{"id":4709,"date":"2017-08-05T12:03:28","date_gmt":"2017-08-05T15:03:28","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=4709"},"modified":"2017-08-01T12:07:44","modified_gmt":"2017-08-01T15:07:44","slug":"a-perversao-comeca-na-formacao-diz-ex-pm-condenado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/08\/05\/a-perversao-comeca-na-formacao-diz-ex-pm-condenado\/","title":{"rendered":"\u201cA pervers\u00e3o come\u00e7a na forma\u00e7\u00e3o\u201d, diz ex-PM condenado"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ciro Barros<\/strong> &#8211; Na penitenci\u00e1ria de Bangu, ex-soldado da PMERJ Rodrigo Nogueira Batista fala sobre cultura violenta da corpora\u00e7\u00e3o, corrup\u00e7\u00e3o dos oficiais e o revanchismo entre policiais e criminosos<\/p>\n<p>Com quase dois metros de altura, mais de 100 quilos entre m\u00fasculo e alguma gordura, o ex-soldado da Pol\u00edcia Militar do Rio de Janeiro Rodrigo Nogueira Batista, de 33 anos, \u00e9 um \u201cmonstro\u201d como a g\u00edria popular classifica os brutamontes do tamanho dele. A orelha esquerda estourada pelos tatames de jiu-jitsu e o nariz meio torto ajudam a compor a figura do ex-PM preso em Bangu 6 (Penitenci\u00e1ria Lemos de Brito). Essa pris\u00e3o, destinada prioritariamente a ex-policiais, bombeiros, agentes penitenci\u00e1rios e milicianos, faz parte do Complexo Penitenci\u00e1rio de Bangu, bairro da zona oeste do Rio de Janeiro. Preso desde novembro de 2009, Rodrigo foi condenado pela Justi\u00e7a Militar a\u00a0<a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/rio-de-janeiro\/noticia\/2011\/05\/justica-militar-condena-pms-por-furto-extorsao-e-atentado-violento-ao-pudor.html\">18 anos por furto qualificado, extors\u00e3o mediante sequestro e atentado violento ao pudor<\/a>\u00a0e a\u00a0<a href=\"http:\/\/noticias.terra.com.br\/brasil\/policia\/rj-pm-que-atirou-em-vendedora-e-condenado-a-quase-13-anos-de-prisao,367b4fc7b94fa310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD.html\">12 anos e 8 meses no Tribunal do J\u00fari por tentativa de homic\u00eddio triplamente qualificado<\/a>.<\/p>\n<div id=\"attachment_18067\" class=\"wp-caption aligncenter\">\n<blockquote>\n<p class=\"wp-caption-text\">O ex-soldado da PM, Rodrigo Nogueira, preso em Bangu 6 desde 2009, durante entrevista a Ag\u00eancia P\u00fablica, fala de seu livro \u201cComo nascem os monstros\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<p>Segundo a condena\u00e7\u00e3o judicial, Rodrigo e seu ent\u00e3o parceiro, o cabo Marcelo Machado Carneiro, abordaram a vendedora ambulante Helena Moreira na descida do Morro de S\u00e3o Carlos, onde ela morava. Ela iria \u00e0 esta\u00e7\u00e3o de metr\u00f4 Est\u00e1cio, no bairro do Est\u00e1cio de S\u00e1, Rio de Janeiro, e levava na bolsa R$ 1.750. Os policiais a revistaram, roubaram a quantia em dinheiro e sequestraram Helena pensando que ela fosse mulher de algum traficante. Segundo a decis\u00e3o do juiz Jorge Luiz Le Cocq D\u2019Oliveira, os PMs mantiveram a vendedora sob c\u00e1rcere privado por quatro horas, onde ela foi agredida e \u201cconstrangida a praticar atos libidinosos\u201d antes de ser atingida por um tiro de fuzil no rosto, que teria sido disparado por Rodrigo. Ainda segundo a senten\u00e7a, a v\u00edtima se fingiu de morta ap\u00f3s a sess\u00e3o de tortura e foi \u00e0 delegacia dar queixa. Rodrigo recorreu da senten\u00e7a no Superior Tribunal de Justi\u00e7a (STJ). Ele afirma n\u00e3o ter cometido o crime pelo qual foi condenado, mas diz com todas as letras que \u201cn\u00e3o \u00e9 inocente\u201d, \u00a0cometeu \u201coutros erros\u201d como policial, que ele n\u00e3o quer detalhar para n\u00e3o complicar sua situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ele \u00e9 autor do livro \u201cComo Nascem os Monstros\u201d, da Editora Topbooks, um brutal \u201cromance de n\u00e3o-fic\u00e7\u00e3o\u201d, em que mistura suas pr\u00f3prias hist\u00f3rias \u00e0s hist\u00f3rias de outros colegas, casos de repercuss\u00e3o na cr\u00f4nica policial e \u201ccausos\u201d da corpora\u00e7\u00e3o. No livro, Rodrigo descreve com consist\u00eancia a transforma\u00e7\u00e3o de um jovem comum, com vagos ideais de defesa da sociedade e combate ao crime, em um criminoso fardado que usa de sua posi\u00e7\u00e3o para matar, sequestrar, extorquir e prestar servi\u00e7os \u00e0 mil\u00edcia. O resultado \u00e9 um quadro aterrador de achaque de oficiais aos recrutas, corrup\u00e7\u00e3o dos batalh\u00f5es e uma \u00e1cida interpreta\u00e7\u00e3o da vis\u00e3o da sociedade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edcia.<\/p>\n<p>\u201cNenhum, eu digo e afirmo, nenhum recruta sai do CFAP [Centro de Forma\u00e7\u00e3o e Aperfei\u00e7oamento de Pra\u00e7as] pronto para empunhar uma arma no meio da rua\u201d, afirma categoricamente o ex-PM. Mas logo ele vai aprender que tem que pagar para tirar f\u00e9rias, para ficar nos melhores postos da corpora\u00e7\u00e3o e assistir aos oficiais lucrando com a venda de policiamento. \u201cNo Morro dos Macacos, ningu\u00e9m entrava sem autoriza\u00e7\u00e3o do comando. Se um carro fosse roubado, e o bandido fugisse com o ve\u00edculo para o interior da comunidade, sorte dele (\u2026). Acredite, se um policial adentrar uma comunidade sem autoriza\u00e7\u00e3o do comando, n\u00e3o importa o motivo, ele responder\u00e1 por descumprimento de ordem. O morro que est\u00e1 \u2018arregado\u2019 n\u00e3o tem tiro nem morte, basta estar com o carn\u00ea em dia\u201d, denuncia.<\/p>\n<p>\u201cPosso garantir que, ao ingressar na corpora\u00e7\u00e3o, ningu\u00e9m acredita que um dia vai sequestrar algu\u00e9m, roubar seu dinheiro, matar essa pessoa e atear fogo ao corpo. Pode at\u00e9 ter uma vontadezinha de atirar em algum bandido (\u2026), mas pensar em tamanha crueldade \u00e9 imposs\u00edvel\u201d, narra Rodrigo no livro. \u201cEmbaixo da casca monstruosa que envolve esse tipo de criminoso, o policial militar que erra, tamb\u00e9m havia (h\u00e1?) um homem que um dia estudou, passou no concurso, se formou, fez um juramento e marchava com garbo. Deu orgulho \u00e0 sua fam\u00edlia e, pelo menos uma vez, arriscou morrer pela sociedade.