{"id":4646,"date":"2017-07-31T15:16:47","date_gmt":"2017-07-31T18:16:47","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=4646"},"modified":"2017-07-28T12:28:49","modified_gmt":"2017-07-28T15:28:49","slug":"e-se-a-classe-media-de-pinheiros-tivesse-se-omitido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/07\/31\/e-se-a-classe-media-de-pinheiros-tivesse-se-omitido\/","title":{"rendered":"E se a classe m\u00e9dia de Pinheiros tivesse se omitido?"},"content":{"rendered":"<p><strong>ELIANE BRUM<\/strong> &#8211; A rea\u00e7\u00e3o diante do assassinato do carroceiro risca um limite no pa\u00eds sem limites<\/p>\n<p>No Brasil em que um\u00a0denunciado por corrup\u00e7\u00e3o segue ocupando a presid\u00eancia\u00a0e, para se manter no poder, rifa a Constitui\u00e7\u00e3o e compra deputados com o dinheiro p\u00fablico que falta para o essencial; no Brasil em que a pauta n\u00e3o eleita avan\u00e7a numa velocidade antes nunca vista,\u00a0mastigando direitos conquistados em d\u00e9cadas; no Brasil em que o maior l\u00edder popular da redemocratiza\u00e7\u00e3o foi condenado pela Lava Jato e seu partido se recusa a fazer autocr\u00edtica, porque acha que n\u00e3o deve nenhuma explica\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o sobre o fato de ter se corrompido no poder; no Brasil em que tudo isso acontece e a maioria prefere dormir no sof\u00e1 (enquanto ainda o tem) a ocupar as ruas para lutar pelos seus direitos&#8230; algo transformador finalmente aconteceu.<\/p>\n<p>Na quarta-feira, 12 de julho, \u00e0s 18h, o catador de material recicl\u00e1vel Ricardo Silva Nascimento, de 39 anos, negro,\u00a0foi executado com pelo menos dois tiros\u00a0na altura do peito por um policial militar branco, de 24 anos. Ricardo tinha um peda\u00e7o de pau na m\u00e3o. O PM teria mandado que baixasse, e ele n\u00e3o baixou. Em vez de ser imobilizado, foi assassinado.\u00a0Este \u00e9 o cotidiano das periferias do Brasil, determinado pelo bra\u00e7o armado do Estado, com a coniv\u00eancia da popula\u00e7\u00e3o que naturalizou o genoc\u00eddio dos pobres e negros. Qual era a diferen\u00e7a?<\/p>\n<p>Ricardo foi assassinado pela PM no bairro de classe m\u00e9dia de Pinheiros, em S\u00e3o Paulo. Foi assassinado diante de moradores desacostumados com a barb\u00e1rie corriqueira nas favelas. Era gente que passeava com seu cachorro, que entrava no supermercado P\u00e3o de A\u00e7\u00facar, que chegava ou sa\u00eda de casa vinda do trabalho ou do consult\u00f3rio, ou indo para a yoga, a academia, encontrar um amigo. Era gente que n\u00e3o est\u00e1 acostumada a testemunhar uma execu\u00e7\u00e3o cometida por um agente p\u00fablico.<\/p>\n<p>Estas mesmas pessoas viram a PM enfiar Ricardo no porta-malas da viatura, contrariando a lei \u2013 e a viram \u201climpar\u201d a cena do crime, para impedir a investiga\u00e7\u00e3o. E ver, bem na sua frente, \u00e9 diferente de ler no jornal ou assistir na TV. Ou n\u00e3o ler ou n\u00e3o assistir, j\u00e1 que os assassinatos nas periferias rendem pouca not\u00edcia ou nenhuma.<\/p>\n<p>Ainda assim, j\u00e1 houve execu\u00e7\u00f5es de pobres e negros em bairros nobres das capitais brasileiras sem que houvesse movimento para al\u00e9m da como\u00e7\u00e3o espasm\u00f3dica de sempre. O que mais era diferente?<\/p>\n<p>Ricardo n\u00e3o era invis\u00edvel para aquelas pessoas. Ele trabalhava no bairro h\u00e1 anos recolhendo material recicl\u00e1vel em suas tr\u00eas carro\u00e7as. Era, para muitos ali, um vizinho que, em vez de morar num dos apartamentos, morava na rua. E era reconhecido por muitos como algu\u00e9m que fazia um trabalho de utilidade p\u00fablica, que \u00e9 o de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/04\/11\/album\/1460401281_776830.html#1460401281_776830_1460402623\">recolher o material que pode ser reaproveitado<\/a>, limpando as ruas e dando sua contribui\u00e7\u00e3o para retardar a corros\u00e3o do planeta.<\/p>\n<section id=\"sumario_12|apoyos\" class=\"sumario_apoyos derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\"><\/div>\n<\/section>\n<p>Como diz o artista Mundano, do\u00a0<a href=\"http:\/\/pimpmycarroca.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pimp My Carro\u00e7a<\/a>, movimento que luta para tirar os catadores da invisibilidade: \u201cPol\u00edcia Militar matando pobre e preto j\u00e1 virou paisagem. Mas o Ricardo tava l\u00e1 todo dia trabalhando, enchendo suas tr\u00eas carro\u00e7as pra l\u00e1 e pra c\u00e1. Ele podia ser invis\u00edvel pra muita gente, menos para seus vizinhos. Sendo assim, dessa vez a classe m\u00e9dia viu a pol\u00edcia matar um vizinho\u201d.<\/p>\n<p>Ricardo era Ricardo. Tinha nome e tinha hist\u00f3ria. Tinha la\u00e7os com o lugar e com as pessoas do lugar. \u00c9 com nome e com hist\u00f3ria e com la\u00e7os que se rompe a invisibilidade. Se para a PM ele era mat\u00e1vel, a categoria dos que se mata impunemente, uma categoria n\u00e3o oficial mas consolidada no Brasil, para os moradores de Pinheiros n\u00e3o. Ricardo era Ricardo.