{"id":5279,"date":"2017-09-28T09:37:50","date_gmt":"2017-09-28T12:37:50","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=5279"},"modified":"2017-09-07T18:39:32","modified_gmt":"2017-09-07T21:39:32","slug":"as-questoes-de-outubro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/09\/28\/as-questoes-de-outubro\/","title":{"rendered":"As quest\u00f5es de Outubro"},"content":{"rendered":"<p><strong>Daniel Bensa\u00efd<\/strong><em> &#8211;\u00a0<\/em>Daniel Bensa\u00efd passa a limpo o legado da Revolu\u00e7\u00e3o Russa ao longo de tr\u00eas quest\u00f5es cruciais de historiografia pol\u00edtica<\/p>\n<p>Antes mesmo de entrar na massa dos novos documentos acess\u00edveis pela abertura dos arquivos sovi\u00e9ticos (que permitir\u00e3o, indubitavelmente, novas luzes e uma renova\u00e7\u00e3o das controv\u00e9rsias), as discuss\u00e3o vem trope\u00e7ar no pensamento pronto da ideologia dominante, bem ilustrada pela recente homenagem necrol\u00f3gica consensual \u00e0 Fran\u00e7ois Furet. Nesses tempos de contra-reforma e de rea\u00e7\u00e3o, n\u00e3o surpreende que os nomes de\u00a0L\u00eanin\u00a0e\u00a0Tr\u00f3tski se tornem t\u00e3o impronunci\u00e1veis quanto foram aqueles de\u00a0Robespierre\u00a0e\u00a0Saint Justsob a\u00a0Restaura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar a limpar o terreno \u00e9 conveniente retomar tr\u00eas ideias bastante aceitas hoje em dia:<\/p>\n<ol>\n<li>Em vez de revolu\u00e7\u00e3o, Outubro seria mais o nome emblem\u00e1tico de um compl\u00f4 ou de um golpe de Estado minorit\u00e1rio impondo no conjunto, de cima para baixo, sua concep\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria da organiza\u00e7\u00e3o social em benef\u00edcio de uma nova elite.<\/li>\n<li>Todo o desenvolvimento da Revolu\u00e7\u00e3o Russa e suas desventuras totalit\u00e1rias estaria inscrita em germe, por uma esp\u00e9cie de pecado original, na ideia (ou \u201cpaix\u00e3o\u201d segundo Furet) revolucion\u00e1ria: a hist\u00f3ria se reduziria ent\u00e3o \u00e0 genealogia e \u00e0 execu\u00e7\u00e3o dessa id\u00e9ia perversa, em detrimento de grandes convuls\u00f5es reais, de acontecimentos colossais e da sa\u00edda incerta de toda luta.<\/li>\n<li>Enfim, a Revolu\u00e7\u00e3o Russa teria sido condenada \u00e0 monstruosidade por ter nascido de um parto \u201cprematuro\u201d da hist\u00f3ria, de uma tentativa de for\u00e7ar o curso e o ritmo, quando \u201cas condi\u00e7\u00f5es objetivas\u201d de uma supera\u00e7\u00e3o do capitalismo n\u00e3o estavam dadas: em lugar de ter tido a sabedoria \u201cde auto-limitar\u201d seu projeto, os dirigentes\u00a0bolcheviques\u00a0teriam sido os agentes\u00a0 ativos desse contratempo.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Revolu\u00e7\u00e3o ou golpe de Estado?<\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o Russa n\u00e3o \u00e9 resultado de uma conspira\u00e7\u00e3o mas a explos\u00e3o, no contexto da guerra, das contradi\u00e7\u00f5es acumuladas pelos conservadorismo autocr\u00e1tico do regime tzarista. A R\u00fassia, no come\u00e7o do s\u00e9culo, \u00e9 uma sociedade bloqueada, um caso exemplar de \u201cdesenvolvimento desigual e combinado\u201d, um pa\u00eds ao mesmo tempo dominante e dependente, aliando os tra\u00e7os feudais de um campo onde a servid\u00e3o \u00e9 oficialmente abolida h\u00e1 menos de meio s\u00e9culo e os tra\u00e7os do capitalismo industrial urbano mais concentrados. Grande pot\u00eancia, ela \u00e9 subordinada tecnologicamente e financeiramente (empr\u00e9stimos). O caderno de condol\u00eancias apresentado para\u00a0Gapon\u00a0por ocasi\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o de 1905 \u00e9 um verdadeiro registro da mis\u00e9ria que reina no pa\u00eds das tzares. As tentativas de reformas s\u00e3o rapidamente bloqueadas pelo conservadorismo da oligarquia, a teimosia do d\u00e9spota e a inconsist\u00eancia de uma burguesia que j\u00e1 est\u00e1 perseguida pelo movimento oper\u00e1rio nascente. As tarefas da revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica recaem, assim, numa esp\u00e9cie de terceiro-estado, no qual, \u00e0 diferen\u00e7a da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, o proletariado moderno, ainda que minorit\u00e1rio, j\u00e1 se constitui na ala din\u00e2mica em marcha.