{"id":5180,"date":"2017-09-06T22:00:37","date_gmt":"2017-09-07T01:00:37","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=5180"},"modified":"2017-09-06T21:57:16","modified_gmt":"2017-09-07T00:57:16","slug":"do-fascismo-democratico-a-um-novo-comunismo%ef%bb%bf","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/09\/06\/do-fascismo-democratico-a-um-novo-comunismo%ef%bb%bf\/","title":{"rendered":"Do \u201cFascismo Democr\u00e1tico\u201d a um novo Comunismo?\ufeff"},"content":{"rendered":"<p><strong>Alain Badiou &#8211;\u00a0<\/strong>Ocidente parece dividido entre a aristocracia financeira e os g\u00e2ngsters. \u00c9 preciso reconstruir a ideia de alternativa, ou n\u00e3o haver\u00e1 mais Pol\u00edtica. Mas quais os caminhos?<\/p>\n<p><strong>1.<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p>Come\u00e7o como uma vis\u00e3o geral, n\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o atual dos Estados Unidos, mas do mundo de hoje. Penso que o ponto mais importante por onde devemos come\u00e7ar \u00e9 a vit\u00f3ria hist\u00f3rica do capitalismo globalizado. Devemo-nos confrontar com esse fato. De alguma maneira, desde os anos 80 do s\u00e9culo passado at\u00e9 hoje, temos a vit\u00f3ria hist\u00f3rica do capitalismo globalizado. E isso por muitas raz\u00f5es. Primeiro, naturalmente, o fracasso completo dos Estados socialistas \u2013 R\u00fassia, China \u2013 e da vis\u00e3o coletiva da economia e das leis sociais. E este n\u00e3o \u00e9 um ponto desprez\u00e1vel.\u00a0 Porque essa \u00e9 uma mudan\u00e7a que acontece n\u00e3o apenas ao n\u00edvel da situa\u00e7\u00e3o objetiva do mundo atual, mas tamb\u00e9m, ao n\u00edvel da subjetividade. Durante mais de dois s\u00e9culos (at\u00e9 \u00e0 d\u00e9cada de oitenta do s\u00e9culo passado) existiram na opini\u00e3o p\u00fablica dois modos de conceber o destino hist\u00f3rico dos homens (a um n\u00edvel geral e a um n\u00edvel subjetivo). Primeiro, o liberalismo, no seu sentido cl\u00e1ssico. Aqui, liberal tem muitos significados, mas eu tomo-o no seu sentido original, isto \u00e9, a propriedade privada como chave da organiza\u00e7\u00e3o social, \u00e0 custa de enormes desigualdades. E, por outro lado, temos a hip\u00f3tese socialista, a hip\u00f3tese comunista (no seu sentido abstrato), isto \u00e9, o fim das desigualdades deve ser constituir o fim fundamental da atividade pol\u00edtica humana. O fim das desigualdades, mesmo \u00e0 custa de revolu\u00e7\u00f5es violentas. Portanto, de um lado, a vis\u00e3o pac\u00edfica da hist\u00f3ria como a continua\u00e7\u00e3o de algo que \u00e9 muito antigo: a propriedade privada como chave da organiza\u00e7\u00e3o social. E, por outro lado, qualquer coisa de novo, que come\u00e7a provavelmente na revolu\u00e7\u00e3o francesa, e que \u00e9 tanto a afirma\u00e7\u00e3o que a exist\u00eancia hist\u00f3rica dos homens deve aceitar uma ruptura nessa longa sequ\u00eancia onde as desigualdades e a propriedade privada eram a lei da exist\u00eancia coletiva, como a afirma\u00e7\u00e3o de uma outra vis\u00e3o daquilo que \u00e9 o destino dos homens, que coloca em primeiro plano a quest\u00e3o da igualdade e da desigualdade. E esse conflito entre liberalismo e essa nova ideia que surge debaixo de tantos nomes (anarquia, comunismo, socialismo) \u00e9, provavelmente, o acontecimento mais significativo do s\u00e9culo XIX e XX.