{"id":5252,"date":"2017-09-14T12:19:33","date_gmt":"2017-09-14T15:19:33","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=5252"},"modified":"2017-09-07T15:23:05","modified_gmt":"2017-09-07T18:23:05","slug":"praticas-fascistas-sao-fundamentais-para-manutencao-do-modelo-capitalista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/09\/14\/praticas-fascistas-sao-fundamentais-para-manutencao-do-modelo-capitalista\/","title":{"rendered":"&#8216;Pr\u00e1ticas fascistas s\u00e3o fundamentais para manuten\u00e7\u00e3o do modelo capitalista&#8217;"},"content":{"rendered":"<p><strong>Glauco Faria<\/strong> &#8211; Para o juiz e doutor em Direito Rubens Casara, elementos do fascismo contribuem para formar um pensamento homog\u00eaneo que elimina a diferen\u00e7a, s\u00f3 admitida &#8220;se puder ser transformada em mercadoria&#8221;<\/p>\n<p>Um Estado que retoma o ide\u00e1rio neoliberal e fortalece seu poder repressivo para conter parte da popula\u00e7\u00e3o &#8220;indesej\u00e1vel&#8221;. Esse \u00e9 o modelo que caracterizaria a &#8220;p\u00f3s-democracia&#8221;, conceito utilizado pelo juiz do Tribunal de Justi\u00e7a do Rio de Janeiro e doutor em Direito Rubens Casara.<\/p>\n<p>No Brasil, esse Estado adquire caracter\u00edsticas pr\u00f3prias, j\u00e1 que o pa\u00eds &#8220;se acostumou com o autoritarismo&#8221;, segundo o jurista. &#8220;As grandes transforma\u00e7\u00f5es brasileiras foram feitas de cima pra baixo, sem grandes rupturas, de modo a se mudar para que as coisas continuassem do jeito que estavam, a chamada l\u00f3gica de Lampedusa. O brasileiro foi levado a acreditar no uso da for\u00e7a, da viol\u00eancia para resolver os mais variados problemas&#8221;, aponta.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.redebrasilatual.com.br\/cidadania\/2017\/09\/as-praticas-fascistas-sao-fundamentais-para-a-manutencao-do-modelo-capitalista\/rubens-casara\/%40%40images\/6bcffb5d-d9e9-4eb2-9f2a-6dcd125e0e1e.jpeg?resize=360%2C226\" alt=\"Rubens Casara\" width=\"360\" height=\"226\" data-src=\"http:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/cidadania\/2017\/09\/as-praticas-fascistas-sao-fundamentais-para-a-manutencao-do-modelo-capitalista\/rubens-casara\/@@images\/6bcffb5d-d9e9-4eb2-9f2a-6dcd125e0e1e.jpeg\" \/><\/p>\n<p><em>Casara: o brasileiro foi levado a acreditar no uso da for\u00e7a, da viol\u00eancia, para resolver os mais variados problemas<\/em><\/p>\n<p>E se em outros per\u00edodos da Hist\u00f3ria o fascismo foi um obst\u00e1culo para a efetiva\u00e7\u00e3o do capitalismo, hoje ele se tornou um aliado. &#8220;Pr\u00e1ticas fascistas s\u00e3o fundamentais nesse controle da popula\u00e7\u00e3o e na formata\u00e7\u00e3o de um pensamento homog\u00eaneo que \u00e9 interessante para a sociedade de consumo, j\u00e1 que a diferen\u00e7a no contexto do Estado P\u00f3s-Democr\u00e1tico, para a raz\u00e3o neoliberal, s\u00f3 \u00e9 admitida se puder ser transformada em mercadoria.&#8221;<\/p>\n<p>Na entrevista a seguir, concedida em meio \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o do\u00a0<a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"https:\/\/www.ibccrim.org.br\/seminario23\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">23\u00ba Semin\u00e1rio Internacional de Ci\u00eancias Criminais<\/a>, promovido pelo Ibccrim, Casara aborda o papel da cultura do \u00f3dio nesse cen\u00e1rio e fala sobre a aparente passividade da popula\u00e7\u00e3o diante da retirada de direitos em curso no pa\u00eds. &#8220;Temos que nos interpretar, saber o que queremos, verificar qual a nossa responsabilidade pelo que estamos vivendo e partir para a a\u00e7\u00e3o. Iniciar um processo de mudan\u00e7a, ou que seja apenas para caminhar. Hoje n\u00f3s n\u00e3o estamos andando.