{"id":469,"date":"2016-06-03T09:05:33","date_gmt":"2016-06-03T12:05:33","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=469"},"modified":"2016-05-30T16:07:18","modified_gmt":"2016-05-30T19:07:18","slug":"chomsky-tres-desafios-ao-poder-de-washington","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/06\/03\/chomsky-tres-desafios-ao-poder-de-washington\/","title":{"rendered":"Chomsky: tr\u00eas desafios ao poder de Washington"},"content":{"rendered":"<p><strong>Noam Chomsky &#8211;\u00a0<\/strong>Para manter e ampliar hegemonia global, EUA atuam agressivamente no Leste da \u00c1sia, Europa Oriental e Mundo \u00c1rabe. Mas enfrentam, al\u00e9m das sociedades locais, as resist\u00eancias de Pequim e Moscou<\/p>\n<p>Quando perguntamos \u201cQuem governa o mundo?\u201d em geral adotamos a conven\u00e7\u00e3o padronizada de que, nos assuntos mundiais, os atores s\u00e3o os Estados, principalmente os grandes poderes, e consideramos suas decis\u00f5es e as rela\u00e7\u00f5es entre eles. Isso n\u00e3o est\u00e1 errado. Mas seria bom mantermos em mente que esse n\u00edvel de abstra\u00e7\u00e3o pode tamb\u00e9m ser altamente enganador.<\/p>\n<p>Os Estados, \u00e9 claro, t\u00eam estruturas internas complexas, e as escolhas e decis\u00f5es das lideran\u00e7as pol\u00edticas s\u00e3o fortemente influenciadas pelas concentra\u00e7\u00f5es internas de poder, enquanto as popula\u00e7\u00f5es em geral s\u00e3o frequentemente marginalizadas. Isso \u00e9 verdade at\u00e9 mesmo para as sociedades mais democr\u00e1ticas e obviamente para as outras. N\u00e3o poderemos chegar a um entendimento realista sobre quem governa o mundo enquanto ignorarmos os \u201csenhores da humanidade\u201d, como foram chamados por Adam Smith. Em outros tempos, eram os comerciantes e donos de f\u00e1bricas da Inglaterra; nos nossos, os conglomerados multinacionais, enormes institui\u00e7\u00f5es financeiras, imp\u00e9rios do varejo e similares. Ainda segundo Adam Smith, tamb\u00e9m \u00e9 aconselh\u00e1vel considerar a \u201cm\u00e1xima vil\u201d \u00e0 qual os \u201csenhores da humanidade\u201d est\u00e3o dedicados: \u201cTudo para n\u00f3s e nada para os outros\u201d \u2013 uma doutrina conhecida tamb\u00e9m como luta de classes, amarga e incessante, frequentemente unilateral, muito em preju\u00edzo da popula\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses e do mundo.<\/p>\n<p>(\u2026)<\/p>\n<p><strong>Poder Ocidental sob press\u00e3o<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p>O problema de quem domina o mundo leva ent\u00e3o, de vez, a preocupa\u00e7\u00f5es tais como a ascens\u00e3o da China ao poder e seu desafio aos Estados Unidos e \u00e0 \u201cordem mundial\u201d; a nova guerra fria que se desenvolve na Europa Oriental; a Guerra Global ao Terror. a hegemonia norte-americana e o decl\u00ednio dos Estados Unidos, e uma s\u00e9rie de considera\u00e7\u00f5es semelhantes.<\/p>\n<p>Os desafios enfrentados pelo poder ocidental no in\u00edcio de 2016 s\u00e3o frequentemente sintetizados no quadro convencional por Gideon Rachman, colunista-chefe de rela\u00e7\u00f5es exteriores no <em>Financial Times<\/em> de Londres. Ele come\u00e7a por rever o cen\u00e1rio ocidental da ordem mundial: \u201cDesde o fim da Guerra Fria, o poder militar avassalador dos EUA tem sido o fato central da pol\u00edtica internacional.