{"id":4585,"date":"2017-07-25T11:35:28","date_gmt":"2017-07-25T14:35:28","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=4585"},"modified":"2017-07-25T11:30:11","modified_gmt":"2017-07-25T14:30:11","slug":"a-revolucao-na-finlandia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/07\/25\/a-revolucao-na-finlandia\/","title":{"rendered":"A Revolu\u00e7\u00e3o na Finl\u00e2ndia"},"content":{"rendered":"<p><strong>Eric Blanc<\/strong> &#8211; A esquecida Revolu\u00e7\u00e3o Finlandesa talvez tenha mais li\u00e7\u00f5es para n\u00f3s hoje do que os acontecimentos de 1917 na R\u00fassia.<\/p>\n<p>No \u00faltimo s\u00e9culo, hist\u00f3rias sobre a revolu\u00e7\u00e3o de 1917 geralmente focaram-se em Petrogrado e nos socialistas russos. Mas o Imp\u00e9rio Russo era predominantemente composto por n\u00e3o-russos \u2013 e os levantes na periferia imperial eram, frequentemente, t\u00e3o explosivos quanto os do centro.<\/p>\n<p>A queda do czarismo em fevereiro de 1917 desencadeou uma onda revolucion\u00e1ria que imediatamente engoliu toda a R\u00fassia. A Revolu\u00e7\u00e3o Finlandesa, que um estudioso definiu como \u201ca mais n\u00edtida guerra de classes na Europa do s\u00e9culo XX\u201d, talvez tenha sido a mais excepcional dessas insurg\u00eancias.<\/p>\n<p>A exce\u00e7\u00e3o finlandesa<br \/>\nOs finlandeses eram uma na\u00e7\u00e3o diferente de todas as outras que estavam sob o dom\u00ednio czarista. Pertencente \u00e0 Su\u00e9cia at\u00e9 1809, quando foi anexada pela R\u00fassia, a Finl\u00e2ndia tinha autonomia governamental, liberdade pol\u00edtica e, com o passar do tempo, at\u00e9 mesmo um parlamento pr\u00f3prio com elei\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas. Ainda que o czar tentasse limitar essa autonomia, a vida pol\u00edtica de Hels\u00ednquia lembrava mais Berlim do que Petrogrado.<\/p>\n<p>Numa \u00e9poca em que os socialistas de toda a R\u00fassia imperial eram obrigados a organizar-se em partidos clandestinos e eram perseguidos pela pol\u00edcia secreta, o Partido Social Democrata Finland\u00eas (Finnish Social Democratic Party &#8211; SDP) atuava de forma aberta e legal. Como a social-democracia alem\u00e3, de 1899 em diante, os finlandeses constru\u00edram um partido oper\u00e1rio massivo e uma densa cultura socialista, com os seus pr\u00f3prios audit\u00f3rios, grupos de mulheres trabalhadoras, coros e associa\u00e7\u00f5es desportivas.<\/p>\n<p>Politicamente, o movimento oper\u00e1rio finland\u00eas estava comprometido com uma estrat\u00e9gia de orienta\u00e7\u00e3o parlamentar, educando e organizando pacientemente os trabalhadores. Inicialmente a sua pol\u00edtica era moderada: falar de revolu\u00e7\u00e3o era raro e a colabora\u00e7\u00e3o com liberais era comum.<\/p>\n<p>Mas o SDP era singular entre os grandes partidos socialistas de massas da Europa, pois ele tornou-se mais militante nos anos anteriores \u00e0 Primeira Guerra Mundial. Se a Finl\u00e2ndia n\u00e3o fosse parte do imp\u00e9rio czarista, \u00e9 prov\u00e1vel que a social democracia finlandesa tivesse seguido um caminho moderado semelhante ao de outros partidos socialistas da Europa Ocidental, nos quais os radicais foram cada vez mais marginalizados pela integra\u00e7\u00e3o parlamentar e pela burocratiza\u00e7\u00e3o do partido.