<\/p>\n<p>Algo transformador ent\u00e3o aconteceu.<\/p>\n<section id=\"sumario_9|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">Nada \u00e9 mais potente do que riscar um limite num pa\u00eds sem limites<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Primeiro eram coment\u00e1rios verbais, daqueles trancados no supermercado P\u00e3o de A\u00e7\u00facar, que fechou as portas, daqueles que estavam nas cal\u00e7adas. \u201cIsso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel! Isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel\u201d. Uma frase simples. Uma frase \u00f3bvia em qualquer lugar onde o pacto civilizat\u00f3rio n\u00e3o tivesse sido corrompido. De forma espont\u00e2nea, moradores de Pinheiros riscaram uma fronteira. E nada \u00e9 mais potente do que estabelecer um limite num pa\u00eds sem limites.<\/p>\n<p>No mesmo dia j\u00e1 come\u00e7aram as mensagens por WhattsApp e por email: \u201cSei \u2013 todos sabemos \u2013 que na periferia isso \u00e9 corriqueiro. Mas pra mim foi a gota d\u2019\u00e1gua. T\u00e1 na hora de dizer: BASTA! N\u00e3o se mata gente como se fosse formiga!!! N\u00e3o podemos mais ver tudo isso acontecer na nossa frente e ficarmos de bra\u00e7os cruzados\u201d.<\/p>\n<p>A primeira subvers\u00e3o aconteceu no dia seguinte. Diante do P\u00e3o de A\u00e7\u00facar, moradores de classe m\u00e9dia e moradores de rua, gente de profiss\u00f5es variadas e catadores de material recicl\u00e1vel, se misturaram para um protesto. Havia gente de classes sociais diferentes, havia brancos e pretos, havia carro\u00e7as.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/07\/24\/opinion\/1500906089_804382_1500911618_sumario_normal.jpg?resize=640%2C640&#038;ssl=1\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/07\/24\/opinion\/1500906089_804382_1500911618_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/07\/24\/opinion\/1500906089_804382_1500911618_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/07\/24\/opinion\/1500906089_804382_1500911618_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"A carro\u00e7a de Ricardo Nascimento foi enfeitada e colocada no local da execu\u00e7\u00e3o\" width=\"640\" height=\"640\" \/><\/p>\n<p><em><span class=\"foto-texto\">A carro\u00e7a de Ricardo Nascimento foi enfeitada e colocada no local da execu\u00e7\u00e3o<\/span><\/em><\/p>\n<p>A carro\u00e7a de Ricardo, pintada de branco e enfeitada com flores e fotos, foi colocada no lugar onde ele foi assassinado, como se costuma fazer com as bicicletas dos ciclistas atropelados e mortos no tr\u00e2nsito. Numa cidade em que motoristas xingam carroceiros por serem mais lentos nas ruas, \u00e9 tudo menos pouco uma carro\u00e7a com flores num bairro nobre.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso prestar bem aten\u00e7\u00e3o. No Brasil o espa\u00e7o p\u00fablico est\u00e1 interditado. De v\u00e1rias maneiras e n\u00e3o apenas pela falsa polariza\u00e7\u00e3o. Uma das quest\u00f5es cruciais do pa\u00eds \u00e9 como criar possibilidades de estar com o outro no espa\u00e7o p\u00fablico. Moradores de Pinheiros e moradores de rua consumaram essa alian\u00e7a in\u00e9dita. Talvez o relato mais revelador deste encontro \u2013 realmente um encontro \u2013 seja o de Amn\u00e9ris Maroni, antrop\u00f3loga, no Facebook:<\/p>\n<p><strong>\u201c<\/strong>Teve um detalhe no dia da passeata dos catadores no bairro de Pinheiros que eu esqueci de contar, mas que volta todo tempo \u00e0 minha mente: quando sub\u00edamos a rua Teodoro Sampaio, com um catador \u00e0 frente, gritando palavras de ordem, clamando por Justi\u00e7a, a cada cruzamento com o tr\u00e2nsito completamente parado, um dos catadores gritava: \u2018todos deitados no ch\u00e3o\u2019 para impedir a passagem dos carros. Ele propunha isso como se todos os seres do planeta s\u00f3 dormissem no ch\u00e3o, no asfalto. Era para ele \u00f3bvio que dev\u00edamos \u2018deitar no ch\u00e3o\u2019! \u00c9ramos umas trezentas pessoas, nesse momento, numa estranha alian\u00e7a pol\u00edtica, talvez a primeira da hist\u00f3ria, entre homens muito sofridos, machucados pela vida, considerados pelas autoridades como dejetos, e a classe m\u00e9dia politizada de Pinheiros e Vila Madalena e&#8230; obedec\u00edamos ao comando do catador e deit\u00e1vamos no ch\u00e3o&#8230; O que insiste em voltar \u00e0 minha mente: frequento os movimentos sociais e as suas mais variadas manifesta\u00e7\u00f5es h\u00e1 d\u00e9cadas, mas eu n\u00e3o tenho, nunca tive familiaridade com o ch\u00e3o, com o cimento, com o asfalto, e eles, os catadores, t\u00eam uma familiaridade com a hostilidade da cidade, representada pelo asfalto, que me era completamente desconhecida. Estranha e prof\u00edcua alian\u00e7a pol\u00edtica ali se constelou e h\u00e1 de ganhar ainda mais for\u00e7a. Como \u00e9 a viol\u00eancia da cidade de S\u00e3o Paulo para um catador de papel\u00e3o: o que ele v\u00ea, como ele a cheira, o que ele ouve. Qual \u00e9 a geografia da cidade para eles? Qual a sua familiaridade com o ch\u00e3o de cimento e com o asfalto? Provavelmente vazam e furam o mapa oficial da cidade&#8230;\u201d.