{"id":4308,"date":"2017-06-27T12:32:02","date_gmt":"2017-06-27T15:32:02","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=4308"},"modified":"2017-06-26T12:34:44","modified_gmt":"2017-06-26T15:34:44","slug":"a-cidade-mercadoria-e-os-limites-da-reforma-urbana-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/06\/27\/a-cidade-mercadoria-e-os-limites-da-reforma-urbana-brasileira\/","title":{"rendered":"A cidade-mercadoria e os limites da reforma urbana brasileira"},"content":{"rendered":"<p><strong>Patricia Fachin &#8211;\u00a0<\/strong>Entrevista especial com Pedro Arantes<\/p>\n<p>\u201cSe a forma urbana das metr\u00f3poles pode dizer algo sobre a sociedade brasileira e os sentidos da nossa (de)forma\u00e7\u00e3o nacional, ou de nossa prec\u00e1ria e incompleta cidadania, n\u00e3o \u00e9 preciso ser especialista para perceber que o Brasil, como projeto de civiliza\u00e7\u00e3o \u2013 visto pelo \u00e2ngulo das nossas cidades \u2013, est\u00e1 longe de resultar em algo integrado, coerente e igualit\u00e1rio\u201d. A observa\u00e7\u00e3o \u00e9 do arquiteto e urbanista Pedro Arantes e est\u00e1 expressa na entrevista a seguir, concedida por e-mail \u00e0 IHU On-Line.<\/p>\n<p>Segundo ele, houve uma \u201cderrota da agenda da Reforma Urbana\u201d no pa\u00eds, a qual \u201cfoi decorrente de escolhas realizadas nos \u00faltimos anos, em que, em nome de fazer o \u2018bolo imobili\u00e1rio\u2019 crescer (depois repartir), os protagonistas favorecidos foram crescentemente as empresas de constru\u00e7\u00e3o e incorpora\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria (concentradas, com capital aberto em bolsa e internacionalizadas), o setor financeiro e os vendedores de pacotes tecnol\u00f3gicos de transportes e saneamento ambiental\u201d. Como consequ\u00eancia, avalia, \u201co cidad\u00e3o ficou por \u00faltimo, fragilizado, recebendo servi\u00e7os ou moradias de p\u00e9ssima qualidade e pagando tarifas caras\u201d.<\/p>\n<p>Ele pontua que as \u201cin\u00fameras pesquisas sobre o Minha Casa Minha Vida\u201d mostram \u201cos desastres do programa\u201d e indicam que o \u201cBrasil perdeu uma oportunidade de avan\u00e7ar na pol\u00edtica habitacional\u00a0integrada com a qualifica\u00e7\u00e3o urbana. Investiu muito nos \u00faltimos anos, mas num programa comandado por empresas, que definem o que construir, onde, como, para quem, em fun\u00e7\u00e3o de regras minimalistas propostas por um banco, a Caixa Econ\u00f4mica Federal\u201d.<\/p>\n<p>Na entrevista, Pedro Arantes tamb\u00e9m comenta projetos pol\u00eamicos, como a constru\u00e7\u00e3o de torres comerciais de residenciais no Cais Jos\u00e9 Estelita no Recife, o projeto do Cais Mau\u00e1 em Porto Alegre, o Projeto Nova Luz em S\u00e3o Paulo e o Porto Maravilha no Rio de Janeiro. Todos eles, avalia, s\u00e3o \u201cemblem\u00e1ticos do modelo cidade-mercadoria que prospera no Brasil, que moderniza nosso patrimonialismo e o entrela\u00e7amento de interesses p\u00fablicos e privados. S\u00e3o projetos de verdadeira desfa\u00e7atez das classes dominantes nessas cidades, que n\u00e3o escondem seu car\u00e1ter de ganhos especulativos, exclus\u00e3o social, crimes ambientais etc.\u201d<\/p>\n<div><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2017\/06\/21_06_pedro_arantes_foto_arquivo_pessoal.jpg?w=640\" alt=\"\" \/><\/div>\n<p>Pedro Arantes \u00e9 arquiteto e urbanista. Atua como assessor t\u00e9cnico dos movimentos de luta por moradia e do MST em pol\u00edticas habitacionais e urbanas. \u00c9 coordenador do coletivo USINA, formador da Escola Milton Santos e professor das Faculdades de Campinas. \u00c9 doutor pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de S\u00e3o Paulo e autor do livro Arquitetura Nova (S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2002). Atualmente, participa de um grupo interdisciplinar na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o da USP, que est\u00e1 analisando o Minha Casa Minha Vida em todos os seus aspectos.<\/p>\n<p>Confira a entrevista.