<\/p>\n<p>\u00c9 isso que a \u201cSanta R\u00fassia\u201d pode representar: \u201co elo fraco da cadeia imperialista\u201d. A prova da guerra p\u00f5e fogo neste barril de p\u00f3lvora.<\/p>\n<blockquote><p>O desenvolvimento do processo revolucion\u00e1rio entre fevereiro e outubro de 1917, ilustra bem que n\u00e3o se trata de uma conspira\u00e7\u00e3o minorit\u00e1ria de agitadores profissionais, mas da assimila\u00e7\u00e3o acelerada de uma experi\u00eancia pol\u00edtica em escala de massa, de uma metamorfose das consci\u00eancias, de um deslocamento constante das rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7as. Na sua magistral\u00a0<em>Hist\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Russa<\/em>,\u00a0Tr\u00f3tski\u00a0analisa minuciosamente esta radicaliza\u00e7\u00e3o, de elei\u00e7\u00e3o sindical em elei\u00e7\u00e3o sindical, de elei\u00e7\u00e3o municipal em elei\u00e7\u00e3o municipal, junto aos oper\u00e1rios, soldados e camponeses. Enquanto os\u00a0bolcheviques\u00a0representavam apenas 13% dos delegados ao congresso dos\u00a0Soviets\u00a0de junho, as coisas mudam rapidamente depois das \u201cJornadas de Julho\u201d e a tentativa de\u00a0<em>putsch<\/em>\u00a0de\u00a0Kornilov: eles representam entre 45% e 60% em outubro. Longe de representar uma manipula\u00e7\u00e3o conseguida pela surpresa, a insurrei\u00e7\u00e3o representa o resultado e a conclus\u00e3o provis\u00f3ria de uma prova de for\u00e7a que amadureceu ao longo do ano, no curso do qual o estado de esp\u00edrito das massas pleb\u00e9ias esteve sempre \u00e0 esquerda dos partidos e de seus estados-maiores, n\u00e3o somente dos socialistas revolucion\u00e1rios, mas mesmo daqueles do Partido Bolchevique ou de uma parte de sua dire\u00e7\u00e3o (at\u00e9 inclusive sobre a decis\u00e3o da insurrei\u00e7\u00e3o).<\/p><\/blockquote>\n<p>Isso \u00e9 o que explica que a insurrei\u00e7\u00e3o de Outubro, comparativamente \u00e0s viol\u00eancias que conhecemos desde ent\u00e3o, tenha sido muito pouco violenta e pouco onerosa em vidas humanas, por mais que seja v\u00e3o distinguir entre as v\u00edtimas de Outubro propriamente ditas (de ambas as partes) e aquelas da guerra civil a partir de 1918, sustentada pelas pot\u00eancias estrangeiras, com\u00a0 a Fran\u00e7a e a Gr\u00e3-Bretanha na primeira fila.<\/p>\n<p>Se entendermos revolu\u00e7\u00e3o por um el\u00e3 vindo de baixo para cima, aspira\u00e7\u00f5es profundas de um povo, e n\u00e3o a execu\u00e7\u00e3o de algum plano mirabolante imaginado por uma elite esclarecida, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma d\u00favida que a Revolu\u00e7\u00e3o Russa foi uma, no sentido pleno da palavra. Basta notar as medidas legislativas tomadas nos primeiros meses e no primeiro ano pelo novo regime para compreender que elas significam uma transforma\u00e7\u00e3o radical das rela\u00e7\u00f5es de propriedades e de poder, \u00e0s vezes mais r\u00e1pida que previsto e desejado, \u00e0s vezes mesmo al\u00e9m do desej\u00e1vel, sob a press\u00e3o das circunst\u00e2ncias. Numerosos livros testemunham esta ruptura na ordem do mundo (como\u00a0<em>Os dez dias que abalaram o Mundo<\/em>, de John Reed, reedi\u00e7\u00e3o do Seuil, 1996) e de sua repercuss\u00e3o internacional imediata (como\u00a0<em>La r\u00e9volution d\u2019Octobre et le mouvement ouvrier europe\u00e9n<\/em>, obra coletiva, EDI, 1967).