{"id":4706,"date":"2017-08-01T11:00:39","date_gmt":"2017-08-01T14:00:39","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=4706"},"modified":"2017-08-01T10:52:43","modified_gmt":"2017-08-01T13:52:43","slug":"venezuela-sem-fake-news","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/08\/01\/venezuela-sem-fake-news\/","title":{"rendered":"Venezuela sem fake news"},"content":{"rendered":"<p><strong>Natalia Viana<\/strong> &#8211; Esque\u00e7a muito do que voc\u00ea leu por a\u00ed: n\u00e3o h\u00e1 cat\u00e1strofe humanit\u00e1ria nem Maduro est\u00e1 para cair; mas h\u00e1 manifestantes quase todos os dias nas ruas, e eles n\u00e3o s\u00e3o \u201cterroristas\u201d, como dizem os apoiadores do governo<\/p>\n<p>Na segunda-feira, 5 de junho, a Venezuela amanheceu com o mesmo presidente, Nicolas Maduro, como vem acontecendo desde que ele sucedeu Hugo Ch\u00e1vez, em 2013. Mais uma decep\u00e7\u00e3o para muitos dos manifestantes que t\u00eam lotado as ruas de diversas cidades do pa\u00eds nos \u00faltimos dois meses. Corriam boatos, de alcance multiplicado por correntes de WhatsApp, de que Maduro iria fugir do pa\u00eds no dia anterior. At\u00e9 uma conhecida\u00a0<a href=\"https:\/\/maduradas.com\/sorpresivo-vidente-le-cuenta-a-jaime-bayly-como-y-cuando-saldra-maduro-del-poder-video\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">vidente<\/a>\u00a0previra sua fuga, dizia uma das mensagens.\u00a0Era dito e certo.<\/p>\n<p>Assim como nesse epis\u00f3dio, tudo o que acontece na Venezuela \u00e9 cercado de desinforma\u00e7\u00e3o e enevoado pelas\u00a0<em>fake news<\/em>\u00a0espalhadas por apoiadores do governo e da oposi\u00e7\u00e3o. Na pol\u00edtica venezuelana, tudo \u00e9 espet\u00e1culo. Por isso, esque\u00e7a muito do que voc\u00ea leu por a\u00ed: a Venezuela n\u00e3o est\u00e1 vivendo uma cat\u00e1strofe humanit\u00e1ria pela falta generalizada de alimentos; o governo de Nicol\u00e1s Maduro n\u00e3o vai cair amanh\u00e3; a pol\u00edcia nacional n\u00e3o est\u00e1 massacrando manifestantes a rodo nas ruas. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 verdade que tudo est\u00e1 bem e que as manifesta\u00e7\u00f5es e a viol\u00eancia em torno delas s\u00e3o fruto de \u201cterroristas\u201d armados, como dizem os apoiadores do governo.<\/p>\n<p>Nossa reportagem passou tr\u00eas semanas no pa\u00eds para ouvir o que dizem os venezuelanos e seus l\u00edderes. Logo no primeiro dia, j\u00e1 ca\u00edmos numa marcha da oposi\u00e7\u00e3o na zona leste de Caracas. Desde o come\u00e7o de abril, elas t\u00eam sacudido a capital: a cada dois dias h\u00e1 um novo protesto massivo, e as ruas amanhecem como um cen\u00e1rio de guerra. Em todas as principais avenidas, h\u00e1 caminh\u00f5es antidist\u00farbios ao lado de uma fileira de guardas da Pol\u00edcia Nacional Bolivariana portando armas longas. Soldados do Ex\u00e9rcito com seus uniformes verde-oliva tamb\u00e9m ocupam esquinas e locais-chave para intimidar aqueles que v\u00e3o protestar. Boa parte das principais avenidas de r\u00e1pido acesso aos locais de encontro das marchas \u00e9 interditada pelas for\u00e7as do governo, impedindo o fluxo de manifestantes. As esta\u00e7\u00f5es do metr\u00f4 fecham. Algumas empresas liberam seus funcion\u00e1rios em hor\u00e1rios alternativos para evitar o caos.<\/p>\n<p>As marchas tamb\u00e9m t\u00eam a sua rotina: ali na Plaza Altamira, do bairro de classe m\u00e9dia de mesmo nome, senhores e senhoras loiras com o caracter\u00edstico bon\u00e9 com as cores da Venezuela conversam enquanto estudantes de diversas universidades, como a Universidade Central de Caracas, Universidade Metropolitana e a Universidade Santa Mar\u00eda, trazem faixas e cartazes com os nomes das suas escolas e palavras de ordem contra o governo, para eles uma ditadura. Aos poucos, grupos de jovenzinhos, morenos, brancos, negros, come\u00e7am e se organizar em rodas. V\u00e3o tirando das mochilas as suas \u201carmas de guerra\u201d: capacetes de moto, camisas negras que enrolam sobre o rosto, m\u00e1scaras antig\u00e1s, luvas grossas, escudos cuidadosamente talhados de madeira, enfeitados com palavras como \u201cCoragem\u201d, \u201cLiberdade\u201d e \u201cHonra\u201d. Os \u201cblack blocs\u201d venezuelanos pedem que n\u00e3o sejam fotografados. Como os brasileiros, s\u00e3o muito jovens, entre 16 e 25 anos, e encontram nas marchas uma maneira de manifestar o desejo de mudan\u00e7a em seu pa\u00eds. Ali eles n\u00e3o quebram bancos nem lojas. Levam pedras e devolvem, quando podem, com suas luvas grossas, as bombas de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo atiradas pelas fileiras policiais; alguns atiram coquet\u00e9is molotov, ou explosivos caseiros. E s\u00e3o saudados como her\u00f3is pela oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"attachment_30719\" class=\"wp-caption aligncenter\">\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-30719\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/s3-sa-east-1.amazonaws.com\/apublica-files-main\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/13122207\/manifestac%CC%A7a%CC%83o-venezuela2.jpg?resize=640%2C480\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"480\" data-lazy-loaded=\"true\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\"><em>Nos protestos em Caracas, jovens utilizam m\u00e1scaras antig\u00e1s e enrolam camisas em seus rostos para se proteger<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p>Quando a pra\u00e7a j\u00e1 est\u00e1 lotada, eles passam em fila indiana, o bra\u00e7o sobre os ombros do anterior, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 linha de frente, sob fortes aplausos. Algumas senhoras pedem para tirar fotos com eles. \u201cS\u00e3o t\u00e3o corajosos!\u201d, exclama uma. Seu papel, ali, \u00e9 tentar \u201cempurrar\u201d o cord\u00e3o policial que invariavelmente interrompe a marcha quando ela se aproxima do centro da cidade, impedindo que os manifestantes penetrem na zona onde est\u00e3o os pr\u00e9dios governamentais. \u201cN\u00e3o h\u00e1 um\u00a0<em>paro<\/em>\u00a0(greve) nacional na Venezuela. H\u00e1 uns protestos, e esses protestos est\u00e3o focalizados em guetos onde o governo deixa que protestem\u201d, resume o diretor do Instituto Datan\u00e1lisis, Luis Vicente Le\u00f3n.<\/p>\n<p>Nada disso \u00e9 novidade na Venezuela; o chamado para \u201c<em>calle calle calle<\/em>\u201d (rua, rua, rua) tem sido repetido por diferentes l\u00edderes da oposi\u00e7\u00e3o, com menor ou maior veem\u00eancia, desde que Hugo Ch\u00e1vez foi eleito presidente em 1998. As ondas de protesto, boicote,\u00a0<em>lockouts<\/em>\u00a0s\u00e3o tantas que se perde a conta. Muitas delas tiveram apoio dos Estados Unidos, atrav\u00e9s de financiamentos da Ag\u00eancia Americana para Coopera\u00e7\u00e3o Internacional, a Usaid (saiba mais\u00a0<a href=\"http:\/\/apublica.org\/2013\/03\/passo-passo-plano-da-usaid-para-acabar-governo-de-chavez\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"http:\/\/apublica.org\/2012\/06\/revolucao-a-americana\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>). Desde a morte de Hugo Ch\u00e1vez em 2012, houve pelo menos tr\u00eas grandes ondas de protestos, seguindo sempre o mesmo roteiro. E, mesmo assim, quando se conversa com os manifestantes, eles garantem que desta vez ser\u00e1 diferente. \u201cVamos seguir nas ruas, \u00e9 todo um pa\u00eds que n\u00e3o quer continuar com esse regime\u201d, diz Alejandro Ferrero, de 23 anos, sob um capacete com as cores da bandeira. Desde abril, mais de 2800 manifestantes foram detidos. Mais de 200 permanecem presos.<\/p>\n<p><strong>Uma Assembleia em desacato e uma Constituinte sem voto popular<\/strong><\/p>\n<p>O motivo para a mais recente onda de protestos est\u00e1 num pr\u00e9dio branco no centro de Caracas, enfeitado com colunas romanas e uma fonte de \u00e1gua no luxuoso p\u00e1tio, onde funciona a Assembleia Nacional \u2013 ou deveria funcionar. Em meados de maio de 2017, as sess\u00f5es ocorriam no m\u00e1ximo a cada semana, reunindo um punhado de deputados da oposi\u00e7\u00e3o; os deputados do governo nem davam as caras. Em agosto do ano passado, o Tribunal Supremo de Justi\u00e7a (TSJ) declarou a Assembleia em \u201cdesacato\u201d, e desde ent\u00e3o ningu\u00e9m sabe direito como tir\u00e1-la da\u00ed.