<\/p>\n<p>Contudo, a participa\u00e7\u00e3o da Finl\u00e2ndia na Revolu\u00e7\u00e3o de 1905 acabou por levar o partido mais para a esquerda. Durante a greve geral de novembro de 1905, um l\u00edder socialista finland\u00eas viu-se maravilhado com o levante:<\/p>\n<p>\u201cVivemos numa \u00e9poca maravilhosa\u2026 Povos que suportavam o fardo da escravid\u00e3o com conformismo e humildade de repente libertaram-se do seu jugo. Comunidades que at\u00e9 agora comiam casca de pinheiro, est\u00e3o a exigir p\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Na esteira da Revolu\u00e7\u00e3o de 1905, parlamentares socialistas moderados, dirigentes sindicais e funcion\u00e1rios tornaram-se minoria no PSD. Procurando implementar a orienta\u00e7\u00e3o formulada pelo te\u00f3rico marxista alem\u00e3o Karl Kautsky, a partir de 1906, a maioria do partido fundiu as suas t\u00e1ticas legalistas e o seu foco parlamentar com uma pol\u00edtica incisiva voltada para a luta de classes. \u201cO \u00f3dio de classe deve ser celebrado, ele \u00e9 uma virtude\u201d, dizia uma publica\u00e7\u00e3o do partido.<\/p>\n<p>O SDP anunciou que somente um movimento oper\u00e1rio independente poderia avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o aos interesses dos trabalhadores, defender e at\u00e9 mesmo expandir a autonomia finlandesa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 R\u00fassia, e ganhar assim total democracia pol\u00edtica. Uma revolu\u00e7\u00e3o socialista seria, com o tempo, a ordem do dia, mas at\u00e9 l\u00e1 o partido deveria fortalecer-se cautelosamente e evitar conflitos prematuros com a classe dominante.<\/p>\n<p>Essa estrat\u00e9gia de social democracia revolucion\u00e1ria \u2013 com a sua mensagem militante e com o seu m\u00e9todo sem pressa, mas sem pausa \u2013 teve um sucesso espetacular na Finl\u00e2ndia. Em 1907, mais de cem mil trabalhadores j\u00e1 se tinham filiado ao partido, tornando-o na maior organiza\u00e7\u00e3o per capita no mundo. Em julho de 1916, a social democracia finlandesa entrou para a Hist\u00f3ria ao tornar-se o primeiro partido socialista a conquistar uma maioria parlamentar. Contudo, devido aos anos recentes de \u201crussifica\u00e7\u00e3o\u201d, a maior parte do poder estatal na Finl\u00e2ndia estava sob controlo da administra\u00e7\u00e3o russa. Somente em 1917, o SDP enfrentou os desafios de manter uma maioria parlamentar socialista numa sociedade capitalista.<\/p>\n<p>Os primeiros meses<br \/>\nAs not\u00edcias da insurrei\u00e7\u00e3o de fevereiro na vizinha Petrogrado foram recebidas com surpresa na Finl\u00e2ndia. Mas assim que os rumores se confirmaram, os soldados russos que estavam estacionados em Hels\u00ednquia amotinaram-se contra os seus oficiais, como descrevia uma testemunha:<\/p>\n<p>\u201cPela manh\u00e3, soldados e marinheiros marcharam pelas ruas com bandeiras vermelhas, parte deles em desfiles cantando a Marselhesa, parte em grupos separados, distribuindo fitas e peda\u00e7os de pano vermelhos. Patrulhas de marinheiros de baixa patente armados vaguearam por toda a cidade desarmando todos os oficiais, que, ao menor sinal de resist\u00eancia ou recusa em aceitar o s\u00edmbolo vermelho, eram mortos e deixados ca\u00eddos no local\u201d.