{"id":5067,"date":"2017-08-30T12:25:05","date_gmt":"2017-08-30T15:25:05","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=5067"},"modified":"2017-08-23T12:27:19","modified_gmt":"2017-08-23T15:27:19","slug":"onze-teses-sobre-a-venezuela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/08\/30\/onze-teses-sobre-a-venezuela\/","title":{"rendered":"Onze teses sobre a Venezuela"},"content":{"rendered":"<p><strong>Juan Carlos Monedero<\/strong> &#8211;\u00a0\u201cE ele se empenhava em repetir a mesma coisa: \u2018Isso n\u00e3o \u00e9 como numa guerra&#8230; Em uma batalha voc\u00ea est\u00e1 com o inimigo na tua frente&#8230; Aqui, o perigo n\u00e3o tem rosto nem hor\u00e1rio\u2019. Ele se negava a tomar son\u00edferos ou calmantes: \u2018N\u00e3o quero que me peguem dormindo ou sonolento. Se vierem, eu vou me defender, gritar, jogar os m\u00f3veis pela janela&#8230; Farei um esc\u00e2ndalo&#8230;\u201d. (Alejo Carpentier, La consagraci\u00f3n de la primavera)<\/p>\n<p>1. Com toda a certeza, Nicol\u00e1s Maduro n\u00e3o \u00e9 Salvador Allende. E tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 Hugo Ch\u00e1vez. Mas aqueles que deram o golpe contra Allende e contra Ch\u00e1vez s\u00e3o, e sobre isso tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida alguma, os mesmos que agora est\u00e3o buscando um golpe na Venezuela.<\/p>\n<p>2. Os inimigos dos seus inimigos n\u00e3o s\u00e3o seus amigos. Voc\u00ea pode n\u00e3o gostar de Maduro sem que isso implique esquecer que nenhum democrata pode colocar-se do lado dos golpistas que inventaram os esquadr\u00f5es da morte, os voos da morte, o paramilitarismo, o assassinato da cultura, a Opera\u00e7\u00e3o Condor, os massacres de camponeses e ind\u00edgenas, o roubo dos recursos p\u00fablicos. \u00c9 compreens\u00edvel que haja pessoas que n\u00e3o querem colocar-se do lado de Maduro, mas \u00e9 conveniente pensar que, do lado que apoia os golpistas, est\u00e3o, na Europa, os pol\u00edticos corruptos, os jornalistas mercen\u00e1rios, os nost\u00e1lgicos do franquismo, os empres\u00e1rios inescrupulosos, os comerciantes de armas, os defensores dos ajustes econ\u00f4micos, aqueles que celebram o neoliberalismo.<\/p>\n<p>Nem todos aqueles que criticam Maduro defendem essas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Conhe\u00e7o pessoas honestas que n\u00e3o suportam o que est\u00e1 acontecendo neste momento na Venezuela. Mas \u00e9 evidente que, do lado daqueles que est\u00e3o buscando um golpe militar nesse pa\u00eds, est\u00e3o aqueles que sempre apoiaram os golpes militares na Am\u00e9rica Latina ou aqueles que colocam seus neg\u00f3cios acima do respeito \u00e0 democracia. Os meios de comunica\u00e7\u00e3o que est\u00e3o preparando a guerra civil na Venezuela s\u00e3o os mesmos conglomerados midi\u00e1ticos que venderam a informa\u00e7\u00e3o de que no Iraque havia armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa, que nos vendem a ideia de que \u00e9 preciso resgatar os bancos com dinheiro p\u00fablico ou que defendem que a orgia dos milion\u00e1rios e dos corruptos deve ser paga por todos com cortes e privatiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Saber que se compartilha trincheira com esse tipo de pessoas deveria chamar \u00e0 reflex\u00e3o. A viol\u00eancia sempre deve ser a linha vermelha que n\u00e3o deve ser ultrapassada. N\u00e3o faz sentido que o \u00f3dio a Maduro coloque qualquer pessoa decente do lado dos inimigos dos povos.