{"id":4643,"date":"2017-07-31T12:08:15","date_gmt":"2017-07-31T15:08:15","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=4643"},"modified":"2017-07-28T12:16:27","modified_gmt":"2017-07-28T15:16:27","slug":"nosso-patrimonio-genetico-agricola-esta-sendo-sequestrado-deveria-ser-tema-de-seguranca-nacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/07\/31\/nosso-patrimonio-genetico-agricola-esta-sendo-sequestrado-deveria-ser-tema-de-seguranca-nacional\/","title":{"rendered":"\u201cNosso patrim\u00f4nio gen\u00e9tico agr\u00edcola est\u00e1 sendo sequestrado. Deveria ser tema de seguran\u00e7a nacional\u201d"},"content":{"rendered":"<p><strong>Marco Weissheimer &#8211;\u00a0<\/strong>\u201cO patrim\u00f4nio gen\u00e9tico agr\u00edcola brasileiro deveria ser tratado como um tema de seguran\u00e7a nacional. No entanto, o que estamos vendo \u00e9 esse patrim\u00f4nio est\u00e1 sendo seq\u00fcestrado das comunidades e armazenado em bancos de germoplasma para ser utilizado por transnacionais. A eros\u00e3o gen\u00e9tica no Brasil j\u00e1 \u00e9 muito grande.\u201d A advert\u00eancia \u00e9 de Jos\u00e9 Maria Tardin, integrante do Conselho Gestor e educador na Escola Latinoamericana de Agroecologia (ELAA), localizada no assentamento Contestado, no Paran\u00e1. Tardin atua na forma\u00e7\u00e3o em agroecologia nas escolas t\u00e9cnicas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e em cursos de especializa\u00e7\u00e3o em agroecologia organizados pelo MST em parceria com universidades e institutos de pesquisa no Brasil e em v\u00e1rios pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<blockquote><p>\nJos\u00e9 Maria Tardin: \u201cPatrim\u00f4nio gen\u00e9tico agr\u00edcola est\u00e1\u00a0sendo seq\u00fcestrado das comunidades e armazenado em bancos de germoplasma para ser utilizado por transnacionais\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Tardin esteve em Porto Alegre participando de um debate organizado pela Associa\u00e7\u00e3o Ga\u00facha de Prote\u00e7\u00e3o ao Ambiente Natural (Agapan) sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a agroecologia e os saberes de comunidades tradicionais. Al\u00e9m disso, participou de um semin\u00e1rio organizado pelo setor de educa\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Paran\u00e1, Santa Catarina e Rio Grande do Sul que discutiu a introdu\u00e7\u00e3o da agroecologia nas escolas infantis e de ensino fundamental do MST em n\u00edvel nacional. \u201cSer\u00e3o milhares de crian\u00e7as que, nos pr\u00f3ximos anos, estudar\u00e3o agroecologia sistematicamente. Estamos dando um passo que representa uma das maiores alegrias da minha vida\u201d, diz Tardin.<\/p>\n<p>Filho de agricultores e trabalhando h\u00e1 d\u00e9cadas com o tema da agroecologia, Tardin fala, em entrevista ao<strong>Sul21<\/strong>, sobre as ra\u00edzes tradicionais desse tipo de agricultura no Brasil, destaca a decis\u00e3o do MST de definir a agroecologia como uma agenda estrat\u00e9gica para o movimento e aponta os preconceitos e amea\u00e7as que pairam sobre a agricultura camponesa no Brasil, na Am\u00e9rica Latina e em todo o mundo. A eros\u00e3o gen\u00e9tica e a perda de saberes tradicionais s\u00e3o algumas delas.