{"id":4306,"date":"2017-06-27T09:28:16","date_gmt":"2017-06-27T12:28:16","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=4306"},"modified":"2017-06-26T12:31:38","modified_gmt":"2017-06-26T15:31:38","slug":"reconstruir-a-esquerda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/06\/27\/reconstruir-a-esquerda\/","title":{"rendered":"RECONSTRUIR A ESQUERDA"},"content":{"rendered":"<p><strong>RUY FAUSTO<\/strong> &#8211;\u00a0Um balan\u00e7o cr\u00edtico da experi\u00eancia hist\u00f3rica e algumas ideias para o futuro<\/p>\n<blockquote><p>\u00c9 preciso dizer: o discurso pol\u00edtico de Marilena Chaui tem representado uma verdadeira cat\u00e1strofe para a esquerda. Infelizmente, ela se mostra seduzida demais pelo aplauso dos audit\u00f3rios<\/p><\/blockquote>\n<p>Reconstruir a esquerda? Ainda recentemente, um bom autor franc\u00eas de esquerda \u2013 Jacques Ranci\u00e8re \u2013 se referia de maneira levemente ir\u00f4nica ao eterno trabalho dos \u201creconstrutores\u201d. E, no entanto, \u00e9 o que cabe fazer. H\u00e1 uma situa\u00e7\u00e3o de crise no nosso campo pol\u00edtico. Vale dizer, para usar uma met\u00e1fora, que a condi\u00e7\u00e3o atual da esquerda \u00e9 a de um homem perdido na floresta: \u00e9 preciso encontrar uma sa\u00edda. Mas n\u00e3o partimos de um marco zero.<\/p>\n<p>Para come\u00e7o de conversa, \u00e9 preciso privilegiar a cr\u00edtica dos nossos erros e das nossas ilus\u00f5es. Mais do que por alguma indefini\u00e7\u00e3o quanto aos seus objetivos, a esquerda paga um pre\u00e7o muito alto pelas figuras aberrantes que se apresentaram e continuam a se apresentar como encarna\u00e7\u00f5es dela. Desde h\u00e1 mais ou menos um s\u00e9culo, o campo pol\u00edtico que privilegia a defesa de maior justi\u00e7a social foi acometido de um certo n\u00famero de doen\u00e7as que, se n\u00e3o chegaram a mat\u00e1-lo, tampouco foram plenamente curadas. Apesar de tudo o que j\u00e1 se escreveu sobre essas formas aberrantes, h\u00e1 que voltar a elas de maneira sistem\u00e1tica. Sem esse trabalho, n\u00e3o escaparemos dos impasses atuais, por mais que se possa encontrar uma sa\u00edda provis\u00f3ria \u2013 e sempre inst\u00e1vel \u2013 para esta ou aquela situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A primeira e mais importante forma aberrante que a esquerda assumiu no \u00faltimo s\u00e9culo foi a do totalitarismo. Por isso mesmo muitas vezes se afirmou que a esquerda levou um enorme baque, se n\u00e3o o baque definitivo, com o fim do chamado socialismo de caserna \u2013 cuja hist\u00f3ria terminou, pelo menos em termos simb\u00f3licos, com a queda do Muro de Berlim em 1989. Ou, de forma mais radical, se disse e afirmou que foi justamente a experi\u00eancia terr\u00edvel do totalitarismo \u2013 no caso, do totalitarismo de esquerda \u2013 a respons\u00e1vel por desferir um golpe mortal no projeto da esquerda. Na realidade, o golpe foi imenso, mas a trajet\u00f3ria da esquerda n\u00e3o termina a\u00ed. O colapso do totalitarismo igualitarista \u00e9, na realidade, um ponto de partida e dele nasce uma por\u00e7\u00e3o de perguntas. Que representou o socialismo de caserna, o socialismo de estilo quase militar, cuja encarna\u00e7\u00e3o primeira se deu na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica? Por que raz\u00f5es ele caiu? Em que medida ele representava efetivamente um ideal que se poderia chamar de socialista? E mais: houve outras deforma\u00e7\u00f5es al\u00e9m daquela que ele implicou? Se houve, que significam e como se explica a emerg\u00eancia delas? Essas m\u00faltiplas perguntas p\u00f5em na ordem do dia a interroga\u00e7\u00e3o mais geral: ser\u00e1 que n\u00e3o haveria mais futuro para a esquerda depois da queda do Muro, como pretendem os ide\u00f3logos mais radicais do sistema dominante?<\/p>\n<p>Estou convencido de que \u00e9 falsa a tese de que a esquerda foi mortalmente ferida com a queda do Muro. Fico mesmo tentado a afirmar a tese contr\u00e1ria: a de que ela nasce \u2013 ou melhor, renasce \u2013 justamente com a crise do \u201ccomunismo\u201d. Mas \u00e9 tamb\u00e9m verdade que, desde essa crise, a esquerda vive uma situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil. H\u00e1 uma ofensiva ideol\u00f3gica e pol\u00edtico-pr\u00e1tica da direita, no Brasil e no mundo, para a qual a esquerda tem tido dificuldade de encontrar a resposta adequada.<\/p>\n<p>Acresce que o totalitarismo igualitarista n\u00e3o foi a \u00fanica patologia da esquerda no \u00faltimo s\u00e9culo. Houve m\u00faltiplos \u201cdesvios\u201d em rela\u00e7\u00e3o ao que se poderia considerar como o encaminhamento original da esquerda. Pode parecer uma banalidade \u2013 para alguns, a ideia parecer\u00e1, ao contr\u00e1rio, uma heresia \u2013, mas a primeira coisa a fazer \u00e9 dissociar o projeto da esquerda da maioria dos projetos e pol\u00edticas que se apresentaram como representativos dela, nos \u00faltimos 100 anos, na forma de pr\u00e1ticas de Estado ou de partido, ou mesmo enquanto corpo de ideias. Minha hip\u00f3tese \u00e9 a de que o ponto de partida de um eventual trabalho de reconstru\u00e7\u00e3o tem de ser a consci\u00eancia de que vivemos no \u00faltimo s\u00e9culo, por diferentes raz\u00f5es e sob diferentes formas, em algo assim como um per\u00edodo de aliena\u00e7\u00e3o radical do projeto de esquerda em rela\u00e7\u00e3o ao que ela representou na sua origem.<\/p>\n<p>Ou\u00e7o j\u00e1 a obje\u00e7\u00e3o que se far\u00e1 a essa proposta: para salvar a esquerda, voc\u00ea p\u00f5e entre par\u00eanteses a esquerda realmente existente e se refugia numa outra, que s\u00f3 existe no seu esp\u00edrito. Entendo o argumento, mas ele falseia a natureza do problema. Ali\u00e1s, a respeito do argumento, leio um texto em que um articulista \u2013 muito embalado com os ares do tempo, como ali\u00e1s todo direitista-novo \u2013 resolve dar uma li\u00e7\u00e3o de realismo a uma mo\u00e7a que, embora n\u00e3o acredite em St\u00e1lin nem em Fidel Castro, acha entretanto que o socialismo verdadeiro \u00e9 outra coisa. Aspirando fundo no senso comum conservador do p\u00f3s-impeachment, o articulista tripudia sobre o irrealismo da mo\u00e7a: ela teria introduzido sub-repticiamente um pretenso socialismo verdadeiro sob a mis\u00e9ria do socialismo real, o \u00fanico que existiu efetivamente, algo que de resto ela \u00e9 incapaz de enxergar. E, no entanto, \u00e9 preciso lembrar: houve a Inquisi\u00e7\u00e3o, houve o papa B\u00f3rgia, a Noite de S\u00e3o Bartolomeu, o reacionarismo de uma fieira de pont\u00edfices mais ou menos renomados, a atitude covarde, para dizer o m\u00ednimo, do papa Pio XII durante a Segunda Guerra Mundial, houve e h\u00e1 a homofobia, a oposi\u00e7\u00e3o ao div\u00f3rcio \u2013 enfim, uma longa hist\u00f3ria de erros e horrores do cristianismo realmente existente \u2013 e, no entanto, seria mesmo t\u00e3o irrealista dizer que apesar de tudo o cristianismo verdadeiro \u00e9 outra coisa? No caso da esquerda, bem entendido, n\u00e3o se trata de religi\u00e3o, mas, enquanto ilustra\u00e7\u00e3o e \u201cep\u00edgrafe\u201d, a compara\u00e7\u00e3o \u00e9 \u00fatil.