{"id":479,"date":"2016-06-04T12:16:01","date_gmt":"2016-06-04T15:16:01","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=479"},"modified":"2016-05-30T16:18:19","modified_gmt":"2016-05-30T19:18:19","slug":"a-historia-por-tras-do-golpe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/06\/04\/a-historia-por-tras-do-golpe\/","title":{"rendered":"A hist\u00f3ria por tr\u00e1s do golpe"},"content":{"rendered":"<p><strong>Luiz Bernardo Peric\u00e1s<\/strong> &#8211;\u00a0Nos dias atuais, Caio Prado J\u00fanior por certo se levantaria contra as manobras e articula\u00e7\u00f5es que buscam levar adiante um processo arbitr\u00e1rio das elites brasileiras para assumir o poder e aplicar uma agenda ainda mais retr\u00f3grada, entreguista e privatizante, que ser\u00e1 altamente prejudicial \u00e0s massas<\/p>\n<p>No come\u00e7o da d\u00e9cada de 1920, o escritor Leonid Leonov publicou <em>O fim de um homem mesquinho<\/em> (Konets melkogo cheloveka), narrativa com tintas dostoievskianas que contava a hist\u00f3ria do professor Fedor Andreich Likharev, um paleont\u00f3logo que passara a maior parte de sua exist\u00eancia ausente da vida pol\u00edtica russa.\u00a0 Quando estourou a revolu\u00e7\u00e3o, ele se encontrava ocupado com seus estudos sobre a Era Mesozoica e fazia o poss\u00edvel para n\u00e3o ser perturbado pelos eventos transcendentes de sua \u00e9poca: estava mais envolvido com o passado remoto, com cavernas e r\u00e9pteis saurisquianos, do que com o seu pr\u00f3prio tempo.\u00a0 De certa forma, ele mesmo era um dinossauro, que poderia ser extinto a qualquer momento: para todos os efeitos, um homem sup\u00e9rfluo.\u00a0 At\u00e9 que n\u00e3o conseguiu mais ignorar o que estava a seu redor e acabou por se integrar ao movimento&#8230;<\/p>\n<p>Entre as distintas abordagens ao texto, \u00e9 poss\u00edvel perceber a \u00eanfase no papel do intelectual na luta do cotidiano.\u00a0 Ou seja, a import\u00e2ncia do engajamento da intelligentsia no mundo pol\u00edtico e social e a cr\u00edtica aos estudiosos de gabinete, distantes da realidade a sua volta.<\/p>\n<p>A novela leonoviana, assim, pode servir como defesa de uma postura engajada, de homens de letras com forte interven\u00e7\u00e3o no debate p\u00fablico, como Caio Prado J\u00fanior e v\u00e1rios colegas de sua gera\u00e7\u00e3o.\u00a0 Afinal, o autor de A revolu\u00e7\u00e3o brasileira estudava com profundidade o processo hist\u00f3rico nacional, a partir do m\u00e9todo dial\u00e9tico, como forma de entender e intervir no presente.\u00a0 N\u00e3o apenas se limitava a an\u00e1lises conjunturais, mas via o pa\u00eds no quadro maior da longa dura\u00e7\u00e3o.\u00a0 Sua prioridade, portanto, foi sempre a luta pela transforma\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Caio discutir\u00e1 o desenvolvimento desigual e combinado de um pa\u00eds que ir\u00e1, desde seus prim\u00f3rdios, se inserir na l\u00f3gica do mercado internacional e, depois, do imperialismo: neste sentido, os des\u00edgnios externos vinculados a elementos de poder pol\u00edtico-econ\u00f4mico end\u00f3genos permitir\u00e3o a subsist\u00eancia de uma din\u00e2mica que se reproduz historicamente (com recorrentes mudan\u00e7as, rupturas e expans\u00f5es), mas deixando inalterados, em boa medida, tra\u00e7os b\u00e1sicos das rela\u00e7\u00f5es sociais (como a subordina\u00e7\u00e3o de setores subalternos, pouco preparados cultural e ideologicamente, e muitas vezes sem organicidade pol\u00edtica ou condi\u00e7\u00e3o efetiva de contrapor o modelo consolidado).