{"id":4866,"date":"2017-08-22T12:04:58","date_gmt":"2017-08-22T15:04:58","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=4866"},"modified":"2017-08-15T15:08:16","modified_gmt":"2017-08-15T18:08:16","slug":"fulano-e-pos-moderno-mas-voce-sabe-o-que-isso-significa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/08\/22\/fulano-e-pos-moderno-mas-voce-sabe-o-que-isso-significa\/","title":{"rendered":"\u201cFULANO \u00c9 P\u00d3S-MODERNO\u201d, MAS VOC\u00ca SABE O QUE ISSO SIGNIFICA?"},"content":{"rendered":"<p><b>Eduardo Migowski &#8211;\u00a0<\/b>N\u00e3o, p\u00f3s-moderno n\u00e3o \u00e9 o &#8220;Social Justice Warrior&#8221; pregando lugar de fala, a esquerda n\u00e3o ortodoxa, ou a arte que voc\u00ea n\u00e3o entende. Para compreender isso, voc\u00ea precisar\u00e1, antes de tudo, saber o que \u00e9 modernidade e onde ela falhou.<\/p>\n<p>O Facebook \u00e9 inundado diariamente por opini\u00f5es das mais inusitadas. Todos comentam sobre tudo, conhecem todos os assuntos e reagem de modo agressivo contra aqueles que discordam. Sobram opini\u00f5es e faltam argumentos. Tanto o dogmatismo quanto o relativismo s\u00e3o ferramentas usadas ao bel-prazer. Quando ataco, tenho certezas. Quando me defendo, sou relativista.<\/p>\n<p>As adjetiva\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m s\u00e3o utilizadas sem a m\u00ednima fundamenta\u00e7\u00e3o. Fulano \u00e9\u00a0p\u00f3s-moderno, sicrano \u00e9\u00a0positivista. Mas ser\u00e1 que as pessoas realmente sabem do que est\u00e3o falando? Existe alguma rela\u00e7\u00e3o entre pol\u00edtica e verdade? Se a resposta for afirmativa, onde estaria a verdade? Se a resposta for negativa, tudo n\u00e3o passaria de opini\u00e3o? Infelizmente a quest\u00e3o \u00e9 um pouco mais complexa do que um simples \u201csim\u201d ou \u201cn\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Sinto desapont\u00e1-lo logo no in\u00edcio, mas preciso avis\u00e1-lo, o objetivo deste texto n\u00e3o \u00e9 responder a essas quest\u00f5es de modo cabal. Se, por um lado, n\u00f3s n\u00e3o podemos viver sem algumas certezas b\u00e1sicas, por outro, a verdade nos aprisiona.<\/p>\n<p>O\u00a0niilismo\u00a0leva \u00e0 ina\u00e7\u00e3o. O\u00a0dogmatismo, ao abismo. \u00c9 poss\u00edvel sair dessa\u00a0<span class=\"tooltips\" title=\"\">aporia<\/span>? Creio que sim. Ou n\u00e3o. Na verdade estou em d\u00favida. Vamos pensar juntos?<\/p>\n<p><strong>Ci\u00eancia e Verdade<\/strong><\/p>\n<h3><strong><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6060 b-loaded alignnone\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/voyager1.net\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/enterprise-ciencia.jpg?resize=640%2C320&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" srcset=\"https:\/\/voyager1.net\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/enterprise-ciencia.jpg 800w, https:\/\/voyager1.net\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/enterprise-ciencia-300x150.jpg 300w, https:\/\/voyager1.net\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/enterprise-ciencia-768x384.jpg 768w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"320\" \/><\/strong><\/h3>\n<p>A passagem da\u00a0Idade M\u00e9dia\u00a0para a\u00a0modernidade\u00a0foi caracterizada por uma profunda crise de consci\u00eancia. O per\u00edodo hist\u00f3rico conhecido como\u00a0Renascimento\u00a0\u00e9 marcado pelo embate entre a antiga tradi\u00e7\u00e3o medieval e a nova tradi\u00e7\u00e3o; que estava emergindo, por\u00e9m ainda n\u00e3o se encontrava consolidada.