constitutiva da nossa sociabilidade, por vezes assumindo a forma de sadismo, de cinismo e de naturaliza\u00e7\u00e3o da tortura e da intoler\u00e2ncia, por outro lado, essa mesma viol\u00eancia \u00e9 observada com ressalvas quando perpetrada pelo Estado, sobretudo entre os grupos mais pobres e as camadas mais vulner\u00e1veis das grandes cidades.<\/p>\n<p>Caminhando na contram\u00e3o daquele senso comum previamente estabelecido, algumas pesquisas mais recentes sobre cultura pol\u00edtica t\u00eam demonstrado como, principalmente, nas periferias n\u00e3o h\u00e1 uma maioria nem tampouco uma ades\u00e3o inconteste a tal ideia de que \u201cbandido bom \u00e9 bandido morto\u201d.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, o que ocorre \u00e9 exatamente o contr\u00e1rio. Afrontada pela viol\u00eancia institucional sistem\u00e1tica, pela pol\u00edtica de seguran\u00e7a ostensiva e pela pol\u00edcia militarizada repressiva, essa parcela da popula\u00e7\u00e3o sabe que, via de regra, quando o Estado brasileiro diz \u201cbandido\u201d ele endere\u00e7a sua a\u00e7\u00e3o, principalmente, contra jovens, pobres e negros das periferias, da\u00ed a ampla recusa contra a velha express\u00e3o autorit\u00e1ria aqui em tela.<\/p>\n<p>Portanto, a nega\u00e7\u00e3o da express\u00e3o se d\u00e1 menos pela ades\u00e3o abstrata a valores progressistas e mais pela necessidade concreta de autopreserva\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria vida. Em suma, a ideia de que \u201cbandido bom \u00e9 bandido morto\u201d n\u00e3o \u00e9 um bom term\u00f4metro nem para medir o conservadorismo nem para mensurar o progressismo da popula\u00e7\u00e3o. O que se passa por tr\u00e1s dela, entretanto, pode ser algo ainda mais interessante e revelador.<\/p>\n<p>Para parte dos moradores da periferia, ao contr\u00e1rio das interpreta\u00e7\u00f5es tradicionais, negar que \u201cbandido bom \u00e9 bandido morto\u201d n\u00e3o \u00e9 um sinal de progressismo, pois, se o bandido \u00e9 \u201cbom\u201d ele n\u00e3o morre, ele se safa das persegui\u00e7\u00f5es do Estado para continuar em plena atividade, ainda que ela seja il\u00edcita.<\/p>\n<p>De forma an\u00e1loga, afirmar que \u201cbandido bom \u00e9 bandido morto\u201d n\u00e3o pode ser tratado imediatamente como um ind\u00edcio de conservadorismo, pois, dessa vez, se o bandido \u00e9 muito \u201cbondoso\u201d ele deve morrer, mas n\u00e3o por exercer uma atividade il\u00edcita e sim por n\u00e3o dominar as \u201cexpertises\u201d da sua fun\u00e7\u00e3o, dentre elas a dureza, a maldade e a capacidade de fuga.<\/p>\n<p>O equ\u00edvoco das an\u00e1lises convencionais est\u00e1 em pressupor que todos compartilham de um mesmo esquema valorativo em que a ideia de bandido sempre estar\u00e1 associada \u00e0quilo que \u00e9 mau ou ruim. Ora, tal ideia \u00e9 muito mais um fruto da escala valorativa das classes m\u00e9dias tradicionais e das elites do que propriamente uma ideia universal assimilada pelas classes populares.<\/p>\n<blockquote><p>Para recorrer a um exemplo pr\u00f3ximo, muito se ouviu recentemente a palavra de ordem &#8220;Cunha na cadeia&#8221;, mas soaria estranho se o mote fosse &#8220;Cunha morto&#8221;.<\/p><\/blockquote>\n<p>Afinal, aqueles a quem o Estado tem tratado sistematicamente, e indevidamente, como bandidos sabem por sua pr\u00f3pria experi\u00eancia que o nome, bandido, nem sempre pode ser associado \u00e0 coisa, um crime ou um il\u00edcito.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 exagerado afirmar que a express\u00e3o carrega consigo certos marcadores sociais, e por tr\u00e1s dela se escondem dois problemas estruturais do Brasil: a desigualdade e o racismo. Por defini\u00e7\u00e3o, bandido \u00e9 aquele que age fora da lei. Entretanto, quando pol\u00edticos e empres\u00e1rios cometem crimes, como os de corrup\u00e7\u00e3o, o habitual \u00e9 que se demande a pris\u00e3o e n\u00e3o a morte.