<\/p>\n<p>Assim, durante aproximadamente dois s\u00e9culos, tivemos algo como uma escolha estrat\u00e9gica, que dizia respeito n\u00e3o apenas aos eventos locais da pol\u00edtica (as obriga\u00e7\u00f5es nacionais, as guerras), mas ao destino hist\u00f3rico dos homens, ao destino hist\u00f3rico da constru\u00e7\u00e3o da humanidade enquanto tal. Em certo sentido, o nosso tempo (dos anos oitenta at\u00e9 hoje) \u00e9 o tempo do aparente fim dessa escolha. Temos hoje a vis\u00e3o dominante de que n\u00e3o existe uma outra alternativa, de que n\u00e3o h\u00e1 outra solu\u00e7\u00e3o. Essas eram as palavras de Thatcher: n\u00e3o h\u00e1 nenhuma alternativa. Nenhuma alternativa exceto, naturalmente, o liberalismo (ou na formula\u00e7\u00e3o atual: o neoliberalismo). E este \u00e9 um ponto importante, porque a pr\u00f3pria Thatcher n\u00e3o dizia que esta era uma boa solu\u00e7\u00e3o. Esse n\u00e3o era um problema dela. O problema \u00e9 que \u00e9 a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o. E, por isso, a quest\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 em dizer que o capitalismo globalizado \u00e9 excelente, porque claramente n\u00e3o \u00e9. Todo mundo sabe isso. Todo mundo sabe que as desigualdades monstruosas n\u00e3o podem ser uma solu\u00e7\u00e3o para o destino hist\u00f3rico dos homens. Mas o argumento \u00e9 \u201cOk, n\u00e3o \u00e9 bom, mas essa \u00e9 a \u00fanica possibilidade real\u201d. E, por isso, penso que o que define o nosso tempo \u00e9 a tentativa de impor \u00e0 humanidade (e isso \u00e0 escala do pr\u00f3prio mundo) a convic\u00e7\u00e3o de que s\u00f3 h\u00e1 um caminho para a hist\u00f3ria dos seres humanos. E tudo isso sem nunca se afirmar que esse \u00e9 um caminho excelente, mas apenas dizendo que n\u00e3o h\u00e1 outra solu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 outro caminho.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, poder\u00edamos definir o momento atual como o momento de convic\u00e7\u00e3o no dom\u00ednio do liberalismo, no sentido em que a propriedade privada e o mercado livre comp\u00f5em o \u00fanico destino poss\u00edvel dos homens. E isso \u00e9 simultaneamente a defini\u00e7\u00e3o de um sujeito humano. O que \u00e9 um sujeito humano? \u00c9 um negociante, um consumidor, um propriet\u00e1rio, ou n\u00e3o \u00e9 nada. Esta \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o estrita daquilo que \u00e9 hoje um ser humano. Essa \u00e9 a vis\u00e3o geral, o problema geral e a lei geral do mundo contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p><strong>2.<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p>Mas quais s\u00e3o os efeitos de tudo isso ao n\u00edvel da vida pol\u00edtica? Quais s\u00e3o as consequ\u00eancias dessa vis\u00e3o dominante de um mundo onde se p\u00f5e apenas uma \u00fanica hip\u00f3tese? Todos os governos devem aceitar esse fato consumado: no mundo atual n\u00e3o se pode estar \u00e0 frente de um Estado sem aceitar essa vis\u00e3o \u00fanica. N\u00e3o temos nenhum governo no mundo que esteja dizendo algo diferente. E por que \u00e9 todos dizem o mesmo, isto \u00e9, que o capitalismo globalizado \u00e9 a \u00fanica hip\u00f3tese poss\u00edvel para a exist\u00eancia dos homens? Penso que todas as