<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">N<\/span>\u00e3o estou propondo, como j\u00e1 indiquei, uma volta a um marco zero. J\u00e1 me opus explicitamente a essa atitude. O que \u00e9 preciso erradicar de forma eficaz s\u00e3o representa\u00e7\u00f5es ilus\u00f3rias que se propagaram na esquerda. Erradicar pr\u00e1ticas tamb\u00e9m, \u00e9 claro. Mas n\u00e3o se trata de p\u00f4r entre par\u00eanteses tudo o que a esquerda fez e faz, mesmo quando o faz no interior de uma perspectiva que pode ter muito de ilus\u00f3ria<em>. <\/em>Em 1968, para dar um exemplo, muita gente se exprimia na linguagem do maoismo ou do trotskismo. Nem por isso o movimento de 1968 deixou de ser um movimento libert\u00e1rio, ainda que as ideologias de vi\u00e9s autorit\u00e1rio que impregnaram parte dele limitassem o seu alcance.<\/p>\n<p>A esquerda lutou e luta, mesmo se sob bandeiras que muitas vezes s\u00e3o amb\u00edguas ou duvidosas. As grandes greves oper\u00e1rias na Europa e na Am\u00e9rica Latina n\u00e3o deixaram de ser grandes movimentos porque se fizeram, muitas vezes, sob dire\u00e7\u00f5es social-democratas, populistas ou stalinistas. A campanha contra o impeachment no Brasil foi um importante movimento, a ser sempre saudado e comemorado, embora tenha sido feito sob a hegemonia de um partido que n\u00e3o \u00e9 propriamente um modelo. Enfim, n\u00e3o pretendo substituir isto que a\u00ed est\u00e1 por um movimento novo. N\u00e3o se trata de trocar o movimento real por um movimento ideal. Trata-se de combater infec\u00e7\u00f5es de ideias que prejudicam o movimento.<\/p>\n<p>Dito de outra forma: as doen\u00e7as da esquerda s\u00e3o graves porque elas limitam o alcance da sua atividade e d\u00e3o armas aos advers\u00e1rios. Mas n\u00e3o s\u00e3o doen\u00e7as que fa\u00e7am com que esses movimentos deixem de ser, na sua imensa maioria, movimentos de liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso partir, contudo, de uma realidade horr\u00edvel e brutal. Uma das tend\u00eancias da esquerda, nascida na R\u00fassia no in\u00edcio do s\u00e9culo XX\u00a0e que mais tarde se tornou mais ou menos hegem\u00f4nica na esquerda mundial, conduziu a um resultado catastr\u00f3fico. Ela nasceu de um partido autorit\u00e1rio que, depois de algumas perip\u00e9cias, deu origem a um Estado totalit\u00e1rio e at\u00e9 mesmo, a partir dele, a um sistema de Estados totalit\u00e1rios. Isso quer dizer: Estados em que se negavam todas as liberdades civis e pol\u00edticas aos seus supostos cidad\u00e3os, e que tinham como projeto uma domina\u00e7\u00e3o total do indiv\u00edduo. O balan\u00e7o da experi\u00eancia totalit\u00e1ria de esquerda \u00e9 o de muitas dezenas de milh\u00f5es de mortos, sendo os pontos altos desse massacre a fome stalinista dos anos 30 \u2013 que atingiu os camponeses da Ucr\u00e2nia e do sul da R\u00fassia \u2013 e o Grande Salto para a Frente, projeto delirante de crescimento econ\u00f4mico e industrializa\u00e7\u00e3o hiperb\u00f3licos de Mao Ts\u00e9-tung, na China, entre 1958 e 1961. Pode-se acrescentar a essa lista, sem hesita\u00e7\u00e3o, o \u201cgrande terror\u201d na URSS, nos anos 30, e a Revolu\u00e7\u00e3o Cultural Chinesa, que come\u00e7a em 1966, com prolongamentos que v\u00e3o at\u00e9 a morte de Mao, dez anos depois. <em>Not least<\/em>, a fa\u00e7anha sangrenta de Pol Pot e companhia, com seus cerca de 2 milh\u00f5es de mortos, mais ou menos um quarto da popula\u00e7\u00e3o do Camboja.<\/p>\n<p>O que h\u00e1 de enorme em tudo isso, circunst\u00e2ncia sobre a qual \u00e9 preciso continuar refletindo, \u00e9 que a \u201cfolha de servi\u00e7os\u201d prestados pelos partidos e Estados totalit\u00e1rios representa o oposto exato do que se pode considerar como o ide\u00e1rio da esquerda, no seu projeto original. Isto \u00e9: o destino de uma parte da esquerda foi o de negar, de maneira brutal, tudo aquilo que ela propunha na origem: igualdade, liberdade, solidariedade, respeito m\u00fatuo entre cidad\u00e3os e governantes, justi\u00e7a social. Claro que sempre se pode falar das famosas \u201cconquistas\u201d do \u201ccomunismo\u201d no plano da seguridade social e em parte da educa\u00e7\u00e3o, mas elas foram na realidade mais \u201cavan\u00e7os\u201d do que conquistas, porque foram prec\u00e1rias e n\u00e3o compensaram a enormidade da viol\u00eancia criminosa dos Estados totalit\u00e1rios.<\/p>\n<p>Assim, a partir do leninismo, assistiu-se ao nascimento de um leque de formas no interior do universo totalit\u00e1rio. E se considerarmos que o trotskismo reivindicou e reivindica uma heran\u00e7a leninista bastante ortodoxa, apesar de tudo, vemos que h\u00e1 uma pluralidade de modelos pol\u00edticos \u2013 leninismo, trotskismo, maoismo, stalinismo, castrismo \u2013 que ou encarnaram propriamente um projeto totalit\u00e1rio ou, pelo menos, n\u00e3o criticaram efetivamente o modelo totalit\u00e1rio e, de um modo ou de outro, continuaram presos a ele e lhe pagaram tributo.<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">M<\/span>as qual a situa\u00e7\u00e3o atual do modelo totalit\u00e1rio no Brasil e no mundo?