{"id":4838,"date":"2017-08-15T15:34:19","date_gmt":"2017-08-15T18:34:19","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=4838"},"modified":"2017-08-15T14:37:23","modified_gmt":"2017-08-15T17:37:23","slug":"a-era-do-capital-improdutivo-e-como-supera-la","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/08\/15\/a-era-do-capital-improdutivo-e-como-supera-la\/","title":{"rendered":"A Era do Capital Improdutivo \u2013 e como super\u00e1-la"},"content":{"rendered":"<p><strong>ANTONIO MARTINS<\/strong> &#8211; Em seu novo livro, Ladislau Dowbor oferece chaves preciosas para decifrar a metamorfose do sistema e suas novas formas de dominar e concentrar riquezas. Tamb\u00e9m sugere: \u00e9 poss\u00edvel venc\u00ea-lo \u2013 mas com outros m\u00e9todos\u2026<\/p>\n<p>Cinco fam\u00edlias lideradas por homens brancos agora concentram mais riqueza que metade \u2013 3,5 bilh\u00f5es \u2013 dos habitantes do planeta. Em todo o Ocidente, a democracia declina e perde apoio porque \u00e9 vista, cada vez mais, como um regime dos ricos e corruptos. O aquecimento global j\u00e1 se materializa na forma de mega-icebergs desprendendo-se da Ant\u00e1rtida (sem falar nas primeiras levas de refugiados clim\u00e1ticos), mas os governantes permanecem desinteressados ou impotentes. No Brasil, os bancos privados multiplicam seus lucros em meio \u00e0 maior recess\u00e3o da Hist\u00f3ria \u2013 e s\u00e3o o setor mais bem representado em todos os governos, antes e depois do golpe. Apesar da imensa concentra\u00e7\u00e3o de riquezas, o sistema vai mal, deparando-se com taxas de crescimento med\u00edocres e o risco crescente de uma nova crise financeira, que seria ainda mais devastadora e possivelmente incontrol\u00e1vel.<\/p>\n<div id=\"attachment_601773\" class=\"wp-caption alignnone\">\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-601773\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/CAPA31jul-e1501543447502.png?resize=239%2C360\" alt=\"CAPA31jul-e1501543447502\" width=\"239\" height=\"360\" \/><\/p>\n<p>O que estes fatos, aparentemente d\u00edspares, t\u00eam a ver uns com os outros? Mais importante: como decifrar os mecanismos que impulsionam em conjunto todos eles? Ser\u00e1 poss\u00edvel revert\u00ea-los e escapar de uma armadilha que parece aprisionar tanto a humanidade quanto a pr\u00f3pria ideia de emancipa\u00e7\u00e3o social? Encontrar as respostas tem sido, desde a virada do s\u00e9culo, o desafio difuso que persegue ativistas em todo o mundo \u2013 e que mobiliza um punhado de pensadores ligados \u00e0s lutas sociais. Em\u00a0<i>A Era do Capital Improdutivo,\u00a0<\/i>Ladislau Dowbor revela que o crescimento abissal das desigualdades, a aus\u00eancia de limites para a depreda\u00e7\u00e3o da natureza e o esvaziamento da pol\u00edtica podem ser faces de um s\u00f3 fen\u00f4meno. Uma nova\u00a0<i>metamorfose\u00a0<\/i>do capitalismo (para usar express\u00e3o de Celso Furtado) criou um sistema que j\u00e1 n\u00e3o pode ser compreendido \u2013 muito menos superado \u2013 manejando apenas as chaves anal\u00edticas do passado. O autor n\u00e3o se contenta em constatar o d\u00e9ficit te\u00f3rico: ele adianta pistas para ultrapass\u00e1-lo, ou seja: para tramar um novo projeto p\u00f3s-capitalista.