\u201d<\/p>\n<p>Tenho diante de mim um monstro: algu\u00e9m condenado por um crime hediondo, mas, na pr\u00f3pria met\u00e1fora de Rodrigo, algu\u00e9m que tamb\u00e9m \u00e9 produto de mecanismos cru\u00e9is de uma corpora\u00e7\u00e3o cruel. Ligo o gravador. Essa \u00e9 a vers\u00e3o dele.<\/p>\n<p><b>Como voc\u00ea entrou na Pol\u00edcia Militar?<\/b><\/p>\n<p>Entrei na Marinha com 18 anos, fui aprendiz de marinheiro em Santa Catarina. Sempre gostei muito da vida militar. Logo no come\u00e7o eu j\u00e1 me desiludi com o militarismo na Marinha. Eu sentia falta de realmente me sentir \u00fatil. Quando eu tive que escolher uma especializa\u00e7\u00e3o na Marinha, n\u00e3o consegui passar nos exames para mergulhador. Sobraram algumas \u00e1reas bem ruins e a\u00ed resolvi fazer o curso da pol\u00edcia. Passei no primeiro concurso que eu fiz, pedi baixa da Marinha e fiquei aguardando. No fim, eu fui pra pol\u00edcia.<\/p>\n<p>Mais uma vez veio a desilus\u00e3o. Assim que n\u00f3s nos apresentamos l\u00e1 no CFAP (Centro de Forma\u00e7\u00e3o e Aperfei\u00e7oamento de Pra\u00e7as da Pol\u00edcia Militar), onde a maioria dos pra\u00e7as s\u00e3o treinados. O CFAP deveria ser um centro de excel\u00eancia, mas para voc\u00ea ter uma ideia, no primeiro dia n\u00e3o teve nem almo\u00e7o pros recrutas. No primeiro dia tivemos s\u00f3 meio expediente e o comando j\u00e1 liberou todo mundo.<\/p>\n<p><b>Voc\u00ea conta no livro que ali come\u00e7ou uma degrada\u00e7\u00e3o de um rapaz que tinha um ideal, queria defender a sociedade, e come\u00e7ou a tomar contato com a viol\u00eancia e a corrup\u00e7\u00e3o na corpora\u00e7\u00e3o. Como foi isso pra voc\u00ea?<\/b><\/p>\n<p>O processo de pervers\u00e3o come\u00e7a no in\u00edcio da forma\u00e7\u00e3o. Quando cheguei no CFAP, o primeiro contato quando a gente sai do campo para a companhia \u00e9 um caminho cercado por \u00e1rvores. Do alto daquelas \u00e1rvores, os policiais antigos come\u00e7avam a disparar tiros de festim e soltar bombas. O camarada que deveria ser treinado desde o in\u00edcio pra policiar, j\u00e1 come\u00e7a a ser apresentado a uma guerra. Dentro do CFAP, a cultura dos instrutores n\u00e3o \u00e9 formar policiais. \u00c9 formar combatentes. E a\u00ed \u00e9 que t\u00e1 o problema: voc\u00ea formar um combatente para trabalhar numa coisa t\u00e3o complexa quanto o aspecto social que ele vai ser inserido. Um dia o policial t\u00e1 trabalhando com um mendigo, no outro com um juiz, no outro com um assassino, no outro com um estuprador. Para voc\u00ea preparar um combatente para trabalhar nesse contexto, \u00e9 muito delicado. Demora muito. Se isso n\u00e3o for muito bem feito voc\u00ea acaba criando monstros.<\/p>\n<p>As instru\u00e7\u00f5es, as aulas que s\u00e3o ministradas no CFAP desde o in\u00edcio elas come\u00e7am a mudar o vi\u00e9s do camarada. A minha turma n\u00e3o teve nem aula de direito penal, n\u00e3o teve aula de direito constitucional, n\u00e3o teve aula de filosofia, de sociologia. A gente chegava na sala de aula, sentava, o instrutor falava meia d\u00fazia de anedotas da hist\u00f3ria da pol\u00edcia militar e o resto \u00e9 contando caso (matou fulano, prendeu ciclano). Dentro do pr\u00f3prio ambiente ali, os outros oficiais que coordenavam o curso s\u00f3 tinham um objetivo: deixar o cara aguerrido, endurecido, fazer esse recrudescimento da moral do indiv\u00edduo para ele n\u00e3o demonstrar piedade, covardia. Eles acreditam que se o camarada endurecer bastante ele pode preservar a pr\u00f3pria vida com isso. Mas isso \u00e9 ruim: voc\u00ea cria um cachorrinho bitolado que n\u00e3o consegue enxergar as coisas ao redor como elas s\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois de alguns meses no CFAP, o recruta vai estagiar e trabalhar com os antigos na rua. Como na \u00e9poca era ver\u00e3o, existiam as chamadas Opera\u00e7\u00f5es Ver\u00e3o. Eles colocam o policial antigo armado e dois ou tr\u00eas \u201cbolas-de-ferro\u201d, como eles chamam os recrutas, justamente por dificultar a movimenta\u00e7\u00e3o do antigo. Geralmente, os batalh\u00f5es que recebem esse efetivo do CFAP s\u00e3o os litor\u00e2neos. A\u00ed a gente foi pro 31\u00ba, no Recreio, 23\u00ba, que \u00e9 o Leblon, 19\u00ba, Botafogo, 2\u00ba, Copacabana\u2026 Eu ficava um pouquinho em cada um.<\/p>\n<p>No per\u00edodo de praia, por exemplo, a gente chegava e o antigo ficava angustiado com a nossa presen\u00e7a porque queria pegar o dinheiro do flanelinha, do cara que vende mate, da padaria. Outro exemplo: uma das instru\u00e7\u00f5es que os oficiais davam antes do efetivo sair pro policiamento era: \u201colha, voc\u00eas podem fazer o que quiserem, pega o pivete, bate, quebra o cassetete, d\u00e1 porrada no flanelinha. S\u00f3 n\u00e3o deixa ningu\u00e9m filmar e nem tirar foto. O resto \u00e9 com a gente. Cuidado em quem voc\u00eas v\u00e3o bater, com o que voc\u00eas v\u00e3o fazer e tchau e ben\u00e7\u00e3o\u201d. A minha turma partiu pro est\u00e1gio com dois meses de CFAP, dois meses tendo meio expediente e depois rua. E a\u00ed, meu camarada, a barb\u00e1rie imperava: pivete roubando, maconheiro\u2026 Quando ca\u00eda na m\u00e3o era s\u00f3 porrada e muito g\u00e1s de pimenta. Foi ali que eu tive contato com as t\u00e9cnicas de tortura que a Pol\u00edcia Militar procede a\u00ed em v\u00e1rias ocasi\u00f5es.\u00a0<a href=\"http:\/\/apublica.org\/2013\/07\/amarildo-presente\/\">Voc\u00ea v\u00ea agora o caso do Amarildo<\/a>. O modus operandi vai se repetindo, evoluindo, at\u00e9 que toma uma propor\u00e7\u00e3o mundial. Eu conheci aqueles recrutas que participaram do caso Amarildo l\u00e1 no pres\u00eddio da Pol\u00edcia Militar e eles foram formados depois do meu livro. O \u00faltimo par\u00e1grafo do meu livro diz que os port\u00f5es do pres\u00eddio da pol\u00edcia militar estar\u00e3o sempre abertos para receber cada novo monstro nascente. E que venha o pr\u00f3ximo. E continuam nascendo os monstros, um atr\u00e1s do outro. Aqueles policiais que participaram do caso Amarildo, pelo menos de acordo com o que o inqu\u00e9rito est\u00e1 investigando eles est\u00e3o fazendo as mesmas pr\u00e1ticas que eu j\u00e1 fazia, que o meu recrutamento j\u00e1 fazia, que outros fizeram bem antes de mim e que j\u00e1 vem de muitos anos. Vem de uma cultura.