<\/p>\n<p>Pode-se dizer que, na Europa, a cr\u00edtica do totalitarismo dentro da esquerda avan\u00e7ou muito. H\u00e1 muito pouca gente de esquerda que continue a acreditar em St\u00e1lin; e mesmo correntes leninistas, trotskistas ou castristas s\u00e3o claramente minorit\u00e1rias. Entretanto, \u00e9 preciso observar que h\u00e1 ainda te\u00f3ricos neototalit\u00e1rios bem conhecidos do grande p\u00fablico que defendem, de uma forma ou de outra, a heran\u00e7a totalit\u00e1ria, ou pelo menos uma parte dela. \u00c9 principalmente o caso de dois fil\u00f3sofos: o franc\u00eas Alain Badiou e o esloveno Slavoj \u017di\u017eek. O primeiro pratica uma esp\u00e9cie de neomaoismo, reivindicando em particular as pr\u00e1ticas dominantes em pelo menos um dos per\u00edodos da Revolu\u00e7\u00e3o Cultural; o segundo \u00e9 mais amb\u00edguo, mas a sua atitude em rela\u00e7\u00e3o ao passado, inclusive no que se refere a St\u00e1lin, \u00e9 pelo menos duvidosa. Esses dois personagens tiveram e t\u00eam certo sucesso perante o p\u00fablico europeu. Inclusive bons jornais de esquerda, como o <em>Lib\u00e9ration<\/em>, lhes deram, at\u00e9 h\u00e1 pouco tempo, bastante aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No Brasil, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito diferente \u2013 e muito mais s\u00e9ria. H\u00e1 na extrema esquerda v\u00e1rios pequenos partidos \u2013 PSTU, PCdoB, PCO, entre outros \u2013 que reivindicam o leninismo, o trotskismo, o castrismo \u2013 \u00e0s vezes, mais de uma dessas figuras \u2013 e, em pelo menos um caso, o stalinismo. Essas tend\u00eancias existem igualmente na Europa, onde s\u00e3o tamb\u00e9m minorit\u00e1rias. S\u00f3 que, aqui, elas t\u00eam certo peso \u2013 de maneira mais evidente no plano das organiza\u00e7\u00f5es estudantis. Infelizmente, n\u00e3o ficamos nisso: se passarmos desses movimentos radicais e minorit\u00e1rios ao PT, nosso principal partido de esquerda, veremos que, se o prest\u00edgio das ideologias neototalit\u00e1rias muda, n\u00e3o muda tanto quanto seria de esperar. \u00c9 not\u00f3rio que uma parcela consider\u00e1vel de simpatizantes e militantes petistas tem certas ilus\u00f5es com rela\u00e7\u00e3o a partidos e movimentos totalit\u00e1rios. Pelo menos parte do n\u00facleo pr\u00f3-castrista mais duro, no Brasil, pertence ao PT, e n\u00e3o a partidos que em princ\u00edpio se situam mais \u00e0 esquerda. E muita gente do PSOL, partido de semiextrema esquerda, tamb\u00e9m compartilha dessas ilus\u00f5es.<\/p>\n<p>Deve-se considerar tamb\u00e9m, nesse contexto, o papel dos ativistas que militam principalmente nas universidades, e que promovem certo tipo de ocupa\u00e7\u00f5es, ou ocupa\u00e7\u00f5es em s\u00e9rie, \u201ccadeira\u00e7os\u201d e outros abusos. O caso mais grave \u00e9 provavelmente o da Universidade de S\u00e3o Paulo. Trata-se em parte de militantes de grupos de extrema esquerda, mas h\u00e1 tamb\u00e9m os que pertencem a partidos de esquerda supostamente mais moderada, al\u00e9m de neoanarquistas e similares. A observar que os ativistas s\u00e3o muito minorit\u00e1rios entre os estudantes, e tamb\u00e9m que eles muitas vezes agem contra as decis\u00f5es das assembleias, onde se decide democraticamente. O modelo totalit\u00e1rio est\u00e1 muito presente nessas pr\u00e1ticas. Bem entendido, o problema da universidade n\u00e3o come\u00e7a a\u00ed. Durante anos houve movimentos perfeitamente justific\u00e1veis por parte dos estudantes \u2013 apoiados por muitos professores \u2013 contra a burocracia universit\u00e1ria, a falta de verbas, as dif\u00edceis condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Mas um grande n\u00famero de professores foi perfeitamente indiferente a essas reivindica\u00e7\u00f5es; isso se n\u00e3o as denunciou como demagogia irrespons\u00e1vel. As burocracias universit\u00e1rias e uma massa consider\u00e1vel de docentes de direita contribu\u00edram, e muito, n\u00e3o esque\u00e7amos, para a deteriora\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o. A Pol\u00edcia Militar n\u00e3o entrou de m\u00e3o leve, ao fazer as desocupa\u00e7\u00f5es, o que \u00e9 absolutamente intoler\u00e1vel. Tudo considerado, contudo, o tipo de viol\u00eancia de esquerda a que se tem assistido h\u00e1 alguns anos na USP\u00a0\u00e9 propriamente lament\u00e1vel. Que a esquerda n\u00e3o se engane: seus efeitos s\u00e3o negativos. Pode levar \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o da universidade. E tal tipo de movimento s\u00f3 pode beneficiar a direita, como ali\u00e1s j\u00e1 vem acontecendo.<\/p>\n<p>Se passarmos da pr\u00e1tica pol\u00edtica ao campo do pensamento, verifica-se que tamb\u00e9m o peso das ideias neototalit\u00e1rias continua sendo importante na esquerda brasileira. Observo que \u017di\u017eek e Badiou s\u00e3o mais ou menos bem recebidos nos meios de esquerda, embora a sua fama seja relativa. De qualquer maneira, n\u00e3o faltam resenhas elogiosas aos seus trabalhos, inclusive na pena de gente que pertence a organiza\u00e7\u00f5es de esquerda n\u00e3o muito radicais \u2013 ao PT, por exemplo.<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">A<\/span>ssim, n\u00e3o nos livramos inteiramente da peste totalit\u00e1ria. Bem entendido, o mundo tamb\u00e9m n\u00e3o se livrou. Al\u00e9m dos limites da cr\u00edtica europeia, a que fiz refer\u00eancia, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 confusa, porque agora temos poderes de Estado ao mesmo tempo totalit\u00e1rios \u2013 totalit\u00e1rios de esquerda \u2013 e capitalistas. \u00c9 o caso da China. Ora, uma cura total em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 doen\u00e7a totalit\u00e1ria \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 indispens\u00e1vel em termos te\u00f3ricos \u2013 n\u00e3o h\u00e1 como eliminar a democracia dos fundamentos te\u00f3ricos da esquerda \u2013, mas ela se imp\u00f5e do ponto de vista pr\u00e1tico, e com urg\u00eancia. Quem hoje no \u201cgrande p\u00fablico\u201d acredita no totalitarismo? Que \u201copini\u00e3o p\u00fablica\u201d nacional ou internacional se disp\u00f5e a aceitar o totalitarismo? Quando fazem o elogio do castrismo, os militantes de certos partidos de esquerda e de extrema esquerda querem dizer com isso que esse seria o regime ideal para o Brasil? N\u00e3o sei se pensam assim, mas tudo fica pelo menos numa regi\u00e3o cinzenta, num claro-escuro. Certas declara\u00e7\u00f5es dessa ou daquela figura daqueles partidos sugerem que sim.