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Como voc\u00ea v\u00ea as metr\u00f3poles brasileiras nos dias de hoje? Como e por quais raz\u00f5es elas se transformaram nos \u00faltimos anos?<\/p>\n<p>Pedro Arantes &#8211; Se a forma urbana das metr\u00f3poles pode dizer algo sobre a sociedade brasileira e os sentidos da nossa (de)forma\u00e7\u00e3o nacional, ou de nossa prec\u00e1ria e incompleta cidadania, n\u00e3o \u00e9 preciso ser especialista para perceber que o Brasil, como projeto de civiliza\u00e7\u00e3o \u2013 visto pelo \u00e2ngulo das nossas cidades \u2013, est\u00e1 longe de resultar em algo integrado, coerente e igualit\u00e1rio. H\u00e1 um avan\u00e7o da barb\u00e1rie urbana concomitante ao avan\u00e7o da cidade-mercadoria. A maioria de nossas principais cidades vive situa\u00e7\u00f5es recorrentes de caos e calamidade, apesar da abund\u00e2ncia relativa recente. Nos \u00faltimos anos, vivemos o boom imobili\u00e1rio e o boom automobil\u00edstico \u2013 ambos impulsionados pelo governo federal \u2013 que colaboraram n\u00e3o para o crescimento da qualidade da vida urbana, mas para sua crescente deteriora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As manifesta\u00e7\u00f5es de 2013, cujas caracter\u00edsticas e consequ\u00eancias s\u00e3o avaliadas ainda hoje, t\u00eam como ponto de partida ineg\u00e1vel as m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es de vida nas metr\u00f3poles, a precariedade de diversas pol\u00edticas p\u00fablicas, sobretudo uma pol\u00edtica decisiva, que integra os equipamentos e servi\u00e7os da cidade com seus cidad\u00e3os: a da mobilidade urbana. Cidades estiveram em movimento contra a imobilidade produzida pelas tarifas altas, transporte de massa de m\u00e1 qualidade (beneficiando empresas e n\u00e3o usu\u00e1rios), engarrafamentos cada vez maiores etc.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Quando se trata de pensar uma reforma urbana para as metr\u00f3poles brasileiras, que investimento e planejamento seriam necess\u00e1rios?<\/p>\n<p>Pedro Arantes &#8211; A agenda da Reforma Urbana, como a da Reforma Agr\u00e1ria, viveu um ciclo no per\u00edodo da redemocratiza\u00e7\u00e3o e da Nova Rep\u00fablica que parece ter se esgotado. Isto \u00e9, os caminhos e instrumentos que constru\u00edmos n\u00e3o conseguiram nos levar a cidades mais justas e sustent\u00e1veis. Temos legisla\u00e7\u00e3o atualizada, o Estatuto das Cidades, um Minist\u00e9rio das Cidades, pol\u00edticas relevantes na \u00e1rea habitacional e de transportes, mas n\u00e3o avan\u00e7amos para que as cidades fossem mais equilibradas e melhores de se viver. Na disputa pela cidade como meio de vida ou como meio de acumula\u00e7\u00e3o de capital, o cidad\u00e3o, sem d\u00favida, foi quem perdeu. Ganharam as empresas imobili\u00e1rias e de servi\u00e7os urbanos, as grandes construtoras de infraestrutura, dentro de um modelo de cidade-empresa ou cidade-mercadoria. As leis funcionaram quando promoviam neg\u00f3cios urbanos (opera\u00e7\u00f5es urbanas, concess\u00f5es, parcerias) e n\u00e3o foram eficientes na garantia da fun\u00e7\u00e3o social da propriedade (IPTU progressivo em im\u00f3veis vacantes, urbaniza\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria, da\u00e7\u00e3o em pagamento etc.).<\/p>\n<p>A cidade como fundamento da cidadania, como territ\u00f3rio em que se realizam direitos, segue sendo recorrentemente violada e desestruturada. Essa derrota da agenda da Reforma Urbana, mesmo com o PT no poder, foi decorrente de escolhas realizadas nos \u00faltimos anos, em que, em nome de fazer o \u201cbolo imobili\u00e1rio\u201d crescer (depois repartir), os protagonistas favorecidos foram crescentemente as empresas de constru\u00e7\u00e3o e incorpora\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria (concentradas, com capital aberto em bolsa e internacionalizadas), o setor financeiro e os vendedores de pacotes tecnol\u00f3gicos de transportes e saneamento ambiental. O cidad\u00e3o ficou por \u00faltimo, fragilizado, recebendo servi\u00e7os ou moradias de p\u00e9ssima qualidade e pagando tarifas caras.