\u201d Isso \u00e9 particularmente crucial em tr\u00eas regi\u00f5es: no Leste da \u00c1sia, onde \u201ca Marinha dos EUA acostumou-se a tratar o Pac\u00edfico como um \u2018lago americano\u2019\u201d; na Europa, onde a OTAN \u2013 significando os Estados Unidos, que respondem por assombrosos tr\u00eas-quartos dos gastos militares [da alian\u00e7a]\u201d \u2013 \u201cgarante a integridade territorial de seus estados-membros\u201d; e no Oriente M\u00e9dio, onde as gigantescas bases navais e a\u00e9reas dos EUA \u201cexistem para proteger os amigos e intimidar os rivais\u201d.<\/p>\n<p>O problema da ordem mundial hoje, continua Racman, \u00e9 que \u201cessas ordens de seguran\u00e7a est\u00e3o agora sendo desafiadas nas tr\u00eas regi\u00f5es\u201d, por causa da interven\u00e7\u00e3o russa na Ucr\u00e2nia e na S\u00edria, e porque a China est\u00e1 transformando seus mares vizinhos, de lago norte-americano, em \u201c\u00e1guas claramente contestadas\u201d. A pergunta fundamental das rela\u00e7\u00f5es internacionais, ent\u00e3o, \u00e9 se os Estados Unidos poderiam \u201caceitar que outros grandes poderes pudessem ter algum tipo de zona de influ\u00eancia em sua vizinhan\u00e7a.\u201d Rachman pensa que poderiam, por raz\u00f5es de \u201cdifus\u00e3o do poder econ\u00f4mico atrav\u00e9s do mundo \u2013 combinada com simples senso comum.\u201d<\/p>\n<p>H\u00e1, por certo, modos de olhar o mundo a partir de diferentes pontos de vista. Mas, vamos nos ater a essas tr\u00eas regi\u00f5es, com certeza criticamente importantes.<\/p>\n<p><strong>Desafios Hoje: 1. O Leste da \u00c1sia<\/strong><\/p>\n<p>Come\u00e7ando pelo \u201clago norte-americano\u201d, pode provocar alguma surpresa um relato de meados de dezembro de 2015, segundo o qual \u201cum bombardeiro B-52 norte-americano, em miss\u00e3o rotineira sobre o Mar do Sul da China, voou involuntariamente para dentro da \u00e1rea de 3,5 quil\u00f4metros de uma ilha artificial constru\u00edda pela China, como declarou um oficial s\u00eanior da defesa, acirrando uma quest\u00e3o que divide Washington e Pequim.\u201d Quem est\u00e1 familiarizado com os sinistros setenta anos de registros da era nuclear sabe bem o que esse \u00e9 o tipo de incidente, que v\u00e1rias vezes esteva a ponto de levar \u00e0 deflagra\u00e7\u00e3o final de uma guerra nuclear. Mas mesmo quem n\u00e3o apoia as a\u00e7\u00f5es agressivas e provocadoras da China no Mar do Sul da China notar\u00e1 que o incidente n\u00e3o envolveu um bombardeiro chin\u00eas, com capacidade nuclear, no Caribe, ou ao largo da costa da Calif\u00f3rnia, onde a China \u2014 para sorte do mundo \u2014 n\u00e3o tem pretens\u00f5es de estabelecer um \u201clago chin\u00eas.