{"id":5167,"date":"2017-09-06T15:27:51","date_gmt":"2017-09-06T18:27:51","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=5167"},"modified":"2017-09-05T12:36:05","modified_gmt":"2017-09-05T15:36:05","slug":"a-lei-nao-e-para-todos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/09\/06\/a-lei-nao-e-para-todos\/","title":{"rendered":"A lei n\u00e3o \u00e9 para todos"},"content":{"rendered":"<p><strong>ELIANE BRUM<\/strong> &#8211; Como a Lava Jato refor\u00e7a no pa\u00eds uma ideia perigosa: a de que pris\u00e3o \u00e9 justi\u00e7a<\/p>\n<p>A\u00a0Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, mesmo com todas as falhas e abusos cometidos, assim como a vaidade descontrolada de parte de seus protagonistas, presta um grande servi\u00e7o ao Brasil ao revelar a rela\u00e7\u00e3o de corrup\u00e7\u00e3o entre o p\u00fablico e o privado. Uma rela\u00e7\u00e3o que atravessa v\u00e1rios governos e v\u00e1rios partidos e v\u00e1rios pol\u00edticos de v\u00e1rios partidos. E a Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato presta tamb\u00e9m um grande desservi\u00e7o ao Brasil ao refor\u00e7ar uma das ideias mais perigosas, entranhadas no senso comum dos brasileiros, e realizada no concreto da vida do pa\u00eds: a de que pris\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de justi\u00e7a. Num pa\u00eds em que o encarceramento dos pobres e dos negros tornou-se uma pol\u00edtica de Estado n\u00e3o escrita \u2013 e, paradoxalmente, acentuou-se nos\u00a0governos democr\u00e1ticos\u00a0que vieram depois da ditadura civil-militar (1964-1985), refor\u00e7ar essa ideologia n\u00e3o \u00e9 um detalhe. Tampouco um efeito colateral. \u00c9 uma constru\u00e7\u00e3o de futuro.<\/p>\n<p>A Lava Jato tem um grande impacto sobre a vida do pa\u00eds, que ecoar\u00e1 por muito tempo e, em alguns aspectos, ser\u00e1 constituinte do Brasil dos pr\u00f3ximos anos ou d\u00e9cadas. \u00c9 por essa raz\u00e3o que me parece fundamental enfrentar as complexidades e as contradi\u00e7\u00f5es desse processo para al\u00e9m do contra ou a favor. O que busco fazer neste espa\u00e7o \u00e9 tentar interpretar os sentidos que v\u00e3o sendo constru\u00eddos ou refor\u00e7ados pela Lava Jato, o que anda pelas bordas dessa opera\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o por isso \u00e9 menos importante. E que talvez seja mais permanente.<\/p>\n<p>J\u00e1 escrevi que o fato de a grande \u201cpurga\u00e7\u00e3o\u201d nacional se dar por crimes contra o patrim\u00f4nio e n\u00e3o por crimes contra a vida tem o efeito profundo de refor\u00e7ar uma deforma\u00e7\u00e3o: a de que a vida humana vale pouco, o que importa \u00e9 o patrim\u00f4nio. Essa deforma\u00e7\u00e3o \u00e9 constitutiva da forma\u00e7\u00e3o do Brasil como na\u00e7\u00e3o e, nos anos recentes, foi enormemente refor\u00e7ada com a funda\u00e7\u00e3o de uma democracia que escolheu deixar impunes os torturadores e assassinos da ditadura civil-militar. Com a Lava Jato, esse tra\u00e7o constitutivo do Brasil se tornou ainda mais cimentado. E as consequ\u00eancias n\u00e3o s\u00e3o nem ser\u00e3o pequenas.