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Quais s\u00e3o os principais temas do desenvolvimento urbano que deveriam estar em pauta no pa\u00eds, considerando as caracter\u00edsticas das cidades brasileiras?<\/p>\n<p>Pedro Arantes &#8211; O ciclo institucional, de leis, instrumentos, conselhos, fundos, sistemas etc. se realizou e n\u00e3o foi capaz de transformar nossas cidades em espa\u00e7os mais justos, viv\u00edveis e sustent\u00e1veis. Sem d\u00favida a disputa institucional ainda \u00e9 v\u00e1lida, mas n\u00e3o pode ser o vetor central da luta social pelo direito \u00e0 cidade. Incidir diretamente na transforma\u00e7\u00e3o da cidade \u00e9 fundamental, por meio de mobiliza\u00e7\u00f5es, atos e ocupa\u00e7\u00f5es, press\u00e3o sobre poderes Executivo, Legislativo e Judici\u00e1rio para que as conquistas avancem em v\u00e1rios n\u00edveis e pol\u00edticas. Com a decep\u00e7\u00e3o com o ciclo institucional, o s\u00e9culo XXI j\u00e1 est\u00e1 marcado pelo aumento desses enfrentamentos pelo direito \u00e0 cidade, nas mobiliza\u00e7\u00f5es contra os grandes eventos, contra grandes empreendimentos, contra privatiza\u00e7\u00e3o ou destrui\u00e7\u00e3o de pra\u00e7as e espa\u00e7os p\u00fablicos etc.<\/p>\n<p>Isso est\u00e1 pipocando em todas as grandes cidades brasileiras, a\u00e7\u00e3o de movimentos, coletivos autonomistas, comunidades etc. Mas a a\u00e7\u00e3o direta, se n\u00e3o for acompanhada de uma nova agenda e teoria da transforma\u00e7\u00e3o social e das cidades, corre o risco de se pulverizar e enfraquecer. Se a forma-partido est\u00e1 em crise e questionada, a atua\u00e7\u00e3o nessas m\u00faltiplas lutas deve ser capaz de articular frentes, redes, conex\u00f5es, n\u00e3o apenas para ir \u00e0s ruas, mas para construir programa. A Frente Povo sem Medo pode ser um caminho para isso, pois n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o identificada a partidos, como a frente Brasil Popular. Outras iniciativas de articula\u00e7\u00e3o s\u00e3o bem-vindas.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; De que modo as tecnologias podem auxiliar na reforma urbana das metr\u00f3poles?<\/p>\n<p>Pedro Arantes &#8211; H\u00e1 diversas tecnologias de administra\u00e7\u00e3o urbana, informa\u00e7\u00e3o e mapeamento, big data urbano, informatiza\u00e7\u00e3o de dados cartoriais e cadastros multifinalit\u00e1rios, levantamento de \u00e1reas que descumprem a fun\u00e7\u00e3o social da propriedade, de inadimpl\u00eancia e d\u00edvida ativa etc. podem ser \u00fateis para otimizar sistemas, processos, avaliar efetividade, construir indicadores, dar transpar\u00eancia, tomar decis\u00f5es informadas, combater especuladores etc. Contudo, temos que ter o cuidado de n\u00e3o fetichizar as novas tecnologias digitais e acreditar que poder\u00e3o por si resolver problemas. Podem ajudar, sem d\u00favida, mas a maneira como s\u00e3o mobilizadas, programadas e articuladas com as pol\u00edticas p\u00fablicas de ponta \u00e9 algo central. Elas precisam ser modeladas pelo interesse coletivo, como tecnologias sociais que informam os cidad\u00e3os e a gest\u00e3o p\u00fablica, da forma mais completa e transparente. Acesso a dados e informa\u00e7\u00e3o confi\u00e1vel \u00e9 fundamental tanto para as pol\u00edticas p\u00fablicas quanto para o empoderamento dos cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Atualmente est\u00e3o sendo discutidos alguns projetos pol\u00eamicos no pa\u00eds, como a constru\u00e7\u00e3o de torres comerciais de residenciais no Cais Jos\u00e9 Estelita no Recife, o projeto do Cais Mau\u00e1 em Porto Alegre, o Projeto Nova Luz em S\u00e3o Paulo e o pr\u00f3prio Porto Maravilha no Rio de Janeiro. Como voc\u00ea avalia esses projetos para as cidades brasileiras?