<\/p>\n<p>Ora, um projeto desses \u00e9 um suic\u00eddio pol\u00edtico, a curto, m\u00e9dio e longo prazo. Quem desejaria um governo de tipo castrista no Brasil? De minha parte, se por acaso isso viesse a acontecer, tomaria o caminho do ref\u00fagio em alguma embaixada. De onde vem esse temor de cortar o fio que nos prenderia aos regimes totalit\u00e1rios? Provavelmente de um medo de se \u201cisolar da hist\u00f3ria\u201d, de perder suas bases reais, de se desligar da \u201cexperi\u00eancia concreta\u201d da esquerda no mundo. Mas isso \u00e9 uma ilus\u00e3o. A esquerda sempre representou uma ideia de ruptura. Ruptura com o capitalismo, \u00e9 claro. Mas tamb\u00e9m ruptura com todas as formas de opress\u00e3o, mesmo aquelas que se pretendem progressistas \u2013 incluindo a\u00ed as que eventualmente o foram, no passado. Partidos, movimentos e regimes apodrecem. Eles mudam muito e podem se transformar no seu contr\u00e1rio, \u00e0s vezes conservando antigas denomina\u00e7\u00f5es. Se a esquerda n\u00e3o for capaz de distinguir bem os nomes das coisas, estamos perdidos, porque a hist\u00f3ria \u00e9 em grande parte um jogo de esconde-esconde que mobiliza e embaralha esses dois elementos: os nomes, de um lado, e os processos hist\u00f3ricos efetivos, no sentido do progresso ou da regress\u00e3o \u2013 porque h\u00e1 regress\u00f5es hist\u00f3ricas, \u00e9 bom n\u00e3o esquecer \u2013, de outro. Enfim, imp\u00f5e-se uma plena e absoluta supera\u00e7\u00e3o cr\u00edtica \u2013 tanto no plano da pr\u00e1tica como no da teoria \u2013 do interregno totalit\u00e1rio. S\u00f3 nessas condi\u00e7\u00f5es a esquerda tem futuro. Sem isso, n\u00e3o sairemos da floresta.<\/p>\n<p><strong>ADESISMO E POPULISMO<\/strong><\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">E<\/span>mbora grave, o totalitarismo n\u00e3o foi o \u00fanico grande \u201cdesvio\u201d tomado pela esquerda em rela\u00e7\u00e3o aos seus verdadeiros ideais nos \u00faltimos 100 anos. Pelo menos duas outras importantes patologias caracterizaram o per\u00edodo. Elas podem ser chamadas, simplificando bastante as coisas, de \u201cadesismo\u201d e de \u201cpopulismo\u201d.<\/p>\n<p>Essa n\u00e3o \u00e9, de toda forma, uma constata\u00e7\u00e3o nova. Aqueles que fizeram a cr\u00edtica dos totalitarismos de esquerda frequentemente os consideravam como sendo apenas um dos polos de um processo \u2013 em geral bipolar \u2013 de degeneresc\u00eancia da esquerda. Fazendo <em>pendant<\/em> \u00e0 cr\u00edtica \u00e0 esquerda totalit\u00e1ria vinha um segundo bloco cr\u00edtico, cujo objeto era uma outra degeneresc\u00eancia, considerada como mais ou menos sim\u00e9trica \u00e0 primeira, e em geral chamada de \u201creformismo\u201d. Hoje seria melhor falar em adesismo do que em reformismo \u2013 afinal, se a diferen\u00e7a entre \u201creforma\u201d e \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d n\u00e3o desapareceu, pelo menos se tornou muito complexa; al\u00e9m disso, ocorre que o antigo reformismo tomou nas \u00faltimas d\u00e9cadas formas extremas, de pura e simples capitula\u00e7\u00e3o diante do sistema.<\/p>\n<p>Esse outro polo de degeneresc\u00eancia teria existido no Brasil? Parece-me que sim, e a melhor encarna\u00e7\u00e3o dele \u00e9 o que eu chamaria de \u201ccardosismo\u201d, a tend\u00eancia pol\u00edtica que se articulou em torno do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. O grupo de FHC\u00a0aos poucos se deslocou do que era uma posi\u00e7\u00e3o de centro-esquerda, \u00e0 \u00e9poca da funda\u00e7\u00e3o do PSDB, para uma de centro-direita (outros pol\u00edticos tucanos, como Geraldo Alckmin, por exemplo, podem ser simplesmente situados na direita, sem maiores qualifica\u00e7\u00f5es).<\/p>\n<p>H\u00e1 alguma coisa em comum entre Fernando Henrique Cardoso e Tony Blair, primeiro-ministro da Gr\u00e3-Bretanha entre 1997 e 2007, que, como l\u00edder do Partido Trabalhista, p\u00f4s em pr\u00e1tica uma pol\u00edtica econ\u00f4mica neoliberal. Num dos livros de mem\u00f3rias que escreveu \u2013 <em>The Accidental President of Brazil <\/em>\u2013, Fernando Henrique o afirma explicitamente. Trata-se, nos dois casos, de pol\u00edticos que originalmente se posicionavam \u00e0 esquerda, mas que acabaram aderindo ao sistema pol\u00edtico-econ\u00f4mico dominante. No caso de Blair, \u00e0 pol\u00edtica econ\u00f4mica de Margaret Thatcher.<\/p>\n<p>Como isso ocorreu, no caso de FHC\u00a0e dos seus amigos? A reconstitui\u00e7\u00e3o desse processo \u00e9 sempre dif\u00edcil. De toda forma, houve uma esp\u00e9cie de aceita\u00e7\u00e3o da ideia de que \u201cn\u00e3o haveria alternativa\u201d ao liberalismo econ\u00f4mico. A julgar pelo que Fernando Henrique Cardoso escreve no texto autobiogr\u00e1fico a que me referi, essa convic\u00e7\u00e3o vem fundada na percep\u00e7\u00e3o que ele teve \u2013 e tem \u2013 do significado do fim do \u201ccomunismo\u201d. A queda do Muro implicaria uma esp\u00e9cie de julgamento definitivo quanto \u00e0 vit\u00f3ria do capitalismo. O destino do \u201csocialismo de caserna\u201d mostraria que n\u00e3o h\u00e1 outra sa\u00edda. Conclus\u00e3o apressada, evidentemente.<\/p>\n<p>D\u00e1 o que pensar o destino que acabou tendo o antigo soci\u00f3logo cr\u00edtico, importante intelectual da esquerda. E tamb\u00e9m o de gente como o atual ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, Jos\u00e9 Serra, ex-l\u00edder estudantil exilado pela ditadura. O destino deles me parece um pouco melanc\u00f3lico. \u00c9 verdade que em alguns membros daquele grupo, como tamb\u00e9m em Blair, sobrou algum verniz de esquerda \u2013 mas nunca muito mais do que um verniz.<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">A\u00a0<\/span>terceira figura patol\u00f3gica da esquerda \u00e9 a que se designa pelo termo gen\u00e9rico de \u201cpopulismo\u201d. Mas a que ela corresponde, precisamente? Como definir o populismo? E como definir a situa\u00e7\u00e3o do partido de esquerda at\u00e9 aqui hegem\u00f4nico no Brasil \u2013 o PT \u2013 em rela\u00e7\u00e3o ao populismo? O PT\u00a0\u00e9 um partido populista?<\/p>\n<p>Muito se discutiu a respeito do populismo de esquerda. Seus tra\u00e7os principais parecem ser a exist\u00eancia de uma lideran\u00e7a carism\u00e1tica autorit\u00e1ria; uma pol\u00edtica que une, pelo menos na apar\u00eancia, interesses de classes mais ou menos antag\u00f4nicas; e certo laxismo na administra\u00e7\u00e3o da riqueza p\u00fablica. A meu ver, mesmo quando falta algum desses tra\u00e7os, ainda assim \u00e9 poss\u00edvel falar em populismo, desde que os outros sejam suficientemente marcados. Por exemplo: no caso de Get\u00falio Vargas, h\u00e1 os dois primeiros fatores, mas n\u00e3o exatamente o \u00faltimo (Get\u00falio n\u00e3o enriqueceu no poder, embora tenha havido corrup\u00e7\u00e3o no seu governo). No caso de Adhemar de Barros, duas vezes governador de S\u00e3o Paulo entre os anos 40 e 60, os dois \u00faltimos aspectos \u2013 aparente concilia\u00e7\u00e3o de interesses de classe e toler\u00e2ncia com desvios na administra\u00e7\u00e3o da coisa p\u00fablica \u2013 s\u00e3o vis\u00edveis; j\u00e1 o primeiro, s\u00f3 imperfeitamente. Adhemar tinha certo carisma, mas n\u00e3o de tipo autorit\u00e1rio. Creio, entretanto, que Adhemar e Get\u00falio, cada um a seu modo, podem ambos ser considerados como l\u00edderes populistas.