&#8221;<\/p>\n<blockquote class=\"pullquote\"><p>Se o fascismo j\u00e1 foi visto como obst\u00e1culo capitalismo, hoje \u00e9 fundamental para a manuten\u00e7\u00e3o do modelo, que est\u00e1 em crise permanente \u2013 e se \u00e9 permanente, nem merece ser chamado de crise, \u00e9 o pr\u00f3prio funcionamento normal do sistema.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Como relacionar o conceito de p\u00f3s-democracia com o panorama do Brasil hoje?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que um bom caminho \u00e9 pensar o Estado P\u00f3s-Democr\u00e1tico em oposi\u00e7\u00e3o ao Estado Democr\u00e1tico de Direito, sempre caracterizado pela exist\u00eancia de limites r\u00edgidos ao exerc\u00edcio do poder, e os direitos e garantias fundamentais eram o principal deles. A Constitui\u00e7\u00e3o estabeleceria uma s\u00e9rie de limites intranspon\u00edveis a todos os poderes, ao econ\u00f4mico, ao jurisdicional, ao Executivo, pouco importa quem quisesse ultrapass\u00e1-los. O Estado P\u00f3s-Democr\u00e1tico seria esse em que tais limites desaparecem. Desaparecem em um movimento de aproxima\u00e7\u00e3o entre poder econ\u00f4mico e poder pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Os direitos e garantias fundamentais s\u00e3o vistos como obst\u00e1culos \u00e0 efici\u00eancia, seja do mercado, seja a efici\u00eancia repressiva do pr\u00f3prio Estado, voltada \u00e0 conten\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o indesej\u00e1vel, daqueles que n\u00e3o interessam \u00e0 raz\u00e3o neoliberal e ao capital financeiro. E a\u00ed entram n\u00e3o s\u00f3 os pobres \u2013 aqueles que n\u00e3o disp\u00f5em de poder de consumo \u2013, mas tamb\u00e9m os inimigos pol\u00edticos. Todos aqueles considerados indesej\u00e1veis s\u00e3o v\u00edtimas preferenciais da atua\u00e7\u00e3o do sistema de justi\u00e7a penal.<\/p>\n<p><strong>De uma certa forma isso \u00e9 uma volta ao passado, quando n\u00e3o t\u00ednhamos estabelecido esses limites.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 p\u00f3s-moderno no sentido em que h\u00e1 de novo uma confus\u00e3o entre poder econ\u00f4mico e poder pol\u00edtico. Se uma das marcas, sen\u00e3o a principal, do Estado Moderno foi a separa\u00e7\u00e3o desses poderes, o Estado P\u00f3s-Democr\u00e1tico volta a reunir o poder econ\u00f4mico e o pol\u00edtico em uma aproxima\u00e7\u00e3o muito \u00edntima desses elementos. \u00c9 algo pr\u00e9-kantiano na medida que a pessoa volta a ser tratada como uma mercadoria, um objeto. Aquele ganho de dignidade da pessoa humana, de que ela n\u00e3o poderia mais ser instrumentalizada e tratada como objeto, desaparece com a p\u00f3s-democracia.<\/p>\n<p>E \u00e9 um retrocesso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ideia de Estado Democr\u00e1tico de Direito e se aproxima muito das experi\u00eancias nazista da Alemanha, fascista cl\u00e1ssica da It\u00e1lia, do pr\u00f3prio stalinismo na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, j\u00e1 que os direitos e garantias fundamentais deixam de exercer esse papel de obst\u00e1culo intranspon\u00edvel, podendo ser negociados dependendo do caso e passando a ser tratados na l\u00f3gica das mercadorias.