<\/p>\n<p>3. Maduro herdou um papel muito dif\u00edcil \u2013 administrar a Venezuela em um momento de queda dos pre\u00e7os do petr\u00f3leo e do retorno dos Estados Unidos \u00e0 Am\u00e9rica Latina depois da terr\u00edvel aventura no Oriente M\u00e9dio \u2013 e uma miss\u00e3o imposs\u00edvel \u2013 substituir Ch\u00e1vez. A morte de Ch\u00e1vez privou a Venezuela e a Am\u00e9rica Latina de um l\u00edder capaz de colocar em marcha pol\u00edticas que tiraram 70 milh\u00f5es de pessoas da pobreza no continente.<\/p>\n<p>Ch\u00e1vez entendeu que a democracia em um s\u00f3 pa\u00eds era imposs\u00edvel e disp\u00f4s seus recursos, em um momento de bonan\u00e7a gra\u00e7as \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o da OPEP, para que se iniciasse a etapa mais brilhante das \u00faltimas d\u00e9cadas no continente: Lula no Brasil, Correa no Equador, Morales na Bol\u00edvia, Kirchner na Argentina, Lugo no Paraguai, Mujica no Uruguai, Funes em El Salvador, Petro em Bogot\u00e1 e inclusive Bachelet no Chile referenciavam essa nova etapa.<\/p>\n<p>A educa\u00e7\u00e3o e a sa\u00fade chegaram aos setores populares, completou-se a alfabetiza\u00e7\u00e3o, foram constru\u00eddas moradias p\u00fablicas, novas infra-estruturas, transportes p\u00fablicos (depois da privatiza\u00e7\u00e3o dos mesmos ou da venda e da desativa\u00e7\u00e3o dos trens), freou-se a depend\u00eancia do FMI, enfraqueceram-se os v\u00ednculos com os Estados Unidos com a cria\u00e7\u00e3o da Unasul e da Celac. Tamb\u00e9m h\u00e1 sombras, principalmente vinculadas \u00e0 fraqueza estatal e \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o. Mas seria necess\u00e1rio um s\u00e9culo para que os casos de corrup\u00e7\u00e3o nos governos progressistas da Am\u00e9rica Latina sumissem, para mencionar apenas um assunto, o custo da corrup\u00e7\u00e3o significa o resgate banc\u00e1rio.<\/p>\n<p>A propaganda dos donos da propaganda acabou conseguindo que o oprimido ame o opressor. Nunca, desde a demoniza\u00e7\u00e3o de Fidel Castro, um l\u00edder latino-americano foi t\u00e3o vilipendiado como Ch\u00e1vez. Para repartir entre os pobres, foi preciso dizer aos ricos da Am\u00e9rica e tamb\u00e9m da Europa, que tinham que ganhar um pouco menos. Eles nunca toleraram isso, o que se pode entender, especialmente na Espanha, onde, no meio da crise, respons\u00e1veis econ\u00f4micos e pol\u00edticos do Partido Popular roubavam a m\u00e3os cheias enquanto diziam \u00e0 popula\u00e7\u00e3o que tinha que apertar o cinto. Iria Ch\u00e1vez, esse \u201cgorila\u201d, frear seus neg\u00f3cios?<\/p>\n<p>Desde que ganhou as primeiras elei\u00e7\u00f5es em 1998, Ch\u00e1vez teve que enfrentar numerosas tentativas de derrub\u00e1-lo. Evidentemente, com a inestim\u00e1vel ajuda da direita espanhola, primeiro com Aznar, depois com Rajoy, e a j\u00e1 conhecida participa\u00e7\u00e3o de Felipe Gonz\u00e1lez como lobista de grandes capitais. (\u00c9 curioso que o pr\u00f3prio Aznar, que fez neg\u00f3cios com a Venezuela e com a L\u00edbia, depois se tenha convertido em executor quando foi ordenado. Kadafi chegou a dar inclusive a Aznar um cavalo. Pablo Casado foi o assistente de Aznar nessa opera\u00e7\u00e3o. Depois, coisas da direita, celebraram seu assassinato.)