<\/p>\n<p><strong>Sul21: Como nasceu seu envolvimento com a agroecologia e, mais especificamente, com o ensino da agroecologia em escolas t\u00e9cnicas em diversos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Maria Tardin:<\/strong>\u00a0Nasci no interior de S\u00e3o Paulo, filho de uma fam\u00edlia camponesa que migrou das montanhas do Rio de Janeiro e se instalou em Martin\u00f3polis, regi\u00e3o oeste do Estado. Meus pais chegaram nesta regi\u00e3o como sem terra, conseguiram se estabelecer, mas depois perderam a terra no processo da Revolu\u00e7\u00e3o Verde. Eu e um irm\u00e3o fomos os \u00fanicos que seguiram na agricultura. Meus outros irm\u00e3os foram para outras \u00e1reas profissionais. Acabei indo para o Paran\u00e1 onde morei por 34 anos, trabalhando como t\u00e9cnico. Em 2005, me engajei organicamente no Movimento Sem Terra, com a responsabilidade de atuar com as equipes que estavam dando in\u00edcio \u00e0 cria\u00e7\u00e3o da rede de escolas t\u00e9cnicas de agroecologia do MST e da Via Campesina. Desde a\u00ed, estou envolvido nesta \u00e1rea de milit\u00e2ncia em toda a Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-382250\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/20170623-jornal-sul21-gs-190617-1452-07.jpg?resize=640%2C427&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 900px) 100vw, 900px\" srcset=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/20170623-jornal-sul21-gs-190617-1452-07.jpg 900w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/20170623-jornal-sul21-gs-190617-1452-07-200x133.jpg 200w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/20170623-jornal-sul21-gs-190617-1452-07-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/20170623-jornal-sul21-gs-190617-1452-07-768x512.jpg 768w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"427\" \/><br \/>\n<em>\u201cO primeiro campesinato que vai constituir o MST vem de uma tradi\u00e7\u00e3o que chamamos de agricultura tradicional\u201d<\/em><\/p>\n<p><strong>Sul21: Nos \u00faltimos anos, o arroz org\u00e2nico se tornou um carro-chefe da produ\u00e7\u00e3o dos assentamentos do MST no Rio Grande do Sul. Qual a dimens\u00e3o hoje do trabalho com a agroecologia promovido pelo MST, pela Via Campesina e por outras organiza\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0 agricultura familiar?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Maria Tardin<\/strong>: A agroecologia aparece de distintas maneiras no trabalho do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Se olharmos para a origem do MST, o primeiro campesinato que vai constituir o movimento vem de uma tradi\u00e7\u00e3o que chamamos de agricultura tradicional. \u00c9 um campesinato meeiro, sem terra, agregado, mas que vinha com uma larga experi\u00eancia de uma agricultura de base ecol\u00f3gica bastante estabelecida. Parte deles, dependendo da situa\u00e7\u00e3o, j\u00e1 adotava algumas pr\u00e1ticas da agricultura industrial, sobretudo o uso de fertilizantes e de sementes certificadas. Essas fam\u00edlias, na medida que foram se estabelecendo, passaram a reproduzir essa agricultura tradicional, preservando um patrim\u00f4nio de conhecimento e tamb\u00e9m um patrim\u00f4nio gen\u00e9tico agr\u00edcola crioulo bastante diversificado. Isso ainda \u00e9 muito forte no Norte, Nordeste e partes do Centro-Oeste do Brasil.<\/p>\n<p>Outra vertente que far\u00e1 esse trabalho emergir no MST \u00e9 a influ\u00eancia de agr\u00f4nomos que tiveram uma forma\u00e7\u00e3o bastante sensibilizada pela organiza\u00e7\u00e3o interna dos estudantes da Feab (Federa\u00e7\u00e3o dos Estudantes de Agronomia) que tiveram um contato muito forte com agroec\u00f3logos pioneiros, sobretudo nos anos 80, que se articularam em um movimento chamado de agricultura alternativa. Esse movimento contestava a Revolu\u00e7\u00e3o Verde com muita compet\u00eancia t\u00e9cnica e cient\u00edfica e capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Muitos estudantes de agronomia foram atra\u00eddos