{"id":4558,"date":"2017-07-25T15:14:09","date_gmt":"2017-07-25T18:14:09","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=4558"},"modified":"2017-07-23T18:15:50","modified_gmt":"2017-07-23T21:15:50","slug":"por-que-e-que-a-revolucao-russa-importa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/07\/25\/por-que-e-que-a-revolucao-russa-importa\/","title":{"rendered":"Por que \u00e9 que a Revolu\u00e7\u00e3o Russa importa?"},"content":{"rendered":"<p><strong>China Mi\u00e9ville<\/strong> &#8211; H\u00e1 100 anos, a insurrei\u00e7\u00e3o bolchevique dirigida por L\u00e9nine derrubou s\u00e9culos de feudalismo na R\u00fassia. Mas o que \u00e9 que isto significa para o mundo de hoje?<\/p>\n<p>Mais do que qualquer outra coisa, a revolta socialista na R\u00fassia, em outubro de 1917, \u00e9 uma hist\u00f3ria extraordin\u00e1ria. O culminar de meses de grandes transforma\u00e7\u00f5es durante esse ano, iniciados em fevereiro ap\u00f3s o derrube popular do czar Nicolau II e do seu regime, \u00e9 um jogo intenso de intriga, viol\u00eancia, lealdade, trai\u00e7\u00e3o e coragem.<\/p>\n<p>Mas qual o sentido atual desses extraordin\u00e1rios eventos que tiveram lugar em tempos e mundos distantes? Ap\u00f3s 1989<a id=\"sdendnote1anc\" href=\"http:\/\/www.esquerda.net\/artigo\/por-que-e-que-revolucao-russa-importa\/49233#sdendnote1sym\" name=\"sdendnote1anc\"><sup>i<\/sup><\/a>\u00a0e a queda do estalinismo, a cultura\u00a0<i>mainstream<\/i>\u00a0colocou a Revolu\u00e7\u00e3o no t\u00famulo e celebrou o seu enterro \u2013 em concord\u00e2ncia com a afirma\u00e7\u00e3o falaciosa de que o derrube de regimes escler\u00f3ticos e desp\u00f3ticos representava a derrota da Revolu\u00e7\u00e3o. Estes eventos extraordin\u00e1rios s\u00e3o hoje apenas avisos amea\u00e7adores? Ou ser\u00e3o outra coisa? A Revolu\u00e7\u00e3o importa sequer?<\/p>\n<p>Importa. Porque as coisas j\u00e1 foram diferentes uma vez. Por que \u00e9 que n\u00e3o poderiam ser diferentes novamente? Embora tenha um enorme fasc\u00ednio e tenha sido muito inspirado pela Revolu\u00e7\u00e3o Russa, que celebra este ano o seu centen\u00e1rio, quando me perguntam por que \u00e9 que ela ainda importa, a minha primeira rea\u00e7\u00e3o \u00e9 uma hesita\u00e7\u00e3o. Um sil\u00eancio. Mas, tal como as palavras, uma chave para perceber a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro \u00e9 uma certa aus\u00eancia de palavras.<\/p>\n<p>Podemos saber no nosso \u00e2mago que ela importa, mas parece uma forma defensiva, arrogante e dogm\u00e1tica \u201cexplicar\u201d a \u201cimport\u00e2ncia\u201d da Revolu\u00e7\u00e3o: uma propens\u00e3o para \u201cexplicar\u201d tudo n\u00e3o \u00e9 um problema exclusivo da esquerda, mas \u00e9 particularmente exasperante quando vem de radicais comprometidos, pelo menos teoricamente, com a discuss\u00e3o da hist\u00f3ria contra a corrente, com a cria\u00e7\u00e3o de contra-narrativas, com o questionamento de opini\u00f5es recebidas, incluindo as suas pr\u00f3prias. (Um impacto ben\u00e9fico dos \u00faltimos acontecimentos pol\u00edticos invulgares \u2013 Corbyn, Sanders, Trump, as elei\u00e7\u00f5es presidenciais francesas, e com mais a surgir proximamente \u2013 tem sido a carnificina das certezas pol\u00edticas, a humilha\u00e7\u00e3o daqueles que tudo sabem).