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/07\/24\/opinion\/1500906089_804382_1500911837_sumario_normal.jpg?resize=640%2C426&#038;ssl=1\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/07\/24\/opinion\/1500906089_804382_1500911837_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/07\/24\/opinion\/1500906089_804382_1500911837_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/07\/24\/opinion\/1500906089_804382_1500911837_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"Moradores de Pinheiros e catadores fizeram uma manifesta\u00e7\u00e3o contra o assassinato de Ricardo Nascimento no dia seguinte ao crime\" width=\"640\" height=\"426\" \/><\/p>\n<p><em><span class=\"foto-texto\">Moradores de Pinheiros e catadores fizeram uma manifesta\u00e7\u00e3o contra o assassinato de Ricardo Nascimento no dia seguinte ao crime<\/span><\/em><\/p>\n<p>Na quarta-feira, 19 de julho, aconteceu algo ainda mais simb\u00f3lico, algo que produziu um marco hist\u00f3rico ao ligar dois momentos-limite do Brasil: uma missa na Catedral da S\u00e9, em S\u00e3o Paulo. O homem que encarnava essa ponte era Aud\u00e1lio Dantas. Em 31 de outubro de 1975, ele era presidente do Sindicato dos Jornalistas de S\u00e3o Paulo e um dos articuladores do culto ecum\u00eanico que assinalava o s\u00e9timo dia da morte de Vladimir Herzog, assassinado pela ditadura civil-militar. O culto foi celebrado pelo arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns, pelo rabino Henry Sobel e pelo pastor presbiteriano Jaime Wright. Foi o maior ato de rep\u00fadio ao regime de opress\u00e3o, ao reunir oito mil pessoas diante da catedral. \u00c9 conhecido como \u201co dia em que a ditadura come\u00e7ou a cair\u201d.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/07\/24\/opinion\/1500906089_804382_1500912090_sumario_normal.jpg?resize=640%2C424&#038;ssl=1\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/07\/24\/opinion\/1500906089_804382_1500912090_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/07\/24\/opinion\/1500906089_804382_1500912090_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/07\/24\/opinion\/1500906089_804382_1500912090_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"Aud\u00e1lio Dantas discursa diante da Catedral da S\u00e9, relacionando as mortes de Vladimir Herzog e de Ricardo Nascimento\" width=\"640\" height=\"424\" \/><\/p>\n<p><em><span class=\"foto-texto\">Aud\u00e1lio Dantas discursa diante da Catedral da S\u00e9, relacionando as mortes de Vladimir Herzog e de Ricardo Nascimento<\/span><\/em><\/p>\n<p>Em 19 de julho de 2017, 42 anos depois, Aud\u00e1lio Dantas foi um dos articuladores da missa de s\u00e9timo dia de Ricardo Nascimento. Aos 85 anos, visivelmente emocionado, este homem que une dois momentos pol\u00edticos, discursou diante da catedral:<\/p>\n<p>\u201cNaquele momento este culto tinha dois sentidos: o primeiro de reverenciar a mem\u00f3ria do jornalista assassinado pela ditadura civil-militar, mas tinha tamb\u00e9m o sentido do despertar da consci\u00eancia nacional contra a viol\u00eancia da ditadura militar que prendia, torturava e assassinava. Naquele momento o protesto era principalmente daqueles que tinham seus parentes, seus amigos, seus irm\u00e3os v\u00edtimas da ditadura militar. Naquele momento come\u00e7ou a cair a ditadura militar gra\u00e7as \u00e0 participa\u00e7\u00e3o da sociedade unida contra a viol\u00eancia da ditadura. (&#8230;) N\u00f3s conseguimos superar aquele momento gra\u00e7as \u00e0 unidade do povo, foi um movimento de baixo pra cima. Superamos aquele momento, mas n\u00e3o superamos a indiferen\u00e7a da maioria da sociedade quando a viol\u00eancia se voltou para os pobres, para os negros, para os miser\u00e1veis das periferias das grandes cidades. Tenho dito sempre que \u00e9 preciso que isso aconte\u00e7a e acho que est\u00e1 acontecendo neste momento com os moradores de Pinheiros, um bairro t\u00edpico de classe m\u00e9dia, o que significa que estamos neste movimento retomando a consci\u00eancia de que \u00e9 preciso lutar contra a viol\u00eancia. Agrade\u00e7o a todos que atenderam a esse chamamento\u201d.<\/p>\n<p>A ideia da missa surgiu num dos tr\u00eas grupos de WhattsApp criados a partir da execu\u00e7\u00e3o de Ricardo. No total, os grupos re\u00fanem cerca de 60 pessoas, a maioria delas mulheres. Algu\u00e9m sugeriu: \u201c\u00c9 preciso fazer uma missa na catedral da S\u00e9, como a do Herzog\u201d. Porque era uma execu\u00e7\u00e3o \u2013 e porque os dois momentos pol\u00edticos do pa\u00eds guardam semelhan\u00e7as, como me explicou uma das participantes. Aud\u00e1lio Dantas foi ent\u00e3o procurado e de imediato tornou-se protagonista e articulador do ato. A missa foi celebrada pelo Padre J\u00falio Lancelotti, da Pastoral do Povo da Rua, um s\u00edmbolo da luta pelos mais pobres e mais desamparados que j\u00e1 sofreu v\u00e1rias amea\u00e7as e tentativas de desqualifica\u00e7\u00e3o pela sua atua\u00e7\u00e3o, e pelo bispo Devair Ara\u00fajo da Fonseca.