{"id":4486,"date":"2017-07-17T12:20:47","date_gmt":"2017-07-17T15:20:47","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=4486"},"modified":"2017-07-16T18:25:36","modified_gmt":"2017-07-16T21:25:36","slug":"o-imaginario-do-estado-nacao-nao-e-um-imaginario-alternativo-ao-neoliberalismo-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/07\/17\/o-imaginario-do-estado-nacao-nao-e-um-imaginario-alternativo-ao-neoliberalismo-2\/","title":{"rendered":"\u201cO imagin\u00e1rio do estado-na\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um imagin\u00e1rio alternativo ao neoliberalismo\u201d"},"content":{"rendered":"<p><strong>AMADOR FERN\u00c1NDEZ-SAVATER<\/strong> &#8211;\u00a0Pensadores marxistas franceses argumentam que figuras como Trump e Le Pen tendem a promover pol\u00edticas que aprofundam o neoliberalismo em seus pa\u00edses.<\/p>\n<section class=\"single-wrap\">\n<div class=\"entry\">\n<p>Como material complementar \u00e0\u00a0<a href=\"https:\/\/movimentorevista.com.br\/edicoes\/numero-5\/\">5\u00aa edi\u00e7\u00e3o da Revista Movimento<\/a>, publicamos em tradu\u00e7\u00e3o in\u00e9dita ao portugu\u00eas entrevista com o soci\u00f3logo Christian Laval e o fil\u00f3sofo Pierre Dardot. A dupla intelectual francesa tem se debru\u00e7ado nos \u00faltimos anos sobre os efeitos que o neoliberalismo vem produzindo nas sociedades contempor\u00e2neas e os impactos de tal fen\u00f4meno sobre o campo pol\u00edtico. Assim, em seu \u00faltimo livro intitulado\u00a0<em>Ce cauchemer qui n\u2019en finit pas: Comment le n\u00e9oliberalisme d\u00e9fait la d\u00e9mocrat<\/em>ie (<em>O pesadelo que n\u00e3o acaba nunca: Como o neoliberalismo derrota a democracia<\/em>, em tradu\u00e7\u00e3o livre, ainda sem edi\u00e7\u00e3o no Brasil), discute o fato da crise mais grave do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista n\u00e3o ter trazido consigo uma transforma\u00e7\u00e3o substancial deste sistema, como ocorrera em 1929, mas sim a radicaliza\u00e7\u00e3o de sua forma neoliberal.<\/p>\n<p>Nesta entrevista originalmente publicada pelo jornal espanhol\u00a0<em>El Diario<\/em>, Laval e Dardot discutem a fal\u00eancia da socialdemocracia europeia que, ao ter ser sido a ponta de lan\u00e7a de pol\u00edticas neoliberais de austeridade, acabou por deixar-se confundir com os tradicionais partidos de direita do continente. Os autores tamb\u00e9m discutem o fen\u00f4meno do nacionalismo contempor\u00e2neo, diferenciando o que entendem enquanto leg\u00edtimos movimentos de emancipa\u00e7\u00e3o nacional \u2013 como vivenciado na Catalunha e na Esc\u00f3cia \u2013 daquelas express\u00f5es com tra\u00e7os de nostalgia imperialista encarnadas em personagens como a xen\u00f3foba francesa Marine Le Pen.<\/p>\n<p>Assim, acreditamos que a reprodu\u00e7\u00e3o aqui desta instigante entrevista realizada com os dois intelectuais cr\u00edticos franceses nos oferece interessantes instrumentos de an\u00e1lise para a compreens\u00e3o da conjuntura pol\u00edtica internacional. Igualmente, algumas das reflex\u00f5es promovidas por Laval e Dardot podem nos ser \u00fateis para compreender alguns dos processos em curso no Brasil \u2013 onde, coincidentemente, um partido com origens na esquerda promoveu no poder uma estrat\u00e9gia de desenvolvimento que, ao inv\u00e9s de combater, agravou os impactos do neoliberalismo no pa\u00eds.