<\/p>\n<p><b>Como um policial aprende a torturar?<\/b><\/p>\n<p>\u00c9 no dia a dia mesmo. O nosso direito dificulta o trabalho do policial em certos aspectos. Por exemplo, um pivete roubou uma coisa de um turista e correu. O policial corre atr\u00e1s do pivete e pega o pivete. Quando ele consegue chegar no pivete, ele j\u00e1 jogou o que ele roubou fora e ele \u00e9 menor de idade, n\u00e3o pode ser encaminhado para a delegacia. Porra, mas o policial sabe que ele roubou. E a\u00ed entra o revanchismo, a hora da vingan\u00e7a. Primeiro lugarzinho separado que tiver (cabine, atr\u00e1s de um pr\u00e9dio, dentro dos postos do guarda-vidas) \u00e9 a hora da v\u00e1lvula de escape. E eu posso assegurar para voc\u00ea: da minha turma do CFAP, de dez que se formaram comigo, nove jamais pensaram que passariam por um processo de desumaniza\u00e7\u00e3o t\u00e3o grande. O camarada come\u00e7a a ver um pivete levando choque, spray de pimenta no \u00e2nus, no escroto, dentro da boca e n\u00e3o sente pena nenhuma. Pelo contr\u00e1rio, ele ri, acha engra\u00e7ado.<\/p>\n<p>E tem um motivo: se nesse momento que o mais antigo pegou o pivete e come\u00e7a a fazer isso, se voc\u00ea ficar sentido, comovido por aquela pr\u00e1tica, pode ter certeza que vai virar com\u00e9dia no batalh\u00e3o, vai ser tido como fraco. Vai ser tido como inapto para o servi\u00e7o policial. E a\u00ed voc\u00ea vai come\u00e7ar a ser destacado, a ser visto como um elemento discordante desse ideal que a tropa criou. Se eu t\u00f4 com voc\u00ea, mas voc\u00ea n\u00e3o tem disposi\u00e7\u00e3o pra bancar o que eu t\u00f4 fazendo com um vagabundo, na hora que der merda \u00e9 voc\u00ea que vai roer a corda. Na hora que o vagabundo me der tiro, voc\u00ea n\u00e3o vai ter peito pra meter tiro nele. No fim, voc\u00ea vai ser afastado: vai ficar no rancho, na faxina ou em algum baseamento a noite toda.<\/p>\n<p>Voc\u00ea vai formando e selecionando por esse crit\u00e9rio. Se voc\u00ea \u00e9 duro, voc\u00ea vai trabalhar na patrulha, no GAT (Grupamento de A\u00e7\u00f5es T\u00e1ticas), na Patamo (Patrulhamento T\u00e1tico M\u00f3vel)\u2026 Agora voc\u00ea que \u00e9 mais sensato, que n\u00e3o vai se permitir determinadas coisas, n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de voc\u00ea trabalhar nos servi\u00e7os mais importantes. N\u00e3o tem como o camarada sentar no GAT se n\u00e3o estiver disposto a matar ningu\u00e9m. N\u00e3o tem como. E n\u00e3o \u00e9 matar s\u00f3 o cara que t\u00e1 com a arma na m\u00e3o ali, \u00e9 matar porque a guarni\u00e7\u00e3o chega a essa conclus\u00e3o: \u201cN\u00e3o, aquele cara ali a gente tem que matar.\u201d A\u00ed \u00e9 cerol mesmo. Se voc\u00ea n\u00e3o estiver disposto a participar disso a\u00ed, tu n\u00e3o vai sentar no GAT, n\u00e3o vai sentar numa patrulha nunca.<\/p>\n<p><b>No livro, voc\u00ea descreve o constante clima de guerra e revanchismo entre policiais e traficantes e conta a hist\u00f3ria do recruta Sampaio\u2026<\/b><\/p>\n<p>\u00c9 uma das partes ver\u00eddicas do meu livro, fiz quest\u00e3o de chamar a aten\u00e7\u00e3o pra esse caso do Sampaio. Quem sabe para a fam\u00edlia tamb\u00e9m ler e sentir que algu\u00e9m lembrou dele. Esse caso foi muito s\u00e9rio\u2026 Foi pesado pra caraca\u2026 [Rodrigo chora]. No livro eu coloco que o protagonista conhecia, mas n\u00e3o tinha muita intimidade com o Sampaio. Eu particularmente conhecia bem o Sampaio. Um dia eu cheguei para trabalhar no CFAP, tava de servi\u00e7o na guarda. Era sexta-feira de carnaval. Quando eu cheguei, j\u00e1 ouvi a not\u00edcia que o Sampaio tinha sido assassinado com 19 tiros, l\u00e1 em Caxias [Duque de Caxias, munic\u00edpio da regi\u00e3o metropolitana do Rio]. O Sampaio era filho ca\u00e7ula de uma fam\u00edlia relativamente grande, tinha v\u00e1rios irm\u00e3os, a m\u00e3e dele era uma senhora bem velhinha. Era pra ele estar de servi\u00e7o comigo naquele dia. Ele ia todo dia pro CFAP de \u00f4nibus. Naquele dia, ele ia de carona com um outro companheiro l\u00e1 do CFAP. Ele tava ali parado no ponto de \u00f4nibus, esperando o cara passar de carro e passaram alguns bondes de vagabundos voltando do baile. Ele morava numa \u00e1rea onde tinha traficantes, mas, como ele era recruta e cria da \u00e1rea, ele achou que teria uma toler\u00e2ncia com a presen\u00e7a dele pelo menos at\u00e9 ele se formar e conseguir sair. Ele tava no ponto \u00e0s cinco da manh\u00e3, os vagabundos voltavam do baile e algu\u00e9m o reconheceu. Eles fizeram a volta e come\u00e7aram a atirar nele ali. Ele correu, correu muito, quase 800 metros. E foi cair l\u00e1 perto de uma ruazinha de barro com 19 tiros de calibre .380. Todos eles nas costas. Todos.<\/p>\n<p>A gente j\u00e1 chegou no CFAP com essa not\u00edcia pr\u00f3ximo a nossa formatura. A\u00ed pediram volunt\u00e1rios para a guarda f\u00fanebre e eu fui pro enterro dele. Foi uma representa\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia l\u00e1. E p\u00f4, bicho, ali eu vi como\u2026 [Rodrigo chora novamente]. Se eu tava rachado, ali foi o ponto de quebra. P\u00f4 cara, ele tinha 19 anos. 19 anos\u2026<\/p>\n<div id=\"attachment_18071\" class=\"wp-caption alignleft\">\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/RNogueira_BP_0295.jpg\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-18071 size-large\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/RNogueira_BP_0295-600x400.jpg?resize=600%2C400\" alt=\"O ex-soldado da PM, Rodrigo Nogueira, preso em Bangu 6 desde 2009, durante entrevista a Ag\u00eancia P\u00fablica, fala de seu livro &quot;Como nascem os monstros\u201d. Chora ao falar de Sampaio, recruta que foi morto aos 19 anos. Foto: Bel Pedrosa.\" width=\"600\" height=\"400\" data-lazy-loaded=\"true\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\"><em>O ex-soldado da PM, Rodrigo Nogueira, preso em Bangu 6 desde 2009, durante entrevista a Ag\u00eancia P\u00fablica, fala de seu livro \u201cComo nascem os monstros\u201d. Chora ao falar de Sampaio, recruta que foi morto aos 19 anos<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p><b>Como o clima de guerra entre criminosos e policiais influencia na forma\u00e7\u00e3o do policial no dia a dia?