\u201d<\/p>\n<p>O l\u00edderes chineses compreendem muito bem que as rotas de com\u00e9rcio mar\u00edtimo de seu pa\u00eds est\u00e3o cercadas por poderes hostis \u2014 do Jap\u00e3o ao Estreito de M\u00e1laca e al\u00e9m, apoiados pela avassaladora for\u00e7a militar dos EUA. Por isso, a China procura expandir-se para o oeste, com grandes investimentos e movimentos cuidadosos para alcan\u00e7ar integra\u00e7\u00e3o. Em parte, esses desenvolvimentos est\u00e3o dentro do \u00e2mbito da Organiza\u00e7\u00e3o de Coopera\u00e7\u00e3o de Xangai (SCO), que inclui os pa\u00edses da \u00c1sia Central e a R\u00fassia, e em breve a \u00cdndia e o Paquist\u00e3o, com o Ir\u00e3 como observador \u2013 um status negado aos Estados Unidos, que foram tamb\u00e9m chamados a fechar todas as suas bases militares na regi\u00e3o. A China est\u00e1 construindo uma vers\u00e3o moderna da velha Rota da Seda, com a inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas de integrar a regi\u00e3o sob influ\u00eancia chinesa, mas tamb\u00e9m de alcan\u00e7ar as zonas produtoras de petr\u00f3leo da Europa e do Oriente M\u00e9dio. Est\u00e1 investindo enormes somas para criar um sistema asi\u00e1tico de energia e com\u00e9rcio integrado, com oleodutos e linhas ferrovi\u00e1rias extensas e de alta velocidade.<\/p>\n<p>Uma das pe\u00e7as do programa \u00e9 uma estrada que corta algumas das mais altas montanhas do mundo e chega at\u00e9 o novo porto construido pela China em Gwadar, no Paquist\u00e3o, para proteger os navios petroleiros contra a potencial interfer\u00eancia dos EUA. O programa poder\u00e1 tamb\u00e9m, esperam a China e o Paquist\u00e3o, incentivar o desenvolvimento industrial do Paquist\u00e3o, que os Estados Unidos n\u00e3o facilitaram apesar da ajuda militar maci\u00e7a. Pequim ainda procura incentivar o Paquist\u00e3o a reprimir o terrorismo dom\u00e9stico, uma quest\u00e3o s\u00e9ria para a China na prov\u00edncia ocidental de Xinjiang. Gwadar ser\u00e1 parte do \u201ccolar de p\u00e9rolas\u201d da China, formado por bases que est\u00e3o sendo constru\u00eddas no Oceano \u00cdndico, com objetivos comerciais mas tamb\u00e9m para uso militar, na expectativa de que a China possa algum dia, pela primeira vez na era moderna, ser capaz de projetar seu poder at\u00e9 o Golfo P\u00e9rsico.<\/p>\n<p>Todas estas a\u00e7\u00f5es se mant\u00eam imunes ao poder militar avassalador de Washington, para n\u00e3o dizer da aniquila\u00e7\u00e3o por uma guerra nuclear, que destruiria igualmente os Estados Unidos.<\/p>\n<p>Em 2015, a China criou tamb\u00e9m o Banco Asi\u00e1tico de Investimentos em Infra-Estrutura (AIIB), do qual \u00e9 o principal acionista. Cinquenta e seis na\u00e7\u00f5es participaram de sua abertura em Pequim, em junho, incluindo aliados dos EUA como Austr\u00e1lia, Gr\u00e3 Bretanha e outros \u2014 que aderiram desafiando os desejos de Washington. Estiveram ausentes Estados Unidos e Jap\u00e3o. Alguns analistas acreditam que o novo banco pode tornar-se um competidor das institui\u00e7\u00f5es de Bretton Woods (o FMI e o Banco Mundial), nas quais os Estados Unidos t\u00eam poder de veto. H\u00e1 tamb\u00e9m algumas expectativas de que a Organiza\u00e7\u00e3o de Coopera\u00e7\u00e3o de Xangai possa eventualmente tornar-se uma contrapartida da OTAN.<\/p>\n<p><strong>Desafios de Hoje: 2. A Europa Oriental<\/strong><\/p>\n<p>Examinemos a segunda regi\u00e3o: a Europa Oriental. H\u00e1 uma crise sendo fermentada na fronteira da OTAN com a R\u00fassia. N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o menor. Em seu estudo acad\u00eamico iluminador e sensato sobre a regi\u00e3o,<em>Frontline Ukraine: Crisis in the Borderlands<\/em>, Richard Sakwa escreve \u2013 de modo muito plaus\u00edvel \u2013 que a \u201cguerra entre R\u00fassia e Ge\u00f3rgia de agosto de 2008 foi na verdade a primeira das \u2018guerras para deter o crescimento da OTAN\u2019; a crise da Ucr\u00e2nia, de 2015, \u00e9 a segunda. N\u00e3o est\u00e1 claro se a humanidade sobreviveria \u00e0 terceira.