{"id":4601,"date":"2017-07-25T22:30:28","date_gmt":"2017-07-26T01:30:28","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=4601"},"modified":"2017-07-25T22:21:37","modified_gmt":"2017-07-26T01:21:37","slug":"a-exaustao-da-nova-republica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/07\/25\/a-exaustao-da-nova-republica\/","title":{"rendered":"A exaust\u00e3o da Nova Rep\u00fablica"},"content":{"rendered":"<p><strong>Pl\u00ednio de Arruda Sampaio Jr<\/strong> &#8211;\u00a0Para as classes subalternas, a defici\u00eancia da Nova Rep\u00fablica manifesta-se no car\u00e1ter imperme\u00e1vel do Estado brasileiro \u00e0s demandas democratizantes da popula\u00e7\u00e3o. A convic\u00e7\u00e3o de que \u201ctodos os pol\u00edticos s\u00e3o iguais\u201d decorre da constata\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica de que, no final das contas, os imperativos do capital sempre acabam prevalecendo. Para as classes dominantes, \u00e9 o oposto.<\/p>\n<p>A grave crise pol\u00edtica que polariza a luta de classes expressa a exaust\u00e3o da democracia de coopta\u00e7\u00e3o, cristalizada na transi\u00e7\u00e3o da ditadura militar para o Estado de direito. Enquanto o crescimento da economia alimentou a expectativa de melhoria social, as terr\u00edveis contradi\u00e7\u00f5es de uma sociedade cindida entre ricos e pobres foram ignoradas e empurradas para a frente. Como j\u00e1 ocorrera in\u00fameras vezes na hist\u00f3ria do Brasil, a esperan\u00e7a de dias melhores funcionava como um apaziguador da luta de classes. Entretanto, assim que a expans\u00e3o econ\u00f4mica cessou, vieram \u00e0 tona os gigantescos antagonismos de uma sociedade subdesenvolvida e dependente que n\u00e3o resolveu nenhum de seus problemas hist\u00f3ricos.<\/p>\n<p>As contradi\u00e7\u00f5es latentes na acanhada democracia da Nova Rep\u00fablica tornaram-se antagonismos abertos nas Jornadas de Junho de 2013. Frustrados com o mesquinho \u201cmelhorismo\u201d dos governos petistas, os jovens que tomaram as ruas cobraram dos governantes as promessas vazias da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988. Posta contra a parede por um estado de mal-estar social que corria o risco de fugir do controle e premida pela necessidade de dar uma resposta \u00e0 crise econ\u00f4mica, a burguesia assumiu plenamente e sem rodeios seu car\u00e1ter autocr\u00e1tico e antissocial e partiu para a ofensiva contra os trabalhadores.<\/p>\n<p>Para as classes subalternas, a defici\u00eancia da Nova Rep\u00fablica manifesta-se no car\u00e1ter imperme\u00e1vel do Estado brasileiro \u00e0s demandas democratizantes da popula\u00e7\u00e3o. A convic\u00e7\u00e3o de que \u201ctodos os pol\u00edticos s\u00e3o iguais\u201d decorre da constata\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica de que, no final das contas, os imperativos do capital sempre acabam prevalecendo. Para as classes dominantes, \u00e9 o oposto. A crise pol\u00edtica reflete a impossibilidade de conciliar as exig\u00eancias dos neg\u00f3cios \u2013 \u201cordem e progresso\u201d \u2013 com o respeito \u00e0s regras do jogo democr\u00e1tico. Os de cima enxergam as aspira\u00e7\u00f5es da classe trabalhadora como uma amea\u00e7a a seus privil\u00e9gios e assumem sem disfarce seu car\u00e1ter desp\u00f3tico. Os \u201crem\u00e9dios amargos\u201d para tirar o pa\u00eds da crise exigem o atropelo de direitos adquiridos e a tutela dos trabalhadores. O interesse popular \u00e9 assumido abertamente como um elemento esp\u00fario que deve ser desconsiderado pelos homens de Estado. A democracia n\u00e3o pode colocar em risco a subordina\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o de Estado \u00e0 raz\u00e3o dos grandes neg\u00f3cios que impulsionam a acumula\u00e7\u00e3o de capital.