\u00a0 Por isso, a necessidade de se atuar na fratura s\u00f3cio-hist\u00f3rica e cultural brasileira, tentando integrar as classes menos privilegiadas (o setor \u201cinorg\u00e2nico\u201d, com menor n\u00edvel material e educacional) ao painel ampliado da constru\u00e7\u00e3o da \u201cna\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Caio Prado J\u00fanior far\u00e1 uma cr\u00edtica contundente \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o de terras nas m\u00e3os de latifundi\u00e1rios e \u00e0 \u201clivre iniciativa privada\u201d, defendendo, ao mesmo tempo, o aprofundamento de reformas democratizantes e a rejei\u00e7\u00e3o a todo tipo de autoritarismo.\u00a0 \u00c9 verdade que o mundo de CPJ era outro.\u00a0 Ao longo da vida, ele passou por epis\u00f3dios hist\u00f3ricos importantes, como a revolu\u00e7\u00e3o de 1930, o Estado Novo, a Segunda Guerra Mundial, a Guerra Fria, a ditadura militar e o processo de luta pela redemocratiza\u00e7\u00e3o no pa\u00eds.\u00a0 Suas ideias, portanto, devem ser vistas como produto de seu tempo.\u00a0 Ainda assim, podemos tentar avaliar, de maneira panor\u00e2mica, elementos do contexto pol\u00edtico e econ\u00f4mico de hoje \u00e0 luz do ide\u00e1rio caiopradiano, para tentarmos aferir uma poss\u00edvel atualidade de seu pensamento.<\/p>\n<p>Um primeiro aspecto \u00e9 o da constru\u00e7\u00e3o das ferramentas necess\u00e1rias para os c\u00e2mbios sociais, que ocorreriam dentro de um processo de mudan\u00e7as permanente, ininterrupto e din\u00e2mico, que poderia ser caracterizado, para todos os efeitos, como \u201cgradualista\u201d.\u00a0 Caio Prado J\u00fanior, nesse sentido, prop\u00f5e lineamentos, indica\u00e7\u00f5es gerais, apontando os principais problemas e a necessidade de lidar com eles.\u00a0 As quest\u00f5es se apresentam constantemente durante o processo; \u00e0 medida que s\u00e3o resolvidas, novos questionamentos e problemas surgem, com os quais as for\u00e7as populares tamb\u00e9m dever\u00e3o lidar. \u00c9 ao longo desse continuum que a \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d se processa.<\/p>\n<p>Podemos nos perguntar que instrumentos, constru\u00eddos e liderados pelos pr\u00f3prios trabalhadores, seriam esses nos dias de hoje.\u00a0 \u00c9 poss\u00edvel sugerir que movimentos com certa autonomia, representatividade social e organicidade, como o MST e o MTST (entre v\u00e1rios outros), talvez sejam aqueles que simbolizem, em boa medida, o que defendia Caio: entidades ao mesmo tempo com grandes contingentes de militantes sociais e tamb\u00e9m \u201cescolas de quadros\u201d, que realizam a dupla tarefa de pressionar por reformas laborais essenciais enquanto, paralelamente, buscam consolidar uma \u201cconsci\u00eancia\u201d pol\u00edtica dentro da luta de classes de larga dura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os governos do PT (especialmente nos dois mandatos de Lula), por certo, tiveram importantes \u00eaxitos no campo social e fizeram avan\u00e7ar uma pauta progressista no pa\u00eds (que, por sinal, se v\u00ea amea\u00e7ada por uma onda conservadora perigosa no Congresso e em setores das classes m\u00e9dias).\u00a0 Mas a agenda lulista nunca foi socialista (nunca se prop\u00f4s, de fato, a isso).\u00a0 J\u00e1 Caio era um \u201ccomunista\u201d.