\u201d<\/p>\n<p>O Ocidente v\u00ea o crescimento da OTAN como um fato benigno. N\u00e3o por acaso a R\u00fassia, a maioria do Sul Global e algumas vozes ocidentais destacadas t\u00eam uma opini\u00e3o diferente. George Kennan logo alertou de que o crescimento da OTAN \u00e9 um \u201cerro tr\u00e1gico\u201d, e foi acompanhado por pol\u00edticos s\u00eaniores norte-americanos, numa carta aberta \u00e0 Casa Branca, que descrevem o movimento como \u201cum erro pol\u00edtico de propor\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas\u201d.<\/p>\n<p>A crise atual tem suas origens em 1991, com o fim da Guerra Fria e o colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Havia ent\u00e3o duas vis\u00f5es contrastantes sobre um novo sistema de seguran\u00e7a e economia pol\u00edtica na Eur\u00e1sia. Nas palavras de Sakwa, uma vis\u00e3o era a da \u201c\u2018Europa mais extensa\u2019, que teria Uni\u00e3o Europeia em seu n\u00facleo, mas tenderia a coincidentir com a comunidade pol\u00edtica e de seguran\u00e7a Euro-Atl\u00e2ntica. Do outro lado havia a ideia de uma \u2018Europa Maior\u2019, uma vis\u00e3o de continente europeu estendendo-se de Lisboa at\u00e9 Vladivostok, com m\u00faltiplos centros, incluindo Bruxelas, Moscou e Ancara, mas com um prop\u00f3sito comum de superar as divis\u00f5es que tradicionalmente flagelaram o continente.\u201d<\/p>\n<p>O l\u00edder sovi\u00e9tico Mikhail Gorbachev foi o maior defensor da Europa Maior, um conceito que teve tamb\u00e9m ra\u00edzes europeias no gaullismo e outras iniciativas. Contudo, \u00e0 medida em que a R\u00fassia entrou em colapso, pressionada pelas devastadoras reformas de mercado dos anos 1990, a vis\u00e3o diluiu-se, para renovar-se apenas \u00e0 medida em que a R\u00fassia come\u00e7ou a se recuperar e buscar um lugar na cena mundial sob Vladimir Putin, que junto com seu parceiro Dmitry Medvedev tem repetidamente \u201cdemandado a unifica\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica de toda a \u2018Europa Maior\u2019, de Lisboa a Vladivostok, para criar uma genu\u00edna \u2018parceria estrat\u00e9gica\u2019\u201d.<\/p>\n<p>Essas iniciativas foram \u201csaudadas com polido desprezo\u201d, observa Sakwa, vistas como \u201cpouco mais que uma cobertura para o estabelecimento de uma \u2018R\u00fassia Maior\u2019 por dissimula\u00e7\u00e3o\u201d e um esfor\u00e7o para fincar uma cunha entre a Am\u00e9rica do Norte e a Europa Ocidental. Tais preocupa\u00e7\u00f5es t\u00eam origem nos medos, do in\u00edcio da Guerra Fria, de que a Europa posa tornar-se uma \u201cterceira for\u00e7a\u201d independente de ambos, o grande e o pequeno superpoder, movendo-se em dire\u00e7\u00e3o a v\u00ednculos mais pr\u00f3ximos do \u00faltimo (como pode ser visto na Ostpolitik de Willy Brandt e outras iniciativas).