{"id":5120,"date":"2017-09-01T12:27:01","date_gmt":"2017-09-01T15:27:01","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=5120"},"modified":"2017-08-30T17:29:45","modified_gmt":"2017-08-30T20:29:45","slug":"minha-dor-nao-sai-no-jornal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/09\/01\/minha-dor-nao-sai-no-jornal\/","title":{"rendered":"MINHA DOR N\u00c3O SAI NO JORNAL"},"content":{"rendered":"<p><strong>NILTON CLAUDINO<\/strong> &#8211;\u00a0Eu era fot\u00f3grafo de\u00a0<em>O Dia<\/em>, em 2008, quando fui morar numa favela para fazer uma reportagem sobre as mil\u00edcias. Fui descoberto, torturado e humilhado. Perdi minha mulher, meus filhos, os amigos, a casa, o Rio, o sol, a praia, o futebol, tudo<\/p>\n<p>Era eu quem mais apanhava, porque chegara a beber cerveja com os milicianos, em busca de informa\u00e7\u00e3o. Um deles brincava de roleta russa com o rev\u00f3lver na minha cabe\u00e7a. Eu tinha certeza de que ser\u00edamos mortos. Eles falavam: vai morrer, vai morrer!<\/p>\n<p>N\u00e3o sou bandido, mas tenho medo de pol\u00edcia. Ando disfar\u00e7ado por ruas de uma cidade distante de minhas ra\u00edzes porque acho que estou sob amea\u00e7a de morte. Vivo ansioso e tenho dificuldade para dormir. Num laudo m\u00e9dico, minha psic\u00f3loga descreveu meu estado desta maneira: \u201cAgita\u00e7\u00e3o neurossensorial e fixa\u00e7\u00e3o mental em imagens que n\u00e3o conseguem se desprender e tomam de assalto a mente.\u201d<\/p>\n<p>Muitas vezes choro sozinho. Tenho pesadelos. Lembro-me de que um dos meus torturadores, quando eu estava ajoelhado, vendado e de m\u00e3os atadas, dizia no meu ouvido: \u201cSua vida nunca mais ser\u00e1 a mesma.\u201d Ele tinha raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Volta e meia, ainda ou\u00e7o com clareza, como se estivesse sendo repetida de fato, a m\u00fasica angelical que os bandidos tocaram no cativeiro. O som me lan\u00e7a de volta \u00e0quela escurid\u00e3o \u2013 estava encapuzado e ainda n\u00e3o imaginava o que aconteceria depois. Ouvia aquela m\u00fasica, criada para ser agrad\u00e1vel aos ouvidos, vinda de um aparelho de som port\u00e1til, a poucos metros de dist\u00e2ncia. Eram sons de flauta, suaves e tranquilos, que a liturgia religiosa associa aos anjos. Uma voz de pastor, no entanto, pregava de forma aterrorizante: \u201cEste homem que est\u00e1 com a faca em seu pesco\u00e7o vai mat\u00e1-lo. Entregue sua alma a Deus e arrependa-se dos seus pecados.\u201d<\/p>\n<p>A mensagem durava poucos minutos. Havia um intervalo de sil\u00eancio e a grava\u00e7\u00e3o recome\u00e7ava \u2013 de novo a flauta e a fala do pastor, como se fosse um CD em modo de repeti\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica. Esta era a parte branda dos supl\u00edcios que viria a sofrer. Tr\u00eas anos depois, em muitas madrugadas, ainda acordo sobressaltado, com essa melodia na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">A<\/span>proximei-me do jornalismo, em 1977, ao come\u00e7ar a trabalhar como mensageiro da sucursal carioca da revista\u00a0<em>Veja<\/em>. Depois, fui promovido a produtor da revista, com tarefas que inclu\u00edam pesquisas e envio do material dos fot\u00f3grafos para a sede, em S\u00e3o Paulo. Transferi-me mais tarde para a\u00a0<em>Placar<\/em>. Passava horas no laborat\u00f3rio, onde aprendi todas as t\u00e9cnicas poss\u00edveis. Prestava muita aten\u00e7\u00e3o, especialmente no trabalho de Ricardo Chaves, Rodolfo Machado e J. B. Scalco, este \u00faltimo um dos melhores rep\u00f3rteres fotogr\u00e1ficos de esportes que conheci.