<\/p>\n<p>Os administradores russos foram expulsos, os soldados russos estacionados declararam a sua lealdade ao Soviete de Petrogrado e a for\u00e7a policial finlandesa foi destru\u00edda por baixo. O escritor conservador Henning S\u00f6derhjelm, ao comentar a revolu\u00e7\u00e3o em 1918 \u2013 uma express\u00e3o valios\u00edssima da vis\u00e3o das elites finlandesas \u2013, lamentava a perda do monop\u00f3lio estatal da viol\u00eancia:<\/p>\n<p>\u201cA destrui\u00e7\u00e3o total da pol\u00edcia era a pol\u00edtica expressa do SDP. A for\u00e7a policial, que tinha sido eliminada pelos soldados russos logo no in\u00edcio da revolu\u00e7\u00e3o, nunca mais voltou a existir. O &#8216;povo&#8217; n\u00e3o confiava nessa institui\u00e7\u00e3o e, no seu lugar, foram estabelecidas mil\u00edcias locais para a manuten\u00e7\u00e3o da ordem, compostas por homens que deviam pertencer ao Partido Trabalhista\u201d.<\/p>\n<p>O que deveria substituir a antiga administra\u00e7\u00e3o russa? Alguns radicais pressionaram por um Governo Vermelho, mas eles eram minoria. Como nas outras partes do Imp\u00e9rio, em mar\u00e7o a Finl\u00e2ndia foi tomada por um apelo \u00e0 \u201cunidade nacional\u201d. Esperando alcan\u00e7ar ampla autonomia em rela\u00e7\u00e3o ao novo governo provis\u00f3rio da R\u00fassia, uma ala de dirigentes moderados do SDP rompeu com a antiga posi\u00e7\u00e3o do partido e uniu-se a um governo de coliga\u00e7\u00e3o com liberais finlandeses. Diversos radicais socialistas denunciaram a manobra como \u201ctrai\u00e7\u00e3o\u201d e flagrante viola\u00e7\u00e3o dos princ\u00edpios marxistas do SDP. Outros l\u00edderes importantes, no entanto, aceitaram a entrada no governo para evitar uma divis\u00e3o no partido.<\/p>\n<p>A lua de mel pol\u00edtica durou pouco. O novo governo de coliga\u00e7\u00e3o entrou rapidamente no fogo cruzado da luta de classes quando uma agita\u00e7\u00e3o sem precedentes irrompeu nos locais de trabalho, ruas e \u00e1reas rurais da Finl\u00e2ndia. Alguns socialistas finlandeses concentraram esfor\u00e7os na constru\u00e7\u00e3o de mil\u00edcias oper\u00e1rias armadas. Outros promoveram greves, milit\u00e2ncia sindical e ativismo nas f\u00e1bricas. S\u00f6derhjelm descreveu a din\u00e2mica:<\/p>\n<p>\u201cO proletariado deixou de implorar e rogar, agora reivindica e exige. Acredito que o oper\u00e1rio, especialmente o mais bruto, nunca se sentiu t\u00e3o empoderado como na Finl\u00e2ndia de 1917\u201d.<\/p>\n<p>Inicialmente, a elite finlandesa teve esperan\u00e7a que a entrada dos socialistas moderados no governo de coliga\u00e7\u00e3o obrigasse o SDP a abandonar a sua linha de luta de classe. S\u00f6derhjelm lamentou que essa esperan\u00e7a tenha sido frustrada:<\/p>\n<p>\u201cO dom\u00ednio da turba desenvolveu-se com rapidez inesperada. (\u2026) A culpa, acima de tudo, \u00e9 da t\u00e1tica do Partido Trabalhista. (\u2026) Ainda que o Partido Trabalhista tenha observado uma certa dignidade na sua conduta mais oficial, continuou a sua pol\u00edtica de agita\u00e7\u00e3o contra a burguesia com um zelo incans\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p>Enquanto os socialistas moderados do novo governo, assim como os seus aliados trabalhistas, procuravam arrefecer a insurg\u00eancia popular, a extrema esquerda do partido reivindicava sistematicamente que rompessem com a burguesia. Oscilando entre os dois p\u00f3los socialistas, existia uma corrente amorfa ao centro que garantia um apoio limitado \u00e0 nova administra\u00e7\u00e3o. E apesar de a maior parte dos dirigentes do SDP continuarem a priorizar a arena parlamentar, a maioria do partido apoiava \u2013 ou pelo menos acatava \u2013 a onda que vinha de baixo.