{"id":4702,"date":"2017-08-04T12:52:38","date_gmt":"2017-08-04T15:52:38","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=4702"},"modified":"2017-07-31T21:54:25","modified_gmt":"2017-08-01T00:54:25","slug":"os-150-anos-do-livro-i-do-capital-de-karl-marx","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/08\/04\/os-150-anos-do-livro-i-do-capital-de-karl-marx\/","title":{"rendered":"Os 150 anos do Livro I do Capital, de Karl Marx"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ernest Mandel &#8211;\u00a0<\/strong>H\u00e1 cinquenta anos atr\u00e1s, \u00e0s v\u00e9speras das mobiliza\u00e7\u00f5es de maio de 1968 nas quais se tornaria internacionalmente conhecido, o economista e dirigente pol\u00edtico trotsquista Ernest Mandel escreveu algumas linhas em comemora\u00e7\u00e3o aos 100 anos de publica\u00e7\u00e3o do livro I de O Capital, de Karl Marx.<\/p>\n<p>Se no que tange \u00e0s suas concep\u00e7\u00f5es sobre a organiza\u00e7\u00e3o e a pol\u00edtica revolucion\u00e1ria Mandel teve dificuldades de reunir em torno \u00e0s suas posi\u00e7\u00f5es partes importantes da corrente trotsquista, por outro lado sua contribui\u00e7\u00e3o na divulga\u00e7\u00e3o e no desenvolvimento da cr\u00edtica marxista da economia pol\u00edtica \u00e9 ineg\u00e1vel e sua obra \u00e9 incontorn\u00e1vel para aqueles que pretendam entender a situa\u00e7\u00e3o atual dos debates, e as dificuldades deste campo do conhecimento.<\/p>\n<p>Mandel n\u00e3o apenas \u00e9 autor de uma obra extensa e de relevante originalidade sobre o tema \u2013 onde se destacam \u201c<em>A forma\u00e7\u00e3o do pensamento econ\u00f4mico de Karl Marx<\/em>\u201d e \u201c<em>O Capitalismo Tardio<\/em>\u201c, publicados no Brasil em 1968 e 1982 respectivamente, al\u00e9m de ser o autor da introdu\u00e7\u00e3o a uma das principais edi\u00e7\u00f5es de O Capital em l\u00edngua inglesa, a da Editora Penguin de 1992 \u2013 ele tamb\u00e9m foi um dos principais articuladores da luta te\u00f3rica em defesa do marxismo, em um momento em que as teorias do valor e do capital de Marx sofriam um intenso e coordenado ataque vindo de posi\u00e7\u00f5es burguesas e reformistas.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s os 20 e poucos anos de prosperidade do p\u00f3s-guerra (talvez um dos mais longos per\u00edodo de crescimento econ\u00f4mico da hist\u00f3ria do capitalismo), a crise do final dos anos 1960 in\u00edcio dos 1970 que ficaria conhecida como \u201ccrise do petr\u00f3leo\u201d (apesar de ser na verdade uma crise do capitalismo) parecia prenunciar um ressurgimento de Marx de sua teoria e de O Capital como principal interpreta\u00e7\u00e3o deste tipo de sociedade. As mobiliza\u00e7\u00f5es do per\u00edodo tamb\u00e9m geravam uma ampla camada de ativistas e de jovens intelectuais dispostos a buscar em Marx elementos para interpretar os movimentos da sociedade capitalista no per\u00edodo, al\u00e9m de inspira\u00e7\u00e3o para a sua supera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso coincide com este momento o lan\u00e7amento de uma grande ofensiva contra as teorias do valor e do capital de Marx. Como as velhas cr\u00edticas de autores como Bohm-Bawerk j\u00e1 n\u00e3o tinham mais relev\u00e2ncia real e, por outro lado, o controle do estalinismo e de seu encapsulamento da teoria do valor em uma perspectiva estreita e est\u00e9ril come\u00e7ava a ruir, era necess\u00e1rio um novo tipo de ataque, de contornos mais contempor\u00e2neos, para disputar as mentes jovens e daqueles que se colocavam em movimento.