decis\u00f5es pol\u00edticas ao n\u00edvel do Estado, hoje, dependem estritamente daquilo que eu chamo um \u201cmonstro\u201d: o capitalismo globalizado e as suas desigualdades. Em certo sentido, n\u00e3o \u00e9 verdade que um governo hoje seja livre. N\u00e3o \u00e9 livre de maneira nenhuma. Situa-se dentro dessa determina\u00e7\u00e3o global e deve afirmar que aquilo que faz depende da interioridade dessa determina\u00e7\u00e3o global. E o monstro \u00e9 mais e mais um monstro. Devemos conhecer a situa\u00e7\u00e3o real das desigualdades. A concentra\u00e7\u00e3o do capital \u00e9 algo extraordin\u00e1rio. Hoje em dia, 264 pessoas t\u00eam nas suas m\u00e3os o equivalente ao de 3 bilh\u00f5es de pessoas. \u00c9 muito mais do que no per\u00edodo inicial da monarquia. Nunca como hoje, na hist\u00f3ria dos seres humanos, foi a desigualdade um fato com tanta relev\u00e2ncia e import\u00e2ncia. E esse monstro hist\u00f3rico, que \u00e9 tamb\u00e9m a \u00fanica possibilidade de exist\u00eancia da humanidade, continua a produzir uma din\u00e2mica de mais e mais desigualdade e n\u00e3o de mais e mais liberdade.<\/p>\n<p>Assim, e essa \u00e9 uma consequ\u00eancia importante da elei\u00e7\u00e3o de Trump, toda a oligarquia pol\u00edtica, toda a classe pol\u00edtica, tem-se progressivamente tornado parte do mesmo grupo, \u00e0 escala do pr\u00f3prio mundo. Um grupo de pessoas que s\u00f3 abstratamente aparecem divididas: Republicanos e Democratas, Socialistas e Liberais, Esquerda e Direita\u2026. Todo esse conjunto de divis\u00f5es \u00e9 puramente abstrato e n\u00e3o \u00e9 real, porque tudo isso se baseia na mesmo horizonte pol\u00edtico e econ\u00f4mico. No Ocidente, essa oligarquia pol\u00edtica est\u00e1 hoje em risco de perder o controle dessa maquinaria capitalista \u2013 essa \u00e9 a realidade. Por entre crises e falsas solu\u00e7\u00f5es todos os governos pol\u00edticos cl\u00e1ssicos, em escala mundial, criam frustra\u00e7\u00f5es, mal-entendidos, raiva e revolta. E tudo isso s\u00e3o rea\u00e7\u00f5es contra esse caminho \u00fanico ditado por todos os membros da classe pol\u00edtica. O exerc\u00edcio da politica atual \u00e9 um exerc\u00edcio de \u00ednfimas diferen\u00e7as dentro da mesma hip\u00f3tese global. Mas tudo isso tem consequ\u00eancias nas pessoas: efeitos de desorienta\u00e7\u00e3o, incapacidade de orientar a vida, nenhuma vis\u00e3o estrat\u00e9gica do futuro da humanidade. E, por isso, uma grande parte das pessoas procura, no lado das falsas novidades, vis\u00f5es irracionais e retorno a tradi\u00e7\u00f5es mortas. Assim, \u00e0 frente da oligarquia pol\u00edtica, temos hoje uma nova esp\u00e9cie de atores, novos adeptos da viol\u00eancia e da demagogia vulgar, pessoas essas que est\u00e3o muito mais pr\u00f3ximas dos gangsters e da m\u00e1fia do que de pol\u00edticos educados. A escolha tem sido entre esse tipo de pessoas e o politico educado. E o resultado tem sido a escolha legal de uma nova forma de vulgaridade pol\u00edtica e algo subjetivamente violento nas propostas pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Em certo sentido, esta nova figura pol\u00edtica \u2013 Trump, mas muitos outros hoje \u2013 est\u00e1 pr\u00f3xima da figura do fascista dos anos trinta. H\u00e1 algo similar, embora sem esse grande inimigo que era o Partido