<\/p>\n<p>Na R\u00fassia, o estado de Putin sabe que a Revolu\u00e7\u00e3o importa, o que o coloca numa posi\u00e7\u00e3o estranha. Comprometido com o capitalismo (o capitalismo\u00a0<i>gangster<\/i>\u00a0n\u00e3o deixa de ser uma forma de capitalismo), dificilmente se poder\u00e1 reclamar como herdeiro de uma insurrei\u00e7\u00e3o contra esse sistema: ao mesmo tempo, a curiosa nostalgia simb\u00f3lica, oficial e semi-oficial, com a Grande R\u00fassia, incluindo a que remete para o estalinismo, impede que a Revolu\u00e7\u00e3o seja banida da mem\u00f3ria coletiva. Arrisca-se a ser, como o historiador Boris Kolonitsky aponta, &#8220;um passado bastante imprevis\u00edvel&#8221;.<\/p>\n<p>Numa viagem recente a S\u00e3o Petersburgo, perguntei a amigos russos como \u00e9 que o governo lidaria com esta contradi\u00e7\u00e3o, se a isso fosse obrigado. Recordaria o centen\u00e1rio com uma celebra\u00e7\u00e3o ou como uma maldi\u00e7\u00e3o? &#8220;Dir\u00e3o que houve uma luta &#8220;, foi-me dito, &#8220;e que, no final, a R\u00fassia venceu.&#8221;<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma das grandes trag\u00e9dias da Revolu\u00e7\u00e3o: a sua pertin\u00eancia \u00e9 afirmada enquanto a sua subst\u00e2ncia \u00e9 esvaziada. Uma vis\u00e3o da emancipa\u00e7\u00e3o global expressa como uma melodia num enorme ressoar chauvinista.<\/p>\n<p>Num certo sentido, \u00e9 indubit\u00e1vel que 1917 importa. Afinal, pertence \u00e0 hist\u00f3ria recente, e n\u00e3o h\u00e1 nenhuma esfera do mundo moderno que n\u00e3o tenha sido tocada pela sua exist\u00eancia. N\u00e3o influenciou apenas os partidos social-democratas, fundados em oposi\u00e7\u00e3o a abordagens revolucion\u00e1rias \u2013 e obviamente constituindo-se enquanto seus inimigos \u2013, mas tamb\u00e9m \u00e0 grande escala da geopol\u00edtica, onde os padr\u00f5es mundiais de submiss\u00e3o e competi\u00e7\u00e3o e os estados que constituem o sistema foram claramente alterados pela Revolu\u00e7\u00e3o, da sua degenera\u00e7\u00e3o e de d\u00e9cadas de impasse. Da mesma forma, bastante afastados do reino austero do estado, os artistas russos de vanguarda Malevich, Popova e Rodchenko, entre outros, permanecem insepar\u00e1veis da Revolu\u00e7\u00e3o que tantos deles abra\u00e7aram.<\/p>\n<p>A sua influ\u00eancia \u00e9 incomensur\u00e1vel: Owen Hatherley, cr\u00edtico de cultura, apelida o construtivismo como sendo \u201cprovavelmente o movimento art\u00edstico e arquitet\u00f3nico mais intenso e criativo do s\u00e9culo XX\u201d, que influenciou ou antecipou movimentos como &#8220;a arte abstrata, o\u00a0<i>pop art<\/i>, o\u00a0<i>op<\/i>\u00a0<i>art<\/i>, o minimalismo, o expressionismo abstrato, o estilo gr\u00e1fico do punk e do p\u00f3s-punk &#8230; o brutalismo, o p\u00f3s-modernismo, o\u00a0<i>hi-tech<\/i>\u00a0e o desconstrutivismo\u201d. Podemos tra\u00e7ar a Revolu\u00e7\u00e3o no cinema e na sociologia, no teatro e na teologia, na\u00a0<i>realpolitik<\/i>\u00a0e na moda. \u00c9, portanto, \u00f3bvio que a Revolu\u00e7\u00e3o importa. Tal como L\u00e9nine pode ou n\u00e3o ter dito, \u201cTudo est\u00e1 relacionado com tudo o resto\u201d.