<\/p>\n<p align=\"center\">* * *<\/p>\n<p>A natureza mutante do capitalismo j\u00e1 havia sido destacada por Karl Marx. Mais recentemente, Fran\u00e7ois Chesnais formulou, em\u00a0<i>A mundializa\u00e7\u00e3o do capital\u00a0<\/i>(1988) e em obras posteriores, a hip\u00f3tese do decl\u00ednio do industrialismo e o surgimento de um \u201cregime de acumula\u00e7\u00e3o sob domin\u00e2ncia financeira\u201d. Ladislau est\u00e1 de acordo, e oferece farta documenta\u00e7\u00e3o e dados a respeito. Para dar ao leitor no\u00e7\u00e3o das dimens\u00f5es do cassino financeiro global, mostra, por exemplo, que s\u00f3 as transa\u00e7\u00f5es financeiras com \u201cderivativos\u201d \u2013 aquelas em que n\u00e3o se negociam mercadorias, mas apenas\u00a0<i>\u00edndices\u00a0<\/i>(a taxa de infla\u00e7\u00e3o, o pre\u00e7o de uma moeda, a cota\u00e7\u00e3o de uma\u00a0<i>commodity<\/i>) atingiram 710\u00a0<i>trilh\u00f5es\u00a0<\/i>de d\u00f3lares em 2013 \u2013 ou 9,6 vezes o PIB mundial naquele ano.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Captura-de-tela-de-2017-08-01-16-11-39-e1501614775507.png\" data-slb-active=\"1\" data-slb-asset=\"2068838361\" data-slb-internal=\"0\" data-slb-group=\"601771\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-601772\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Captura-de-tela-de-2017-08-01-16-11-39-e1501614775507-485x284.png?resize=485%2C284\" alt=\"Captura de tela de 2017-08-01 16-11-39\" width=\"485\" height=\"284\" \/><\/a><\/p>\n<p>Mas\u00a0<i>A Era do Capital Improdutivo\u00a0<\/i>situa esta transi\u00e7\u00e3o num conjunto de outras transforma\u00e7\u00f5es civilizat\u00f3rias marcantes, que se acentuam a partir dos anos 1950. A primeira delas \u00e9 uma dr\u00e1stica\u00a0<i>mudan\u00e7a na arquitetura do poder mundial.\u00a0<\/i>Pela vez desde a Paz de Westphalia (1648), os Estados-Na\u00e7\u00f5es est\u00e3o deixando de ser os atores centrais. Em seu lugar, emergem as megacorpora\u00e7\u00f5es globais \u2013 grupos financeiros gigantescos; conglomerados industriais ligados e eles; um punhado de\u00a0<i>dealers\u00a0<\/i>que controlam o grosso do com\u00e9rcio de alimentos, min\u00e9rios e combust\u00edveis no planeta.<\/p>\n<p>A passagem de bast\u00e3o se d\u00e1 por dois motivos. Primeiro, a concentra\u00e7\u00e3o empresarial, mais intensa que nunca. Apoiado num vasto estudo do Instituto Federal Su\u00ed\u00e7o para Pesquisa Tecnol\u00f3gica \u2013 o renomado ETH \u2013, Ladislau demonstra que 147 grandes corpora\u00e7\u00f5es (75% delas financeiras) controlam hoje, sozinhas, 40% do PIB do mundo. Numa esp\u00e9cie de \u201cn\u00facleo do n\u00facleo\u201d est\u00e3o 28 \u201cinstitui\u00e7\u00f5es financeiras sistematicamente importantes\u201d (SIFIs, em ingl\u00eas), cada uma das quais tem capital m\u00e9dio de US$ 1,8 trilh\u00e3o (superior ao PIB do Brasil, a s\u00e9tima economia do planeta).<\/p>\n<p>O problema n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o gigantismo. As megacorpora\u00e7\u00f5es atuam em todo o mundo, enquanto os Estados-Na\u00e7\u00f5es s\u00e3o limitados por fronteiras.\u00a0<i>Todas\u00a0<\/i>mant\u00eam sedes e filiais em \u201cpara\u00edsos fiscais\u201d (um cap\u00edtulo do livro \u00e9 reservado a examin\u00e1-los), onde podem articular oligop\u00f3lios, evadir impostos ou praticar fraudes \u201clivres\u201d do constrangimento de governos ou Judici\u00e1rios. Mais recentemente, diversos acordos comerciais permitem-lhes formar tribunais paralelos (<i>Investor-State Dispute Settlement,<\/i>\u00a0ou ISDS, em ingl\u00eas), nos quais podem exigir indeniza\u00e7\u00f5es de Estados que adotem normas consideradas hostis a seus interesses (por exemplo, a redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho ou uma nova lei de prote\u00e7\u00e3o da natureza\u2026).