<\/p>\n<p>Marc Ferro sublinha (notadamente em\u00a0<em>La r\u00e9volution de 1917<\/em>, Albin Michel, 1997 e\u00a0<em>Naissance et Effondrement du r\u00e9gime communist em Russie<\/em>, Livre de Poche, 1997) que n\u00e3o houve \u00e0 \u00e9poca muita gente para apiedar-se do regime do tsar e para chorar o \u00faltimo d\u00e9spota. Ele insiste, ao contr\u00e1rio, sobre a virada do mundo t\u00e3o caracter\u00edstica de uma aut\u00eantica revolu\u00e7\u00e3o, que afeta at\u00e9 os detalhes da vida quotidiana: em Odessa, os estudantes ditam aos professores um novo programa de hist\u00f3ria; em Petrogrado, os trabalhadores obrigam seus patr\u00f5es a aprender o \u201cnovo direito oper\u00e1rio\u201d; no ex\u00e9rcito, os soldados convidam o capel\u00e3o a sua reuni\u00e3o \u201c<em>para dar um novo sentido a sua vida; em certas escolas, as crian\u00e7as reivindicam o aprendizado do boxe para se fazer escutar e respeitar pelos adultos\u2026<\/em>\u201d<\/p>\n<p>Este el\u00e3 revolucion\u00e1rio inicial se faz ainda sentir ao longo dos anos vinte, apesar das pen\u00farias e do atraso cultural, nas tentativas pioneiras no\u00a0<em>front<\/em>\u00a0da transforma\u00e7\u00e3o do modo de vida: reformas escolares e pedag\u00f3gicas, legisla\u00e7\u00e3o familiar, utopias urbanas, inven\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica e cinematogr\u00e1fica. \u00c9 ele ainda que permite explicar as contradi\u00e7\u00f5es e as ambig\u00fcidades da grande transforma\u00e7\u00e3o operada com dor entre as duas guerras, onde ainda se misturam o terror e a repress\u00e3o burocr\u00e1tica e a energia da esperan\u00e7a revolucion\u00e1ria. Nunca nenhum pa\u00eds do mundo conheceu uma metamorfose t\u00e3o brutal, sob o chicote de uma burocracia fara\u00f4nica: entre 1926 e 1939 as cidades aumentar\u00e3o de 30 milh\u00f5es de habitantes e sua parte na popula\u00e7\u00e3o global passar\u00e1 de 18% a 33%; durante o \u00fanico primeiro plano quinquenal sua taxa de crescimento \u00e9 de 44%, ou seja praticamente tanto quanto entre 1897 e 1926; a for\u00e7a de trabalho assalariada mais que dobra (passa de 10 a 22 milh\u00f5es); o que significa a \u201cruraliza\u00e7\u00e3o\u201d massiva das cidades, um esfor\u00e7o enorme de alfabetiza\u00e7\u00e3o e de educa\u00e7\u00e3o, a imposi\u00e7\u00e3o \u00e0 marcha for\u00e7ada de uma disciplina do trabalho. Esta grande transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 acompanhada de um renascimento do nacionalismo, de um desenvolvimento do carreirismo, do surgimento de uma novo conformismo burocr\u00e1tico. Nesta grande confus\u00e3o, ironiza Moshe Lewin, a sociedade estava, num certo sentido, \u201csem classes\u201d, porque todas as classes estavam uniformes, em fus\u00e3o (Moshe Lewin,\u00a0<em>La formation de l\u2019Union Sovi\u00e9tique<\/em>, Gallimard, 1985).<\/p>\n<p><strong>Vontade de poder ou contra-revolu\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica<\/strong><\/p>\n<p>O destino da primeira revolu\u00e7\u00e3o socialista, o triunfo do stalinismo, os crimes da burocracia totalit\u00e1ria constituem sem nenhuma d\u00favida um dos fatos maiores do s\u00e9culo. As chaves de sua interpreta\u00e7\u00e3o t\u00eam a maior import\u00e2ncia. Para alguns, o princ\u00edpio do mal residiria num fundo ruim da natureza humana, uma irrepreens\u00edvel vontade de pot\u00eancia que pode manifestar-se sob diferentes m\u00e1scaras, inclusive aquela da pretens\u00e3o de fazer a felicidade dos povos, apesar deles, de impor-lhes esquemas pr\u00e9-concebidos de uma \u201ccidade ideal\u201d. Importa-nos, ao contr\u00e1rio, encontrar na organiza\u00e7\u00e3o social, nas for\u00e7as que a constituem e se op\u00f5em, as ra\u00edzes e as molas profundas daquilo que \u00e0s vezes chamamos \u201co fen\u00f4meno stalinista\u201d.