<\/p>\n<p>Mas surge de novo uma hesita\u00e7\u00e3o, uma sensa\u00e7\u00e3o de que esta abordagem, por muito importante que seja, contorna a quest\u00e3o fundamental sem lhe responder. Por outras palavras, por que \u00e9 que a discuss\u00e3o enfurece as pessoas?<\/p>\n<p>Tornou-se senso comum admitir que a hist\u00f3ria \u00e9 mais tenaz do que Francis Fukuyama sugeriu, mas ainda nos encontramos, apesar de tudo, na era p\u00f3s-Tatcher da TINA \u2013\u00a0<i>there is no alternative\u00a0<\/i>[n\u00e3o h\u00e1 alternativa] \u2013 em que, tirando momentos espec\u00edficos de exce\u00e7\u00e3o que s\u00e3o cada vez mais reduzidos, os fundamentos da sociedade n\u00e3o devem ser postos em causa. At\u00e9 mesmo discutir um sistema baseado em algo al\u00e9m de lucro, controlado pela base, \u00e9 olhado com desd\u00e9m, apesar da implementa\u00e7\u00e3o cada vez mais s\u00e1dica da austeridade. \u00c9 precisamente esta vis\u00e3o de uma alterativa, e de uma que teve a aud\u00e1cia, no in\u00edcio, de ser bem-sucedida, para derrubar o in- ou o ainda n\u00e3o-defens\u00e1vel, que outubro importa. \u00c9 por isso que existe raiva, em todos os lados, mais do que irrita\u00e7\u00e3o ou divertimento. Porque o que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 apenas a interpreta\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria, mas \u00e9 tamb\u00e9m a do presente. A quest\u00e3o de se as coisas tinham ou se t\u00eam de ser desta maneira.<\/p>\n<p>O que \u00e9 partilhado pela maioria daqueles que se op\u00f5em a tudo mas que lamentam a Revolu\u00e7\u00e3o de 1917 \u00e9 a convic\u00e7\u00e3o de que a \u00faltima excresc\u00eancia do estalinismo foi o resultado inevit\u00e1vel da Revolu\u00e7\u00e3o. Certamente que isto pode ser argumentado: na maior parte dos casos \u00e9, contudo, tomado como mais ou menos autoevidente. N\u00e3o que exista algo que se aproxime de uma perspetiva monol\u00edtica anti- ou pr\u00f3-revolucion\u00e1ria, que englobe socialistas de v\u00e1rias filia\u00e7\u00f5es, liberais, conservadores, fascistas e outros.<\/p>\n<p>Enquanto alguns podem descrever os bolcheviques como equivocados e tr\u00e1gicos, \u00e9 mais comum serem considerados perversos e sedentos de poder. H\u00e1 uma atra\u00e7\u00e3o para um conto de moralidade grosseira. Podemos discordar, por exemplo, das conclus\u00f5es do historiador Orlando Figes sem questionar a seriedade da sua pesquisa, mas a sua afirma\u00e7\u00e3o em\u00a0<i>A Trag\u00e9dia de um Povo<a id=\"sdendnote2anc\" href=\"http:\/\/www.esquerda.net\/artigo\/por-que-e-que-revolucao-russa-importa\/49233#sdendnote2sym\" name=\"sdendnote2anc\"><sup>ii<\/sup><\/a><\/i>\u00a0que \u201co \u00f3dio e a indiferen\u00e7a ao sofrimento humano estavam, em diversos graus, enraizados nas mentes de todos os l\u00edderes bolcheviques\u201d \u00e9 simplesmente absurda (e o seu fasc\u00ednio desaprovador pelos seus casacos de couro n\u00e3o deixa de ser curioso).<\/p>\n<p>No campo oposto, existem algumas pessoas verdadeiramente crentes, como a min\u00fascula e grotesca Sociedade Estaline<a id=\"sdendnote3anc\" href=\"http:\/\/www.esquerda.net\/artigo\/por-que-e-que-revolucao-russa-importa\/49233#sdendnote3sym\" name=\"sdendnote3anc\"><sup>iii<\/sup><\/a>. No entanto, para a maior parte das pessoas que v\u00eam na Revolu\u00e7\u00e3o um motivo para celebrar, a quest\u00e3o \u00e9: qual a data a partir da qual devemos come\u00e7ar o luto? Se uma tradi\u00e7\u00e3o emancipat\u00f3ria foi quebrada, quando foi a rutura? 