<\/p>\n<p>No que diz respeito \u00e0 cr\u00edtica da economia pol\u00edtica, esse ataque veio na forma de uma leitura peculiar da obra do italiano Piero Sraffa e de sua utiliza\u00e7\u00e3o contra Marx. Foi patrocinada por figuras como Paul Samuelson, um laureado com o \u201cnobel\u201d de economia do banco da Su\u00e9cia. Se 80 anos antes Bohm-Bawerk havia tentado, sem sucesso, atacar a coer\u00eancia interna da teoria do valor de Marx, agora recolocava-se o assim chamado \u201cproblema da transforma\u00e7\u00e3o\u201d e afirmava-se que se com a teoriza\u00e7\u00e3o de Sraffa e a possibilidade de determina\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os e taxa de lucros sem recurso \u00e0 no\u00e7\u00e3o de valor marxiana, esta teria se tornado tamb\u00e9m \u201credundante\u201d. Embora tenha tido alguns executores mais conhecidos (como Ian Steedman e a corrente neo-ricardiana) esse ataque foi, na verdade, um ataque coordenado da ci\u00eancia econ\u00f4mica burguesa contra Marx e a amea\u00e7a que seu pensamento, confirmado concretamente pela eclos\u00e3o da crise, representava.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel dizer que apesar de toda a sua fragilidade intelectual, a investida da economia nos anos 1960-70 contra a teoria marxista obteve muitas vit\u00f3rias. Foi capaz, por exemplo, de evitar durante mais de 20 anos muitos debates relevantes e de obstar em muito o desenvolvimento da teoriza\u00e7\u00e3o cr\u00edtica marxista da economia pol\u00edtica. Durante este per\u00edodo legitimou-se no meio acad\u00eamico de economia a supress\u00e3o da teoria marxista do valor sob o falso argumento de sua \u201cincoer\u00eancia interna\u201d e de sua \u201credund\u00e2ncia\u201d na explica\u00e7\u00e3o dos movimentos da economia capitalista. Foi Mandel quem, junto com outros economistas marxistas (como Alan Freeman, Pierre Salama e Anwar Shaikh) organizou uma das primeiras grandes respostas a este ataque, e em defesa de Marx e do marxismo<a href=\"http:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8034#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p>Hoje podemos afirmar que esta ofensiva foi superada. S\u00e3o in\u00fameros os exemplos de desenvolvimentos originais na teoria social marxista, nos debates sobre teoria do valor e do capital e na an\u00e1lise da crise contempor\u00e2nea. Marx est\u00e1 mais vivo do que nunca, certamente ainda mais vivo do que quando Mandel escreveu o texto abaixo, em 1967.<\/p>\n<p>O texto, que o\u00a0<em>blog esquerda online<\/em>\u00a0publica abaixo dando in\u00edcio \u00e0s comemora\u00e7\u00f5es dos 150 anos da publica\u00e7\u00e3o do livro I de O Capital, \u00e9 uma tradu\u00e7\u00e3o do artigo intitulado\u00a0<em>The Centenary of Marx\u2019s Capital<\/em>\u00a0apareceu na\u00a0<em>International Socialist Review<\/em>, de Mar\u00e7o-Abril de 1968.<\/p>\n<p>\u2014<\/p>\n<p><strong>O centen\u00e1rio de O Capital, de Marx<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ernest Mandel<\/strong><\/p>\n<p>Em 16 de agosto de 1867, Marx terminou de corrigir as \u00faltimas provas do primeiro volume de Capital e enviou uma nota breve e tocante para Engels: \u201cisso foi poss\u00edvel gra\u00e7as a voc\u00ea apenas. Sem o seu auto-sacrif\u00edcio para comigo, eu nunca poderia ter feito o enorme trabalho dos tr\u00eas volumes. Eu o abra\u00e7o, cheio de agradecimento\u201d. Na verdade, o primeiro volume de Capital n\u00e3o seria publicado pelo editor, Meissner de Hamburgo, at\u00e9 um m\u00eas depois, em 14 de setembro de 1867.<\/p>\n<p>Este livro, que teve uma influ\u00eancia incalcul\u00e1vel na hist\u00f3ria moderna, provocou uma controv\u00e9rsia permanente sobre sua natureza real desde o final do s\u00e9culo XIX. Louis Althusser e sua escola reavivaram recentemente esta controv\u00e9rsia na Fran\u00e7a. [Louis Althusser \u00e9 um proeminente fil\u00f3sofo profissional pertencente ao Partido Comunista Franc\u00eas. Ele \u00e9 o autor de\u00a0<em>Pour Marx<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Lire le Capital<\/em>.]