<\/p>\n<p>O indiv\u00edduo renascentista se encontrava, portanto, profundamente dividido. Verdades que durante mil\u00eanios eram vistas como inquestion\u00e1veis evaporaram em poucos anos. Essa crise existencial, que num primeiro momento provocou o retorno do\u00a0ceticismo\u00a0antigo, foi vertida, num segundo, em uma profunda confian\u00e7a nas virtudes humanas.<\/p>\n<p>Ora, se todas as certezas estavam se mostrando ilus\u00f3rias, havia duas rea\u00e7\u00f5es poss\u00edveis frente aos novos desafios: a primeira seria se refugiar no ceticismo. Colocar em d\u00favida a capacidade cognitiva de produzir um conhecimento objetivo da realidade.<\/p>\n<p>A segunda seria olhar tais muta\u00e7\u00f5es de modo mais positivo, ou seja, o homem estaria finalmente se libertando das amarras de um falso paradigma intelectual. E teria a chance de construir algo novo. A obra do fil\u00f3sofo franc\u00eas\u00a0Ren\u00e9 Descartes\u00a0\u00e9 o maior exemplo dessa virada.<\/p>\n<p>O\u00a0cogito\u00a0cartesiano come\u00e7a com o exerc\u00edcio filos\u00f3fico de colocar em d\u00favida todas as verdades que ordenavam a realidade, at\u00e9 chegar a uma certeza b\u00e1sica: \u201cpenso, logo existo\u201d. Ou seja, mesmo que o sujeito estivesse iludido por uma realidade constru\u00edda por um \u201canjo maligno\u201d, ainda restaria uma certeza: n\u00f3s raciocinamos.<\/p>\n<p>Partindo deste \u201cch\u00e3o\u201d, Descartes buscou desenvolver bases mais s\u00f3lidas para o conhecimento objetivo do mundo. \u00c9, com efeito, dessa viragem intelectual que nasce a chamada \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica\u201d, que, como lembrou o historiador israelense\u00a0Yuval Noah Harari, n\u00e3o foi uma revolu\u00e7\u00e3o do conhecimento, mas, acima de tudo, uma revolu\u00e7\u00e3o da ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p>O\u00a0m\u00e9todo cient\u00edfico\u00a0\u00e9 resultado dessa crise das certezas. Dessa revolu\u00e7\u00e3o da ignor\u00e2ncia. Se a natureza \u00e9 regida por uma l\u00f3gica causal, caberia ao cientista decifr\u00e1-la por meio de uma metodologia espec\u00edfica, capaz de afastar os aspectos subjetivos, e assim extrair leis regulares, verdades universais.<\/p>\n<p>Se, digamos, os astros fossem mapeados, qualquer navegador poderia se localizar em qualquer ponto do oceano. O mesmo valeria em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s correntes marinhas ou \u00e0 dire\u00e7\u00e3o do vento. Por mais que tais verdades fossem colocadas em cheque pelos empiristas, \u00e9 ineg\u00e1vel a utilidade pr\u00e1tica que estas transforma\u00e7\u00f5es trouxeram.<\/p>\n<p>A\u00a0Revolu\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica, como bem lembrou o soci\u00f3logo Michael L\u00f6wy, tamb\u00e9m foi impulsionada (e impulsionou) pelas mudan\u00e7as pol\u00edticas. As rela\u00e7\u00f5es de poder na Idade M\u00e9dia eram sustentadas pela cosmologia religiosa do homem medieval. \u201cTodo questionamento da ideologia estabelecida, com seus sistemas complexos de dogmas e sua explica\u00e7\u00e3o precisa, coerente e rigorosa da ordem fixa e imut\u00e1vel do universo, era, portanto, percebida como amea\u00e7a subversiva e tratada como tal\u201d (L\u00d6WY, p. 197). O com\u00e9rcio estava em expans\u00e3o e, com ele, o universo mental do homem europeu. Novas t\u00e9cnicas precisavam ser inventadas. A domina\u00e7\u00e3o europeia dos outros povos est\u00e1 intrinsecamente imbricada com o progresso da\u00a0ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Tais amarras foram aos poucos sendo superadas e o\u00a0Estados nacionais modernos\u00a0percebendo que o conhecimento era uma poderosa maneira de domina\u00e7\u00e3o. O auge do\u00a0racionalismo\u00a0aconteceu durante o\u00a0iluminismo.