<\/p>\n<p>Diante da inesperada vaga de resist\u00eancia, a burguesia finlandesa foi se tornando cada vez mais beligerante e intransigente. O historiador Maurice Carrez observa que a elite finlandesa nunca se resignou a \u201ccompartilhar o poder com uma forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica vista por ela como o diabo encarnado\u201d.<\/p>\n<p>A polariza\u00e7\u00e3o de classe<br \/>\nA implos\u00e3o do governo de coliga\u00e7\u00e3o finland\u00eas come\u00e7ou no ver\u00e3o. Em agosto, o abastecimento de alimentos do imp\u00e9rio russo entrou em colapso e o espectro da fome apossou-se dos trabalhadores finlandeses. Protestos por comida eclodiram no in\u00edcio daquele m\u00eas e a organiza\u00e7\u00e3o do SDP de Hels\u00ednquia denunciou a recusa do governo em tomar medidas decisivas para lidar com a crise. \u201cAs massas de trabalhadores famintos logo perderam a confian\u00e7a no governo de coliga\u00e7\u00e3o\u201d, notou Otto Kuusinen, o principal te\u00f3rico de esquerda do SDP, que fundaria o movimento comunista finland\u00eas no ano seguinte.<\/p>\n<p>A intransig\u00eancia socialista na luta pela liberta\u00e7\u00e3o nacional intensificou ainda mais a polariza\u00e7\u00e3o de classe. Socialistas finlandeses lutavam arduamente para acabar com a interfer\u00eancia do governo russo nos assuntos internos da na\u00e7\u00e3o. Conquistando a independ\u00eancia, esperavam fazer uso da sua maioria parlamentar \u2013 e do controlo das mil\u00edcias oper\u00e1rias \u2013 para avan\u00e7ar rumo a um ambicioso programa de reformas sociais e pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Em julho, um l\u00edder socialista explicou que \u201cat\u00e9 agora fomos obrigados a lutar em duas frentes \u2013 contra a nossa pr\u00f3pria burguesia e contra o governo russo. Para que a nossa guerra de classes seja bem-sucedida, se quisermos unificar as nossas for\u00e7as numa frente s\u00f3, contra a nossa pr\u00f3pria burguesia, precisamos de independ\u00eancia, para a qual Finl\u00e2ndia j\u00e1 est\u00e1 pronta\u201d.<\/p>\n<p>Pelas suas pr\u00f3prias raz\u00f5es, os conservadores e liberais finlandeses tamb\u00e9m queriam fortalecer a autonomia nacional. Mas n\u00e3o estavam dispostos a recorrer a m\u00e9todos revolucion\u00e1rios para atingir esse objetivo &#8211; nem apoiavam, em geral, o esfor\u00e7o do SDP pela independ\u00eancia plena.<\/p>\n<p>O choque inevit\u00e1vel veio em julho. A maioria socialista no parlamento prop\u00f4s o hist\u00f3rico projeto de lei valtalaki (Lei do Poder), que proclamou unilateralmente a plena soberania finlandesa. Merecendo a intensa oposi\u00e7\u00e3o da minoria conservadora, o projeto foi aprovado a 18 de julho. O governo provis\u00f3rio russo, liderado por Alexander Kerensky, rejeitou de imediato a validade do valtalaki e amea\u00e7ou ocupar a Finl\u00e2ndia caso a sua decis\u00e3o n\u00e3o fosse respeitada.