<\/p>\n<p>A resposta ocidental ao colapso da R\u00fassia foi triunfalista. O fato foi aclamado como sinal do \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d, a vit\u00f3ria final da democracia capitalista ocidental, quase como se a R\u00fassia estivesse sentido instru\u00edda a voltar ao seu status pr\u00e9-Primeira Guerra Mundial \u2014 uma col\u00f4nia econ\u00f4mica virtual do Ocidente. A amplia\u00e7\u00e3o da OTAN come\u00e7ou imediatamente, violando garantias dadas a Gorbachev. Elas estabeleciam que as for\u00e7as do bloco n\u00e3o se deslocariam \u201cuma s\u00f3 polegada para leste\u201d, em contrapartida \u00e0 concord\u00e2ncia, pelo presidente russo, a\u00a0 que a Alemanha unificada se tornasse membro da OTAN \u2013 uma concess\u00e3o extraordin\u00e1ria, \u00e0 luz da hist\u00f3ria. A hip\u00f3tese de que a OTAN pudesse expandir-se para al\u00e9m da Alemanha n\u00e3o foi discutida com Gorbachev, ainda que fosse considerada em privado.<\/p>\n<p>Logo, a OTAN come\u00e7ou a mover-se al\u00e9m, at\u00e9 as fronteiras da R\u00fassia. A miss\u00e3o geral da alian\u00e7a foi mudada oficialmente, para um mandato de prote\u00e7\u00e3o a \u201cinfra-estrutura crucial\u201d do sistema global de energia, rotas mar\u00edtimas e oleodutos, o que deu dimens\u00f5es globais \u00e0 sua \u00e1rea de\u00a0 opera\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, ap\u00f3s a revis\u00e3o, pelo Ocidente, da agora amplamente proclamada doutrina de \u201cresponsabilidade de proteger\u201d \u2014 nitidamente diversa da vers\u00e3o oficial das Na\u00e7\u00f5es Unidas \u2013, a OTAN tamb\u00e9m pode servir, agora, como uma for\u00e7a de interven\u00e7\u00e3o sob o comando dos EUA.<\/p>\n<p>Particularmente preocupantes para a R\u00fassia s\u00e3o os planos de expandir a OTAN para a Ucr\u00e2nia. Esses planos foram articulados explicitamente na c\u00fapula da alian\u00e7a realizada em Bucareste em abril de 2008, quando a Ge\u00f3rgia e a Ucr\u00e2nia receberam promessa de eventual admiss\u00e3o. As palavras foram perfeitamente claras: \u201cA OTAN d\u00e1 as boas vindas \u00e0s aspira\u00e7\u00f5es Euro-Atl\u00e2nticas da Ucr\u00e2nia e da Ge\u00f3rgia de tornarem-se membros. Concordamos hoje que esses pa\u00edses se tornar\u00e3o membros da OTAN.\u201d Com a vit\u00f3ria de candidatos pr\u00f3-ocidentais na \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Laranja\u201d da Ucr\u00e2nia, em 2004, o representante do Departamento de Estado Daniel Fried correu l\u00e1 para \u201cenfatizar o apoio dos EUA \u00e0s aspira\u00e7\u00f5es \u00e0 OTAN e Euro-Atl\u00e2nticas da Ucr\u00e2nia\u201d, como revelou documento do WikiLeaks.<\/p>\n<p>As preocupa\u00e7\u00f5es russas s\u00e3o facilmente compreens\u00edveis. Elas s\u00e3o detalhadas pelo acad\u00eamico de rela\u00e7\u00f5es internacionais John Mearsheimer na publica\u00e7\u00e3o l\u00edder do establishment norte-americano,<em>Foreign Affairs<\/em>. Ele escreve que \u201ca raiz da atual crise [sobre a Ucr\u00e2nia] \u00e9 a expans\u00e3o da OTAN e a determina\u00e7\u00e3o de Washington de mover a Ucr\u00e2nia para fora da \u00f3rbita de Moscou e integr\u00e1-la ao ocidente\u201d, o que Putin viu como \u201camea\u00e7a direta aos interesses vitais da R\u00fassia\u201d.<\/p>\n<p>\u201cQuem pode culp\u00e1-lo por isso?\u201d, pergunta Mearsheimer, apontando que \u201cWashington pode n\u00e3o gostar da posi\u00e7\u00e3o de Moscou, mas deveria entender a l\u00f3gica por tr\u00e1s dela.