a esse ide\u00e1rio de agricultura alternativa. Muitos deles, ao entrarem no Movimento Sem Terra, passaram a dinamizar, junto a essas fam\u00edlias que tinham uma forma\u00e7\u00e3o de agricultura tradicional, uma agricultura agroecol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Um exemplo disso aqui no Rio Grande do Sul \u00e9 a Bionatur, que alia o perfil de uma agricultura tradicional com o de agr\u00f4nomos militantes muito ativistas e entusiasmados com a ideia da agricultura org\u00e2nica. Em regi\u00f5es como o Nordeste brasileiro , onde o campesinato sertanejo tem uma forte base tradicional, esse conhecimento tradicional foi se mantendo numa escala que, mesmo dentro do Movimento Sem Terra, n\u00e3o se tem uma no\u00e7\u00e3o exata do tamanho. Isso ainda n\u00e3o foi mapeado, mas \u00e9 muito expressivo. Estou enfatizando muito o Nordeste porque \u00e9 onde se concentra 70% da base social do MST com experi\u00eancias bastante diversas.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-370543\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/20170325-20160318-jornal-sul21-jb-180316-4705-24.jpg?resize=640%2C427&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 900px) 100vw, 900px\" srcset=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/20170325-20160318-jornal-sul21-jb-180316-4705-24.jpg 900w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/20170325-20160318-jornal-sul21-jb-180316-4705-24-200x133.jpg 200w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/20170325-20160318-jornal-sul21-jb-180316-4705-24-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/20170325-20160318-jornal-sul21-jb-180316-4705-24-768x512.jpg 768w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"427\" \/><\/p>\n<p><em>Em 2000, MST definiu a agroecologia como um tema estrat\u00e9gico de sua agenda. Hoje j\u00e1 \u00e9 o maior produtor de arroz org\u00e2nico da Am\u00e9rica Latina<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 cerca de dois anos fui ao assentamento Macei\u00f3, no Cear\u00e1, que possui 16 quil\u00f4metros de praia. \u00c9 uma praia paradis\u00edaca, super-preservada, com dunas lindas. \u00c9 uma assentamento grande, com mais de 500 fam\u00edlias, que est\u00e1 sendo amea\u00e7ado por empresas de resort que querem tomar parte da \u00e1rea da praia para instalar hot\u00e9is de luxo. Outro setor empresarial que pressiona o assentamento \u00e9 o da energia e\u00f3lica. Eles precisam manter um acampamento permanente na praia para proteg\u00ea-la da invas\u00e3o empresarial. \u00c9 uma rotina de 24 horas por dia e 365 dias por ano. O MST, como ato pol\u00edtico para repercutir nacionalmente, criou l\u00e1 a regata dos Sem Terra no m\u00eas de julho, que re\u00fane milhares de pessoas.<\/p>\n<p>As fam\u00edlias vivem da agroecologia e da pesca com jangadas. \u00c9 uma agricultura tradicional. N\u00e3o s\u00e3o pessoas que passaram por um movimento agroecol\u00f3gico. \u00c9 a tradi\u00e7\u00e3o camponesa do sertanejo que ocupa a terra no litoral e realiza uma agricultura extremamente diversificada, em um padr\u00e3o muito pr\u00f3ximo do modelo agroflorestal, complementando essa atividade econ\u00f4mica com a pesca de jangada. \u00c9 um assentamento totalmente coletivizado, sem divis\u00e3o em lotes. Essa, ali\u00e1s, \u00e9 uma caracter\u00edstica muito forte no Cear\u00e1, tanto no litoral como no sert\u00e3o. As fam\u00edlias t\u00eam um processo de organiza\u00e7\u00e3o dos assentamentos muito coletivizado, o que \u00e9 muito mais desafiador em v\u00e1rios sentidos. Sempre desafiei os estudantes do MST do Cear\u00e1 a pesquisar esse fen\u00f4meno, mas ainda n\u00e3o foi feita nenhuma pesquisa a respeito. \u00c9 algo ainda a ser investigado.