<\/p>\n<p>Pris\u00e3o como sin\u00f4nimo de justi\u00e7a \u00e9 outra ideologia que est\u00e1 sendo refor\u00e7ada pela Lava Jato. Assim como o pouco valor dado \u00e0 vida, ela tamb\u00e9m \u00e9 antiga e entranhada no imagin\u00e1rio nacional. Mas cresceu e se ampliou com a dissemina\u00e7\u00e3o em programas policiais\/sensacionalistas de TV que n\u00e3o s\u00f3 pedem a pris\u00e3o, mas tamb\u00e9m a\u00a0execu\u00e7\u00e3o de \u201cbandidos\u201d, em geral negros e pobres, como solu\u00e7\u00e3o para o aumento da viol\u00eancia. Com a Lava Jato, essa ideologia foi ainda mais refor\u00e7ada. Ao atingir os que nunca eram presos, os ricos, os poderosos, os pol\u00edticos&#8230; a interpreta\u00e7\u00e3o de pris\u00e3o como justi\u00e7a alcan\u00e7ou um outro patamar. Afinal, estes eram os \u201cacima da lei\u201d. E com a Lava Jato foram alcan\u00e7ados.<\/p>\n<section id=\"sumario_1|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">As imagens produzidas pela Lava Jato n\u00e3o serviram para a ideia da justi\u00e7a, mas para a ideia da vingan\u00e7a<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Os operadores da Lava Jato compreenderam bem o anseio popular e o usaram a seu favor, produzindo imagens amplamente disseminadas pelas TVs e pela internet de empres\u00e1rios e principalmente de pol\u00edticos algemados e humilhados. Sem contar\u00a0a \u201ccondu\u00e7\u00e3o coercitiva\u201d de Lula,\u00a0que, da forma como foi feita, de imediato foi interpretada como \u201cpris\u00e3o\u201d. Este espet\u00e1culo foi estrat\u00e9gico para o apoio da popula\u00e7\u00e3o \u00e0 Lava Jato. Mas n\u00e3o s\u00f3 refor\u00e7ou a interpreta\u00e7\u00e3o de que a \u00fanica forma de fazer justi\u00e7a \u00e9 prender, como a\u00e7ulou algo muito grave e tamb\u00e9m constitutivo do Brasil: confundir justi\u00e7a com vingan\u00e7a. As imagens produzidas pelos operadores da Lava Jato e replicada milh\u00f5es de vezes na TV e na internet n\u00e3o serviram para a ideia da justi\u00e7a, mas para a ideia da vingan\u00e7a. Foram imagens produzidas para o gozo da popula\u00e7\u00e3o. E esta \u00e9 uma escolha pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Diante de cada not\u00edcia, e elas se acumulam a cada dia, as palavras favoritas s\u00e3o: \u201cFinalmente prenderam!\u201d. Ou: \u201cPor que ainda n\u00e3o est\u00e1 preso?\u201d. Ou ainda: \u201cTem que prender!\u201d.<\/p>\n<p>Nesta constru\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, a Lava Jato tem o efeito de produzir uma ideia de que, agora, a justi\u00e7a \u00e9 para todos. Ou a pris\u00e3o \u00e9 para todos, j\u00e1 que justi\u00e7a e pris\u00e3o s\u00e3o usadas como sin\u00f4nimos. Num dos pa\u00edses mais desiguais do mundo, atinge-se pelo menos uma igualdade: a de que todos podem \u2013 e s\u00e3o \u2013 presos. Esta ideia, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 apenas manipuladora. Ela \u00e9 comprovadamente falsa. E ela serve para mascarar a enorme desigualdade do Brasil. Tamb\u00e9m na justi\u00e7a. E tamb\u00e9m na pris\u00e3o.<\/p>\n<section id=\"sumario_2|html\" class=\"sumario_html derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">Se o encarceramento em massa fosse solu\u00e7\u00e3o para a viol\u00eancia, no Brasil se dormiria de porta aberta<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Se o encarceramento em massa fosse solu\u00e7\u00e3o para a viol\u00eancia, no Brasil se dormiria de porta aberta. Com mais de 650 mil presos \u2013 e crescendo \u2013 temos a terceira maior popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria do mundo. O Brasil s\u00f3 perde, por enquanto, para os Estados Unidos e para a China. A maioria dos presos \u00e9 composta por pessoas negras, pobres e com pouca escolaridade. Esta popula\u00e7\u00e3o ocupa menos de 394 mil vagas. O que significa que, com uma taxa de ocupa\u00e7\u00e3o de 163,9%, est\u00e3o n\u00e3o apenas presos, mas amontoados.