<\/p>\n<p>A seguir, a tradu\u00e7\u00e3o integral da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.eldiario.es\/interferencias\/neoliberalismo-estado-nacion-comun_6_654494568.html\">entrevista realizada pelo jornalista Amador Fern\u00e1ndez-Savater para o portal\u00a0<em>El Diario<\/em><\/a>:<\/p>\n<p><strong>Amador Fern\u00e1ndez-Savater \u2013 Segundo voc\u00eas, o neoliberalismo \u00e9 um projeto diretamente antidemocr\u00e1tico no sentido em que ele se op\u00f5e \u2013 tanto na teoria como na pr\u00e1tica \u2013 a qualquer possibilidade de soberania popular, inclusive a liberal-representativa. Voc\u00eas poderiam explicar essa afirma\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Christian Lavan e Pierre Dardot \u2013 Efetivamente, \u00e9 importante voltar para o projeto em si tal como foi elaborado ao longo de v\u00e1rias d\u00e9cadas, do final dos anos de 1930 at\u00e9 o final da d\u00e9cada de 60. \u00c9 preciso lev\u00e1-lo a s\u00e9rio ao inv\u00e9s de ignor\u00e1-lo sob o pretexto de que se trata de um advers\u00e1rio intelectual e pol\u00edtico. N\u00e3o que este projeto tenha imposto diretamente as politicas neoliberais dos anos 70 e 80. As vias empreendidas pelos diferentes governos foram distintas, desde a ditadura militar de Pinochet no Chile \u2013 que em alguns aspectos serviu de laborat\u00f3rio do neoliberalismo \u2013 at\u00e9 os governos de Thatcher e Reagan. Mas para al\u00e9m dessa diversidade nas formas, \u00e9 certo que o projeto neoliberal n\u00e3o deixou de ser desde sua origem um projeto antidemocr\u00e1tico em todas suas variantes.<\/p>\n<p>O jornalista e ensa\u00edsta estadunidense Walter Lippman, um dos inventores do neoliberalismo antes da Segunda Guerra Mundial, estava preocupado antes de mais nadas com a \u201cingovernabilidade\u201d de democracias submetidas \u201c\u00e0 ditadura das opini\u00f5es p\u00fablicas\u201d. Hayek n\u00e3o deixou de denunciar a onipot\u00eancia do poder legislativo, para melhor opor a \u201cdemarquia\u201d \u00e0 \u201cdemocracia\u201d: a demarquia exclui a democracia na medida em que substitui a soberania do povo pelo governos das \u201cleis\u201d. Mas por \u201cleis\u201d devemos entender as regras do direito privado e do direito penal como independentes de toda vontade legislativa. S\u00e3o essas regras que devem guiar a vontade do pr\u00f3prio legislador. Dessa forma, Hayek imagina uma corte constitucional superior a todos os demais poderes encarregados de velar pela intangibilidade das \u201cleis\u201d.<\/p>\n<p>Contudo, a corrente do neoliberalismo que, neste sentido, terminou sendo a maior e a mais influente \u00e9 sem d\u00favida a do ordoliberalismo alem\u00e3o. A originalidade dessa corrente, cujo fundador foi Walter Eucken, foi propor desde muito cedo que se inclu\u00edsse dentro da Constitui\u00e7\u00e3o politica de cada Estado uma Constitui\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, de maneira que estivesse garantido que toda politica econ\u00f4mica respeitasse a inviolabilidade desses princ\u00edpios constitucionais. Trata-se dos mesmos princ\u00edpios que foram consagrados na constru\u00e7\u00e3o europeia: estabilidade monet\u00e1ria, equil\u00edbrio or\u00e7ament\u00e1rio e competi\u00e7\u00e3o livre. Na Alemanha e na Europa esses princ\u00edpios inspiraram diretamente a cria\u00e7\u00e3o de bancos centrais independentes, cuja fun\u00e7\u00e3o consiste em velar por eles eventualmente contra a vontade dos governos e dos parlamentos, e sempre contra a vontade do povo.<\/p>\n<p>Definitivamente, aqui est\u00e1 o cora\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica neoliberal: colocar as grandes orienta\u00e7\u00f5es da pol\u00edtica econ\u00f4mica acima de qualquer controle democr\u00e1tico, de maneira que, independentemente das altern\u00e2ncias eleitorais, todos os governos fiquem atados. O que o neoliberalismo n\u00e3o tolera \u00e9 simplesmente a democracia eleitoral em sua forma mais elementar, assim como a divis\u00e3o dos poderes, j\u00e1 que ambas sup\u00f5em um obst\u00e1culo para essa \u201cconstitucionaliza\u00e7\u00e3o\u201d da pol\u00edtica econ\u00f4mica. Isto \u00e9 o que encontramos hoje sob as mais diversas formas: um processo j\u00e1 bastante avan\u00e7ado de sa\u00edda da democracia liberal-representativa, em beneficio de um sistema de governan\u00e7a informal que envolve atores privados e estatais.