<\/p>\n<p>Outra vertente que vai influenciar o MST, do ponto de vista da agroecologia, \u00e9 a articula\u00e7\u00e3o nacional para al\u00e9m do campo, que produziu interfaces com ONGs ambientalistas, de agricultura org\u00e2nica, alem do pr\u00f3prio processo da Eco 92, no Rio de Janeiro, e do F\u00f3rum Alternativo dos Povos que ocorreu naquela ocasi\u00e3o. Vem da\u00ed tamb\u00e9m uma certa tens\u00e3o que se desenvolveu entre o MST e setores ambientalistas que acusavam o movimento de ser degradador da natureza. Tudo isso foi desafiando o movimento a ir se qualificando neste tema. Outro acontecimento importante, em 1993, foi a presen\u00e7a do MST como fundador da Via Campesina internacional. Isso lan\u00e7ou os militantes do movimento em um processo de interc\u00e2mbio internacional que nos permitiu conhecer comunidades camponesas de agricultura ecol\u00f3gica de dois, tr\u00eas mil anos de hist\u00f3ria, na Am\u00e9rica Latina, na \u00c1sia e, mais recentemente, na \u00c1frica. Essa efervesc\u00eancia internacional do campesinato trouxe para o MST uma gama diversificada de conhecimentos.<\/p>\n<p><strong>Sul21: Quando a agroecologia passou a integrar formalmente a agenda program\u00e1tica do movimento?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Maria Tardin<\/strong>: O quarto congresso nacional do MST, que ocorreu em Bras\u00edlia, em 2000, definiu a agroecologia como uma pol\u00edtica estrat\u00e9gica do movimento. O tema passou, a partir da\u00ed, integrar as diretrizes nacionais do movimento. A orienta\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica passou a se reorientar as fam\u00edlias para fazer essa passagem da agricultura convencional para a agroecol\u00f3gica. Uma das primeiras decis\u00f5es que o MST tomou para concretizar essa diretriz foi come\u00e7ar a formar t\u00e9cnicos. Esses t\u00e9cnicos n\u00e3o estavam dispon\u00edveis. Pelo contr\u00e1rio, eram raros. Assim, a forma\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnicos foi a prioridade das prioridades. Naquele momento, n\u00e3o existia no Brasil nenhum curso de forma\u00e7\u00e3o em agroecologia. O MST deu um passo de vanguarda e iniciou uma experi\u00eancia ainda embrion\u00e1ria, em 2001, para testar curr\u00edculo e m\u00e9todo pedag\u00f3gico. Em 2002, come\u00e7aram os primeiros cursos t\u00e9cnicos de agroecologia no Paran\u00e1. Em 2003, iniciaram os cursos tamb\u00e9m no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Esp\u00edrito Santo, surgindo um grupo de escolas de n\u00edvel m\u00e9dio para formar as primeiras turmas de t\u00e9cnicos em agroecologia.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-382247\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/20170623-jornal-sul21-gs-190617-1430-04-400x600.jpg?resize=300%2C450&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" srcset=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/20170623-jornal-sul21-gs-190617-1430-04-400x600.jpg 400w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/20170623-jornal-sul21-gs-190617-1430-04-100x150.jpg 100w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/20170623-jornal-sul21-gs-190617-1430-04.jpg 600w\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"450\" \/><\/p>\n<p><em>\u201cInterc\u00e2mbio internacional nos permitiu conhecer comunidades camponesas de agricultura ecol\u00f3gica de dois, tr\u00eas mil anos de hist\u00f3ria.