<\/p>\n<p>Assim como a crise da economia cafeeira em 1929 selou a sorte da Rep\u00fablica Velha, a crise terminal do processo de industrializa\u00e7\u00e3o por substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es, cuja p\u00e1 de cal foi o ciclo neodesenvolvimentista de Lula e Dilma, destruiu irremediavelmente a Nova Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>A resposta da burguesia \u00e0 crise da Nova Rep\u00fablica n\u00e3o pode ser dissociada da estrat\u00e9gia de reprimariza\u00e7\u00e3o da economia brasileira como resposta \u00e0 crise terminal do processo de industrializa\u00e7\u00e3o. A guerra aberta contra os trabalhadores para impor condi\u00e7\u00f5es ainda mais draconianas de explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho requer uma compress\u00e3o brutal do espa\u00e7o de manifesta\u00e7\u00e3o da vontade pol\u00edtica das classes subalternas. Assim como os direitos trabalhistas n\u00e3o cabem nos c\u00e1lculos de rentabilidade dos empres\u00e1rios e a pol\u00edtica social n\u00e3o cabe no regime de austeridade imposto pelas finan\u00e7as, o padr\u00e3o de domina\u00e7\u00e3o baseado na democracia de coopta\u00e7\u00e3o n\u00e3o cabe nos planos de ajuste econ\u00f4mico, que coloca no horizonte um padr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o caracter\u00edstico de economias de tipo colonial, baseado na produ\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>commodities<\/em>\u00a0para o mercado internacional.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o reacion\u00e1ria para a crise econ\u00f4mica \u00e9 simplesmente imposs\u00edvel sem a anomia pol\u00edtica da classe trabalhadora. Para evitar qualquer possibilidade de uma solu\u00e7\u00e3o que contemple os interesses do trabalho, submete-se a opini\u00e3o p\u00fablica \u00e0 lavagem cerebral de que os rem\u00e9dios amargos que comp\u00f5em as \u201creformas\u201d liberais constituem o \u00fanico meio de tirar o pa\u00eds do atoleiro. Como o protesto social poderia furar o cerco da ignor\u00e2ncia difundida pela grande m\u00eddia e dialogar diretamente com as massas, torna-se obrigat\u00f3rio criminalizar a luta social, estigmatizar a cr\u00edtica e cercear a atua\u00e7\u00e3o dos partidos de esquerda.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de agir diretamente sobre a consci\u00eancia da classe trabalhadora, o capital investe sistematicamente contra as migalhas democr\u00e1ticas existentes nos interst\u00edcios de uma estrutura de poder que, na realidade, h\u00e1 tempos j\u00e1 funciona como um verdadeiro Estado de Exce\u00e7\u00e3o. Na concep\u00e7\u00e3o de uma burguesia que n\u00e3o superou o esp\u00edrito arbitr\u00e1rio e autorit\u00e1rio do senhor de escravo, os direitos adquiridos dos trabalhadores n\u00e3o podem se sobrepor aos imperativos dos neg\u00f3cios. Uma vez que os ataques aos direitos trabalhistas e \u00e0s pol\u00edticas sociais jamais passariam pelo crivo do voto popular, torna-se necess\u00e1rio desmoralizar as institui\u00e7\u00f5es que expressam \u2013 mesmo que muito precariamente \u2013 a vontade do cidad\u00e3o.<\/p>\n<p>O ataque \u00e0 Nova Rep\u00fablica assumiu a forma de uma cruzada moralista contra a corrup\u00e7\u00e3o. As investiga\u00e7\u00f5es judiciais comprovaram o que todos sabiam. A corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 um elemento estrutural do padr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o do capitalismo brasileiro. As dela\u00e7\u00f5es dos altos executivos do capital s\u00e3o did\u00e1ticas. O capital \u00e9 o elo dominante da rela\u00e7\u00e3o criminosa. Os partidos s\u00e3o comprados pelos empres\u00e1rios. Os pol\u00edticos funcionam como despachantes de interesses privados nos aparelhos de Estado.