<\/p>\n<p>Para recorrer a um exemplo pr\u00f3ximo, muito se ouviu recentemente a palavra de ordem \u201cCunha na cadeia\u201d, mas soaria estranho se o mote fosse \u201cCunha morto\u201d. Mesmo se tratando de um not\u00f3rio corrupto, a frase soa agressiva. Essa estranheza e essa agressividade decorrem do fato de que a frase \u201cbandido bom \u00e9 bandido morto\u201d n\u00e3o traduz uma vontade de justi\u00e7a, mas sim um desejo de segrega\u00e7\u00e3o e exterm\u00ednio que se direciona a certo grupo social de bandidos: aquele composto por pobres, negros e negras.<\/p>\n<p>Enquanto os te\u00f3ricos atentam para o sujeito da frase, as pessoas comuns observam os adjetivos a ele atribu\u00eddo: bom e morto. Mais ainda, ao observarem atentamente tais qualifica\u00e7\u00f5es \u2013 de bondade e mortandade \u2013, o que se explicita \u00e9 uma escala de valores marcada n\u00e3o pelas no\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de conservadorismo e de progressismo, mas sim pelas no\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas de m\u00e9rito e efici\u00eancia.<\/p>\n<p>O bandido bom \u00e9 aquele que sobrevive porque, em certa medida, foi capaz de vencer uma competi\u00e7\u00e3o e teve sucesso em sua atua\u00e7\u00e3o; o bandido mau \u00e9 aquele que sucumbe porque, de certo modo, foi derrotado pela concorr\u00eancia e n\u00e3o foi capaz de lograr \u00eaxito em sua fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estamos, portanto, diante de outra gram\u00e1tica social, em que o \u201cser bom\u201d n\u00e3o \u00e9 compreendido como princ\u00edpio \u00e9tico-moral, mas sim como princ\u00edpio econ\u00f4mico-mercantil; aqui, o bom n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de um ser bondoso, af\u00e1vel e cort\u00eas, mas sim de efici\u00eancia, efic\u00e1cia e efetividade.<\/p>\n<p>Uma sociedade que, nos \u00faltimos anos, ampliou os mercados de trabalho e consumo sem disputar os sentidos e significados da inclus\u00e3o e da ascens\u00e3o social acabou produzindo como efeito colateral um l\u00e9xico em que a pr\u00f3pria palavra valor tem perdido seu efeito civilizat\u00f3rio de valor moral para se reduzir \u00e0 concep\u00e7\u00e3o b\u00e1rbara de valor mercantil.<\/p>\n<p>Sendo assim, no momento em que essa sociedade experimenta o encolhimento do mercado por conta da crise econ\u00f4mica, \u00e9 entend\u00edvel, ainda que n\u00e3o seja aceit\u00e1vel, que ela desnude tamb\u00e9m todo seu \u00edmpeto de utilitarismo e de darwinismo social.<\/p>\n<p>Pela l\u00f3gica estritamente liberal, a prop\u00f3sito, a ilegalidade do bandido pouco importa. Afinal, nessa perspectiva, o que \u00e9 o mercado sen\u00e3o o reino da autorregula\u00e7\u00e3o, da m\u00e3o invis\u00edvel, da aus\u00eancia da lei? O dram\u00e1tico, entretanto, \u00e9 perceber como a convers\u00e3o da ideologia de mercado em gram\u00e1tica de socializa\u00e7\u00e3o pode criar uma sociedade perversa, onde, por exemplo, o encarceramento em massa \u00e9 tratado como problema individual e o assassinato de presos \u00e9 visto como sele\u00e7\u00e3o natural.<\/p>\n<p>\u00c9 fundamental que se compreenda essa nova gram\u00e1tica social, pois, escondida por tr\u00e1s das tens\u00f5es entre conservadorismo e progressismo, a l\u00f3gica da sociabilidade neoliberal avan\u00e7a e se enra\u00edza de forma cada vez mais assustadora, fazendo com que nos pare\u00e7amos menos com uma sociedade civil e mais com a barb\u00e1rie do estado de natureza hobessiano onde o homem \u00e9 o lobo do homem.<\/p>\n<p>http:\/\/www.paginab.com.br\/gramatica-neoliberal-o-bandido-bom-o-bandido-morto#.WbG9Nch97IV<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PAULO MOTORYN &#8211; N\u00e3o \u00e9 exagerado afirmar que a express\u00e3o carrega certos marcadores sociais, e por tr\u00e1s dela se escondem dois problemas estruturais do Brasil: a desigualdade e o racismo No in\u00edcio de 2017, o Pa\u00eds assistiu \u00e0 explos\u00e3o de uma vultuosa crise carcer\u00e1ria.\u00a0N\u00e3o faltaram cenas dantescas de viol\u00eancia e barb\u00e1rie, de crueldade e terror, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5286,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[8],"tags":[22],"class_list":["post-5285","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sociedade","tag-violencia"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - 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