<\/p>\n<p>4. Ch\u00e1vez n\u00e3o legou a Maduro os equil\u00edbrios nacionais e regionais que construiu, que eram pol\u00edticos, econ\u00f4micos e territoriais. Eram uma constru\u00e7\u00e3o pessoal em um pa\u00eds que sa\u00eda de taxas de pobreza de 60% da popula\u00e7\u00e3o quando Ch\u00e1vez chegou ao governo. H\u00e1 mudan\u00e7as que precisam de uma gera\u00e7\u00e3o. \u00c9 a\u00ed que a oposi\u00e7\u00e3o quer estrangular Maduro, com problemas mal resolvidos como as importa\u00e7\u00f5es, os d\u00f3lares preferenciais ou as dificuldades para frear a corrup\u00e7\u00e3o, que desembocam em desabastecimento. No entanto, Maduro soube reeditar o acordo \u201cc\u00edvico-militar\u201d que tanto incomoda os amigos do golpismo. Algo evidente, pois os Estados Unidos sempre deram os golpes buscando apoios em militares aut\u00f3ctones mercen\u00e1rios ou desertores.<\/p>\n<p>O Ex\u00e9rcito na Am\u00e9rica Latina s\u00f3 \u00e9 compreendido em rela\u00e7\u00e3o com os Estados Unidos. Os ex\u00e9rcitos da Am\u00e9rica Latina foram treinados nos Estados Unidos, seja em t\u00e1ticas de tortura ou na \u201cluta contra-insurgente\u201d, seja no uso de armas que lhes vendem ou no respeito devido aos interesses norte-americanos. Na Venezuela, aqueles que formaram os assassinos da Escola Mec\u00e2nica da Armada (ESMA) argentina ou que apoiaram o assassino Pinochet encontram-se em dificuldades (o assalto de mercen\u00e1rios vestidos de militares a um quartel de Carabobo visava passar a sensa\u00e7\u00e3o de divis\u00e3o no Ex\u00e9rcito, algo que atualmente n\u00e3o parece existir).<\/p>\n<p>Do mesmo modo como compraram militares, os Estados Unidos sempre compraram ju\u00edzes, jornalistas, professores, deputados, senadores, presidentes, assassinos e qualquer um que fosse necess\u00e1rio para manter a Am\u00e9rica como seu \u201cquintal\u201d. O cartel midi\u00e1tico internacional sempre lhes deu cobertura. \u00c9 a exist\u00eancia dos Estados Unidos como imp\u00e9rio que construiu o ex\u00e9rcito venezuelano. Os novos oficiais se formaram no discurso democr\u00e1tico soberano e anti-imperialista. Eles s\u00e3o maioria. H\u00e1 tamb\u00e9m uma oficialidade \u2013 a maioria j\u00e1 aposentada \u2013 que se formou na velha escola, e suas raz\u00f5es para defender a Constitui\u00e7\u00e3o venezuelana ser\u00e3o mais particulares.<\/p>\n<p>As defici\u00eancias do Estado venezuelano afetam tamb\u00e9m o ex\u00e9rcito, especialmente em \u00e1reas problem\u00e1ticas como as fronteiras. Mas os quart\u00e9is na Venezuela est\u00e3o com o presidente constitucional. Por isso, \u00e9 ainda mais pat\u00e9tico ouvir o democrata Felipe Gonz\u00e1lez pedir aos militares venezuelanos que deem um golpe contra o governo de Nicol\u00e1s Maduro.