<\/p>\n<p>O stalinismo, nestas circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas concretas, remete a uma tend\u00eancia mais geral \u00e0 burocratiza\u00e7\u00e3o em marcha em todas as sociedades modernas. Ela \u00e9 alimentada fundamentalmente pelo desenvolvimento da divis\u00e3o social do trabalho (entre trabalho manual e intelectual notadamente) e pelos \u201cperigos profissionais do poder\u201d que lhes s\u00e3o inerentes. Na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, esta din\u00e2mica foi tanto mais forte e r\u00e1pida quanto a burocracia se produziu sobre um fundo de destrui\u00e7\u00e3o, de pen\u00faria, de arca\u00edsmo cultural, na aus\u00eancia de tradi\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas. Desde a origem, a base social da revolu\u00e7\u00e3o era ao mesmo tempo ampla e estreita, ampla na medida em que ela repousava sobre a alian\u00e7a entre oper\u00e1rios e camponeses que constitu\u00edam a esmagadora maioria social. Estreita na medida em que o componente oper\u00e1rio minorit\u00e1rio, foi rapidamente eliminado pelos desgastes da guerra e as perdas da guerra civil. Os soldados para os quais os Sovietes tiveram em 1917 um papel central, eram\u00a0 no essencial camponeses mobilizados pela id\u00e9ia da paz de retorno ao lar.<\/p>\n<p>Nessas condi\u00e7\u00f5es, o fen\u00f4meno da pir\u00e2mide invertida ficou em seguida evidente. N\u00e3o era mais a base que levava e empurrava o topo, mas a vontade do topo que esfor\u00e7ava-se de carregar a base. Da\u00ed a mec\u00e2nica da substitui\u00e7\u00e3o: o partido substitui ao povo, a burocracia ao partido, o homem providencial ao conjunto. Mas esta constru\u00e7\u00e3o s\u00f3 se imp\u00f5e pela forma\u00e7\u00e3o de uma nova burocracia, fruto da heran\u00e7a do antigo regime e da promo\u00e7\u00e3o social acelerada de novos dirigentes. Simbolicamente, nos efetivos do partido ap\u00f3s o recrutamento massivo da \u201cpromo\u00e7\u00e3o\u00a0L\u00eanin\u201d, alguns milhares de militantes da revolu\u00e7\u00e3o de Outubro n\u00e3o pesam mais a rela\u00e7\u00e3o \u00e0s centenas de milhares de novos\u00a0bolcheviques, entre os quais os carreiristas vindos em socorro da vit\u00f3ria e os elementos reciclados da velha administra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O\u00a0testamento\u00a0de\u00a0L\u00eanin\u00a0(ver Moshe Lewin.\u00a0<em>Le dernier combat de\u00a0Lenine<\/em>, Minuit, 1979), \u00e9 testemunha, em sua agonia, desta consci\u00eancia pat\u00e9tica do problema. Enquanto a revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 assunto de povos e de multid\u00f5es, L\u00eanin moribundo est\u00e1 imaginando o futuro, avaliando os v\u00edcios e as virtudes de um punhado de dirigentes de quem tudo parece agora depender.<\/p>\n<p>Se os fatores sociais e as circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas jogam um papel determinante no ascenso poderoso da burocracia stalinista, isto n\u00e3o significa que as id\u00e9ias e as teorias n\u00e3o tenham nenhuma responsabilidade na sua exist\u00eancia. Particularmente, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma d\u00favida que a confus\u00e3o sustentada, desde a tomada do poder, entre o Estado, o partido e a classe oper\u00e1ria em nome do definhamento r\u00e1pido do Estado e do desaparecimento das contradi\u00e7\u00f5es no seio do povo, favorece consideravelmente a estatiza\u00e7\u00e3o da sociedade e n\u00e3o a socializa\u00e7\u00e3o das fun\u00e7\u00f5es estatais. O aprendizado da democracia \u00e9 uma quest\u00e3o longa, dif\u00edcil, que n\u00e3o caminha no mesmo ritmo que os decretos de reforma econ\u00f4mica. Ela toma tempo, energia. A solu\u00e7\u00e3o f\u00e1cil consiste, ent\u00e3o, em subordinar os \u00f3rg\u00e3os de poder popular, conselhos e sovietes a um tutor esclarecido, o partido. Na pr\u00e1tica, ela consiste tamb\u00e9m em substituir o princ\u00edpio da elei\u00e7\u00e3o e do controle dos respons\u00e1veis pela sua nomea\u00e7\u00e3o, por iniciativa do partido, desde 1918, em alguns casos. Esta l\u00f3gica desemboca, ent\u00e3o, na supress\u00e3o do pluralismo pol\u00edtico e das liberdades de opini\u00e3o necess\u00e1rias \u00e0 vida democr\u00e1tica, assim como a subordina\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica do direito \u00e0 for\u00e7a.