\u00a0Immanuel Kant, o maior de todos os pensadores do per\u00edodo, ao responder a pergunta sobre o que seria o esclarecimento, louvava o progresso da raz\u00e3o humana num texto que se tornou cl\u00e1ssico:<\/p>\n<p>Esclarecimento \u00e9 a sa\u00edda do homem de sua menoridade, da qual ele pr\u00f3prio \u00e9 culpado. A menoridade \u00e9 a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a dire\u00e7\u00e3o de outro indiv\u00edduo. O homem \u00e9 o pr\u00f3prio culpado dessa menoridade se a causa dela n\u00e3o se encontra na falta de entendimento, mas na falta de decis\u00e3o e coragem de servir-se de si mesmo sem a dire\u00e7\u00e3o de outrem.\u00a0Sapere aude! Tem coragem de fazer uso de teu pr\u00f3prio entendimento, tal \u00e9 o lema do esclarecimento.<\/p>\n<p>Como podemos ver, o progresso da\u00a0ci\u00eancia\u00a0era entendido tamb\u00e9m como o caminho para a supera\u00e7\u00e3o das amarras do misticismo. A\u00a0raz\u00e3o\u00a0libertaria o homem. Como lembrou o fil\u00f3sofo franc\u00eas\u00a0Michel Foucault, o texto de Kant \u00e9 amb\u00edguo. Em certos momento, ele d\u00e1 a entender que o esclarecimento \u00e9 um processo evolutivo no qual toda a humanidade estaria passando, rumo a uma era das luzes. Em outros, por\u00e9m, parece que tal transforma\u00e7\u00e3o seria individual. O sujeito que ao \u201cousar saber\u201d deixaria de ser tutelado por outrem. Seja como for, o texto \u00e9 profundamente otimista sobre a capacidade humana de compreender e interpretar o real.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos dizer, inclusive, que Kant estava excessivamente entusiasmado com o esclarecimento. S\u00e9culo depois, os tamb\u00e9m fil\u00f3sofos alem\u00e3es\u00a0Theodor Adorno\u00a0e\u00a0Max Horkheimer\u00a0avaliaram o esclarecimento de maneira bem distinta. Para eles, o movimento das luzes n\u00e3o seria um progresso constante, mas dial\u00e9tico, contradit\u00f3rio. O esclarecimento, que pretendia suplantar o pensamento m\u00edstico, transforma-se igualmente num mito. \u201cO mito converte-se em esclarecimento, e a natureza em mera objetividade. O pre\u00e7o que os homens pagam pelo aumento do seu poder \u00e9 a aliena\u00e7\u00e3o daquilo sobre o que exercem poder.\u201d (Adorno e Horkheimer).<\/p>\n<p>A ci\u00eancia, filha do\u00a0humanismo, havia se deslocado das preocupa\u00e7\u00f5es antropoc\u00eantricas. A t\u00e9cnica transformara pessoas em objetos e, como tais, eram descart\u00e1veis. A evolu\u00e7\u00e3o do conhecimento n\u00e3o seria acompanhada do progresso do esp\u00edrito humano.<\/p>\n<p>A ci\u00eancia, longe de libertar, teria tornado poss\u00edvel as maiores cat\u00e1strofes que a humanidade conheceu. A cren\u00e7a moderna nas virtudes humanas entrava em crise. Com a descoberta dos horrores do holocausto, ficava evidente que \u00e9ramos t\u00e3o b\u00e1rbaros quanto nossos antepassados, por\u00e9m mais poderosos. E isso era algo extremamente perigoso. \u00c9 nesse per\u00edodo tamb\u00e9m que a capacidade de destrui\u00e7\u00e3o atinge seu paroxismo, com o advento da bomba at\u00f4mica.<\/p>\n<p>A\u00a0filosofia, seguindo essas transforma\u00e7\u00f5es, passou a destacar com frequ\u00eancia a condi\u00e7\u00e3o paradoxal do progresso cient\u00edfico. Outra fil\u00f3sofa alem\u00e3,\u00a0Hannah Arendt, num artigo sobre a conquista do espa\u00e7o, lembrava que, a despeito dos progressos t\u00e9cnicos, ainda \u00e9ramos humanos e depend\u00edamos de certas condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas para continuar vivendo. \u201cAo contr\u00e1rio, somos tentados a diz\u00ea-lo, \u00e9 muito mais prov\u00e1vel que o planeta por n\u00f3s habitado se esvaia em p\u00f3 em consequ\u00eancias de teorias que s\u00e3o inteiramente apartadas do mundo e dos sentidos\u201d (Arendt).