<\/p>\n<p>Quando os socialistas finlandeses se recusaram a recuar ou renunciar ao valtalaki, os liberais e conservadores aproveitaram o momento. Na esperan\u00e7a de isolar o SDP e reconquistar a maioria, apoiaram cinicamente e legitimaram a decis\u00e3o de Kerensky numa manobra para dissolver o parlamento democraticamente eleito. Novas elei\u00e7\u00f5es foram convocadas e partidos de direita ganharam uma ex\u00edgua maioria.<\/p>\n<p>A dissolu\u00e7\u00e3o do parlamento finland\u00eas marcou um ponto de inflex\u00e3o decisivo. At\u00e9 \u00e0quele momento, havia entre a classe trabalhadora e os seus representantes esperan\u00e7a de que o parlamento podia ser usado como um meio para a emancipa\u00e7\u00e3o social. Kuusinen explicou que<\/p>\n<p>\u201cA nossa burguesia n\u00e3o tinha um ex\u00e9rcito, n\u00e3o contava sequer com uma for\u00e7a policial. (\u2026) Por isso, parecia que t\u00ednhamos toda raz\u00e3o em nos mantermos na j\u00e1 vencido trajeto da legalidade parlamentar, na qual, aparentemente, a social democracia poderia conseguir uma vit\u00f3ria atr\u00e1s da outra\u201d.<\/p>\n<p>Mas para um n\u00famero crescente de trabalhadores e dirigentes do partido tornava-se evidente que o parlamento tinha perdido a sua utilidade.<\/p>\n<p>Os socialistas denunciaram o golpe antidemocr\u00e1tico e criticaram o conluio da burguesia com o Estado russo contra os direitos nacionais da Finl\u00e2ndia e as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas. De acordo com o SDP, a nova elei\u00e7\u00e3o parlamentar era ilegal, tendo sido vencida gra\u00e7as a fraudes eleitorais generalizadas. Em meados de agosto, o partido ordenou a ren\u00fancia de todos os seus membros do governo. N\u00e3o menos significativo \u00e9 o facto de os socialistas finlandeses terem-se aliado cada vez mais aos Bolcheviques, o \u00fanico partido russo a apoiar a sua luta pela independ\u00eancia. Todas as for\u00e7as do tabuleiro haviam lan\u00e7ado as suas fichas e a Finl\u00e2ndia, at\u00e9 ent\u00e3o pac\u00edfica, precipitava-se para uma explos\u00e3o revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>A luta pelo poder<br \/>\nEm outubro, a crise que assolava todo o imp\u00e9rio russo tinha chegado ao seu ponto de ebuli\u00e7\u00e3o. Trabalhadores finlandeses da cidade e do campo furiosamente exigiam que os seus l\u00edderes tomassem o poder. Choques violentos come\u00e7aram a borbulhar pela Finl\u00e2ndia. Ainda assim, muitas das lideran\u00e7as do SDP continuavam a acreditar que o momento revolucion\u00e1rio poderia esperar at\u00e9 que a classe trabalhadora estivesse melhor organizada e armada. Outros, por sua vez, temiam abandonar a arena parlamentar. Nas palavras do l\u00edder socialista Kullervo Manner, em fins de outubro:<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o podemos evitar a revolu\u00e7\u00e3o por muito tempo\u2026 a f\u00e9 no valor das a\u00e7\u00f5es pac\u00edficas est\u00e1 perdida e a classe trabalhadora come\u00e7a a confiar apenas na sua pr\u00f3pria for\u00e7a\u2026 se estivermos equivocados quanto \u00e0 r\u00e1pida aproxima\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o, eu ficaria muito contente\u201d.<\/p>\n<p>Depois de os Bolcheviques conquistarem o poder no fim de outubro, parecia que a Finl\u00e2ndia seria a pr\u00f3xima da fila. Privada do apoio militar do Governo Provis\u00f3rio russo, a elite finlandesa estava perigosamente isolada. A maioria dos soldados russos \u2013 eram dezenas de milhares estacionados na Finl\u00e2ndia \u2013 apoiavam os Bolcheviques e o seu apelo \u00e0 paz. \u201cA onda vitoriosa do bolchevismo dar\u00e1 combust\u00edvel para a engrenagem socialista, e eles seguramente ser\u00e3o capazes de coloc\u00e1-la em marcha\u201d, observava um liberal finland\u00eas.