<\/b><\/p>\n<p>Depois que eu vi o Sampaio no caix\u00e3o l\u00e1 com flores at\u00e9 o pesco\u00e7o, s\u00f3 a cara pra fora, a fam\u00edlia dele chorando\u2026 O comandante do CFAP nem quis ir ao enterro, nenhum oficial foi. A kombi que a gente usou pra levar o corpo at\u00e9 o enterro, a gente teve que empurrar porque n\u00e3o funcionava. Depois que eu vi esse descaso todo, eu pensava: \u201cporra, o Sampaio morreu. Tomou 19 tiros. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que vai ficar por isso mesmo\u201d. N\u00e3o teve uma palestra de algu\u00e9m pra conversar com a gente, n\u00e3o teve um inqu\u00e9rito, n\u00e3o teve nada. Ningu\u00e9m sabe at\u00e9 hoje quem deu 19 tiros num recruta que estava desarmado. Ningu\u00e9m sabe. Ali eu pensei: \u201cse eu der mole, vai ser um contra um e de caix\u00e3o livre. Algu\u00e9m vai ter que pagar, isso aqui n\u00e3o vai ficar de gra\u00e7a n\u00e3o. Vou ter que escolher de que lado que eu t\u00f4.\u201d E n\u00f3s nos formamos, e eu fui come\u00e7ar a trabalhar na rua.<\/p>\n<p>Quando eu cheguei no batalh\u00e3o, eu n\u00e3o poderia trabalhar numa coisa que fosse muito perigosa. Eles colocaram a gente num servi\u00e7o de P.O, que \u00e9 o Policiamento Ostensivo a p\u00e9. Eu trabalhei muito na \u00e1rea da Tijuca. Naquela \u00e9poca n\u00e3o tinha UPP ainda, n\u00e3o existia. Ent\u00e3o a Tijuca, agora \u00e9 menos, mas era uma regi\u00e3o muito complicada de se trabalhar pela quantidade de morros ao redor. Eu trabalhava na rua 28 de setembro e no fim dessa rua era o Morro dos Macacos, que era o \u00fanico morro da fac\u00e7\u00e3o criminosa ADA (Amigos dos Amigos) em uma \u00e1rea cercada pelo Comando Vermelho. Era um morro muito forte, os bandidos eram muito aguerridos no combate. N\u00e3o tinham medo de matar pol\u00edcia, de dar tiro em pol\u00edcia. \u00c9 uma \u00e1rea onde passa muito ladr\u00e3o, principalmente do Jacarezinho. Eles vinham de l\u00e1, atravessavam o t\u00fanel Noel Rosa, roubavam na 28 de setembro e voltavam pro Jacarezinho, mudavam de \u00e1rea de batalh\u00e3o e era dif\u00edcil de pegar. Ali, bicho, meio dia eu j\u00e1 dei tiro nos outros ali em saidinha de banco. A primeira vez que eu disparei a minha arma de fogo foi assim, meio dia e pouco, no Ita\u00fa da 28 de setembro. Tinha acabado de assumir o servi\u00e7o. A gente vinha de \u00f4nibus at\u00e9 a 28 de setembro, eu pus os p\u00e9s na rua e um camarada apontou: \u201cT\u00e3o roubando, t\u00e3o roubando\u201d. A\u00ed eu vi um cara saindo do banco e sentando na moto. J\u00e1 puxei a arma, falei pra ele parar, e o garupa se encolheu. A\u00ed o motorista acelerou e eu atirei. S\u00f3 que eu errei e o cara escapou. Ali eu vi que o tro\u00e7o \u00e9 de verdade, que se der mole, fechar o olho, vai ser baleado. Aconteceu tamb\u00e9m quando o Borrachinha foi baleado [epis\u00f3dio descrito no livro]. O Borrachinha tomou um tiro de .380 no meio do olho, foi pro hospital. E n\u00e3o passava uma semana sem que algu\u00e9m pr\u00f3ximo a mim tivesse levado um tiro. Policial que era baleado quando tentavam assaltar\u2026. Quando eu tava na patrulha todo dia tinha. Todo dia, quando eu tava trabalhando na DPO, e com o r\u00e1dio e eu escutava: \u201cPrioridade, prioridade. Assalto em tal rua\u201d \u00e9 porque algum vagabundo tinha dado tiro em patrulha e tava correndo. O GAT quando entrava no Morro dos Macacos, eu tava patrulhando em volta e s\u00f3 ficava escutando o pau roncando l\u00e1. E eu s\u00f3 ficava pensando: \u201cp\u00f4 cara, eu tenho que ir pra l\u00e1, quero ir pra l\u00e1, quero dar tiro\u201d. \u00a0E agora que eu tive tempo pra parar e pensar eu fico vendo como isso \u00e9 absurdo. \u00c9 absurdo.<\/p>\n<p>Eu via essas coisas acontecerem. Rajada de fuzil uma da tarde nos Macacos, seis horas da tarde o cara descarregando uma nove mil\u00edmetros em cima da patrulha pra poder fugir. Eu via isso acontecendo. Agora eu penso como isso \u00e9 surreal, \u00e9 uma guerra. Essa banaliza\u00e7\u00e3o do confronto entre pol\u00edcia e bandido \u00e9 singular no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>O criminoso aqui no Rio de Janeiro n\u00e3o tem receio de dar tiro no policial, nenhum receio. N\u00e3o tem receio de jogar uma granada em cima do policial que entra numa favela. Tem no\u00e7\u00e3o do que \u00e9 isso? Escutar uma granada explodindo e voc\u00ea saber que \u00e9 pra voc\u00ea? Bicho, isso deixa qualquer um pirado. Voc\u00ea t\u00e1 passando com a sua patrulha e de repente voc\u00ea escuta os tiros atr\u00e1s. O cara fica louco. Bicho, voc\u00ea dentro de um blindado, parece que voc\u00ea t\u00e1 no Iraque ou na S\u00edria cara. Quando voc\u00ea embica de blindado dentro de um acesso \u00e0 favela, \u00e9 tiro batendo no vidro, na lataria. Granada explodindo. N\u00e3o tem como o cara n\u00e3o ficar louco. Isso cria um stress no policial que t\u00e1 ali direto, que fica dif\u00edcil do policial equacionar isso na cabe\u00e7a dele. Voc\u00ea imagina uma escala de 24 horas por 72 de descanso. Ent\u00e3o o cara chega na segunda-feira, vai trabalhar. Entra no blindado, bota colete, fuzil, carregador e vai pra favela. Troca tiro, leva tiro, mata um, dois, vai pra delegacia levar a ocorr\u00eancia. V\u00e3o pro batalh\u00e3o. Passa ter\u00e7a, quarta, quinta. Sexta-feira ele entra, vai pra favela de novo, troca tiro de novo, mata mais um. N\u00e3o tem como se conservar s\u00e3o.<\/p>\n<p>O monstro \u00e9 uma met\u00e1fora desse processo de desumaniza\u00e7\u00e3o pelo qual o camarada passa na lida di\u00e1ria do trabalho. Por mais que o cara ele tenha tend\u00eancias homicidas, seja violento, tenha car\u00e1ter duvidoso antes de entrar na Pol\u00edcia Militar, quando ele entra isso tudo \u00e9 potencializado. \u00c9 a hora disso extravasar. Essa lida cont\u00ednua com situa\u00e7\u00f5es de confronto, morte e viol\u00eancia tem que ser encarada de maneira s\u00e9ria pelos gestores da Pol\u00edcia Militar. A gente tem que parar e pensar: a quem interessa deixar que esse bando de alienados fique na rua matando e levando tiros. A quem interessa isso?