1921? 1924? 1928? 1930? Que combina\u00e7\u00e3o de fatores explica a degenera\u00e7\u00e3o? A carnificina da guerra civil? As interven\u00e7\u00f5es aliadas, incluindo, com entusiasmo, do lado dos pogromistas<a id=\"sdendnote4anc\" href=\"http:\/\/www.esquerda.net\/artigo\/por-que-e-que-revolucao-russa-importa\/49233#sdendnote4sym\" name=\"sdendnote4anc\"><sup>iv<\/sup><\/a>\u00a0antissemitas? O fracasso das revolu\u00e7\u00f5es na Europa?<\/p>\n<p>O que \u00e9 partilhado \u00e9 uma sensa\u00e7\u00e3o de rutura, de quebra e perda, onde o liberalismo e a direita veem inevitabilidade. &#8220;Muitas vezes se diz que \u00abo germe de todo o estalinismo estava no bolchevismo desde o in\u00edcio\u00bb,\u201d escreveu, em 1937, o dissidente bolchevique Victor Serge. &#8220;Bem, n\u00e3o tenho obje\u00e7\u00e3o. Apenas que o bolchevismo tamb\u00e9m continha muitos outros germes, uma massa de outros germes, e as pessoas que viveram o entusiasmo dos primeiros anos da primeira revolu\u00e7\u00e3o socialista vitoriosa n\u00e3o devem esquec\u00ea-lo. Julgar o homem vivo pelos germes da morte que a aut\u00f3psia revela no cad\u00e1ver \u2013 e que ele pode ter carregado nele desde o seu nascimento \u2013 \u00e9 uma atitude sensata?&#8221;<\/p>\n<p>Esta excelente cita\u00e7\u00e3o tornou-se um clich\u00e9 do socialismo anti-estalinista. O que por vezes escapa aos seus entusiastas \u00e9 que Serge iliba o bolchevismo de conduzir inevitavelmente ao estalinismo, mas n\u00e3o de toda a responsabilidade. Qualquer movimento que evite a hagiografia, que avalie criticamente as suas pr\u00f3prias tradi\u00e7\u00f5es, \u00e9 saud\u00e1vel e confiante. Isso significa ter em conta n\u00e3o apenas a guerra civil e o isolamento for\u00e7ado do regime, a fome, o colapso industrial, agr\u00edcola e social, mas tamb\u00e9m a degenera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dentro dos bolcheviques, nos duros meses e anos depois de assumirem o poder.<\/p>\n<p>Quaisquer que sejam as li\u00e7\u00f5es e inspira\u00e7\u00f5es que a Revolu\u00e7\u00e3o oferece, presenciam-se com frequ\u00eancia situa\u00e7\u00f5es um pouco rid\u00edculas que passam pela recusa de avaliar tudo isto de forma rigorosa e pelo desejo de tratar o partido de L\u00e9nine em 1917 como o paradigma para hoje. Nas discuss\u00f5es de alguns grupos radicais, podemos inclusive identificar claramente a influ\u00eancia dos tons exc\u00eantricos e do vocabul\u00e1rio da literatura socialista traduzida h\u00e1 um s\u00e9culo atr\u00e1s. Isto n\u00e3o significa que seja dada \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o demasiado import\u00e2ncia, mas sim que a import\u00e2ncia lhe \u00e9 atribu\u00edda pelas raz\u00f5es erradas. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria uma reconstitui\u00e7\u00e3o lisonjeira: isso n\u00e3o \u00e9 fidelidade. Quaisquer que sejam as particularidades da R\u00fassia de 1917, a Revolu\u00e7\u00e3o serve hoje n\u00e3o s\u00f3 pela reflex\u00e3o anal\u00edtica que oferece mas tamb\u00e9m enquanto horizonte, pelo simples facto, tr\u00e1gico e moment\u00e2neo, de que as coisas foram diferentes um dia e que, portanto, poder\u00e3o um dia voltar a ser diferentes. \u00c9 o que a liga \u00e0s indignidades, \u00e0 viol\u00eancia, \u00e0 desigualdade e \u00e0 opress\u00e3o de hoje e \u00e0quilo que elas produzem, tal como em circunst\u00e2ncias muito diferentes fizeram h\u00e1 um s\u00e9culo: uma necessidade de uma reconfigura\u00e7\u00e3o radical.<\/p>\n<p>Voltemos agora \u00e0 quest\u00e3o inicial: por que \u00e9 que a Revolu\u00e7\u00e3o importa? Por causa do que estava certo nela, e por causa daquilo que correu mal. Ela importa porque mostra a necessidade n\u00e3o apenas da esperan\u00e7a, mas do pessimismo adequado, e da intera\u00e7\u00e3o dos dois. Sem esperan\u00e7a, o impulso milenar, n\u00e3o h\u00e1 nenhum impulso para derrubar um mundo repulsivo. Sem pessimismo, uma avalia\u00e7\u00e3o sincera das dificuldades que se enfrenta, as necessidades podem ser facilmente reformuladas como virtudes.<\/p>\n<p>Foi assim que, ap\u00f3s a morte de L\u00e9nine, se deu em 1924 a ado\u00e7\u00e3o por parte do partido bolchevique da teoria de Estaline do &#8220;socialismo num s\u00f3 pa\u00eds&#8221;. Isso contrariou um longo compromisso com o internacionalismo, fecundado na certeza de que a Revolu\u00e7\u00e3o russa n\u00e3o poderia sobreviver isoladamente. O fracasso das revolu\u00e7\u00f5es europeias esteve na base desta evolu\u00e7\u00e3o \u2013 foi uma mudan\u00e7a suscitada pelo desespero. Mas anunciar, e inclusivamente celebrar, um socialismo em autarcia foi uma cat\u00e1strofe. Um pessimismo racional teria sido menos prejudicial do que esta \u201cm\u00e1\u201d esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m importa porque foi, como podemos dizer de forma adequada, milenar. Os seus oponentes acusam frequentemente o socialismo de ser uma religi\u00e3o. A acusa\u00e7\u00e3o \u00e9, obviamente, hip\u00f3crita: o anticomunismo \u00e9 de forma igualmente frequente fundido com o fervor sect\u00e1rio do exorcismo. E, mais importante, n\u00e3o \u00e9 uma fraqueza que, a par e dando f\u00f4lego \u00e0s suas an\u00e1lises, os partid\u00e1rios de 1917 tenham sido guiados por um impulso ut\u00f3pico, a fome de um mundo novo e melhor, para se tornarem pessoas capazes de habit\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Todas estas raz\u00f5es s\u00e3o pertinentes e cruciais. Mas, mesmo todas juntas, continuam a n\u00e3o chegar. Continua a haver aquele momento glaciar, a sensa\u00e7\u00e3o de um excesso indescrit\u00edvel. Uma e outra vez, nas aspira\u00e7\u00f5es da Revolu\u00e7\u00e3o, nas suas circunst\u00e2ncias apocal\u00edpticas, nos seus erros e vit\u00f3rias, as palavras falham. Eles falham nas cartas escritas de forma quase macarr\u00f3nica enviadas pelos soldados para a imprensa \u00e0 medida que o ano passava, lamentando-se que a sua Revolu\u00e7\u00e3o de fevereiro tivesse sido apocal\u00edptica sem criar uma renova\u00e7\u00e3o efetiva. Elas falham nos panfletos amb\u00edguos dos bolcheviques em julho de 1917, quando tentavam p\u00f4r um trav\u00e3o nas ruas inquietas. Elas falham espetacularmente quando o partido compreendeu que o seu apelo para evitar as manifesta\u00e7\u00f5es nas ruas, que j\u00e1 estava preparado para ser divulgado em papel, seria amplamente ignorado. E, por isso, a meio da noite, para evitar o embara\u00e7o, essas linhas s\u00e3o simplesmente apagadas e o Pravda<a id=\"sdendnote5anc\" href=\"http:\/\/www.esquerda.net\/artigo\/por-que-e-que-revolucao-russa-importa\/49233#sdendnote5sym\" name=\"sdendnote5anc\"><sup>v<\/sup><\/a>\u00a0vai para as ruas no dia 4 de julho com um espa\u00e7o vazio no centro da primeira p\u00e1gina.