{"id":4910,"date":"2017-08-19T15:54:14","date_gmt":"2017-08-19T18:54:14","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=4910"},"modified":"2017-08-15T15:56:04","modified_gmt":"2017-08-15T18:56:04","slug":"para-encarar-a-crise-do-sus-e-dar-a-volta-por-cima%ef%bb%bf","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/08\/19\/para-encarar-a-crise-do-sus-e-dar-a-volta-por-cima%ef%bb%bf\/","title":{"rendered":"Para encarar a crise do SUS e dar a volta por cima\ufeff"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ma\u00edra Mathias<\/strong> &#8211;\u00a0Num encontro corajoso, centenas de pensadores e ativistas pela Reforma Sanit\u00e1ria examinam os ataques ao sistema, seus pr\u00f3prios erros e os caminhos para retomar a luta pela Sa\u00fade P\u00fablica<\/p>\n<p>\u201cA esperan\u00e7a somos n\u00f3s\u2026 e os outros; porque s\u00f3 n\u00f3s somos muito poucos\u201d. A frase \u00e9 de Gast\u00e3o Wagner, presidente da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Sa\u00fade Coletiva (Abrasco), e sintetiza o momento atual da Reforma Sanit\u00e1ria. Em um pa\u00eds onde crise deixou de ser exce\u00e7\u00e3o para se transformar em fato do cotidiano, o movimento que lan\u00e7ou as bases para a cria\u00e7\u00e3o do Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) parece ter decidido que chegou a hora das verdades inconvenientes se o objetivo \u00e9 barrar os retrocessos que atacam a democracia e os direitos sociais.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s, preocupados em reproduzir a cultura do SUS, criamos a igreja do SUS. Sim, porque uma pretens\u00e3o pol\u00edtica e hist\u00f3rica que se nutre somente de uma doutrina e de princ\u00edpios vira igreja. Quem conhece, se apaixona: \u00e9 o SUS ideal. Mas o resultado disso \u00e9 que s\u00f3 conseguimos falar para iniciados\u201d, disparou, por sua vez, Am\u00e9lia Cohn, professora aposentada da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) e um dos muitos quadros hist\u00f3ricos da Reforma Sanit\u00e1ria que criticaram os rumos pelos quais enveredou o movimento ao longo do Congresso de Pol\u00edtica, Planejamento e Gest\u00e3o da Abrasco, que aconteceu no in\u00edcio de maio em Natal.<\/p>\n<p><strong>Sem autocr\u00edtica n\u00e3o h\u00e1 mudan\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>O evento, que reuniu 2,2 mil participantes, foi marcado por pol\u00eamicas \u2013 no melhor sentido do termo. Em um debate que reuniu Jos\u00e9 Gomes Tempor\u00e3o, ex-ministro da Sa\u00fade no governo Lula, e Arthur Chioro, titular da pasta no governo Dilma Rousseff, medidas aprovadas e defendidas em suas gest\u00f5es, que h\u00e1 muito eram apontadas por militantes e pesquisadores como tiros no p\u00e9, foram contestadas.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 dif\u00edcil avan\u00e7ar nesse debate sem autocr\u00edtica. Mas a timidez e a brevidade da nossa autocr\u00edtica s\u00e3o desconcertantes. N\u00e3o falo aqui da penit\u00eancia para recuperar ades\u00e3o, para reconquistar, por exemplo, os movimentos sociais que pularam fora da defesa do SUS como o movimento sindical que h\u00e1 muito tempo fez a op\u00e7\u00e3o pelos planos e seguros privados. A nossa autocr\u00edtica, n\u00e3o sei se voc\u00eas concordam, sempre termina com uma homenagem ao nosso discurso tradicional de defesa do SUS \u2013\u00a0 o que \u00e9, no m\u00ednimo, incompleto. Reconstruir ou atualizar a pauta sobre uma vis\u00e3o de mundo baseada em universalismo requer superar os nossos pr\u00f3prios particularismos\u201d, afirmou M\u00e1rio Scheffer, professor da USP. depois de criticar a figura de filantropia de \u2018excel\u00eancia\u2019, que garante isen\u00e7\u00f5es fiscais a hospitais lucrativos como S\u00edrio Liban\u00eas e Albert Einstein e foi criada por Tempor\u00e3o em 2009, e a defesa e aprova\u00e7\u00e3o da entrada do capital estrangeiro na assist\u00eancia \u00e0 sa\u00fade, heran\u00e7a da gest\u00e3o Chioro.