<\/p>\n<p>Precisamente o que \u00e9 O Capital? \u00c9 um trabalho de economia? \u00c9 um trabalho de pol\u00edtica revolucion\u00e1ria? \u00c9 um texto filos\u00f3fico? \u00c9 o in\u00edcio da sociologia moderna? Algumas pessoas at\u00e9 mesmo j\u00e1 declararam que \u00e9 acima de tudo o trabalho de um moralista.<\/p>\n<p>O subt\u00edtulo da obra \u00e9: \u201cUma Cr\u00edtica da Economia Pol\u00edtica\u201d. A \u201cEconomia pol\u00edtica\u201d era para Marx uma meia-ci\u00eancia, uma ci\u00eancia que se transformou em uma ideologia. Foi aprisionada em seu desenvolvimento e desviada do caminho cient\u00edfico porque permaneceu cativa aos preconceitos e vis\u00f5es da classe dominante de sua \u00e9poca, a burguesia. Foi porque sua pr\u00f3pria l\u00f3gica os teria obrigado a condenar o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, expor suas contradi\u00e7\u00f5es, demonstrar seu car\u00e1ter transit\u00f3rio e prever o seu fim que os economistas burgueses eram incapazes de completar o trabalho de Adam Smith e Ricardo e que a escola cl\u00e1ssica da economia pol\u00edtica come\u00e7ou a decair.<\/p>\n<p>Ao levar a cabo a \u201ccr\u00edtica da economia pol\u00edtica\u201d, Marx teve que combinar tr\u00eas passos ao mesmo tempo. Ele teve que analisar o funcionamento da economia capitalista, expondo suas contradi\u00e7\u00f5es e mostrando at\u00e9 que ponto a ci\u00eancia econ\u00f4mica oficial \u00e9 incapaz de dar contas delas e explic\u00e1-las. Ele teve que analisar as teorias dos economistas burgueses, expor suas contradi\u00e7\u00f5es, suas inadequa\u00e7\u00f5es e seus erros e tra\u00e7ar o caminho at\u00e9 \u00e0s suas bases ideol\u00f3gicas, ou seja, no seu papel de apologia, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade burguesa. E ele teve que analisar a luta de classes entre os capitalistas e os trabalhadores, o que permitiu que a evolu\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e ideol\u00f3gica fosse encarnada em homens vivos que fazem sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, em \u00faltima inst\u00e2ncia, atrav\u00e9s da luta de classes.<\/p>\n<p>Os partid\u00e1rios de Louis Althusser certamente est\u00e3o certos quando dizem que o objeto do Capital \u00e9 essencialmente uma \u201cestrutura socioecon\u00f4mica\u201d, a an\u00e1lise espec\u00edfica do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista. O capital n\u00e3o pretende fornecer uma explica\u00e7\u00e3o de todas as sociedades humanas, passadas e futuras. Se contenta, de forma mais modesta, em explicar apenas a sociedade dominante nos \u00faltimos quatro s\u00e9culos: a sociedade burguesa.<\/p>\n<p>Mas os partid\u00e1rios de Althusser n\u00e3o est\u00e3o simplesmente certos quando circunscrevem o objeto do capital dessa maneira. Eles tamb\u00e9m est\u00e3o errados, pois esta defini\u00e7\u00e3o n\u00e3o nos permite prestar uma conta da complexidade total do trabalho principal de Marx.<\/p>\n<p>Para poder explicar o funcionamento do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, Marx foi obrigado a rastrear a origem das \u201ccategorias econ\u00f4micas\u201d (mercadoria, valor, dinheiro, capital); No entanto, sua origem est\u00e1 localizada na sociedade pr\u00e9-capitalista. Marx tamb\u00e9m foi obrigado a realizar o trabalho de um historiador e a fornecer materiais b\u00e1sicos para a compreens\u00e3o das sociedades pr\u00e9-capitalistas.