<\/p>\n<p>5. \u00c0s dificuldades de herdar os equil\u00edbrios estatais e dos acordos na regi\u00e3o (a amizade de Ch\u00e1vez com os Kirchner, Lula, Evo, Correa e Lugo), \u00e9 preciso acrescentar que a contenda da Ar\u00e1bia Saudita com o fracking e com a R\u00fassia baixou drasticamente os pre\u00e7os do petr\u00f3leo, principal riqueza da Venezuela. Essa queda inesperada do pre\u00e7o do petr\u00f3leo colocou o governo de Maduro em uma situa\u00e7\u00e3o complicada (este \u00e9 o problema da \u201cmonocultura\u201d. Basta, para entender isso, pensar o que aconteceria na Espanha se o turismo tivesse uma queda de 80% por causas alheias ao governo. Em semelhante situa\u00e7\u00e3o, teria Rajoy sete ou oito milh\u00f5es de votos?). Maduro teve que reconstruir os equil\u00edbrios de poder em um momento de crise econ\u00f4mica brutal.<\/p>\n<p>6. A oposi\u00e7\u00e3o na Venezuela est\u00e1 tentando dar um golpe de Estado desde o dia em que Ch\u00e1vez ganhou. A Venezuela foi a carranca de proa da mudan\u00e7a continental. Acabar com a Venezuela \u00e9 abrir a v\u00e1lvula para que aconte\u00e7a o mesmo que aconteceu nos pa\u00edses em que o neoliberalismo ainda n\u00e3o voltou. As oligarquias est\u00e3o incomodadas com os s\u00edmbolos que enfraquecem seus pontos de vista. Isso aconteceu com a II Rep\u00fablica em 1936 e aconteceu tamb\u00e9m no Chile com Allende em 1973. Acabar com a Venezuela chavista \u00e9 voltar \u00e0 hegemonia neoliberal e, inclusive, \u00e0s tenta\u00e7\u00f5es ditatoriais dos anos 1970.<\/p>\n<p>7. A Venezuela tem, al\u00e9m disso, as maiores reservas de petr\u00f3leo do mundo, \u00e1gua, biodiversidade, Amaz\u00f4nia, ouro, coltan \u2013 talvez a maior reserva de coltan do mundo. Os mesmos que levaram a destrui\u00e7\u00e3o \u00e0 S\u00edria, ao Iraque ou \u00e0 L\u00edbia para roubar o petr\u00f3leo querem fazer o mesmo na Venezuela. Eles precisam ganhar primeiro a opini\u00e3o p\u00fablica para que o roubo n\u00e3o seja t\u00e3o \u00f3bvio. Eles precisam reproduzir na Venezuela a mesma estrat\u00e9gia que constru\u00edram quando falavam de armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa no Iraque. Ou ser\u00e1 que muita gente honesta n\u00e3o acreditou que havia armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa no Iraque? Hoje, aquele pa\u00eds anteriormente pr\u00f3spero \u00e9 uma ru\u00edna.<\/p>\n<p>Quem acreditou nas mentiras do PP, que veja como est\u00e1 hoje Mosul. Parab\u00e9ns aos ing\u00eanuos. As mentiras acontecem todos os dias. A oposi\u00e7\u00e3o colocou uma bomba na passagem de policiais em Caracas e todos os meios impressos publicaram a foto como se a responsabilidade fosse de Maduro. Um helic\u00f3ptero roubado lan\u00e7ou granadas sobre o Supremo Tribunal e a m\u00eddia silenciou. S\u00e3o atos terroristas. Desses que ilustram as capas de jornais e abrem os telejornais. Exceto quando acontecem na Venezuela. Um referendo ilegal na Venezuela \u201cpressiona o regime at\u00e9 o limite\u201d. Um referendo ilegal na Catalunha \u00e9 um ato pr\u00f3ximo ao crime de sedi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>8. O cartel midi\u00e1tico internacional encontrou um fil\u00e3o. Trata-se de uma reedi\u00e7\u00e3o do medo diante da R\u00fassia comunista, da Cuba ditatorial ou do terrorismo internacional (nunca diriam que o Estado Isl\u00e2mico \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o ocidental financiada principalmente com capital norte-americano). A Venezuela transformou-se no novo dem\u00f4nio. Isso permite que eles acusem os advers\u00e1rios de \u201cchavistas\u201d e evitem falar da corrup\u00e7\u00e3o, do esvaziamento das pens\u00f5es, da privatiza\u00e7\u00e3o