<\/p>\n<p>No caso do PT, tamb\u00e9m falta, \u00e0 sua maneira, o elemento autorit\u00e1rio. O carisma est\u00e1 l\u00e1, ainda que menos pronunciado do que no caso de um Juan Domingo Per\u00f3n, de um Hugo Ch\u00e1vez ou de um Get\u00falio Vargas. Mas, sobretudo, houve certamente laxismo \u2013 \u00e9 o m\u00ednimo que se poderia dizer \u2013 nas suas pr\u00e1ticas administrativas. Entretanto, saber se o PT\u00a0pode ou n\u00e3o ser chamado de populista n\u00e3o \u00e9 o mais importante. Pelo menos do ponto de vista pr\u00e1tico, o essencial \u00e9 insistir sobre o fato, indiscut\u00edvel a meu ver, de que o partido n\u00e3o \u201cerrou\u201d simplesmente, como pretendem alguns. O partido n\u00e3o se limitou a \u201ccometer certos erros\u201d. Erros, ali\u00e1s, se reconhecem at\u00e9 da m\u00e3e\u2026 Houve, na verdade, um sistema deliberado de poder e de administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica que era errado.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica petista foi e \u00e9 uma pr\u00e1tica patol\u00f3gica e, nesse sentido, compar\u00e1vel <em>mutatis mutandis<\/em> \u00e0 pol\u00edtica dos neototalit\u00e1rios e \u00e0 dos reformistas-adesistas. Isso n\u00e3o quer dizer que os governos do PT\u00a0n\u00e3o tenham feito nada de positivo, que o balan\u00e7o global da sua trajet\u00f3ria seja puramente negativo. Na realidade, o PT\u00a0p\u00f4s em pr\u00e1tica uma pol\u00edtica de redistribui\u00e7\u00e3o de renda cujos instrumentos principais foram o Programa Bolsa Fam\u00edlia, a valoriza\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo e certas facilidades de cr\u00e9dito para setores n\u00e3o privilegiados. Al\u00e9m de ter garantido, pelo menos na cidade, uma atmosfera democr\u00e1tica \u2013 ainda que, durante os dois grandes eventos esportivos internacionais, o governo petista tenha sido brutal com certos n\u00facleos da popula\u00e7\u00e3o urbana \u2013 e de ter assegurado, o que governos anteriores n\u00e3o fizeram, a independ\u00eancia da Pol\u00edcia Federal e do Minist\u00e9rio P\u00fablico.<\/p>\n<p>O programa redistributivo, ou parte dele, obteve \u00eaxito consider\u00e1vel, o que \u00e9 reconhecido mesmo pelos advers\u00e1rios. S\u00f3 que esse programa n\u00e3o s\u00f3 veio ligado a uma pol\u00edtica de \u201calian\u00e7a de classes\u201d \u2013 algo que, em si mesmo, conforme as condi\u00e7\u00f5es, poderia ser tolerado \u2013 como tamb\u00e9m associado a um uso abusivo da m\u00e1quina do Estado em benef\u00edcio do partido e de particulares ligados a ele. \u00c9 esse o lado intoler\u00e1vel.<\/p>\n<p>Mas j\u00e1 que se admite que houve um lado positivo na trajet\u00f3ria petista, imp\u00f5e-se a pergunta que, impl\u00edcita ou explicitamente, recebe uma resposta positiva por parte de muitos dirigentes, te\u00f3ricos e simpatizantes do PT: valeu a pena a \u201copera\u00e7\u00e3o\u201d? Isto \u00e9, foi correto corromper deputados, desviar dinheiro p\u00fablico, vender cargos p\u00fablicos, entre outras ilegalidades, para se sustentar no poder e com isso implementar medidas redistributivas? \u00c9 isso que est\u00e1 por tr\u00e1s do racioc\u00ednio de muita gente ligada de algum modo ao PT. \u201cFizemos o que tinha de ser feito\u201d, dizem ou pensam eles, e o resultado a\u00ed est\u00e1. Pelo menos o Bolsa Fam\u00edlia ningu\u00e9m considera liquidar inteiramente.<\/p>\n<p>Na realidade, esse racioc\u00ednio \u00e9 falso. O impasse a que o PT\u00a0conduziu a esquerda brasileira n\u00e3o paga o pre\u00e7o do que resta, isto \u00e9, os resultados obtidos por sua pol\u00edtica redistributiva. N\u00e3o s\u00f3 o partido perdeu o poder, mas, queiramos ou n\u00e3o \u2013 e apesar de a esquerda independente n\u00e3o ter sido em nada respons\u00e1vel por aqueles desvios \u2013, a esquerda em geral saiu desmoralizada ao final dos anos de Lula e Dilma na Presid\u00eancia. A direita, por sua vez, incluindo a\u00ed a extrema direita, levantou a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>N\u00e3o se diga que a corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 end\u00eamica na pol\u00edtica brasileira. Isso \u00e9 verdade, mas n\u00e3o justifica. O PT\u00a0nasceu como um partido que precisamente visava romper com esse tipo de pr\u00e1tica, ao mesmo tempo que a legenda tamb\u00e9m se manifestava como estranha ao modelo leninista ou stalinista, de um lado, e ao modelo social-democrata, de outro. Que o sistema pol\u00edtico brasileiro seja visceralmente corrupto n\u00e3o absolve o PT. Poder\u00edamos mesmo dizer: \u00e9 normal que a direita nade na corrup\u00e7\u00e3o, mas toda esquerda s\u00e9ria \u00e9 hostil a esse tipo de coisas. O que n\u00e3o significa que o fato de a corrup\u00e7\u00e3o ser generalizada n\u00e3o desmascare a pol\u00edtica da direita. Por outras palavras, \u00e9 necess\u00e1rio criticar a fundo o modelo petista, mas ao mesmo tempo desmascarar a jogada da direita, segundo a qual s\u00f3 o PT\u00a0rouba.<\/p>\n<p>Mas, insistem alguns \u2013 e isso n\u00e3o \u00e9 simples hip\u00f3tese, o argumento est\u00e1 na boca de muita gente \u2013, \u201csem as pr\u00e1ticas corruptas n\u00e3o ter\u00edamos chegado ao poder\u201d. E, nesse caso, nada de medidas de redistribui\u00e7\u00e3o. Nesse plano, o pa\u00eds estaria onde estava no in\u00edcio do s\u00e9culo, mesmo que contasse com um partido de esquerda hegem\u00f4nico irreproch\u00e1vel. Na realidade, esse caminho, o que <em>n\u00e3o<\/em> foi seguido pelo partido e que parece irrealista, porque ligado a algo como uma \u201c\u00e9tica da convic\u00e7\u00e3o\u201d, teria sido o \u00fanico aceit\u00e1vel.