<\/p>\n<p>\u201cA crise que afetou a esquerda governista n\u00e3o pode engolir o movimento Sanit\u00e1rio\u201d, defendeu Scheffer, e continuou: \u201cN\u00e3o h\u00e1 s\u00f3 uma crise abstrata, uma crise de agonia e decep\u00e7\u00f5es pelo fato de os nossos desejos e sonhos terem sido engolidos ou adiados. N\u00e3o \u00e9 um refluxo passageiro e tudo vai voltar a ser como \u2018antes\u2019 com a elei\u00e7\u00e3o do Lula ou do Ciro [Gomes]. \u00c9 uma crise que pede tamb\u00e9m uma refunda\u00e7\u00e3o do nosso campo, uma disposi\u00e7\u00e3o de mudar profundamente e isso quer dizer mudar esfor\u00e7o acad\u00eamico, program\u00e1tico e mudar a pr\u00e1tica militante. \u00c9 sobre incluir o SUS como elemento de um novo projeto nacional e de civiliza\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Segundo o professor da USP, al\u00e9m das crises pol\u00edtica e econ\u00f4mica, a conjuntura traz desafios adicionais, bem diferentes do contexto de redemocratiza\u00e7\u00e3o que deu corpo ao movimento da Reforma Sanit\u00e1ria. \u201cFico pensando em como chamar para a defesa do SUS uma sociedade que se fragmentou em categorias sociais, em cren\u00e7as religiosas, uma classe trabalhadora que em parte \u2018endireitou\u2019, as pessoas desiludidas pela realidade do trabalho prec\u00e1rio, os 12 milh\u00f5es de desempregados\u2026 Como falar do SUS em tempos de ascens\u00e3o da extrema direita que votar\u00e1 no [deputado federal, Jair] Bolsonaro? A generalizada insatisfa\u00e7\u00e3o com a sa\u00fade est\u00e1 presente no debate p\u00fablico, mas embolada nessa democracia de opini\u00e3o polarizada que, de certa forma, atropelou nossos espa\u00e7os de participa\u00e7\u00e3o. As nossas confer\u00eancias e conselhos [de sa\u00fade] s\u00e3o os mesmos de 20 anos [atr\u00e1s] ou piores porque agora s\u00e3o dominados por corpora\u00e7\u00f5es e por gestores sem nenhum protagonismo. Estamos encapsulados e precisamos mudar nossas estrat\u00e9gias, nossos manifestos s\u00f3 entre n\u00f3s, nossos congressos entre n\u00f3s. N\u00e3o sabemos como fazer mas tenho certeza que sem a juventude sanit\u00e1ria e vigorosas novas alian\u00e7as vai ser dif\u00edcil\u201d.<\/p>\n<p><strong>Por que \u2018aquilo\u2019 deu \u2018nisso\u2019<\/strong><\/p>\n<p>A ideia da sa\u00fade como direito social fervilhou entre movimentos sociais e populares durante a redemocratiza\u00e7\u00e3o brasileira mas h\u00e1 quem ache que, desde que foi plasmada na Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988, a fervura como que evaporou. As explica\u00e7\u00f5es s\u00e3o v\u00e1rias. Por muito tempo, prevaleceram as an\u00e1lises que juntavam o cen\u00e1rio econ\u00f4mico mundial na d\u00e9cada de 1990 com a vit\u00f3ria de pol\u00edticos que encamparam por aqui o projeto neoliberal, fazendo com que o SUS e as pol\u00edticas sociais definhassem no nascedouro p\u00f3s-constitucional e, consequentemente, n\u00e3o ganhassem \u2018cora\u00e7\u00f5es e mentes\u2019. Sem ignorar esse hist\u00f3rico, durante o encontro promovido pela Abrasco, Am\u00e9lia Cohn deu outra chave de interpreta\u00e7\u00e3o, muito mais inc\u00f4moda para o movimento da Reforma Sanit\u00e1ria. \u201cA tese que vou defender aqui \u00e9 que h\u00e1 