<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 o esvaziamento r\u00e1pido da democracia. Porque surgiu \u2013 acima dos Estados e com for\u00e7a superior \u00e0 deles \u2013 uma nova esfera\u00a0<i>global\u00a0<\/i>de poder. Est\u00e1 inteiramente colonizada: em seu interior, o capital reina absoluto; n\u00e3o h\u00e1 elei\u00e7\u00f5es, parlamentos, governos escolhidos pela sociedade, transpar\u00eancia. Quem conhece a agenda do FMI, ou sabe como votam os representantes brasileiros na Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio? Como frisa o autor, \u201co poder mundial realmente existente est\u00e1 nas m\u00e3os de gigantes que ningu\u00e9m elegeu e sobre os quais h\u00e1 cada vez menos controle\u201d.<\/p>\n<p>A terceira grande transforma\u00e7\u00e3o est\u00e1 ligada \u00e0s novas rela\u00e7\u00f5es entre a natureza, ser humano e conhecimento; ao advento do que passamos a chamar de Antropoceno. Ladislau insere-se claramente entre os autores que o veem como resultado do predom\u00ednio das l\u00f3gicas mercantis. O livro resgata, \u00e0 p\u00e1gina 24 um gr\u00e1fico desconcertante e pouco conhecido, em que est\u00e1 representada a evolu\u00e7\u00e3o de fen\u00f4menos normalmente n\u00e3o relacionados: aumento da popula\u00e7\u00e3o humana, PIB, concentra\u00e7\u00e3o de CO\u00b2 na atmosfera, n\u00famero de autom\u00f3veis, consumo de papel, extin\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies, destrui\u00e7\u00e3o das florestas e outros.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Captura-de-tela-de-2017-08-01-16-18-43-e1501615206660.png\" data-slb-active=\"1\" data-slb-asset=\"890401147\" data-slb-internal=\"0\" data-slb-group=\"601771\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-601774\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Captura-de-tela-de-2017-08-01-16-18-43-e1501615206660-485x346.png?resize=485%2C346\" alt=\"Captura de tela de 2017-08-01 16-18-43\" width=\"485\" height=\"346\" \/><\/a><\/p>\n<p>As curvas s\u00e3o coincidentes: tudo dispara a partir de 1950, num claro sinal de que entramos em outra fase. O autor analisa: \u201ctodos querem consumir mais, cada corpora\u00e7\u00e3o busca extrair e vender mais, e tecnologias cada vez mais potentes permitem ampliar o processo (\u2026) Para a maioria dos economistas, o crescimento \u00e9 t\u00e3o necess\u00e1rio quanto o ar que respiramos\u201d. Duas consequ\u00eancias dram\u00e1ticas, j\u00e1 vis\u00edveis, s\u00e3o o decl\u00ednio abrupto da vida marinha e os sinais de uma sexta extin\u00e7\u00e3o em massa das esp\u00e9cies: \u201cem apenas quarenta anos, de 1970 a 2010, destru\u00edmos 52% da fauna do planeta\u201d.<\/p>\n<p>A devasta\u00e7\u00e3o da natureza \u00e9 facilitada pelo \u201cavan\u00e7o\u201d tecnol\u00f3gico, mas em mais de um trecho o livro demonstra: esta mesma t\u00e9cnica amea\u00e7a, perigosamente, criar uma sociedade cada vez mais desigual e alienada. A concentra\u00e7\u00e3o de riquezas \u00e9 poss\u00edvel, em escala nunca vista, porque um pequeno n\u00famero de corpora\u00e7\u00f5es controla e processa informa\u00e7\u00f5es sobre os mercados e inclusive sobre nossas vidas. O sinal mais evidente de que as quest\u00f5es social e ambiental se entrela\u00e7am est\u00e1 expresso numa formula\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo feliz e terr\u00edvel: \u201cestamos destruindo o planeta (\u2026) de forma muito particular para o proveito do 1%\u201d.<\/p>\n<p>Em muitos de seus textos recentes, Immanuel Wallerstein tem sustentado que o capitalismo, tal como o conhec\u00edamos, vive em crise terminal; mas que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel saber, o que o substituir\u00e1 \u2013 e n\u00e3o se deve afastar a hip\u00f3tese de que seja um sistema ainda mais desigual, mais hier\u00e1rquico, mais alienante e menos democr\u00e1tico. Em seu novo livro, Ladislau Dowbor parece sugerir que este cen\u00e1rio de pesadelo est\u00e1 sendo montado agora, diante de nossos olhos.