{"id":4314,"date":"2017-06-28T09:39:50","date_gmt":"2017-06-28T12:39:50","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=4314"},"modified":"2017-06-27T11:46:05","modified_gmt":"2017-06-27T14:46:05","slug":"marx-nao-morreu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/06\/28\/marx-nao-morreu\/","title":{"rendered":"Marx n\u00e3o morreu"},"content":{"rendered":"<p><strong>Helena Celestino<\/strong> &#8211;\u00a0S\u00f3 11 pessoas foram \u00e0 cerim\u00f4nia f\u00fanebre de Karl Marx, em 1883. &#8220;O Capital&#8221;, a obra que consumira duas d\u00e9cadas da sua vida, estava inacabada e causara-lhe tantos sofrimentos e priva\u00e7\u00f5es que ele se referia ao trabalho como &#8220;o maldito livro&#8221;. Foi escrito em tempos de convuls\u00e3o como o atual s\u00e9culo XXI, em que tudo que \u00e9 s\u00f3lido parece se desmanchar no ar. \u00c0s guerras napole\u00f4nicas, sucederam-se revolu\u00e7\u00f5es pela Europa (Fran\u00e7a, It\u00e1lia, Alemanha, Imp\u00e9rio Austr\u00edaco). O capitalismo nascia na Inglaterra e a moderna ind\u00fastria revolucionava o mundo.<\/p>\n<p>&#8220;As inova\u00e7\u00f5es ultrapassavam todas as grandes civiliza\u00e7\u00f5es do passado. Em nome do livre com\u00e9rcio, as fronteiras nacionais foram derrubadas, os pre\u00e7os ca\u00edram, o planeta tornou-se interdependente e cosmopolita. Bens e ideias agora circulavam em todos os lugares. Mas tinha um problema. A riqueza n\u00e3o era igualmente distribu\u00edda.&#8221; Parece banal? Agora, talvez, mas essa cita\u00e7\u00e3o apareceu pela primeira vez no &#8220;Manifesto Comunista&#8221;, um panfleto de 23 p\u00e1ginas distribu\u00eddo em Londres em 1848, e reapareceu em 1887 em &#8220;O Capital&#8221;, a monumental obra sobre a g\u00eanese do capitalismo.<\/p>\n<p>O seu autor, Karl Marx (1818-1883), \u00e0s v\u00e9speras de chegar ao bicenten\u00e1rio de nascimento, n\u00e3o errou. A obra da sua vida completa 150 anos em setembro e, sem notar, incorporamos no falar cotidiano do s\u00e9culo XXI as ideias b\u00e1sicas da cr\u00edtica marxista ao capitalismo. &#8220;As pessoas sabem que h\u00e1 desigualdade social, sabem que h\u00e1 luta na distribui\u00e7\u00e3o dos recursos segundo a posi\u00e7\u00e3o de poder de cada um na sociedade. Estou usando outra linguagem, mas isso \u00e9 luta de classes, e \u00e9 disso que as pessoas falam&#8221;, afirma o ex-ministro da Cultura e professor Francisco Weffort, referindo-se ao conflito de interesses entre os &#8220;detentores do capital e os que vendem a for\u00e7a de trabalho&#8221;.<\/p>\n<p>O reconhecimento da presen\u00e7a de interesses econ\u00f4micos e sociais no dia a dia n\u00e3o transforma ningu\u00e9m em marxista, mas \u00e9 Marx &#8211; concordam os estudiosos &#8211; a maior refer\u00eancia acad\u00eamica e intelectual a deitar raiz no fen\u00f4meno da desigualdade e do conflito social. &#8220;Esses pensamentos radicais, sobre as ra\u00edzes do mundo moderno, n\u00e3o s\u00e3o super\u00e1veis facilmente. \u00c9 o caso de Marx e de Max Weber [1864-1920], eles tiveram a coragem de pensar o in\u00edcio de tudo&#8221;, diz Weffort.<\/p>\n<p>Ao redor do mundo, universidades, &#8220;think tanks&#8221; e editoras aproveitam as duas datas comemorativas para revisitar o legado do fil\u00f3sofo e revolucion\u00e1rio do s\u00e9culo XIX, inspira\u00e7\u00e3o para os movimentos de esquerda e assombra\u00e7\u00e3o para os governos autorit\u00e1rios de direita, j\u00e1 declarado morto e ressuscitado em igual n\u00famero de vezes.