futuro, mas o futuro vai ser duro. Temos que refundar o SUS e refundar a Reforma Sanit\u00e1ria\u201d, iniciou a soci\u00f3loga, que partiu de uma hist\u00f3ria pessoal para relembrar o sentido do Sistema \u00danico de Sa\u00fade numa sociedade como a brasileira. \u201cFui a uma UBS [Unidade B\u00e1sica de Sa\u00fade] administrada por OS [Organiza\u00e7\u00e3o Social] em S\u00e3o Paulo tomar vacina de gripe. Depois de ter que ouvir meus colegas de sala falarem que tinha que ter pena de morte, que tem que ter ditadura para botar ordem, que os pol\u00edticos s\u00e3o todos corruptos ao longo de uma hora e meia de espera, fui falar com uma \u2018colaboradora\u2019 \u2013 que \u00e9 como eles chamam os trabalhadores \u2013 e a resposta dela foi: \u2018A senhora n\u00e3o sabe que est\u00e1 numa UBS? Vai para aquela sala, encosta na parede e espera!&#8217;\u201d.<\/p>\n<p>A moral da hist\u00f3ria? \u201cO velho [Sergio] Arouca dizia que o SUS era um projeto civilizat\u00f3rio, atrav\u00e9s do qual ir\u00edamos modernizar essas rela\u00e7\u00f5es t\u00e3o hierarquizadas da nossa sociedade\u201d, lembrou. Mas segundo Cohn, numa sociedade t\u00e3o desigual como a brasileira, o problema sempre foi construir identidades pol\u00edticas aut\u00f4nomas das classes e setores dominantes. \u201cA nossa \u2018cidadania regulada\u2019 mais do que um canal de expans\u00e3o de direitos, obliterou, fechou os espa\u00e7os institucionais de pr\u00e1ticas e identidades potencialmente alternativas. E, portanto, o problema do Brasil, j\u00e1 em 1983, era como se constituir uma sociedade pol\u00edtica capaz de superar os tra\u00e7os burgueses e pequenos burgueses, acostumados a monopolizar o discurso da sociedade na pol\u00edtica e no Estado\u201d, disse ela, e arrematou: \u201cEu acho que isso se aplica \u00e0 Reforma Sanit\u00e1ria. Apesar de todos os esfor\u00e7os, n\u00f3s, da velha e da nova guarda da Sa\u00fade Coletiva, continuamos monopolizando na sociedade o discurso da sa\u00fade como direito\u201d.<\/p>\n<p>Para Am\u00e9lia Cohn, o movimento apostou fichas demais no Estado como regulador e mediador das for\u00e7as sociais e \u201cbebeu nas \u00e1guas\u201d do desenvolvimentismo. \u201cFoi nisso que a nossa proposta se calcou e foi exitosa. Este modelo de Reforma Sanit\u00e1ria baseado nessas premissas acabou. Quer dizer que fomos todos derrotados? N\u00e3o, mas esse modelo est\u00e1 esgotado. N\u00e3o \u00e9 mais a partir do Estado. N\u00e3o \u00e9 mais a partir de nossas falas decanas que a Reforma vai se refazer e reviver\u201d, defendeu. E prop\u00f4s: \u201cMeu primeiro encaminhamento \u00e9: saiamos do Estado e caminhemos para a sociedade civil para entender o Estado. A Reforma Sanit\u00e1ria foi o inverso [disso]. Pela primeira vez, n\u00f3s n\u00e3o temos nenhum representante l\u00edder da Reforma Sanit\u00e1ria no interior do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. Fomos despejados. E vamos ter que aprender a viver n\u00e3o dependentes do Estado quando a nossa trajet\u00f3ria foi a de se voltar para o Estado dando as costas para a sociedade\u201d.<\/p>\n<p><strong>Novas rela\u00e7\u00f5es entre o p\u00fablico e o privado<\/strong><\/p>\n<p>Mas os debates mostraram tamb\u00e9m que, se quiser atravessar e encontrar a sociedade do outro lado da cal\u00e7ada, a Reforma Sanit\u00e1ria vai ter que olhar para os dois lados da avenida em que trafegam Estado e mercado, cuidando assim de n\u00e3o ser atropelada no meio do caminho. Ou pior: evitar a tenta\u00e7\u00e3o de pegar carona com algum empres\u00e1rio para um lugar bem longe dali. \u201cN\u00f3s n\u00e3o estamos mais nos anos 1960, 1970, 1990, quando havia uma pol\u00edtica privatizante nascida no seio do Estado imposta para a sociedade. Agora o jogo \u00e9 diferente. Quem d\u00e1 as cartas, inclusive no seio do Estado, \u00e9 o setor privado. O jogo mudou, o tabuleiro mudou, as pe\u00e7as mudaram e precisamos conversar sobre isso\u201d, prop\u00f4s Ligia Bahia, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).