Comunista. \u00c9 uma esp\u00e9cie de fascismo democr\u00e1tico, o que \u00e9 um paradoxo: funciona dentro do plano democr\u00e1tico, dentro do dispositivo democr\u00e1tico, mas onde se joga algo de muito diferente. Donald Trump \u00e9 racista, machista, violento, e sobretudo n\u00e3o tem nenhuma considera\u00e7\u00e3o pela l\u00f3gica e pela racionalidade \u2013 o que \u00e9 uma caracter\u00edstica fascista. Porque o discurso, o modo de falar dessa esp\u00e9cie de fascismo democr\u00e1tico \u00e9 precisamente uma certa desloca\u00e7\u00e3o da linguagem, a possibilidade de dizer tudo e o seu contr\u00e1rio. Com Donald Trump n\u00e3o h\u00e1 problema, a linguagem n\u00e3o \u00e9 a linguagem da explica\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 uma linguagem que procura criar efeitos e afetos, \u00e9 uma linguagem afetiva que cria uma falsa unidade, mas uma unidade pr\u00e1tica. Temos isso em Trump, mas j\u00e1 tivemos isso com Berlusconi em It\u00e1lia. Berlusconi \u00e9 talvez a primeira figura desta esp\u00e9cie de novo fascismo democr\u00e1tico, com exatamente as mesmas caracter\u00edsticas. \u00c9 algo que acontece em escala mundial: o aparecimento de uma nova figura de determina\u00e7\u00e3o politica que est\u00e1 dentro da constitui\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, mas em certo sentido est\u00e1 tamb\u00e9m fora. E a isso podemos chamar fascismo \u2013 porque era o que se passava nos anos trinta, afinal de contas Hitler tamb\u00e9m ganhou elei\u00e7\u00f5es. Assim, eu chamo fascista a esse tipo de pessoa que est\u00e1 dentro do jogo democr\u00e1tico, mas de certa maneira tamb\u00e9m est\u00e1 fora: dentro e fora. E dentro para, finalmente, poder estar fora. \u00c9, de faeto, uma novidade, mas uma novidade que est\u00e1 inscrita dentro da figura geral do mundo de hoje, porque para a grande maioria isso n\u00e3o \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o, mas uma nova maneira de estar no jogo democr\u00e1tico onde, do lado da oligarquia cl\u00e1ssica, n\u00e3o h\u00e1 qualquer diferen\u00e7a. Em certo sentido, o principio do efeito Trump \u00e9 o efeito de algo novo. De fato, em detalhe, n\u00e3o h\u00e1 nada de novo, porque \u00e9 imposs\u00edvel pensar que \u00e9 novo ser-se racista, machista, etc. Mas no contexto da oligarquia cl\u00e1ssica atual, estas coisas velhas parecem ser qualquer coisa de novo. E, por isso, Trump est\u00e1 na posi\u00e7\u00e3o de dizer que a novidade \u00e9 \u201cTrump\u201d quando diz coisas que s\u00e3o absolutamente primitivas e absolutamente velhas e ultrapassadas. E, por isso, estamos tamb\u00e9m no tempo onde algo como um retorno \u00e0 velha exist\u00eancia aparece subitamente como novo. E essa convers\u00e3o do novo no velho \u00e9 tamb\u00e9m uma caracter\u00edstica desse tipo de novo fascismo.<\/p>\n<p><strong>3.<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p>Tudo isto descreve a nossa situa\u00e7\u00e3o atual ao n\u00edvel da pol\u00edtica. Devemos considerar que estamos numa dial\u00e9tica fatal que envolve quatro aspectos.