\u201d Isso n\u00e3o deveria ser muito dif\u00edcil. Afinal, como todo mundo sabe, \u201cos Estados Unidos n\u00e3o tolera que grandes poderes distantes finquem for\u00e7as militares em qualquer parte do hemisf\u00e9rio ocidental, quanto mais em suas fronteiras.\u201d<\/p>\n<p>De fato, a posi\u00e7\u00e3o dos EUA \u00e9 muito mais forte. Eles n\u00e3o toleram o que \u00e9 oficialmente chamado de \u201crebeldia bem sucedida\u201d \u00e0 Doutrina Monroe de 1823, que declarou (mas poderia ainda n\u00e3o implementar) o controle dos EUA sobre as Am\u00e9ricas. E um pequeno pa\u00eds que assuma tal rebeldia bem sucedida pode estar sujeito aos \u201cterrores da terra\u201d e um embargo esmagador \u2013 como ocorreu com Cuba. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio perguntar como reagiriam os Estados Unidos caso os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina se unissem ao Pacto de Vars\u00f3via, planejando incorporar tamb\u00e9m o M\u00e9xico e o Canad\u00e1. A mera sugest\u00e3o de tentar qualquer passo nesse sentido teria sido \u201cencerrada com preconceito extremo\u201d, para adotar o jarg\u00e3o da CIA.<\/p>\n<p>Como no caso da China, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio defender raz\u00f5es e a\u00e7\u00f5es de Putin para entender a l\u00f3gica por tr\u00e1s delas. Como no caso da China, h\u00e1 muita coisa em jogo. S\u00e3o quest\u00f5es de sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Desafios de Hoje: 3. O Mundo Isl\u00e2mico<\/strong><\/p>\n<p>Voltemo-nos agora para a terceira regi\u00e3o de grande interesse, o mundo isl\u00e2mico (em sentido amplo), tamb\u00e9m cen\u00e1rio da Guerra Global ao Terror (GWOT) que George W. Bush declarou em 2001, depois do ataque terrorista de 9\/11. Para ser mais preciso, re-declarou. A GWOT foi declarada pelo presidente Reagan quando assumiu o poder, com ret\u00f3rica febril sobre uma \u201cpraga espalhada por depravados opositores \u00e0 pr\u00f3pria civiliza\u00e7\u00e3o\u201d (como definiu o ent\u00e3o presidente) e uma \u201cvolta \u00e0 barb\u00e1rie na era moderna\u201d (nas palavras de George Shultz, seu secret\u00e1rio de Estado). A GWOT original foi silenciosamente removida da hist\u00f3ria. Ela transformou-se rapidamente numa guerra terrorista assassina e destrutiva que afetou a Am\u00e9rica Central, a \u00c1frica do Sul e o Oriente M\u00e9dio, com impiedosas repercuss\u00f5es no presente, levando inclusive \u00e0 condena\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos na Corte Mundial (rejeitada pelos EUA). De qualquer modo, n\u00e3o \u00e9 a narrativa\u00a0 certa para a hist\u00f3ria, de modo que desapareceu.<\/p>\n<p>O \u201csucesso\u201d da vers\u00e3o Bush-Obama do GWOT pode ser prontamente avaliado, numa observa\u00e7\u00e3o direta. Quando a guerra foi declarada, os alvos terroristas estavam confinados a uma pequena regi\u00e3o do Afeganist\u00e3o tribal. Eles eram protegidos por afeg\u00e3os, a maioria dos quais n\u00e3o gostava deles e os desprezava, sob o c\u00f3digo tribal de hospitalidade que desafiou os norte-americanos quando camponeses pobres recusaram-se a \u201centregar Osama bin Laden pela quantia, para eles astron\u00f4mica, de 25 milh\u00f5es de d\u00f3lares.