<\/p>\n<p>Pedro Arantes &#8211; Esses s\u00e3o projetos emblem\u00e1ticos do modelo cidade-mercadoria que prospera no Brasil, que moderniza nosso patrimonialismo e o entrela\u00e7amento de interesses p\u00fablicos e privados. S\u00e3o projetos de verdadeira desfa\u00e7atez das classes dominantes nessas cidades, que n\u00e3o escondem seu car\u00e1ter de ganhos especulativos, exclus\u00e3o social, crimes ambientais etc. Mas por serem t\u00e3o acintosamente vis\u00edveis (a l\u00f3gica do espet\u00e1culo faz parte do seu neg\u00f3cio), t\u00eam resultado em forte rea\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria. A resist\u00eancia do Cais Estelita em Recife\u00a0\u00e9 emblem\u00e1tica disso, atuaram em m\u00faltiplas frentes, ocupa\u00e7\u00e3o e atividades no Cais, mobiliza\u00e7\u00e3o das universidades, batalha jur\u00eddica, batalha de comunica\u00e7\u00e3o (com excelentes v\u00eddeos sobre os interesses em jogo e at\u00e9 um videoclipe que ironiza os empreendedores, prefeitos e seus interesses). Quanto mais essas estrat\u00e9gias de resist\u00eancia trocarem informa\u00e7\u00f5es entre si, constitu\u00edrem uma rede, se fortalecer\u00e3o e ajudar\u00e3o a construirmos um programa mais coletivo e comum para as lutas urbanas no s\u00e9culo XXI, como j\u00e1 disse.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; \u00c9 preciso pensar alternativas a esses projetos? Por que e em que sentido? Em que consistiriam essas alternativas?<\/p>\n<p>Pedro Arantes &#8211; Sem d\u00favida. Podemos e devemos mostrar que nossas cidades podem ser pensadas e produzidas de outras formas. A alian\u00e7a entre movimentos, coletivos e universidades \u00e9 central para isso. \u00c9 preciso aproximar os ativistas que est\u00e3o na ponta, na luta com as comunidades atingidas, com professores e estudantes universit\u00e1rios, que t\u00eam maior capacidade de resposta institucional, laborat\u00f3rios de extens\u00e3o e pesquisa, bolsas etc. para fazer an\u00e1lises, simular alternativas, fazer propostas, sempre em forte di\u00e1logo e coopera\u00e7\u00e3o com as comunidades e ativistas que est\u00e3o no campo de batalha. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que ambos est\u00e3o sendo fortemente atacados nos \u00faltimos anos, as universidades p\u00fablicas est\u00e3o sendo sucateadas e estranguladas sem or\u00e7amento, e os movimentos e comunidades, criminalizados e perseguidos. Por isso essa alian\u00e7a \u00e9 decisiva.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Na entrevista que nos concedeu em 2010, voc\u00ea salientava que os arquitetos brasileiros e as universidades n\u00e3o se pronunciaram em rela\u00e7\u00e3o ao pacto habitacional do Minha Casa Minha Vida. Qual \u00e9 sua avalia\u00e7\u00e3o sobre esse programa habitacional? Em que medida ele foi ou n\u00e3o efetivo e por quais raz\u00f5es?<\/p>\n<p>Pedro Arantes &#8211; De fato, as universidades, naquele momento, n\u00e3o apenas n\u00e3o foram consultadas sobre a pol\u00edtica habitacional, como permaneceram quietas sobre o que estava ocorrendo. Isso acabou mudando um pouco nos anos seguintes, com v\u00e1rios grupos de pesquisa estudando o MCMV, realizando debates, teses etc. Hoje h\u00e1 in\u00fameras pesquisas sobre o MCMV mostrando os desastres do programa. O Brasil perdeu uma oportunidade de avan\u00e7ar na pol\u00edtica habitacional integrada com a qualifica\u00e7\u00e3o urbana. Investiu muito nos \u00faltimos anos, mas num programa comandado por empresas, que definem o que construir, onde, como, para quem, em fun\u00e7\u00e3o de regras minimalistas propostas por um banco, a Caixa Econ\u00f4mica Federal.<\/p>\n<p>As cidades n\u00e3o foram capazes de induzir melhores qualidades na produ\u00e7\u00e3o habitacional que foi feita, na inser\u00e7\u00e3o urbana etc. O modelo produtivista previa sempre a expans\u00e3o da mancha urbana. E im\u00f3veis vazios, especulativos, nos centros urbanos n\u00e3o foram transformados pelo programa \u2013 ao contr\u00e1rio, ganharam com a enorme valoriza\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria que ocorreu no Brasil com o MCMV e abertura de capital das empresas imobili\u00e1rias. O que se viu foi a produ\u00e7\u00e3o intensiva e extensiva da mercadoria casa, de baixa qualidade, em geral em regi\u00f5es perif\u00e9ricas, produzindo novos crimes ambientais e trabalhistas (a MRV, principal construtora do programa, responde por diversos crimes de trabalho escravo).