<\/p>\n<p>Num final de semana, sem outro fot\u00f3grafo dispon\u00edvel, empunhei a c\u00e2mera profissional pela primeira vez, para registrar um jogo do Campeonato Brasileiro. Assim ingressei na profiss\u00e3o que abra\u00e7aria pelo resto da vida. \u00c9 engra\u00e7ado que o futebol tenha me levado a ser fot\u00f3grafo. Sonhava ser jogador e cheguei a atuar no Madureira quando muito jovem.<\/p>\n<p>Frequentei a casa de Arthur Antunes de Coimbra, o Zico, em Quintino, na Zona Norte, depois de peladas em ch\u00e3o de terra batida que alimentaram a esperan\u00e7a de seguir os passos do craque j\u00e1 famoso \u2013 o maior jogador de futebol que vi atuar. Uma contus\u00e3o no joelho haveria de interromper minha trajet\u00f3ria, sempre dif\u00edcil desde que deixei o Pantanal mato-grossense, onde cresci entre dez irm\u00e3os, para tentar a sorte no Rio de Janeiro. Nasci em Corumb\u00e1, entre o Natal e o R\u00e9veillon de 1958, estudei em col\u00e9gio de padres e achei que seguiria a carreira religiosa. De certo modo, ser rep\u00f3rter fotogr\u00e1fico exigiu uma profiss\u00e3o de f\u00e9.<\/p>\n<p>Em 1990, comecei a trabalhar no\u00a0<em>Jornal do Brasil<\/em>, no qual conquistei reconhecimento profissional e pr\u00eamios internacionais. Em 1992, transferi-me para o jornal\u00a0<em>O Dia<\/em>, onde fui editor de fotografia por seis anos. Ganhei uma men\u00e7\u00e3o honrosa do Pr\u00eamio Vladimir Herzog com a foto\u00a0<em>Na Mira da Lei<\/em>, depois de morar, com o rep\u00f3rter Alo\u00edsio Freire, por duas semanas na favela da Mar\u00e9, investigando den\u00fancias sobre o chamado Comando Azul, um grupo de policiais militares metidos a justiceiros que cometiam atrocidades contra moradores e outros bandidos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">O<\/span>jornalismo me levaria a outra situa\u00e7\u00e3o de risco, em Capit\u00e1n Bado, no Paraguai. Acompanhado de um guia, chegara a uma grande planta\u00e7\u00e3o de maconha e come\u00e7ara a fotografar com uma minic\u00e2mera quando percebi a aproxima\u00e7\u00e3o de traficantes. Escondi a m\u00e1quina na cueca e peguei uma ab\u00f3bora enorme. Disse que estava roubando para comer. Sob a amea\u00e7a de fuzis AR-15, eu e o guia, que falava guarani, levamos um temp\u00e3o negociando a liberdade. Foi um susto que n\u00e3o me impediu de assumir outra pauta arriscada: passei 28 dias viajando em uma investiga\u00e7\u00e3o sobre o tr\u00e1fico de coca\u00edna para o Brasil, a partir do Peru e da Bol\u00edvia. O que mais me impressionou ali foi a mis\u00e9ria e o trabalho escravo de crian\u00e7as nas planta\u00e7\u00f5es de coca.<\/p>\n<p>O incentivo para o jornalismo investigativo veio do amigo Tim Lopes, rep\u00f3rter com quem trabalhei na\u00a0<em>Placar<\/em>, no\u00a0<em>JB<\/em>, n\u2019<em>O Dia<\/em>\u00a0e na Rede Globo. Tim foi chacinado em 2002 por traficantes do Complexo do Alem\u00e3o ao fazer uma reportagem sobre venda de drogas a c\u00e9u aberto numa favela, e apurava a realiza\u00e7\u00e3o de bailes funks com explora\u00e7\u00e3o sexual de menores de idade.<\/p>\n<p>Eu e os rep\u00f3rteres Alexandre Medeiros e Marcos Trist\u00e3o t\u00ednhamos come\u00e7ado a pedir ajuda nas favelas, em busca de uma pista que levasse ao paradeiro do Tim. Um dia, fui abordado por uma pessoa que se aproximou por tr\u00e1s e n\u00e3o se deixou ver: \u201cSobe o Complexo do Alem\u00e3o, vai at\u00e9 um lugar chamado Pedra do Sapo e manda cavar na sombra do bambuzal. O corpo est\u00e1 l\u00e1\u201d, disse. N\u00e3o pude voltar meu rosto em sua dire\u00e7\u00e3o. Se o fizesse, poderia morrer.