<\/p>\n<p>A maioria dos presos \u00e9 composta por homens jovens, o que significa que est\u00e1 se encarcerando a juventude do Brasil. Menos de 10% deles conclu\u00edram o ensino m\u00e9dio.\u00a0Uma pesquisa de 2014\u00a0mostra que a taxa de mortes por assassinato nas pris\u00f5es brasileiras \u00e9 tr\u00eas vezes maior do que na popula\u00e7\u00e3o geral \u2013 e isso sem contar Rio e S\u00e3o Paulo, que n\u00e3o informaram seus n\u00fameros. Os dados demonstram que quem mais morre assassinado no Brasil s\u00e3o as pessoas presas, sob responsabilidade do Estado.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica de encarceramento dos jovens pobres e negros e com pouca escolaridade se revela tamb\u00e9m uma pol\u00edtica de exterm\u00ednio. E o Estado n\u00e3o \u00e9 responsabilizado pelo genoc\u00eddio cometido. Apenas nos primeiros 14 dias do m\u00eas de janeiro deste ano 115\u00a0presos morreram assassinados em tr\u00eas penitenci\u00e1riasdo Brasil. Uma tinha quase tr\u00eas vezes mais presos do que o n\u00famero de vagas, outra duas vezes mais e outra quase o dobro. Podemos afirmar que os presos do sistema carcer\u00e1rio brasileiro est\u00e3o entre os grupos que sofrem mais ilegalidades. E seguidamente isso resulta em sua morte. E assim o pa\u00eds perde parte de sua juventude e de sua for\u00e7a de trabalho.<\/p>\n<p>No Brasil, a ideia de que \u201cbandido bom \u00e9 bandido morto\u201d \u00e9 muito popular, embora a pena de morte n\u00e3o exista oficialmente no pa\u00eds. Mas \u201cbandido\u201d \u00e9 uma palavra ampla demais. E que esconde coisas demais. A maioria dos presos praticou crimes contra o patrim\u00f4nio e relacionados a drogas. Os que cometeram crimes contra a vida s\u00e3o uma minoria. Apenas na cidade do Rio de Janeiro, de\u00a01.330 acusados por tr\u00e1fico\u00a0em 2013, 80,6% eram r\u00e9us prim\u00e1rios. Em S\u00e3o Paulo,\u00a0outra pesquisa\u00a0analisou os flagrantes por tr\u00e1fico de drogas, mostrando que quase 60% das pessoas n\u00e3o tinham antecedentes criminais e apenas 3% portavam algum tipo de arma. A m\u00e9dia apreendida era de 66,5 gramas de droga. Mas apenas 9% foram absolvidas ou responderam por porte. O restante teve penas de at\u00e9 cinco anos de pris\u00e3o por tr\u00e1fico.<\/p>\n<section id=\"sumario_3|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">Quando se coloca uma pessoa que cometeu assassinato e uma pessoa que carregava alguns gramas de maconha no bolso no mesmo lugar, o crime \u00e9 da sociedade contra a pessoa<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel afirmar que as superlotadas e perigosas pris\u00f5es brasileiras est\u00e3o abarrotadas de pessoas sem antecedentes criminais, que n\u00e3o deveriam estar l\u00e1 porque a pris\u00e3o deveria ser a \u00faltima medida, reservada para os crimes mais graves. Quando se coloca uma pessoa que cometeu homic\u00eddios dolosos (com inten\u00e7\u00e3o de matar) ou latroc\u00ednios (matar para roubar) e uma pessoa que carregava alguns gramas de maconha no bolso n\u00e3o s\u00f3 no mesmo lugar concreto \u2013 a pris\u00e3o \u2013 como tamb\u00e9m no mesmo lugar simb\u00f3lico, o de \u201cbandido\u201d, o crime \u00e9 da sociedade contra a pessoa.