<\/p>\n<p>Um destino melanc\u00f3lico, mas muito venezuelano, para uma Assembleia cuja elei\u00e7\u00e3o, em dezembro de 2015, significou a primeira derrota eleitoral do chavismo no Legislativo, controlado durante 16 anos pelo governo. Partidos da oposi\u00e7\u00e3o que fazem parte da Mesa de Unidad Democr\u00e1tica (MUD) conquistaram a maioria de dois ter\u00e7os das cadeiras, podendo fazer leis que contrariam as principais pol\u00edticas do Executivo, al\u00e9m de aprovar ou desaprovar empr\u00e9stimos internacionais e recha\u00e7ar o or\u00e7amento federal. Um feito hist\u00f3rico, vastamente celebrado nas ruas, nos caf\u00e9s elegantes, nas empresas e nas correntes de WhatsApp. J\u00e1 na cerim\u00f4nia de posse, o presidente eleito da assembleia, Henry Ramos Allup, promulgou uma lei de anistia a todos os presos pol\u00edticos e\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=fl1bfSPy5RE\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">prometeu<\/a>: \u201cEm um per\u00edodo de seis meses, vamos propor um m\u00e9todo, um sistema para mudar o governo por vias constitucionais\u201d. Horas antes, o presidente Nicol\u00e1s Maduro emitira um decreto retirando da Assembleia o poder de nomear a diretoria do Banco Central, e o TSJ havia impedido tr\u00eas deputados da oposi\u00e7\u00e3o de tomar posse \u2013 para que ela n\u00e3o conquistasse a maioria. A MUD n\u00e3o acatou a ordem judicial; desde ent\u00e3o, o governo n\u00e3o paga sal\u00e1rios aos deputados, e todos os atos do Legislativo s\u00e3o anulados pelo TSJ \u2013 que chegou, em 29 de mar\u00e7o, a decidir que assumiria os poderes do Congresso, mas capitulou depois diante da grita internacional.<\/p>\n<p>\u201cA Assembleia funciona no sentido testemunhal, funcionam reuni\u00f5es, se fazem debates, mas todas as leis que aprovamos foram anuladas. S\u00e3o mais de 60 decis\u00f5es da Sala Constitucional anulando todos os atos\u201d, explica em entrevista \u00e0\u00a0<strong>P\u00fablica<\/strong>\u00a0o atual presidente da casa, Julio Borges. Ainda mais beligerante que o seu predecessor, Borges assumiu em janeiro prometendo elei\u00e7\u00f5es gerais ainda este ano. Em mar\u00e7o, anunciou que o Legislativo declarava o \u201co abandono do cargo\u201d do presidente Nicol\u00e1s Maduro, pela inefici\u00eancia do governo em lidar com uma aguda crise econ\u00f4mica que gera crises de falta de medicamentos e alimentos e uma infla\u00e7\u00e3o que supera os 500% ao ano. Mas ningu\u00e9m deu muita bola.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um absurdo pretender que toda a institui\u00e7\u00e3o esteja em desacato, como se fosse uma pessoa\u201d, diz Borges. \u201cMaduro aprovou o or\u00e7amento sozinho, no Tribunal Supremo de Justi\u00e7a. Aprovou a d\u00edvida federal sozinho, sem passar pelo Parlamento. De maneira que temos um Parlamento fechado por um governo a quem n\u00e3o importam nem o voto popular nem a democracia.\u201d<\/p>\n<div id=\"attachment_30720\" class=\"wp-caption aligncenter\">\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-30720\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/s3-sa-east-1.amazonaws.com\/apublica-files-main\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/13122420\/manifestac%CC%A7a%CC%83o-venezuela3.jpg?resize=640%2C480\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"480\" data-lazy-loaded=\"true\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\"><em>Manifestantes com escudos talhados em madeira<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p>A guerra entre os dois poderes acirrou-se ao longo de 2016. Uma tentativa de di\u00e1logo, acompanhada pelo papa Francisco e a Uni\u00e3o de Na\u00e7\u00f5es Sul-Americanas (Unasul), no final do ano, tamb\u00e9m foi por \u00e1gua abaixo. \u201cNicol\u00e1s Maduro est\u00e1 governando fora da Constitui\u00e7\u00e3o. E o pa\u00eds se rebelou diante de um governo que est\u00e1 instalando uma ditadura na Venezuela\u201d, diz Borges. Ele se refere a uma enxurrada de \u201cjeitinhos\u201d aos quais o governo apelou para postergar os votos nas urnas, depois da acachapante derrota eleitoral no Legislativo em 2015. O referendo revogat\u00f3rio para o mandato do presidente \u2013 proposto pelos partidos de oposi\u00e7\u00e3o \u2013 foi interrompido quando o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) suspendeu a coleta de assinaturas por fraude em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.telesurtv.net\/news\/CNE-acata-tribunales-pospone-20-firmas-referendo-revocatorio-20161020-0063.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">cinco estados<\/a>\u00a0no fim de outubro. Na mesma semana, o CNE\u00a0<a href=\"http:\/\/www.bbc.com\/mundo\/noticias-america-latina-37699764\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">anunciou<\/a>\u00a0que as elei\u00e7\u00f5es para governadores, que poderiam dar maioria das cadeiras a opositores \u2013 e com elas o controle de diversas pol\u00edcias estaduais \u2013, seriam realizadas at\u00e9 o fim do primeiro semestre de 2017, com seis meses de atraso. N\u00e3o ocorreram at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Antes de se despedir de Borges, a reportagem pergunta o que pode acontecer se o governo n\u00e3o realizar elei\u00e7\u00f5es gerais, como pede a oposi\u00e7\u00e3o. \u201cNada. Vamos seguir lutando, porque n\u00e3o tem outro jeito.\u201d<\/p>\n<p><strong>Os olhos de Ch\u00e1vez<\/strong><\/p>\n<p>No centro da cidade, os olhos do falecido l\u00edder Hugo Ch\u00e1vez est\u00e3o por toda parte. Literalmente. Pintados sobre as paredes de pr\u00e9dios governamentais, adornando muros, esparramados sobre os degraus do parque El Calvario, trazendo \u2013 de forma um tanto sinistra \u2013 a lembran\u00e7a constante de que a Venezuela \u00e9 \u201cterrit\u00f3rio do chavismo\u201d, como muitas picha\u00e7\u00f5es teimam em lembrar. \u00c9 tamb\u00e9m sob os olhos de diversos retratos de Ch\u00e1vez que o El\u00edas Jaua despacha no seu gabinete no Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o. Homem de confian\u00e7a de Ch\u00e1vez, ele j\u00e1 foi secret\u00e1rio da Presid\u00eancia, chanceler, ministro da Economia Popular, ministro da Agricultura e Terras e vice-presidente. Agora, al\u00e9m da pasta da Educa\u00e7\u00e3o, Jaua comanda o principal esfor\u00e7o do governo para se livrar do impasse criado pela oposi\u00e7\u00e3o, que segue firme nas ruas: a cria\u00e7\u00e3o de uma Assembleia Constituinte, proposta por Nicol\u00e1s Maduro no \u00faltimo 1<sup>o<\/sup>\u00a0de maio. As elei\u00e7\u00f5es dos\u00a0<a href=\"https:\/\/www.google.com.br\/amp\/www.telesurtv.net\/amp\/telesuragenda\/Conozca-los-objetivos-de-la-Asamblea-Nacional-Constituyente-de-Venezuela-20170502-0043.html\">545<\/a>\u00a0membros est\u00e3o fixadas para o dia 20 de julho. Antes uma bandeira da oposi\u00e7\u00e3o, ciosa de encurtar o governo chavista, a Assembleia proposta \u00e9 para l\u00e1 de controversa. Se levada adiante e empossada, a Constituinte suplantar\u00e1 todos os demais poderes \u2013 e, portanto, pode comandar, ou extinguir, a rebelde Assembleia Nacional. O governo promete um referendo popular apenas no fim do processo.<\/p>\n<p>Moreno, com um olhar s\u00e9rio sob os \u00f3culos quadrados, Jaua explica, enf\u00e1tico, que o maior problema do pa\u00eds \u00e9 a \u201cinjustific\u00e1vel negativa da oposi\u00e7\u00e3o a se sentar e dialogar com o governo e a sua op\u00e7\u00e3o pela viol\u00eancia\u201d. \u201cEles desconhecem o direito de governar dessa for\u00e7a popular que levantou a bandeira dos ind\u00edgenas, camponeses, pescadores, afrodescendentes, os exclu\u00eddos de toda sorte. E n\u00e3o \u00e9 novo. S\u00e3o 18 anos de desconhecimento\u201d, diz.