<\/p>\n<p>A engrenagem \u00e9 tanto mais implac\u00e1vel quanto a burocracia n\u00e3o procede somente ou principalmente de uma manipula\u00e7\u00e3o das altas esferas. Ela responde tamb\u00e9m, \u00e0s vezes, a uma esp\u00e9cie de demanda das bases, a uma necessidade de ordem e de tranq\u00fcilidade dos cansa\u00e7os da guerra e da guerra civil, das priva\u00e7\u00f5es e do desgaste que as controv\u00e9rsias democr\u00e1ticas, a agita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, a demanda constante de responsabilidade provocam. Marc Ferro assinalou, em seus livros, de forma pertinente, esta terr\u00edvel dial\u00e9tica.<\/p>\n<p>Ele lembra, assim, que existiam \u201c<em>duas vertentes \u2013 democr\u00e1tica-autorit\u00e1ria na base, centralista e autorit\u00e1ria na c\u00fapula\u201d<\/em>, no come\u00e7o da revolu\u00e7\u00e3o, \u201c<em>enquanto que em 1939 h\u00e1 apenas uma<\/em>\u201d. Mas, para ele, a quest\u00e3o \u00e9 praticamente resolvida ao cabo de alguns meses, a partir de 1918 ou 1919, com o definhamento ou o enquadramento dos comit\u00eas de bairro e de f\u00e1brica (ver Marc Ferro,\u00a0<em>Les Soviets en Russie<\/em>, cole\u00e7\u00e3o Archives). Seguindo uma aproxima\u00e7\u00e3o an\u00e1loga, o fil\u00f3sofo Phillipe Lacoue-Labarthe \u00e9 ainda mais expl\u00edcito declarando o bolchevismo \u201ccontra-revolucion\u00e1rio a partir de 1920-1921\u201d, isto \u00e9, antes de Kronstadt (ver Revue\u00a0<em>Lignes n\u00b0 31<strong>,\u00a0<\/strong><\/em>maio 1997).<\/p>\n<p>O assunto \u00e9 de maior import\u00e2ncia. N\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de opor, ponto por ponto, de maneira manique\u00edsta uma lenda do \u201cLeninismo sob\u00a0L\u00eanin\u201d ao Leninismo sob\u00a0St\u00e1lin, os anos 20 luminosos aos sombrios anos 30, como se nada houvesse ainda come\u00e7ado a apodrecer no pa\u00eds dos\u00a0Soviets. \u00c9 claro, a burocratiza\u00e7\u00e3o est\u00e1 quase imediatamente em andamento; \u00e9 claro, a atividade policial da\u00a0Tcheka\u00a0tem sua l\u00f3gica pr\u00f3pria; \u00e9 claro, o desterro pol\u00edtico das ilhas Solovski est\u00e1 aberto depois da guerra civil e antes da morte de L\u00eanin; \u00e9 claro, a pluralidade dos partidos \u00e9 suprimida de fato, a liberdade de express\u00e3o limitada, os direitos democr\u00e1ticos no pr\u00f3prio partido s\u00e3o restringidos a partir do 10\u00b0 Congresso de 1921. O processo daquilo que chamamos contra-revolu\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 um acontecimento simples, dat\u00e1vel, sim\u00e9trico da insurrei\u00e7\u00e3o de Outubro. Ele n\u00e3o \u00e9 feito num dia. Ele passou por escolhas, enfrentamentos, acontecimentos. Os pr\u00f3prios atores n\u00e3o pararam de debater sobre a periodiza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pelo gosto da precis\u00e3o hist\u00f3rica, mas para tentar deduzir as tarefas pol\u00edticas. Testemunhas como Rosmer,\u00a0Eastman,\u00a0Souvarine, Istrati, Benjamin, Zamiatini e\u00a0Bulgakov\u00a0(nas suas cartas \u00e0\u00a0Stalin), a poesia de Maiakovski, os tormentos de Mandelstam ou de Tsvetaieva, os cadernos de\u00a0Babel\u00a0etc., podem contribuir a esclarecer as m\u00faltiplas facetas do fen\u00f4meno, seu desenvolvimento, sua