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/07\/24\/opinion\/1500906089_804382_1500912262_sumario_normal.jpg?resize=640%2C431&#038;ssl=1\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/07\/24\/opinion\/1500906089_804382_1500912262_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/07\/24\/opinion\/1500906089_804382_1500912262_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/07\/24\/opinion\/1500906089_804382_1500912262_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"Missa na Catedral da S\u00e9, em S\u00e3o Paulo, em mem\u00f3ria do catador executado por um agente do Estado\" width=\"640\" height=\"431\" \/><\/p>\n<p><em><span class=\"foto-texto\">Missa na Catedral da S\u00e9, em S\u00e3o Paulo, em mem\u00f3ria do catador executado por um agente do Estado<\/span><\/em><\/p>\n<p>A catedral estava cheia, embora n\u00e3o lotada. O que \u00e9 muito e pouco ao mesmo tempo. \u00c9 muito, porque se tratava de um morador de rua, e, assim como na manifesta\u00e7\u00e3o, misturou-se a classe m\u00e9dia com o povo da rua nos bancos da igreja, numa composi\u00e7\u00e3o rara. E quantas vezes esse pa\u00eds viu a classe m\u00e9dia se mobilizar por um morador de rua? \u00c9 pouco, porque a execu\u00e7\u00e3o de um ser humano por um agente do Estado, se o pacto civilizat\u00f3rio vigorasse, deveria mobilizar uma multid\u00e3o capaz de ocupar a regi\u00e3o da S\u00e9 e uma rea\u00e7\u00e3o grande o suficiente para parar o pa\u00eds. Mas \u00e9 um corte no\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/05\/29\/opinion\/1496068623_644264.html\">cotidiano de exce\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0que o Brasil vive. E isso \u00e9 enorme.<\/p>\n<p>A ponte entre os dois momentos hist\u00f3ricos \u00e9 tamb\u00e9m um gesto de repara\u00e7\u00e3o.\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Vladimir_Herzog\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Vladimir Herzog<\/a>\u00a0era uma pessoa de classe m\u00e9dia. Parte significativa daqueles que se bateram contra a tortura, as pris\u00f5es e os assassinatos da ditadura, com o final do regime se esqueceram de que a tortura e as execu\u00e7\u00f5es continuaram, na democracia, a ser a pr\u00e1tica das for\u00e7as de seguran\u00e7a do Estado contra os mais pobres e principalmente os negros. Assim como a pol\u00edtica de encarceramento se acentuou.<\/p>\n<p>E aqueles que poderiam ter enfrentado essa realidade ao conquistar o poder pelo voto, como Fernando Henrique Cardoso, Luiz In\u00e1cio Lula da Silva e Dilma Rousseff, omitiram-se diante desta realidade \u2013 e, em alguns casos, at\u00e9 a aprofundaram. Fazer essa liga\u00e7\u00e3o e dar \u00e0 morte de Ricardo Nascimento o mesmo tratamento dado \u00e0 morte de Vladimir Herzog \u00e9 um reconhecimento de que a tortura e a execu\u00e7\u00e3o s\u00e3o inadmiss\u00edveis para todos \u2013 e n\u00e3o s\u00f3 para os de classe m\u00e9dia. Igualdade de tratamento, ainda que tardia.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/07\/24\/opinion\/1500906089_804382_1500912411_sumario_normal.jpg?resize=640%2C426&#038;ssl=1\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/07\/24\/opinion\/1500906089_804382_1500912411_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/07\/24\/opinion\/1500906089_804382_1500912411_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/07\/24\/opinion\/1500906089_804382_1500912411_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"Padre J\u00falio Lancelotti, da Pastoral do Povo de Rua, aben\u00e7oa a carro\u00e7a de Ricardo Nascimento\" width=\"640\" height=\"426\" \/><\/p>\n<p><em>Padre J\u00falio Lancelotti, da Pastoral do Povo de Rua, aben\u00e7oa a carro\u00e7a de Ricardo Nascimento<\/em><\/p>\n<p>Essa ponte entre os dois momentos hist\u00f3ricos mostra ainda o reconhecimento de uma diferen\u00e7a. Se l\u00e1 a institui\u00e7\u00e3o que representava a repress\u00e3o era o Ex\u00e9rcito, hoje, a institui\u00e7\u00e3o que representa a repress\u00e3o \u00e9 a Pol\u00edcia Militar. E este \u00e9 um dado fundamental para compreender o atual momento do pa\u00eds, assim como as semelhan\u00e7as e as diferen\u00e7as dos personagens e da alian\u00e7a conservadora que comanda o Brasil.<\/p>\n<p>Herzog foi assassinado no Doi-Codi, num pa\u00eds comandado por generais, com o apoio de parte significativa do empresariado nacional. Ricardo foi executado pela PM do governador Geraldo Alckmin, num pa\u00eds comandado por uma alian\u00e7a conservadora que inclui o PSDB, partido fundado por ex-exilados da ditadura, com a participa\u00e7\u00e3o significativa do empresariado nacional. Michel Temer (PMDB) ou Rodrigo Maia (DEM), seu sucessor, caso Temer n\u00e3o consiga barrar o processo de den\u00fancia no Congresso, s\u00e3o pe\u00f5es de um jogo muito mais intrincado.