<\/p>\n<p><strong>Nesse aspecto do fascismo, como ele acaba servindo aos interesses \u00a0econ\u00f4micos dominantes, como voc\u00ea mencionou em um artigo?<\/strong><\/p>\n<p>Se em determinado momento o fascismo foi visto como obst\u00e1culo aos fins do Estado capitalista, hoje tais pr\u00e1ticas s\u00e3o fundamentais para a manuten\u00e7\u00e3o do modelo capitalista que est\u00e1 em crise permanente \u2013 se \u00e9 permanente, nem merece ser chamado de crise, \u00e9 o pr\u00f3prio funcionamento normal do sistema.<\/p>\n<p>Pr\u00e1ticas fascistas s\u00e3o fundamentais nesse controle da popula\u00e7\u00e3o e na formata\u00e7\u00e3o de um pensamento homog\u00eaneo que \u00e9 interessante para a sociedade de consumo, j\u00e1 que a diferen\u00e7a no contexto do Estado P\u00f3s-Democr\u00e1tico, para a raz\u00e3o neoliberal, s\u00f3 \u00e9 admitida se puder ser transformada em mercadoria. As outras diferen\u00e7as podem ser eliminadas.<\/p>\n<p><strong>E nisso se d\u00e1 essa rela\u00e7\u00e3o com a cultura do \u00f3dio no atual cen\u00e1rio pol\u00edtico brasileiro?<\/strong><\/p>\n<p>O \u00f3dio \u00e9 alimentado com uma funcionalidade pol\u00edtica e tamb\u00e9m para o mercado, \u00e9 explorado economicamente de uma maneira direta e indireta. Destr\u00f3i perspectivas diferentes que podem se opor \u00e0 ordem neoliberal e destr\u00f3i efetivamente pessoas que se op\u00f5em a essa l\u00f3gica.<\/p>\n<blockquote class=\"pullquote\"><p>Nunca chegamos a construir de fato uma cultura democr\u00e1tica. Nunca os direitos e garantias fundamentais foram concretizados. Tivemos alguns movimentos no sentido da concretiza\u00e7\u00e3o, mas eles n\u00e3o chegaram a ter pleno \u00eaxito<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A prolifera\u00e7\u00e3o desse \u00f3dio conta com uma cumplicidade de parte da m\u00eddia.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil generalizar, mas me parece que manifesta\u00e7\u00f5es de \u00f3dio foram toleradas em determinado per\u00edodo por conta de sua funcionalidade pol\u00edtica. O problema \u00e9 que depois que o \u00f3dio \u00e9 libertado e naturalizado, fica dif\u00edcil voltar ao estado anterior, de sua conten\u00e7\u00e3o. A m\u00eddia tradicional em particular \u2013 mas n\u00e3o s\u00f3 ela, alguns ve\u00edculos da m\u00eddia alternativa tamb\u00e9m \u2013 \u00a0teve um papel muito importante nessa libera\u00e7\u00e3o do \u00f3dio, calcado em preconceitos e que, em raz\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria da sociedade brasileira, adquire caracter\u00edsticas muito pr\u00f3prias.<\/p>\n<p>Usando uma express\u00e3o de (Theodor W.) Adorno, que trabalhou o conceito da\u00a0<a href=\"https:\/\/bibliotecasocialvirtual.files.wordpress.com\/2010\/08\/adorno-introducao-a-e2809ca-personalidade-autoritariae2809d.pdf\">personalidade autorit\u00e1ria<\/a>\u00a0\u00a0ap\u00f3s a segunda guerra mundial nos EUA, algumas caracter\u00edsticas da pessoa que seria detentora da personalidade autorit\u00e1ria hoje se fazem presentes no Brasil com naturalidade. N\u00e3o tem vergonha de assumir posi\u00e7\u00f5es que v\u00e3o desde a aposta em medidas de for\u00e7a para solucionar todos os problemas a uma preocupa\u00e7\u00e3o excessiva com a sexualidade, em especial a sexualidade alheia. Est\u00e3o a\u00ed os crimes com motiva\u00e7\u00e3o sexual crescendo e aos olhos da popula\u00e7\u00e3o isso \u00e9 naturalizado.<\/p>\n<p><strong>De que forma a nossa cultura e hist\u00f3ria autorit\u00e1rias moldam esse \u00f3dio?