<\/p>\n<p>Primeiro: a brutalidade e a viol\u00eancia do capitalismo, hoje. Podemos n\u00e3o ver completamente essa viol\u00eancia no Ocidente, mas vemos-la, sem d\u00favida, em \u00c1frica ou no M\u00e9dio Oriente. E este \u00e9 um aspecto fundamental do nosso mundo atual. O retorno \u00e0quilo que \u00e9 a ess\u00eancia do capitalismo: a conquista selvagem, a luta selvagem de todos contra todos pela domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo: a decomposi\u00e7\u00e3o da oligarquia cl\u00e1ssica pol\u00edtica, dos partidos cl\u00e1ssicos (Democratas, Republicanos, Socialistas, etc.), e o surgimento de uma esp\u00e9cie de novo fascismo. N\u00e3o sabemos a forma futura dessa esp\u00e9cie de surgimento: qual \u00e9 o futuro de Trump? Em certo sentido, n\u00e3o sabemos e talvez nem o pr\u00f3prio Trump o saiba. Temos o Trump antes do poder e o Trump depois do poder, que est\u00e1 de certo modo com medo, n\u00e3o completamente satisfeito, porque ele sabe que n\u00e3o pode falar t\u00e3o livremente como antes. E falar livremente era exatamente a pot\u00eancia de Trump, mas agora com o governo, a administra\u00e7\u00e3o, o ex\u00e9rcito, os economistas, banqueiros, \u00e9 uma hist\u00f3ria completamente diferente. E, por isso, vimos Trump a passar de uma representa\u00e7\u00e3o para outra, de um teatro para outro teatro. Em qualquer dos casos, temos um s\u00edmbolo da decomposi\u00e7\u00e3o da oligarquia pol\u00edtica cl\u00e1ssica e o nascimento de uma nova figura de um novo fascismo, com um futuro que n\u00e3o conhecemos, mas que n\u00e3o parece ser um futuro muito brilhante.<\/p>\n<p>Terceiro: temos a frustra\u00e7\u00e3o popular, o sentimento de uma desordem obscura na opini\u00e3o p\u00fablica de muita gente e, principalmente, dos mais pobres, as pessoas do interior, os camponeses e os desempregados, enfim, toda a popula\u00e7\u00e3o que est\u00e1 sendo reduzida, pela brutalidade do capitalismo contempor\u00e2neo, a pouco mais que nada e que n\u00e3o tem exist\u00eancia poss\u00edvel, que permanece sem emprego, sem dinheiro, sem orienta\u00e7\u00e3o. E este \u00e9 o terceiro aspecto da situa\u00e7\u00e3o global atual. A falta de orienta\u00e7\u00e3o, de estabilidade, de sentimento de destrui\u00e7\u00e3o do seu mundo, sem a constru\u00e7\u00e3o de um outro mundo; uma esp\u00e9cie de vazio destrutivo.<\/p>\n<p>E, o \u00faltimo aspecto, \u00e9 a aus\u00eancia de qualquer estrat\u00e9gia alternativa. Existem muitas experi\u00eancias pol\u00edticas \u2013 n\u00e3o digo que n\u00e3o se passa nada a esse n\u00edvel. Conhecemos novos protestos, novas ocupa\u00e7\u00f5es, novas mobiliza\u00e7\u00f5es, novas determina\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas\u2026 Nesse sentido, n\u00e3o se trata da aus\u00eancia de formas de resist\u00eancia ou de protesto, mas da aus\u00eancia de um outro caminho estrat\u00e9gico, isto \u00e9, de algo que esteja ao mesmo n\u00edvel da convic\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea do capitalismo como \u00fanica hip\u00f3tese poss\u00edvel. \u00c9 a falta de for\u00e7a na afirma\u00e7\u00e3o de uma outra hip\u00f3tese e a aus\u00eancia daquilo que eu chamo uma Ideia, uma grande Ideia. Uma grande Ideia que \u00e9 a possibilidade de unifica\u00e7\u00e3o, unifica\u00e7\u00e3o global, unifica\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica de todas as formas de resist\u00eancia e inven\u00e7\u00e3o. Uma Ideia \u00e9 uma esp\u00e9cie de media\u00e7\u00e3o entre o sujeito individual e a tarefa coletiva hist\u00f3rica e pol\u00edtica, \u00e9 a possibilidade de a\u00e7\u00e3o com subjetividades muito diferentes, mas sob uma mesma Ideia.