<\/p>\n<p>O mais significativo ato de pot\u00eancia num pa\u00eds interditado foi ignorado ou tratado como algo menor pela grande imprensa, num notici\u00e1rio dominado pela Lava Jato, pela condena\u00e7\u00e3o de Lula, pelo aumento da gasolina e pelas barganhas no Congresso. Sobre a missa na S\u00e9, muito pouco. Mas talvez nada seja mais importante hoje do que enxergar onde est\u00e1 o movimento. Ou onde est\u00e3o as pequenas rachaduras nos muros. \u00c9 assim que as transforma\u00e7\u00f5es profundas, as estruturais, come\u00e7am ou continuam. A pot\u00eancia hoje e j\u00e1 h\u00e1 algum tempo est\u00e1 em outros lugares e em outros atores.<\/p>\n<p>\u00c9 importante fazer a pergunta pelo avesso: e se os moradores de Pinheiros tivessem se omitido, como faz a maior parte da popula\u00e7\u00e3o mais rica e mais branca?<\/p>\n<p>Se os moradores de Pinheiros tivessem se omitido, algo invis\u00edvel e terr\u00edvel teria acontecido. Numa camada mais profunda, foi isso que algumas pessoas que entrevistei relataram. O que provocou o movimento foi tamb\u00e9m a percep\u00e7\u00e3o de que, caso ficassem caladas, estariam todas perdidas. Testemunhar a execu\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m que conheciam, em plena rua, no hor\u00e1rio de pico, sem nada fazer, porque era negro e porque era pobre, teria tornado imposs\u00edvel voltar a riscar qualquer limite. Estariam todas al\u00e9m de qualquer retorno, e com elas o pa\u00eds.<\/p>\n<p>O fato de que as periferias vivem um cotidiano de barb\u00e1rie, em grande parte promovido pelas for\u00e7as de seguran\u00e7a do Estado, e o fato de essa situa\u00e7\u00e3o ter sido naturalizada e aceita como rotina, cobra um pre\u00e7o que a maioria da classe m\u00e9dia n\u00e3o enxerga, mas tamb\u00e9m paga. Embora raramente com a vida, como acontece com os mais pobres. Essa realidade tem enorme impacto sobre a crise \u00e9tica atual e sobre a crise da democracia, no que\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/06\/26\/opinion\/1498488947_331660.html\">a crise da democracia no Brasil<\/a>tem de particular, mas \u00e9 muito menos levada em considera\u00e7\u00e3o do que deveria, j\u00e1 que prepondera a interpreta\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica num pa\u00eds cada vez mais carente de interpreta\u00e7\u00f5es criativas e criadoras.<\/p>\n<section id=\"sumario_10|html\" class=\"sumario_html derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">Se as execu\u00e7\u00f5es forem naturalizadas tamb\u00e9m nos bairros de classe m\u00e9dia, ningu\u00e9m mais est\u00e1 a salvo<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>O que os moradores de Pinheiros que se mobilizaram perceberam, alguns de forma consciente, outros inconscientemente, \u00e9 que quando a irrup\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia acontece num bairro nobre, diante de todos, um limite foi ultrapassado. E o fato de ter sido ultrapassado demonstra o risco que hoje se corre no Brasil. Se corre h\u00e1 muito, mas tem se acentuado de forma acelerada desde que\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/06\/12\/opinion\/1497277042_854155.html\">o voto foi desrespeitado<\/a>\u00a0com o impeachment sem base legal de Dilma Rousseff (PT). E se a execu\u00e7\u00e3o em plena rua, diante de todos, tamb\u00e9m nos bairros de classe m\u00e9dia for naturalizada, ningu\u00e9m mais est\u00e1 a salvo. At\u00e9 a mesmo a ilus\u00e3o de estar a salvo, t\u00e3o cara para a vida, torna-se fora de alcance. E tamb\u00e9m por isso os moradores riscaram o ch\u00e3o.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/07\/24\/opinion\/1500906089_804382_1500912510_sumario_normal.jpg?resize=640%2C403&#038;ssl=1\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/07\/24\/opinion\/1500906089_804382_1500912510_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/07\/24\/opinion\/1500906089_804382_1500912510_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/07\/24\/opinion\/1500906089_804382_1500912510_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"Manifestantes protestam contra a viol\u00eancia da PM diante da Catedral da S\u00e9\" width=\"640\" height=\"403\" \/><\/p>\n<p><em><span class=\"foto-texto\">Manifestantes protestam contra a viol\u00eancia da PM diante da Catedral da S\u00e9<\/span><\/em><\/p>\n<p>A missa na catedral da S\u00e9 era um momento decisivo, porque se ampliaria o movimento para fora do grupo de moradores de Pinheiros. A quantidade de pessoas sinalizaria o quanto os mais ricos e os mais brancos compartilhavam essa percep\u00e7\u00e3o e seriam capazes de se somar a um movimento para torn\u00e1-lo mais amplo. N\u00e3o todas as pessoas, obviamente, mas aquelas que em geral se importam ou pelo menos pressentem que precisam se importar, nem que seja porque a lama est\u00e1 chegando na sua porta.<\/p>\n<p>A catedral encheu. O que, de novo, \u00e9 muito e pouco ao mesmo tempo. Mas, numa cidade de milh\u00f5es, era poss\u00edvel desejar mais. Perguntei para v\u00e1rias pessoas que divulgaram a missa e n\u00e3o compareceram por que n\u00e3o foram. Com varia\u00e7\u00f5es, a resposta era: \u201cQueria muito, divulguei muito, mas tinha um compromisso\u201d. H\u00e1 nessa resposta algo importante sobre os brasileiros, mesmo os mobilizados pelos direitos humanos. A ideia de que n\u00e3o podem perder nada. S\u00f3 ganhar.