\u00a0 Ele se recusava, como se sabe, a propor uma \u201crevolu\u00e7\u00e3o socialista total\u201d (como afirmou certa vez); ainda assim, defendia o arcabou\u00e7o te\u00f3rico marxiano, que n\u00e3o via o socialismo apenas como um movimento pela aboli\u00e7\u00e3o da desigualdade econ\u00f4mica, mas tendo como objetivo prec\u00edpuo a emancipa\u00e7\u00e3o do homem, a liberta\u00e7\u00e3o dos grilh\u00f5es econ\u00f4micos (mais do que apenas a transforma\u00e7\u00e3o de objetivos materiais como principal interesse da vida) e a cria\u00e7\u00e3o de uma sociedade em que cada pessoa pudesse participar de forma ativa e respons\u00e1vel nas decis\u00f5es do cotidiano.<\/p>\n<p>O lulismo encarou a pol\u00edtica como um movimento de progresso e inclus\u00e3o da classe trabalhadora, mas a \u00eanfase foi colocada nos objetivos na ascens\u00e3o econ\u00f4mica e no consumo.\u00a0 O resultado foi que esta vertente se tornou o ve\u00edculo pelo qual as classes baixas puderam ganhar espa\u00e7o social e conquistar um lugar (mesmo que ainda coadjuvante) dentro da estrutura capitalista (e nunca para super\u00e1-la).\u00a0 Iriam replicar os valores e os modismos das classes mais abastadas e come\u00e7ariam a exigir mais das autoridades em termos essencialmente materiais e individualistas.\u00a0 O sonho lulista vislumbrava a transforma\u00e7\u00e3o de fatias inteiras da popula\u00e7\u00e3o em \u201cclasse m\u00e9dia\u201d com amplo acesso a bens dur\u00e1veis e a servi\u00e7os.\u00a0 Se na tradi\u00e7\u00e3o marxista do s\u00e9culo XX, homens como L\u00eanin, Trotsky e o Che defendiam a constru\u00e7\u00e3o do \u201chomem novo\u201d, o lulismo acabaria por criar o \u201cconsumidor novo\u201d.\u00a0 E ainda de forma fr\u00e1gil.\u00a0 Aqui n\u00e3o se quer tirar o m\u00e9rito da \u00e1rdua e importante tarefa de redistribui\u00e7\u00e3o de renda e inclus\u00e3o social de milh\u00f5es de brasileiros, de forma alguma.\u00a0 S\u00f3 se aponta para os objetivos imediatistas e limitados do projeto, sem d\u00favida, importante, mas que poderia (e deveria) ter ido bem mais longe.\u00a0 H\u00e1 quem diga que o lulismo, na pr\u00e1tica, n\u00e3o se propunha a realizar reformas estruturais profundas (que exigiriam rupturas e confrontos agudos com setores antag\u00f4nicos), mas \u201cganhos nas margens\u201d, lentamente, apostando num ciclo estendido no tempo.\u00a0 Seria tamb\u00e9m, na acep\u00e7\u00e3o do soci\u00f3logo Ruy Braga, um \u201cmodo de regula\u00e7\u00e3o\u201d e de \u201cconten\u00e7\u00e3o\u201d de conflitos classistas, um \u201cs\u00f3cio menor\u201d do bloco de poder capitalista no Brasil.\u00a0 Para ele, o \u201csindicalismo lulista\u201d se transformou n\u00e3o apenas em ativo administrador do Estado burgu\u00eas, mas em ator-chave na arbitragem do investimento capitalista do pa\u00eds: de um \u201cesbo\u00e7o desenvolvimentista\u201d, acabaria por transitar para o executor de pol\u00edticas de austeridade fiscal&#8230;<\/p>\n<p>Se o fortalecimento de um mercado interno era premissa fundamental defendida por Caio, este deveria vir acompanhado de outros fatores (o resultado do per\u00edodo recente, em \u00faltima inst\u00e2ncia, foi o esgotamento de um ciclo longo de expans\u00e3o do consumo das fam\u00edlias e do investimento induzido pelo crescimento deste mesmo mercado interno).\u00a0 A alian\u00e7a dos governos petistas com segmentos conservadores, sua rela\u00e7\u00e3o com os grandes bancos e empreiteiras, assim como a implementa\u00e7\u00e3o de receitu\u00e1rios econ\u00f4micos elaborados por representantes da elite financeira provavelmente seriam vistos de forma cr\u00edtica por Caio Prado J\u00fanior, que assinalava que n\u00e3o se deve confiar na burguesia, que tem uma agenda pr\u00f3pria.