<\/p>\n<p><strong>AF \u2013 Existe em toda a Europa um auge do nacionalismo que voc\u00eas explicam como \u201co desejo de restaurar uma soberania perdida, fantasiado sobre um fundo nost\u00e1lgico e reativo\u201d. Mas se trata de um fen\u00f4meno uniforme? Por exemplo, na Espanha existem setores de esquerda muito envolvidos no processo de independ\u00eancia catal\u00e3o. A\u00ed se expressa um recha\u00e7o ao Estado espanhol a partir de uma perspectiva \u201csocial e \u201cprogressista\u201d. Voc\u00eas v\u00eam alguma possibilidade de emancipa\u00e7\u00e3o pela via estatal-nacional?<\/strong><\/p>\n<p>Conv\u00e9m desconfiar da tenta\u00e7\u00e3o de uniformiza\u00e7\u00e3o que nos leva a um uso indiferenciado de termos como nacionalismo e populismo. O nacional-populismo de um Donald Trumpo e o neofascismo de uma Marine Le Pen s\u00e3o, por exemplo, o produto direto de mais de 35 anos de domina\u00e7\u00e3o neoliberal e que de nenhuma forma p\u00f5em em quest\u00e3o esta l\u00f3gica de domina\u00e7\u00e3o. Melhor representam, inclusive, uma forma agravada da mesma domina\u00e7\u00e3o: desregulamenta\u00e7\u00e3o financeira, redu\u00e7\u00e3o dos impostos aos mais ricos etc. O neoliberalismo se concilia bem com o nacionalismo xen\u00f3fobo e com muitos outros tipos de ideologias reacion\u00e1rias, como podemos ver hoje em dia na Turquia e no Brasil.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos confundir sob a mesma etiqueta o desejo em constituir um Estado por parte de povos que nunca dispuseram de um Estado independente \u2013 como a Esc\u00f3cia, a Catalunha ou Pa\u00eds Basco \u2013 com o nacionalismo reacion\u00e1rio que se desenvolve nas na\u00e7\u00f5es h\u00e1 tempo constitu\u00eddas em Estados ou que exerceram um controle sobre \u201cminorias\u201d a partir de um Estado que conquistaram na sombra dos tempos. As aspira\u00e7\u00f5es nacionais dos povos escoc\u00eas e catal\u00e3o n\u00e3o t\u00eam o mesmo sentido que o nacionalismo que se expressou na ocasi\u00e3o do Brexit. O fen\u00f4meno que levou ao Brexit \u00e9 fruto, por um lado, de um sentimento do povo brit\u00e2nico da nostalgia de uma grandeza perdida que eles queriam ver reconstitu\u00edda e, por outro, do ressentimento de popula\u00e7\u00f5es condenadas \u00e0 pobreza e \u00e0 relega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Contudo, pela maneira como a Uni\u00e3o Europeia est\u00e1 constru\u00edda desde suas origens, \u00e9 certo que seria in\u00f3cuo alimentar a ilus\u00e3o da possibilidade de um povo conquistar o direito de autogovernar-se dentro dela. A estrat\u00e9gia que consiste em se apoiar na Uni\u00e3o Europeia na tentativa de libertar-se de um Estado que nega todo direito nacional est\u00e1 condenada ao fracasso. \u00c9 preciso entender que uma integra\u00e7\u00e3o das novas entidades na Uni\u00e3o Europeia n\u00e3o se daria em condi\u00e7\u00f5es muito diferentes daquelas que foram impostas \u00e0s na\u00e7\u00f5es que hoje formam parte dela, como a Espanha e Gr\u00e3 Bretanha. Isso significa que na\u00e7\u00f5es como a Catalunha e a Esc\u00f3cia s\u00f3 seriam \u201creconhecidas\u201d se elas se submetessem \u00e0 logica ordoliberal da Uni\u00e3o Europeia, o que cedo ou tarde as privaria de qualquer forma de autogoverno.<\/p>\n<p>Em resumo, a ilus\u00e3o est\u00e1 em crer que se pode proceder em duas etapas: primeiro, uma uni\u00e3o ecum\u00eanica orientada para conquistar a independ\u00eancia que abstrairia as oposi\u00e7\u00f5es entre interesses sociais antag\u00f4nicos, e s\u00f3 ent\u00e3o, uma vez conquistada a independ\u00eancia, a confronta\u00e7\u00e3o entre os \u201cirm\u00e3os\u201d de ontem em torno de quest\u00f5es sociais. \u00c9 preciso evitar absolutamente a ilus\u00e3o de uma grande fam\u00edlia coesa preservada de todo conflito interno. As oposi\u00e7\u00f5es sociais devem emergir hoje mesmo a partir do interior do combate que \u00e9 pelo reconhecimento dos direitos nacionais.