dos hospitais, das escolas e das universidades ou dos resgates banc\u00e1rios. M\u00e9lenchon, Corbyn, Sanders, o Podemos ou qualquer for\u00e7a de mudan\u00e7a na Am\u00e9rica Latina s\u00e3o desqualificados com a acusa\u00e7\u00e3o de serem chavistas, agora que acusar de comunistas ou de etarras (ETA) est\u00e1 fora de moda. O jornalismo mercen\u00e1rio est\u00e1 h\u00e1 anos com esta estrat\u00e9gia. Ningu\u00e9m nunca explicou quais pol\u00edticas genuinamente bolivarianas os programas dos partidos de mudan\u00e7a devem conter. Mas d\u00e1 no mesmo.<\/p>\n<p>O importante \u00e9 difamar. E pessoas de boa vontade acabam acreditando que h\u00e1 armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa ou que a Venezuela \u00e9 uma ditadura onde, curiosamente, todos os dias a oposi\u00e7\u00e3o se manifesta (inclusive atacando instala\u00e7\u00f5es militares), onde os meios de comunica\u00e7\u00e3o criticam livremente Maduro (n\u00e3o como na Ar\u00e1bia Saudita, no Marrocos ou nos Estados Unidos) ou onde a oposi\u00e7\u00e3o governa em prefeituras ou regi\u00f5es. \u00c9 a mesma t\u00e1tica que, durante a guerra fria, construiu o \u201cperigo comunista\u201d. \u00c9 por isso que na Espanha, com a Venezuela, temos uma nova Comunidade Aut\u00f4noma, sobre a qual s\u00f3 falta anunciar, no final dos telejornais, a previs\u00e3o do tempo para Caracas nesse dia. De cada 100 vezes que se diz \u201cVenezuela\u201d, 95 vezes buscam distrair, ocultar ou mentir.<\/p>\n<p>9. A Venezuela tem um problema hist\u00f3rico que n\u00e3o foi resolvido. Durante a col\u00f4nia, pelo fato de n\u00e3o ter minas, n\u00e3o foi elevada ao status de vice-reinado, mas permaneceu uma simples capitania geral. O s\u00e9culo XIX foi uma guerra civil permanente, e no s\u00e9culo XX, quando se come\u00e7ou a construir o Estado, o pa\u00eds j\u00e1 tinha petr\u00f3leo. O Estado venezuelano sempre foi rentista, ineficiente, vazado pela corrup\u00e7\u00e3o e ref\u00e9m das necessidades econ\u00f4micas dos Estados Unidos acordadas com as oligarquias locais. O choque entre a Assembleia e a presid\u00eancia do atual Estado deveria ter sido resolvido juridicamente. Sinais da inefici\u00eancia s\u00e3o vis\u00edveis h\u00e1 tempos. O rentismo venezuelano n\u00e3o foi superado. A Venezuela redistribuiu a renda do petr\u00f3leo entre os mais humildes, mas n\u00e3o superou essa cultura pol\u00edtica rentista nem melhorou o funcionamento de seu Estado.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o nos enganemos. O Brasil tem uma estrutura jur\u00eddica mais consolidada e o Parlamento e alguns ju\u00edzes deram um golpe de Estado contra Dilma Rousseff. Donald Trump pode mudar a procuradora-geral e nada acontece, mas se Maduro fizer isso, o chefe de Estado tamb\u00e9m eleito em elei\u00e7\u00f5es, ser\u00e1 acusado de ditador. Uma parte das cr\u00edticas a Maduro \u00e9 enganosa porque esquece que a Venezuela \u00e9 um sistema presidencialista. \u00c9 por isso que a Constitui\u00e7\u00e3o permite ao presidente convocar uma Assembleia Constituinte. Quer gostemos ou n\u00e3o, mas o artigo 348 da Constitui\u00e7\u00e3o vigente na Venezuela habilita o presidente para essa tarefa, assim como na Espanha o presidente do Governo pode dissolver o Parlamento.