<\/p>\n<p align=\"center\">* * *<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio livro<i>\u00a0<\/i>fornece, por\u00e9m, elementos para enxergar como tal constru\u00e7\u00e3o \u00e9 inst\u00e1vel; como resta, portanto, espa\u00e7o para a resist\u00eancia e a busca de alternativas. O livro trata, em especial, de duas vulnerabilidades. A primeira \u00e9 o decl\u00ednio do pr\u00f3prio crescimento econ\u00f4mico \u2013 objetivo essencial da l\u00f3gica mercantil \u2013, acompanhado de riscos novos de terremotos financeiros avassaladores.<\/p>\n<p>A concentra\u00e7\u00e3o de riquezas, explica o autor, acaba convertendo-se num obst\u00e1culo \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o do ciclo do capital. Sob o regime de domin\u00e2ncia financeira, cresce o\u00a0<i>rentismo \u2013\u00a0<\/i>a capacidade de apropriar-se da riqueza social sem nada produzir. O Brasil (a que Ladislau dedica dois cap\u00edtulos) \u00e9 um exemplo extremado. O sistema financeiro estende seus tent\u00e1culos tanto sobre o or\u00e7amento p\u00fablico (de onde s\u00e3o desviados R$ 400 bilh\u00f5es, ou cerca de treze programas Bolsa-Fam\u00edlia ao ano) quanto sobre as fam\u00edlias e empresas (reduzindo a capacidade de consumo e as margens de lucro). Em meio ao terceiro ano seguido de recess\u00e3o, os lucros dos bancos n\u00e3o cessam de crescer.<\/p>\n<p>Mas o resultado desta pun\u00e7\u00e3o \u00e9, em todo o mundo, a economia estagnada. Desde os abalos de 2008, n\u00e3o houve recupera\u00e7\u00e3o efetiva. O autor explica, dando tintas atuais \u00e0s ideias de Marx sobre as crises de superprodu\u00e7\u00e3o: os mais ricos entesouram seu dinheiro; s\u00e3o as maiorias que gastam quase tudo o que recebem \u2013 mas se elas s\u00e3o atingidas pela desocupa\u00e7\u00e3o e pela queda dos sal\u00e1rios, quem manter\u00e1 a economia girando? Que empres\u00e1rios ousar\u00e3o investir, se os consumidores finais est\u00e3o quebrados?<\/p>\n<p>A segunda debilidade crucial \u00e9 a inefici\u00eancia das empresas. Para desenvolver o tema, Ladislau recorre a seus estudos e experi\u00eancia como gestor e planejador \u2013 algo raro entre a esquerda. A intensa concentra\u00e7\u00e3o empresarial, explica, criou conglomerados enormes e disformes, movidos cada vez mais pela l\u00f3gica \u00fanica da rentabilidade financeira, incapazes de atender \u00e0s demandas sociais e mesmo de evitar fraudes e trag\u00e9dias. O exemplo emblem\u00e1tico \u00e9 o do desastre de Mariana: \u201centre o engenheiro da Samarco que sugere o refor\u00e7o na barragem e a exig\u00eancia da rentabilidade da Vale, Billiton e Bradesco, a rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as \u00e9 radicalmente desigual\u201d. O resultado \u00e9 o soterramento do distrito de Bento Rodrigues.<\/p>\n<p>Os exemplos de a\u00e7\u00f5es fraudulentas entre as grandes corpora\u00e7\u00f5es, ali\u00e1s, multiplicam-se. O sistema financeiro \u00e9 l\u00edder, mas a Justi\u00e7a garante blindagem: \u201cPraticamente todos os grandes grupos [internacionais] est\u00e3o com dezenas de condena\u00e7\u00f5es, mas em praticamente nenhum caso houve sequelas judiciais como condena\u00e7\u00e3o pessoal dos respons\u00e1veis (\u2026) Basta a empresa fazer, enquanto pratica a ilegalidade, uma provis\u00e3o financeira para enfrentar os prov\u00e1veis custos do acordo judicial\u201d. A velha m\u00eddia cumprir\u00e1 seu papel, ocultando sempre que poss\u00edvel os crimes e construindo, contra todas as evid\u00eancias, a imagem de corpora\u00e7\u00f5es respons\u00e1veis e de fam\u00edlias saltitantes, felizes com seu banco. Mas as enxurradas de publicidade n\u00e3o apagam os fatos: tem futuro um sistema que n\u00e3o \u00e9 capaz sequer de cumprir sua promessa de crescimento e efici\u00eancia?