<br \/>\nO progresso t\u00e9cnico, portanto, que surgiu para emancipar o homem, acabou por se emancipar do homem. Ficando preso a um mundo em que a realidade cotidiana n\u00e3o fazia mais sentido. Em que as palavras perderam as suas fun\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Enfim, na segunda metade do s\u00e9culo XX, a modernidade parecia estar esgotada. As ambiguidades estavam evidentes. Com seu meio dominado, o homem passou a olhar para o espa\u00e7o, pois acreditava que o\u00a0progresso\u00a0n\u00e3o poderia parar, mesmo com o planeta dando sinais de esgotamento. Ele pensa cada vez mais distante, pensa em ampliar seu poder frente ao desconhecido. Entretanto, essa ambi\u00e7\u00e3o n\u00e3o o permitia perceber que o progresso, longe de ser evolutivo, tende a confrontar-se consigo mesmo. Pois estamos presos \u00e0\u00a0condi\u00e7\u00e3o humana. Para Arendt, a expans\u00e3o do dom\u00ednio t\u00e9cnico sobre a natureza nada mais \u00e9 que essa condi\u00e7\u00e3o em diferentes disfarces. Se, para o homem, vagar pelo espa\u00e7o \u00e9 o seu consolo, ficar preso numa \u201cc\u00e1psula terrestre\u201d parecia ser o seu destino.<\/p>\n<p><strong>A Rea\u00e7\u00e3o P\u00f3s-Moderna<img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6061 b-loaded alignnone\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/voyager1.net\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/eschel-outro-mundo.jpg?resize=640%2C320&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" srcset=\"https:\/\/voyager1.net\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/eschel-outro-mundo.jpg 800w, https:\/\/voyager1.net\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/eschel-outro-mundo-300x150.jpg 300w, https:\/\/voyager1.net\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/eschel-outro-mundo-768x384.jpg 768w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"320\" \/><\/strong><\/p>\n<p>O termo\u00a0p\u00f3s-moderno\u00a0virou moda em tempos recentes. Quase todos o usam, por\u00e9m sua defini\u00e7\u00e3o \u00e9 extremamente imprecisa. Autores dos mais diversos j\u00e1 foram em algum momento acusados de \u201cp\u00f3s-modernos\u201d; sendo, por tal motivo, quase imposs\u00edvel definir esse conceito. Por\u00e9m, h\u00e1 um tronco comum entre pensamentos t\u00e3o diferentes. As ideias do fil\u00f3sofo alem\u00e3o\u00a0Friedrich Nietzsche.<\/p>\n<p>Nietzsche era um cr\u00edtico do\u00a0cientificismo\u00a0quando este estava no auge, no s\u00e9culo XIX. No texto \u201cVerdade e Mentira no Sentido Extramoral\u201d, ele descreve as ilus\u00f5es cientificistas com uma bela imagem: \u201cNo desvio de algum rinc\u00e3o do universo inundado pelo fogo de inumer\u00e1veis sistemas solares, houve uma vez um planeta no qual os animais inteligentes inventaram o conhecimento. Este foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da hist\u00f3ria universal, mas foi apenas um minuto. Depois de alguns suspiros da natureza, o planeta congelou-se e os animais inteligentes tiveram de morrer.\u201d (NIETZSCHE, 2001, p. 07).<\/p>\n<p>Como podemos observar, o texto \u00e9 constru\u00eddo de modo sarc\u00e1stico. A inten\u00e7\u00e3o \u00e9 mostrar a pequenez humana frente ao universo que este imagina dominar. A verdade no sentido extramoral, portanto, sempre estaria para al\u00e9m das faculdades cognitivas humanas. O que seria o conhecimento, ent\u00e3o? Nietzsche, sempre metaf\u00f3rico, define a verdade como uma \u201ccentelha entre duas espadas\u201d.