<\/strong><\/p>\n<p>O Brasil se acostumou com o autoritarismo. As grandes transforma\u00e7\u00f5es brasileiras foram feitas de cima pra baixo, sem grandes rupturas, de modo a se mudar para que as coisas continuassem do jeito que estavam, a chamada l\u00f3gica de Lampedusa. O brasileiro foi levado a acreditar no uso da for\u00e7a, da viol\u00eancia, para resolver os mais variados problemas. Nunca chegamos a construir de fato uma cultura democr\u00e1tica no Brasil. Nunca os direitos e garantias fundamentais foram concretizados. Tivemos alguns movimentos no sentido da concretiza\u00e7\u00e3o mas eles n\u00e3o chegaram a ter pleno \u00eaxito.<\/p>\n<p>\u00c9 diferente, por exemplo, a manifesta\u00e7\u00e3o de \u00f3dio no Brasil em rela\u00e7\u00e3o aos pa\u00edses que viveram o Estado de bem-estar social. O brasileiro acredita em salvadores da p\u00e1tria, no uso da viol\u00eancia em situa\u00e7\u00f5es em que em outros pa\u00edses j\u00e1 h\u00e1 um certo consenso de que ela n\u00e3o resolve. Temos que come\u00e7ar a pensar o \u00f3dio produzido e a maneira como ele se manifesta no Brasil. Exemplos externos n\u00e3o d\u00e3o conta de explicar o que est\u00e1 acontecendo aqui.<\/p>\n<p>Esse fen\u00f4meno brasileiro, que alguns tratam de maneira jocosa, do &#8220;pobre de direita&#8221;, aquela pessoa que luta contra pol\u00edticas que melhorariam a sua vida, \u00e9 dif\u00edcil de se encontrar em outros pa\u00edses. At\u00e9 se encontra, mas em n\u00famero muito menor do que aqui. S\u00e3o as particularidades da constru\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio mito fundacional do Brasil, que \u00e9 um mito autorit\u00e1rio. Esse autoritarismo est\u00e1 presente desde a nossa coloniza\u00e7\u00e3o e isso produz efeitos na percep\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia e efeitos na produ\u00e7\u00e3o e recep\u00e7\u00e3o do \u00f3dio na sociedade.<\/p>\n<p><strong>Aqui inclusive existe uma cren\u00e7a para alguns de que os chamados ricos, ainda que corruptos, criam empregos, diferentemente de pol\u00edticos que praticam corrup\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>No Brasil, uma caracter\u00edstica desse pensamento autorit\u00e1rio \u00e9 a tentativa de simplifica\u00e7\u00e3o excessiva de fen\u00f4menos que por defini\u00e7\u00e3o s\u00e3o muito complexos. O pr\u00f3prio encobrimento da luta de classes no Brasil \u00e9 um sintoma desse autoritarismo, busca-se simplificar as coisas a ponto de ocultar algo que \u00e9 evidente, que \u00e9 o conflito de classes em uma sociedade profundamente desigual como \u00e9 a brasileira.<\/p>\n<p><strong>Nesse ponto espec\u00edfico da luta de classes no pa\u00eds, os confrontos se d\u00e3o n\u00e3o necessariamente do ponto de vista socioecon\u00f4mico, mas do cultural, n\u00e3o? H\u00e1 segmentos que absorvem caracter\u00edsticas de outros grupos e passam a defender pontos de vistas alheios.<\/strong><\/p>\n<p>Eminentemente cultural, e acho que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 no Brasil. Ali\u00e1s, essa pesquisa que mencionei, conduzida por Adorno e por outros pesquisadores nos EUA, mostra que uma outra caracter\u00edstica da personalidade autorit\u00e1ria \u2013 e acho que se aplica no Brasil \u2013 \u00e9 essa identifica\u00e7\u00e3o com os valores da classe m\u00e9dia. Os pr\u00f3prios pobres se veem como classe m\u00e9dia, com valores eminentemente conservadores. Essa ades\u00e3o leva ao refor\u00e7o desse pensamento autorit\u00e1rio, e \u00e9 outro tema importante a ser pesquisado