<\/p>\n<p>Quando a crise financeira de 2008 explodiu na Europa e nos Estados Unidos, &#8220;O Capital&#8221; pulou para as listas de mais vendidos: o primeiro livro a descrever as crises peri\u00f3dicas do capitalismo ganhava novo sentido. O interesse trazia Marx de volta ao debate p\u00fablico, depois de um longo per\u00edodo em que seu pensamento era olhado com desprezo por causa do colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e do fracasso dos regimes ditos socialistas no Leste da Europa. Ao decretar o fim da hist\u00f3ria, enterrava-se junto e misturado o marxismo e &#8220;O Capital&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Pela primeira vez est\u00e1 sendo publicada a obra original de Marx em sua totalidade&#8221;, diz o matem\u00e1tico e fil\u00f3sofo alem\u00e3o Michael Heinrich, professor da Universidade de Ci\u00eancias Aplicadas de Berlim. Ele \u00e9 um dos editores do maior projeto de reinterpreta\u00e7\u00e3o de Marx, n\u00e3o por acaso chamado de Mega-2. Come\u00e7ou em 1974 e n\u00e3o tem data para acabar: todos os manuscritos do fil\u00f3sofo est\u00e3o sendo republicados na Alemanha na sua forma original, ou seja, antes de editados por Friedrich Engels (1820-1895).<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-4315\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/marx.jpg?resize=560%2C724\" alt=\"\" width=\"560\" height=\"724\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/marx.jpg?w=560&amp;ssl=1 560w, https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/marx.jpg?resize=232%2C300&amp;ssl=1 232w\" sizes=\"auto, (max-width: 560px) 100vw, 560px\" \/><\/p>\n<p>Na primeira semana de junho, Heinrich fez o circuito das universidades brasileiras, dando in\u00edcio \u00e0s comemora\u00e7\u00f5es dos 150 anos de &#8220;O Capital&#8221;. Em setembro, lan\u00e7a a 26\u00aa biografia de Marx, tr\u00eas volumes a serem publicados pela Boitempo. A cabe\u00e7a em pedra do barbudo com jeito de profeta, reverenciada por turistas no cemit\u00e9rio de Highgate, em Londres, estar\u00e1 na capa de outro livro a ser lan\u00e7ado em outubro pela Companhia das Letras: a conceituada biografia do professor Gareth Stedman Jones, em que o brit\u00e2nico tenta separar Karl do m\u00edtico Marx, inspirador do marxismo.<\/p>\n<p>Quase 200 anos depois de seu nascimento, ele ainda \u00e9 considerado imprescind\u00edvel pelos estudiosos. Quando morreu, dormindo numa cadeira na sua casa de Londres, al\u00e9m do fiel escudeiro Engels, poucos apostavam em Marx como o homem que mudaria a consci\u00eancia do mundo &#8211; segundo as palavras do fil\u00f3sofo Bertrand Russell (1872-1970). Na maior parte da vida, foi estrela de uma pequena comunidade de exilados e revolucion\u00e1rios, mas seus livros estavam longe de ser best-sellers. &#8220;O Manifesto Comunista&#8221; sumiu logo depois de lan\u00e7ado e assim ficou por 24 anos. &#8220;O Capital&#8221; vendeu mil exemplares em quatro anos e s\u00f3 foi traduzido para o ingl\u00eas 12 anos depois.<\/p>\n<p>Demorou quase meio s\u00e9culo para o livro chegar ao Brasil. Importados ou em tradu\u00e7\u00f5es mambembes da editora do Partido Comunista Brasileiro, os textos de Marx nos anos 20 e 30 eram conhecidos dos grandes escritores da \u00e9poca (Oswald e M\u00e1rio de Andrade, Graciliano Ramos) e viravam conversas de botequim, mas estavam fora do curr\u00edculo das universidades. Foi por meio de um grupo de estudos, inventado por jovens professores da USP, que Marx fez sua entrada oficial na academia.<\/p>\n<p>A partir de 1958, eles se reuniram semanalmente durante tr\u00eas anos para ler &#8220;O Capital&#8221;. Ruth e Fernando Henrique Cardoso, Francisco Weffort, Octavio Ianni, Jos\u00e9 Arthur Giannotti, Paul Singer, Fern\u00e3o Novaes e alguns &#8220;alunos penetras&#8221; &#8211; como se define o critico liter\u00e1rio Roberto Schwarz &#8211; encontravam-se aos s\u00e1bados, por seis horas, nas casas de uns e outros. &#8220;Era um clima de camaradagem, anima\u00e7\u00e3o e alguma rivalidade, com rod\u00edzio de expositor e uma comilan\u00e7a no final&#8221;, descreve Schwarz no rec\u00e9m-lan\u00e7ado &#8220;N\u00f3s que Am\u00e1vamos Tanto O Capital &#8211; Leituras de Marx no Brasil&#8221; (Boitempo). &#8220;Tinha sempre um debate longo porque todos tinham um discurso comprido para fazer, qualquer que fosse a import\u00e2ncia daquilo que pensava&#8221;, ironiza Weffort.