<\/p>\n<p>O coronel Ven\u00e2ncio Moura, ent\u00e3o comandante do Bope, a tropa de elite da Pol\u00edcia Militar do Rio, investigou a informa\u00e7\u00e3o. Entrei mato adentro com os policiais, ao lado da rep\u00f3rter Albeniza Garcia. Os bombeiros fizeram a escava\u00e7\u00e3o. No segundo movimento da enxada, come\u00e7aram a aparecer ossos e a plaqueta de controle de patrim\u00f4nio da c\u00e2mera da Globo. Foi muito duro, mas eu tinha que fotografar. Come\u00e7amos todos a chorar. Era a ossada do amigo Tim Lopes. Tenho sempre comigo no bolso um livro de\u00a0<em>Salmos<\/em>\u00a0e comecei a ler o de n\u00famero 23, para tentar amenizar o desespero: \u201cO Senhor \u00e9 meu pastor; nada me faltar\u00e1.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">N<\/span>o come\u00e7o de 2008, fui chamado pelo diretor de reda\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>O Dia<\/em>, Alexandre Freeland, para uma pauta que tinha que ser cumprida sigilosamente: investigar um grupo de milicianos (policiais militares e civis, bombeiros, funcion\u00e1rios do sistema penitenci\u00e1rio) que atuava no Jardim Batan, uma favela encravada em Realengo, na Zona Oeste.<\/p>\n<p>O Batan foi uma grande fazenda, onde havia cria\u00e7\u00e3o de gado. Seu nome se origina de \u00e1rvore t\u00edpica, o ubat\u00e3 ou chibat\u00e3. Foi local de muitos confrontos violentos entre fac\u00e7\u00f5es criminosas, que procuravam controlar o tr\u00e1fico de drogas por l\u00e1. Em 2007, milicianos se juntaram e expulsaram os traficantes, assumindo neg\u00f3cios como a venda de g\u00e1s e a tev\u00ea a cabo pirata, o transporte de vans, e cobrando \u201ctaxa de seguran\u00e7a\u201d dos moradores.<\/p>\n<p>Para investigar essa realidade, eu, uma rep\u00f3rter de\u00a0<em>O Dia<\/em>\u00a0e um motorista do jornal nos mudamos para o Batan, onde conseguimos alugar uma casa. Chegamos l\u00e1 no dia 1\u00ba de maio de 2008, pela manh\u00e3. Fomos direto at\u00e9 a padaria das imedia\u00e7\u00f5es, que era do propriet\u00e1rio da casa que alugamos. Tomamos caf\u00e9 da manh\u00e3 ali, pegamos a chave de onde \u00edamos morar e fomos nos instalar.<\/p>\n<p>Era uma casa de tr\u00eas andares. Ficamos no terceiro. Descobrimos que n\u00e3o havia nada dentro. Come\u00e7amos contatos com moradores para que nos ajudassem a mobili\u00e1-la. O vizinho do 1\u00ba andar nos apresentou a outros da comunidade, quando tivemos a oportunidade de arrematar uma televis\u00e3o usada. No com\u00e9rcio de Bangu, compramos colchonetes e comida.<\/p>\n<p>Para me apresentar aos moradores, eu dizia ser do Pantanal, e que aguardava ser chamado para trabalhar em Maca\u00e9, numa prestadora de servi\u00e7o da Petrobras. Aproximei-me das pessoas com esse discurso porque os milicianos n\u00e3o querem por perto os que chamam de \u201cvagabundos\u201d: desempregado n\u00e3o \u00e9 tolerado. Fui ganhando confian\u00e7a dos vizinhos. Fiquei amigo do morador do 1\u00ba andar, que havia sido criado nas proximidades, onde tamb\u00e9m crescera o motorista que trabalhava para o jornal. Fiz churrasco na esquina de casa, como forma de ampliar nosso relacionamento.