<\/p>\n<p>A base do SDP e os Bolcheviques em Petrogrado imploraram \u00e0s lideran\u00e7as socialistas que tomassem o poder imediatamente. Mas a dire\u00e7\u00e3o do partido prevaricou. Ningu\u00e9m podia ter certeza se o governo Bolchevique poderia durar mais do que alguns dias. Os socialistas moderados apegaram-se \u00e0 esperan\u00e7a de encontrar uma solu\u00e7\u00e3o parlamentar pac\u00edfica, enquanto alguns radicais defendiam que a tomada do poder era n\u00e3o apenas poss\u00edvel, mas tamb\u00e9m urgentemente necess\u00e1ria. A maioria dos dirigentes hesitavam entre as duas op\u00e7\u00f5es. Kuusinen recorda a indecis\u00e3o do partido nesse momento cr\u00edtico: \u201cN\u00f3s, social-democratas, \u2018unidos com base na luta de classes\u2019, oscilamos primeiro para um lado, depois para o outro, tendendo fortemente para a revolu\u00e7\u00e3o primeiro, mas s\u00f3 para depois recuar novamente no momento seguinte\u201d.<\/p>\n<p>Incapazes de chegar a um acordo quanto a um levante armado, o partido acabou por, em vez disso, convocar uma greve geral para 14 de novembro em defesa da democracia contra a burguesia, pelas necessidades econ\u00f3micas urgentes dos trabalhadores e pela soberania finlandesa. A resposta da base foi avassaladora \u2013 foi de facto muito al\u00e9m do esperado diante do cauteloso apelo \u00e0 greve.<\/p>\n<p>A Finl\u00e2ndia parou. Organiza\u00e7\u00f5es locais do SDP e a Guarda Vermelha tomaram o poder em diversas cidades, ocupando locais estrat\u00e9gicos e prendendo os pol\u00edticos burgueses.<\/p>\n<p>Parecia que esse padr\u00e3o insurrecional se repetiria brevemente em Hels\u00ednquia. Em 16 de novembro, o Conselho da Greve Geral votou pela tomada do poder. Mas quando sindicatos e dirigentes socialistas moderados criticaram a decis\u00e3o e renunciaram ao \u00f3rg\u00e3o, o Conselho voltou atr\u00e1s no mesmo dia. \u201cJ\u00e1 que uma minoria t\u00e3o expressiva est\u00e1 em desacordo, o Conselho n\u00e3o pode come\u00e7ar agora a tomar o poder para as m\u00e3os dos trabalhadores, mas continuar\u00e1 a pressionar ainda mais a burguesia\u201d. Logo em seguida a greve foi desmobilizada.<\/p>\n<p>O historiador finland\u00eas Hannu Soikkanen destaca que a greve de novembro foi uma enorme oportunidade perdida:<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 poucas d\u00favidas de que esse foi o melhor momento para as organiza\u00e7\u00f5es de trabalhadores tomarem o poder. A press\u00e3o das bases era enorme, e a vontade de lutar estava no auge (&#8230;) A greve geral convenceu a burguesia, com poucas exce\u00e7\u00f5es, do contundente perigo representado pelos socialistas. Usaram esse tempo at\u00e9 o in\u00edcio da guerra civil para se organizarem em torno de uma lideran\u00e7a firme\u201d.<\/p>\n<p>Apontando a hesita\u00e7\u00e3o do SDP em voltar-se para a a\u00e7\u00e3o de massas, Anthony Upton argumentou que \u201cos revolucion\u00e1rios finlandeses foram, em geral, os mais infelizes revolucion\u00e1rios da Hist\u00f3ria\u201d. Essa afirma\u00e7\u00e3o, contudo, faria sentido se a nossa hist\u00f3ria terminasse em novembro, mas os eventos seguintes mostram que o cora\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1rio da social democracia finlandesa prevaleceu.