<\/p>\n<p>A verdade, neste caso, n\u00e3o \u00e9 uma melhor adapta\u00e7\u00e3o da ideia \u00e0 realidade, tampouco uma aproxima\u00e7\u00e3o; ela n\u00e3o est\u00e1 no sujeito, como queriam os idealistas, nem no objeto, como acreditavam os realistas. Para Nietzsche, a verdade \u00e9 produto do conflito, \u00e9 uma forma de \u201cacordo\u201d entre as for\u00e7as. Sua import\u00e2ncia consiste no fato de, ao se definir o que \u00e9 o verdadeiro, uma das partes estabelece um dom\u00ednio sobra a outra. Ou seja, a verdade \u00e9 t\u00e3o somente um instrumento constitutivo das rela\u00e7\u00f5es de sujei\u00e7\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o, portanto uma rela\u00e7\u00e3o de poder. Os conceitos seriam signos cuja fun\u00e7\u00e3o seria \u201caprisionar\u201d a realidade numa defini\u00e7\u00e3o imut\u00e1vel. O problema \u00e9 que a natureza estaria em constante muta\u00e7\u00e3o, estando o conhecimento aqu\u00e9m da realidade.<\/p>\n<p>Michel Foucault, outro importante fil\u00f3sofo, partindo dessa constata\u00e7\u00e3o, construiu um m\u00e9todo de pesquisa hist\u00f3rica. Ora, se o conhecimento n\u00e3o \u00e9 uma busca pela verdade, mas produto da \u201cvontade de poder\u201d, seu efeito n\u00e3o \u00e9 epistemol\u00f3gico, mas pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Portanto, o objetivo do m\u00e9todo arqueol\u00f3gico, pensado por Foucault, n\u00e3o \u00e9 buscar as condi\u00e7\u00f5es de acesso \u00e0 verdade, mas entender as condi\u00e7\u00f5es sociais, hist\u00f3ricas e culturais que permitiram a um discurso ganhar\u00a0status\u00a0de verdade. Nietzsche, de modo sempre provocativo, dizia que a hist\u00f3ria da\u00a0ci\u00eancia\u00a0seria\u00a0a hist\u00f3ria de uma mentira que chamamos de verdade. Situando a filosofia de Foucault nesta frase, poder\u00edamos afirmar que seu trabalho \u00e9 o de identificar os motivos pelos quais determinadas \u201cmentiras\u201d tornaram-se verdade ao longo do tempo.<\/p>\n<p>Para Foucault, existem duas hist\u00f3rias da verdade. A primeira interna, epistemol\u00f3gica, calcada nos seus pr\u00f3prios mecanismos de regula\u00e7\u00e3o. A segunda \u00e9 a externa, ou seja, das condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas que permitem o nascimento de um determinado tipo de saber, que ele conceituou \u201cepisteme\u201d. A fun\u00e7\u00e3o da filosofia seria a de desconstruir tais dogmas por meio de uma cr\u00edtica hist\u00f3rica dos mecanismos de produ\u00e7\u00e3o das verdades. A liberdade, portanto, ao contr\u00e1rio de Kant, estaria no afastamento dos saberes cient\u00edficos.\u00a0Esse interesse pela desconstru\u00e7\u00e3o \u00e9 uma das caracter\u00edsticas mais marcantes destes autores que ficaram conhecidos como p\u00f3s-modernos.<\/p>\n<p><strong>Considera\u00e7\u00f5es Finais<img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6067 b-loaded alignnone\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/voyager1.net\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/mascaras-personas.jpg?resize=640%2C320&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" srcset=\"https:\/\/voyager1.net\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/mascaras-personas.jpg 800w, https:\/\/voyager1.net\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/mascaras-personas-300x150.jpg 300w, https:\/\/voyager1.net\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/mascaras-personas-768x384.jpg 768w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"320\" \/><\/strong><\/p>\n<p>A rea\u00e7\u00e3o p\u00f3s-moderna \u00e0 arrog\u00e2ncia da modernidade trouxe alguns avan\u00e7os. Abriu-se espa\u00e7o para as diferen\u00e7as, para a multiplicidade, para que o papel das ci\u00eancias fosse repensado, saberes relegados ao sil\u00eancio foram valorizados, etc.