<\/p>\n<p>Estes quatro aspectos \u2013 a domina\u00e7\u00e3o geral do capitalismo globalizado, a decomposi\u00e7\u00e3o da oligarquia pol\u00edtica cl\u00e1ssica, a desorienta\u00e7\u00e3o e frustra\u00e7\u00e3o popular e a falta de uma outra hip\u00f3tese estrat\u00e9gica \u2013 comp\u00f5e em minha opini\u00e3o o quadro da crise de hoje. Podemos definir o mundo contempor\u00e2neo no termo de uma crise global que n\u00e3o \u00e9 reduz\u00edvel \u00e0 crise econ\u00f4mica dos \u00faltimos anos, mas que vai muito para al\u00e9m disso, \u00e9 uma crise de subjetividade, porque o destino dos homens torna-se cada vez menos claro para eles.<\/p>\n<p><strong>4.<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p>Depois disso, o que fazer? A pergunta de L\u00eanin. Eu penso que uma das raz\u00f5es que levou ao sucesso eleitoral de Trump \u00e9 que a verdadeira contradi\u00e7\u00e3o de hoje, a real contradi\u00e7\u00e3o de hoje, n\u00e3o pode ser entre duas formas do mesmo mundo. Eu sei que Hillary Clinton e Donald Trump s\u00e3o muito diferentes, mas essa diferen\u00e7a (que \u00e9 importante e que \u00e9 a diferen\u00e7a entre a oligarquia pol\u00edtica e o novo fascismo \u2013 e toda a oligarquia pol\u00edtica \u00e9 menos terr\u00edvel que o novo fascismo) pertence ao mesmo mundo. Isto \u00e9, n\u00e3o \u00e9 a express\u00e3o de duas vis\u00f5es estrat\u00e9gias do mundo. O sucesso de Trump \u00e9 poss\u00edvel, apenas, porque a verdadeira contradi\u00e7\u00e3o do mundo n\u00e3o pode ser expressa nem simbolizada pela oposi\u00e7\u00e3o entre Hillary e Trump, porque ambos pertencem ao mesmo mundo \u2013 de forma diferente, mas de forma diferente no mesmo mundo. E, por isso, durante todo o processo eleitoral a verdadeira contradi\u00e7\u00e3o foi entre Trump e Bernie Sanders. Porque temos na proposta de Sanders aspectos que est\u00e3o para al\u00e9m do mundo tal como ele est\u00e1, algo que n\u00e3o existe em Hillary Clinton. \u00c9 uma li\u00e7\u00e3o de dial\u00e9ctica, uma teoria das contradi\u00e7\u00f5es. A contradi\u00e7\u00e3o entre Hillary Clinton e Trump era uma contradi\u00e7\u00e3o relativa e n\u00e3o absoluta; isto \u00e9, uma contradi\u00e7\u00e3o nos mesmos par\u00e2metros, na mesma constru\u00e7\u00e3o do mundo. Mas a contradi\u00e7\u00e3o entre Sanders e Trump era de fato o in\u00edcio da possibilidade de uma verdadeira contradi\u00e7\u00e3o; isto \u00e9, uma contradi\u00e7\u00e3o com o mundo e com algo que estava para al\u00e9m do mundo.<\/p>\n<p>O resultado das elei\u00e7\u00f5es \u00e9, nesse sentido, de natureza conservadora porque \u00e9 o resultado de uma falsa contradi\u00e7\u00e3o, a continua\u00e7\u00e3o da crise atual. Contra Trump, n\u00e3o podemos desejar Clinton ou algu\u00e9m do mesmo g\u00eanero. Devemos, sim, criar um retorno, se poss\u00edvel, \u00e0 verdadeira contradi\u00e7\u00e3o. Esta \u00e9 a li\u00e7\u00e3o deste terr\u00edvel evento. Isto \u00e9, devemos propor uma orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que v\u00e1 para al\u00e9m do mundo tal como est\u00e1, mesmo se esta \u00e9 ainda pouco clara. Quando come\u00e7amos algo n\u00e3o vemos o seu desenvolvimento, mas devemos come\u00e7ar. Essa \u00e9 a quest\u00e3o. Depois de