<\/p>\n<p>Fingia ser marido da rep\u00f3rter. Dizia que ela era evang\u00e9lica, tinha vindo de Minas Gerais e que o casamento me livrara do alcoolismo. Ela come\u00e7ou a frequentar uma igreja pr\u00f3xima de casa. Fomos vivendo desta forma: eu era um cara em busca de recupera\u00e7\u00e3o, ela arrumou um emprego de cozinheira. Todos acreditaram, o que nos permitiu come\u00e7ar a recolher informa\u00e7\u00f5es, discretamente.<\/p>\n<p>Todo dia pass\u00e1vamos um boletim para a reda\u00e7\u00e3o do jornal, por e-mail, enviado de uma lan house. Poucas pessoas do jornal sabiam que est\u00e1vamos nessa pauta. Para que ningu\u00e9m desconfiasse, dissemos na reda\u00e7\u00e3o que est\u00e1vamos em f\u00e9rias.<\/p>\n<p>Tudo parecia correr perfeitamente bem. O Dia das M\u00e3es caiu em 11 de maio. Fizemos um almo\u00e7o comemorativo para umas dez pessoas pr\u00f3ximas. Minha \u201cmulher mineira\u201d fez feij\u00e3o-tropeiro. Cozinhei talharim e dei rosas para as m\u00e3es em homenagem \u00e0 data. A\u00a0cada dia t\u00ednhamos mais amigos, e um deles nos deu um sof\u00e1 de presente. Pessoas comuns, realmente do bem.<\/p>\n<p>Sou muito crist\u00e3o. Oro todos os dias. Comecei a sentir que meu anjo da guarda queria me avisar de alguma coisa. Eu disse para a rep\u00f3rter que tinha tido vis\u00f5es de que ser\u00edamos descobertos. Lia muito as p\u00e1ginas de Habacuque, um dos profetas do Velho Testamento. Tinha tido a vis\u00e3o de que os milicianos arrombavam nossa porta. \u201cQue nada, est\u00e1 tudo bem\u201d, ela me respondia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">H<\/span>avia feito fotos importantes, como as que mostravam o castigo que a mil\u00edcia impunha a usu\u00e1rios de drogas. \u201cMaconheiros\u201d eram pintados de branco e mandados capinar e desfilar pelas ruas, para ficarem marcados pela comunidade. Outros tinham de ficar sentados por horas sobre tijolos quentes. O chefe da mil\u00edcia, que todos chamavam de 01 (Zero Um), usava um caibro, que chamava de Madalena. Os\u00a0moradores tinham muito medo da Madalena, usada em surras p\u00fablicas. Outro cassetete era jocosamente apelidado de \u201cDireitos Humanos\u201d.<\/p>\n<p>Havia guardas penitenci\u00e1rios e muita pol\u00edcia pelas ruas, o tempo todo. Pol\u00edcia com farda e sem farda. Eles bebiam com o carro da pol\u00edcia na porta do botequim. Fotografei isso tamb\u00e9m. Nunca vira, como vi l\u00e1, uma integrante da tropa feminina da Pol\u00edcia Militar atuar como miliciana. A PM loura do Batan, que andava com desenvoltura entre tantos outros fardados, foi uma das surpresas naquela apura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00e1 havia combinado com um motorista de Kombi que servia \u00e0 comunidade para que me levasse no dia seguinte at\u00e9 a rodovi\u00e1ria. Achava que o trabalho estava acabando. Todo o material que fotografava eu levava para a casa da m\u00e3e do motorista, que ficava do outro lado da avenida Brasil. N\u00e3o havia nenhum material jornal\u00edstico onde mor\u00e1vamos. Nunca usei flash. Eram fotos de luz natural, tiradas com velocidade baixa e modo de alta sensibilidade para ter boas imagens. Havia fotografado muito: a movimenta\u00e7\u00e3o pelas ruas, PMs b\u00eabados, castigos, puni\u00e7\u00f5es, carca\u00e7as de carros roubados acumuladas dentro\u00a0de um terreno do Ex\u00e9rcito, o dep\u00f3sito clandestino de g\u00e1s.<\/p>\n<p>\u00c0s 21h30 da quarta-feira, dia 14, falamos com o diretor de reda\u00e7\u00e3o. Eu sempre me reportava a ele. A possibilidade de envolvimento de um deputado e um vereador com a mil\u00edcia fez com que decid\u00edssemos estender nosso per\u00edodo por l\u00e1. Quer\u00edamos provas indesment\u00edveis.