<\/p>\n<p><strong>AF \u2013 Qual seria a sua alternativa? Que outra Europa podemos conceber, ao menos enquanto um horizonte, do imagin\u00e1rio das politicas do comum?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 preciso forjar a partir de agora, entre aqueles que combatem no sentido de conquistar o reconhecimento de seus direitos nacionais, a perspectiva de uma Federa\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica dos povos europeus. Tal como o soube ver Castoriadis<sup>1<\/sup>\u00a0em 1992, uma federa\u00e7\u00e3o deste tipo s\u00f3 poderia ser democr\u00e1tica a partir da exist\u00eancia de uma Federa\u00e7\u00e3o de unidades politica autogovernadas.<\/p>\n<p>Isso quer dizer, por um lado, que o principio da autonomia pressup\u00f5e o direito de toda comunidade nacional se organizar da forma politica que deseje, incluindo a do pr\u00f3prio Estado-na\u00e7\u00e3o. Mas que, por outro, esse mesmo principio de autonomia \u2013 que \u00e9 valido pra toda coletividade humana \u2013 implica na supera\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio do Estado-na\u00e7\u00e3o e a reabsor\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o em uma comunidade ainda mais vasta que englobe, em \u00faltimo caso, toda a humanidade. Um comum que se encerra nas fronteiras nacionais n\u00e3o \u00e9 um comum verdadeiro, qualquer que seja sua escala e seu car\u00e1ter (politico ou socioecon\u00f4mico), o comum est\u00e1 necessariamente aberto ao exterior e essa abertura deve se manifestar pela preocupa\u00e7\u00e3o em se relacionar com outras sociedades no seu pr\u00f3prio funcionamento interno.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso insistir neste ponto: o imagin\u00e1rio do Estado-na\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um imagin\u00e1rio alternativo ao neoliberalismo. Se tal imagin\u00e1rio, longe de ter-se dilu\u00eddo, foi visto em grande medida refor\u00e7ado nestes \u00faltimos anos, isso se deve em primeiro lugar \u00e0 \u201cm\u00e1quina pol\u00edtico-burocr\u00e1tica\u201d que significa a Uni\u00e3o Europeia. O impasse atual vem do fato de que, como dizia Castoriadis, certos povos j\u00e1 constitu\u00eddos em Estados querem voltar ao estado de soberania nacional-estatal, enquanto que os outros est\u00e3o preocupados sobretudo com a ideia de conseguir constitu\u00edrem-se eles mesmos sob uma forma estatal \u201cindependente\u201d, sendo indiferentes enquanto ao seu conte\u00fado ou ao custo necess\u00e1rio para atingi-la. Mas a competi\u00e7\u00e3o entre soberanias, longe de enfraquecer a l\u00f3gica do neoliberalismo, apenas a alimenta e refor\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>AF \u2013 Poder\u00edamos pensar a crise que o PSOE est\u00e1 atravessando atualmente como a forma particular nacional de uma crise que afeta o conjunto da socialdemocracia europeia. Sua an\u00e1lise sobre essa crise \u00e9 muito dura: afirmam que a socialdemocracia n\u00e3o foi uma v\u00edtima, mas um ator decisivo das pol\u00edticas neoliberais, de modo em que ela foi autodestruindo-se desse processo.<\/strong><\/p>\n<p>A socialdemocracia europeia tem sido, e \u00e9 ainda mais atualmente, a primeira respons\u00e1vel por ter posto em pr\u00e1tica as pol\u00edticas de austeridade. Assim, quando ela foi majorit\u00e1ria na Europa no final da d\u00e9cada de 1990 e princ\u00edpio de 2000, seus dirigentes agravaram a deriva anterior, ao inv\u00e9s de iniciar uma reorienta\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica europeia. Procederam de modo a destruir sistematicamente o direito ao trabalho por meio de uma maior flexibiliza\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho. Basta vermos o caso de Blair, Schr\u00f6der, Hollande, Renzi<sup>2<\/sup>\u2026.