progress\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas isso n\u00e3o reduz o contraste, a descontinuidade irredut\u00edvel, na pol\u00edtica interna como na pol\u00edtica internacional, entre o come\u00e7o dos anos 20 e os terr\u00edveis anos 30. N\u00f3s n\u00e3o contestamos que as tend\u00eancias autorit\u00e1rias tenham come\u00e7ado a impor-se bem antes, que obcecados pelo \u201cinimigo principal\u201d (bem real na verdade) da agress\u00e3o imperialista e a restaura\u00e7\u00e3o capitalista, os dirigentes\u00a0bolcheviquestenham come\u00e7ado a ignorar ou subestimar \u201co inimigo secund\u00e1rio\u201d, a burocracia que os minava internamente e que acaba por devor\u00e1-los. Este roteiro era in\u00e9dito na \u00e9poca, dif\u00edcil de imaginar, foi preciso tempo para compreend\u00ea-lo e interpret\u00e1-lo, para tirar as conseq\u00fc\u00eancias. Assim, se\u00a0Lenin\u00a0sem d\u00favida melhor compreendeu o sinal de alarme que significou a crise do Kronstadt, a ponto de impulsionar uma profunda reorienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, \u00e9 apenas bem mais tarde, na\u00a0<em>Revolu\u00e7\u00e3o Tra\u00edda<\/em>, que Tr\u00f3tski chegar\u00e1 a fundar um principio de pluralismo pol\u00edtico sobre a heterogeneidade do pr\u00f3prio proletariado, inclusive ap\u00f3s a tomada do poder.<\/p>\n<p>A maioria dos grandes testemunhos e dos estudos sobre a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica ou sobre o pr\u00f3prio Partido bolchevique (ver\u00a0<em>Moscou sous Lenine<\/em>\u00a0de Rosmer,\u00a0<em>O Leninismo sob L\u00eanin\u00a0<\/em>de Marcel Liebrnan,\u00a0<em>L\u2019historie du Parti bolchevik<\/em>\u00a0de\u00a0Pierre Brou\u00e9,\u00a0<em>Staline<\/em>\u00a0de\u00a0Souvarine\u00a0e o do Tr\u00f3tski, os trabalhos de L. H. Carr, de Tony Cliff, de Moshe Lewin, de David Rousset) n\u00e3o permitem ignorar, na estreita dial\u00e9tica da ruptura e da continuidade, a grande virada dos anos 30. A ruptura ganha de longe, atestada pelos milh\u00f5es e milh\u00f5es de mortos de fome, os deportados, as v\u00edtimas dos processos e dos expurgos. Foi preciso desencadear tal viol\u00eancia para chegar ao \u201ccongressos\u00a0 dos vencedores\u201d de 1934 e a consolida\u00e7\u00e3o do poder burocr\u00e1tico porque a heran\u00e7a revolucion\u00e1ria deveria ser tenaz e n\u00e3o foi facilmente superada<\/p>\n<p>Isto \u00e9 o que chamamos uma contra-revolu\u00e7\u00e3o, t\u00e3o massiva, t\u00e3o vis\u00edvel, t\u00e3o esmagadora como as medidas autorit\u00e1rias, por inquietantes que fossem, tomadas no calor da guerra civil. Esta contra-revolu\u00e7\u00e3o faz igualmente sentir seus efeitos em todos os dom\u00ednios, naquele da economia pol\u00edtica (coletiviza\u00e7\u00e3o for\u00e7ada e desenvolvimento em grande escala do\u00a0<em>Gulag<\/em>), da pol\u00edtica internacional (na China, na Alemanha, na Espanha), da pr\u00f3pria pol\u00edtica cultural ou da vida quotidiana, com aquilo que Tr\u00f3tski chamou\u00a0<strong><em>\u201c<\/em><\/strong><em>thermidor<\/em>\u00a0no lar\u201d.<\/p>\n<p><strong>Revolu\u00e7\u00e3o \u201cprematura\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Ap\u00f3s a queda da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica uma tese readquiriu vigor entre os defensores do marxismo, especialmente nos pa\u00edses anglo-sax\u00f4nicos (ver as teses de Gerry Cohen): aquela segundo a qual a revolu\u00e7\u00e3o teria sido desde o come\u00e7o uma aventura condenada porque prematura. Na realidade, esta tese tem sua origem muito cedo no discurso dos pr\u00f3prios\u00a0mencheviques\u00a0russos e nas analises de\u00a0Kautsky, desde 1921: muito sangue, l\u00e1grimas e ru\u00ednas, escreveu ele, ent\u00e3o, teriam sido poupados \u201cse os\u00a0bolcheviques\u00a0tivessem tido o senso\u00a0menchevique\u00a0da auto-limita\u00e7\u00e3o \u00e0quilo que \u00e9 acess\u00edvel, onde se revela o mestre\u201d (<em>Vonder Demokratie zur statssklaverei<\/em>, 1921, citado por\u00a0Radek\u00a0em\u00a0<em>Les voies de la R\u00e9volution russe<\/em>, EDI, p. 41).