<\/p>\n<p>Quando algu\u00e9m afirma que tinha um compromisso, portanto algo mais importante, est\u00e1 dizendo tamb\u00e9m que o outro estava l\u00e1 porque n\u00e3o tinha o que fazer. Acredito que a maioria das pessoas que compareceram \u00e0 missa tinham algo a fazer que deixaram de fazer porque entenderam que nada poderia ser mais importante do que estar ali. Ou seja. Perderam algo para ganhar outra coisa. \u00c9 assim que s\u00e3o as escolhas, afinal. \u00c0s vezes se perde bastante: uma reuni\u00e3o que estava marcada h\u00e1 muito e \u00e9 dif\u00edcil de remarcar, um trabalho que se deixa de fazer e portanto de receber, o chefe que n\u00e3o entendeu a aus\u00eancia e ent\u00e3o \u00e9 o emprego que se arrisca, retalia\u00e7\u00f5es de v\u00e1rios tipos. \u00c9 assim que a gente se recorta na vida, fazendo escolhas. Escolhas que custam.<\/p>\n<section id=\"sumario_11|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">N\u00e3o basta agir nas redes sociais, \u00e9 preciso botar o corpo na rua<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>N\u00e3o basta divulgar nas redes sociais. \u00c9 preciso presen\u00e7a, \u00e9 preciso botar o corpo na rua. O que mais leio no Facebook e no Twitter s\u00e3o declara\u00e7\u00f5es como essa: \u201cMe sinto impotente diante da realidade do pa\u00eds\u201d. A missa na S\u00e9 era um momento de pot\u00eancia, que poderia ser ainda mais significativo do que foi \u2013 e foi bastante \u2013 se os que se declaram impotentes tivessem somado seu corpo ao corpo de quem estava l\u00e1. Ouvi tamb\u00e9m: \u201cN\u00e3o pude ir, mas voc\u00ea me representa\u201d. Neste ato, cada um \u00e9 insubstitu\u00edvel, cada um \u00e9 um a mais. E o que se faz ali \u00e9 intransfer\u00edvel.<\/p>\n<p>Se, como escrevi alguns par\u00e1grafos atr\u00e1s, um dos desafios mais importantes do Brasil hoje \u00e9 criar possibilidades de estar com o outro no espa\u00e7o p\u00fablico, h\u00e1 um desafio que talvez seja ainda mais crucial: o quanto cada um est\u00e1 disposto a perder para estar com o outro. Porque ser\u00e1 preciso perder: de sossego a privil\u00e9gios de classe, de g\u00eanero, de ra\u00e7a.<\/p>\n<p>Assim como um grupo de moradores de Pinheiros fez uma escolha, quando o movimento se ampliou com a missa na catedral da S\u00e9, a escolha se ampliou para todos que vivem em S\u00e3o Paulo e cidades pr\u00f3ximas. A pergunta \u00e9: o que \u00e9 mais importante do que se manifestar contra a execu\u00e7\u00e3o de um ser humano por um agente do Estado consumada em plena rua na maior cidade do pa\u00eds?<\/p>\n<p>O que se perderia estando l\u00e1 \u00e9 circunst\u00e2ncia de cada um. O que se perde n\u00e3o estando l\u00e1 \u00e9 humanidade. Cada um com a sua balan\u00e7a.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/07\/24\/opinion\/1500906089_804382_1500912651_sumario_normal.jpg?resize=640%2C421&#038;ssl=1\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/07\/24\/opinion\/1500906089_804382_1500912651_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/07\/24\/opinion\/1500906089_804382_1500912651_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/07\/24\/opinion\/1500906089_804382_1500912651_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"O ato na S\u00e9 foi marcado pelo grito \" width=\"640\" height=\"421\" \/><\/p>\n<p><em><span class=\"foto-texto\">O ato na S\u00e9 foi marcado pelo grito &#8220;Tem que viver&#8221;<\/span><\/em><\/p>\n<p>A principal testemunha da execu\u00e7\u00e3o de Ricardo era Piau\u00ed, tamb\u00e9m morador de rua. Muitos viram o assassinato, mas muitos tiveram medo da pol\u00edcia e se calaram. Um morador relatou ter filmado tudo no celular e ter sido obrigado a apagar tudo pelos PMs. Piau\u00ed estava exposto. Ele nem sequer tinha a escolha de ser covarde, ainda que a covardia se justifique em parte, j\u00e1 que o risco de repres\u00e1lia policial num pa\u00eds em que a pol\u00edcia pode tudo \u00e9 grande \u2013 e se torna maior a cada dia. Piau\u00ed morreu na \u00faltima quinta-feira, 20 de julho, de um AVC. Antes, deixou seu\u00a0<a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/cotidiano\/2017\/07\/1903227-morador-de-rua-que-viu-carroceiro-ser-morto-por-pm-morrer-apos-sofrer-avc.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">testemunho em v\u00eddeo<\/a>.<\/p>\n<p>Aqui, o relato de Paula Sacchetta, moradora de Pinheiros e documentarista, publicado no Facebook:<\/p>\n<p>\u201cQuarta-feira passada, sa\u00ed de casa perto das 18h pra comprar massa na esquina pra jantar. Chegando perto do P\u00e3o de A\u00e7\u00facar da Mourato Coelho ouvi muitos, muitos gritos e muita gente acuada\/encurralada no muro do supermercado gritando \u2018assassinos!