<\/p>\n<p><b>No livro voc\u00ea tamb\u00e9m comenta sobre a participa\u00e7\u00e3o dos oficiais nesse ciclo de viol\u00eancia e corrup\u00e7\u00e3o e chega at\u00e9 mesmo a cham\u00e1-los de \u201cchefes de quadrilha\u201d. Voc\u00ea diz que eles est\u00e3o no comando disso tudo. Como isso acontece?<\/b><\/p>\n<p>\u00c9 o coronelismo moderno. No militarismo, n\u00e3o tem como uma coisa seja ela boa ou errada continuar sem a anu\u00eancia de quem t\u00e1 no comando. Se eu e voc\u00ea estamos na patrulha e a gente come\u00e7a a agir de uma maneira que est\u00e1 desagrando o comando, ele vai tirar a gente da patrulha. Se eu e voc\u00ea estamos na patrulha, trocando tiros, matando gente e a gente continua na patrulha, \u00e9 porque o comando quer que a gente continue. Dentro da estrutura da Pol\u00edcia Militar, o coronel, o comandante do batalh\u00e3o \u00e9 que coordena todo esse esquema que mant\u00e9m a \u00e1rea do batalh\u00e3o em funcionamento. Toda \u00e1rea de batalh\u00e3o no Rio de Janeiro tem ponto de t\u00e1xi, tem cl\u00ednica de aborto, tem tr\u00e1fico de drogas, tem oficina de desmanche, tem jogo do bicho. Essas atividades s\u00f3 podem ocorrer enquanto o policial n\u00e3o vai l\u00e1 e manda parar. Por que o policial n\u00e3o vai l\u00e1 pra impedir? Porque ele tem determina\u00e7\u00e3o pra n\u00e3o ir. Posso garantir pra voc\u00ea que qualquer policial do Rio de Janeiro que fechar uma banca de bicho na \u00e1rea do batalh\u00e3o dele, no outro dia ele t\u00e1 em outro batalh\u00e3o. Isso se n\u00e3o estiver em outra cidade. E ainda pega fama de \u201crebelde\u201d, de \u201cproblem\u00e1tico\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 algum tempo teve uma como\u00e7\u00e3o muito grande por conta de\u00a0<a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/rio-de-janeiro\/noticia\/2014\/11\/mprj-denuncia-dez-pessoas-por-morte-de-jandira-apos-aborto.html\">uma menina que foi fazer um aborto e faleceu, a Jandira<\/a>. Todo mundo sabia onde era aquela cl\u00ednica de aborto. Por que aquela cl\u00ednica n\u00e3o foi fechada? Se a patrulha for l\u00e1 e fechar a cl\u00ednica de aborto, o coronel vai querer saber porque fechou a cl\u00ednica. \u201cAh, teve reclama\u00e7\u00e3o\u201d. Ok, mas a cl\u00ednica manda dinheiro pro batalh\u00e3o pra continuar funcionando. Se o policial se meter nesse esquema, ele vai sofrer algum tipo de consequ\u00eancia. N\u00e3o \u00e9 consequ\u00eancia de morte, viol\u00eancia, n\u00e3o. \u00c9 consequ\u00eancia administrativa. Vai ser encostado de alguma forma e daqui uma semana a cl\u00ednica vai estar funcionando de novo, pode ter certeza.<\/p>\n<p>No batalh\u00e3o, voc\u00ea tem a administra\u00e7\u00e3o da lavradura militar e tem as companhias. O comandante da companhia \u00e9 quem vai definir que tipo de servi\u00e7o existe dentro das companhias (se o cara vai trabalhar na patrulha, na Patamo, nas cabines\u2026) A patrulha \u00e9 considerada um servi\u00e7o bom. Te deixa m\u00f3vel, voc\u00ea consegue se movimentar bastante dentro da \u00e1rea do batalh\u00e3o e tem possibilidade de ganhos. Voc\u00ea pode extorquir o usu\u00e1rio de drogas, voc\u00ea pode pegar um ladr\u00e3o, tomar a arma dele e ficar com o dinheiro dele e vender a arma. \u00c9 diferente do servi\u00e7o baseado, que voc\u00ea tem que ficar parado no mesmo lugar o dia todo. Pra voc\u00ea trabalhar nessa patrulha, voc\u00ea tem que ser indicado pelo comandante de companhia, pois \u00e9 ele quem determina onde cada um vai ficar. Voc\u00ea foi indicado, beleza, vai trabalhar na patrulha. Pra voc\u00ea se manter na patrulha, voc\u00ea vai ter que dar alguma coisa pro comandante de companhia. Porque tem algu\u00e9m atr\u00e1s de voc\u00ea que t\u00e1 querendo ir pra patrulha tamb\u00e9m. Na minha \u00e9poca, todo mundo que trabalhava na patrulha pagava cem reais por m\u00eas pra continuar na patrulha. Cem meu e cem do comandante da patrulha. Toda sexta-feira \u00e0 noite, o comandante da companhia pegava duzentos reais de cada patrulha, de quem tava de servi\u00e7o \u00e0 noite. Isso da patrulha. Mas ele tamb\u00e9m pega de quem t\u00e1 trabalhando num subsetor, tamb\u00e9m pega 200 reais do cara que tava na cabine, mais um dinheiro do camarada que trabalha no tr\u00e2nsito. Quando voc\u00ea vai ver no final do m\u00eas, esse pedagiozinho d\u00e1 uma soma boa pro comandante de companhia.<\/p>\n<p>Se o cara que t\u00e1 no servi\u00e7o, por exemplo, a patrulha, n\u00e3o quiser pagar, OK. Ele s\u00f3 n\u00e3o vai ficar na patrulha, vai ser deslocado pra outro servi\u00e7o. Esse ped\u00e1gio \u00e9 uma forma do comandante receber um dinheiro e se blindar. Ele n\u00e3o precisa disputar na rua o dinheiro que ele vai receber, ele recebe dentro do batalh\u00e3o. \u00c9 um tipo de achaque e corrup\u00e7\u00e3o muito dif\u00edcil de ser descoberto porque um policial dificilmente vai dizer que o comandante t\u00e1 extorquindo ele. Dificilmente vai dizer, dificilmente vai conseguir provar e vai sobrar pra ele.<\/p>\n<p><b>Por que dificilmente ele vai dizer?<\/b><\/p>\n<p>Porque \u00a0se ele falar pro comandante do batalh\u00e3o que o comandante da companhia t\u00e1 pedindo cem reais pra ele continuar na patrulha, a primeira coisa que o comandante do batalh\u00e3o vai dizer \u00e9: \u201cvoc\u00ea n\u00e3o t\u00e1 mais na patrulha\u201d. Ele pode tentar produzir provas, colocar uma c\u00e2mera escondida, tentar ir mais a fundo. Mas a\u00ed, meu camarada, ele t\u00e1 assinando a pr\u00f3pria senten\u00e7a de morte. A\u00ed voc\u00ea t\u00e1 querendo prejudicar o comandante da companhia, t\u00e1 querendo prender o cara. Entre a pr\u00f3pria tropa \u00e9 visto como ofensivo, como uma coisa p\u00e9ssima. Isso n\u00e3o vai acontecer nunca.