<\/p>\n<p>Quinze minutos depois desse telefonema, fui pego em frente \u00e0 pizzaria vizinha da nossa casa. J\u00e1 comecei apanhando muito. Gritavam que sabiam que eu era jornalista. Mandaram trazer a rep\u00f3rter, que estava no 3\u00ba andar. Ela resistiu, e eles a agrediram fortemente, for\u00e7ando-a a descer a escada aos tapas e pontap\u00e9s. Eu era quem mais apanhava, porque chegara a beber cerveja com os milicianos, em busca de informa\u00e7\u00e3o. Demonstravam \u00f3dio por terem sido enganados durante catorze dias.<\/p>\n<p>Fomos algemados, encapuzados com toucas pretas e enfiados no banco traseiro de um carro. Rodamos alguns minutos atr\u00e1s da chave de onde seria nosso cativeiro. Para evitar a avenida Brasil, nossos sequestradores entraram em uma estrada vicinal com muitos quebra-molas. No caminho, apanhamos mais. Um deles brincava de roleta russa com o rev\u00f3lver na minha cabe\u00e7a. Eu tinha certeza de que ser\u00edamos mortos. Ao chegarmos, notei que a casa que serviu de cativeiro parecia estar em constru\u00e7\u00e3o. Havia brita espalhada pelo ch\u00e3o. Eles falavam: vai morrer, vai morrer!<\/p>\n<p>O chefe, o chamado 01, sentou na minha frente. Tentei negociar. Disse: \u201cTenho moral no jornal. Vamos esquecer as porradas todas. Voc\u00ea libera a gente, e n\u00e3o falamos mais disso. N\u00e3o se mata jornalista. Veja o caso do Tim Lopes. Era meu irm\u00e3o, era um amigo muito ligado.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEnt\u00e3o parece que o problema \u00e9 com a fam\u00edlia\u201d, respondeu 01. \u201cVoc\u00ea vai morrer e precisa saber que foi alcaguetado por amigos de dentro do jornal. Vou provar: voc\u00ea tem na sua baia de trabalho as fotos de um de seus dois filhos tocando guitarra. Seus filhos s\u00e3o lindos. Voc\u00ea mora na Zona Sul\u201d, disse, completando em seguida com meu endere\u00e7o exato.<\/p>\n<p>Gelei, e ele continuou: \u201cVoc\u00eas s\u00e3o uns bund\u00f5es. Foram alcaguetados por seus amigos. Temos informantes em tudo o que \u00e9 jornal e televis\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Ele ent\u00e3o deu uma ordem: \u201cChama o cinegrafista.\u201d Nossa tortura foi filmada. Algu\u00e9m, um dia, vai obter essa fita da tortura que sofremos. O que passamos l\u00e1, eles fizeram quest\u00e3o de gravar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">F<\/span>iquei encapuzado a maior parte do tempo. Mas sabia que havia em volta muitos policiais. Sentia os chutes vindos de coturnos. O Zero Um saiu. \u00c0 dist\u00e2ncia, bois mugiam. E\u00a0come\u00e7ou o som da flauta e a voz de pastor pregando: \u201cEste homem que est\u00e1 com a faca em seu pesco\u00e7o vai mat\u00e1-lo. Entregue sua alma a Deus e arrependa-se dos seus pecados.\u201d Teatralmente, um homem colocava a faca em meu pesco\u00e7o cada vez que tocava a grava\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entre as sess\u00f5es de torturas, hav\u00edamos passado por cinco \u201ctribunais\u201d, as ocasi\u00f5es em que os milicianos se reuniam e julgavam qual seria o nosso destino. Nos cinco, anunciaram nossa senten\u00e7a de morte. Pretendiam nos levar para a favela do Fumac\u00ea, ali do lado, queimar nossos corpos e dizer que haviam sido os traficantes que nos mataram. Discutiram tamb\u00e9m convocar moradores do Batan para que f\u00f4ssemos apedrejados em pra\u00e7a p\u00fablica, como traidores. N\u00e3o tenho d\u00favida de que, se mandassem, os moradores, tiranizados por eles, poderiam nos apedrejar.