<\/p>\n<p>E Marx n\u00e3o poderia validamente analisar as contradi\u00e7\u00f5es do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista sem fornecer um poderoso instrumento de luta para a classe trabalhadora, sem intervir ativamente nesta luta de classes e sem tentar orient\u00e1-la para um objetivo preciso: a supera\u00e7\u00e3o da sociedade capitalista. O Marx de 1867 n\u00e3o esqueceu o imperec\u00edvel aforismo do Marx de 1845: \u201cAt\u00e9 aqui, os fil\u00f3sofos apenas interpretaram o mundo de diversas maneiras; O que importa \u00e9 transform\u00e1-lo\u201d.<\/p>\n<p>O capital \u00e9, portanto, um trabalho tanto te\u00f3rico como pr\u00e1tico, filos\u00f3fico e econ\u00f4mico, hist\u00f3rico e sociol\u00f3gico. N\u00e3o poderia ser de outra forma por causa do m\u00e9todo que Marx utilizou para escrev\u00ea-lo.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Marx definiu de forma telegr\u00e1fica este m\u00e9todo quando escreveu a Maurice Lach\u00e2tre em 18 de mar\u00e7o de 1872, dizendo que aplicou ao estudo dos problemas econ\u00f4micos um m\u00e9todo que nunca antes havia sido utilizado para este fim. Ele obviamente estava se referindo ao m\u00e9todo dial\u00e9tico. Esse m\u00e9todo combina o uso m\u00e1ximo de dados emp\u00edricos com sua an\u00e1lise cr\u00edtica, buscando expor suas contradi\u00e7\u00f5es internas, contradi\u00e7\u00f5es que s\u00e3o mais evidentes quando as origens desses mesmos fen\u00f4menos s\u00e3o estudadas.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o deste m\u00e9todo, Marx p\u00f4de superar as fraquezas e insufici\u00eancias da escola cl\u00e1ssica da economia pol\u00edtica. Ele aperfei\u00e7oou a teoria do valor-trabalho (que explica a origem do valor das mercadorias, um fen\u00f4meno social, pela quantidade de trabalho socialmente necess\u00e1rio para sua produ\u00e7\u00e3o), distinguindo o \u201ctrabalho\u201d da \u201cfor\u00e7a de trabalho\u201d e explicando que o que o capitalismo compra n\u00e3o \u00e9 o \u201ctrabalho\u201d do trabalhador, mas a sua \u201cfor\u00e7a de trabalho\u201d, sua capacidade de trabalhar.<\/p>\n<p>Com esse refinamento, ele conseguiu elaborar a categoria de \u201ctrabalho abstrato\u201d, isto \u00e9, de trabalho sem distin\u00e7\u00e3o de of\u00edcio (ou profiss\u00e3o), como a m\u00e9dia da totalidade do tempo de trabalho \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o da sociedade. E, ao detalh\u00e1-la, ele conseguiu formular sua teoria da mais-valia, que \u00e9 definida como a diferen\u00e7a entre o pre\u00e7o (o valor) da for\u00e7a de trabalho e o valor produzido por essa mesma for\u00e7a de trabalho.<\/p>\n<p>Todas essas descobertas, que simultaneamente revolucionaram a ci\u00eancia econ\u00f4mica e a teoria socialista, j\u00e1 haviam sido feitas em 1859, no pequeno livro de Marx chamado \u201cContribui\u00e7\u00e3o para uma Cr\u00edtica da Economia Pol\u00edtica\u201d, que \u00e9 especialmente celebrado pelo seu \u201cPref\u00e1cio\u201d no qual foi formulada em termos cl\u00e1ssicos a teoria marxista do materialismo-hist\u00f3rico. Mas \u00e9 no Capital que essas descobertas s\u00e3o expostas e desenvolvidas em toda sua riqueza.<\/p>\n<p>O Capital, acima de tudo, busca explicitar as \u201cleis naturais da produ\u00e7\u00e3o capitalista\u201d. Todas estas leis s\u00e3o derivadas dos fundamentos estruturais: a teoria do valor-trabalho e a teoria da mais-valia.