<\/p>\n<p>Como chavista hist\u00f3rico que \u00e9, Jaua foi encarregado de coordenar o esfor\u00e7o constituinte, uma aposta arriscada de modificar um dos maiores legados de Hugo Ch\u00e1vez, a Constitui\u00e7\u00e3o de 1999, que, apesar de contestada na \u00e9poca, hoje est\u00e1 na boca de qualquer pol\u00edtico: todos se acusam mutuamente de estar violando a Constitui\u00e7\u00e3o. \u00c9 a resposta do ministro, por exemplo, quando indagado se n\u00e3o seria mais f\u00e1cil abrir o di\u00e1logo realizando as elei\u00e7\u00f5es gerais. \u201cN\u00e3o est\u00e1 na Constitui\u00e7\u00e3o a figura das elei\u00e7\u00f5es gerais. Isso seria o fim das institui\u00e7\u00f5es, se um grupo que usa a viol\u00eancia pudesse mudar as regras do jogo.\u201d \u00c9 tanto o apre\u00e7o pela Carta Magna que Jaua parece se contradizer ao explicar a necessidade de uma Constituinte.<\/p>\n<div id=\"attachment_30721\" class=\"wp-caption aligncenter\">\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-30721\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/s3-sa-east-1.amazonaws.com\/apublica-files-main\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/13122904\/Jaua.jpg?resize=640%2C416\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"416\" data-lazy-loaded=\"true\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\"><em>O ministro da Educa\u00e7\u00e3o El\u00edas Jaua, homem de confian\u00e7a do ex-presidente Hugo Ch\u00e1vez<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p>\u201cN\u00e3o se trata de mudar a Constitui\u00e7\u00e3o\u201d, ele explica \u00e0\u00a0<strong>P\u00fablica<\/strong>. \u201cTrata-se de apelar ao princ\u00edpio de que a soberania popular \u00e9 a fonte suprema do destino da na\u00e7\u00e3o\u201d, buscando abrir o\u00a0di\u00e1logo \u201cj\u00e1 n\u00e3o com a c\u00fapula da oposi\u00e7\u00e3o, mas com um processo eleitoral por via universal, direta e secreta. E que emerjam tanto lideran\u00e7as do governo como lideran\u00e7as da oposi\u00e7\u00e3o que est\u00e3o contra essa viol\u00eancia.\u201d<\/p>\n<p>A f\u00f3rmula para eleger os constituintes \u00e9 mais que controversa. Metade ser\u00e1 eleita por regi\u00f5es; a outra metade, de acordo com nove setores, como camponeses, empres\u00e1rios, ind\u00edgenas, pessoas com defici\u00eancia, universit\u00e1rios e representantes de conselhos comunais, que cuidam da manuten\u00e7\u00e3o nas favelas, por exemplo. Cada setor ter\u00e1 seus representantes. Sobre aqueles que ficar\u00e3o de fora \u2013 como jovens que n\u00e3o est\u00e3o na universidade \u2013, Jaua justifica que todos poder\u00e3o votar pela sua regi\u00e3o. \u201cA \u00fanica raz\u00e3o \u00e9 t\u00e9cnica e legal. Tem de haver um registro hist\u00f3rico, reconhecido, institucional dos setores. N\u00e3o se trata de discrimina\u00e7\u00e3o, mas o registro tem de ser confi\u00e1vel e certificado\u201d, enfatiza.<\/p>\n<p>Mas como o governo sabe que a popula\u00e7\u00e3o aprova a iniciativa, se n\u00e3o h\u00e1 um referendo consultivo? Ele responde com confian\u00e7a: \u201cIsso se expressar\u00e1 nas elei\u00e7\u00f5es dos constituintes, e se ver\u00e1 nas pr\u00f3ximas semanas, em milhares de candidaturas que j\u00e1 come\u00e7am a florescer por todos os lados\u201d. At\u00e9 meados de junho, j\u00e1 eram mais de 50 mil os candidatos, segundo fontes oficiais. Sejam quais forem as mudan\u00e7as que surgirem ap\u00f3s uma Constituinte eleita dessa maneira, ele garante: \u201cAs bases doutrin\u00e1rias e filos\u00f3ficas da Constitui\u00e7\u00e3o de 1999 se manter\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><strong>Mais protestos e os mortos<\/strong><\/p>\n<p>A proposta governista incendiou o ambiente pol\u00edtico como gasolina no fogo. A como\u00e7\u00e3o \u00e9 quase palp\u00e1vel quando, no dia 11 de maio, uma passeata enche as ruas de Las Mercedes, na zona leste de Caracas. O protesto, marcado em menos de 24 horas, era a ant\u00edtese da marcha do dia anterior, onde naquele mesmo lugar uma multid\u00e3o tentava entrar no centro da cidade, impedida pelo cord\u00e3o policial, bomba, choque e, por fim, pela trag\u00e9dia. Hoje, conduzidas por um padre cat\u00f3lico, as fam\u00edlias rezam, cantam e trazem coroas de flores para o jovem Miguel Fernando Castillo Bracho, de 27 anos, um estudante de comunica\u00e7\u00e3o da Universidade Santa Mar\u00eda, morto, segundo o Minist\u00e9rio P\u00fablico, por uma esfera met\u00e1lica atirada por uma arma caseira nas manifesta\u00e7\u00f5es do dia anterior. \u201cEstou aqui como m\u00e3e para compartilhar a dor das m\u00e3es desses jovens assassinados. Chega de tanta repress\u00e3o e tanta maldade que tem esse governo. Qual \u00e9 o medo que a gente chegue ao pal\u00e1cio de Miraflores?\u201d, dizia a professora Ana Karina Malave.<\/p>\n<div id=\"attachment_30723\" class=\"wp-caption aligncenter\">\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-30723\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/s3-sa-east-1.amazonaws.com\/apublica-files-main\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/13123826\/manifestac%CC%A7a%CC%83o-venezuela6.jpg?resize=640%2C480\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"480\" data-lazy-loaded=\"true\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\"><em>\u201cLuto por algo que n\u00e3o conhe\u00e7o: uma Venezuela diferente\u201d, diz cartaz empunhado por manifestante contr\u00e1rio ao governo<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p>Foram mais de 70 mortes relacionadas \u00e0 onda de protestos na Venezuela desde mar\u00e7o. A contagem das mortes \u2013 uma perversidade do sensacionalismo venezuelano \u2013 entra na conta pol\u00edtica dos dois lados em disputa. Em Caracas, uma das cidades mais violentas do mundo, as mortes t\u00eam marcado todas as ondas de protestos contra o chavismo. Em 2014, as 43 mortes de manifestantes serviram para a Justi\u00e7a condenar o l\u00edder Leopoldo L\u00f3pez, do partido Primeira Justi\u00e7a, a 14 anos de pris\u00e3o; desde ent\u00e3o, ele virou o mais famoso preso pol\u00edtico do pa\u00eds. Em 2002, as 19 mortes durante uma jornada de protestos em 11 de abril serviram de pretexto para a c\u00fapula militar exigir a ren\u00fancia de Hugo Ch\u00e1vez, abrindo caminho para o golpe de Estado que duraria menos que 48 horas.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que, ao entrar em um escrit\u00f3rio do ministro da Comunica\u00e7\u00e3o em meados de maio, a reportagem da\u00a0<strong>P\u00fablica<\/strong>\u00a0encontra Ernesto Villegas sobre uma pilha de pap\u00e9is impressos, organizados no ch\u00e3o ao p\u00e9 de uma lousa branca, com uma lista de nomes. Cada papel traz com uma foto, um nome e sobrenome e dados como idade, sexo e \u201cstatus do caso\u201d. Ernesto Villegas \u00e9 ministro da Comunica\u00e7\u00e3o e presidente da cadeia estatal Venezuelana de Televis\u00e3o. \u00c9, antes de tudo, diz ele, jornalista. \u201cIsso ningu\u00e9m pode me tirar.\u201d Depois do golpe de 2002, Ernesto estudou os mortos de 11 de abril para seu livro\u00a0<em>Abril, golpe adentro<\/em>.<\/p>\n<p>\u201cVeja, todas as mortes valem o mesmo, sejam chavistas ou da oposi\u00e7\u00e3o\u201d, diz ele, garantindo que, hoje como na \u00e9poca do golpe, o n\u00famero de mortos pela pol\u00edcia nacional \u00e9 muito menor do que o alardeado. At\u00e9 o come\u00e7o de junho, entre os 77 casos registrados pela sua equipe, apenas 25 pessoas estavam de fato participando de manifesta\u00e7\u00f5es quando faleceram. Entre elas h\u00e1 v\u00edtimas que receberam impactos de armas caseiras ou por armas de fogo. Um estudante de medicina, Pa\u00fal Moreno, 24 anos, foi atropelado por uma caminhonete Hilux em Maracaibo, no oeste do pa\u00eds, e outro jovem universit\u00e1rio, Juan Pernalete, de 20 anos, morreu ap\u00f3s o impacto de uma bomba lacrimog\u00eanea atirada pela pol\u00edcia no seu t\u00f3rax, segundo a procuradora-geral, Luisa Ortega D\u00edaz. Entre os mortos h\u00e1 tamb\u00e9m quatro chavistas, quatro policiais e oito v\u00edtimas que morreram eletrocutadas em meio a um saque em uma padaria em Caracas (baixe\u00a0<a href=\"http:\/\/s3-sa-east-1.amazonaws.com\/apublica-files-main\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/13113642\/CONSOLIDADO-CON-GRAFICOS-02062017-1.xlsx\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/0B0KSgNDgshfCUll6UVgyM2F6NXM\/view?usp=sharing\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>\u00a0no levantamento).