<\/p>\n<p>A lei de drogas de 2006 aumentou as penas para o tr\u00e1fico de drogas, mas manteve a ambiguidade entre \u201cusu\u00e1rio\u201d e \u201ctraficante\u201d. Ao mant\u00ea-la, entre outros problemas, multiplicou as pris\u00f5es por \u201ctr\u00e1fico\u201d, um dos principais fatores do aumento do encarceramento e da superlota\u00e7\u00e3o das pris\u00f5es. Na pr\u00e1tica, o que se v\u00ea e as pesquisas comprovam \u00e9 que o \u201cusu\u00e1rio\u201d \u00e9 o branco de classe m\u00e9dia e alta, escolarizado \u2013 e o \u201ctraficante\u201d \u00e9 o negro e pobre com pouca escolaridade. Os grandes traficantes de drogas raramente s\u00e3o alcan\u00e7ados, como o notici\u00e1rio recente j\u00e1 demonstrou.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica de \u201cguerra \u00e0s drogas\u201d, como j\u00e1 est\u00e1 mais do que comprovado, \u00e9 um desastre para o Brasil, causando o exterm\u00ednio da juventude pobre e negra e eliminando potencialidades. Entre as v\u00e1rias raz\u00f5es para seguir com uma pol\u00edtica que j\u00e1 se mostrou genocida, cara para os cofres p\u00fablicos e totalmente ineficiente est\u00e3o as de manter os interesses e os lucros do mercado de drogas e armas intactos, assim como os da poderosa ind\u00fastria de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Um exemplo recente.\u00a0Rafael Braga, 29 anos, foi preso nas manifesta\u00e7\u00f5es de 2013, no Rio, por portar dois frascos lacrados: um de desinfetante Pinho Sol e outro de \u00e1gua sanit\u00e1ria da marca Barra. A Pol\u00edcia Militar o acusou de portar material explosivo. O jovem negro e pobre tornou-se ent\u00e3o o \u00fanico preso pol\u00edtico dos protestos de 2013. Depois de passar mais de dois anos na pris\u00e3o, em janeiro do ano passado Rafael estava h\u00e1 apenas 40 dias cumprindo pena em regime aberto e j\u00e1 trabalhando como auxiliar de servi\u00e7os gerais quando foi novamente preso.<\/p>\n<p>Os PMs que o prenderam em flagrante afirmaram que ele portava 0,6 grama de maconha, 9,3 gramas de coca\u00edna e um morteiro. Rafael diz que o material foi plantado e que ele foi torturado para que passasse informa\u00e7\u00f5es sobre o tr\u00e1fico no local, quest\u00f5es que desconhecia. Ainda assim,\u00a0Rafael foi condenado com base apenas no depoimento dos policiais que o prenderam, uma aberra\u00e7\u00e3o que \u00e9 frequente neste tipo de caso. Em 20 de abril, Rafael foi condenado pelo juiz Ricardo Coronha Pinheiro a 11 anos e tr\u00eas meses de pris\u00e3o por tr\u00e1fico e associa\u00e7\u00e3o ao tr\u00e1fico de drogas. O Instituto de Defensores de Direitos Humanos, que atua na defesa de Rafael, tentou reverter essa decis\u00e3o em segunda inst\u00e2ncia, mas, por dois votos a um, os desembargadores do Tribunal de Justi\u00e7a do Rio mantiveram Rafael preso.<\/p>\n<p>Como compara\u00e7\u00e3o: em julho, durante um plant\u00e3o na madrugada, o desembargador Jos\u00e9 Ale Ahmad Neto deu habeas corpus a Breno Fernando Solon Borges, de 37 anos. Ele \u00e9 filho da presidente do Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul, T\u00e2nia Garcia Freitas. Breno havia sido preso em flagrante, em abril, com 129,9 quilos de maconha e muni\u00e7\u00f5es para armas de calibre 7,62 mm e 9 mm. Depois de passar dois meses na pris\u00e3o, foi transferido para uma cl\u00ednica m\u00e9dica de Campo Grande para \u201cse submeter a um tratamento contra o transtorno de personalidade borderline\u201d.