e avaliado se quisermos levar a s\u00e9rio a identifica\u00e7\u00e3o e a proposta de solu\u00e7\u00e3o para os problemas que estamos vivendo hoje no Brasil. Um momento hist\u00f3rico em que h\u00e1 visivelmente o crescimento do pensamento autorit\u00e1rio no seio da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote class=\"pullquote\"><p>Tanto a direita quanto a esquerda tendem a simplificar excessivamente os problemas. Tendem a encobrir a complexidade, por exemplo, da luta de classes, na tentativa de produzir uma imagem de uma pacifica\u00e7\u00e3o que n\u00e3o existe<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Curioso que quando se fala em luta de classe h\u00e1 muitas pessoas que acusam: &#8216;voc\u00ea est\u00e1 plantando o \u00f3dio&#8217;, quando se trata de uma quest\u00e3o de an\u00e1lise.<\/strong><\/p>\n<p>Esse discurso de atribuir o problema ao outro que identifica a causa da desigualdade \u00e9 n\u00edtido do encobrimento das quest\u00f5es sociais, uma caracter\u00edstica n\u00edtida de uma sociedade autorit\u00e1ria como a do Brasil. E n\u00e3o \u00e9 de hoje. N\u00e3o se pode nem dizer que \u00e9 um problema da esquerda ou da direita que est\u00e1 no poder, tanto a direita quanto a esquerda tendem a simplificar excessivamente os problemas. Tendem a encobrir a complexidade, por exemplo, da luta de classes, na tentativa de produzir uma imagem de uma pacifica\u00e7\u00e3o que n\u00e3o existe.<\/p>\n<p><strong>O\u00a0aumento\u00a0de propostas punitivistas\u00a0tramitando no\u00a0Congresso Nacional, \u00e0s vezes com apoio\u00a0de parte da esquerda, faz parte desse contexto p\u00f3s-democr\u00e1tico?<\/strong><\/p>\n<p>Nisso tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 muita diferen\u00e7a entre direita e esquerda, as pessoas acreditam que a puni\u00e7\u00e3o vai produzir efeitos que em nenhum lugar do mundo produziu. Se analisarmos pesquisas s\u00e9rias sobre o tema da efic\u00e1cia da pena e do encarceramento, voc\u00ea vai ver que o que se pretende com a pris\u00e3o no Brasil n\u00e3o foi alcan\u00e7ado em nenhum lugar do mundo. Hoje, e aqui vale a pena citar a frase que o Nilo Batista construiu junto com Lo\u00efc Wacquant, as pris\u00f5es se tornaram planos habitacionais para a mis\u00e9ria. Esses indesej\u00e1veis, na p\u00f3s-democracia, ou v\u00e3o para as pris\u00f5es, onde n\u00e3o v\u00e3o incomodar \u2013 ou v\u00e3o incomodar de outra maneira \u2013 ou s\u00e3o exterminados diretamente.<\/p>\n<p>As principais v\u00edtimas das pol\u00edticas punitivistas n\u00e3o raro batem palmas para os excessos da pol\u00edcia, para o crescimento do Estado penal, justamente diante da incapacidade de reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre o que est\u00e1 acontecendo, uma incapacidade que \u00e9 fomentada pelas institui\u00e7\u00f5es e tamb\u00e9m pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa. Algo que visivelmente vai produzir uma piora na qualidade de vida das pessoas \u00e9 aceito, recebido acriticamente pelo destinat\u00e1rio e acaba sendo visto como algo positivo. \u00c9 assustador.<\/p>\n<p><strong>Em campanhas eleitorais j\u00e1 vimos pontos como a defesa de linhas repressivas como o Toler\u00e2ncia Zero, aplicada em Nova Iorque. Como parte da esquerda, no Brasil historicamente ligada a direitos humanos, foi por esse caminho?