<\/p>\n<p>\u201cAqui o pretexto para a interven\u00e7\u00e3o estrangeira s\u00e3o as viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos. Por isso, os esfor\u00e7os de um aparato midi\u00e1tico gigantesco est\u00e3o postos para essa narrativa do governo de Maduro como violador massivo de direitos\u201d, avalia o ministro. Para ele, se um policial atira nos manifestantes, est\u00e1 desobedecendo \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o, \u00e0s ordens expressas de seus superiores e do presidente. \u201cE para mim \u00e9 suspeito de estar alinhado ao show de Luis Almagro na Venezuela\u201d, diz referindo-se ao secret\u00e1rio-geral da Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos (OEA), que age em concord\u00e2ncia com a pol\u00edtica dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>A mais brutal de todas as mortes foi a de um jovem de 21 anos, Orlando Figuera, linchado, esfaqueado e queimado vivo por manifestantes que ocupavam a pra\u00e7a Altamira no dia 20 de maio, ap\u00f3s ter sido acusado de tentar roubar uma pessoa. Ele morreu no hospital 15 dias depois. Segundo os pais, chavistas ferrenhos, ele era guardador de carros em Las Mercedes e \u201cfoi morto por ser chavista\u201d. A not\u00edcia horrenda recebeu pouqu\u00edssima aten\u00e7\u00e3o da imprensa internacional e foi usada pelo governo para atacar a oposi\u00e7\u00e3o. \u201cAqui a imprensa internacional n\u00e3o segue seu manual de estilo. Se desqualifica a fonte oficial como v\u00e1lida. H\u00e1 a vis\u00e3o de que qualquer coisa que se diga contra o governo \u00e9 v\u00e1lida como not\u00edcia, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio verificar.\u201d<\/p>\n<p>Entre 2002 e hoje ele aponta uma diferen\u00e7a fundamental: a primazia das redes sociais. A internet\u00a0<a href=\"http:\/\/tendenciasdigitales.com\/web\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Reporte_Penetracion_vzla_2016.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">tem<\/a>\u00a0a penetra\u00e7\u00e3o de 53% na Venezuela, com mais de 70% referente \u00e0s classes mais baixas. \u201cNaquela \u00e9poca \u00e9ramos ref\u00e9ns da TV\u201d, diz Ernesto. \u201cHoje a comunica\u00e7\u00e3o digital substituiu a televis\u00e3o em algumas franjas geogr\u00e1ficas e et\u00e1rias. Tem muito impacto o que circula em grupos de WhatsApp; o Facebook \u00e9 a rede mais popular na Venezuela, e o Twitter \u00e9 usado por pol\u00edticos.\u201d<\/p>\n<p>Enquanto marchas como a de Miguel n\u00e3o s\u00e3o mencionadas pela TV aberta \u2013 a Telesur e a VTV, em especial, dedicam longas horas a programas propagand\u00edsticos recheados de acusa\u00e7\u00f5es contra os opositores \u2013, \u00e9 imposs\u00edvel controlar a torrente de v\u00eddeos caseiros, que repercutem em sites antichavistas, como Maduradas.com ou\u00a0<a href=\"https:\/\/www.lapatilla.com\/site\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">La Patilla<\/a>. H\u00e1 v\u00eddeos que mostram jovens sendo linchados pelos manifestantes, outros mostram a Pol\u00edcia Nacional Bolivariana quebrando e queimando as pr\u00f3prias motos para incriminar\u00a0manifestantes, como\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ZbixZ5U3W_Q\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">este<\/a>.<\/p>\n<p>O ministro diz que existe uma mistura entre meios de comunica\u00e7\u00e3o digitais e outros, que \u201cs\u00e3o fachadas de um aparato pol\u00edtico com express\u00e3o digital\u201d. \u201cS\u00e3o sites que corrobo ram um ao outro, ajudam a espalhar not\u00edcias exageradas ou falsas, e at\u00e9 a propagar um valor inflacionado do d\u00f3lar paralelo\u201d, diz ele, citando o site dolartoday, capitaneado\u00a0<a href=\"https:\/\/www.linkedin.com\/pulse\/maduros-public-enemy-1-venezuelan-revolutionary-gustavo-roberts\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">por um ex-militar venezuelano treinado<\/a>\u00a0pelos EUA e envolvido no golpe contra Ch\u00e1vez em 2002, que mistura cota\u00e7\u00f5es que sobem num ritmo vertiginoso com quaisquer informa\u00e7\u00f5es que sejam publicadas contra o governo chavista.<\/p>\n<p>\u201cE h\u00e1 outro fen\u00f4meno: Miami est\u00e1 aqui. Boa parte dos conte\u00fados que se produzem na Venezuela \u00e9 fabricada em Miami. Se voc\u00ea faz um mapeamento de influenciadores, algo como 60% n\u00e3o est\u00e1 na Venezuela.\u201d<\/p>\n<p>O contra-ataque chavista n\u00e3o fica atr\u00e1s e \u00e9 propagado por sites como\u00a0<a href=\"http:\/\/www.laiguana.tv\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">La Iguana TV<\/a>. Por um lado, divulgam v\u00eddeos como este\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/SistemaPrisionalOFICIAL\/videos\/2307406519483617\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>, que mostram manifestantes atirando bombas caseiras na pol\u00edcia. Mas tamb\u00e9m chegam a extremos de manipula\u00e7\u00e3o, como a inser\u00e7\u00e3o de armas em fotos de manifestantes \u2013 imagens que depois se filtram para as TVs p\u00fablicas.<\/p>\n<div id=\"attachment_30367\" class=\"wp-caption aligncenter\">\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-30727\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/s3-sa-east-1.amazonaws.com\/apublica-files-main\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/13125233\/Montagem-Venezuela.jpg?resize=640%2C188\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"188\" data-lazy-loaded=\"true\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\"><em>\u00c0 esquerda, a imagem original; \u00e0 direita, a foto manipulada, em que armas foram inseridas nas m\u00e3os dos manifestantes<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p><strong>A sombra de 2002<\/strong><\/p>\n<p>Em uma manh\u00e3 de maio, enfiado em um moletom, Henrique Capriles parece animado como quem acaba de fazer um jogging. Principal rosto da oposi\u00e7\u00e3o h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada, ele diz estar seguro de que, sem resolver a crise pol\u00edtica, n\u00e3o h\u00e1 como resolver a crise econ\u00f4mica. E, conversando com ele, parece dif\u00edcil resolver a crise pol\u00edtica. Derrotado por apenas 224 mil votos por Nicol\u00e1s Maduro em 2013, Capriles, o candidato que une a oposi\u00e7\u00e3o, est\u00e1 proibido de concorrer a elei\u00e7\u00f5es durante 15 anos desde o \u00faltimo 7 de abril. \u201cSegundo a Constitui\u00e7\u00e3o, a \u00fanica forma de ser inabilitado \u00e9 voc\u00ea ter um julgamento definitivo. Eu fui notificado de inabilita\u00e7\u00e3o por causa de uma multa de 40 mil bol\u00edvares (cerca de US$ 6 d\u00f3lares na cota\u00e7\u00e3o paralela), por haver recebido uma doa\u00e7\u00e3o do Reino Unido para um projeto escolar\u201d, diz. Dois dias depois da entrevista com a\u00a0<strong>P\u00fablica<\/strong>, Capriles, que \u00e9 governador do estado de Miranda, teve seu passaporte confiscado no aeroporto, o que o impediu de sair do pa\u00eds. Ele pretendia ir \u00e0 ONU denunciar viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos. Capriles comenta o que considera uma persegui\u00e7\u00e3o: \u201cSe f\u00f4ssemos a elei\u00e7\u00f5es no pr\u00f3ximo fim de semana, o governo sabe que o pr\u00f3ximo presidente seria este que est\u00e1 falando com voc\u00ea\u201d.<\/p>\n<p>Para o pol\u00edtico, o caos pode se aprofundar. Se a Constituinte avan\u00e7ar, diz, o pa\u00eds pode terminar com duas Constitui\u00e7\u00f5es. \u201cO governo radicalizou sua posi\u00e7\u00e3o, um governo que est\u00e1 cada vez mais sozinho e mais isolado, e isso n\u00e3o \u00e9 sustent\u00e1vel com o tempo\u201d, diz.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o, para ele, \u00e9 a tal\u00a0<em>calle calle calle<\/em>. \u201cMaduro desconheceu o resultado que o povo venezuelano deu nas urnas, uma maioria contundente pela mudan\u00e7a. O que propusemos: referendo revogat\u00f3rio, previsto na Constitui\u00e7\u00e3o. O que aconteceu? Roubaram-nos. O que fazemos quando nos fecham todas as portas democr\u00e1ticas? Que fa\u00e7o eu, como l\u00edder?