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 s\u00f3 mais um exemplo. Quer outro? Pra voc\u00ea tirar f\u00e9rias, voc\u00ea tem que pagar o sargenteante. Olha que absurdo. Esse dinheiro \u00e9 dividido entre o sargenteante, que \u00e9 um sargento, e o capit\u00e3o que \u00e9 comandante de companhia. Isso t\u00e1 no filme l\u00e1, no Tropa de Elite, n\u00e3o \u00e9 mais novidade pra ningu\u00e9m. Mas n\u00e3o para por a\u00ed n\u00e3o. Se voc\u00ea n\u00e3o quer mais trabalhar, voc\u00ea pode chegar no oficial e falar que n\u00e3o quer mais trabalhar. Ele vai falar: \u201cOk, todo m\u00eas o seu sal\u00e1rio fica pra mim\u201d. A\u00ed o sargenteante te coloca numa escala fantasma. Ou seja, voc\u00ea n\u00e3o existe mais no batalh\u00e3o. Voc\u00ea n\u00e3o precisa mais colocar os p\u00e9s no batalh\u00e3o. Isso \u00e9 bom pro cara que trabalha na mil\u00edcia, no jogo do bicho. O camarada que, por exemplo, t\u00e1 trabalhando na banca do jogo do bicho. Recebe l\u00e1 cinco mil por semana pra trabalhar no jogo do bicho. Ir pro batalh\u00e3o pra ele \u00e9 ruim porque ele perde o dia de trabalho dele no bicho. Ent\u00e3o ele pega o sal\u00e1rio dele de dois mil reais, deposita na conta do comandante de companhia e n\u00e3o aparece mais no batalh\u00e3o. Fica s\u00f3 trabalhando no jogo do bicho. Pra ele \u00e9 mais jogo, porque ele n\u00e3o precisa mais se expor, n\u00e3o precisa botar farda, ter hor\u00e1rio, fazer a barba. O interessante pra ele \u00e9 a carteira de policial e o porte da arma. Isso \u00e9 muito comum, \u00e9 f\u00e1cil de se constatar. Qualquer promotor de justi\u00e7a que chegar no batalh\u00e3o de surpresa e disser: \u201cbom dia, eu quero o efetivo do batalh\u00e3o e a escala de servi\u00e7o\u201d. Ele vai encontrar, no m\u00ednimo, cinco, seis fantasmas. Em qualquer batalh\u00e3o do Rio de Janeiro. Isso \u00e9 batata.<\/p>\n<p>Esses esquemas todos nos batalh\u00f5es da Pol\u00edcia Militar s\u00e3o muito antigos. Eles fazem parte de uma cultura da pol\u00edcia. Acabar com esses esquemas todos vai demandar uma coisa muito complicada, que seria tirar o poder das m\u00e3os dos coron\u00e9is.<\/p>\n<p><b>Por isso voc\u00ea defende a desmilitariza\u00e7\u00e3o?<\/b><\/p>\n<p>\u00c9 um primeiro passo. Quando voc\u00ea v\u00ea um soldado policiando, alguma coisa j\u00e1 t\u00e1 errada. Ou o camarada \u00e9 soldado, ou \u00e9 policial. Ele pode at\u00e9 ser um soldado policial dentro do quartel, mas n\u00e3o na rua. O soldado tem uma premissa que \u00e9 o qu\u00ea? Matar o inimigo. O soldado \u00e9 formado para eliminar o inimigo e o policial n\u00e3o, pelo menos n\u00e3o deveria. O policial, ao contr\u00e1rio do que se acredita em boa parte da sociedade carioca, ele n\u00e3o foi feito pra matar ningu\u00e9m. O policial n\u00e3o tem inimigo. O camarada que hoje t\u00e1 dando tiro no policial, ontem pode ter estudado com ele, pode ter frequentado os mesmos lugares que ele. O criminoso \u00e9 resultado da nossa sociedade, do nosso contexto. O crime \u00e9 um fato social e o policial n\u00e3o pode enxergar o criminoso como um inimigo. N\u00e3o \u00e9 pra mat\u00e1-lo. Prendeu, leva pra lei tomar as provid\u00eancias dela. Mas o que se convencionou acreditar \u00e9 justamente o oposto.<\/p>\n<p>O coronel, os oficiais, acumulam muito poder em uma figura s\u00f3. O coronel tem uma \u00e1rea de influ\u00eancia enorme dentro do batalh\u00e3o dele, ele determina muitas coisas. E o soldado n\u00e3o pode questionar o coronel. O soldado n\u00e3o pode entrar na sala do coronel e falar assim: \u201cCoronel, por que eu n\u00e3o posso abordar aquela van pirata que t\u00e1 passando ali?\u201d Porque isso j\u00e1 constitui uma transgress\u00e3o disciplinar. Desde o legalismo do militarismo, at\u00e9 as regras subjetivas que regem a rela\u00e7\u00e3o entre subordinados e superiores hier\u00e1rquicos, tudo serve para impedir o camarada de pensar. Ele n\u00e3o pode virar pro comandante e falar: \u201ccapit\u00e3o, n\u00e3o vou pra rua porque o colete t\u00e1 vencido\u201d. N\u00e3o pode. Ele pode reclamar do colete, mas n\u00e3o pode reclamar para o capit\u00e3o que \u00e9 quem resolveria. Quando voc\u00ea tira o militarismo e coloca os profissionais de seguran\u00e7a em n\u00edvel equivalente, se o profissional de seguran\u00e7a questionar o coronel por que ele teve que voltar das f\u00e9rias pra trabalhar, o coronel n\u00e3o vai poder responder: \u201cvoc\u00ea t\u00e1 indo porque eu quero. Porque eu t\u00f4 determinando que voc\u00ea v\u00e1. E se voc\u00ea n\u00e3o for, vai ficar preso \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Voc\u00ea v\u00ea que essa confus\u00e3o de atribui\u00e7\u00f5es entre soldado e policial, elas n\u00e3o se resolvem de maneira f\u00e1cil. As coisas continuam acontecendo aos olhos \u00a0de todo mundo e ningu\u00e9m faz nada. \u00a0Por exemplo,\u00a0<a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/rio-de-janeiro\/noticia\/2014\/08\/atiraram-para-matar-diz-amiga-de-jovem-morta-durante-blitz-no-rj.html\">aquele pessoal que tava voltando de uma festa dentro do HB20 branco e que foram perseguidos por uma patrulha<\/a>. N\u00e3o teve um estalinho, uma bombinha, nada que viesse do HB20 pra patrulha e o cara deu 15 tiros de fuzil no carro, num carro em fuga. S\u00f3 poderia acontecer na cabe\u00e7a de um soldado, na cabe\u00e7a de um policial n\u00e3o aconteceria nunca. Um policial iria correr atr\u00e1s, cercar. Mas ele n\u00e3o ia dar tiro em quem n\u00e3o t\u00e1 dando tiro nele. S\u00f3 na cabe\u00e7a do soldado, que acha que t\u00e1 na guerra e acha que se n\u00e3o atirar primeiro vai levar tiro. O cara foi l\u00e1, deu a sirene e o carro acelerou pra fugir da pol\u00edcia. \u201cAh, \u00e9 bandido, vou dar tiro\u201d. Podia ser algu\u00e9m b\u00eabado, podia estar todo mundo fazendo uma suruba dentro do carro, podia ter uma cacha\u00e7a no carro e o cara estar com medo de ser pego, o cara podia n\u00e3o ter habilita\u00e7\u00e3o, o cara podia ser surdo\u2026 S\u00e3o milh\u00f5es de coisas, mas o cara n\u00e3o para pra analisar essas coisas porque ele n\u00e3o foi condicionado pra pensar, a contextualizar o tipo de servi\u00e7o que ele t\u00e1 fazendo. Ele foi treinado pra qu\u00ea? Acelerou, correu, bala!<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/noticias.terra.com.br\/brasil\/cidades\/videos\/jovem-morto-por-pms-filma-a-propria-morte-no-rio,7770974.html\">Aquelas crian\u00e7as que tavam brincando na rua, filmando, um correu atr\u00e1s do outro. Daqui a pouco \u00e9 tiro pra todo lado e o garoto caiu agonizando.