<\/p>\n<p>A f\u00f3rmula \u00e9 impressionantemente reveladora. Eis algu\u00e9m que polemiza contra a id\u00e9ia de um partido de vanguarda mas imagina em troca um partido-mestre, educador e pedagogo, capaz de regular \u00e0 sua vontade a marcha e ritmo da hist\u00f3ria. Como se as lutas e as revolu\u00e7\u00f5es n\u00e3o tivessem tamb\u00e9m sua l\u00f3gica pr\u00f3pria. Ao querer auto-limit\u00e1-las tenta-se passar para o lado da ordem estabelecida. N\u00e3o se trata mais ent\u00e3o \u201cde auto-limitar\u201d os objetivos do partido, mas simplesmente de limitar as aspira\u00e7\u00f5es das massas. Nesse sentido, os\u00a0Eberte os\u00a0Noske, assassinando\u00a0Rosa Luxemburgo e esmagando os sovietes da Baviera se tornaram ilustres como virtuoses da \u201cauto-limita\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Na verdade, o racioc\u00ednio conduz de maneira inelut\u00e1vel \u00e0 id\u00e9ia uma hist\u00f3ria bem ordenada, regrada, como um rel\u00f3gio, onde tudo tem a sua hora, no tempo exato. Ele recai nas plan\u00edcies de um estrito determinismo hist\u00f3rico t\u00e3o seguidamente censurado nos marxistas onde a situa\u00e7\u00e3o da infra-estrutura determina de maneira estreita a superestrutura correspondente. Ele elimina simplesmente o fato de que a hist\u00f3ria n\u00e3o tem a for\u00e7a de um destino, \u00e9 cheia de acontecimentos que abrem uma s\u00e9rie de possibilidades, nem todas garantidas. Trata-se mais de um horizonte determinado de possibilidades. Seus pr\u00f3prios atores pensaram a Revolu\u00e7\u00e3o Russa n\u00e3o como uma aventura solit\u00e1ria, mas como primeiro elemento de uma revolu\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia e mundial. Os Fracassos da Revolu\u00e7\u00e3o Alem\u00e3 ou da Guerra Civil Espanhola, os desdobramentos da Revolu\u00e7\u00e3o Chinesa, a vit\u00f3ria do fascismo na It\u00e1lia e na Alemanha n\u00e3o estavam escritos de antem\u00e3o.<\/p>\n<p>Falar nesse caso de revolu\u00e7\u00e3o prematura significa um retorno a enunciar um julgamento de tribunal hist\u00f3rico, em vez de se colocar do ponto de vista da l\u00f3gica interna do conflito e das pol\u00edticas que se defrontam. Deste ponto de vista, as derrotas n\u00e3o s\u00e3o provas de erro ou de falhas, da mesma forma que as vit\u00f3rias n\u00e3o s\u00e3o prova da verdade. Porque n\u00e3o h\u00e1 julgamento final. O que importa \u00e9 o que foi tra\u00e7ado passo a passo na ocasi\u00e3o de cada grande escolha de cada grande bifurca\u00e7\u00e3o (a\u00a0NEP, a coletiviza\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, o pacto germano-sovi\u00e9tico, a guerra civil espanhola, a vit\u00f3ria do nazismo), a pista de uma outra hist\u00f3ria poss\u00edvel. \u00c9 o que preserva a inteligibilidade do passado e permite tirar li\u00e7\u00f5es para o futuro.<\/p>\n<p>Haveria, certamente, outros aspectos para discutir por ocasi\u00e3o deste anivers\u00e1rio. N\u00f3s estamos satisfeitos com \u201ctr\u00eas quest\u00f5es de Outubro\u201d hoje cruciais no debate. Mas o capitulo das \u201cli\u00e7\u00f5es de Outubro\u201d de um ponto de vista estrat\u00e9gico (crise revolucion\u00e1ria; dualidade de poder; rela\u00e7\u00f5es entre partidos, massas e institui\u00e7\u00f5es; quest\u00f5es da economia de transi\u00e7\u00e3o), de sua atualidade e de seus limites, \u00e9 evidentemente tarefa decisiva. Isto conduz, tamb\u00e9m, contra \u201cdiabolizar\u201d quem pretende responsabilizar a revolu\u00e7\u00e3o por todas as mis\u00e9rias do s\u00e9culo, a precisar que