\u00a0 Na primeira oportunidade, ela se volta contra seus apoiadores circunstanciais e trai seus supostos aliados, sem qualquer peso na consci\u00eancia&#8230;<\/p>\n<p>A an\u00e1lise das funda\u00e7\u00f5es de nossa sociedade era um eixo essencial na discuss\u00e3o caiopradiana.\u00a0 O autor de URSS, um novo mundo revelou as rela\u00e7\u00f5es, os processos e as estruturas sociais, econ\u00f4micas e pol\u00edticas que operavam na composi\u00e7\u00e3o e nas transforma\u00e7\u00f5es de nossa sociedade, indicando o fator de instabilidade, de falta de continuidade no decurso hist\u00f3rico do pa\u00eds, ou seja, uma evolu\u00e7\u00e3o por ciclos, com fases sucessivas de progresso, seguido de decad\u00eancia, resultando num sistema e num processo econ\u00f4mico em que a produ\u00e7\u00e3o e o crescimento se subordinavam a conting\u00eancias extr\u00ednsecas. O desenvolvimento, portanto, significaria a supera\u00e7\u00e3o do passado colonial e a elimina\u00e7\u00e3o do que ainda restava dele. \u00a0S\u00f3 assim, o Brasil poderia deixar sua posi\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica, complementar e dependente. \u00a0Para isso, ele mostrar\u00e1 a din\u00e2mica das for\u00e7as sociais internas e das press\u00f5es econ\u00f4micas e pol\u00edticas internacionais, a partir de temas como o sentido da coloniza\u00e7\u00e3o, o quadro geral do escravismo, a crise do sistema colonial e as for\u00e7as que constituir\u00e3o a Rep\u00fablica Velha, at\u00e9 os dias em que escrevia. \u00a0Premente, nesse sentido, seria a consolida\u00e7\u00e3o de uma \u201cestrutura pol\u00edtica\u201d democr\u00e1tica e popular, a modifica\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es trabalhistas (especialmente no campo) e o rompimento com o imperialismo, o qual, segundo ele, se integrara \u00e0 economia do Brasil ao longo de v\u00e1rios lustros, a partir de mecanismos como financiamento de produ\u00e7\u00e3o, com\u00e9rcio e exporta\u00e7\u00e3o de produtos distintos (especialmente o caf\u00e9); do fortalecimento de setores vinculados a bancos, ag\u00eancias credit\u00edcias ou elementos ligados \u00e0 especula\u00e7\u00e3o financeira operando por aqui; e da atua\u00e7\u00e3o de interesses estrangeiros em \u00e1reas como ind\u00fastrias, transportes, minera\u00e7\u00e3o e servi\u00e7os p\u00fablicos. O imperialismo, em \u00faltima inst\u00e2ncia, constituiria um fator ao mesmo tempo que integraria e completaria o sistema colonial, apresentando-se, al\u00e9m do mais, como uma \u201cdeformidade\u201d no processo de moderniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div>O painel atual do pa\u00eds \u00e9 de desnacionaliza\u00e7\u00e3o, financeiriza\u00e7\u00e3o da economia, juros altos, infla\u00e7\u00e3o acima da meta, falta de democratiza\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, estrutura tribut\u00e1ria perversa, crescimento nas taxas de desemprego e criminaliza\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>No campo, o agroneg\u00f3cio d\u00e1 o tom, com extrativismo predat\u00f3rio e o cultivo de produtos para exporta\u00e7\u00e3o com uso intensivo de pesticidas. \u00a0A agricultura brasileira se v\u00ea enredada pela alian\u00e7a entre o capital financeiro e as grandes corpora\u00e7\u00f5es: o cr\u00e9dito e os insumos monopolizados nas m\u00e3os de bancos e empresas multinacionais. \u00a0N\u00e3o \u00e9 de se estranhar, portanto, que as cinquenta maiores companhias atuantes na agricultura do pa\u00eds tiveram ganhos significativos em 2014 (em torno de 70% do PIB agr\u00edcola). \u00a0A maior parcela deste faturamento foi de empresas de capital