<\/p>\n<p>O que teria acontecido nessa hip\u00f3tese? Talvez o PT\u00a0tivesse tido maior dificuldade para chegar ao poder. Talvez tivesse obtido, nos anos seguintes, apenas poderes executivos estaduais ou municipais. Ainda assim \u2013 mesmo nessa hip\u00f3tese pessimista quanto ao sucesso eleitoral do partido \u2013, o ganho teria sido consider\u00e1vel. O PT\u00a0apareceria como um grande partido de esquerda independente, que sem d\u00favida a direita tentaria derrubar, de qualquer jeito, mas sem dispor dos mesmos meios para levar a cabo esse projeto. O seu prest\u00edgio nacional e internacional seria imenso. Mesmo n\u00e3o dispondo de todo poder governamental, projetos como o Bolsa Fam\u00edlia poderiam provavelmente ser implementados nos estados ou nos munic\u00edpios. N\u00e3o tenho d\u00favida de que, apesar de tudo, essa op\u00e7\u00e3o seria de longe prefer\u00edvel \u00e0quela pela qual enveredou o petismo. Uma op\u00e7\u00e3o cujo resultado catastr\u00f3fico estamos vivendo no presente: uma direita em plena ofensiva, uma esquerda golpeada e de certo modo desmoralizada, um pa\u00eds em pleno retrocesso pol\u00edtico.<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">O\u00a0<\/span>petismo e os populismos em geral, <em>sui generis<\/em> ou n\u00e3o, representam a terceira patologia da esquerda. Certamente a que mais nos atinge. A mais grave, no momento presente. Caberia portanto saber o que dizem alguns dos mais importantes intelectuais petistas a esse respeito, e examinar os seus argumentos. Que me seja permitido dizer alguma coisa sobre as interven\u00e7\u00f5es recentes e menos recentes de minha colega Marilena Chaui, professora de filosofia da USP, certamente a figura intelectual mais conhecida da fam\u00edlia petista.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m dos velhos la\u00e7os de amizade e de lealdades acad\u00eamicas, \u00e9 preciso afirmar com todas as letras: o discurso pol\u00edtico de Marilena Chaui tem representado uma verdadeira cat\u00e1strofe para a esquerda. Sen\u00e3o, vejamos. Por ocasi\u00e3o do mensal\u00e3o, Chaui tomou a defesa do PT\u00a0\u2013 e praticamente n\u00e3o fez nenhuma cr\u00edtica ao partido ou a sua dire\u00e7\u00e3o. Agora, com a Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato e esc\u00e2ndalos sucessivos envolvendo, certo, n\u00e3o s\u00f3 o PT, mas tamb\u00e9m o PT, a sua atitude n\u00e3o foi diferente. Tivemos uma defesa intransigente do partido \u2013 n\u00e3o se ouviu da professora de filosofia praticamente nenhuma cr\u00edtica \u00e0 legenda \u2013 e, o que \u00e9 pior, a defesa se fez na base de uma enxurrada verbal arbitr\u00e1ria. Assim, contra todas as evid\u00eancias, Chaui continua insistindo no car\u00e1ter \u201cfascista\u201d da pequena burguesia. Na realidade uma parte da pequena burguesia \u00e9, digamos, fascistizante, outra parte hesita, e uma terceira, constitu\u00edda sobretudo por gente com forma\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria ou universit\u00e1ria, est\u00e1 na verdade afinada com a esquerda e, frequentemente, com o melhor da esquerda. Quanto \u00e0 Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato \u2013 fen\u00f4meno complexo, ao qual n\u00e3o se pode deixar de atribuir, em princ\u00edpio, efeitos positivos, apesar dos erros e desmandos de alguns dos seus \u201coperadores\u201d \u2013, Chaui a desmistifica: afirma, sem se dar ao trabalho de provar o que diz, que o juiz Sergio Moro teria sido treinado pela Ag\u00eancia de Intelig\u00eancia Americana, a CIA, para levar adiante um projeto de entrega do pr\u00e9-sal aos norte-americanos.<\/p>\n<p>Uma interven\u00e7\u00e3o recente de Marilena Chaui me interessou particularmente. Por ocasi\u00e3o de um debate com outros intelectuais, e porque se falasse da necessidade de reconhecer os erros do PT, Chaui fez quest\u00e3o de deslegitimar todo projeto de \u201cautocr\u00edtica\u201d. Explicou aos participantes do debate e \u00e0 plateia que \u201cautocr\u00edtica\u201d era coisa da pol\u00edtica totalit\u00e1ria, pol\u00edtica terr\u00edvel como se sabe, e que seria preciso recus\u00e1-la a todo custo. P\u00f4s-se ent\u00e3o a falar longamente da autocr\u00edtica em regime totalit\u00e1rio, ou dentro de um partido totalit\u00e1rio. Com esse tipo de discurso, Marilena Chaui n\u00e3o apenas \u201csaiu do tema\u201d \u2013 discutia-se o PT, e n\u00e3o o regime e os partidos totalit\u00e1rios \u2013, mas fez mais do que isso. Com seu discurso contra a autocr\u00edtica em regime totalit\u00e1rio, ela lan\u00e7ou uma cortina de fuma\u00e7a sobre o que se passava e se passa no seu partido. A autocr\u00edtica for\u00e7ada em regime totalit\u00e1rio se tornou a mesma coisa que qualquer autocr\u00edtica, a mesma coisa que a autocr\u00edtica em geral. Ou, preferindo, o mal-estar que se pode sentir, efetivamente, diante da <em>palavra<\/em> \u201cautocr\u00edtica\u201d \u2013 pelo que evoca, a palavra se tornou de fato horr\u00edvel \u2013 tornou-se, no discurso de Chaui, uma arma para impedir qualquer explica\u00e7\u00e3o autocr\u00edtica por parte do PT. Acontece que, se a palavra \u00e9 ruim, a \u201ccoisa\u201d pode ser boa (embora n\u00e3o na vers\u00e3o stalinista, como \u00e9 \u00f3bvio).<\/p>\n<p>Mas o que quer dizer Marilena Chaui quando exorciza a autocr\u00edtica no presente contexto? Ser\u00e1 que ela quer dizer, por acaso, que <em>mutatis mutandis<\/em> a situa\u00e7\u00e3o dos acusados do mensal\u00e3o e investigados pela Lava Jato seria an\u00e1loga \u00e0 dos acusados nos processos stalinistas? Jos\u00e9 Dirceu seria, assim, uma esp\u00e9cie de Bukharin, o l\u00edder bolchevique falsamente acusado, perseguido por St\u00e1lin e condenado \u00e0 morte? Antonio Palocci, por sua vez, seria um Lev Kamenev, outro l\u00edder sovi\u00e9tico descartado por St\u00e1lin? Os ju\u00edzes que atuaram no mensal\u00e3o ou que atuam na Lava Jato seriam os herdeiros de Andrey Vyshinsky, encarregado pelo ditador sovi\u00e9tico de levar a cabo o julgamento de seus inimigos? Isso significaria que as acusa\u00e7\u00f5es que se lhes fazem, de maneira an\u00e1loga ao que aconteceu nos processos de Moscou, remeteriam ao mais puro del\u00edrio? E que os protestos de inoc\u00eancia dos acusados exprimiriam as raz\u00f5es verdadeiras de gente inocente, injustamente acusada?<\/p>\n<p>Na realidade, quaisquer que sejam as cr\u00edticas que se possam fazer ao encaminhamento dos atuais processos por corrup\u00e7\u00e3o no Brasil \u2013 <em>n\u00e3o<\/em> me refiro \u00e0 quest\u00e3o do impeachment, que \u00e9 de outra ordem \u2013, a situa\u00e7\u00e3o real, guardadas as propor\u00e7\u00f5es, \u00e9 mais ou menos inversa \u00e0 dos processos stalinistas. Apesar das reservas que se podem fazer a tal ou qual iniciativa dos procuradores e ju\u00edzes operando nos processos do mensal\u00e3o e na Lava Jato, em linhas gerais \u2013 pelo menos at\u00e9 o show lament\u00e1vel do promotor Deltan Dallagnol \u2013 a acusa\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi delirante. J\u00e1 insustent\u00e1veis, se n\u00e3o delirantes, foram os protestos de inoc\u00eancia dos acusados e os protestos de inoc\u00eancia total do PT. \u00c9 a\u00ed que est\u00e1 a fic\u00e7\u00e3o. Assim, Marilena Chaui toma alhos por bugalhos. Ou, pior ainda, mistura tudo e nos oferece um mundo de cabe\u00e7a para baixo.