<\/strong><\/p>\n<p>Teria d\u00favidas em dizer que no Brasil a esquerda sempre teve uma hist\u00f3ria ligada a direitos humanos. Nem toda a esquerda. Mas se na p\u00f3s-democracia tudo pode ser transformado em mercadoria, potencializando o diagn\u00f3stico que Marx j\u00e1 fazia, as pol\u00edticas de seguran\u00e7a tamb\u00e9m se transformaram em mercadoria. E pol\u00edticas de seguran\u00e7a como a de Nova Iorque foram vendidas para o Brasil como sendo uma pol\u00edtica exitosa, que traria votos. E gera toda uma ind\u00fastria ligada \u00e0 seguran\u00e7a p\u00fablica, o que interessa \u00e0 raz\u00e3o neoliberal.<\/p>\n<p>Os \u00edndices obtidos pela pol\u00edtica de Toler\u00e2ncia Zero em Nova Iorque n\u00e3o s\u00e3o muito diferentes de outros estados que n\u00e3o adotaram a mesma pol\u00edtica. Por que? Porque o que reduziu a criminalidade n\u00e3o foi a &#8220;mercadoria&#8221; da pol\u00edtica de toler\u00e2ncia zero, mas o momento de esplendor econ\u00f4mico dos EUA. Diminuiu a criminalidade em Nova Iorque quando se aplicava a pol\u00edtica de Toler\u00e2ncia Zero, mas em outros estados em que n\u00e3o se aplicava a criminalidade tamb\u00e9m diminuiu. No entanto, quando voc\u00ea vende essa ideia, isso n\u00e3o \u00e9 dito, \u00e9 ocultado. Tudo \u00e9 positivo nesse tipo de mercadoria, compramos e aplicamos sem atentar para as particularidades das cidades brasileiras. Ali\u00e1s, n\u00e3o d\u00e1 para pensar em uma pol\u00edtica de seguran\u00e7a p\u00fablica uniforme para todo o Brasil porque os problemas da criminalidade no Rio de Janeiro s\u00e3o diferentes, at\u00e9 em termos geopol\u00edticos, da criminalidade em S\u00e3o Paulo, do Amazonas, do Par\u00e1, no Recife&#8230; As cidades t\u00eam particularidades muito espec\u00edficas, mas como a quest\u00e3o \u00e9 vender uma mercadoria, elas compram o mesmo plano e come\u00e7am a aplicar como se fosse uma solu\u00e7\u00e3o m\u00e1gica. E como toda solu\u00e7\u00e3o m\u00e1gica, acaba frustrando.<\/p>\n<p><strong>E diversas solu\u00e7\u00f5es m\u00e1gicas nessa \u00e1rea j\u00e1 foram testadas, como a participa\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas na seguran\u00e7a p\u00fablica do Rio de Janeiro, mesmo ap\u00f3s o fracasso da Opera\u00e7\u00e3o Rio em 1992.<\/strong><\/p>\n<p>Conta-se tamb\u00e9m com a falta de mem\u00f3ria. Isso \u00e9 importante para se vender o produto, voc\u00ea modifica a embalagem, aumenta ou diminui o tamanho, faz um desenho mais bonito, e vende a mesma mercadoria que n\u00e3o funcionava e continua n\u00e3o funcionando como antes.<\/p>\n<p><strong>Voltando ao conceito do Estado P\u00f3s-Democr\u00e1tico, especificamente no Brasil, podemos delimitar algum momento em que ele se aprofundou e ganhou mais for\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p>O Estado P\u00f3s-Democr\u00e1tico n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno muito recente ou brasileiro, est\u00e1 intimamente ligado \u00e0 raz\u00e3o neoliberal no momento em que ela se torna uma nova raz\u00e3o de mundo. Para usar uma express\u00e3o meio fora de moda, uma ideologia que condiciona a atua\u00e7\u00e3o das ag\u00eancias estatais. E \u00e9 triste perceber que mesmo governos no Brasil de orienta\u00e7\u00e3o mais progressista tenham aderido a essa raz\u00e3o neoliberal. Se observarmos a amplia\u00e7\u00e3o de medidas autorit\u00e1rias no sistema de justi\u00e7a penal, por exemplo, e analisarmos o que aconteceu nos governos Lula e Dilma, podemos afirmar que houve uma plena ades\u00e3o \u00e0 raz\u00e3o neoliberal nas pol\u00edticas p\u00fablicas de seguran\u00e7a. Quando falo em raz\u00e3o neoliberal n\u00e3o falo em termos econ\u00f4micos, mas como se fosse uma pr\u00f3pria ideologia, algo que passou a condicionar as pessoas, que olham para direitos, para princ\u00edpios, para a liberdade e a vida como se fossem mercadorias descart\u00e1veis. E isso \u00e9 muito grave.