estrangeiro, enquanto muitas nacionais est\u00e3o endividadas ou dependentes de empr\u00e9stimos externos. Concomitantemente, o corte de recursos or\u00e7ament\u00e1rios para a reforma agr\u00e1ria (uma premissa b\u00e1sica defendida por Caio Prado J\u00fanior) e o ritmo lento de assentamentos foram outras caracter\u00edsticas deste momento (o Incra, que detinha um or\u00e7amento inicial de R$ 1,65 bilh\u00e3o em 2015, teve de trabalhar no ano passado com algo em torno de R$ 874,37 milh\u00f5es). \u00a0Dados do Atlas da Terra no Brasil 2015, preparado pela USP\/CNPq e coordenado por Ariovaldo Umbelino de Oliveira, mostram que h\u00e1 66 mil im\u00f3veis com 175,9 milh\u00f5es de hectares improdutivos no pa\u00eds. \u00a0\u00c9 bom recordar que os latif\u00fandios pertencem a somente 1% dos donos de terra no Brasil, mas equivalem a 43% das \u00e1reas de cultivo agr\u00edcola ou cria\u00e7\u00e3o de gado. \u00a0As grilagens por empresas e propriet\u00e1rios particulares continuam a ocorrer. \u00a0Indicadores sobre a ocupa\u00e7\u00e3o agr\u00e1ria mostram que em 2010, 238 milh\u00f5es de hectares eram considerados como \u201cgrande propriedade de terra\u201d no Brasil, enquanto que em 2014, esse n\u00famero cresceu para 244,7 milh\u00f5es de hectares, um incremento de 2,5% em apenas quatro anos. \u00a0Isso significa um aumento de seis milh\u00f5es de hectares para as m\u00e3os de latifundi\u00e1rios. \u00a0Para completar, a viol\u00eancia permaneceu em um ritmo preocupante: em 2015, foram 49 assassinatos de posseiros, sem-terra e assentados em conflitos agr\u00e1rios. \u00a0Em outras palavras, penetra\u00e7\u00e3o do capital estrangeiro no campo, aumento na concentra\u00e7\u00e3o da propriedade fundi\u00e1ria, perman\u00eancia do latif\u00fandio, repress\u00e3o do Estado ou das elites locais, e produ\u00e7\u00e3o essencialmente voltada para o mercado externo. \u00a0Tudo o que CPJ atacava&#8230; Ainda que o Brasil hoje seja um pa\u00eds eminentemente urbano (diferente do per\u00edodo em que Caio escrevia), a situa\u00e7\u00e3o no meio rural continua dif\u00edcil e com v\u00e1rios elementos similares \u00e0s cr\u00edticas caiopradianas elaboradas d\u00e9cadas atr\u00e1s.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O papel de subordina\u00e7\u00e3o e complementariedade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 economia mundial \u00e9 n\u00edtida. \u00a0A reprimariza\u00e7\u00e3o e desindustrializa\u00e7\u00e3o marcam este per\u00edodo. \u00a0O eixo central da economia continua ligado \u00e0queles setores direcionados \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o de produtos sem grande valor agregado. \u00a0Em outras palavras, o pa\u00eds mant\u00e9m sua posi\u00e7\u00e3o como fornecedor de commodities minerais e agropecu\u00e1rias para o mercado internacional, o que faz com que alguns cheguem a designar este quadro de especializa\u00e7\u00e3o produtivo-comercial de \u201cregress\u00e3o colonial\u201d.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O que se pode perceber claramente \u00e9 que se h\u00e1 tentativas de ajustes ou interven\u00e7\u00f5es conjunturais na economia, falta uma vis\u00e3o de longo prazo e um \u201cprojeto de na\u00e7\u00e3o\u201d. \u00a0Algo que Caio Prado J\u00fanior sempre defendeu. \u00a0Com o fim do superciclo das commodities (no qual se apostaram quase todas as fichas) e a menor competitividade do setor industrial, a situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds parece sombria.