\u201d<\/em><\/p>\n<p>O andar dessa experi\u00eancia gerou uma efervesc\u00eancia no movimento e logo depois se decidiu que era preciso partir logo para cursos de gradua\u00e7\u00e3o. Essa costura foi feita pela Via Campesina Latinoamericana. Em 2005, durante o F\u00f3rum Social Mundial, em Porto Alegre, foi assinado um termo de coopera\u00e7\u00e3o com representantes dos governos do Brasil e da Venezuela para, entre outras coisas, criar a Escola Latinoamericana de Agroecologia no Paran\u00e1 e do Instituto Latinoamericano de Agroecologia, na Venezuela. Assim, em apenas cinco anos, passamos de uma situa\u00e7\u00e3o onde n\u00e3o havia nenhuma escola de agroecologia no Brasil para a cria\u00e7\u00e3o da primeira escola de gradua\u00e7\u00e3o. Logo depois, criamos outra escola no Par\u00e1, no assentamento Zumbi dos Palmares. Impulsionada por essas experi\u00eancias, a Via Campesina criou o Iala Guarani, no Paraguai, o Iala Maria Cano, na Col\u00f4mbia e o das Mulheres Campesinas, no Chile. Queremos abrir tamb\u00e9m uma escola no Haiti, mas l\u00e1 a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 mais complicada.<\/p>\n<p>O ponto de partida de todo esse processo foi a escola cubana. Quem saiu na frente em educa\u00e7\u00e3o em agroecologia na Am\u00e9rica Latina foi o Estado cubano, logo depois da queda do Muro de Berlim e da crise que se seguiu em Cuba em fun\u00e7\u00e3o do colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e do leste europeu. O governo cubano deliberou que era preciso encontrar solu\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas para dar conta das demandas de alimenta\u00e7\u00e3o. Foi um processo interessante, pois Cuba tinha adotado totalmente a Revolu\u00e7\u00e3o Verde, com um modelo de agricultura industrial subsidiado pela Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p>Os pesquisadores foram para as \u00e1reas mais long\u00ednquas das montanhas para falar com os camponeses que mantiveram a agricultura tradicional e n\u00e3o entraram na Revolu\u00e7\u00e3o Verde. Esses camponeses tinham preservado todo um campo de conhecimento e material gen\u00e9tico agr\u00edcola, vegetal e animal. Com base neste conhecimento e com a qualidade cient\u00edfica dos pesquisadores cubanos, foi iniciado um programa enorme de pesquisa em agroecologia e de educa\u00e7\u00e3o em agroecologia. Antes de iniciar a nossa experi\u00eancia, alguns militantes nossos foram para Cuba para conhecer esse sistema de pesquisa e de educa\u00e7\u00e3o que j\u00e1 estava andando l\u00e1 desde 1994. A nossa experi\u00eancia piloto iniciou em 2001. Cuba criou um programa nacional em agroecologia e \u00e9 hoje a grande escola latinoamericana nesta \u00e1rea. Hoje, o pa\u00eds tem 100 mil fam\u00edlias camponesas fazendo agroecologia.<\/p>\n<p><strong>Sul21: Ainda hoje h\u00e1 um certo senso comum que associa a agricultura tradicional ao atraso. Voc\u00ea poderia dar alguns exemplos de como esse conhecimento tradicional tem atualidade para dar conta de problemas do presente?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Maria Tardin<\/strong>: O campo em geral, sobretudo na America Latina, sofre uma discrimina\u00e7\u00e3o enorme. \u00c9 muito dif\u00edcil para o campesinato e para os povos ind\u00edgenas se afirmarem como detentores de saberes importantes para a sociedade. H\u00e1 um poderoso hist\u00f3rico de nega\u00e7\u00e3o dessa sabedoria. Se conhecermos minimamente a hist\u00f3ria da agricultura, essa tese cai por terra. A sociedade s\u00f3 chegou a ser o que \u00e9 hoje porque, um dia, mulheres e homens no campo descobriram a germina\u00e7\u00e3o da semente, come\u00e7aram a domesticar animais e a desenvolver o que somos hoje. O desconhecimento