{"id":5160,"date":"2017-09-06T09:20:46","date_gmt":"2017-09-06T12:20:46","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=5160"},"modified":"2017-09-01T11:46:54","modified_gmt":"2017-09-01T14:46:54","slug":"o-desmonte-da-universidade-publica-e-branqueamento-cultural-outra-estrategia-do-genocidio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/09\/06\/o-desmonte-da-universidade-publica-e-branqueamento-cultural-outra-estrategia-do-genocidio\/","title":{"rendered":"O desmonte da universidade p\u00fablica e branqueamento cultural: outra estrat\u00e9gia do genoc\u00eddio"},"content":{"rendered":"<p><strong>Andr\u00e9ia Moassab, Marcos de Jesus e Vico Melo<\/strong><i> &#8211;\u00a0<\/i>O branqueamento cultural como complemento do genoc\u00eddio \u00e9 um ponto de partida interessante para compreender os ataques ao direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o materializados pela opera\u00e7\u00e3o de desmonte das universidades p\u00fablicas estaduais e federais em curso e cujas consequ\u00eancias j\u00e1 s\u00e3o sentidas com maior intensidade pelos setores mais exclu\u00eddos<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, as contribui\u00e7\u00f5es de Abdias Nascimento, intelectual e pol\u00edtico negro brasileiro, s\u00e3o de fundamental import\u00e2ncia \u00e0 formula\u00e7\u00e3o de um quadro mais geral de interpreta\u00e7\u00e3o a respeito dos retrocessos sociais acelerados pelo golpe civil-parlamentar travestido de impeachment em 2016. Abdias n\u00e3o se limitou a constatar o mais \u00f3bvio da viol\u00eancia que recai sobre grupos historicamente marginalizados como o das pessoas negras, a seletividade do direito penal ou sua exclus\u00e3o do mercado de trabalho, por exemplo, mas almejou descrever e teorizar as artimanhas e as nuances de um poder cujas engrenagens se plasmam em diferentes estrat\u00e9gias de exclus\u00e3o simb\u00f3lica e cultural dos sujeitos por ele subalternizados. Algo assim tornou poss\u00edvel discutir, j\u00e1 nos finais da d\u00e9cada de 1970 e em plena ditadura militar, o exterm\u00ednio f\u00edsico da popula\u00e7\u00e3o negra, afrodescendente e ind\u00edgena atrelado ao embranquecimento cultural como a face oculta ou pouco debatida desse exterm\u00ednio, sua condi\u00e7\u00e3o de possibilidade. Nisso parece estar sua contribui\u00e7\u00e3o maior: o reconhecimento da estreita e \u00edntima rela\u00e7\u00e3o entre a modernidade capitalista e a racionalidade do exterm\u00ednio (colonialismo), sendo aquela alimentada por esta.<\/p>\n<p>O branqueamento cultural como complemento do genoc\u00eddio \u00e9 um ponto de partida interessante para compreender os ataques ao direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o materializados pela opera\u00e7\u00e3o de desmonte das universidades p\u00fablicas estaduais e federais em curso e cujas consequ\u00eancias j\u00e1 s\u00e3o sentidas com maior intensidade pelos setores mais exclu\u00eddos. Como se sabe, as universidades p\u00fablicas no Brasil surgem no segundo quartel do s\u00e9culo XX como espa\u00e7os para a forma\u00e7\u00e3o das elites governamentais, da \u201cnobreza de Estado\u201d, como diria Pierre Bourdieu, em conson\u00e2ncia com a necessidade de inserir o pa\u00eds no marco da modernidade capitalista ocidental. Por conta da pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica brasileira, as elites que frequentavam a universidade sempre tiveram um padr\u00e3o bastante espec\u00edfico: ami\u00fade homens brancos crist\u00e3os, propriet\u00e1rios, heterossexuais, de cultura urbana e liberal, cujo capital social, pol\u00edtico e econ\u00f4mico se transmite ao longo das d\u00e9cadas a seus herdeiros, reproduzindo a ordem social violenta marcada pelo genoc\u00eddio f\u00edsico e cultural das popula\u00e7\u00f5es negras, afrodescendentes e ind\u00edgenas tomadas como o \u201coutro\u201d da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, houve, a partir do incremento de uma s\u00e9rie de pol\u00edticas p\u00fablicas, uma progressiva entrada de setores exclu\u00eddos, marginalizados