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o capitalista \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o para o mercado sob as condi\u00e7\u00f5es de propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, nas condi\u00e7\u00f5es de concorr\u00eancia. Para vencer nesta concorr\u00eancia, ou pelo menos n\u00e3o entrar em fal\u00eancia, o capitalista industrial deve reduzir seus custos de produ\u00e7\u00e3o. Ele consegue isso desenvolvendo a tecnologia, o sistema de m\u00e1quinas. Ao faz\u00ea-lo, ele substitui o trabalho vivo m\u00e1quinas e impiedosamente sujeita os trabalhadores ao movimento das m\u00e1quinas. Ao mesmo tempo ele mata dois coelhos com uma cajadada: ele diminui os custos de produ\u00e7\u00e3o, facilitando a conquista dos mercados; Ele tamb\u00e9m reduz o emprego, gerando desemprego que pressiona os trabalhadores assalariados a aceitar sal\u00e1rios mais baixos e, assim, aumenta sua participa\u00e7\u00e3o no \u201cvalor l\u00edquido\u201d produzido por seus trabalhadores. Este \u201cvalor l\u00edquido\u201d \u00e9 essencialmente dividido entre sal\u00e1rios e lucros; Se a participa\u00e7\u00e3o do primeiro for reduzida, a participa\u00e7\u00e3o do segundo ser\u00e1 automaticamente aumentada.<\/p>\n<p>Para poder desenvolver a tecnologia e o sistema de m\u00e1quinas o capitalista precisa de uma quantidade crescente de capital, uma vez que as m\u00e1quinas se tornam cada vez mais numerosas e mais caras com o desenvolvimento da tecnologia. Existe apenas um meio fundamental de aumentar o capital: aumentar o lucro. Pois \u00e9 atrav\u00e9s do investimento desses lucros (atrav\u00e9s da \u201cacumula\u00e7\u00e3o de capital\u201d) que os capitais crescem.<\/p>\n<p>Para aumentar o seu lucro, o capitalista pode recorrer a dois meios: reduzindo os sal\u00e1rios (ou prolongando a jornada de trabalho di\u00e1ria sem aumentar o sal\u00e1rio di\u00e1rio), ou ent\u00e3o aumentando a produtividade do trabalho sem aumentar os sal\u00e1rios (ou aumentando estes menos do que o crescimento da produtividade do trabalho). O primeiro m\u00e9todo foi, acima de tudo, aplicado at\u00e9 o final do s\u00e9culo XIX na Europa (e continua a ser aplicado sobretudo nos pa\u00edses subdesenvolvidos); Culmina com um empobrecimento absoluto da classe trabalhadora. O segundo m\u00e9todo foi, acima de tudo, aplicado na Europa desde o final do s\u00e9culo XIX; Culmina com um empobrecimento relativo da classe trabalhadora (ou seja, a renda per capita do trabalhador assalariado aumenta menos rapidamente do que a renda per capita da popula\u00e7\u00e3o como um todo). As estat\u00edsticas confirmam isso.<\/p>\n<p>A acumula\u00e7\u00e3o de capital, o instrumento para vencer a concorr\u00eancia, culmina com a concentra\u00e7\u00e3o de capital. Os peixes grandes comem os pequenos. Uma vez que os custos de entrada numa ind\u00fastria aumentam incessantemente, apenas um n\u00famero cada vez menor de grandes trustes (cart\u00e9is ou\u00a0<em>holdings<\/em>) capitalistas pode entrar nos ramos tecnicamente mais avan\u00e7ados da ind\u00fastria. O outro dia, um economista americano previu que, at\u00e9 o final do s\u00e9culo, trezentas corpora\u00e7\u00f5es gigantes dominariam toda a economia mundial capitalista.<\/p>\n<p>Mas este colossal aumento de for\u00e7as produtivas \u00e9 realizado de forma an\u00e1rquica e desorganizada. Est\u00e1 orientado para a realiza\u00e7\u00e3o do lucro privado e n\u00e3o para a satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades humanas. Da\u00ed a tend\u00eancia de superprodu\u00e7\u00e3o inerente ao modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, que atualmente \u00e9 expresso sob o aspecto do excesso de capacidade produtiva. Da\u00ed a tend\u00eancia para crises econ\u00f4micas peri\u00f3dicas, que s\u00e3o chamadas, de forma envergonhada, de \u201crecess\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>O Capital, como observamos, n\u00e3o s\u00f3 revolucionou a ci\u00eancia econ\u00f4mica. Tamb\u00e9m revolucionou o movimento oper\u00e1rio. Transformou o socialismo de uma utopia em uma ci\u00eancia. Forjou uma arma para os trabalhadores, com a qual eles n\u00e3o podem apenas detectar os pontos fracos na armadura de seus advers\u00e1rios, mas tamb\u00e9m se preparar para o advento de uma nova sociedade, a sociedade socialista.