\u201d<\/p>\n<p>H\u00e1 boas raz\u00f5es para acreditar que uma a\u00e7\u00e3o policial bem constru\u00edda, ou mesmo s\u00e9rias negocia\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas com o Talib\u00e3 poderiam ter colocado os suspeitos dos crimes de 9\/11 nas m\u00e3os dos norte-americanos para julgamento e condena\u00e7\u00e3o. Mas essas op\u00e7\u00f5es n\u00e3o estavam colocadas. Ao contr\u00e1rio, a escolha era de viol\u00eancia em larga escala \u2013 n\u00e3o com o objetivo de derrubar o Talib\u00e3 (isso veio depois), mas de deixar claro o desprezo dos EUA pelas tentativas de oferta do Talib\u00e3 de extraditar Bin Laden. N\u00e3o sabemos o qu\u00e3o s\u00e9rias eram essas tentativas, uma vez que a possibilidade de explor\u00e1-las nunca foi levada adiante. Ou talvez os EUA estivessem apenas \u201ctentando mostrar seus m\u00fasculos, marcar uma vit\u00f3ria e assustar o mundo inteiro. Eles n\u00e3o se preocupam com o sofrimento dos afeg\u00e3os ou quantas pessoas n\u00f3s vamos perder.\u201d<\/p>\n<p>Essa foi a avalia\u00e7\u00e3o do l\u00edder anti-Talib\u00e3 Abdul Haq, altamente respeitado, um dos muitos oposicionistas que condenaram a campanha de bombardeamento norte-americana lan\u00e7ada em outubro de 2001 como \u201cum grande rev\u00e9s\u201d a seus esfor\u00e7os de derrubar o Talib\u00e3 desde dentro, um objetivo que considerava poss\u00edvel. Sua avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 confirmada por Richard A. Clarke, president do Grupo de Seguran\u00e7a Contraterrorista da Casa Branca durante a presid\u00eancia de George W. Bush, quando foram feitos os planos de ataque ao Afeganist\u00e3o. Segundo a descri\u00e7\u00e3o de Clarke, quando informado de que o ataque poderia violar as leis internacionais \u201co presidente gritou na estreita sala de reuni\u00e3o, \u2018n\u00e3o me interessa o que dizem os advogados internacionais, n\u00f3s vamos chutar a bunda de algu\u00e9m\u201d. Houve tamb\u00e9m forte oposi\u00e7\u00e3o ao ataque pelas maiores organiza\u00e7\u00f5es que trabalhavam no Afeganist\u00e3o, alertando que milh\u00f5es de pessoas encontravam-se \u00e0 beira da fome e as consequ\u00eancias poderiam ser terr\u00edveis.<\/p>\n<p>As consequ\u00eancias para os pobres afeg\u00e3os, anos depois, mal precisam ser revistas.<\/p>\n<p>O pr\u00f3ximo alvo a ser golpeado era o Iraque. A invas\u00e3o EUA-Reino Unido, sem qualquer pretexto realmente cr\u00edvel, \u00e9 o maior crime do s\u00e9culo XXI. A invas\u00e3o levou \u00e0 morte de centenas de milhares de pessoas num pa\u00eds onde a sociedade civil j\u00e1 havia sido devastada pelas san\u00e7\u00f5es norte-americanas e brit\u00e2nicas, vistas como \u201cgenocidas\u201d pelos dois not\u00f3rios diplomatas internacionais que as administravam e que, por essa raz\u00e3o, renunciaram a seus postos, em protesto. A invas\u00e3o tamb\u00e9m gerou milh\u00f5es de refugiados, destruiu grande parte do pa\u00eds e instigou um conflito sect\u00e1rio que est\u00e1 agora destro\u00e7ando o Iraque e toda a regi\u00e3o. \u00c9 um fato espantoso sobre nossa cultura moral e intelectual que, em c\u00edrculos informados e iluminados, ela possa ser chamada, suavemente, de \u201ca libera\u00e7\u00e3o do Iraque\u201d.