<\/p>\n<p>Entretanto, precisamos destacar, o discurso relativista precisa ser dosado. N\u00e3o podemos transform\u00e1-lo num novo dogma, numa nova verdade. Caso contr\u00e1rio, outros problemas se apresentam. Principalmente nas\u00a0ci\u00eancias humanas.<\/p>\n<p>Se as\u00a0ci\u00eancias exatas\u00a0n\u00e3o s\u00e3o capazes de alcan\u00e7ar a verdade, como afirma Nietzsche, elas possuem uma utilidade pr\u00e1tica claramente identific\u00e1vel. Um paciente n\u00e3o quer saber a verdade por tr\u00e1s das apar\u00eancias da dor causada por uma doen\u00e7a. Ele quer ficar curado, ou melhor, ele quer se sentir curado. Se a medica\u00e7\u00e3o alivia apenas os sintomas e n\u00e3o a causa propriamente dita, n\u00e3o importa. Sua inten\u00e7\u00e3o \u00e9 acordar disposto no dia seguinte e ir trabalhar. Para isso, a qu\u00edmica, a biologia e a medicina s\u00e3o eficientes.<\/p>\n<p>O caso das ci\u00eancias humanas \u00e9 mais complicado. O cientista pol\u00edtico, o soci\u00f3logo e o historiador precisam ter clareza de at\u00e9 que ponto a relativiza\u00e7\u00e3o pode ser uma aliada ou n\u00e3o. Um exemplo: entender que culturas diferentes produzem saberes diferentes, de acordo com suas necessidades e seu universo mental, \u00e9 extremamente \u00fatil para evitar os famosos\u00a0etnocentrismos. Por\u00e9m, justificar atos cru\u00e9is, que, diga-se, s\u00e3o cometidas por todas as culturas, usando o relativismo seria um erro. As ci\u00eancias humanas precisam trabalhar com certos crit\u00e9rios \u00e9ticos.<\/p>\n<p>O historiador\u00a0Carlo Ginzburg\u00a0fez algumas observa\u00e7\u00f5es argutas a respeito do pensamento nietzschiano e apontou de modo brilhante os limites te\u00f3ricos do ceticismo:<\/p>\n<p>Mas o ceticismo de Nietzsche tamb\u00e9m n\u00e3o era ilimitado. Ap\u00f3s ter rejeitado como insensata a quest\u00e3o de saber se o mundo percebido pelo homem \u00e9 mais adequado \u00e0 realidade do que o mundo que o mosquito v\u00ea, Nietzsche postula tacitamente a exist\u00eancia de um mundo \u00fanico dominado por uma luta implac\u00e1vel pela sobreviv\u00eancia, no qual o homem mata o mosquito e o mosquito contamina o homem com a mal\u00e1ria, matando-o. (Ginzburg, 2002, p. 37).<\/p>\n<p>Mesmo considerando que todo observador parte de um referencial, que a neutralidade absoluta \u00e9 uma ilus\u00e3o, \u00e9 preciso ter em mente que existe uma realidade objetiva para al\u00e9m das subjetividades. O mundo em que o homem mata o mosquito e o mosquito mata o homem, independe do sentido que ambos deem para tais atos. E \u00e9 justamente essa busca pela verdade, por mais que ela seja imposs\u00edvel de ser alcan\u00e7ada, que distingue o trabalho do cientista pol\u00edtico da mera opini\u00e3o.\u00a0A verdade n\u00e3o \u00e9 algo a ser descoberto, desvelado, mas a ser buscado.