<\/p>\n<section id=\"sumario_4|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">Entre o morador de rua e o filho da desembargadora h\u00e1 um Brasil<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Aponto aqui para as diferen\u00e7as de medidas no mesmo sistema legal e no mesmo pa\u00eds. E para a despropor\u00e7\u00e3o do que estaria na m\u00e3o de um e de outro. E n\u00e3o para bradar pela pris\u00e3o do filho da desembargadora, porque n\u00e3o acredito na falsa igualdade do \u201ctodos presos\u201d. Acredito no acesso \u00e0 justi\u00e7a para todos. E na garantia do direito de defesa para todos. A desigualdade entre Rafael e Breno come\u00e7ou na base. \u00c9 racial e \u00e9 social. A desigualdade nas medidas e nas desmedidas da pris\u00e3o e da soltura \u00e9 apenas o fim de um processo perverso, que a cada dia se refor\u00e7a um pouco mais.<\/p>\n<p>N\u00e3o, a lei n\u00e3o \u00e9 para todos. Nem a pris\u00e3o. Muito menos a justi\u00e7a. Hoje, n\u00e3o se pode falar no encarceramento dos pobres e negros como pol\u00edtica de Estado sem sublinhar o que est\u00e1 acontecendo com as mulheres e a lei de drogas. De 2005 a 2014, a quantidade de mulheres presas cresceu numa m\u00e9dia de 10,7% ao ano. Em termos absolutos, a popula\u00e7\u00e3o feminina saltou de 12.925 presas em 2005 para 33.793 em 2014. A estimativa \u00e9 de que hoje o aumento seja ainda maior. As mulheres representam 5,8% da popula\u00e7\u00e3o prisional. Mas, no caso delas, o \u201ctr\u00e1fico de drogas e associa\u00e7\u00e3o para o tr\u00e1fico\u201d tem um peso bem maior que no caso dos homens: 64% das condena\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O efeito de jogar mulheres e homens na pris\u00e3o por anos por estarem com pequenas quantidades de drogas \u00e9 um desastre para toda a sociedade. Al\u00e9m de injusto, causa o esfacelamento dos la\u00e7os, fragiliza ainda mais os filhos destas pessoas e desestrutura fam\u00edlias que j\u00e1 t\u00eam enorme dificuldade para se manter vivas num pa\u00eds t\u00e3o desigual. Por que, ent\u00e3o, isso continua? S\u00e3o perguntas como esta, mais do que gritos raivosos de \u201ctem que prender\u201d, \u201ctem que matar\u201d, que podem construir um outro destino para o Brasil.<\/p>\n<section id=\"sumario_5|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">Antes de gritar \u201ctem que prender\u201d, \u201ctem que matar\u201d, \u00e9 imperativo lembrar que quase 40% dos presos est\u00e3o l\u00e1 sem jamais terem sido julgados<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Antes de gritar \u201ctem que prender\u201d, \u201ctem que matar\u201d, \u00e9 imperativo lembrar que quase 40% das pessoas presas hoje no Brasil est\u00e3o l\u00e1 sem jamais terem sido julgadas. Este dado permite afirmar que \u00e9 contra estes presos que se comete um crime. Quem fica gritando \u201ctem que prender\u201d, \u201ctem que matar\u201d pode estar deixando de perceber que est\u00e1 apenas refor\u00e7ando a desigualdade do Brasil e mantendo o direito de defesa e o acesso \u00e0 justi\u00e7a como privil\u00e9gios. E direitos n\u00e3o s\u00e3o privil\u00e9gios.<\/p>\n<p>Quando o acesso \u00e0 justi\u00e7a e ao direito de defesa se tornam privil\u00e9gios, estamos diante de uma monstruosidade. E \u00e9 essa monstruosidade que vivemos hoje no Brasil. E que se agravou por omiss\u00e3o, covardia e incompet\u00eancia dos \u00faltimos governos democr\u00e1ticos \u2013 ou pela tal \u201cgovernabilidade\u201d, que implica n\u00e3o desagradar aliados de ocasi\u00e3o. Governos como os de Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Rousseff tinham a obriga\u00e7\u00e3o de fazer melhor do que fizeram neste campo, depois de o pa\u00eds sofrer\u00a0a viola\u00e7\u00e3o de 21 anos de ditadura. E por n\u00e3o terem feito melhor, o Brasil hoje paga um pre\u00e7o alto demais.