desse processo hist\u00f3rico \u00e9 uma das raz\u00f5es pelas quais a popula\u00e7\u00e3o camponesa, ind\u00edgena, quilombola e ribeirinha n\u00e3o seja considerada como detentora de conhecimento. Esse \u00e9 um tra\u00e7o da ideologia dominante para desqualificar essas popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Hoje, em qualquer lugar do mundo, voc\u00ea vai encontrar essas popula\u00e7\u00f5es resistindo a toda essa press\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 ideol\u00f3gica, mas que se expressa de diferentes formas, mantendo seus conhecimentos e a agrobiodiversidade que \u00e9 a base da agricultura. Hoje, em n\u00edvel mundial, 70% da alimenta\u00e7\u00e3o da humanidade \u00e9 produto do trabalho campon\u00eas, da agricultura familiar. Essa n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma realidade brasileira.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-382246\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/20170623-jornal-sul21-gs-190617-1425-03-600x400.jpg?resize=400%2C267&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/20170623-jornal-sul21-gs-190617-1425-03-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/20170623-jornal-sul21-gs-190617-1425-03-200x133.jpg 200w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/20170623-jornal-sul21-gs-190617-1425-03-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/20170623-jornal-sul21-gs-190617-1425-03.jpg 900w\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" \/><\/p>\n<p><em>\u2018H\u00e1 um poderoso hist\u00f3rico de nega\u00e7\u00e3o dessa sabedoria camponesa tradicional.\u201d<\/em><br \/>\nEu comecei trabalhar no Paran\u00e1 em 1981 e tive uma experi\u00eancia que foi muito forte para mim. Em todo o centro-sul do Paran\u00e1 e em parte do norte de Santa Catarina, o campesinato gerou um sistema muito espec\u00edfico chamado de \u201cfaxinal\u201d, termo que pode ser traduzido como \u201cmata rala\u201d. Era um sistema autogestion\u00e1rio com um grande territ\u00f3rio em comum chamado de \u201ccriadouro\u201d, dentro do qual eram mantidos os animais. Essa \u00e1rea tamb\u00e9m tem um espa\u00e7o de floresta, caracterizando um sistema silvo-pastoril, com pastagem nativa e erva mate em grande quantidade. As fam\u00edlias moravam a\u00ed dentro, cada uma com um pequeno quintal para cultivar coisas do dia-a-dia. Os rebanhos, altamente diversificados, eram criados soltos dentro desse territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>A bibliografia que eu conhe\u00e7o, que pesquisou um pouco mais a fundo esse sistema, relata que ele tem suas origens no in\u00edcio do s\u00e9culo 19, em especial a partir da chegada de grandes levas de imigrantes. Uma pesquisadora do Paran\u00e1 relatou que os caboclos faziam pequenas ro\u00e7as a partir da abertura de clareiras na Mata Atl\u00e2ntica. Essa ro\u00e7a era cercada por causa da presen\u00e7a dos animais silvestres. Com a chegada dos imigrantes europeus em grande quantidade, esse sistema se inverteu. Eles aumentaram a \u00e1rea dos rebanhos e passaram a morar nesta mesma \u00e1rea, fazendo a agricultura para fora da cerca. Quando voc\u00ea anda por essa regi\u00e3o ver\u00e1 que os animais est\u00e3o nas partes mais planas, onde tem \u00e1gua, e a agricultura est\u00e1 na parte mais acidentada.