<\/a>\u00a0Sabe por que? Preto e pobre correndo na favela \u00e9 bala. Depois a gente v\u00ea o que \u00e9. Foi o soldado sobrepujando o policial de novo. Ele tava entrando num territ\u00f3rio conflagrado. Ele entrou l\u00e1 pra prender ou pra matar? Pra matar, p\u00f4. Se ele tivesse entrado pra prender, a primeira coisa que ele ia fazer quando viu o menino correndo era gritar pra ele parar.<\/p>\n<p>A nossa sociedade carioca, principalmente da regi\u00e3o metropolitana, criou, at\u00e9 por sofrer muito com os assaltos e tudo mais, um pensamento torto. Quando um policial vai l\u00e1 e mata um bandido, a sociedade faz o qu\u00ea? Aplaude. Toda vez que o policial entra em confronto, mata um cara que tava fazendo o arrast\u00e3o a sociedade aplaude e estimula. S\u00f3 que o policial militar tem que entender que quando ele errar a sociedade n\u00e3o vai aplaudir n\u00e3o. A sociedade vai sentar pra formar o tribunal do j\u00fari e vai conden\u00e1-lo sem a menor vergonha. Mas ao mesmo tempo, criou-se essa cultura de que o policial tem que matar.<\/p>\n<p><b>Tem uma frase sua no livro que at\u00e9 vai nesse sentido, quando voc\u00ea escreve: \u201cO PM s\u00f3 vale o mal que ele pode causar\u201d. Como \u00e9 que o PM enxerga essa hipocrisia da sociedade que \u00e0s vezes exige o policial e \u00e0s vezes o monstro?<\/b><\/p>\n<p>Se o PM andar com uma roupa humilde, pegar \u00f4nibus pra trabalhar, \u00a0se ele n\u00e3o andar demonstrando que t\u00e1 armado, ele vai ser encarado por aquelas pessoas que o conhecem como um policial bob\u00e3o que n\u00e3o faz mal pra ningu\u00e9m. Agora, se ele t\u00e1 dentro de um Fusion, com uma pistola enorme na cintura, com roupa de marca, cord\u00e3o de ouro no pesco\u00e7o e mete a porrada em quem t\u00e1 fazendo merda perto da casa dele. Se ele se torna algo que realmente traz risco, ele se torna valorizado. \u201cIh, p\u00f4, n\u00e3o mexe com o fulano n\u00e3o. Ele \u00e9 pol\u00edcia\u201d. H\u00e1 uma glamouriza\u00e7\u00e3o desse estado desumanizado. A sociedade valoriza mais o monstro do que o policial e \u00e9 por isso que ele t\u00e1 nascendo o tempo todo.<\/p>\n<p>As nossas pr\u00f3prias autoridades pol\u00edticas valorizam a cria\u00e7\u00e3o dos monstros, mas tem que ter algu\u00e9m pra eu apontar o dedo na hora que tiver dando merda. As autoridades querem que existam monstros e tem v\u00e1rios exemplos disso.\u00a0<a href=\"http:\/\/globotv.globo.com\/rede-globo\/rjtv-1a-edicao\/v\/acao-que-resultou-na-morte-do-traficante-matematico-e-investigada\/2556949\/\">Voc\u00ea lembra do caso do Matem\u00e1tico, que foi perseguido pelo helic\u00f3ptero?<\/a>\u00a0O camarada de helic\u00f3ptero com uma M60, atirando em um carro em fuga que n\u00e3o deu um tiro nele. Enquanto isso, a esteira de tiros batendo nos muros das casas, nos carros estacionados, em tudo que \u00e9 lugar. Aquilo ali \u00e9 o exemplo da hipocrisia e de como as nossas autoridades s\u00e3o parciais. Se fosse uma Patamo fazendo isso, os policiais iriam todos presos. Mas como foi o helic\u00f3ptero, t\u00e1 tudo tranquilo. Agora, me diz a diferen\u00e7a entre o cara do helic\u00f3ptero e os caras do HB20? N\u00e3o tem diferen\u00e7a nenhuma. Mas o tratamento foi bem diferente. \u201cAh, aquele PM ali que atirou no carro em fuga, errou. Mas o cara do helic\u00f3ptero, n\u00e3o, vamos proteger ele porque algu\u00e9m tem que fazer esse tipo de merda.\u201d<\/p>\n<p>O Estado quer que alguns profissionais fa\u00e7am sim esse tipo de servi\u00e7o sujo. Como fizeram com o Matem\u00e1tico, como fizeram com\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Ar8iFD98YMs\">o Bem-te-vi na Rocinha<\/a>, mas sempre que a coisa come\u00e7a a chamar muita aten\u00e7\u00e3o, eles entregam alguns pra serem a\u00e7oitados. E com isso a gente vai empurrando. E n\u00e3o enfrentamos nenhum problema.<\/p>\n<div id=\"attachment_18068\" class=\"wp-caption aligncenter\">\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/RNogueira_BP_0642.jpg\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-18068\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/RNogueira_BP_0642-600x400.jpg?resize=640%2C427\" alt=\"O ex-soldado da PM, Rodrigo Nogueira, preso em Bangu 6 desde 2009, durante enrevista &#96;a Agencia Publica, fala de seu livro &quot;Como nascem os monstruos&quot;. Foto Bel Pedrosa. Rio 23.06.15\" width=\"640\" height=\"427\" data-lazy-loaded=\"true\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\"><em>\u201cQualquer promotor de justi\u00e7a que chegar no batalh\u00e3o de surpresa e disser: \u201cbom dia, eu quero o efetivo do batalh\u00e3o e a escala de servi\u00e7o\u201d. Ele vai encontrar, no m\u00ednimo, cinco, seis fantasmas. Em qualquer batalh\u00e3o do Rio de Janeiro. Isso \u00e9 batata\u201d, denuncia Rodrigo.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p><b>O seu livro chegou a ser proibido no BEP (Batalh\u00e3o Especial Prisional, pris\u00e3o para policiais militares).<\/b><\/p>\n<p>A Pol\u00edcia Militar n\u00e3o gostou do livro, tanto que ele foi censurado. Eu me ressinto um pouco de n\u00e3o ter previsto isso. Eu at\u00e9 imaginava que teria algum tipo de repres\u00e1lia. Depois de escrever o livro, eu pensei em segurar ele e lan\u00e7ar quando eu sa\u00edsse da pris\u00e3o. Mas as coisas n\u00e3o se resolveram, eu j\u00e1 tava com o livro pronto, a editora tinha gostado e tava querendo publicar. A\u00ed eu lancei o livro enquanto ainda tava no pres\u00eddio da Pol\u00edcia Militar. Foi a pior coisa que eu fiz. Escrever um livro falando mal da Pol\u00edcia Militar dentro do pres\u00eddio da Pol\u00edcia Militar, que que tu imagina que pode ter acontecido?<\/p>\n<p>Cara, quando o livro foi lan\u00e7ado, minha esposa levou 30 exemplares pra distribuir l\u00e1 no BEP, pra alguns amigos. Eu ia dar pra rapaziada que sabia que eu tinha escrito o livro e queria ler. Quando ela chegou, n\u00e3o deixaram ela entrar com o livro. \u201cAh, mas por que n\u00e3o pode entrar com o livro?\u201d \u201cOrdem do comando, n\u00e3o pode entrar com esse livro no pres\u00eddio.