<\/p>\n<p>Segundo ela, uma primeira mudan\u00e7a nessa hist\u00f3ria \u00e9 a pauta do empresariado da sa\u00fade. \u201cApareceu em 2015 explicitamente exposta por novas entidades empresariais a proposta de, ao fim e ao cabo, entregar o p\u00fablico para a administra\u00e7\u00e3o do privado. Essas entidades demandam ativamente prontu\u00e1rio \u00fanico, consideram que a coordena\u00e7\u00e3o do cuidado e as regi\u00f5es de sa\u00fade s\u00e3o essenciais. Inclusive, se prop\u00f5em a gerenciar tudo isso. Grandes empresas privadas contrataram m\u00e9dicos de fam\u00edlia, inclusive os mais famosos \u2013 as lideran\u00e7as da medicina de fam\u00edlia brasileira \u2013 e financiaram o \u00faltimo Congresso Internacional de Medicina de Fam\u00edlia no Brasil. Portanto, essa agenda est\u00e1 posta\u201d, denunciou.<\/p>\n<p>Nesse sentido, Ligia esclarece que, diferente do que podemos pensar, o setor privado n\u00e3o est\u00e1 contra o SUS. Ou melhor: n\u00e3o est\u00e1 contra qualquer SUS. \u201cExiste um consenso sobre o SUS, seja l\u00e1 que conota\u00e7\u00e3o ele tenha: SUS para pobre, o SUS como eu o considero, o SUS como outros o consideram. O SUS ter ficado de p\u00e9, apesar dos pesares, n\u00e3o \u00e9 pouco. Mas temos que admitir que ficou de p\u00e9 quase como um saco vazio\u201d, lamentou, emendando: \u201cSeria ingenuidade supor que nosso \u00fanico advers\u00e1rio \u00e9 o Ricardo Barros [ministro da Sa\u00fade] e n\u00e3o encararmos a for\u00e7a econ\u00f4mica e pol\u00edtica desses grandes empreendedores e empreendimentos que n\u00e3o t\u00eam nada contra o SUS. Desde que o SUS seja o saco vazio, desde que seja o enunciado abstrato, desde que seja quase um fetiche\u201d.<\/p>\n<p>Quais s\u00e3o, ent\u00e3o, os perigos do setor privado para a proposta de um sistema universal em plena periferia do capital que tem, portanto, como principal horizonte o combate da desigualdade social? Para Ligia, um deles \u00e9 a captura. \u201cN\u00e3o \u00e9 s\u00f3 captura: \u00e9 pris\u00e3o perp\u00e9tua. Para quem passa da porteira, \u00e9 muito dif\u00edcil que a gente consiga habeas corpus, at\u00e9 porque as pessoas n\u00e3o querem\u201d, brincou. Segundo ela, um grande grupo econ\u00f4mico vem decidindo com a maior desenvoltura quem vai ocupar cargos no Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, nas ag\u00eancias reguladoras, em secretarias estaduais estrat\u00e9gias, especialmente a de S\u00e3o Paulo. \u201cE n\u00e3o menos importante: a captura vem subtraindo quadros do Movimento Sanit\u00e1rio. Existem hoje sanitaristas consultores, sanitaristas nos institutos dos hospitais para ricos e pesquisas financiadas com recursos da ren\u00fancia fiscal dada aos hospitais para ricos. N\u00e3o \u00e9 que exista uma porta girat\u00f3ria: \u00e9 um portal, no qual muita gente tem algum tipo de envolvimento\u201d.