<\/p>\n<p>O MCMV entregou milh\u00f5es de moradias; para quem n\u00e3o tinha onde morar, pagava aluguel oneroso, vivia em sobrelota\u00e7\u00e3o, em barracos prec\u00e1rios etc., uma casinha um pouco melhor n\u00e3o deixa de ser um ganho. Mas o conjunto do resultado \u00e9 desastroso, aprofundou a m\u00e1 urbaniza\u00e7\u00e3o desigual, horizontal, ampliando problemas e conflitos urbanos e ambientais, de mobilidade, empregos e servi\u00e7os p\u00fablicos. O MCVM, ao combater o d\u00e9ficit habitacional com uma l\u00f3gica empresarial, da casa-mercadoria, aprofundou o nosso problema mais grave que \u00e9 o d\u00e9ficit de cidade, de qualidade urbana, e de cidadania.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Num document\u00e1rio produzido pela BBC intitulado \u201cPor que a beleza importa?\u201d, o fil\u00f3sofo Roger Scruton faz uma cr\u00edtica \u00e0 est\u00e9tica da arquitetura produzida nos \u00faltimos anos, pontuando que ela leva em conta apenas uma dimens\u00e3o utilitarista e que perdeu a dimens\u00e3o da beleza. Como voc\u00ea v\u00ea esse tipo de cr\u00edtica e quais s\u00e3o suas cr\u00edticas \u00e0 arquitetura contempor\u00e2nea?<\/p>\n<p>Pedro Arantes &#8211; O debate sobre beleza e gosto \u00e9 complexo e escorregadio, \u00e9 um debate da filosofia e da arte h\u00e1 ao menos 3 mil anos. N\u00e3o conhe\u00e7o esse document\u00e1rio, mas o que posso mencionar \u00e9 que, de fato, na produ\u00e7\u00e3o habitacional de massa, como o MCMV, qualidades arquitet\u00f4nicas que permitem maior riqueza volum\u00e9trica, diversidade, constitui\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os apraz\u00edveis, convidativos, pra\u00e7as, equipamentos coletivos etc. n\u00e3o s\u00e3o prioridade. Na verdade n\u00e3o s\u00e3o desej\u00e1veis pela l\u00f3gica de um programa que \u00e9 comandado pela l\u00f3gica das empresas: todas essas qualidades custam a mais para serem executadas, reduziriam os lucros, por isso entregam a \u201ccasa 1.0\u201d, desprovida de qualquer qualidade adicional. Como a Caixa exige apenas caracter\u00edsticas m\u00ednimas para a unidade habitacional e n\u00e3o tem diretrizes mais detalhadas para a urbaniza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se produz cidade, mas p\u00e1tios de estacionamento de moradias m\u00ednimas.<\/p>\n<p>J\u00e1 a arquitetura contempor\u00e2nea de grife, do mercado de luxo, de distin\u00e7\u00e3o, acredita estar produzindo \u201cbeleza\u201d, pois isso \u00e9 parte do neg\u00f3cio \u00e0 venda, do estilo de vida. Mas essa beleza \u00e0 venda \u00e9 tamb\u00e9m de gosto duvidoso, com edif\u00edcios imitando estilos europeus em plenos tr\u00f3picos, bolos de noiva neocl\u00e1ssicos, condom\u00ednios fechados, muito \u201cfachadismo\u201d feito por empresas de marketing mais do que arquitetura de boa qualidade.<\/p>\n<p>http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/568817-a-cidade-mercadoria-e-os-limites-da-reforma-urbana-brasileira-entrevista-especial-com-pedro-arantes<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Patricia Fachin &#8211;\u00a0Entrevista especial com Pedro Arantes \u201cSe a forma urbana das metr\u00f3poles pode dizer algo sobre a sociedade brasileira e os sentidos da nossa (de)forma\u00e7\u00e3o nacional, ou de nossa prec\u00e1ria e incompleta cidadania, n\u00e3o \u00e9 preciso ser especialista para perceber que o Brasil, como projeto de civiliza\u00e7\u00e3o \u2013 visto pelo \u00e2ngulo das nossas cidades [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4128,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[47,43],"class_list":["post-4308","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geografia","tag-qualidade-de-vida","tag-questao-urbana"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - 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