\u201d Minha esposa ficou nervosa e foi l\u00e1 no plant\u00e3o do Minist\u00e9rio P\u00fablico no centro do Rio pra contar o que aconteceu, que o livro foi censurado. Ela contou que \u00a0o Elite da Tropa, por exemplo, pode entrar, o livro que o capit\u00e3o escreveu. Mas o livro que o ex-soldado escreveu n\u00e3o pode. A\u00ed ela foi e relatou isso l\u00e1 pro Minist\u00e9rio P\u00fablico e depois de alguns dias o MP oficiou o comando da Pol\u00edcia Militar solicitando informa\u00e7\u00f5es sobre o porque da censura pr\u00e9via. O comando deu l\u00e1 as explica\u00e7\u00f5es dele.<\/p>\n<p>Dois dias depois, de madrugada, aconteceu. Entraram quatro policiais, pelo que eu pude perceber, na minha cela, todo mundo com roupa do BOPE, touca ninja, sem identifica\u00e7\u00e3o. Entraram na minha cela, me acordaram e eu fui pro saco, tomei choque. Saco e choque pra caramba. E eles falaram: \u201cManda l\u00e1 a tua esposa retirar a den\u00fancia do Minist\u00e9rio P\u00fablico, se n\u00e3o tu vai amanhecer suicidado aqui dentro. Na pr\u00f3xima vez que a gente voltar, vai ser pra voc\u00ea se suicidar, entendeu bem?\u201d. Como n\u00e3o entender um recado desse? A minha esposa n\u00e3o foi mais l\u00e1, retirou a den\u00fancia e o assunto morreu, ficou por isso mesmo. Eu falei com a minha advogada e ela foi, procurou gente pra denunciar, mas ningu\u00e9m quis ouvir.<\/p>\n<p>O Comando da Pol\u00edcia Militar se doeu mesmo comigo, tomou como uma coisa pessoal que poderia trazer algum tipo de inc\u00f4modo pra eles l\u00e1 em cima. \u00c9 impressionante como ainda hoje voc\u00ea incomoda se voc\u00ea falar o que voc\u00ea pensa, se voc\u00ea falar a verdade.<\/p>\n<p>Teve uma livraria, uma rede de varejo que, por conta do lan\u00e7amento do livro, queria fazer uma noite de lan\u00e7amento. Eles queriam fazer o lan\u00e7amento do livro, falaram com a minha editora e tudo mais. A Justi\u00e7a autorizou a minha ida at\u00e9 a livraria pra poder fazer a noite de lan\u00e7amento. S\u00f3 que, no despacho, o juiz determinou que ficava a crit\u00e9rio da Pol\u00edcia Militar providenciar a escolta pra que eu fosse at\u00e9 o local de lan\u00e7amento no dia tal, hora tal, pra fazer o lan\u00e7amento do livro. S\u00f3 que no dia, a escolta n\u00e3o pode me levar porque ficou empenhada em outra atividade. Ou seja, o comandante providenciou a escolta, mas no dia disse que n\u00e3o tinha escolta pra me levar. A tentativa era essa, de calar, de evitar que eu falasse.<\/p>\n<p><b>Em que ponto se perde o policial e se ganha o monstro?<\/b><\/p>\n<p>S\u00e3o v\u00e1rios pontos de quebra. Pra mim foi a morte do Sampaio. Quando eu vi o Sampaio morto, um recruta de 19 anos morto com 19 tiros pelas costas. Ali eu falei: \u201c\u00c9 guerra e se algu\u00e9m atentar contra minha vida, eu vou tacar bala tamb\u00e9m\u201d. Ali foi que eu percebi a crueza da morte. Essa lida di\u00e1ria com a viol\u00eancia constante \u00e9 que causa a desumaniza\u00e7\u00e3o. Com a corrup\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m, mas ela se torna parte do processo da viol\u00eancia. Porque pra voc\u00ea conseguir pegar o arrego do traficante, voc\u00ea tem que subir o morro e dar tiro nele. Se n\u00e3o o traficante n\u00e3o vai te pagar nada. Traficante n\u00e3o paga pra quem t\u00e1 baseado na entrada do morro, porque quem t\u00e1 baseado na entrada do morro n\u00e3o atrapalha o movimento da boca. Essa desumaniza\u00e7\u00e3o vem primeiro com a viol\u00eancia, depois vem com os benef\u00edcios pecuni\u00e1rios que voc\u00ea pode ter quando os outros querem evitar a viol\u00eancia. Primeiro eu vou l\u00e1, entro no morro, entupo o traficante de bala. Vai descer um, dois, tr\u00eas mortos. Na semana que vem o traficante vai pagar pra n\u00e3o descer mais tr\u00eas mortos. A corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 consequ\u00eancia desse estado de viol\u00eancia que o policial t\u00e1 sujeito o tempo todo. O policial militar t\u00e1 o tempo todo oprimido: na folga dele ele t\u00e1 oprimido, tem receio de ser reconhecido, assassinado. Pra mim esse ponto de quebra foi perceber que eu estava no meio de uma guerra de verdade. E como o Sampaio, depois vi muitos outros amigos morrendo, fui a muitos enterros, funerais. Mas a\u00ed eu j\u00e1 estava mais recrudescido. Tem outro caso que eu conto \u00e9 o de dois policiais assassinados numa cabine, no Andara\u00ed, o sargento Marco Aur\u00e9lio e o cabo Peterson. Eles chegaram pra trabalhar, de manh\u00e3 cedo, e l\u00e1 na cabine Ca\u00e7apava o vagabundo matou os dois de .45. O cara fugiu sem levar nada. Cheguei l\u00e1 pra ver e tava o sargento Marco Aur\u00e9lio sem a parte de cima da cabe\u00e7a e o Peterson tava todo cheio de tiros no t\u00f3rax.<\/p>\n<p>Muita gente da minha turma morreu, t\u00e1 presa, foi exclu\u00edda. E a f\u00e1brica de monstros t\u00e1 aberta, continua l\u00e1. Eles v\u00e3o preenchendo. Sempre tem gente querendo entrar por causa dessa glamouriza\u00e7\u00e3o do monstro. Todo concurso da PM \u00e9 100 mil inscritos, 80 mil inscritos. \u00c9 muita gente, p\u00f4. A rela\u00e7\u00e3o candidato\/vaga \u00e9 paralela a v\u00e1rios cursos a\u00ed da UERJ. A f\u00e1brica t\u00e1 aberta e muita gente quer entrar nela, mas a gente v\u00ea que t\u00e1 tudo errado.<\/p>\n<p>http:\/\/apublica.org\/2015\/07\/a-perversao-comeca-na-formacao-diz-ex-pm-condenado\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ciro Barros &#8211; Na penitenci\u00e1ria de Bangu, ex-soldado da PMERJ Rodrigo Nogueira Batista fala sobre cultura violenta da corpora\u00e7\u00e3o, corrup\u00e7\u00e3o dos oficiais e o revanchismo entre policiais e criminosos Com quase dois metros de altura, mais de 100 quilos entre m\u00fasculo e alguma gordura, o ex-soldado da Pol\u00edcia Militar do Rio de Janeiro Rodrigo Nogueira [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4710,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[8],"tags":[22],"class_list":["post-4709","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sociedade","tag-violencia"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.8 - 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