<\/p>\n<p>Nem mesmo ajustando a lente para as pris\u00f5es da Lava Jato h\u00e1 igualdade na compara\u00e7\u00e3o com a massa de encarcerados. H\u00e1 v\u00e1rios presos da Lava Jato que tiveram pris\u00e3o domiciliar decretada por raz\u00f5es de sa\u00fade. No \u00faltimo 30 de agosto, a desembargadora Katya Maria de Paula Menezes Monnerat negou o mesmo direito a Rafael Braga, que precisa tratar a tuberculose. Doen\u00e7a que ele contraiu na Penitenci\u00e1ria Alfredo Tranjan (Bangu II). Segundo o\u00a0Portal da Sa\u00fade, pessoas presas t\u00eam, em m\u00e9dia, uma chance 28 vezes \u2013 vinte e oito vezes \u2013 maior do que a popula\u00e7\u00e3o geral de contrair tuberculose. E isso aconteceu com Rafael Braga, que teve a tuberculose comprovada por laudo m\u00e9dico. Mas o direito concedido a presos da Lava Jato n\u00e3o foi concedido ao preso das manifesta\u00e7\u00f5es de 2013. Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>E, de novo: n\u00e3o estou gritando \u201cN\u00e3o pode soltar\u201d, referindo-me aos presos da Lava Jato. N\u00e3o me cabe julgar a situa\u00e7\u00e3o de sa\u00fade de ningu\u00e9m. Acredito que presos s\u00e3o cidad\u00e3os e cidad\u00e3os t\u00eam o direito legal de ter sua sa\u00fade levada em considera\u00e7\u00e3o pelo sistema judici\u00e1rio. O que aponto \u00e9 a quantidade de presos negros e pobres \u2013 e Rafael Braga \u00e9 apenas um entre milhares \u2013 que adoecem na pris\u00e3o e l\u00e1 s\u00e3o mantidos sem tratamento ou com tratamento prec\u00e1rio, em condi\u00e7\u00f5es insalubres, as mesmas que produziram a doen\u00e7a. Com frequ\u00eancia assustadora estas pessoas morrem antes de serem libertadas.<\/p>\n<p>N\u00e3o, a lei n\u00e3o \u00e9 para todos no Brasil.<\/p>\n<section id=\"sumario_6|html\" class=\"sumario_html derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">Sergio Moro, Deltan Dallagnol e outros protagonistas da Lava Jato faltaram com a \u00e9tica ao estar na plateia do filme que os converte em personagens de entretenimento<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Na data emblem\u00e1tica de 7 de setembro, ser\u00e1 lan\u00e7ado o filme que afirma no t\u00edtulo o contr\u00e1rio do que vejo e investigo:\u00a0<em>Pol\u00edcia Federal &#8211; A Lei \u00e9 Para Todos<\/em>.\u00a0Pretendo assisti-lo. Mas posso adiantar que me parece perigoso tal t\u00edtulo associado \u00e0 Lava Jato, uma opera\u00e7\u00e3o em andamento, por todas as raz\u00f5es e porque acredito que a Lava Jato refor\u00e7ou a deforma\u00e7\u00e3o de confundir pris\u00e3o com justi\u00e7a. E tamb\u00e9m a deforma\u00e7\u00e3o de valorizar mais o patrim\u00f4nio do que a vida. Me parece perigoso principalmente porque refor\u00e7a a ideia de que agora h\u00e1 igualdade na aplica\u00e7\u00e3o da lei. Deveria haver, mas n\u00e3o h\u00e1.<\/p>\n<p>Fazer cinema \u00e9 um ato tamb\u00e9m pol\u00edtico \u2013 e n\u00e3o haveria como n\u00e3o ser, no meu modo de ver. O que me parece inaceit\u00e1vel \u00e9 algu\u00e9m afirmar que seu filme \u00e9 \u201capol\u00edtico\u201d, o que \u00e9 uma forma de fazer pol\u00edtica negando a pr\u00f3pria pol\u00edtica. E isso \u00e9 desonesto.