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Finalmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o pol\u00edtica, o autor de O mundo do socialismo seria en\u00e9rgico contra as tentativas de golpe da atualidade. \u00a0Caio Prado J\u00fanior e o PCB, nos anos de 1947 e 1948, passaram por um processo de persegui\u00e7\u00e3o \u201cinstitucional\u201d, que levou \u00e0 cassa\u00e7\u00e3o do partido e dos mandatos de seus parlamentares. \u00a0Foi uma forma de interven\u00e7\u00e3o branca, a partir de leis, dispositivos regimentais e aferi\u00e7\u00f5es do Judici\u00e1rio, para tirar de cena, com toda apar\u00eancia de legalidade, aquela agremia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. \u00a0E conseguiram. \u00a0O resultado, no caso do historiador, foi a perda de seu mandato de deputado estadual e em seguida, a pris\u00e3o. \u00a0Ele sabia muito bem como se orquestravam os conluios dos setores mais conservadores do pa\u00eds. \u00a0E se empenhou energicamente em campanhas p\u00fablicas contra a ofensiva da direita. \u00a0Foi duramente punido por isso.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Nos dias atuais, Caio Prado J\u00fanior por certo se levantaria contra as manobras e articula\u00e7\u00f5es para levar adiante um processo arbitr\u00e1rio das elites brasileiras para assumir o poder e implementar uma agenda ainda mais retr\u00f3grada, entreguista e privatizante, que ser\u00e1 altamente prejudicial \u00e0s massas (\u00e9 s\u00f3 lembrar do programa \u201cUma ponte para o futuro\u201d, do PMDB). \u00a0Um golpe institucional contra uma presidente legitimamente eleita que, apesar de quaisquer equ\u00edvocos na condu\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, n\u00e3o cometeu nenhum crime de responsabilidade. \u00a0Um golpe encabe\u00e7ado por figuras nefastas e levado a cabo por um Congresso repleto de deputados processados ou r\u00e9us na Justi\u00e7a, e que, longe de ser \u201cpopular\u201d, representa os interesses do capital financeiro, de corpora\u00e7\u00f5es, do agroneg\u00f3cio e de suas entidades patronais (como Fiesp, CNI, CNA e Febraban), assim como das Igrejas e da grande m\u00eddia.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A consolida\u00e7\u00e3o da democracia sempre foi uma premissa fundamental para o historiador paulista. \u00a0O caminho a seguir, portanto, \u00e9 pela esquerda. \u00a0Assim, \u201ca crise em marcha\u201d (numa express\u00e3o usada pelo pr\u00f3prio CPJ), paradoxalmente, poder\u00e1 ajudar os setores progressistas a aglutinarem for\u00e7as, n\u00e3o s\u00f3 para exigir a manuten\u00e7\u00e3o das conquistas sociais dos anos recentes, mas para pressionarem pelo aprofundamento de uma pauta mais radical e libert\u00e1ria, em termos pol\u00edticos, econ\u00f4micos e culturais, uma pauta necess\u00e1ria para o maior desenvolvimento aut\u00f4nomo do pa\u00eds e a verdadeira transforma\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora brasileira em protagonista de sua hist\u00f3ria.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/Noticias\/visualizar\/4491<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Bernardo Peric\u00e1s &#8211;\u00a0Nos dias atuais, Caio Prado J\u00fanior por certo se levantaria contra as manobras e articula\u00e7\u00f5es que buscam levar adiante um processo arbitr\u00e1rio das elites brasileiras para assumir o poder e aplicar uma agenda ainda mais retr\u00f3grada, entreguista e privatizante, que ser\u00e1 altamente prejudicial \u00e0s massas No come\u00e7o da d\u00e9cada de 1920, o 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