\u201d<\/p>\n<p>Em p\u00fablico, Capriles \u00e9 outro homem. Leva a multid\u00e3o ao del\u00edrio discursando durante os protestos, xingando o presidente \u2013 \u201co maior \u2018boceta de m\u00e3e\u2019 que existe neste pa\u00eds\u201d \u2013 e garantindo que o governo vai cair logo, logo. No seu escrit\u00f3rio, parece mais sensato e bem mais conciliador. Fala com muita veem\u00eancia sobre uma sa\u00edda eleitoral, pela press\u00e3o das ruas. \u201cEu estou convencido de que a mudan\u00e7a tem de se dar por via eleitoral. Porque temos de pensar no dia seguinte de Maduro. Um governo que caia, que termine, que venha de uma insurrei\u00e7\u00e3o militar, um golpe de Estado, n\u00e3o vai dar estabilidade \u00e0 Venezuela\u201d, diz.<\/p>\n<div id=\"attachment_30724\" class=\"wp-caption aligncenter\">\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-30724\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/s3-sa-east-1.amazonaws.com\/apublica-files-main\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/13123914\/manifestac%CC%A7a%CC%83o-venezuela5.jpg?resize=640%2C480\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"480\" data-lazy-loaded=\"true\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\"><em>Manifestantes reunidos na Autopista Francisco Fajardo \u2013 alguns utilizam adere\u00e7os com as cores da Venezuela<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p>Capriles acompanhou de perto o golpe fracassado de 2002, embora insista em se afastar da heran\u00e7a maldita. Em 11 de abril de 2002, horas antes de Ch\u00e1vez ser levado preso por militares rebelados, o presidente do seu partido, Primeira Justi\u00e7a \u2013 Julio Borges, atual presidente da Assembleia \u2013, exigia pela TV a ren\u00fancia do governo e dos demais poderes (<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=F22u7VJlKjg&amp;app=desktop\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui o v\u00eddeo<\/a>). Ao seu lado esquerdo estava o jovem Leopoldo L\u00f3pez, prefeito de Chacao, um munic\u00edpio da Grande Caracas. No dia seguinte, L\u00f3pez levaria a pol\u00edcia municipal para prender o ministro do Interior e Justi\u00e7a, Rodr\u00edguez Chac\u00edn, parte de uma \u201cpurga\u201d que teve dura\u00e7\u00e3o t\u00e3o curta quanto o golpe. Ao invadir a casa onde estava o ministro,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=-Q8m0AXGCYE\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">era acompanhado<\/a>por Henrique Capriles, ent\u00e3o um jovem prefeito de Baruta, tamb\u00e9m na capital, e das for\u00e7as policiais de ambos os munic\u00edpios.<\/p>\n<p>Naquele mesmo dia, Capriles protagonizou ainda um infame epis\u00f3dio na embaixada cubana. A casa estava cercada desde o dia 9 por uma turba que amea\u00e7ava invadi-la, e haviam cortado a luz e a \u00e1gua desde que passaram a circular not\u00edcias de que o vice-presidente de Ch\u00e1vez, o tenente do Ex\u00e9rcito Diosdado Cabello, buscava asilo ali. Capriles entrou no local garantindo a seguran\u00e7a da embaixada e pediu para revist\u00e1-la; o embaixador se negou e invocou o direito internacional para exigir respeito ao territ\u00f3rio soberano da embaixada. Na sa\u00edda, Capriles lavou as m\u00e3os: \u201cN\u00e3o posso confirmar nem desmentir que ele est\u00e1 na embaixada, pois n\u00e3o me deixaram revistar\u201d (<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=818bu4FoIak\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">v\u00eddeo<\/a>). Capriles diz que foi at\u00e9 l\u00e1 a pedido do embaixador e que tudo n\u00e3o passou de uma armadilha, na qual caiu por \u201cinexperi\u00eancia\u201d. \u201cEu nunca estive no golpe. Nunca!\u201d, repete durante a entrevista.<\/p>\n<p>Diosdado Cabello, o ex-vice-presidente que ele buscava na embaixada cubana, \u00e9 hoje o homem mais forte do chavismo.<\/p>\n<p><strong>Sentado sobre baionetas<\/strong><\/p>\n<p>Todas as quartas-feiras \u00e0s 20 horas, o canal estatal VTV recebe um colorido programa de audit\u00f3rio que dura umas quatro horas a fio. Logo na abertura, uma orquestra toca o refr\u00e3o: \u201c<em>Soy chavista y voy marchando, por la vida celebrando\u2026 Y com el mazo dando!<\/em>\u201d. \u00c9 a hora do programa semanal de Diosdado Cabello, vice-presidente do PSUV, o mais fiel seguidor do estilo do \u201ccomandante\u201d falecido. O programa\u00a0<em>Com el Mazo Dando<\/em>\u00a0foi batizado por uma clava que o apresentador mant\u00e9m sobre uma mesa, com a qual ele bate quando quer refor\u00e7ar o que diz. Gordinho, o ex-militar aparece diante de um grande letreiro que forma a sigla 4F \u2013 o s\u00edmbolo do golpe de Estado fracassado\u00a0<a href=\"https:\/\/maduradas.com\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Hugo-Chavez-con-Arias-Cardenas-4-de-Febrero-Golpe-de-Estado.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">tentado por Ch\u00e1vez em 1992<\/a>, do qual participou Diosdado na condi\u00e7\u00e3o de tenente do Ex\u00e9rcito \u2013 e a frase \u201c#Aqui n\u00e3o se fala mal de Ch\u00e1vez\u201d.<\/p>\n<p>No\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=dgJzU2Tx4yU\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00faltimo programa<\/a>, gravado dentro do Forte Ti\u00fana, instala\u00e7\u00e3o militar hist\u00f3rica da capital, o apresentador e pol\u00edtico come\u00e7ou fazendo um reconhecimento especial \u00e0 Guarda Nacional Bolivariana (GNB) e \u00e0 Pol\u00edcia Nacional Bolivariana. As dezenas de militares que sempre est\u00e3o presentes na plateia responderam com um longo coro. \u201cA direita est\u00e1 montando falsos positivos todos os dias para voc\u00eas. Mas n\u00f3s prometemos: n\u00e3o passar\u00e3o e n\u00e3o voltar\u00e3o nunca mais a governar esta p\u00e1tria de Bol\u00edvar e de Ch\u00e1vez!\u201d \u2013 disse, dando um beijinho nas pontas dos dedos como compromisso. Antes de passar pela tradicional goza\u00e7\u00e3o das not\u00edcias da semana que \u201catacam a Venezuela\u201d, rabiscando um X sobre elas, ele grita para a plateia:<\/p>\n<p>\u2013 Hashtag oposi\u00e7\u00e3o terrorista e\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Assassina! \u2013 responde o p\u00fablico.<\/p>\n<p>Diosdado \u00e9 pe\u00e7a-chave de um governo que cada vez mais apela ao componente militar. Foi, al\u00e9m de vice-presidente durante o golpe, presidente da Assembleia Nacional,\u00a0<a href=\"https:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/Ministerios_de_Venezuela\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ministro de Obras P\u00fablicas e Vivienda<\/a>\u00a0e governador do estado de Miranda, t\u00edtulo que perdeu para Capriles. Hoje, sem cargo no governo e com o posto in\u00fatil de deputado federal em uma Assembleia que n\u00e3o funciona, \u00e9 um dos garotos-propaganda do governo perante a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEle \u00e9 o pol\u00edtico neste momento que conhece melhor as For\u00e7as Armadas. Ele tem proximidade e dom\u00ednio sobre toda a promo\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito\u201d, explica Roc\u00edo San Miguel, diretora da ONG Control Ciudadano para la Seguridad, la Defensa y la Fuerza Armada. \u201cCreio tamb\u00e9m que Cabello joga um pouco ao vender essa imagem, de fazer crer que controla as For\u00e7as Armadas, o que \u00e9 falso. Nenhum homem ou mulher na Venezuela as controla neste momento. Nem sequer o presidente da Rep\u00fablica.\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 justamente essa a aposta da oposi\u00e7\u00e3o, que desde o come\u00e7o do ano tem apelado para que os militares abandonem o apoio a Maduro. \u201cHoje \u00e9 um governo sentado sobre as baionetas. Mas nas For\u00e7as Armadas esperamos que haja uma reserva democr\u00e1tica institucional, e que n\u00e3o v\u00e3o acompanhar um governo que est\u00e1 corrompido\u201d, diz Julio Borges \u00e0\u00a0<strong>P\u00fablica<\/strong>. \u201c\u00c9 a isto que estamos apelando: que n\u00e3o tenham medo do voto, que n\u00e3o tenham medo de que possamos ir a um processo de elei\u00e7\u00e3o na Venezuela, e que possamos unificar o pa\u00eds. Uma mudan\u00e7a na Venezuela n\u00e3o significa persegui\u00e7\u00e3o, n\u00e3o significa ca\u00e7ada \u00e0s bruxas, n\u00e3o significa vingan\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p>O foco em seduzir os militares virou at\u00e9 mesmo projeto da Assembleia Nacional. No fim de maio, foi instaurada uma \u201cComiss\u00e3o de Garantias para a transi\u00e7\u00e3o\u201d, para fazer leis de anistia para quem mudar de lado. \u201cN\u00e3o somente anistia, mas tamb\u00e9m incentivos\u201d, diz o deputado Freddy Guevara, vice-presidente da Assembleia Nacional e do partido Voluntad Popular, liderado por Leopoldo L\u00f3pez. \u201cSe algu\u00e9m \u00e9 preso ou despedido do seu trabalho por apoiar a luta pela democracia, que saiba que, mesmo que a ditadura o amedronte, no momento em que chegar a democracia, vai ter a recompensa.