<\/p>\n<p align=\"center\">* * *<\/p>\n<p>Por outro lado, \u00e9 poss\u00edvel enfrentar este capitalismo metamorfoseado com as ideias e personagens dos s\u00e9culos passados? Ladislau Dowbor tem pistas tamb\u00e9m para esta quest\u00e3o. Em certo trecho<i>,\u00a0<\/i>ele recomenda \u201caos sindicatos e movimentos sociais\u201d examinar melhor as novas formas de extra\u00e7\u00e3o de mais-valia. Explica: \u201cA forma tradicional \u2013 o patr\u00e3o que produz mas paga mal, ensejando lutas por melhores sal\u00e1rios \u2013 foi brutalmente agravada por um sistema mais amplo de extra\u00e7\u00e3o do excedente produzido pela sociedade\u201d. Nos novos tempos, \u201ctodos somos explorados, em cada compra ou transa\u00e7\u00e3o, seja atrav\u00e9s dos credi\u00e1rios, dos cart\u00f5es, tarifas e juros abusivos, seja na estrutura injusta da tributa\u00e7\u00e3o\u201d. H\u00e1 aqui uma fraqueza por excesso: \u201cO rentismo \u00e9 hoje, sistematicamente mais explorador, e pior, um entrave aos processos produtivos e \u00e0s pol\u00edticas p\u00fablicas. (\u2026) Sua grande vulnerabilidade est\u00e1 no fato de ser improdutivo, de constituir dominantemente uma din\u00e2mica de extra\u00e7\u00e3o sem contrapartida \u00e0 sociedade\u201d.<\/p>\n<p>\u201cQuem ser\u00e3o os atores sociais\u201d aptos a enfrentar este poder? Pergunta Ladislau em outro ponto, que talvez merecesse ser mais destacado no livro. Ele mesmo responde: \u201cOs partidos, os governos \u2013 mesmo democraticamente eleitos \u2013 e at\u00e9 os sindicatos est\u00e3o fragilizados e sem credibilidade. O que era uma classe trabalhadora relativamente homog\u00eanea e com capacidade de articula\u00e7\u00e3o (\u2026) \u00e9 hoje extremamente diversificada pela multiplicidade e complexidade de inser\u00e7\u00e3o nos processos produtivos\u201d. A esperan\u00e7a estaria numa esp\u00e9cie de novo proletariado, j\u00e1 entrevisto por autores como David Harvey e Toni Negri: \u201cOs prejudicados do sistema s\u00e3o a imensa maioria, e n\u00e3o faz sentido o 1% pesar mais que o 99%\u201d.<\/p>\n<p>Como inverter a balan\u00e7a \u2013 ou seja, como abordar a luta pela emancipa\u00e7\u00e3o social na\u00a0<i>Era do Capital Improdutivo?\u00a0<\/i>Aqui, Ladislau destoa tanto do pensamento econ\u00f4mico tradicional quanto de grande parte dos economistas de esquerda, t\u00e3o autolimitados pelo mito segundo o qual \u201cn\u00e3o h\u00e1 or\u00e7amento\u201d para atender \u00e0s demandas sociais. \u00c9 preciso, mostra o livro, opor, \u00e0s l\u00f3gicas cont\u00e1beis da \u201causteridade\u201d e dos \u201cajustes fiscais\u201d, outras realidades.<\/p>\n<p>\u201cSe h\u00e1 uma coisa que n\u00e3o falta no mundo s\u00e3o recursos\u201d, lembra Ladislau \u2013 e aqui ele parece atualizar a ideia de Marx sobre a contradi\u00e7\u00e3o entre a t\u00e9cnica (as \u201cfor\u00e7as produtivas\u201d) que avan\u00e7a, e o sistema social (as \u201crela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o\u201d) que se v\u00ea obrigado a limit\u00e1-la \u2013 porque podem ser uma amea\u00e7a aos privil\u00e9gios. O livro ressalta: \u201cO imenso avan\u00e7o da produtividade planet\u00e1ria resulta essencialmente da revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica que vivemos. Mas n\u00e3o s\u00e3o os produtores destas transforma\u00e7\u00f5es que aproveitam. Pelo contr\u00e1rio, ambas as esferas, p\u00fablica e empresarial, encontram-se endividadas nas m\u00e3os de gigantes do sistema financeiro, que rende fortunas a quem nunca produziu e consegue nos desviar radicalmente do desenvolvimento sustent\u00e1vel, hoje vital para o mundo\u201d.