<\/p>\n<p>Ao estarem na plateia do pr\u00e9-lan\u00e7amento do filme em Curitiba, alguns deles fotografados com grandes sacos de pipoca na m\u00e3o,\u00a0o juiz Sergio Moro, o procurador Deltan Dallagnol e outros protagonistas faltaram com a \u00e9tica. Eles conduzem algo crucial para o Brasil, num momento t\u00e3o delicado para o pa\u00eds e para a pr\u00f3pria Lava Jato, que, \u00e9 preciso dizer, n\u00e3o pertence a eles. Cenas como estas desrespeitam os cidad\u00e3os. A vida n\u00e3o \u00e9 entretenimento. E eles s\u00e3o personagens da vida, ainda que na tela tenham sido convertidos em personagens de entretenimento. Como funcion\u00e1rios p\u00fablicos, com as responsabilidades que t\u00eam, devem respeito ao p\u00fablico.<\/p>\n<p>Quando Luiz In\u00e1cio Lula da Silva virou personagem de um filme baseado na sua vida e o assistiu na poltrona do cinema do Pal\u00e1cio do Alvorada, como presidente do Brasil, eu o critiquei. E tamb\u00e9m fiz\u00a0uma cr\u00edtica de\u00a0<em>Lula, o filho do Brasil<\/em>,\u00a0que ao reduzir a complexidade do homem a um clich\u00ea de her\u00f3i fez uma pe\u00e7a de propaganda. E uma pe\u00e7a de propaganda ruim. \u00c9 bastante prov\u00e1vel que o filme da Lava Jato tenha a pretens\u00e3o de influenciar o momento e tamb\u00e9m as elei\u00e7\u00f5es a seguir, como o de Lula tamb\u00e9m tinha. \u00c9 preciso assistir a este com essa hip\u00f3tese em mente, assim como era preciso assistir ao outro.<\/p>\n<p>No campo do cinema, sugiro assistir a um document\u00e1rio dispon\u00edvel na Netflix, que mostra em profundidade as engrenagens e a evolu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de encarceramento nos Estados Unidos. Chama-se\u00a0<em>A 13<sup>a<\/sup>\u00a0Emenda<\/em>. Guardadas as diferen\u00e7as, h\u00e1 muitos alertas e perguntas que podemos fazer sobre o Brasil e a terceira popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria do mundo. E crescendo. Pode nos ajudar a recolocar o tema da desigualdade onde ele deve estar e impedir as sucessivas tentativas de mascar\u00e1-lo.<\/p>\n<p>O Brasil j\u00e1 \u00e9\u00a0um pa\u00eds-condom\u00ednio\u00a0e um pa\u00eds de cad\u00e1veres insepultos, porque morreram sem justi\u00e7a, \u00e0s vezes sem nome. Quem berra \u201ctem que prender\u201d, \u201ctem que matar\u201d talvez pense que a solu\u00e7\u00e3o seja botar metade do pa\u00eds na cadeia. Mas, cuidado: talvez voc\u00ea acredite que est\u00e1 numa metade e, quando perceber, o despacharam para a outra.<\/p>\n<p>https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/09\/04\/opinion\/1504537298_383906.html<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ELIANE BRUM &#8211; Como a Lava Jato refor\u00e7a no pa\u00eds uma ideia perigosa: a de que pris\u00e3o \u00e9 justi\u00e7a A\u00a0Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, mesmo com todas as falhas e abusos cometidos, assim como a vaidade descontrolada de parte de seus protagonistas, presta um grande servi\u00e7o ao Brasil ao revelar a rela\u00e7\u00e3o de corrup\u00e7\u00e3o entre o p\u00fablico [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5168,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[2,8],"tags":[30,22],"class_list":["post-5167","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-politica","category-sociedade","tag-ideologia","tag-violencia"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - 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