<sup>\u00a0<\/sup><\/p>\n<p>O exemplo da Fran\u00e7a \u00e9 muito eloquente: rapidamente ao longo da d\u00e9cada de 1980, sob a \u00e9gide de Miterrand, a socialdemocracia tomou a iniciativa da liberaliza\u00e7\u00e3o do setor financeiro, ultrapassando nesse quesito v\u00e1rios governos neoliberais. Convertido \u00e0s virtudes da competi\u00e7\u00e3o desde o come\u00e7o da d\u00e9cada de 1980, Hollande n\u00e3o deixou de sonhar em ser o Schr\u00f6der franc\u00eas ao visar deixar a lembran\u00e7a de um homem de Estado valente capaz de dominar a hostilidade da opini\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>Mas em geral, \u00e9 o lugar hist\u00f3rico da socialdemocracia que est\u00e1 amea\u00e7ado em raz\u00e3o do fechamento institucional imposto pelo sistema neoliberal. Hoje em dia a socialdemocracia se v\u00ea ante a seguinte disjuntiva: se somar ou romper. Mas se somar \u00e9 estar condenar a morte \u2013 tal como mostra a experi\u00eancia desses \u00faltimos anos \u2013 e romper \u00e9 assumir o risco de um enfrentamento com o sistema, algo que igualmente insuport\u00e1vel. Seus dirigentes preferiram se suicidar antes de resistir.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso de uma vez por todas tomar consci\u00eancia deste fato: a socialdemocracia deixou de existir e nada poder\u00e1 ressuscit\u00e1-la j\u00e1 que o sistema destruiu todo espa\u00e7o e toda margem de manobra para que se possa operar uma for\u00e7a contr\u00e1ria em seu interior. Sob a palavra de \u201csocialdemocracia\u201d o que existe de fato s\u00e3o esquerdas neoliberais que, j\u00e1 de entrada, inscrevem sua a\u00e7\u00e3o no mesmo marco que as direitas neoliberais. Eis aqui porque nos parece mais correto falar de uma \u201craz\u00e3o pol\u00edtica \u00fanica\u201d, no lugar de \u201cum partido \u00fanico\u201d.<\/p>\n<p><strong>AF \u2013 A \u201cnova pol\u00edtica\u201d se apresenta como \u201cuma nova socialdemocracia\u201d, uma socialdemocracia que seria \u201creal\u201d e n\u00e3o uma op\u00e7\u00e3o neoliberal disfar\u00e7ada de esquerda. O que voc\u00eas pensam dessa possibilidade?<\/strong><\/p>\n<p>Preconizar a volta de uma \u201csocialdemocracia real\u201d \u00e9 ilus\u00f3rio, por mais que pare\u00e7a refletir a famosa f\u00e1rmula dos Indignados: \u201cDemocracia real j\u00e1\u201d. J\u00e1 que aquela f\u00f3rmula devia sua for\u00e7a ao questionamento direto da democracia chamada \u201crepresentativa\u201d: significava no fundo que essa \u00faltima n\u00e3o era \u201crealmente\u201d uma democracia e que a democracia, para ser real, implicaria a coparticipa\u00e7\u00e3o de todos os cidad\u00e3os nos assuntos p\u00fablicos. O principio politico que n\u00f3s chamamos \u201co comum\u201d.<\/p>\n<p>O objetivo de constituir uma \u201csocialdemocracia real\u201d parte de uma constata\u00e7\u00e3o compartilhada por muitos: a velha socialdemocracia (o PSOE, por exemplo) j\u00e1 n\u00e3o seria realmente uma socialdemocracia em raz\u00e3o de seu alinhamento com o neoliberalismo. Essa constata\u00e7\u00e3o est\u00e1 certa , mas por que dever\u00edamos deduzir da\u00ed que \u00e9 preciso ocupar o espa\u00e7o que ele ocupava e que seu fracasso pol\u00edtico deixou vagas em aberto? Mais vale p\u00f4r em quest\u00e3o a possibilidade de reconstituir uma verdadeira socialdemocracia nas condi\u00e7\u00f5es de transforma\u00e7\u00e3o neoliberal das institui\u00e7\u00f5es estatais. A realidade \u00e9 que essa transforma\u00e7\u00e3o, devido ao seu car\u00e1ter irrevers\u00edvel, impede definitivamente toda volta atr\u00e1s: pura e simplesmente, as margens de manobra que permitiram historicamente a socialdemocracia jogar seu papel deixaram de existir.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o podemos nos imaginar construindo passo a passo, e sem sair do marco parlamentar, uma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as que permita obter concess\u00f5es em mat\u00e9ria de democracia social. Devemos recordar que esta estrat\u00e9gia s\u00f3 p\u00f4de funcionar nas condi\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias da democracia representativa cl\u00e1ssica. Agora, assim como pensamos ter deixado claro no livro, o neoliberalismo tende a esvaziar todo o conte\u00fado da a tal democracia. Ent\u00e3o, em nome do combate a uma \u201cdemocracia real\u201d \u00e9 preciso assumir a impossibilidade em voltar \u00e0 socialdemocracia.