\u201d<\/p>\n<div id=\"attachment_30722\" class=\"wp-caption aligncenter\">\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-30722\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/s3-sa-east-1.amazonaws.com\/apublica-files-main\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/13123137\/Julio-Borges.jpg?resize=640%2C452\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"452\" data-lazy-loaded=\"true\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\"><em>O opositor Julio Borges, presidente da Assembleia Legislativa, pede que as For\u00e7as Armadas retirem seu apoio ao governo de Nicol\u00e1s Maduro<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p>A mensagem busca assegurar que n\u00e3o se repetir\u00e1 a ca\u00e7ada de 12 de abril de 2002, ocasi\u00e3o em que a persegui\u00e7\u00e3o teve a participa\u00e7\u00e3o dos principais l\u00edderes oposicionistas de hoje. Desde ent\u00e3o, o governo chavista reformou a pol\u00edcia e sedimentou a doutrina bolivariana no Ex\u00e9rcito nacional, assegurando o mando a militares leais.<\/p>\n<p>\u201cCh\u00e1vez introduz os militares no poder como f\u00f3rmula de governo, mas sem d\u00favida, depois da sua morte, se formou uma coabita\u00e7\u00e3o muito maior entre pol\u00edticos e militares, pelas concess\u00f5es de poder que Maduro fez aos militares. \u00c9 um governo militarista. Mesmo que seja governado por um civil, tem todas as caracter\u00edsticas de um governo militar. A militariza\u00e7\u00e3o da sociedade, todos os elementos di\u00e1rios do cotidiano est\u00e3o dirigidos pelas For\u00e7as Armadas Nacionais: os alimentos, a circula\u00e7\u00e3o, os metr\u00f4s, as farm\u00e1cias\u201d, explica Roc\u00edo.<\/p>\n<p>Entre os 32 ministros de Maduro, 11 s\u00e3o militares; e 11 dos 23 governadores estaduais s\u00e3o militares reformados. Al\u00e9m disso, os militares tamb\u00e9m est\u00e3o presentes na Zona Econ\u00f4mica Militar Socialista, um complexo industrial implantado por Maduro a partir de 2013 para tentar reanimar a economia, em franca decad\u00eancia. Oito empresas, criadas logo no an\u00fancio da iniciativa, pertencem \u00e0s For\u00e7as Armadas. Entre elas,\u00a0um banco, uma agropecu\u00e1ria, uma televis\u00e3o digital, uma empresa de constru\u00e7\u00e3o e uma de fornecimento de \u00e1guas subordinada ao Minist\u00e9rio da Defesa. Outras tr\u00eas empresas controladas pelos militares foram criadas desde ent\u00e3o. \u201cA mudan\u00e7a mais importante \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o de min\u00e9rios pela Caminpeg. \u00c9 uma empresa militar com as dimens\u00f5es em seu econ\u00f4mico similares \u00e0 PDVA, a estatal de petr\u00f3leo\u201d, diz Roc\u00edo. Criada no come\u00e7o de 2016, a Compa\u00f1\u00eda An\u00f3nima Militar de Industrias Mineras, Petrol\u00edferas y de G\u00e1s tem como atividade a explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo, g\u00e1s e min\u00e9rios, a reabilita\u00e7\u00e3o, manuten\u00e7\u00e3o e perfura\u00e7\u00e3o de po\u00e7os petrol\u00edferos e a importa\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o de produtos qu\u00edmicos para minera\u00e7\u00e3o. A junta diretiva \u00e9 nomeada pelo ministro da Defesa, o general Vladimir Padrino L\u00f3pez, e o governo tem a\u00e7\u00f5es majorit\u00e1rias. Maduro assegura que ela ser\u00e1 apenas uma \u201cprestadora de servi\u00e7os para a PDVSA\u201d.<\/p>\n<p>S\u00e3o os militares que est\u00e3o \u00e0 frente tamb\u00e9m do maior esfor\u00e7o governamental para enfrentar a atual crise, a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.controlciudadano.org\/noticias\/maduro-anuncia-gran-mision-abastecimiento-soberano-bajo-el-mando-de-vladimir-padrino\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Grande Miss\u00e3o Abastecimento Soberano<\/a>, igualmente encabe\u00e7ada por Padrino L\u00f3pez. A Miss\u00e3o tem cuidado da importa\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de alimentos para a popula\u00e7\u00e3o mais pobre atrav\u00e9s dos Comit\u00eas Locais de Abastecimento e Produ\u00e7\u00e3o (CLAP). Ligados aos conselhos comunais das favelas, os comit\u00eas distribuem \u00e0s fam\u00edlias um saco de alimento com cerca de 12 quilos de produtos essenciais, como arroz, farinha, macarr\u00e3o e \u00f3leo, a pre\u00e7os subvencionados pelo governo (12 mil bol\u00edvares, cerca de R$ 2 d\u00f3lares, na cota\u00e7\u00e3o paralela). Embora com problemas, a pol\u00edtica dos CLAP atenuou a escassez de alimentos b\u00e1sicos importados, que atingiu seu \u00e1pice em 2016. Naquele ano, um estudo realizado por tr\u00eas universidades estimou que 70% dos venezuelanos perderam em m\u00e9dia 8 quilos \u2013 um desastre depois da\u00a0<a href=\"https:\/\/venezuelanalysis.com\/news\/11410?page=1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">dr\u00e1stica redu\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0na fome obtida pelo chavismo, de 15% para 5% da popula\u00e7\u00e3o, reconhecida pela Unesco em 2015. Hoje, h\u00e1 um militar encarregado por cada g\u00eanero aliment\u00edcio, dentro do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.controlciudadano.org\/noticias\/gobierno-nombro-un-jefe-militar-para-el-arroz-las-caraotas-y-hasta-el-papel-higienico\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Plan Rubro por Rubro<\/a>: \u00f3leo, a\u00e7\u00facar, caf\u00e9, arroz e at\u00e9 papel higi\u00eanico.<\/p>\n<p>Quando a recente onda de protestos ultrapassou Caracas e tomou outros estados do pa\u00eds, gerando saques, bloqueios de ruas e estradas e ataques a instala\u00e7\u00f5es policiais, o governo p\u00f4s em pr\u00e1tica a segunda fase do Plan Zamora, que utiliza o Ex\u00e9rcito para controle da ordem p\u00fablica, militarizando \u00e1reas inteiras do pa\u00eds. Em meados de maio, o Minist\u00e9rio da Defesa enviou 2 mil soldados da GNB e 600 tropas de opera\u00e7\u00f5es especiais ao estado de T\u00e1chira, na fronteira com a Col\u00f4mbia. Desde maio, os militares t\u00eam tamb\u00e9m sido respons\u00e1veis por prender manifestantes em todo o pa\u00eds, julgados por cortes militares.<\/p>\n<p>Enquanto isso, o general Padrino L\u00f3pez n\u00e3o cansa de dar respaldo p\u00fablico ao seu presidente, seja afirmando que a Constituinte \u201c\u00e9 uma proposta revolucion\u00e1ria, constitucional, profundamente democr\u00e1tica que n\u00f3s acompanhamos\u201d, pedindo \u201cque acabe a campanha de \u00f3dio contra as For\u00e7as Armadas\u201d, ou apoiando publicamente a retirada da Venezuela da OEA \u2013 o secret\u00e1rio-geral, Luis Almagro, \u00e9 um de seus alvos preferenciais. L\u00f3pez tamb\u00e9m \u00e9 historicamente leal a Ch\u00e1vez. Durante o golpe contra o ex-presidente, o ent\u00e3o tenente-coronel e comandante do Batalh\u00e3o de Infantaria em Forte Ti\u00fana permaneceu leal a Ch\u00e1vez e chegou a oferecer ajuda ao presidente deposto. Meses antes de morrer, o l\u00edder o al\u00e7ou \u00e0 posi\u00e7\u00e3o de segundo comandante do Ex\u00e9rcito. Em 2013, Maduro o nomeou chefe do Comando Estrat\u00e9gico Operacional e, meses depois, ministro da Defensa. Recentemente, o general garantiu que as For\u00e7as Armadas s\u00e3o um pilar da Venezuela \u201cporque recha\u00e7am todos os ataques vis e doentios impostos pela direita terrorista\u201d.