\u00a0\u00c9 a b\u00fassola a orientar as pesquisas. Se n\u00e3o podemos domin\u00e1-las, devemos nos esfor\u00e7ar para chegarmos o mais perto poss\u00edvel. Mesmo sabendo que nosso trabalho nunca ter\u00e1 fim, pois o objeto se transforma de forma muito mais r\u00e1pida que a capacidade humana de interpret\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Para Ginzburg: \u201co limite do relativismo \u00e9, ao mesmo tempo, cognitivo, pol\u00edtico e moral\u201d. O historiador tamb\u00e9m apresenta uma contradi\u00e7\u00e3o interessante no pensamento p\u00f3s-moderno:<\/p>\n<p>Centenas de milhares de homens e crian\u00e7as morrem em consequ\u00eancia de massacres, das epidemias e da fome, circundados por funcion\u00e1rios da\u00a0ONU\u00a0e vigiados por emissoras de televis\u00e3o via sat\u00e9lite. Sob os olhos do ocidente, o mundo est\u00e1, de fato, se tornando uno: um mundo no qual a homogeneidade e a diversidade cultural, subordina\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia se entrela\u00e7am inextrincavelmente. Para compreender esse processo, o modelo relativista, inaugurado por Nietzsche, n\u00e3o ajuda muito.&#8221; (Ginzburg)<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo em que o mundo se globaliza, o com\u00e9rcio e a pol\u00edtica passam a atuar em redes globais, o conhecimento se fragmenta. Muitas vezes, as causas de fome na\u00a0\u00c1frica\u00a0podem ser entendidas olhando, por exemplo, para medidas agr\u00edcolas protecionistas adotadas pela\u00a0Uni\u00e3o Europeia. Ou a queda no pre\u00e7o do petr\u00f3leo (ou o aumento), provocado por disputas pol\u00edticas, pode ensejar a crise de um governo do outro lado do mundo.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso ter o cuidado para n\u00e3o reduzir os saberes \u00e0s subjetividades, pois, caso contr\u00e1rio, haver\u00e1 \u201co risco de fragmentar o conhecimento (e a sociedade) numa s\u00e9rie de pontos de vistas incomunic\u00e1veis, nos quais cada grupo se v\u00ea murado no interior da sua pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o com o mundo\u201d (Ginzburg, 2000, p 39).<\/p>\n<p>A passagem \u00e9 de uma atualidade impressionante. Sobretudo se considerarmos que ela foi escrita antes da populariza\u00e7\u00e3o da internet. No in\u00edcio, a rede mundial de computadores era vista como portadora de um potencial revolucion\u00e1rio. Libertaria o homem do jugo dos meios de comunica\u00e7\u00e3o. A informa\u00e7\u00e3o seria plural, o conhecimento estaria ao alcance de todos. O que se viu, no entanto, foi algo contradit\u00f3rio. A informa\u00e7\u00e3o descontrolada, e financiada por grupos de interesses, borrou as fronteiras entre o real e a fic\u00e7\u00e3o. Not\u00edcias falsas \u201cviralizam\u201d com uma facilidade impressionante.\u00a0A verdade \u00e9\u00a0\u00e0 la carte. Como existe informa\u00e7\u00e3o sobre praticamente tudo, eu escolho aquilo em que vou acreditar e que, por coincid\u00eancia, refor\u00e7a o que eu j\u00e1 sabia. Fatos s\u00e3o detalhes. Na rede, o real \u00e9 o que eu acredito. Como disse o escritor italiano\u00a0Umberto Eco, a internet deu voz aos idiotas. E eles se multiplicam, presos numa bolha que ecoa apenas a sua consci\u00eancia. \u201cO grande isolamento \u00e9 cercar-se daqueles que pensam igual a voc\u00ea.\u201d (Hannah Arendt).<\/p>\n<p>A fabrica\u00e7\u00e3o de uma realidade virtual, portanto, levou ao paroxismo esse perigo do conhecimento perder ader\u00eancia ao real.\u00a0A tarefa de separar conhecimento de opini\u00e3o \u00e9, mais do que nunca, urgente.