Trump, devemos come\u00e7ar. Mas n\u00e3o apenas resistindo ou negando. Devemos come\u00e7ar algo, de fato. E a quest\u00e3o do in\u00edcio \u00e9 o in\u00edcio do retorno \u00e0 verdadeira contradi\u00e7\u00e3o, a uma escolha real, a uma escolha estrat\u00e9gica real que diz respeito \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o dos seres humanos. Devemos reconstruir a ideia que \u00e9 poss\u00edvel criar novamente um campo politico com duas orienta\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas (contra as desigualdades monstruosas do capitalismo atual e contra os novos gangsters da pol\u00edtica como Trump). O retorno a algo que foi ainda a possibilidade do maior movimento pol\u00edtico do s\u00e9culo XX e do inicio do s\u00e9culo passado. Filosoficamente falando, devemos ir para al\u00e9m do Um em dire\u00e7\u00e3o ao Dois. N\u00e3o uma orienta\u00e7\u00e3o, mas duas orienta\u00e7\u00f5es. A cria\u00e7\u00e3o de um novo retorno a uma nova escolha fundamental como a pr\u00f3pria ess\u00eancia da pol\u00edtica. Se temos apenas uma hip\u00f3tese, a pol\u00edtica progressivamente desaparece e, em certo sentido, Trump \u00e9 o s\u00edmbolo dessa esp\u00e9cie de desaparecimento. O que \u00e9 a pol\u00edtica de Trump? Ningu\u00e9m sabe. \u00c9 algo como uma figura e n\u00e3o uma pol\u00edtica. Portanto, o retorno \u00e0 pol\u00edtica \u00e9 por necessidade o retorno \u00e0 exist\u00eancia de uma escolha real. Assim, finalmente, ao n\u00edvel das generalidades filos\u00f3ficas, \u00e9 o retorno dial\u00e9tico ao real. Dois mais que Um. E podemos propor alguns nomes para esse retorno.<\/p>\n<p><strong>5.<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p>Como devem saber a minha vis\u00e3o passa por propor essa palavra t\u00e3o corrompida que \u00e9 \u201cComunismo\u201d \u2014 corrompida sabemos n\u00f3s por todas essas experi\u00eancias sangrentas. O nome \u00e9 apenas um nome, por isso estamos livres para propor outros nomes, n\u00e3o \u00e9 um problema. Mas temos algo interessante que est\u00e1 no sentido original dessa palavra. E esse sentido \u00e9 composto por quatro princ\u00edpios, que podem ser o suporte para a cria\u00e7\u00e3o de um novo campo pol\u00edtico com duas orienta\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas.<\/p>\n<p>Primeiro: n\u00e3o \u00e9 uma necessidade que a chave da organiza\u00e7\u00e3o social tenha que estar na propriedade privada e nas suas desigualdades monstruosas. N\u00e3o \u00e9 uma necessidade. Devemos afirmar isso. E podemos organizar experi\u00eancias limitadas que demonstrem que isso n\u00e3o \u00e9 uma necessidade, que n\u00e3o \u00e9 verdade que a propriedade privada e as desigualdades monstruosas tenham que ser para sempre a lei de devir da humanidade.<\/p>\n<p>Segundo: n\u00e3o \u00e9 uma necessidade que os trabalhadores sejam permanentemente separados entre trabalho nobre (cria\u00e7\u00e3o intelectual, dire\u00e7\u00e3o, governo) e trabalho manual e exist\u00eancia material comum. Assim, a especializa\u00e7\u00e3o do trabalho n\u00e3o \u00e9 uma lei eterna e, sobretudo, a oposi\u00e7\u00e3o entre trabalho intelectual e trabalho manual deve ser suprimida a longo prazo.