<\/p>\n<p>A\u00ed chegou aquele que todos chamavam de \u201cCoronel\u201d. Pegaram as senhas de meu e-mail e do da rep\u00f3rter. Leram todos os relat\u00f3rios que pass\u00e1ramos para o jornal. Eu falava das fotos que tinha tirado, descrevia-as com detalhes; a rep\u00f3rter contextualizava as informa\u00e7\u00f5es que recolhera. A par de tudo, o Coronel decidiu que ir\u00edamos sobreviver. Mas tomamos mais porradas. Os milicianos ainda se referiam a outro chefe, a quem chamavam de \u201cComandante\u201d.<\/p>\n<p>Durante a tortura, est\u00e1vamos lado a lado, eu, a rep\u00f3rter e o motorista. Num quarto escuro, s\u00f3 iluminado por telas de celulares, que usavam para que pud\u00e9ssemos assistir uns aos outros serem subjugados. O motorista pedia para que eu afastasse escorpi\u00f5es que subiam por suas costas. N\u00e3o podia ajud\u00e1-lo. Ouv\u00edamos passos de muitos PMs. Tiraram nossos capuzes e substitu\u00edram por sacos pl\u00e1sticos, parecidos com os de supermercados. Com eles, produziam asfixiamentos tempor\u00e1rios. Mas dava para ver as fardas quando olhava por baixo do pl\u00e1stico.<\/p>\n<p>A rep\u00f3rter reconheceu a voz de um vereador, filho de um deputado estadual. E ele a reconheceu. Recome\u00e7ou a porradaria. Esse pol\u00edtico me batia muito. Perguntava o que eu tinha ido fazer na Zona Oeste. Questionava se eu n\u00e3o amava meus filhos. Os agressores estavam com toucas do tipo ninja. Houve um momento em que achei que tinha morrido. Senti como se estivesse subindo para o c\u00e9u, mas n\u00e3o era minha vez. Tive que voltar para contar. Deus fez que eu voltasse.<\/p>\n<p>Cada vez chegavam mais cambur\u00f5es. Depois que apanhamos muito, levaram-nos para a sess\u00e3o de choque. Era um instrumento que tinha o formato de uma pizza com um cano no meio. Tiraram minha roupa e me davam choques na regi\u00e3o baixa e nos p\u00e9s. N\u00e3o posso, n\u00e3o devo, n\u00e3o quero entrar nos detalhes das brutalidades e das humilha\u00e7\u00f5es que sofremos.<\/p>\n<p>Fomos levados para a casa dos pais do motorista, para que os milicianos pudessem pegar os cart\u00f5es de mem\u00f3ria e a m\u00e1quina fotogr\u00e1fica. N\u00e3o havia deixado a m\u00e1quina dentro da comunidade em nenhum momento. Usava escondido e guardava em \u00e1rea vizinha para que n\u00e3o nos comprometesse a seguran\u00e7a. Chegamos em comboio, durante a madrugada.<\/p>\n<p>Os pais do motorista sa\u00edram de casa assustados. Os milicianos pediram para que eu os ensinasse a fotografar. Eles nos retrataram. Ensinei a mudar a ASA da m\u00e1quina (aumentar ou diminuir a sensibilidade \u00e0 luz). Fotografaram-me como a imprensa policial faz com os bandidos, for\u00e7ando-nos a levantar o queixo com as m\u00e3os. Eles t\u00eam nossas fotos como pr\u00eamio. Por isso, n\u00e3o posso voltar para o Rio at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">F<\/span>omos soltos \u00e0s quatro e meia da madrugada, na avenida Brasil, depois de mais de sete horas de tortura e sev\u00edcias. O pai do motorista dirigiu o carro que nos tirou da favela. Eu queria ir para um quartel do Ex\u00e9rcito. Mas queria falar primeiro com a dire\u00e7\u00e3o do jornal.