<\/p>\n<p>Em outras palavras: \u00e9 preciso escolher entre a \u201csocialdemocracia real\u201d e a \u201cdemocracia real\u201d. Querer a \u201csocialdemocracia real\u201d \u00e9 correr atr\u00e1s de uma miragem: ao final do caminho, renunciaremos \u00e0 \u201cdemocracia real\u201d sem nem sequer ter restaurado a democracia representativa. Simplesmente, corremos o risco de nos adaptarmos passivamente ao marco antidemocr\u00e1tico que o neoliberalismo imp\u00f4s, entrando assim na via suicida da normaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica como sendo um partido a mais. Porque na aus\u00eancia daquela democracia em sua forma parlamentar cl\u00e1ssica nenhuma socialdemocracia pode chegar a ser \u201creal\u201d.<\/p>\n<p><strong>AF \u2013 O Podemos e as candidaturas municipais se apresentaram \u00e0s elei\u00e7\u00f5es com o mote \u201ccolocar as institui\u00e7\u00e3o de novo a servi\u00e7o do povo\u201d. Contudo, um dos descobrimentos que muitos companheiros fizeram quando chegaram ao poder pol\u00edtico foi de at\u00e9 ponto as institui\u00e7\u00f5es seriam uma ferramenta que pode ser \u201cusada para o bem ou para o mal\u201d (a servi\u00e7o do povo ou da oligarquia), mas sim \u201cintrinsecamente neoliberais\u201d nas suas maneiras de pensar e atuar, de contratar e avaliar, etc.<\/strong><\/p>\n<p>A experi\u00eancia de participa\u00e7\u00e3o nas institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas tem, com efeito, muito para ensinar a todos que tenham a ambi\u00e7\u00e3o de coloc\u00e1-las contra a l\u00f3gica neoliberal: a pessoa se d\u00e1 conta de que essas institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o simples meios poss\u00edveis de serem usados para diferentes fins, mas que elas foram redesenhadas por d\u00e9cadas de racionalidade neoliberal em seu funcionamento e em seus m\u00e9todos de trabalho.<\/p>\n<p>As institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o neutras, assim como o Estado em geral. Consequentemente, a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 entrar nas institui\u00e7\u00f5es para fazer delas armas no combate \u00e0 oligarquia neoliberal, mas fazer das institui\u00e7\u00f5es um novo terreno de luta. Concretamente, se trata de trabalhar ativamente, desde o interior e ao mesmo tempo desde o exterior, para subverter a l\u00f3gica do Estado e de suas institui\u00e7\u00f5es \u2014 que \u00e9 no fundo uma l\u00f3gica propriet\u00e1ria e monopolizadora.<\/p>\n<p>Isso vale muito particularmente para os governos municipais que devem construir uma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as contra o Estado central apoiando-se nos movimentos sociais e trabalhando na coordena\u00e7\u00e3o das municipalidades rebeldes, seguindo o exemplo do que foi feito pelo Barcelona en Com\u00f9<sup>2<\/sup><\/p>\n<p><strong>AF -Voc\u00eas utilizam a f\u00f3rmula \u201cgovernar contra o Estado\u201d, o que ela significa?<\/strong><\/p>\n<p>O que a experi\u00eancia da participa\u00e7\u00e3o no poder do Estado demonstra de forma eloquente \u00e9 que aqueles que pretendiam tomar o poder para servirem-se dele como se ele fosse um instrumento neutro terminaram por converterE-se em engrenagens de um poder de Estado transformado, por sua vez, em um fim em si mesmo que funciona em prol de sua pr\u00f3pria perpetua\u00e7\u00e3o. J\u00e1 est\u00e1 na hora de compreender que a administra\u00e7\u00e3o do Estado obedece a uma l\u00f3gica aut\u00f4noma no que se refere \u00e0 a\u00e7\u00e3o dos governos cujo o horizonte temporal \u00e9 muito mais limitado e que, nas condi\u00e7\u00f5es atuais, essa l\u00f3gica \u00e9 uma l\u00f3gica