<\/p>\n<p>Este n\u00e3o foi o primeiro sil\u00eancio impresso da esquerda russa. Quase 60 anos antes da Revolu\u00e7\u00e3o, o escritor radical Nikolay Chernyshevsky publicou\u00a0<i>Que Fazer?<\/i>, um longo romance pol\u00edtico que gerou um forte impacto no movimento socialista, especialmente em L\u00e9nine, que, em 1902, deu o mesmo nome \u00e0 sua obra sobre organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. A descri\u00e7\u00e3o de Chernyshevsky do momento cr\u00edtico, um eixo da hist\u00f3ria para as possibilidades de futuro, culmina com duas linhas de retic\u00eancias. Os leitores informados entenderiam que, por tr\u00e1s das retic\u00eancias extensas, estava a revolu\u00e7\u00e3o. Assim, Chernyshevsky evitou a censura, mas h\u00e1 tamb\u00e9m algo de religioso, de escatol\u00f3gico, nesta descri\u00e7\u00e3o, feita pelo filho ateu de um sacerdote. A teologia apof\u00e2ntica \u00e9 aquela que se concentra no que n\u00e3o pode ser dito de Deus: um revolucionarismo apof\u00e2ntico, sem vergonha de ir para l\u00e1 das palavras.<\/p>\n<p>Virginia Woolf escreveu em\u00a0<i>Orlando<\/i>\u00a0que, na R\u00fassia, &#8220;as frases s\u00e3o muitas vezes deixadas inacabadas devido \u00e0 d\u00favida relativamente \u00e0 melhor forma de as terminar&#8221;. Obviamente que isto \u00e9 um floreado liter\u00e1rio, uma vis\u00e3o comum e romantizada do essencialismo russo. No entanto, a formula\u00e7\u00e3o parece ser prof\u00e9tica para esta hist\u00f3ria russa em particular. Os pontos de Chernyshevsky descrevem a pr\u00f3pria Revolu\u00e7\u00e3o. O espa\u00e7o em branco no Pravda cont\u00e9m a t\u00e1tica. As coisas que n\u00e3o se conseguem dizer n\u00e3o s\u00e3o, de modo algum, tudo o que h\u00e1 de estranho nesta hist\u00f3ria, mas s\u00e3o centrais para ela.<\/p>\n<p>Elas s\u00e3o a chave para o porqu\u00ea de a Revolu\u00e7\u00e3o importar. Porque aquilo relativamente ao qual n\u00e3o podemos falar podemos, pelo contr\u00e1rio, experienciar. \u00c9 por isso que a hesita\u00e7\u00e3o para responder vem acompanhada de um desejo ansioso. N\u00e3o de dizer, mas de fazer e ser. N\u00e3o de lutar e falhar quando explicamos ou falamos sobre outubro, mas de ser parte de um.<\/p>\n<p>http:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Internacional\/Por-que-e-que-a-Revolucao-Russa-importa-\/6\/38325<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>China Mi\u00e9ville &#8211; H\u00e1 100 anos, a insurrei\u00e7\u00e3o bolchevique dirigida por L\u00e9nine derrubou s\u00e9culos de feudalismo na R\u00fassia. Mas o que \u00e9 que isto significa para o mundo de hoje? Mais do que qualquer outra coisa, a revolta socialista na R\u00fassia, em outubro de 1917, \u00e9 uma hist\u00f3ria extraordin\u00e1ria. 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