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a greve geral, os trabalhadores frustrados procuraram armas e voltarem-se para a a\u00e7\u00e3o direta. De forma semelhante, a burguesia preparou-se para a guerra civil, criando a sua mil\u00edcia chamada \u201cGuarda Branca\u201d e pedindo apoio militar ao governo alem\u00e3o.<\/p>\n<p>Apesar do acelerado colapso na coes\u00e3o social, muitos l\u00edderes socialistas continuaram com as infrut\u00edferas negocia\u00e7\u00f5es parlamentares. S\u00f3 que dessa vez a ala esquerda do SDP enrijeceu a sua posi\u00e7\u00e3o e declarou que n\u00e3o iria mais adiar a a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, pois isso s\u00f3 levaria ao desastre. Ap\u00f3s uma longa s\u00e9rie de batalhas internas em dezembro e janeiro de 1918, os radicais finalmente venceram a disputa interna.<\/p>\n<p>Em janeiro, as palavras revolucion\u00e1rias do SDP foram finalmente traduzidas em a\u00e7\u00f5es. Para sinalizar o in\u00edcio da insurrei\u00e7\u00e3o, os l\u00edderes partid\u00e1rios acenderam uma lanterna vermelha, na noite de 26 de janeiro, na torre do Sal\u00e3o dos Trabalhadores de Hels\u00ednquia. Nos dias seguintes, os social-democratas e as suas organiza\u00e7\u00f5es sindicais tomaram o poder facilmente nas grandes cidades da Finl\u00e2ndia \u2013 o norte rural, em contrapartida, permaneceu nas m\u00e3os da elite dominante.<\/p>\n<p>Os insurgentes da Finl\u00e2ndia lan\u00e7aram uma proclama\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica anunciando que a revolu\u00e7\u00e3o era necess\u00e1ria j\u00e1 que a burguesia finlandesa, em conluio com o imperialismo estrangeiro, tinha dado um \u201cgolpe\u201d contrarrevolucion\u00e1rio contra a democracia e contra as conquistas dos trabalhadores:<\/p>\n<p>\u201cA partir de agora, o poder revolucion\u00e1rio na Finl\u00e2ndia pertence \u00e0 classe trabalhadora e \u00e0s suas organiza\u00e7\u00f5es (\u2026) A revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria \u00e9 nobre e severa (\u2026) severa para os insolentes inimigos do povo, mas pronta para ajudar os oprimidos e marginalizados\u201d.<\/p>\n<p>Embora o rec\u00e9m-estabelecido Governo Vermelho tenha tentado inicialmente tra\u00e7ar uma rota pol\u00edtica relativamente cautelosa, a Finl\u00e2ndia rapidamente se afundou numa sangrenta guerra civil. A demora na tomada do poder custou caro \u00e0 classe trabalhadora finlandesa, porque grande parte das tropas russas j\u00e1 tinham regressado ao seu pa\u00eds em janeiro. A burguesia aproveitou os tr\u00eas meses desde a greve de novembro para organizar as suas tropas na Finl\u00e2ndia e na Alemanha. No total, vinte e sete mil revolucion\u00e1rios finlandeses foram mortos na guerra. E depois de a direita destruir a Rep\u00fablica Socialista Oper\u00e1ria Finlandesa em abril de 1918, mais oitenta mil trabalhadores e socialistas foram enviados para campos de concentra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 consenso entre os historiadores sobre um poss\u00edvel triunfo da revolu\u00e7\u00e3o finlandesa caso tivesse come\u00e7ado mais cedo e tomado uma postura mais ofensiva nos campos pol\u00edtico