<\/p>\n<p>No momento em que o jovem Marx e Engels redigiram o \u201cManifesto Comunista\u201d em Bruxelas, em 1847, havia poucas centenas de socialistas revolucion\u00e1rios organizados em tr\u00eas ou quatro pa\u00edses. O clamor libertador: \u201cTrabalhadores de todas os pa\u00edses, uni-vos!\u201d n\u00e3o corresponde ent\u00e3o a nenhuma realidade j\u00e1 experimentada. O diagn\u00f3stico cient\u00edfico: \u201cA hist\u00f3ria de todas as \u00e9pocas tem sido a hist\u00f3ria das lutas de classe\u201d podia ser compreendida pelos principais atores do drama contempor\u00e2neo \u2013 os trabalhadores da grande ind\u00fastria \u2013 apenas em alguns pa\u00edses.<\/p>\n<p>Vinte anos depois, quando O Capital apareceu, j\u00e1 havia uma organiza\u00e7\u00e3o internacional dos trabalhadores em cena e a consci\u00eancia e organiza\u00e7\u00e3o sindical havia crescido entre os trabalhadores de boa parte dos pa\u00edses. Mas isso ainda n\u00e3o era mais do que uma pequena vanguarda. Em n\u00fameros, em compara\u00e7\u00e3o com toda a humanidade, era um grupo insignificante, embora j\u00e1 fosse capaz de causar \u201cgrande medo\u201d nos capitalistas durante a proclama\u00e7\u00e3o da Comuna de Paris.<\/p>\n<p>N\u00e3o mais do que vinte anos depois, o socialismo cient\u00edfico se tornou um movimento que englobava milh\u00f5es de trabalhadores em todo o mundo. E meio s\u00e9culo ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o de O Capital, foram colhidos os primeiros dividendos mais vistosos: a classe trabalhadora conquistou o poder pela primeira vez em um grande pa\u00eds, na R\u00fassia, em outubro de 1917.<\/p>\n<p>Hoje, n\u00e3o h\u00e1 um \u00fanico pa\u00eds neste planeta, nem mesmo uma ilha, por menor que seja, onde um industrial privado n\u00e3o confronte uma classe trabalhadora organizada em sindicatos ou em partidos pol\u00edticos. Hoje, centenas de milh\u00f5es de trabalhadores, intelectuais, camponeses pobres e estudantes carregam de alguma maneira a bandeira que foi levantada por Marx. \u00c9 pequena a chance de que o capitalismo sobreviva ao s\u00e9culo XX para que possa contemplar o 150\u00ba anivers\u00e1rio de O Capital com a mesma mistura de respeito, irrita\u00e7\u00e3o e complac\u00eancia com que ainda \u00e9 poss\u00edvel observar em alguns pa\u00edses industrializados, ao marcar o centen\u00e1rio \u00e0 sua maneira.<\/p>\n<p>Marx previu com raz\u00e3o: \u201cA burguesia se lembrar\u00e1 dos meus fur\u00fanculos por muito tempo\u201d. Tal \u00e9 o poder do pensamento, quando \u00e9 cient\u00edfico, isto \u00e9, quando pode compreender o significado do movimento e da evolu\u00e7\u00e3o e quando \u00e9 capaz de ocupar um lugar na consci\u00eancia das massas.<\/p>\n<p>\u2014<\/p>\n<p>Nota:<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8034#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>\u00a0Me refiro aqui \u00e0 colet\u00e2nea \u201cRicardo, Marx, Sraffa\u201d, editada por Mandel e Freeman em 1984.<\/p>\n<p>http:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=8034<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ernest Mandel &#8211;\u00a0H\u00e1 cinquenta anos atr\u00e1s, \u00e0s v\u00e9speras das mobiliza\u00e7\u00f5es de maio de 1968 nas quais se tornaria internacionalmente conhecido, o economista e dirigente pol\u00edtico trotsquista Ernest Mandel escreveu algumas linhas em comemora\u00e7\u00e3o aos 100 anos de publica\u00e7\u00e3o do livro I de O Capital, de Karl Marx. 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