<\/p>\n<p><strong>Unidade de a\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O encontro entre o pano de fundo setorial com a crise econ\u00f4mica deu margem a v\u00e1rias an\u00e1lises que defenderam uma reorganiza\u00e7\u00e3o do movimento da Reforma Sanit\u00e1ria. Para o economista \u00c1quilas Mendes, da USP, o momento pede menos propostas de interven\u00e7\u00e3o na arquitetura institucional do SUS e mais t\u00e1ticas de a\u00e7\u00e3o conjunta. \u201cN\u00e3o vamos dizer que a gente n\u00e3o tem alternativa. A gente tem a alternativa da constru\u00e7\u00e3o da luta. Precisamos nos juntar, mas para isso precisamos ter diagn\u00f3sticos, no m\u00ednimo, parecidos para refor\u00e7ar a luta em uma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as em que o outro lado n\u00e3o quer conversar. Vamos parar de brigas bestas? Se o melhor [para o SUS] \u00e9 [ser gerido em um modelo de] autarquia, cons\u00f3rcio, etc. N\u00e3o basta ficar discutindo a melhor forma de trabalho humanizado na UBS do \u2018Cariquiri\u2019. Faz parte, mas a gente n\u00e3o pode se perder nisso. Enquanto estamos discutindo essas propostas, eles est\u00e3o passando por cima da gente. \u00c9 disso que precisamos ter clareza\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m de acordo com Carlos Ock\u00e9, presidente da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Economia da Sa\u00fade (Abres), a palavra de ordem \u00e9 \u201cunidade\u201d. \u201cO que est\u00e1 colocado na conjuntura \u00e9 a supera\u00e7\u00e3o da crise [econ\u00f4mica] em sentido capitalista e, pior, em sentido autorit\u00e1rio e fascista. Como sair da crise em sentido democr\u00e1tico, popular e socialista \u00e9 o nosso desafio\u201d, disse. Segundo ele, estamos assistindo a um aprofundamento da destina\u00e7\u00e3o do fundo p\u00fablico para o setor privado e, principalmente, para o mercado financeiro, que det\u00e9m a hegemonia da configura\u00e7\u00e3o atual do sistema. \u201cVoc\u00ea tem uma recess\u00e3o e ao inv\u00e9s de propor pol\u00edtica antic\u00edclica de car\u00e1ter keynesiano, se prop\u00f5e uma pol\u00edtica de austeridade que n\u00e3o supera a crise econ\u00f4mica. N\u00e3o h\u00e1 aumento da arrecada\u00e7\u00e3o e h\u00e1 estrangulamento do financiamento das pol\u00edticas sociais. Vimos a EC [Emenda Constitucional] 95 ser aprovada, uma medida que reduz ainda mais o gasto p\u00fablico [com sa\u00fade] per capita. \u00c9 uma pol\u00edtica perversa e privatista\u201d, elencou.<\/p>\n<p>Para Ock\u00e9, o conjunto de entidades que comp\u00f5e o movimento da Reforma Sanit\u00e1ria precisa discutir um projeto n\u00e3o s\u00f3 para tentar influenciar as plataformas pol\u00edticas em 2018, mas para organizar os trabalhadores \u201ccontra a direita, contra o fascismo e a favor do SUS\u201d. \u201cOlhemos a experi\u00eancia italiana na luta contra o fascismo, a experi\u00eancia da socialdemocracia na luta contra o nazismo e os problemas da esquerda brasileira em 1964. A unidade do bloco hist\u00f3rico em defesa do SUS \u00e9 fundamental, vai se construir na a\u00e7\u00e3o e para isso a gente precisa estar organizado\u201d, defendeu.<\/p>\n<p><strong>Ainda vale a pena<\/strong><\/p>\n<p>\u201cO que n\u00f3s podemos come\u00e7ar a fazer? Nossa tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 boa. Eu considero que somos j\u00e1, desde 1970, um movimento social de novo tipo\u201d, disse Gast\u00e3o Wagner para um p\u00fablico de duas mil pessoas. No dia seguinte (03\/05), ele encontraria um p\u00fablico menor, mas representativo. \u00c9 que desta vez, o Congresso de Pol\u00edtica sediou uma reuni\u00e3o do movimento da Reforma Sanit\u00e1ria bastante diferente: al\u00e9m de entidades tradicionais como Abrasco, Cebes e Abrasme, associa\u00e7\u00f5es de usu\u00e1rios do SUS e iniciativas como a Frente Nacional Contra a Privatiza\u00e7\u00e3o do SUS se integraram ao grupo para dar in\u00edcio a um processo de di\u00e1logo que tentar\u00e1 encontrar converg\u00eancia na diverg\u00eancia. Como saldo do encontro, todos os presentes passar\u00e3o a integrar um grupo executivo que tem a miss\u00e3o de colocar de p\u00e9 a\u00e7\u00f5es. Ficou decidido que a primeira delas \u00e9 uma esp\u00e9cie de limpeza do terreno: um debate em que os muitos diagn\u00f3sticos da conjuntura poder\u00e3o ser aprofundados e as discuss\u00f5es travadas.