<\/p>\n<p>Essa interven\u00e7\u00e3o de Chaui \u2013 que n\u00e3o \u00e9 um caso isolado \u2013 se revela uma pe\u00e7a de pura ret\u00f3rica. O problema com Marilena \u2013 n\u00e3o se trata de fazer carga gratuitamente contra Chaui, mas ela d\u00e1 o tom para os seus pares \u2013 \u00e9 que, infelizmente, ela se mostra seduzida demais pelo aplauso dos audit\u00f3rios. Ora, n\u00e3o h\u00e1 nada mais funesto, para a esquerda, do que esse tipo de sedu\u00e7\u00e3o. Porque, infelizmente, digamos as coisas brutalmente, be\u00f3cios n\u00e3o h\u00e1 somente no campo da direita. No nosso, \u00e9 preciso reconhecer, os h\u00e1 tamb\u00e9m \u2013 em n\u00famero consider\u00e1vel e, o que \u00e9 pior, muitos deles costumam frequentar os anfiteatros. Para eles, quanto mais ret\u00f3rico, no mau sentido, for um discurso, e quanto mais afetado for o modo como ele \u00e9 pronunciado, mais aplausos merecer\u00e1. Ilus\u00e3o funesta da oradora. Sim, o discurso \u00e9 aplaudido por algumas centenas de pessoas no momento em que \u00e9 pronunciado no audit\u00f3rio, e talvez venha mesmo a ser aplaudido por alguns milhares que poder\u00e3o assisti-lo em v\u00eddeo. Em compensa\u00e7\u00e3o, milh\u00f5es de pessoas que ter\u00e3o ci\u00eancia do seu conte\u00fado o repudiar\u00e3o, como de fato o repudiaram.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso distinguir com clareza a defesa de uma posi\u00e7\u00e3o de esquerda da defesa de um partido. As duas coisas n\u00e3o v\u00e3o sempre juntas. A esse respeito \u2013 e tamb\u00e9m quanto \u00e0 ret\u00f3rica \u2013, a posi\u00e7\u00e3o dos populistas \u00e9 infelizmente muito parecida com a dos totalit\u00e1rios. Se um daqueles velhos l\u00edderes stalinistas, que, sem d\u00favida, defendiam bem mais o seu partido do que a causa da esquerda, voltasse ao Brasil de hoje, que diria ele sobre os investigadores? Provavelmente o mesmo que disse Chaui: que eles s\u00e3o agentes do imperialismo ianque interessados em entregar as nossas riquezas.<\/p>\n<p>O exemplo de Marilena Chaui serve para que se diga o seguinte: se o discurso dominante na esquerda n\u00e3o mudar, perdemos hoje e perderemos sempre. A fala populista irrespons\u00e1vel diante da verdade nos condena \u00e0 derrota. Os aplausos dos ing\u00eanuos ou dos fan\u00e1ticos n\u00e3o s\u00e3o, certamente, uma compensa\u00e7\u00e3o suficiente.<\/p>\n<p><strong>O ATAQUE DA DIREITA<\/strong><\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">P<\/span>ois bem, as patologias de esquerda, cada uma a seu modo, entraram em crise. O imp\u00e9rio \u201ccomunista\u201d se desintegrou com a queda do Muro de Berlim, a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica se desfez, os regimes comunistas foram derrubados, em geral por movimentos pac\u00edficos, nos pa\u00edses da Europa Oriental. Restaram \u201cilhas\u201d comunistas, algumas com regime ortodoxo, sen\u00e3o hiperortodoxo, como a Coreia do Norte, outras articulando um neototalitarismo leninista-stalinista com uma economia de tipo capitalista, caso da China.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do totalitarismo de esquerda, a social-democracia europeia tamb\u00e9m entrou num processo \u201ccr\u00edtico\u201d, embora de um tipo diferente: ela se tornou cada vez menos reconhec\u00edvel enquanto for\u00e7a de contesta\u00e7\u00e3o do capitalismo. Tony Blair, na Gr\u00e3-Bretanha, e Gerhard Schr\u00f6der, primeiro-ministro alem\u00e3o de 1998 a 2005, lideraram esse processo ao colocarem em pr\u00e1tica programas econ\u00f4micos de cunho neoliberal em seus pa\u00edses. A social-democracia n\u00e3o se decomp\u00f4s com essa mudan\u00e7a, mas perdeu, isso sim, o seu car\u00e1ter de for\u00e7a pol\u00edtica da esquerda, algo que \u00e9 reconhecido mais ou menos universalmente. Por\u00e9m, houve mais: pelo menos em alguns pa\u00edses da Europa \u2013 Espanha e Fran\u00e7a, principalmente \u2013 os partidos social-democratas e socialistas tamb\u00e9m se enfraqueceram.<\/p>\n<p>O populismo entrou em crise e perdeu poder: Ch\u00e1vez encontrou dificuldades crescentes e, depois da sua morte, o regime bolivariano n\u00e3o se estabilizou; o processo descendente do peronismo, na Argentina, se intensificou com a derrota dos Kirchner; o lulismo \u2013 se for v\u00e1lido caracteriz\u00e1-lo como um \u201cpopulismo at\u00edpico\u201d \u2013 entrou em parafuso.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso de perguntar se as dificuldades que encontraram as patologias da esquerda s\u00e3o positivas ou negativas para uma esquerda aut\u00eantica. O fim do totalitarismo foi certamente uma boa coisa; j\u00e1 a decad\u00eancia de um partido como o PT\u00a0\u00e9 um fen\u00f4meno cujo significado \u00e9 bem mais amb\u00edguo. \u00c9 preciso considerar quem se beneficiou ou tomou o lugar dos partidos, movimentos e l\u00edderes totalit\u00e1rios. O mesmo vale para os grupos adesistas quando estes foram derrotados eleitoralmente, ou as agremia\u00e7\u00f5es populistas e semipopulistas. Infelizmente n\u00e3o foi, em geral, uma esquerda aut\u00eantica que se beneficiou desse processo. O lugar que ocupava a esquerda \u201cdeformada\u201d acabou sendo preenchido pela direita, e n\u00e3o por uma express\u00e3o qualquer de uma nova esquerda. Foi o que aconteceu, de forma geral, nos pa\u00edses do Leste Europeu. Para os populismos e semipopulismos, deu-se algo da mesma ordem \u2013 basta ver o caso da Argentina e tamb\u00e9m o do Brasil \u2013, mas as implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, aqui, s\u00e3o diferentes, precisamente porque n\u00e3o se tratava de totalitarismos.