\u2019. Quando cheguei mais perto, vi um monte de carro de pol\u00edcia e eles colocando alguma coisa (eu n\u00e3o consegui ver o que era &#8211; uma pessoa!) no porta-malas de uma viatura. Vi a mesma viatura saindo r\u00e1pido, cantando pneu e outras tantas estacionadas ali. Cheguei perto dos policiais e perguntei o que tinha acontecido. Um deles me respondeu: \u2018uma abordagem com resist\u00eancia\u2019. Engoli seco, ouvindo os gritos de \u2018assassinos\u2019, pensei nos tantos \u2018autos de resist\u00eancia\u2019 usados pra justificar qualquer assassinato pela PM e em segundos cheguei \u00e0 conclus\u00e3o: eles estavam colocando um corpo j\u00e1 morto no porta-malas da viatura. Eles haviam matado algu\u00e9m. E se livraram rapidinho da cena do crime: levaram o corpo embora, sem esperar a per\u00edcia e sem chamar o SAMU. E ainda recolheram as c\u00e1psulas das balas no ch\u00e3o. Tudo direitinho, bem ao contr\u00e1rio do que manda o protocolo. V\u00e1rios moradores da regi\u00e3o assistiram \u00e0 cena. (&#8230;) Execu\u00e7\u00e3o mesmo. N\u00e3o tem outro nome, n\u00e3o tem resist\u00eancia. No ch\u00e3o da rua. Na frente de tanta gente. Ricardo ele chamava. E eu dava bom dia pra ele, boa tarde e boa noite. Cruzava com ele quase todo dia. Ele estacionava as tr\u00eas carro\u00e7as dele ali perto do col\u00e9gio Fern\u00e3o Dias e dormia por ali, na rua. Depois do primeiro tiro ele come\u00e7ou a gritar para um morador de rua que morava por ali tamb\u00e9m: \u2018Piau\u00ed, me ajuda, irm\u00e3o, me machucaram\u2019. O Piau\u00ed ouviu, todo mundo ouviu. O Piau\u00ed se aproximou, os policiais pediram pra ele colocar a m\u00e3o na sarjeta e pisaram nos dedos dele. Ele ficou a noite toda chorando de dor na m\u00e3o pela morte do \u2018irm\u00e3o\u2019. Ele ficava me falando: \u2018tem um cora\u00e7\u00e3ozinho batendo na minha m\u00e3o\u2019. Os dedos estavam roxos, inchados e latejando. Quando lateja, parece mesmo um cora\u00e7\u00e3ozinho. Eu conhecia o Piau\u00ed melhor do que o Ricardo. Eu tinha que atravessar a rua quando ele estava e eu passeava com meu cachorro. Nossos cachorros n\u00e3o se bicavam. Eu atravessava e dava um salve, um bom dia, um boa tarde, um boa noite. No dia seguinte, foi bonito de ver, que apesar da merda toda, conseguimos organizar do dia pra noite um ato em homenagem ao Ricardo. Com tanta gente, t\u00e3o cheio e forte. Bonito, t\u00e3o bonito que doeu. Nos organizamos, nos reunimos pessoalmente e em grupos de WhatsApp, muita gente se indignou e se mobilizou. Nesse mesmo dia, ainda pela manh\u00e3, levei o Piau\u00ed pro hospital. Os dedos dele estavam muito machucados mesmo e ele achava que tinha quebrado. Deixamos o Barbicha \u2013 cachorro dele e companheiro insepar\u00e1vel \u2013 na minha casa, porque ficamos com medo que fizessem algum mal pra ele, amarrado ali sozinho no muro do P\u00e3o de A\u00e7\u00facar. A Sherazade ia se orgulhar de mim: literalmente levei pra casa. Na noite anterior, a da morte do Ricardo, ele dizia que seria o pr\u00f3ximo, j\u00e1 que tinha visto tudo de perto. Na quinta-feira, no hospital, cada vez que chamavam seu nome, Gilvan Artur Leal, pra triagem, pra consulta com o ortopedista, pro raio-x, pra inje\u00e7\u00e3o, ele respondia, gritando: \u2018morreu\u2019. Ele sabia que, mesmo vivo, j\u00e1 tinha morrido um pouquinho. Ele tirou raio-x, e o m\u00e9dico disse que n\u00e3o tinha nenhum osso quebrado, mas que a \u2018porrada\u2019 tinha sido \u2018muito forte\u2019. Tomou inje\u00e7\u00e3o pra dor, pegou uma caixinha de anti-inflamat\u00f3rio, voltamos pra pegar o Barbicha que estava na minha casa, ele agradeceu e voltou pra rua. Eu voltei pra casa e ele, pra rua. Na noite da quarta ele n\u00e3o quis ir dormir num abrigo. Insistimos com medo que a pol\u00edcia fizesse algo com ele. Na quinta, depois do ato, ele que veio pedindo ajuda pra vaga no abrigo. Estava com medo de dormir na rua e que a pol\u00edcia fizesse algo com ele. Ele foi prum abrigo que aceitava cachorro, pra poder levar o Barbicha. No dia da missa de s\u00e9timo dia do Ricardo, a assistente social do abrigo achou melhor ele n\u00e3o ir. Disse que ele estava muito abalado, mas um pouco mais calmo. Ent\u00e3o que era melhor se preservar. Ontem ele acordou bem, s\u00f3 n\u00e3o foi \u00e0 missa porque acharam melhor n\u00e3o. Mas \u00e0 tarde come\u00e7ou a ter convuls\u00f5es e teve que ir pra Santa Casa. Hoje viram que as convuls\u00f5es tinham sido por causa de um AVC, causado por hipertens\u00e3o. E agora no fim do dia o Piau\u00ed morreu. O Piau\u00ed foi mais uma v\u00edtima da PM. Ele foi torturado na frente de um monte de gente, \u2018porrada forte\u2019, e estava sob amea\u00e7a, \u2018eu vou ser o pr\u00f3ximo\u2019. Com problemas de press\u00e3o, n\u00e3o aguentou. (&#8230;) Tudo isso que eu escrevo, morrendo de dor, \u00e9 pra dizer algumas coisas. Que o Ricardo foi executado. Que n\u00e3o \u00e9 despreparo, que a pol\u00edcia mata os mat\u00e1veis porque tem a certeza da impunidade. Preto, pobre, carroceiro, catador de material recicl\u00e1vel, morador de rua? Pode