<\/p>\n<p>J\u00e1 se passou outro meio s\u00e9culo, e uma infinidade de autores ainda lan\u00e7a novos olhares sobre a obra de Marx. Ap\u00f3s a morte do amigo, Engels dedicou anos para juntar os ca\u00f3ticos textos deixados pelo fil\u00f3sofo e publicar os volumes 2 e 3 de &#8220;O Capital&#8221;. O resultado final, em alguns trechos, foi mais &#8220;revolucion\u00e1rio&#8221; do que na vers\u00e3o original, e um exemplo \u00e9 a previs\u00e3o do colapso do capitalismo, hoje reconhecida como uma contribui\u00e7\u00e3o de Engels &#8211; Marx falara apenas que a tend\u00eancia da redu\u00e7\u00e3o dos lucros das empresas &#8220;sacudiria&#8221; o capitalismo. Parece uma firula, mas abriu a porta para interpreta\u00e7\u00f5es marxistas mais radicais e levou os cr\u00edticos a tentarem aprisionar Marx no s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>Para o economista-celebridade Thomas Piketty, autor do best-seller &#8220;O Capital no S\u00e9culo XXI&#8221; (ed. Intr\u00ednseca), os economistas fariam bem em buscar inspira\u00e7\u00e3o em Marx. O franc\u00eas usou os recursos da matem\u00e1tica moderna para mostrar a verdadeira natureza das rela\u00e7\u00f5es sociais, conseguindo realizar o sonho do fil\u00f3sofo no s\u00e9culo XIX, quando fazia pesquisas di\u00e1rias no British Museum lendo relat\u00f3rios de f\u00e1bricas e similares para comprovar empiricamente suas teses. Piketty provou matematicamente que o mercado n\u00e3o se regula sozinho e, a partir de 1980 e 1990, a desigualdade voltara a atingir os n\u00edveis do tempo de Balzac (1799- 1850), &#8220;refletindo a l\u00f3gica de Marx&#8221;.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 tamb\u00e9m a an\u00e1lise do fil\u00f3sofo Wolfgang Street, mas sua conclus\u00e3o \u00e9 diferente: Marx errou. Numa entrevista \u00e0 revista &#8220;Books&#8221;, ele v\u00ea no p\u00f3s-guerra as democracias repartindo mais equalitariamente os lucros atrav\u00e9s do Estado-previd\u00eancia e, com isso, conseguindo uma certa paz social. S\u00f3 que depois dos chamados &#8220;30 gloriosos anos&#8221;, afirma, o capitalismo atual livrou-se das regula\u00e7\u00f5es sociais, recuperou certos tra\u00e7os anteriores a 1945 e, por isso, a desigualdade aumentar\u00e1 e novas crises acontecer\u00e3o. Mas, diferentemente da revolu\u00e7\u00e3o prevista por Marx, Street n\u00e3o consegue antever nenhum movimento organizado com capacidade de se opor ao capitalismo globalizado.<\/p>\n<p>O Marx pol\u00edtico \u00e9 o mais pol\u00eamico. O historiador e escritor Daniel Aar\u00e3o Reis, um admirador e leitor ass\u00edduo, v\u00ea o te\u00f3rico militante como aberto, libert\u00e1rio e flex\u00edvel, mas aponta dois problemas: um certo messianismo prolet\u00e1rio e autoritarismo, ao criar uma oposi\u00e7\u00e3o entre o saber cient\u00edfico (o seu) e a utopia das propostas rivais. Isso levou a social-democracia a achar que eles tinham a verdade e os outros, a ilus\u00e3o, diz. Esse Marx doutrin\u00e1rio \u00e9 alvo de mais cr\u00edticas &#8211; especialmente depois dos regimes constru\u00eddos em seu nome -, mas a confus\u00e3o pol\u00edtica recente aqui e no mundo est\u00e1 levando jovens no Reino Unido, nos EUA e at\u00e9 no Brasil a voltar a ele para entender o que est\u00e1 acontecendo ao redor.<\/p>\n<p>A brasileira Antonia Oliveira Violeta Duarte, de 16 anos, estudante do Andrews e manifestante presente em protestos recentes no Rio, fez uma escolha surpreendente quando a av\u00f3 pediu seis nomes de livros para dar-lhe de presente. Entre eles, incluiu &#8220;O Capital&#8221;. Por qu\u00ea? &#8220;Quero ler para poder tomar posi\u00e7\u00e3o. A pol\u00edtica \u00e9 o que mais me interessa&#8221;, diz.<\/p>\n<div class=\"socialBorderTopLightPage_1m33bc5 social_8a1iu5\" data-reactid=\".0.1.0.0.1\">http:\/\/www.valor.com.br\/cultura\/5014188\/marx-nao-morreu<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Helena Celestino &#8211;\u00a0S\u00f3 11 pessoas foram \u00e0 cerim\u00f4nia f\u00fanebre de Karl Marx, em 1883. &#8220;O Capital&#8221;, a obra que consumira duas d\u00e9cadas da sua vida, estava inacabada e causara-lhe tantos sofrimentos e priva\u00e7\u00f5es que ele se referia ao trabalho como &#8220;o maldito livro&#8221;. 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