a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica \u00e9 certamente o pa\u00eds que, em tr\u00eas d\u00e9cadas viu o maior n\u00famero de mortes violentas concentradas num territ\u00f3rio limitado, mas que n\u00e3o se pode sem mais nem menos, imputar \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o as dezenas de milh\u00f5es de mortes (os historiadores discutem a cifra hoje em dia), aqueles da Primeira Guerra Mundial, da interven\u00e7\u00e3o estrangeira, da guerra civil ou da Segunda Guerra Mundial. Assim como, no bicenten\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa era imposs\u00edvel imputar \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o os sofrimentos causados pela interven\u00e7\u00e3o das monarquias ou das guerras napole\u00f4nicas.<\/p>\n<p>Talvez nestes tempos de restaura\u00e7\u00e3o seja proveitoso, para terminar,\u00a0 lembrar estas soberbas linhas c\u00e9lebres de\u00a0Kant, escritas em 1795, em plena rea\u00e7\u00e3o termidoriana:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cUm tal fen\u00f4meno na hist\u00f3ria da humanidade n\u00e3o se esquece mais porque ele revelou na natureza humana uma disposi\u00e7\u00e3o, uma faculdade de progresso tal que n\u00e3o seria poss\u00edvel com uma pol\u00edtica de sutileza, separando-a do curso anterior dos acontecimentos somente na natureza da liberdade reunidas na esp\u00e9cie humana segundo os princ\u00edpios internos do direito na medida da apar\u00eancia, ainda que quanto ao tempo de uma maneira indeterminada e como acontecimento contigente. Mas mesmo se o objetivo visado por este acontecimento n\u00e3o foi ainda hoje atingido, mesmo quando a revolu\u00e7\u00e3o ou a reforma da constitui\u00e7\u00e3o do povo fosse finalmente fracassada, ou tivesse se passado um lapso de tempo, tudo reca\u00edsse no estado de coisas anterior (como a manuten\u00e7\u00e3o de certas pol\u00edticas), esta profecia filos\u00f3fica n\u00e3o perde nem um pouco de sua for\u00e7a. Porque este acontecimento \u00e9 muito importante, muito ligado aos interesses da humanidade e de uma influ\u00eancia imensa sobre todas as partes do mundo para n\u00e3o se tornar mera mem\u00f3ria nos pap\u00e9is na ocasi\u00e3o de circunst\u00e2ncias favor\u00e1veis e relembrar quando da retomada de novas tentativas deste g\u00eanero\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Ningu\u00e9m poder\u00e1 conseguir que os dez dias que abalaram o mundo sejam apagados.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"Uf6sLQ8MWE\"><p><a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2017\/08\/15\/bensaid-as-questoes-de-outubro\/\">Bensa\u00efd: As quest\u00f5es de Outubro<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Bensa\u00efd: As quest\u00f5es de Outubro&#8221; &#8212; Blog da Boitempo\" src=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2017\/08\/15\/bensaid-as-questoes-de-outubro\/embed\/#?secret=l3rRw0PqRb#?secret=Uf6sLQ8MWE\" data-secret=\"Uf6sLQ8MWE\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Daniel Bensa\u00efd &#8211;\u00a0Daniel Bensa\u00efd passa a limpo o legado da Revolu\u00e7\u00e3o Russa ao longo de tr\u00eas quest\u00f5es cruciais de historiografia pol\u00edtica Antes mesmo de entrar na massa dos novos documentos acess\u00edveis pela abertura dos arquivos sovi\u00e9ticos (que permitir\u00e3o, indubitavelmente, novas luzes e uma renova\u00e7\u00e3o das controv\u00e9rsias), as discuss\u00e3o vem trope\u00e7ar no pensamento pronto da ideologia [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5280,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[4],"tags":[44],"class_list":["post-5279","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-teoria","tag-100-anos-rev-russa"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - 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