<\/p>\n<p>\u201cPrecisamos renovar este projeto da Reforma Sanit\u00e1ria mas, sobretudo, radicalizar a participa\u00e7\u00e3o dos v\u00e1rios agentes e atores nesse processo e isso s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel se n\u00f3s seguirmos um pouco o Milton Nascimento, que diz que \u00e9 preciso saber o que fizemos para saber o que teremos mais para fazer\u201d, disse Jairnilson Paim, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), na abertura do congresso, para completar: \u201cA Reforma Sanit\u00e1ria n\u00e3o \u00e9 uma coisa que aconteceu l\u00e1 em 1980. Ela pode ser entendida como movimento, como projeto e, a depender da conjuntura, o momento do movimento ser\u00e1 mais relevante do que o momento do projeto e da sua implanta\u00e7\u00e3o. A Reforma Sanit\u00e1ria n\u00e3o \u00e9 8\u00aa Confer\u00eancia Nacional de Sa\u00fade, nem a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988\u201d.<\/p>\n<p>O presidente da Abrasco, Gast\u00e3o Wagner, tamb\u00e9m contextualizou esse passar de anos entre a mobiliza\u00e7\u00e3o que criou o SUS e os dias de hoje. \u201cO movimento da Reforma Sanit\u00e1ria n\u00e3o tem comit\u00ea central. Tem conflito, alguns t\u00eam mais poder, outros menos, alguns s\u00e3o mais experientes, outros t\u00eam mais capacidade de vocaliza\u00e7\u00e3o. Integra-se por produ\u00e7\u00e3o de consenso, n\u00e3o exige elimina\u00e7\u00e3o do diferente para funcionar. A gente evita produzir advers\u00e1rios entre poss\u00edveis aliados. A gente conseguiu aprovar o SUS na Constituinte, isso exigiu um processo de organiza\u00e7\u00e3o. Entretanto, o tempo passou e a barra pesou. Ainda h\u00e1 a hegemonia de uma vis\u00e3o de que o crescimento econ\u00f4mico por si garantiria bem-estar social. N\u00e3o estou falando s\u00f3 dos intelectuais, isso gra\u00e7a entre setores de trabalhadores, popula\u00e7\u00f5es. Precisamos reconstruir a perspectiva de que se o crescimento econ\u00f4mico n\u00e3o estiver integrado ao desenvolvimento ambiental e social n\u00e3o tem sentido. Sem concomitante distribui\u00e7\u00e3o de renda, sem cidadania plena, n\u00e3o tem sentido\u201d afirmou Gast\u00e3o na confer\u00eancia de abertura do congresso. E, arrematando as fichas que foram caindo ao longo evento com um fio de esperan\u00e7a, concluiu: \u201cSabemos da crise de legitimidade das pol\u00edticas sociais. O SUS tem uma for\u00e7a, que \u00e9 a exist\u00eancia dele. O SUS virou um nome pr\u00f3prio, substantivo. Vale a pena brigar pelo SUS. Vale a pena brigar pela universidade p\u00fablica. Vale a pena brigar pelo movimento da Reforma Sanit\u00e1ria\u201d.<\/p>\n<p>http:\/\/outras-palavras.net\/outrasmidias\/?p=471985<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ma\u00edra Mathias &#8211;\u00a0Num encontro corajoso, centenas de pensadores e ativistas pela Reforma Sanit\u00e1ria examinam os ataques ao sistema, seus pr\u00f3prios erros e os caminhos para retomar a luta pela Sa\u00fade P\u00fablica \u201cA esperan\u00e7a somos n\u00f3s\u2026 e os outros; porque s\u00f3 n\u00f3s somos muito poucos\u201d. 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