e pauperizados da sociedade brasileira nos espa\u00e7os universit\u00e1rios, fissurando os privil\u00e9gios hist\u00f3ricos desse sujeito branco. As pol\u00edticas de a\u00e7\u00f5es afirmativas, a lei de cotas, o aumento expressivo do n\u00famero de universidades p\u00fablicas e a interioriza\u00e7\u00e3o dos\u00a0<em>campi<\/em>, em que pese o reconhecimento de seus limites, s\u00e3o representativas de uma real possibilidade de inser\u00e7\u00e3o de sujeitos alijados desses espa\u00e7os cujo ingresso for\u00e7ado \u00e9 resultado de suas lutas hist\u00f3ricas. A entrada trouxe consigo outras cartografias corporais e, portanto, tamb\u00e9m epist\u00eamicas, que passam a disputar com o conhecimento hegemonicamente produzido do ponto de vista branco europeu ou do das elites brasileiras subservientes a este padr\u00e3o de poder, em benef\u00edcio pr\u00f3prio. Algo assim exigiu a constru\u00e7\u00e3o de outras agendas de pesquisa, de outras rela\u00e7\u00f5es entre universidade e sociedade bem como a emerg\u00eancia de debates pol\u00edticos mais incisivos acerca das desigualdades raciais que separam brancos e n\u00e3o brancos na sociedade brasileira.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio de desmonte da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica e gratuita hoje representa, em alguma medida, uma esp\u00e9cie de \u201crea\u00e7\u00e3o da elite branca propriet\u00e1ria do poder\u201d cujo objetivo parece orientado por um desejo em restaurar sua hegemonia dentro desses espa\u00e7os, j\u00e1 que o lugar pr\u00f3prio dos negros \u00e9 a senzala \u2013 como demonstrou L\u00e9lia Gonzalez \u2013 e o dos ind\u00edgenas, a floresta. N\u00e3o que a entrada ainda t\u00edmida de setores perif\u00e9ricos na universidade p\u00fablica nos \u00faltimos anos tenha conseguido romper com a hegemonia da branquitude, mas certamente gerou in\u00fameros pontos de tens\u00e3o, conflito e disputa em um espa\u00e7o historicamente a ela reservado, obrigando-a a rever alguns dos seus privil\u00e9gios, ou melhor, a se perceber como sujeito de in\u00fameros privil\u00e9gios apesar de sua reivindica\u00e7\u00e3o de estar ali por meritocracia. Evidenciar algo assim implica dizer que a defesa da universidade p\u00fablica precisa incorporar em sua gram\u00e1tica um vocabul\u00e1rio que diga as desigualdades raciais e o genoc\u00eddio operado pelas estrat\u00e9gias de embranquecimento cultural, al\u00e9m de, obviamente, denunciar suas cumplicidades com a acumula\u00e7\u00e3o do capital e com a domina\u00e7\u00e3o patriarcal. Nesse espectro de desmonte das universidades p\u00fablicas, a Universidade Federal da Integra\u00e7\u00e3o Latino-Americana (Unila) e a Universidade da Integra\u00e7\u00e3o Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) se tornaram os alvos preferidos de discursos de \u00f3dio, de racismo e de xenofobia por parte dos \u201cdonos do poder\u201d e de seus c\u00e3es de guarda.<\/p>\n<p>Esse \u00f3dio crescente endere\u00e7ado \u00e0 educa\u00e7\u00e3o em geral e \u00e0s duas institui\u00e7\u00f5es em particular se alimenta do capitalismo\/colonialismo que, como sistema hist\u00f3rico, sempre necessitou promover classifica\u00e7\u00f5es e hierarquiza\u00e7\u00f5es entre entidades humanas como meios de facilitar o processo de acumula\u00e7\u00e3o incessante de capital, a exemplo da escravid\u00e3o amer\u00edndia e africana e da \u201cdomestica\u00e7\u00e3o das mulheres\u201d para a vida e o trabalho no marco de uma conjugalidade monog\u00e2mica heterossexual e crist\u00e3 dominadora. A tais grupos foi imposta uma l\u00f3gica de que serviam exclusivamente ao trabalho (for\u00e7ado\/escravo) e \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o, esvaziando-os de qualquer sentido de humanidade e sendo, portanto, tratados como exteriores \u00e0s institui\u00e7\u00f5es de ensino. O Brasil se encaixa inteiramente no processo neocolonial (de imposi\u00e7\u00f5es de fora para dentro) e de colonialismo interno (imposi\u00e7\u00f5es promovidas internamente) de \u201ccodifica\u00e7\u00e3o paranoica da vida social\u201d, levado a cabo por uma elite que se via fora do poder por vias democr\u00e1ticas h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada. \u00c9 importante ressaltar que, mesmo fora do poder, as elites nacionais tiveram um ac\u00famulo de riqueza sem compara\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria democr\u00e1tica brasileira, gra\u00e7as \u00e0 alta das commodities no mercado internacional, impulsionada principalmente pelo mercado chin\u00eas em plena expans\u00e3o, somado a volumosos empr\u00e9stimos a fundo perdido concedidos pelos governos de Lula e Dilma ao agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Entretanto, em momentos de crise o grande capital n\u00e3o aceita pagar a conta de sua pr\u00f3pria crise, jogando o \u00f4nus nas costas de toda a sociedade brasileira, com maior peso para as popula\u00e7\u00f5es marginalizadas historicamente no pa\u00eds. O governo Temer representa toda essa estrutura de expropria\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o contra uma grande parcela da popula\u00e7\u00e3o, vista exclusivamente como corpo-m\u00e1quina. \u00c9 nesse sentido que se baseiam as t\u00e3o aclamadas reformas trabalhistas, previdenci\u00e1rias, educacionais e sociais pelas elites brasileiras \u2013 dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, empresariais e financistas \u2013 com intuito de impor esse \u201cespa\u00e7o-tempo vazio homog\u00eaneo\u201d do capital colonial \u00e0 sociedade como um todo. A aus\u00eancia de uma leitura de ra\u00e7a e de g\u00eanero por parte da esquerda \u201cacomodada\u201d no poder a fez acreditar que, com a crise de 2007-2008, o capitalismo entrava num processo hist\u00f3rico de decad\u00eancia e de contesta\u00e7\u00e3o no sistema internacional. A escalada de viol\u00eancia brutal do capitalismo\/colonialismo global contra qualquer direito social constitu\u00eddo n\u00e3o \u00e9 fortuita ou aleat\u00f3ria, mas resultado da necessidade do aumento incessante da acumula\u00e7\u00e3o de riqueza do capital cuja hist\u00f3ria \u00e9 insepar\u00e1vel de pr\u00e1ticas racistas, sexistas e classistas colonizadoras.<\/p>\n<p>Com a mudan\u00e7a das correla\u00e7\u00f5es de for\u00e7a no cen\u00e1rio nacional e a ascens\u00e3o do capital colonial que trata latinos\/as e africanos\/as como Outro, a Unilab e a Unila se tornaram alvos prediletos desses ataques, por se apresentarem como projetos institucionais de luta pela redu\u00e7\u00e3o das desigualdades regionais, raciais, sociais e de g\u00eanero. O Art. 2\u00ba, da Lei n.\u00ba 12.289\/2010 que criou a Unilab, traz explicitamente que sua miss\u00e3o \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o de \u201crecursos humanos para contribuir com a integra\u00e7\u00e3o entre o Brasil e os demais pa\u00edses membros da Comunidade dos Pa\u00edses de L\u00edngua Portuguesa \u2013 CPLP, especialmente os pa\u00edses africanos\u201d al\u00e9m da promo\u00e7\u00e3o do \u201cdesenvolvimento regional e o interc\u00e2mbio cultural, cient\u00edfico e educacional\u201d. Some-se a isso o fato de a Unilab estar localizada no Nordeste, no interior do Cear\u00e1 e da Bahia, proporcionando a democratiza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o para a popula\u00e7\u00e3o dessas regi\u00f5es que, at\u00e9 ent\u00e3o, sempre foram invisibilizadas e\/ou consideradas subalternas perante os centros decis\u00f3rios e de poder no pa\u00eds \u2013 no Sudeste \u2013, al\u00e9m de contar com uma forte presen\u00e7a de estudantes dos Pa\u00edses Africanos de L\u00edngua Oficial Portuguesa (Palop) e do Timor Leste, que representam 30% do n\u00famero total de estudantes. Mesmo esse n\u00famero estando aqu\u00e9m do projeto inicial da Unilab, de 50% de alunos\/as estrangeiros\/as e 50% de brasileiros\/as, a universidade representa um inc\u00f4modo \u00e0s elites pelo fato de propor uma estrutura curricular cr\u00edtica e contestat\u00f3ria ao\u00a0<em>status quo<\/em>, buscando abarcar as diferen\u00e7as e a pluralidade de saberes existentes nas sociedades africanas e brasileiras.