burocr\u00e1tica e de gest\u00e3o<\/p>\n<p>Um governo que se preocupe realmente em atuar no sentido dos interesses do povo dever\u00e1 se dar conta disso. Dever\u00e1 se apoiar nas iniciativas tomadas a partir de baixo, quer dizer, impulsion\u00e1-las e favorecer sua coordena\u00e7\u00e3o para quebrar, se for preciso, a resist\u00eancia da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica e impor uma transforma\u00e7\u00e3o das regras de funcionamento da dita administra\u00e7\u00e3o visando uma democracia que integre os cidad\u00e3os nos processos de delibera\u00e7\u00e3o e de decis\u00e3o. O que n\u00f3s entendemos por \u201cgovernar contra o Estado\u201d n\u00e3o \u00e9 nada mais nada menos que isso: o Estado neoliberal n\u00e3o \u00e9 o aliado natural de um governo democr\u00e1tico, mas sim um advers\u00e1rio cuja resist\u00eancia s\u00f3 poderemos superar nos apoiando nas mobiliza\u00e7\u00f5es e nas experi\u00eancias advindas da pr\u00f3pria sociedade.<\/p>\n<p><strong>AF -Voc\u00eas afirmam que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel entender a for\u00e7a que o neoliberalismo tem hoje sem entender a grande ader\u00eancia de seu imagin\u00e1rio: como ele cola em n\u00f3s sua promessa de liberdade, sua proposta do que \u00e9 uma forma de vida desej\u00e1vel etc. Voc\u00eas tamb\u00e9m falam da necessidade de opor a esse imagin\u00e1rio um imagin\u00e1rio alternativo: \u201cN\u00e3o h\u00e1 nada como a pot\u00eancia de um imagin\u00e1rio para fazer nascer o desejo de transformar o mundo\u201d. No que consiste esse imagin\u00e1rio alternativo? Trata-se de um relato ou de uma narrativa? Como o fazer despertar e proliferar?<\/strong><\/p>\n<p>O imagin\u00e1rio neoliberal se alimenta e se mant\u00e9m atrav\u00e9s das pr\u00e1ticas que fazem de cada um de n\u00f3s um \u201cempres\u00e1rio de si mesmo\u201d em todas as esferas da vida. O comum \u00e9 o principio que deve presidir o advento de um novo imagin\u00e1rio e de um novo desejo. A \u00fanica maneira de cria-lo e difundi-lo \u00e9 partindo das pr\u00e1ticas e inven\u00e7\u00f5es que se d\u00e3o no cotidiano e trabalhando em pr\u00f3 de sua propaga\u00e7\u00e3o. As hist\u00f3rias e os relatos n\u00e3o podem ter uma validade por si mesmo independentemente das pr\u00e1ticas, como si algumas belas hist\u00f3rias pudessem edificar o desejo do comum.<\/p>\n<p>Pela mesma raz\u00e3o de fundo, \u00e9 preciso recha\u00e7ar todos os relatos que se apresentam como elementos de fabrica\u00e7\u00e3o de uma \u201cidentidade populista\u201d na categoria de Laclau: o comum impede por princ\u00edpio todo fechamento em torno de uma identidade e exclui, posteriormente, toda identidade constru\u00edda pela identifica\u00e7\u00e3o com um chefe ou l\u00edder carism\u00e1tico. S\u00e3o \u00fateis, ao contr\u00e1rio, aqueles \u201crelatos\u201d e \u201chist\u00f3rias\u201d que ajudem a ver, partindo sempre das experi\u00eancias em curso, o que seria uma sociedade regida pela l\u00f3gica do comum. Em uma palavra, trata-se de fazer dessas experi\u00eancias o combust\u00edvel de uma nova imagina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica coletiva.<\/p>\n<p><strong>AF \u2013 Voc\u00eas dizem que \u201co comum\u201d \u00e9 no momento uma \u201cl\u00f3gica minorit\u00e1ria\u201d, mas devemos entender com isso que \u00e9 uma logica destinada a minorias? Na Espanha h\u00e1 quem argumente que \u201co comum\u201d vai bem como l\u00f3gica para os pequenos projetos experimentais, mas n\u00e3o para as complexas m\u00e1quinas p\u00fablicas como a sa\u00fade p\u00fablica etc.