<\/p>\n<p>Terceiro: n\u00e3o \u00e9 uma necessidade para o ser humano estar separado por fronteiras nacionais, raciais, religiosas ou sexuais. A igualdade deve existir para al\u00e9m das diferen\u00e7as e, por isso, a diferen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 um obst\u00e1culo \u00e0 igualdade. A igualdade deve ser uma dial\u00e9tica da diferen\u00e7a em si mesma e devemos recusar que, em nome das diferen\u00e7as, a igualdade seja imposs\u00edvel. Assim, fronteiras, recusa do Outro em qualquer forma, tudo isso deve desaparecer. N\u00e3o \u00e9 uma lei natural.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, n\u00e3o \u00e9 uma necessidade que tenha que existir um Estado, na forma de um poder separado e armado.<\/p>\n<p>Resumindo: coletivismo contra a propriedade privada, trabalhador polimorfo contra a especializa\u00e7\u00e3o, universalidade concreta contra identidades encerradas e livre associa\u00e7\u00e3o contra o Estado. \u00c9 apenas um conjunto de princ\u00edpios, n\u00e3o \u00e9 um programa. Mas a partir destes princ\u00edpios podemos julgar todos os programas pol\u00edticos, decis\u00f5es, partidos, ideias. Os princ\u00edpios s\u00e3o o protocolo de julgamento relativamente a todas as decis\u00f5es, ideias, propostas pol\u00edticas. Temos assim um principio de julgamento tanto ao n\u00edvel do campo politico como na constru\u00e7\u00e3o de um novo projeto estrat\u00e9gico. Isso significa ter uma verdadeira vis\u00e3o do que pode ser essa nova dire\u00e7\u00e3o, essa nova dire\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica da humanidade enquanto tal.<\/p>\n<p>Podemos fazer alguma coisa. E devemos fazer, porque se n\u00e3o fizermos nada permanecemos apenas fascinados, estupidamente fascinados, pelo sucesso deprimente de Trump. \u201cA Nossa Revolu\u00e7\u00e3o\u201d, porque n\u00e3o? Contra a rea\u00e7\u00e3o deles, a nossa revolu\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma boa ideia. De qualquer modo, eu estou deste lado.<\/p>\n<p><em><strong>Notas da edi\u00e7\u00e3o<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em>Este artigo \u00e9 a transcri\u00e7\u00e3o adaptada da confer\u00eancia que Alain Badiou proferiu no dia seguinte \u00e0s elei\u00e7\u00f5es americanas, na Universidade da Calif\u00f3rnia em Los Angeles, e publicado no site\u00a0<a href=\"http:\/\/mariborchan.si\/video\/alain-badiou\/reflections-on-the-recent-election\/\">Mariborchan<\/a>. Tradu\u00e7\u00e3o para portugu\u00eas realizada por Jornal Punkto, a partir da vers\u00e3o inglesa.<\/em><\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"p4AsPzMhfC\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outrapolitica\/o-fascismo-democratico-e-a-reinvencao-do-comunismo\/\">Do &quot;Fascismo Democr\u00e1tico&quot; a um novo Comunismo?<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Do &quot;Fascismo Democr\u00e1tico&quot; a um novo Comunismo?&#8221; &#8212; Outras Palavras\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outrapolitica\/o-fascismo-democratico-e-a-reinvencao-do-comunismo\/embed\/#?secret=l8MH92BB6T#?secret=p4AsPzMhfC\" data-secret=\"p4AsPzMhfC\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alain Badiou &#8211;\u00a0Ocidente parece dividido entre a aristocracia financeira e os g\u00e2ngsters. \u00c9 preciso reconstruir a ideia de alternativa, ou n\u00e3o haver\u00e1 mais Pol\u00edtica. 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