<\/p>\n<p>Talvez esse seja o principal ponto da raz\u00e3o neoliberal hoje no Brasil, n\u00f3s perdemos a capacidade de identificar determinados valores como inegoci\u00e1veis. Tudo virou negoci\u00e1vel. Mais uma vez, \u00e9 pr\u00e9-kantiano, Kant dizia que havia algumas coisas que eram inegoci\u00e1veis, e ele n\u00e3o \u00e9 propriamente um pensador revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Essa ideia, hoje, no Brasil, desapareceu. Tudo \u00e9 visto dentro da l\u00f3gica da negocia\u00e7\u00e3o: admito abrir m\u00e3o de um direito fundamental, de um princ\u00edpio, de um valor intimamente ligado \u00e0 dignidade da pessoa humana se eu tiver uma vantagem em troca.<\/p>\n<p><strong>Esse n\u00e3o pode ser um dos fatores que explica uma relativa passividade de parte da popula\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 retirada de direitos? Mesmo discordando, as pessoas de uma forma geral n\u00e3o se mobilizam.<\/strong><\/p>\n<blockquote class=\"pullquote\"><p><strong>Voc\u00ea \u00e9 levado a acreditar que as coisas n\u00e3o podem ser diferentes, a esquecer a ideia de utopia e nesse momento fica paralisado diante de um estado de coisas que n\u00e3o necessariamente tinha que ser assim<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c9 um excesso de informa\u00e7\u00f5es, de not\u00edcias ruins que leva ao imobilismo. N\u00e3o se consegue romper a in\u00e9rcia que impede de reagir. O que chocava h\u00e1 um m\u00eas hoje se tornou uma banalidade. Outra coisa choca mais ainda e voc\u00ea n\u00e3o conseguiu nem reagir ao que ocorreu um m\u00eas atr\u00e1s. Esse excesso de not\u00edcias \u2013 ou que poder\u00edamos chamar de mercadorias \u2013 nos leva ao imobilismo. Preocupa muito esse sil\u00eancio, essa omiss\u00e3o em determinados aspectos que s\u00e3o fundamentais para a vida em comum, para a vida minimamente digna.<\/p>\n<p><strong>At\u00e9 fazendo a compara\u00e7\u00e3o com outros per\u00edodos, como o da redemocratiza\u00e7\u00e3o, quando j\u00e1 havia problemas de ordem econ\u00f4mica e social graves, havia tamb\u00e9m esperan\u00e7a, o que parece n\u00e3o ser o caso hoje.<\/strong><\/p>\n<p>Um outro sintoma da raz\u00e3o neoliberal \u00e9 esse, o fim das grandes narrativas e o fim da esperan\u00e7a. N\u00e3o que ela tenha desaparecido, ela est\u00e1 ocultada. Voc\u00ea \u00e9 levado a acreditar que as coisas n\u00e3o podem ser diferentes, a esquecer a ideia de utopia e nesse momento fica paralisado diante de um estado de coisas que n\u00e3o necessariamente tinha que ser assim.<\/p>\n<p>Talvez seja a hora de resgatar a responsabilidade individual de agir contra esse estado de coisas. Temos uma situa\u00e7\u00e3o ruim, grave, que, a meu ver, n\u00e3o se enquadra mais no marco do Estado Democr\u00e1tico de Direito. Diante disso, a responsabilidade de cada um \u00e9 tomar uma atitude. Temos que parar de acreditar que solu\u00e7\u00f5es m\u00e1gicas mudar\u00e3o esse quadro, resgatar a capacidade de identificar a situa\u00e7\u00e3o e reagir diante dela.<\/p>\n<p><strong>E como se manifestaria essa responsabilidade individual? Por uma busca do debate de solu\u00e7\u00f5es coletivas, mais mecanismos de participa\u00e7\u00e3o? Como se daria isso?