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o desse sistema era muito grande e altamente diversificada. Quando cheguei l\u00e1, em 1981, era raro ver uma fam\u00edlia usar um fertilizante qu\u00edmico. A diversidade agr\u00edcola era enorme e o grau de soberania alimentar era pleno. Al\u00e9m disso, todas essas comunidades tinham alguma agroind\u00fastria de erva mate, farinha de mandioca ou de milho. As escolas tamb\u00e9m eram comunit\u00e1rias e, em um per\u00edodo mais antigo, eram bil\u00edng\u00fces, dependendo da presen\u00e7a de cada grupo, tinhas grupos de teatro e uma sociabilidade muito grande, com uma forte presen\u00e7a religiosa.<\/p>\n<p><strong>Sul21: O que houve com esse sistema?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Maria Tardin<\/strong>: Na d\u00e9cada de 80, a Revolu\u00e7\u00e3o Verde penetrou com for\u00e7a na regi\u00e3o e detonou quase tudo. Hoje, existe um movimento dos faxinalenses para tentar salvaguardar alguma coisa. Se voc\u00ea anda na regi\u00e3o hoje, as comunidades continuam se identificando como habitantes do faxinal, mas s\u00e3o pouqu\u00edssimas que mant\u00e9m os criadouros comunit\u00e1rios. Entraram muitos agricultores de fora que compraram terras e come\u00e7aram outros plantios como \u00e9 o caso da soja. Foi um processo com muito conflito. Participei de assembleias comunit\u00e1rias realizadas em um clima de rebeli\u00e3o. Mas a maioria do sistema desmoronou. Eu vi essas comunidades serem destru\u00eddas pela Revolu\u00e7\u00e3o Verde. Lamentavelmente, essa experi\u00eancia foi pouqu\u00edssimo estudada.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-382249\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/20170623-jornal-sul21-gs-190617-1444-06-600x400.jpg?resize=400%2C267&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/20170623-jornal-sul21-gs-190617-1444-06-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/20170623-jornal-sul21-gs-190617-1444-06-200x133.jpg 200w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/20170623-jornal-sul21-gs-190617-1444-06-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/20170623-jornal-sul21-gs-190617-1444-06.jpg 900w\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" \/><\/p>\n<p><em>\u201cNestes sistemas de agricultura camponesa, a produ\u00e7\u00e3o de alimentos \u00e9 fant\u00e1stica\u201d.<\/em><br \/>\nAlgo similar a isso ainda \u00e9 muito forte no Nordeste, onde h\u00e1 um sistema chamado de \u201cfundo de pasto\u201d. \u00c9 uma grande \u00e1rea de uso comunit\u00e1rio para os animais. As fam\u00edlias manejam os seus animais em um curral pr\u00f3prio e depois eles s\u00e3o soltos em uma vasta regi\u00e3o que eles chamam de fundo de pasto, alimentando-se de forragem nativa. Eles vivem na caatinga mesmo. Esses sistemas tradicionais nunca foram apoiados por pol\u00edticas p\u00fablicas. Foram sendo constru\u00eddos e sustentados pelas pr\u00f3prias fam\u00edlias, sem um anteparo de pol\u00edticas de Estado. O potencial agroecol\u00f3gico deles \u00e9 enorme e a sua produtividade muito alta. Eu duvido.<\/p>\n<p><strong>Sul21: O argumento da produtividade costuma ser utilizado contra essas formas de agricultura camponesa\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Maria Tardin<\/strong>: Sim. \u00c9 uma grande mentira. Nestes sistemas de agricultura camponesa, a produ\u00e7\u00e3o de alimentos \u00e9 fant\u00e1stica. \u00c9 uma farsa essa hist\u00f3ria que o nordestino sertanejo \u00e9 um lascado miser\u00e1vel que est\u00e1 sempre morrendo de fome. \u00c9 uma vers\u00e3o preconceituosa.