matar. Que o Piau\u00ed foi morto tamb\u00e9m pela PM. Ainda que indiretamente. Pra dizer que o Piau\u00ed e o Ricardo s\u00e3o mais mat\u00e1veis e tortur\u00e1veis, pra PM, do que um morador de Pinheiros branco. Pra dizer que, pra gente, Piau\u00ed e Ricardo eram gente. Que catador \u00e9 gente. Que morador de rua \u00e9 gente. E que a vida deles n\u00e3o vale menos que a de outros. Que eles t\u00eam que viver. (&#8230;) Escrevo tudo isso pra repetir e repetir a frase do Neruda: \u2018Se nada nos salva da morte, que ao menos o amor nos salve da vida\u2019. E ouso parafrasear o escritor e poeta, pra completar: \u2018Se nada nos salva da morte, da barb\u00e1rie e das trevas, que a solidariedade nos salve da vida\u2019. Nesses tempos, que nunca percamos a solidariedade e o sentimento de humanidade de vista. Obrigada a todas e todos que se mobilizaram e est\u00e3o se mobilizando para n\u00e3o deixar que as mortes do Ricardo e do Piau\u00ed sejam em v\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/07\/24\/opinion\/1500906089_804382_1500913176_sumario_normal.jpg?resize=360%2C496&#038;ssl=1\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/07\/24\/opinion\/1500906089_804382_1500913176_sumario_normal_recorte1.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/07\/24\/opinion\/1500906089_804382_1500912991_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/07\/24\/opinion\/1500906089_804382_1500913176_sumario_normal.jpg 360w\" alt=\"Aristides Santana, empregada dom\u00e9stica, com a foto do filho assassinado\" width=\"360\" height=\"496\" \/><\/p>\n<p><em><span class=\"foto-texto\">Aristides Santana, empregada dom\u00e9stica, com a foto do filho assassinado<\/span><\/em><\/p>\n<p>Os PMs envolvidos na execu\u00e7\u00e3o de Ricardo Nascimento foram afastados das ruas e est\u00e3o realizando \u201cservi\u00e7o administrativo\u201d. S\u00e3o curiosas essas declara\u00e7\u00f5es oficiais, colocando \u201cservi\u00e7o administrativo\u201d como provid\u00eancia e um tipo de puni\u00e7\u00e3o, que seguidamente \u00e9 toda puni\u00e7\u00e3o. Quantos brasileiros hoje desempregados n\u00e3o considerariam \u201cservi\u00e7o administrativo\u201d uma b\u00ean\u00e7\u00e3o e quantos brasileiros n\u00e3o ganham a vida honestamente fazendo \u201cservi\u00e7o administrativo\u201d?<\/p>\n<p>Os PMs que se deslocaram rapidamente ao local, em vez de proteger os colegas e limpar a cena do crime, deveriam ter feito a pris\u00e3o em flagrante. \u00c9 o que aconteceria com um cidad\u00e3o comum. Ainda que Ricardo estivesse com um pau na m\u00e3o, os PMs deveriam estar preparados para imobiliz\u00e1-lo. Por que atirar? Perguntas que precisam ser respondidas pelo inqu\u00e9rito.<\/p>\n<p>Os PMs, respons\u00e1veis por uma em cada tr\u00eas mortes violentas ocorridas na cidade de S\u00e3o Paulo, como mostra\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/07\/21\/politica\/1500662148_452392.html\">a mat\u00e9ria do rep\u00f3rter\u00a0<strong>Gil Alessi<\/strong><\/a>, aqui no EL PA\u00cdS, ficam impunes, como t\u00e3o bem exemplificou o massacre do Carandiru. Nos \u00faltimos 10 anos, mais de 5 mil pessoas foram assassinadas pela PM no estado. \u00c9 tempo de os policiais militares respons\u00e1veis, competentes e honestos, porque eles tamb\u00e9m existem, se posicionarem. \u00c9 a PM como institui\u00e7\u00e3o o problema, com sua estrutura, sua ideologia e seus valores incompat\u00edveis com a democracia. Mas ela \u00e9 composta por pessoas que, al\u00e9m de agentes do Estado, tamb\u00e9m s\u00e3o cidad\u00e3os, com direitos e deveres.<\/p>\n<p>Piau\u00ed foi enterrado no cemit\u00e9rio da Vila Alpina, depois de uma vaquinha que em meia-hora juntou 2.600 reais, quando o que precisava era 1.400. Ricardo foi sepultado no cemit\u00e9rio de Perus, o mesmo onde mais de mil corpos de presos pol\u00edticos, v\u00edtimas de esquadr\u00f5es de exterm\u00ednio e indigentes foram jogados numa vala comum durante a ditadura.<\/p>\n<p>Ricardo, presente. Piau\u00ed, presente. E voc\u00ea?<\/p>\n<p>https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/07\/24\/opinion\/1500906089_804382.html?id_externo_rsoc=whatsapp<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ELIANE BRUM &#8211; A rea\u00e7\u00e3o diante do assassinato do carroceiro risca um limite no pa\u00eds sem limites No Brasil em que um\u00a0denunciado por corrup\u00e7\u00e3o segue ocupando a presid\u00eancia\u00a0e, para se manter no poder, rifa a Constitui\u00e7\u00e3o e compra deputados com o dinheiro p\u00fablico que falta para o essencial; no Brasil em que a pauta n\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4647,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[8],"tags":[51,21,22],"class_list":["post-4646","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sociedade","tag-preconceito","tag-tucanistao","tag-violencia"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>E se a classe m\u00e9dia de Pinheiros tivesse se omitido? 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