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que parte de um resgate da pol\u00edtica nesses termos que voc\u00ea falou, novas formas de participa\u00e7\u00e3o, de identifica\u00e7\u00e3o de um comum pelo qual valha a pena lutar. Do resgate desse norte de que existem coisas\u00a0 pelas quais vale a pena lutar, valores que n\u00e3o podem ser negociados. Esse \u00e9 um processo coletivo, mas que tamb\u00e9m \u00e9 marcadamente individual, temos que nos convencer de que existe algo pelo qual valha a pena lutar. Se partirmos da premissa de que as coisas est\u00e3o dadas e que n\u00e3o adianta qualquer tipo de mobiliza\u00e7\u00e3o, isso leva ao fim da pol\u00edtica em seu sentido mais belo.<\/p>\n<p><strong>Por essa \u00f3tica, \u00e9 preciso preciso desvelar a esperan\u00e7a&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Acreditar que existe possibilidade de mudan\u00e7a. E acreditar nisso n\u00e3o leva necessariamente \u00e0 mudan\u00e7a, mas leva ao movimento. E o movimento \u00e9 fundamental, at\u00e9 mesmo para sobreviver. Hoje, a sensa\u00e7\u00e3o que nos domina \u00e9 de ang\u00fastia, de falta, de impot\u00eancia, e identificar \u2013 e aceitar at\u00e9 \u2013 essa ang\u00fastia e fazer algo criativo a partir dela passa necessariamente por um processo que chamo de auto interpreta\u00e7\u00e3o. Temos que nos interpretar, saber o que queremos, verificar qual a nossa responsabilidade pelo que estamos vivendo e partir para a a\u00e7\u00e3o. Iniciar um processo de mudan\u00e7a, ou que seja apenas para caminhar. Hoje n\u00f3s n\u00e3o estamos andando.<\/p>\n<p>Uma caracter\u00edstica marcante da p\u00f3s-democracia \u00e9 que come\u00e7amos a querer trabalhar s\u00f3 com positividades, \u00e9 a sociedade do excesso do desempenho, onde cada um tem que produzir muito, n\u00e3o sobra tempo para o di\u00e1logo. E temos que conversar muito para pensar solu\u00e7\u00f5es para as in\u00e9rcias tanto coletivas quanto individuais.<\/p>\n<p><strong>E o autoritarismo pretende tamb\u00e9m impedir esse di\u00e1logo.<\/strong><\/p>\n<p>O \u00f3dio \u00e9 produzido para voc\u00ea n\u00e3o conversar com o outro. Se n\u00e3o existe o di\u00e1logo, n\u00e3o existe o comum. Cada um pensando no seu pr\u00f3prio umbigo n\u00e3o se tem perspectiva de transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"7lKeGqUCfE\"><p><a href=\"https:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/cidadania\/as-praticas-fascistas-sao-fundamentais-para-a-manutencao-do-modelo-capitalista\/\">&#8216;Pr\u00e1ticas fascistas s\u00e3o fundamentais para manuten\u00e7\u00e3o do modelo capitalista&#8217;<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;&#8216;Pr\u00e1ticas fascistas s\u00e3o fundamentais para manuten\u00e7\u00e3o do modelo capitalista&#8217;&#8221; &#8212; Rede Brasil Atual\" src=\"https:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/cidadania\/as-praticas-fascistas-sao-fundamentais-para-a-manutencao-do-modelo-capitalista\/embed\/#?secret=pcT3yWC7ZD#?secret=7lKeGqUCfE\" data-secret=\"7lKeGqUCfE\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Glauco Faria &#8211; Para o juiz e doutor em Direito Rubens Casara, elementos do fascismo contribuem para formar um pensamento homog\u00eaneo que elimina a diferen\u00e7a, s\u00f3 admitida &#8220;se puder ser transformada em mercadoria&#8221; Um Estado que retoma o ide\u00e1rio neoliberal e fortalece seu poder repressivo para conter parte da popula\u00e7\u00e3o &#8220;indesej\u00e1vel&#8221;. 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