<\/p>\n<p>10. Zapatero e outros ex-presidentes, o Papa, as Na\u00e7\u00f5es Unidas v\u00eam pedindo a ambas as partes na Venezuela para que dialoguem. A oposi\u00e7\u00e3o conseguiu em torno de sete milh\u00f5es de votos (embora seja mais complicado que cheguem a esse acordo em torno de um candidato ou candidata \u00e0 presid\u00eancia do pa\u00eds). Maduro, em um contexto regional muito complicado, com fortes restri\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas que afetam a compra de insumos b\u00e1sicos, incluindo medicamentos, conseguiu granjear oito milh\u00f5es de votos (mesmo que sejam sete milh\u00f5es, segundo as declara\u00e7\u00f5es t\u00e3o suspeitas do presidente da Smarmatic, que acaba de assinar um contrato milion\u00e1rio na Col\u00f4mbia).<\/p>\n<p>A Venezuela est\u00e1 claramente dividida. A oposi\u00e7\u00e3o, como outras vezes, optou pela viol\u00eancia e depois n\u00e3o entende que Maduro some tantos milh\u00f5es de apoios. Se na Espanha um grupo queimasse postos de sa\u00fade, escolas, atirasse contra o Supremo Tribunal, assaltasse quart\u00e9is, contratasse marginais para semear o terror, bloqueasse o tr\u00e2nsito com manifesta\u00e7\u00f5es e, inclusive, queimasse pessoas vivas pelo simples fato de pensarem diferente, algu\u00e9m ficaria surpreso se os cidad\u00e3os votassem contra esses loucos?<\/p>\n<p>11. Fracassada a via violenta, restam \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o venezuelana apenas duas possibilidades: prosseguir pela via insurrecional, encorajada pelo Partido Popular, Donald Trump e a extrema direita internacional, ou tentar vencer nas urnas. Os Estados Unidos seguem pressionando (em declara\u00e7\u00f5es a um seman\u00e1rio uruguaio, o presidente Tabar\u00e9 V\u00e1zquez disse que votou pela expuls\u00e3o ilegal da Venezuela do Mercosul por medo de repres\u00e1lias dos grandes pa\u00edses). 57 pa\u00edses das Na\u00e7\u00f5es Unidas exigiram que a soberania da Venezuela seja respeitada.<\/p>\n<p>Como os Estados Unidos n\u00e3o conseguem maioria para for\u00e7ar a Venezuela, insistem em inventar espa\u00e7os (como a Declara\u00e7\u00e3o de Lima, sem qualquer for\u00e7a jur\u00eddica porque n\u00e3o conseguiram maioria na OEA). A direita mundial quer acabar com a Venezuela, embora isso custe sangue e fogo \u00e0 popula\u00e7\u00e3o venezuelana. Por isso, alguns opositores, como Henry Ramos-Allup, pediram o fim da viol\u00eancia. A Venezuela tem elei\u00e7\u00f5es municipais e regionais no horizonte. \u00c9 o cen\u00e1rio onde a oposi\u00e7\u00e3o deve demonstrar essa maioria que reivindica. A Venezuela precisa convocar essas elei\u00e7\u00f5es e \u00e9 uma excelente oportunidade para medir eleitoralmente as for\u00e7as. Porque, do contr\u00e1rio, o choque que estamos vendo poder\u00e1 se tornar um cistoe transformar-se em uma terr\u00edvel gangrena. Quem tem interesse em uma guerra civil na Venezuela?<\/p>\n<p>N\u00e3o nos enganemos. Nem o PP nem Trump est\u00e3o interessados nos direitos humanos. Se fosse assim, romperiam com a Ar\u00e1bia Saudita, que vai decapitar 15 jovens por se manifestarem durante a Primavera \u00c1rabe, ou v\u00e3o dar chicotadas nas mulheres que dirigem; ou com a Col\u00f4mbia, onde ocorreram 150 assassinatos pelos paramilitares nos \u00faltimos meses; ou com o M\u00e9xico, onde se assassina cada m\u00eas um jornalista e aparecem valas comuns com dezenas de cad\u00e1veres. Nos Estados Unidos est\u00e3o pedindo penas de 75 anos para manifestantes contra as pol\u00edticas de Trump.