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 certo que essa logica \u00e9 ainda, nesse estado, uma \u201cl\u00f3gica minorit\u00e1ria\u201d, quer dizer, uma l\u00f3gica que n\u00e3o conseguiu impor-se sobre a l\u00f3gica propriet\u00e1ria e empresarial em toda a sociedade. Mas este \u00e9 justamente o motivo pelo qual n\u00e3o se pode ceder nem um cent\u00edmetro. O comum tem a voca\u00e7\u00e3o de predominar em toda a sociedade e, consequentemente, em um sistema t\u00e3o complexo como o da sa\u00fade p\u00fablica: a democracia deve prevalecer em todos os n\u00edveis do sistema, ainda que a tend\u00eancia dominante hoje seja a de constitui\u00e7\u00e3o de grandes estruturas burocr\u00e1ticas gerenciadas por gestores\u00a0<em>experts<\/em>. Os\u00a0<em>experts<\/em>\u00a0t\u00eam seu lugar em uma democracia, mas n\u00e3o devem substituir todos os atores desse sistema no momento de tomar decis\u00f5es que v\u00e3o de encontro com as orienta\u00e7\u00f5es a serem seguidas em termos de pol\u00edticas de sa\u00fade p\u00fablica. O exemplo das cl\u00ednicas autogeridas na Gr\u00e9cia mostra que podemos contar com iniciativas que venham de baixo, impulsionando sua coordena\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica.<\/p>\n<p><strong><small>Notas do Tradutor<\/small><\/strong><\/p>\n<p><small><sup>1<\/sup>Cornelius Castoriadis foi um dos mais importantes fil\u00f3sofos socialistas franceses do s\u00e9culo XX. Uma de suas principais contribui\u00e7\u00f5es ao pensamento cr\u00edtico europeu foi a no\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>autonomia<\/em>. O projeto de autonomia visaria uma sociedade radicalmente democr\u00e1tica em que imperasse a autonomia individual e coletiva. A sociedade aut\u00f4noma se oporia \u00e0s heteron\u00f4micas, notadamente o caso das sociedades tradicionais, dos sistemas capitalistas modernos e do regime stalinista sovi\u00e9tico.<\/small><\/p>\n<p><small><sup>2<\/sup>\u00a0O brit\u00e2nico Tony Blair foi primeiro-ministro brit\u00e2nico entre 1997 e 2007 pelo Partido Trabalhista. Gerhard Schr\u00f6der foi chanceler alem\u00e3o entre 1998 e 2005 pelo SPD, o partido social-democrata alem\u00e3o. Fran\u00e7ois Hollande foi eleito presidente da Fran\u00e7a em 2012 pelo Partido Socialista, cargo que ocupou at\u00e9 2017. Matteo Renzi, por sua vez, foi primeiro-ministro italiano entre 2014 e 2016 \u00e0 frente de coaliz\u00e3o pol\u00edtica de centro-esquerda liderada por seu Partido Democr\u00e1tico. Em comum a todos eles est\u00e1 o fato de serem oriundos de fam\u00edlias pol\u00edticas de esquerda e de, uma vez no poder, \u00a0terem aplicado medidas de cunho liberal no governo.\u00a0<\/small><\/p>\n<p><small><sup>3<\/sup>\u00a0Barcelona em Comum foi uma plataforma eleitoral impulsionada por diferentes partidos da esquerda espanhola, dentre eles o Podemos, que se saiu vencedora nas elei\u00e7\u00f5es \u00e0 prefeitura da cidade em 2015.<\/small><\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"ayPZ4FO8nn\"><p><a href=\"https:\/\/movimentorevista.com.br\/2017\/07\/neoliberalismo-trump-marxismo-le-pen\/\">&#8220;O imagin\u00e1rio do Estado-na\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um imagin\u00e1rio alternativo ao neoliberalismo&#8221;<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;&#8220;O imagin\u00e1rio do Estado-na\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um imagin\u00e1rio alternativo ao neoliberalismo&#8221;&#8221; &#8212; Revista Movimento\" src=\"https:\/\/movimentorevista.com.br\/2017\/07\/neoliberalismo-trump-marxismo-le-pen\/embed\/#?secret=gx2OByOlpH#?secret=ayPZ4FO8nn\" data-secret=\"ayPZ4FO8nn\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n<\/div>\n<\/section>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>AMADOR FERN\u00c1NDEZ-SAVATER &#8211;\u00a0Pensadores marxistas franceses argumentam que figuras como Trump e Le Pen tendem a promover pol\u00edticas que aprofundam o neoliberalismo em seus pa\u00edses. Como material complementar \u00e0\u00a05\u00aa edi\u00e7\u00e3o da Revista Movimento, publicamos em tradu\u00e7\u00e3o in\u00e9dita ao portugu\u00eas entrevista com o soci\u00f3logo Christian Laval e o fil\u00f3sofo Pierre Dardot. 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