<\/p>\n<p>Quando est\u00e1vamos na altura da Esta\u00e7\u00e3o Leopoldina, logo ap\u00f3s a sa\u00edda da avenida Brasil, entramos numa grande discuss\u00e3o. A rep\u00f3rter revelou que os torturadores a chamaram por um apelido pelo qual ela s\u00f3 era conhecida na reda\u00e7\u00e3o. A certeza da trai\u00e7\u00e3o nos deixou inseguros. Fomos para minha casa. Minha mulher disse: \u201cN\u00e3o falei que isso iria acontecer?\u201d Abracei meu filho, que acabara de acordar. Eram quase seis horas. Est\u00e1vamos descal\u00e7os, feridos, destru\u00eddos. Tomamos banho na minha casa. Meu filho foi para a escola. Come\u00e7ou a pior tortura: a fam\u00edlia conviver com o medo, para o resto da vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">C<\/span>hegaram \u00e0 casa o diretor de reda\u00e7\u00e3o e uma editora-executiva. Ligaram para a dona do jornal, a Gigi Carvalho, filha do antigo dono de\u00a0<em>O Dia<\/em>, Ary Carvalho. Um ano e meio depois, ela venderia o jornal para um grupo portugu\u00eas. Eles falaram com o secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a, Jos\u00e9 Mariano Beltrame.<\/p>\n<p>Naquela manh\u00e3, depois de liberados pelos sequestradores, estranhamente, n\u00e3o me levaram para fazer exame de corpo de delito. Fui para o Hospital Copa D\u2019Or, onde, mais estranho ainda, fui instru\u00eddo a falar que havia ca\u00eddo do cavalo. N\u00e3o podia contar que tinha sido torturado. Em casa, vi que havia uns caras na porta, com jeito de policiais. Est\u00e1vamos sendo vigiados.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou a nossa fuga. Eu, meus filhos e minha mulher fomos primeiro para a serra fluminense. Na edi\u00e7\u00e3o de domingo, 1\u00ba de junho, duas semanas depois de cairmos nas m\u00e3os da mil\u00edcia, o jornal enfim trouxe o caso a p\u00fablico. \u201cTortura \u2013 mil\u00edcia da Zona Oeste sequestra e espanca rep\u00f3rter, fot\u00f3grafo e motorista de\u00a0<em>O Dia<\/em>\u201d, era o\u00a0enunciado.<\/p>\n<p>Nessa altura, eu estava num quartel dos fuzileiros navais, longe de tudo. Recebi um telefonema dizendo que havia fuzileiros navais entre os milicianos do Rio, e que minha vida estava em risco. N\u00e3o sei como me acharam l\u00e1.<\/p>\n<p>Foi quando minha sobrinha, uma adolescente, foi v\u00edtima de uma tentativa de sequestro. Tentaram peg\u00e1-la na sa\u00edda da escola e s\u00f3 n\u00e3o conseguiram porque um senhor de 70 anos conseguiu tir\u00e1-la das m\u00e3os dos sequestradores. S\u00f3 Deus sabe onde ele arrumou for\u00e7as para tal. Minha sobrinha est\u00e1 traumatizada at\u00e9 hoje. Ligaram para a m\u00e3e dela e disseram que era \u201cmuita coincid\u00eancia\u201d ter ocorrido a minha fuga e a tentativa de sequestro da sobrinha no mesmo momento. Falaram que n\u00e3o\u00a0me deixariam em paz. Afirmaram que\u00a0me matariam.<\/p>\n<p>O Brasil n\u00e3o era seguro para mim. Decidi fugir para a Bol\u00edvia. Escondi-me numa cidade de 20\u00a0mil habitantes na regi\u00e3o de Santa Cruz. Passadas as primeiras semanas, sentia saudade de minha fam\u00edlia, que estava em uma cidade praiana no sul do Brasil. Fui encontr\u00e1-los num hotel de frente para o mar.<\/p>\n<p>Minha mulher e meus filhos n\u00e3o falavam comigo. Ver o sofrimento deles foi a dor maior que senti. Tive vontade de me matar, de me jogar do 20\u00ba\u00a0andar do hotel. Aquilo foi me consumindo. O \u00fanico que me entendia e me dava carinho era S\u00e1vio, meu cachorro. Como se n\u00e3o bastasse tudo que passara, S\u00e1vio morreu.<\/p>\n<p>Abandonei minha fam\u00edlia. Fiquei quinze dias sumido. Voltei para pegar minhas coisas e anunciar que os deixaria viver em paz, o que n\u00e3o seria poss\u00edvel comigo por perto.