<\/p>\n<p>De igual modo, a Unila pauta-se por um ensino multi\u00e9tnico, diverso e plural, que se prop\u00f5e a um giro epistemol\u00f3gico ao estabelecer outras redes de conhecimento, menos dependentes do eurocentrismo t\u00e3o caro \u00e0 forma\u00e7\u00e3o elegante das elites nacionais. Num cen\u00e1rio de profunda racializa\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica, o\/a latino-americano\/a \u00e9 subalternizado. A Am\u00e9rica Latina dos\/as brancos\/as (sic) \u2013 correspondente \u00e0s elites crioulas governantes \u2013 \u00e9 o lugar do civilizado, do urbano, do progresso, do elegante, do intelectual, do \u201cquerer-ser europeu\u201d. A outra Am\u00e9rica Latina \u00e9 atrasada, rural, pobre, subalterna, onde est\u00e1 a m\u00e3o-de-obra para trabalhos mal pagos e n\u00e3o intelectual. Esta Am\u00e9rica Latina, a elite dominante brasileira ou ignora ou explora.<\/p>\n<p>Os discursos do historiador Marco Antonio Villa, comentarista da r\u00e1dio Jovem Pan, e do deputado federal S\u00e9rgio Souza (PMDB\/PR), sobre as estruturas curriculares e a \u201cnecessidade\u201d de extin\u00e7\u00e3o da Unila, al\u00e9m da tentativa de cancelamento dos aux\u00edlios financeiros aos novos\/as estudantes estrangeiros\/as na Unilab, demonstra claramente o racismo e a xenofobia que tais grupos sempre tiveram em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 presen\u00e7a de corpos que sucessivamente foram exclu\u00eddos dessas estruturas de poder\/conhecimento. Em tempos de ataques sucessivos contra esses grupos historicamente invisibilizados e\/ou exclu\u00eddos, se faz necess\u00e1rio assumirmos uma posi\u00e7\u00e3o de defesa a projetos como da Unila e Unilab que visam a democratiza\u00e7\u00e3o do conhecimento e possibilidades de alternativas que rompam com a l\u00f3gica monocultural pr\u00f3pria do capitalismo\/colonialismo. Contudo, para isso, devemos sair de nossas zonas de conforto e promover uma profunda autocr\u00edtica, recolocando na agenda a possibilidade de nos reabilitarmos em nossa humanidade. Como afirmou Frantz Fanon (2008), \u201c\u00e9 pela tens\u00e3o permanente de sua liberdade que os homens [e mulheres] podem criar as condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia ideais em um mundo humano [\u2026] sensibilizando o outro, sentindo o outro e revelando-me outro\u201d.<\/p>\n<p>A autonomia universit\u00e1ria na produ\u00e7\u00e3o de conhecimento sempre incomoda aqueles interessados na manuten\u00e7\u00e3o das estruturas de poder. O pensamento cr\u00edtico nunca \u00e9 bem-vindo quando privil\u00e9gios de uma elite s\u00e3o questionados. Apesar de refletir apenas uma parcela da popula\u00e7\u00e3o e dos interesses regionais, num contexto de golpe no pa\u00eds, que vive o congresso mais conservador dos \u00faltimos anos, junto a um cen\u00e1rio internacional de retrocesso, trata-se de uma amea\u00e7a concreta e preocupante. A extin\u00e7\u00e3o de universidades como a Unila e a Unilab representa uma afronta aos avan\u00e7os nos debates internacionais sobre direitos, autonomia e autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos, respeito \u00e0 diversidade, justi\u00e7a social e radicaliza\u00e7\u00e3o da democracia. \u00c9 um silenciamento brutal da luta por um mundo melhor.<\/p>\n<p>http:\/\/diplomatique.org.br\/o-desmonte-da-universidade-publica-e-branqueamento-cultural-outra-estrategia-do-genocidio\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Andr\u00e9ia Moassab, Marcos de Jesus e Vico Melo &#8211;\u00a0O branqueamento cultural como complemento do genoc\u00eddio \u00e9 um ponto de partida interessante para compreender os ataques ao direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o materializados pela opera\u00e7\u00e3o de desmonte das universidades p\u00fablicas estaduais e federais em curso e cujas consequ\u00eancias j\u00e1 s\u00e3o sentidas com maior intensidade pelos setores mais exclu\u00eddos 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