<\/p>\n<p>A radiografia das rela\u00e7\u00f5es prom\u00edscuas da pol\u00edtica com o capital feita pelo poder judici\u00e1rio e sua espetaculariza\u00e7\u00e3o pelos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o trucidaram o sistema pol\u00edtico e todas as suas institui\u00e7\u00f5es. Paradoxalmente, as causas profundas da corrup\u00e7\u00e3o \u2013 a absoluta preponder\u00e2ncia dos imperativos dos neg\u00f3cios na vida nacional \u2013 em nenhum momento foram colocadas em quest\u00e3o. Muito pelo contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Os paladinos da moraliza\u00e7\u00e3o \u2013 Janot, Moro, Fachin \u2013 n\u00e3o v\u00e3o \u00e0 raiz do problema. O problema da corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 reduzido a uma quest\u00e3o moral de foro individual e fica circunscrito a casos espec\u00edficos. As investiga\u00e7\u00f5es s\u00e3o seletivas. O sistema financeiro \u00e9 blindado de qualquer investiga\u00e7\u00e3o, mesmo sendo evidente que \u00e9 imposs\u00edvel a lavagem de magnitudes amaz\u00f4nicas de dinheiro sujo sem sua cumplicidade. A ramifica\u00e7\u00e3o da rede criminosa no sistema judici\u00e1rio e na grande m\u00eddia \u00e9 negligenciada. O capital estrangeiro n\u00e3o \u00e9 sequer investigado. Os acordos de leni\u00eancia deixam as empresas livres para continuar saqueando os cofres p\u00fablicos e pilhando o pa\u00eds. No final, sob a apar\u00eancia de uma faxina geral, permanece tudo como dantes. A engrenagem do roubo n\u00e3o \u00e9 abalada. As rela\u00e7\u00f5es prom\u00edscuas entre o grande capital e o Estado permanecem inc\u00f3lumes. A opera\u00e7\u00e3o \u201cFora Todos\u201d apenas prepara o caminho para uma \u201cmoderniza\u00e7\u00e3o\u201d dos esquemas de intermedia\u00e7\u00e3o il\u00edcita dos interesses do capital nos aparelhos de Estado, adaptando-os \u00e0s exig\u00eancias do novo padr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os limites pouco republicanos da investida contra a corrup\u00e7\u00e3o revelam que o verdadeiro objetivo da opera\u00e7\u00e3o \u201cFora Todos\u201d n\u00e3o \u00e9 moralizar a vida p\u00fablica, mas aumentar ainda mais a submiss\u00e3o do Estado aos interesses dos grandes neg\u00f3cios. Ao se explicitar que por tr\u00e1s de cada representante do povo existe invariavelmente o patroc\u00ednio de uma grande empresa, avilta-se a rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a entre os eleitores e seus representantes. Desmoralizados perante seus constituintes, os pol\u00edticos perdem toda autonomia para mediar o conflito entre o interesse privado e o interesse p\u00fablico. Acuados pela ofensiva avassaladora da campanha midi\u00e1tica contra a pol\u00edtica, abra\u00e7am, sem qualquer contraponto, a agenda de desmonte das conquistas trabalhistas e democr\u00e1ticas que conferiam um patamar m\u00ednimo de civilidade \u00e0 sociedade brasileira.<\/p>\n<p>Ao assumir sem disfarce o conte\u00fado de classe do Estado, a burguesia afirma sua ditadura implac\u00e1vel sobre a sociedade. A banaliza\u00e7\u00e3o do debate p\u00fablico, a criminaliza\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais e a destrui\u00e7\u00e3o do sistema pol\u00edtico esvaziam a democracia de qualquer conte\u00fado popular. Hermeticamente fechado aos de baixo, o circuito pol\u00edtico apresenta-se como o que \u00e9: um condom\u00ednio exclusivo da plutocracia destitu\u00eddo de qualquer verniz democr\u00e1tico. A soberania popular fica ainda mais comprimida, deixando a sociedade a um fio da autocracia expl\u00edcita.<\/p>\n<p>A falta de uma alternativa imediata para substituir as estruturas carcomidas da Nova Rep\u00fablica n\u00e3o permite vislumbrar um r\u00e1pido desfecho para a crise pol\u00edtica. Mesmo que historicamente condenada, o mais prov\u00e1vel \u00e9 que sua agonia seja lenta, arrastando-se por tempo indefinido. Afinal, n\u00e3o se deve subestimar a capacidade de resist\u00eancia da coaliz\u00e3o que une pemedebistas, tucanos e petistas em torno do interesse comum em viabilizar a anistia da corrup\u00e7\u00e3o e evitar instabilidades pol\u00edticas que possam acirrar a luta de classes, nem tampouco seu compromisso estrat\u00e9gico com a ordem global e, em consequ\u00eancia, sua docilidade diante das imposi\u00e7\u00f5es do ajuste neoliberal. O estado de crise permanente que caracteriza a moribunda Nova Rep\u00fablica n\u00e3o deixa de ser, assim, altamente funcional ao capital.