<\/p>\n<p>Um dos problemas de empregar os militares em \u00e1reas estrat\u00e9gicas da economia \u00e9 justamente o calcanhar de aquiles do governo chavista, a corrup\u00e7\u00e3o. Em dezembro do ano passado, uma\u00a0<a href=\"https:\/\/apnews.com\/64794f2594de47328b910dc29dd7c996\/venezuela-military-trafficking-food-country-goes-hungry\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">reportagem<\/a>da ag\u00eancia AP trouxe relatos de comerciantes que compram alimentos no mercado negro dos militares, ou que afirmam terem pago propinas diretamente ao ministro de alimentos, o general Rodolfo Marco Torres. Os rep\u00f3rteres tamb\u00e9m identificaram empresas\u00a0<em>offshore\u00a0<\/em>ligadas a familiares do ex-ministro da Alimenta\u00e7\u00e3o, general Carlos Osorio, que hoje \u00e9 inspetor-geral das For\u00e7as Armadas. O governo americano passou a impor san\u00e7\u00f5es a militares e membros do governo venezuelano. Os \u00faltimos a entrar na lista negra dos americanos foram o ministro do Interior, general N\u00e9stor Reverol, e o ex-subdiretor do escrit\u00f3rio antidrogas, general Edilberto Molina,\u00a0<a href=\"http:\/\/cnnespanol.cnn.com\/2016\/08\/01\/acusan-en-ee-uu-a-dos-altos-militares-venezolanos-por-presunto-narcotrafico\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">acusados<\/a>\u00a0de ajudar traficantes de drogas na distribui\u00e7\u00e3o de coca\u00edna\u00a0para os EUA.<\/p>\n<p>\u201cO governo apoia-se nas For\u00e7as Armadas em uma dial\u00e9tica que at\u00e9 agora se mant\u00e9m. No curto e no m\u00e9dio prazo, essa rela\u00e7\u00e3o deve se manter\u201d, vaticina Roc\u00edo San Miguel. Por tr\u00e1s dessa alian\u00e7a, diz ela, h\u00e1 uma amea\u00e7a que bate \u00e0 porta. \u201cH\u00e1 tr\u00eas delitos que perseguem a c\u00fapula militar venezuelana: o narcotr\u00e1fico, as viola\u00e7\u00f5es aos direitos humanos e a corrup\u00e7\u00e3o\u201d, resume a pesquisadora.<\/p>\n<p><strong>Um interlocutor realista<\/strong><\/p>\n<p>Buscar uma voz imparcial na Venezuela \u00e9 imposs\u00edvel. No m\u00e1ximo \u2013 e com muito custo \u2013 pode-se encontrar um interlocutor realista. Luis\u00a0Vicente Le\u00f3n n\u00e3o \u00e9 um homem \u201cisent\u00e3o\u201d; ele acredita que Maduro est\u00e1 se convertendo em um governo abusivo, com tra\u00e7os ditatoriais. Mas sua vis\u00e3o como cientista de dados \u2013 ele \u00e9 diretor do Instituto Datan\u00e1lises, um dos mais importantes institutos de pesquisas do pa\u00eds \u2013 vai al\u00e9m de suas convic\u00e7\u00f5es: desde 2016, quando a crise de abastecimento de alimentos alcan\u00e7ou o seu auge, at\u00e9 o in\u00edcio de 2017, a popularidade de Maduro aumentou, ele reconhece. \u201cA popularidade descendeu de maneira significativa desde que ganhou com 51% dos votos. E o seu pior momento foi em dezembro do ano passado, quando chegou a 18% de popularidade. Paradoxalmente, o presidente Maduro este ano recuperou 6 pontos percentuais de apoio popular, passando de 18% a 24% de aprova\u00e7\u00e3o. Isso tem a ver com uma parte importante da popula\u00e7\u00e3o que \u00e9 independente, 35% dos venezuelanos se autodefinem independentes: nem chavistas nem opositores\u201d. No entanto, ele diz que 90,5% dos venezuelanos acham que o pa\u00eds est\u00e1 mal ou muito mal e 70% responsabilizam Maduro pessoalmente por isso. \u201cMas sem d\u00favida a lideran\u00e7a opositora tampouco \u00e9 uma lideran\u00e7a apaixonante, que fale da hist\u00f3ria que este pa\u00eds pode ter. Eles preferem ficar brigando com Maduro.\u201d<\/p>\n<p>Para L\u00e9on, o melhor para o pa\u00eds seria uma negocia\u00e7\u00e3o entre o governo e a oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEu creio que a solu\u00e7\u00e3o passa por uma negocia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Sem negocia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma forma de resgatar os equil\u00edbrios. Creio que a oposi\u00e7\u00e3o tem de construir em seus protestos o suficiente poder de negocia\u00e7\u00e3o para obrigar o governo, n\u00e3o a entregar sua cabe\u00e7a, mas a negociar a reinstitucionaliza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds\u201d, acredita ele.<\/p>\n<p>Se isso n\u00e3o ocorrer \u2013 como os \u00faltimos fatos tendem a mostrar \u2013, a tend\u00eancia \u00e9 que o governo siga \u201cencapsulando os protestos em guetos\u201d e com isso os protestos fiquem ainda mais violentos. \u201cIsso \u00e9 o que temos de evitar a qualquer custo\u201d, diz Le\u00f3n.<\/p>\n<p>Ele aponta tamb\u00e9m outro entrave para o pa\u00eds chegar a uma solu\u00e7\u00e3o, esse mais profundo e intang\u00edvel. \u201cNa Venezuela h\u00e1 escassez de leite, caf\u00e9, arroz, mas o mais escasso \u00e9 a verdade. E, mais ainda, a objetividade. Aqui \u00e9 um pa\u00eds onde nunca se sabe o que \u00e9 verdade, nem nos meios de comunica\u00e7\u00e3o, nem nos discursos, nem nos debates, nem nas entrevistas\u201d, diz. \u201cO tema da verdade foi perdido completamente como um valor na Venezuela. E, claro, n\u00e3o somente no governo, mas tamb\u00e9m na oposi\u00e7\u00e3o. H\u00e1 uma guerra de pin\u00f3quios, onde todo mundo mente e onde voc\u00ea nunca sabe o que \u00e9 verdade e o que \u00e9 mentira. E, se voc\u00ea perde a verdade, simplesmente n\u00e3o \u00e9 capaz de separar o ru\u00eddo dos sinais. Ent\u00e3o, tomar posi\u00e7\u00f5es ou decis\u00f5es se converte em um elemento muito dif\u00edcil\u201d, avalia. No momento, a Venezuela parece ter inventado a polariza\u00e7\u00e3o que se infiltrou no resto do continente. \u201cE, quando se est\u00e1 no cl\u00edmax da polariza\u00e7\u00e3o, a verdade \u00e9 vista como uma trai\u00e7\u00e3o\u201d, lamenta Le\u00f3n.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"color: #993300;\"><strong>Eles militam pela mesma causa, mas est\u00e3o em lados opostos<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993300;\">Carlos e Roberto s\u00e3o dois jovens bonitos, articulados, apaixonados pelo seu povo e pelo trabalho de mobiliza\u00e7\u00e3o social. Ambos fizeram curso superior com foco em mobiliza\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o social. Um, branco, estudou Pol\u00edticas P\u00fablicas com foco em \u201cseguran\u00e7a cidad\u00e3\u201d em Harvard; o outro, pardo, estudou Gest\u00e3o Social para o Desenvolvimento na Universidade Bolivariana da Venezuela. Se eles se conhecessem \u2013 e n\u00e3o fossem venezuelanos \u2013, \u00e9 poss\u00edvel que fossem bons amigos. Mas aqui em Caracas est\u00e3o em campos opostos, liderando duas iniciativas que t\u00eam no fundo o mesmo prop\u00f3sito: driblar a escassez e a alta dos pre\u00e7os de alimentos atrav\u00e9s da auto-organiza\u00e7\u00e3o das comunidades em favelas. A\u00a0<strong>P\u00fablica<\/strong>\u00a0esteve com lideran\u00e7a jovem chavista Carlos Rodr\u00edguez, de 30 anos, e o dirigente do partido Primeira Justi\u00e7a, Roberto Pati\u00f1o, de 28 anos, em tr\u00eas favelas da capital. Em todas elas, a reclama\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos CLAPs \u00e9 a mesma: a bolsa de alimentos, vendida a pre\u00e7o subvencionado, n\u00e3o chega com regularidade. Demora \u00e0s vezes um m\u00eas, \u00e0s vezes 40 dias. E o alimento n\u00e3o d\u00e1 para mais de duas semanas.<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_30367\" class=\"wp-caption aligncenter\">\n<p><span style=\"color: #993300;\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-30730\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/s3-sa-east-1.amazonaws.com\/apublica-files-main\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/13130145\/Foto-Box_7-Roberto-Patino.jpg?resize=640%2C362\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"362\" data-lazy-loaded=\"true\" \/><\/span><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\"><em><span style=\"color: #993300;\">Roberto Pati\u00f1o, dirigente do partido Primeira Justi\u00e7a<\/span><\/em><\/p>\n<\/div>\n<p><span style=\"color: #993300;\">Nos supermercados, os produtos tabelados s\u00e3o entregues atrav\u00e9s de um carn\u00ea, e \u00e9 preciso fazer filas de horas para conseguir algo. Muitas vezes n\u00e3o se consegue os produtos b\u00e1sicos. Outros t\u00eam pre\u00e7os proibitivos por causa da alta infla\u00e7\u00e3o e do estratosf\u00e9rico d\u00f3lar paralelo. Mesmo os\u00a0vegetais e frutas, produzidos no pa\u00eds, s\u00e3o muito caros. A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 racionalizar, comendo menos.