e militar. Alguns argumentam que o real fator decisivo foi a interven\u00e7\u00e3o militar imperialista da Alemanha em mar\u00e7o e abril de 1918. Kuusinen segue essa l\u00f3gica no seu balan\u00e7o:<\/p>\n<p>\u201cO imperialismo alem\u00e3o deu ouvidos aos lamentos dos nossos burgueses e ofereceu-se prontamente para engolir a rec\u00e9m-conquistada independ\u00eancia que, a pedido dos social-democratas finlandeses, tinha sido concedida pela Rep\u00fablica Sovi\u00e9tica da R\u00fassia. O sentimento nacional da burguesia n\u00e3o sofreu nenhum arranh\u00e3o nesse epis\u00f3dio; o jugo do imperialismo estrangeiro n\u00e3o lhe causava terror naquele momento em que parecia que a sua \u201cp\u00e1tria\u201d estava a ponto de se tornar a p\u00e1tria dos trabalhadores. A burguesia estava disposta a sacrificar um povo inteiro ao grande bandido alem\u00e3o, desde que pudesse manter para si a indigna fun\u00e7\u00e3o de capataz\u201d.<\/p>\n<p>As li\u00e7\u00f5es aprendidas<br \/>\nO que devemos aprender com a Revolu\u00e7\u00e3o Finlandesa? Obviamente, ela mostra-nos que a revolu\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria n\u00e3o foi apenas um fen\u00f3meno localizado no centro da R\u00fassia. Mesmo na Finl\u00e2ndia, parlamentar e pac\u00edfica, a classe trabalhadora progressivamente convenceu-se de que apenas um governo socialista poderia oferecer uma sa\u00edda para a crise social e opress\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>E nem os Bolcheviques foram o \u00fanico partido do imp\u00e9rio capaz de levar os trabalhadores ao poder. Em muitos aspetos, a experi\u00eancia do SDP finland\u00eas confirma a ideia tradicional da revolu\u00e7\u00e3o defendida por Karl Kautsky: mediante uma paciente educa\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o classista, os socialistas conquistaram maioria no parlamento, levando a direita a dissolver tal institui\u00e7\u00e3o, facto que acabou por gerar a revolu\u00e7\u00e3o conduzida pelos socialistas.<\/p>\n<p>A prefer\u00eancia do partido por uma estrat\u00e9gia parlamentar defensiva n\u00e3o o impediu, em \u00faltima inst\u00e2ncia, de acabar por derrubar o poder capitalista e avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o ao socialismo. Em contraste, a burocratizada social-democracia alem\u00e3 \u2013 que h\u00e1 muito abandonara a estrat\u00e9gia de Kautsky \u2013 sustentou ativamente o poder capitalista em 1918-19 e reprimiu violentamente aqueles que lutaram para derrub\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Contudo, a Revolu\u00e7\u00e3o Finlandesa mostra-nos n\u00e3o s\u00f3 os pontos fortes, mas tamb\u00e9m as potenciais limita\u00e7\u00f5es da social-democracia revolucion\u00e1ria: hesita\u00e7\u00e3o em abandonar a arena parlamentar, subestima\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o de massa e, por fim, uma tend\u00eancia a ceder aos socialistas moderados em nome da unidade do partido.<\/p>\n<p>http:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Cultura\/A-Revolucao-na-Finlandia\/39\/38407<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eric Blanc &#8211; A esquecida Revolu\u00e7\u00e3o Finlandesa talvez tenha mais li\u00e7\u00f5es para n\u00f3s hoje do que os acontecimentos de 1917 na R\u00fassia. 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