<\/p>\n<p>Mudei para uma cidade distante onde vivo hoje. Sofro sozinho. Meus amigos do Rio n\u00e3o podem falar comigo, nunca mais os vi. Com a possibilidade de ter sido tra\u00eddo por algum companheiro de trabalho, n\u00e3o posso falar com ningu\u00e9m da reda\u00e7\u00e3o d\u2019<em>O Dia<\/em>. O ministro da Justi\u00e7a chegou a propor que uma nova identidade me fosse fornecida, o que nunca ocorreu.<\/p>\n<p>No Rio, correu o inqu\u00e9rito. Descobriu-se quem eram os l\u00edderes dos milicianos. Zero Um era o policial civil Odinei Fernando da Silva, tamb\u00e9m chefe de um grupo paramilitar denominado \u00c1guia. Zero Dois era Davi Liberato de Ara\u00fajo, um presidi\u00e1rio que vivia fora da cadeia gra\u00e7as ao envolvimento de guardas penitenci\u00e1rios com a mil\u00edcia. Os dois foram sentenciados pela Justi\u00e7a a 31 anos de pris\u00e3o, mas recentemente a pena foi reduzida para vinte anos. No Batan, criou-se uma Unidade de Pol\u00edcia Pacificadora.<\/p>\n<p>E n\u00e3o aconteceu nada com o vereador e o deputado estadual cujas vozes minha companheira rep\u00f3rter reconheceu no cativeiro. Eles negaram envolvimento com a mil\u00edcia e nunca foram punidos. Agora mesmo, em julho passado, o deputado apareceu ao lado do governador do Rio numa foto de inaugura\u00e7\u00e3o, n\u00e3o muito longe de onde fomos torturados.<\/p>\n<p>Alguns dos bandidos est\u00e3o na cadeia, mas parece que o bandido sou eu. Imagino que, a cada dia deles na pris\u00e3o, mais me odeiem. Imagino quantos milicianos perderam dinheiro quando a quadrilha do Batan foi desmantelada, e quantos querem minha morte por isso, at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">R<\/span>etomar a vida \u00e9 dif\u00edcil. Fa\u00e7o tratamento psicol\u00f3gico e psiqui\u00e1trico, tomo uma d\u00fazia de rem\u00e9dios. Quase n\u00e3o vejo meus filhos, que est\u00e3o crescendo longe de mim. Tenho agora um neto que mal conhe\u00e7o. N\u00e3o soube mais nada da rep\u00f3rter e do motorista, sumiram. Esqueci dos amigos. Preciso de fotos para me lembrar do rosto de quem gosto. Mas me lembro nitidamente dos que me torturaram.<\/p>\n<p>Valeu a pena? Foi a profiss\u00e3o que escolhi. Mas o que mais d\u00f3i \u00e9 que fomos delatados por colegas da reda\u00e7\u00e3o. Eu achava que nunca tinha tido inimigos.<\/p>\n<p>N\u00e3o fotografei durante o per\u00edodo que fugia. Voltei a tirar fotos n\u00e3o faz muito tempo. Antes, eu mandava ajuda para algumas crian\u00e7as da favela da Rocinha. Uma fam\u00edlia com nove meninos. Nas festas de Nossa Senhora Aparecida, no Pantanal, tamb\u00e9m dava presentes para crian\u00e7as. Uma vez por m\u00eas, participava da distribui\u00e7\u00e3o de sopa para quem vive nas ruas.<\/p>\n<p>Hoje n\u00e3o fa\u00e7o mais nada disso. Tamb\u00e9m perdi o Rio, a praia, o sol, o futebol e a cervejinha com os amigos. De vez em quando, algu\u00e9m me diz que tudo j\u00e1 acabou. Acabou para quem? Para mim, n\u00e3o. A tortura continua. Tudo culpa daqueles filhos da puta.<\/p>\n<p>http:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/minha-dor-nao-sai-no-jornal\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>NILTON CLAUDINO &#8211;\u00a0Eu era fot\u00f3grafo de\u00a0O Dia, em 2008, quando fui morar numa favela para fazer uma reportagem sobre as mil\u00edcias. Fui descoberto, torturado e humilhado. 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