<\/p>\n<p>Outro exemplo importante ocorre na Amaz\u00f4nia. As quebradeiras de c\u00f4co e de baba\u00e7u, depois de muita luta, conquistaram uma legisla\u00e7\u00e3o importante. O baba\u00e7u \u00e9 uma \u00e1rvore protegida por lei. Um latifundi\u00e1rio n\u00e3o pode derrubar os baba\u00e7uais e as mulheres t\u00eam o direito de entrar nas fazendas para colher o baba\u00e7u. Elas t\u00eam livre acesso a qualquer \u00e1rea onde tenha baba\u00e7u, n\u00e3o interessa se \u00e9 de um empres\u00e1rio de S\u00e3o Paulo ou de uma transnacional. Com isso, elas fazem um enorme trabalho de preserva\u00e7\u00e3o da floresta e dessa esp\u00e9cie em particular. \u00c9 um sistema extrativista 100% sustent\u00e1vel, envolvendo uma escala territorial gigantesca. S\u00e3o milhares de pessoas trabalhando nesta modalidade que eles mesmo geraram dentro da Amaz\u00f4nia, assim como tivemos tamb\u00e9m o caso fant\u00e1stico do movimento extrativista gerado pelos seringueiros, do qual Chico Mendes foi uma das principais lideran\u00e7as.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"640\" height=\"360\" frameborder=\"0\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/T0-INQW3It0?ecver=2\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>Um document\u00e1rio intitulado \u201cPara onde foram as andorinhas?\u201d mostra que onde o agroneg\u00f3cio est\u00e1 chegando na regi\u00e3o amaz\u00f4nica est\u00e1 gerando um impacto avassalador dentro dos territ\u00f3rios ind\u00edgenas. A deriva dos herbicidas come\u00e7a a afetar a vegeta\u00e7\u00e3o e as frutas. Mesmo sendo aplicado com trator, uma quantidade razo\u00e1vel de agrot\u00f3xico vai embora com o vento. No caso da pulveriza\u00e7\u00e3o a\u00e9rea nem se fala. A\u00ed \u00e9 crime total. \u00c9 guerra do Vietn\u00e3 mesmo. Esse document\u00e1rio mostra que, quando eles come\u00e7am a usar agrot\u00f3xico na soja, as nuvens de percevejo que atacam a soja v\u00e3o para dentro da floresta e atacam as frutas nativas e as cultivadas pelas comunidades ind\u00edgenas. O percevejo da soja \u00e9 transmissor de um v\u00edrus que detona a produ\u00e7\u00e3o de alimentos dos ind\u00edgenas. Bananais, cajueiros, jaqueiras, abacateiros e outras plantas come\u00e7am a morrer. Esse document\u00e1rio \u00e9 doloroso.<\/p>\n<p>O nosso patrim\u00f4nio gen\u00e9tico agr\u00edcola deveria ser tratado como um tema de seguran\u00e7a nacional. No entanto, o que estamos vendo \u00e9 esse patrim\u00f4nio est\u00e1 sendo sequestrado das comunidades e armazenado em bancos de germoplasma para ser utilizado por transnacionais. A eros\u00e3o gen\u00e9tica no Brasil j\u00e1 \u00e9 muito grande. O Brasil \u00e9 um centro de origem da mandioca, por exemplo. Muitas variedades e mesmo esp\u00e9cies est\u00e3o se perdendo. Essa perda \u00e9 di\u00e1ria. O livro \u201cS\u00e9culo 21: eros\u00e3o, transforma\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e concentra\u00e7\u00e3o do poder empresarial\u201d, de Pat Roy Mooney, mostra n\u00fameros da perda de biodiversidade em escala global. Antes dessa obra, ele lan\u00e7ou aqui em Porto Alegre outro livro, \u201cO esc\u00e2ndalo das sementes\u201d. Em seu trabalho, ele tamb\u00e9m pesquisa os genoc\u00eddios \u00e9tnicos e a eros\u00e3o das l\u00ednguas humanas. O s\u00e9culo 21, adverte, ser\u00e1 o s\u00e9culo do exterm\u00ednio das l\u00ednguas locais.<\/p>\n<p>https:\/\/www.sul21.com.br\/jornal\/nosso-patrimonio-genetico-agricola-esta-sendo-sequeestrado-deveria-ser-tema-de-seguranca-nacional\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marco Weissheimer &#8211;\u00a0\u201cO patrim\u00f4nio gen\u00e9tico agr\u00edcola brasileiro deveria ser tratado como um tema de seguran\u00e7a nacional. No entanto, o que estamos vendo \u00e9 esse patrim\u00f4nio est\u00e1 sendo seq\u00fcestrado das comunidades e armazenado em bancos de germoplasma para ser utilizado por transnacionais. 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