<\/p>\n<p>Sem coragem, criatividade e ousadia para proporem uma solu\u00e7\u00e3o alternativa para o grave impasse hist\u00f3rico que amea\u00e7a a sociedade brasileira, as classes subalternas ficam condenadas \u00e0 mis\u00e9ria do poss\u00edvel. Na economia, as alternativas oscilam entre o ajuste sem meta e o ajuste com meta dobrada, que dividem os partidos que comp\u00f5em a esquerda e a direita da ordem. Na pol\u00edtica, a op\u00e7\u00e3o fica restrita \u00e0 hipocrisia do \u201cFora Todos\u201d, que preserva a causa do problema \u2013 o controle do Estado pelo capital -, e o \u201cEstanca a Sangria\u201d, que perpetua o mar de lama da corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Amea\u00e7ada pela virul\u00eancia da ofensiva do capital contra o trabalho, a classe trabalhadora est\u00e1 obrigada a buscar novos caminhos para o enfrentamento da grave crise civilizat\u00f3ria que degrada sua exist\u00eancia. O primeiro desafio \u00e9 superar o bloqueio mental que alimenta o senso comum de que nenhuma pol\u00edtica econ\u00f4mica \u00e9 vi\u00e1vel se n\u00e3o contar com a aprova\u00e7\u00e3o do grande capital.<\/p>\n<p>A tarefa imediata \u00e9 pol\u00edtica: derrubar o governo usurpador de Temer e dar uma solu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, de baixo para cima, para a crise terminal da Nova Rep\u00fablica. \u201cDiretas J\u00e1\u201d e \u201cFora Todos\u201d, de baixo para cima, como ponto de partida, e \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica\u201d, como ponto de chegada, devem ser as refer\u00eancias fundamentais que norteiem a luta pol\u00edtica das for\u00e7as comprometidas com a constru\u00e7\u00e3o de uma agenda de combate \u00e0 barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>Sem uma substancial amplia\u00e7\u00e3o da democracia, \u00e9 imposs\u00edvel imaginar uma mudan\u00e7a radical nas prioridades que orientam a pol\u00edtica econ\u00f4mica. O essencial \u00e9 inverter o sentido das respostas que v\u00eam sendo dadas \u00e0 crise econ\u00f4mica. Ao inv\u00e9s de dar primazia aos neg\u00f3cios do capital internacional e \u00e0 moderniza\u00e7\u00e3o dos padr\u00f5es de consumo de uma ex\u00edgua parcela da popula\u00e7\u00e3o, a pol\u00edtica econ\u00f4mica deve colocar em primeiro plano as necessidades fundamentais do conjunto dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Submetida a um processo de revers\u00e3o neocolonial, a sociedade brasileira encontra-se numa encruzilhada decisiva. Sufocada pela ditadura militar em 1964, a revolu\u00e7\u00e3o brasileira volta \u00e0 ordem do dia como \u00fanico meio de superar os terr\u00edveis antagonismos de uma sociedade marcada pela segrega\u00e7\u00e3o social e pela depend\u00eancia externa. A sociedade brasileira est\u00e1 polarizada entre projetos irreconcili\u00e1veis \u2013 a reciclagem da contrarrevolu\u00e7\u00e3o burguesa cristalizada em 1964, que, hoje, tem a cara de uma regress\u00e3o ao patamar civilizat\u00f3rio do s\u00e9culo XIX, e a revolu\u00e7\u00e3o dos pobres e oprimidos latente nas placas tect\u00f4nicas que mobilizam a hist\u00f3ria do Brasil. Posta em perspectiva de longa dura\u00e7\u00e3o, a escolha real \u00e9 entre socialismo ou barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>http:\/\/diplomatique.org.br\/a-exaustao-da-nova-republica\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pl\u00ednio de Arruda Sampaio Jr &#8211;\u00a0Para as classes subalternas, a defici\u00eancia da Nova Rep\u00fablica manifesta-se no car\u00e1ter imperme\u00e1vel do Estado brasileiro \u00e0s demandas democratizantes da popula\u00e7\u00e3o. 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