<\/p>\n<p>O autor resgata dados desconcertantes \u2013 mas sempre ocultados, porque inc\u00f4modos. \u201cSe arredondarmos o PIB mundial para 80 trilh\u00f5es de d\u00f3lares, chegamos a um produto per capita m\u00e9dio de 11 mil d\u00f3lares. Isto representa 3.600 d\u00f3lares por fam\u00edlia de quatro pessoas, cerca de 11 mil reais por m\u00eas. \u00c9 o caso tamb\u00e9m no Brasil, que est\u00e1 exatamente na m\u00e9dia mundial em termos de renda. N\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o objetiva para a gigantesca mis\u00e9ria em que vivem bilh\u00f5es de pessoas, a n\u00e3o ser justamente o fato de que o sistema est\u00e1 desgovernado, ou melhor, mal governado e n\u00e3o h\u00e1 perspectivas no horizonte\u201d.<\/p>\n<p>Mas como ir al\u00e9m do sistema? Ladislau frisa, desde o in\u00edcio, que sua experi\u00eancia o ensinou a passar ao largo das ideologias \u2013 os \u201cismos\u201d, como ele as chama. Quer sa\u00eddas pr\u00e1ticas. Por\u00e9m, a radicalidade do que prop\u00f5e, sempre com base em um imenso volume de dados articulados, convida a especular: tais respostas n\u00e3o cabem no sistema a que estamos submetidos. Por isso, talvez n\u00e3o haja heresia em dizer que o autor pratica um \u201cp\u00f3s-capitalismo discreto\u201d. \u00c9 como se dissesse, \u00e0 moda de Leminsky: n\u00e3o se afobem: \u201cdistra\u00eddos, venceremos\u201d.<\/p>\n<p>O livro termina com o \u201cEsbo\u00e7o de uma Agenda\u201d, um brev\u00edssimo ensaio constru\u00eddo em coautoria com Ignacy Sachs \u2013 um dos propositores do conceito de \u201cecossociodesenvolvimento \u2013 e Carlos Lopes \u2013 pesquisador africano, ex-subsecret\u00e1rio-geral da ONU.<\/p>\n<p>Proposto em 2010, o rascunho chama a aten\u00e7\u00e3o por sua atualidade. Nele, propostas estruturais \u2013 como a institui\u00e7\u00e3o Renda B\u00e1sica da Cidadania, a redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho, a reorganiza\u00e7\u00e3o do sistema financeiro, a reorienta\u00e7\u00e3o dos sistemas tribut\u00e1rios e a livre circula\u00e7\u00e3o do conhecimento (em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 \u201cpropriedade intelectual\u201d e aos sistemas de \u201ccopyright\u201d) \u2013 figuram lado a lado com mudan\u00e7as de atitude decisivas (como a \u201cmodera\u00e7\u00e3o do consumo\u201d e a \u201cgeneraliza\u00e7\u00e3o da reciclagem).<\/p>\n<p>\u00c9 pouco, certamente \u2013 e \u00e9 \u00f3timo que seja assim. Reconstruir um projeto de emancipa\u00e7\u00e3o social ser\u00e1 obra de multid\u00f5es e exigir\u00e1 d\u00e9cadas de imagina\u00e7\u00e3o, sondagens, tentativas, erros, novas reflex\u00f5es e cria\u00e7\u00f5es. O que o livro de Ladislau Dowbor reitera \u00e9 que o esfor\u00e7o come\u00e7ou; que j\u00e1 somos capazes de nos perceber submetidos \u00e0\u00a0<i>Era do Capital Improdutivo \u2013\u00a0<\/i>mas tamb\u00e9m de buscar as sa\u00eddas; que, em oposi\u00e7\u00e3o ao futuro dist\u00f3pico que hoje nos amea\u00e7a, podemos tatear o p\u00f3s-capitalismo.<\/p>\n<p>http:\/\/outraspalavras.net\/brasil\/a-era-do-capital-improdutivo-e-como-supera-la\/<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ANTONIO MARTINS &#8211; Em seu novo livro, Ladislau Dowbor oferece chaves preciosas para decifrar a metamorfose do sistema e suas novas formas de dominar e concentrar riquezas. 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