\u00a0A Encuesta Nacional de Condicionantes de Vida (<a href=\"https:\/\/www.ine.gob.gt\/index.php\/encuestas-de-hogares-y-personas\/condiciones-de-vida\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Encovi<\/a>), realizada pelas universidades Central de Venezuela (UCV), Cat\u00f3lica Andr\u00e9s Bello (Ucab) e Sim\u00f3n Bol\u00edvar (USB), estimou que 9,6 milh\u00f5es de venezuelanos, cerca de um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o, dizem comer duas vezes ou menos ao dia. \u00c9 por isso que algumas fam\u00edlias t\u00eam se dedicado a buscar comida nos lixos das \u00e1reas mais ricas das cidades, um esc\u00e2ndalo numa sociedade que n\u00e3o est\u00e1 acostumada \u00e0 fome, mas longe de ser uma situa\u00e7\u00e3o de escassez severa conforme a defini\u00e7\u00e3o da ONU, o que significaria mais de 20% da popula\u00e7\u00e3o sem ter o que comer.<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_30367\" class=\"wp-caption aligncenter\">\n<p><span style=\"color: #993300;\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-30731\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/s3-sa-east-1.amazonaws.com\/apublica-files-main\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/13130211\/Foto-Box_8-Carlos-Camarada.jpg?resize=640%2C361\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"361\" data-lazy-loaded=\"true\" \/><\/span><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\"><em><span style=\"color: #993300;\">A lideran\u00e7a jovem chavista Carlos Rodr\u00edguez<\/span><\/em><\/p>\n<\/div>\n<p><span style=\"color: #993300;\">Para complementar a alimenta\u00e7\u00e3o das bolsas, Pati\u00f1o se juntou a grupos de m\u00e3es de comunidades como Los Mecedores, antigo centro chavista. \u201cO programa nasceu quando coordenei os jovens da campanha de Capriles em 2012, e ao tocar muitas portas vi a desconfian\u00e7a da gente com a pol\u00edtica\u201d, diz ele. S\u00e3o sete refeit\u00f3rios em diferentes favelas, que oferecem alimento gratuito para 700 crian\u00e7as antes de irem \u00e0 escola. As m\u00e3es ficam respons\u00e1veis por preparar a comida.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993300;\">O que Pati\u00f1o pede em troca \u00e9 \u201ccora\u00e7\u00e3o aberto\u201d para ouvir suas propostas, que s\u00e3o discutidas em reuni\u00f5es que se realizam a cada 15 dias. Em uma manh\u00e3 de maio, sentados em banquetas, cerca de dez mulheres e homens conversam sobre a crise pol\u00edtica, enquanto na cozinha duas senhoras preparam o menu do dia: creme de ab\u00f3bora, arroz e carne mo\u00edda. Embora todos os filhos estejam estudando em escolas p\u00fablicas, que oferecem lanche, uniforme, material escolar e at\u00e9 computadores, eles dizem que j\u00e1 n\u00e3o conseguem comprar comida suficiente. Ali, a \u00fanica que ainda se diz chavista, Yurima Carillo, atrai cr\u00edticas dos demais. \u201cPera\u00ed\u201d, diz ela. \u201cEu sou chavista, mas consciente. O que Ch\u00e1vez fez com as m\u00e3os, Maduro destruiu com os p\u00e9s.\u201d Em seguida, ela explica por que tem receio da oposi\u00e7\u00e3o: \u201cEles querem o poder para este lado e os outros querem o poder para o outro lado. Nenhum quer soltar a batuta. Quem est\u00e1 levando duro somos n\u00f3s, pobres, que vivemos nas favelas, que n\u00e3o temos para sair para marchar. Como vamos marchar com o est\u00f4mago vazio?\u201d, pergunta.<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_30367\" class=\"wp-caption aligncenter\">\n<p><span style=\"color: #993300;\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-30729\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/s3-sa-east-1.amazonaws.com\/apublica-files-main\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/13125937\/Foto-Box_4-reunia%CC%83o-em-refeito%CC%81rio-em-Los-mecedores.png?resize=640%2C376\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"376\" data-lazy-loaded=\"true\" \/><\/span><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\"><em><span style=\"color: #993300;\">Reuni\u00e3o realizada por Pati\u00f1o no refeit\u00f3rio em Los Mecedores<\/span><\/em><\/p>\n<\/div>\n<p><span style=\"color: #993300;\">No tradicional bairro de San Agust\u00edn, conhecido local de m\u00fasica popular na capital venezuelana, o chavista Carlos \u201cCamarada\u201d Rodr\u00edguez, do coletivo Insurgente, chega ao bel\u00edssimo centro cultural com desenvoltura. No galp\u00e3o gigante, enfeitado com imagens ic\u00f4nicas de m\u00fasicos da comunidade \u2013 todos negros \u2013, h\u00e1 um grupo tocando tambores para saudar a Santa Cruz. \u00c9 ali que ocorrem as feiras do projeto Pueblo a Pueblo, tocado pela Coaliz\u00e3o Unidos San Agust\u00edn, da qual ele faz parte. A cada m\u00eas, a comunidade se re\u00fane em uma assembleia para definir quais os vegetais que devem ser entregues diretamente por produtores do estado de Trujillo. Um saco de 12 quilos de vegetais chega a custar 7 mil bol\u00edvares (cerca de US$ 1, na cota\u00e7\u00e3o paralela) e o programa atende 200 fam\u00edlias. \u201cO que esse plano permite \u00e9 varrer os intermedi\u00e1rios, economizar recursos para as comunidades e dar rosto \u00e0 economia. De um lado, \u00e9 um homem que produz e, do outro, uma mulher que come. Ent\u00e3o tem um conte\u00fado social e pol\u00edtico, de forma\u00e7\u00e3o\u201d, explica Carlos, que tamb\u00e9m \u00e9 funcion\u00e1rio do governo federal, encarregado de fiscalizar a produ\u00e7\u00e3o de p\u00e3es pelas padarias do bairro.<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_30740\" class=\"wp-caption aligncenter\">\n<p><span style=\"color: #993300;\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-30740\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/s3-sa-east-1.amazonaws.com\/apublica-files-main\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/13141610\/Yurima-Carillo.jpg?resize=640%2C353\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"353\" data-lazy-loaded=\"true\" \/><\/span><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\"><em><span style=\"color: #993300;\">Yurima Carillo, a \u00fanica chavista do refeit\u00f3rio em\u00a0Los Mecedores<\/span><\/em><\/p>\n<\/div>\n<p><span style=\"color: #993300;\">O projeto \u00e9 tocado com firmeza por senhoras negras, elegantes, e chavistas at\u00e9 o \u00e2mago, como Marisol Olivares, de 64 anos. \u201cEstamos tratando que toda comunidade se envolva no trabalho, para que tenha sua bolsita. Cada fam\u00edlia tem que mandar um representante\u201d, explica ela. Sobre a escassez, ela n\u00e3o tem d\u00favida:\u201c\u00c9 a mesma guerra econ\u00f4mica que sempre travaram contra n\u00f3s. \u00c9 um grupo que \u00e9 minoria e que sempre, desde que estava vivo nosso comandante, nunca deixou que exercesse todo o poder. Mas com todo o problema que tivemos com a escassez da comida n\u00f3s seguimos adiante, n\u00e3o vamos nos dar por vencidos e n\u00e3o vamos permitir que eles voltem\u201d.<\/span><\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"xFPSpXaA47\"><p><a href=\"https:\/\/apublica.org\/2017\/06\/venezuela-sem-fake-news\/\">Venezuela sem fake news<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Venezuela sem fake news&#8221; &#8212; Ag\u00eancia P\u00fablica\" src=\"https:\/\/apublica.org\/2017\/06\/venezuela-sem-fake-news\/embed\/#?secret=18sj15fgHu#?secret=xFPSpXaA47\" data-secret=\"xFPSpXaA47\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Natalia Viana &#8211; Esque\u00e7a muito do que voc\u00ea leu por a\u00ed: n\u00e3o h\u00e1 cat\u00e1strofe humanit\u00e1ria nem Maduro est\u00e1 para cair; mas h\u00e1 manifestantes quase todos os dias nas ruas, e eles n\u00e3o s\u00e3o \u201cterroristas\u201d, como dizem os apoiadores do governo Na segunda-feira, 5 de junho, a Venezuela amanheceu com o mesmo presidente, Nicolas Maduro, como [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4707,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[3],"tags":[48],"class_list":["post-4706","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-internacional","tag-protesto"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - 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