<\/p>\n<p>Pesquisas do Pent\u00e1gono e do minist\u00e9rio de Defesa brit\u00e2nico revelaram que apenas 3% dos iraquianos consideravam leg\u00edtimo os EUA exercerem papel de seguran\u00e7a em sua vizinhan\u00e7a. Menos que 1% acreditavam que as for\u00e7as da \u201ccoaliz\u00e3o\u201d (EUA-Reino Unido) fossem boas para sua seguran\u00e7a. 80% opunham-se \u00e0 presen\u00e7a das for\u00e7as da coaliz\u00e3o no pa\u00eds e a maioria apoiava ataques \u00e0s tropas da coaliz\u00e3o. O Afeganist\u00e3o foi destru\u00eddo muito al\u00e9m do que podem avaliar pesquisas confi\u00e1veis, mas h\u00e1 sinais de que algo semelhante pode ser igualmente verdadeiro. Particularmente no Iraque, os Estados Unidos sofreram uma severa derrota, abandonando seus objetivos oficiais de guerra e deixando o pa\u00eds sob a influ\u00eancia do \u00fanico vitorioso \u2014 o Ir\u00e3.<\/p>\n<p>O massacre foi tamb\u00e9m desfechado em outros lugares, notadamente na L\u00edbia. Os tr\u00eas poderes imperiais tradicionais (Gr\u00e3 Bretanha, Fran\u00e7a e Estados Unidos) asseguraram a resolu\u00e7\u00e3o 1973 do Conselho de Seguran\u00e7a e a violaram imediatamente, tornando-se a for\u00e7a a\u00e9rea dos rebeldes. O efeito foi inviabilizar a possibilidade de um acordo negociado e pac\u00edfico; o grande aumento das mortes (multiplicadas ao menos por dez, segundo o cientista pol\u00edtico Alan Kuperman); deixar a L\u00edbia em ru\u00edna, nas m\u00e3os de mil\u00edcias beligerantes; e, mais recentemente, prover o Estado Isl\u00e2mico com uma base que pode ser usada para espalhar o terror para mais longe. Propostas diplom\u00e1ticas bastante inteligentes da Uni\u00e3o Africana, aceitas em princ\u00edpio pelo l\u00edder da L\u00edbia Muammar Qaddafi, foram ignoradas pelo triunvirato imperial, como analisa o especialista em \u00c1frica Alex de Waal. Um enorme fluxo de armas e jihadistas espalhou terror e viol\u00eancia desde a \u00c1frica Ocidental (agora campe\u00e3 de assassinatos terroristas) at\u00e9 o Levante, enquanto o ataque da OTAN ocasionou ainda uma enchente de refugiados da \u00c1frica para a Europa.<\/p>\n<p>Foi mais um triunfo da \u201cinterven\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria\u201d e \u2014 como revelam os longos e muitas vezes macabros registros hist\u00f3ricos do in\u00edcio deste tipo de a\u00e7\u00e3o na \u00e9poca moderna, quatro s\u00e9culos atr\u00e1s \u2014 n\u00e3o foi nem um pouco surreendente.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"1dGbHLgPSu\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/sem-categoria\/poder-norte-americano-sob-suspeicao\/\">Chomsky: tr\u00eas desafios ao poder de Washington<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Chomsky: tr\u00eas desafios ao poder de Washington&#8221; &#8212; Outras Palavras\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/sem-categoria\/poder-norte-americano-sob-suspeicao\/embed\/#?secret=TzxgAIGJ5v#?secret=1dGbHLgPSu\" data-secret=\"1dGbHLgPSu\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Noam Chomsky &#8211;\u00a0Para manter e ampliar hegemonia global, EUA atuam agressivamente no Leste da \u00c1sia, Europa Oriental e Mundo \u00c1rabe. 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