<\/p>\n<p>Para Ginzburg, o conhecimento tamb\u00e9m n\u00e3o foi democratizado. Muito pelo contr\u00e1rio. A\u00a0internetproporciona possibilidades infinitas de pesquisa. Por\u00e9m, para aproveitar tais ferramentas \u00e9 preciso um amplo conhecimento pr\u00e9vio. Um historiador, por exemplo, pode pesquisar com precis\u00e3o e rapidez sobre a\u00a0Roma Antiga\u00a0estando no\u00a0Brasil. Um economista pode ter acesso a estat\u00edsticas econ\u00f4micas sobre um vilarejo perdido na\u00a0Savana Africana. Por\u00e9m, caso o primeiro n\u00e3o conhe\u00e7a a\u00a0Hist\u00f3ria Romana\u00a0e os m\u00e9todos de pesquisa historiogr\u00e1ficos, de nada adiantaria o\u00a0Google. O mesmo vale para o segundo exemplo. A informa\u00e7\u00e3o em rede, portanto, n\u00e3o democratiza o conhecimento, ela aumenta as diferen\u00e7as.<\/p>\n<p>Um mundo murado por realidades incomunic\u00e1veis certamente n\u00e3o ser\u00e1 um lugar melhor que um regido por verdades absolutas.<\/p>\n<p>A filosofia recente, inclusive\u00a0Derrid\u00e1, ajuda-nos a ver pr\u00e1ticas e as ideias como n\u00e3o sendo naturais nem inevit\u00e1veis \u2014 mas isso \u00e9 tudo o que ela faz. Depois que a filosofia termina de mostrar que tudo \u00e9 constructo social, ela n\u00e3o nos ajuda a diferenciar quais constructos sociais substituir e quais preservar (Richard Rorty, 2013, p. 227).<\/p>\n<p>A filosofia da desconstru\u00e7\u00e3o deu um enorme passo na odisseia humana de compreens\u00e3o da realidade. Se ela n\u00e3o se prop\u00f4s a explicar o mundo, ou a propor solu\u00e7\u00f5es, ajudou na percep\u00e7\u00e3o da complexidade do real. Permitiu a valoriza\u00e7\u00e3o da multiplicidade, algo extremamente ben\u00e9fico para a conforma\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais tolerante. Uma sociedade que d\u00e1 voz aos negros, aos \u201cloucos\u201d e \u00e0s mulheres; grupos que historicamente n\u00e3o eram ouvidos.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, n\u00e3o podemos nos contentar em somente descontrair os saberes. Como Foucault afirmou, seu pensamento deveria ser encarado como uma caixa de ferramentas. Numa caixa de ferramentas encontram-se martelos, mas h\u00e1 tamb\u00e9m chaves de fenda e parafusos; ou seja, os instrumentos necess\u00e1rios para a fabrica\u00e7\u00e3o de algo novo. Foucault acreditava na for\u00e7a criativa do homem. Por isso, ele se voltou contra os dogmas que engessavam tais pot\u00eancias.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo XIX, o homem acreditava ser poss\u00edvel a raz\u00e3o espelhar o mundo tal como ela \u00e9. No s\u00e9culo XX, pelo contr\u00e1rio, passou-se a crer na total impossibilidade de acesso a este mesmo real. Como lembrou Ginzburg, cabe ao nosso s\u00e9culo resgatar o valor do conhecimento sem o dogmatismo e a ingenuidade do passado.<\/p>\n<p>Nosso espelho \u00e9 deformado, mas ainda possui contato com o mundo exterior, mesmo que prec\u00e1rio. Os p\u00f3s-modernos desempenharam uma fun\u00e7\u00e3o an\u00e1loga \u00e0 de Descartes, de colocar em d\u00favida as verdades, mas pararam por a\u00ed. O mundo social est\u00e1 sempre em muta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o podemos nos contentar em apenas desconstru\u00ed-lo. Pensar essas quest\u00f5es \u00e9 a tarefa primordial das ci\u00eancias sociais. N\u00e3o precisamos de uma verdade extramoral, mas de uma moral capaz de pensar verdades mais humanas.<\/p>\n<p>https:\/\/voyager1.net\/filosofia\/para-entender-o-que-e-pos-moderno\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eduardo Migowski &#8211;\u00a0N\u00e3o, p\u00f3s-moderno n\u00e3o \u00e9 o &#8220;Social Justice Warrior&#8221; pregando lugar de fala, a esquerda n\u00e3o ortodoxa, ou a arte que voc\u00ea n\u00e3o entende. Para compreender isso, voc\u00ea precisar\u00e1, antes de tudo, saber o que \u00e9 modernidade e onde ela falhou. O Facebook \u00e9 inundado diariamente por opini\u00f5es das mais inusitadas. 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