<\/p>\n<p>A Venezuela tornou-se, na Espanha, a 18\u00aa Comunidade Aut\u00f4noma s\u00f3 porque o presidente Rajoy foi convocado para depor como testemunha de corrup\u00e7\u00e3o que envolve o seu partido. \u00c9 mais eficiente falar da Venezuela do que da corrup\u00e7\u00e3o dos 800 membros do PP imputados. H\u00e1 pessoas ing\u00eanuas que acreditam neles. O que dir\u00e3o agora que a grande maioria da oposi\u00e7\u00e3o aceitou participar das elei\u00e7\u00f5es regionais? O pacto entre o PSOE e o Podemos em Castilla-La Mancha foi apresentado pela direita de La Mancha como o come\u00e7o da venezuelaniza\u00e7\u00e3o da Espanha. Quanta cara-de-pau e quanta estupidez. E h\u00e1 pessoas que acreditam neles.<\/p>\n<p>Enquanto isso, o PP silencia, por exemplo, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s persegui\u00e7\u00f5es que a ditadura mon\u00e1rquica marroquina faz na Espanha aos dissidentes pol\u00edticos, ou prende, por ordem do ditador Erdogan, um jornalista cr\u00edtico com a ditadura turca. Algu\u00e9m vai nos dizer que estes governos est\u00e3o interessados nos direitos humanos?<\/p>\n<p>Conclus\u00e3o: n\u00e3o h\u00e1 necessidade comungar com Maduro, menos ainda com sua maneira de fazer as coisas, para n\u00e3o aceitar o golpe de Estado que se quer construir na Venezuela. Estamos falando sobre como n\u00e3o voltar a cometer os mesmos erros acreditando nas mentiras que a m\u00eddia divulga. A Venezuela tem que resolver os seus problemas dialogando. E \u00e9 evidente que tem problemas. Mas duas metades enfrentadas n\u00e3o v\u00e3o a lugar nenhum monologando. Embora um lado seja apoiado pelos pa\u00edses mais poderosos do espectro neoliberal. Nem o PP nem a direita querem di\u00e1logo. Querem que Maduro se entregue. E voc\u00ea acha que os oito milh\u00f5es de eleitores da Assembleia Constituinte ficariam de bra\u00e7os cruzados? O novo governo os reprimiria e at\u00e9 os mataria. A m\u00eddia diria que a democracia venezuelana estaria se defendendo dos inimigos da democracia. E voltaria a haver gente ing\u00eanua que acreditaria neles. Do resto do mundo, em nome da democracia, bastam duas coisas: exigir e apoiar o di\u00e1logo na Venezuela, e entender que seria bom n\u00e3o permitir nem ao PP nem \u00e0 direita internacional, come\u00e7ando por Donald Trump, a reedi\u00e7\u00e3o uma de suas mis\u00e9rias mais horr\u00edveis que consiste em semear dor em outros lugares para ocultar a dor que provocam em nossos pr\u00f3prios pa\u00edses.<\/p>\n<p>http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/570654-onze-teses-sobre-a-venezuela-artigo-de-juan-carlos-monedero<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Juan Carlos Monedero &#8211;\u00a0\u201cE ele se empenhava em repetir a mesma coisa: \u2018Isso n\u00e3o \u00e9 como numa guerra&#8230; Em uma batalha voc\u00ea est\u00e1 com o inimigo na tua frente&#8230; Aqui, o perigo n\u00e3o tem rosto nem hor\u00e1rio\u2019. Ele se negava a tomar son\u00edferos ou calmantes: \u2018N\u00e3o quero que me peguem dormindo ou sonolento. 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