<\/p>\n<p>Assim, a derrota de uma certa esquerda \u2013 quase fict\u00edcia, no caso do totalitarismo \u2013 significou uma vit\u00f3ria da direita mais ou menos radical \u2013 o que n\u00e3o \u00e9 uma tautologia, pois poderia sobrevir uma esquerda aut\u00eantica. Menos tautol\u00f3gica ainda, menos inevit\u00e1vel, foi a ofensiva ideol\u00f3gica da direita que se seguiu \u00e0quelas derrotas. Apesar das crises que assolaram o sistema capitalista mundial nas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX\u00a0e nas primeiras do s\u00e9culo XXI, a direita, ap\u00f3s per\u00edodos breves de p\u00e2nico e de defensiva, conseguiu impor o seu programa econ\u00f4mico e pol\u00edtico. Privatiza\u00e7\u00f5es, liberdade para o capital, compress\u00e3o salarial. Estado intervencionista s\u00f3 quando se trata de proteger a \u201clivre-iniciativa\u201d. Da crise das patologias de esquerda emergiu tamb\u00e9m uma esp\u00e9cie de filosofia constru\u00edda a partir da tradi\u00e7\u00e3o liberal ou, antes, surgiram quase-filosofias, todas dependentes do liberalismo econ\u00f4mico, algumas de tipo mais moderno, aceitando certos avan\u00e7os no plano dos problemas de \u201csociedade\u201d, outras marcadas por ideologias francamente reacion\u00e1rias em todos os planos. Isso tudo produziu e continua produzindo um imenso barulho midi\u00e1tico. Com todo esse ru\u00eddo, parte dessas ideias de direita acabou sendo incorporada ao \u201csenso comum\u201d.<\/p>\n<p>Seja como for, fica claro quais s\u00e3o as armas da direita. Ela explora a fundo o totalitarismo de esquerda e o populismo. Ela se alimenta dessas duas patologias, que na sua forma geral \u2013 totalitarismo e populismo \u2013 n\u00e3o s\u00e3o, \u00e9 bom insistir, patologias exclusivas da esquerda. Mas parte da esquerda enveredou por a\u00ed e, com isso, ofereceu espa\u00e7o de manobra para a direita e a extrema direita.<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">U<\/span>m dos espa\u00e7os em que opera essa nova direita, ao explorar as contradi\u00e7\u00f5es das patologias da esquerda, \u00e9 a imprensa, algo que se viu crescer em anos recentes no Brasil. Ainda sob a ditadura, num texto cl\u00e1ssico publicado em livro em 1978, mas redigido anos antes \u2013 <em>Cultura e Pol\u00edtica, 1964\u20131969<\/em> \u2013, o cr\u00edtico liter\u00e1rio Roberto Schwarz fazia o balan\u00e7o do que lhe parecia ser a hegemonia do pensamento de esquerda nos anos que se seguiram ao golpe militar. Embora fora do poder, a esquerda era ent\u00e3o hegem\u00f4nica no plano das ideias. De l\u00e1 para c\u00e1, muita \u00e1gua passou sob a ponte. Se, j\u00e1 nos anos da ditadura, a direita tinha evidentemente os seus representantes intelectuais, hoje ela tem todo um grupo de porta-vozes que atua na m\u00eddia escrita ou falada empenhado numa verdadeira ofensiva contra a esquerda.<\/p>\n<p>Em conjunto, eles se caracterizam, apesar de algumas exce\u00e7\u00f5es, pela extrema viol\u00eancia no tom do que dizem ou escrevem; e, n\u00e3o \u00e0 toa, pelo fato de a maioria de seus representantes ter vindo da esquerda ou da extrema esquerda. Quanto \u00e0 filosofia que hoje professam, ela varia de um conservadorismo crist\u00e3o e espiritualista a um quase ceticismo, com vertentes pessimistas ou mais otimistas. O mais velho \u00e9 o fil\u00f3sofo Olavo de Carvalho. Em certos c\u00edrculos, ele tem fama de te\u00f3rico respeit\u00e1vel. N\u00e3o vou me ocupar mais em detalhe da sua filosofia espiritualista e crist\u00e3. Seria longo demais, e isso me obrigaria a l\u00ea-lo mais do que o li \u2013 e j\u00e1 foi o bastante. A prop\u00f3sito de Olavo de Carvalho, eu me limitaria a algumas observa\u00e7\u00f5es sobre as suas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, mas falarei tamb\u00e9m sobre o conte\u00fado e a forma da sua cr\u00edtica.<\/p>\n<p>No plano pol\u00edtico, Olavo de Carvalho se revela, em alguns de seus textos, um ferrenho advers\u00e1rio do atual presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Chega mesmo, num tipo de exagero que n\u00e3o lhe \u00e9 incomum, a supor \u2013 e a dizer \u2013 que o governo americano trabalha em favor da conspira\u00e7\u00e3o isl\u00e2mica mundial. O velho pensador da direita brasileira se insurge contra as principais medidas e tomadas de posi\u00e7\u00e3o do governo Obama. \u00c9 advers\u00e1rio da tentativa de se ampliar uma das formas da seguridade social americana, o Medicare, que prov\u00ea assist\u00eancia m\u00e9dica a idosos \u2013 isso entraria na conta dos pecados do \u201cgoverno socialista de Barack Hussein Obama\u201d. Carvalho tamb\u00e9m se op\u00f5e a uma eventual legisla\u00e7\u00e3o que controle a venda de armas a particulares. Pelo que pude ler, aprova a invas\u00e3o do Iraque, decidida por George W. Bush, \u00e0 qual Obama se op\u00f4s. Dif\u00edcil dizer, sobre algu\u00e9m que assuma tais posi\u00e7\u00f5es, que \u00e9 um amigo da humanidade. No plano nacional, Olavo de Carvalho se situa \u00e0 direita da direita cl\u00e1ssica. N\u00e3o hesita em tecer elogios ao deputado Jair Bolsonaro ou ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra (\u00e9 curioso ver a mistura de pensadores crist\u00e3os e espiritualistas, que Carvalho admira, com o deputado \u201catirador\u201d Bolsonaro e o torturador Ustra).<\/p>\n<p>Seu discurso n\u00e3o exclui um trabalho de ordem mais anal\u00edtica, mas, mesmo quando a inten\u00e7\u00e3o \u00e9 cr\u00edtica, n\u00e3o s\u00f3 o estilo \u00e9 muito violento como muitas vezes vem acompanhado, nas interven\u00e7\u00f5es orais ao menos, por insultos e palavr\u00f5es. Para se ter uma ideia de at\u00e9 onde vai o discurso de Olavo de Carvalho, ofere\u00e7o ao leitor essa p\u00e9rola de \u00f3dio, extra\u00edda de uma de suas obras recentes: \u201cQuem quer que estude a vida de cada um deles descobrir\u00e1 que Voltaire, Diderot, Jean-Jacques Rousseau, Sade, Karl Marx, Tolst\u00f3i, Bertold Brecht, L\u00eanin, St\u00e1lin, Fidel Castro, Che Guevara, Mao Ts\u00e9-tung, Bertrand Russell, Jean-Paul Sartre, Max Horkheimer, Theodor Adorno, Georg Luk\u00e1cs, Antonio Gramsci, Lillian Hellman, Michel Foucault, Louis Althusser, Norman Mailer, Noam Chomsky e <em>tutti quanti<\/em> foram indiv\u00edduos s\u00e1dicos, obsessivamente mentirosos, aproveitadores c\u00ednicos, vaidosos at\u00e9 a dem\u00eancia, desprovidos de qualquer sentimento moral superior e de qualquer boa inten\u00e7\u00e3o por mais m\u00ednima que fosse, exceto talvez no sentido de usar as palavras mais nobres para nomear os atos mais torpes. Outros foram estupradores ou exploradores de mulheres, opressores vis de seus empregados, agressores de suas esposas e filhos. Outros, orgulhosamente ped\u00f3filos. Em suma, o pante\u00e3o dos \u00eddolos do esquerdismo universal era uma galeria de deformidades morais de fazer inveja \u00e0 lista de vil\u00f5es da literatura universal. De fato, n\u00e3o se encontrar\u00e1 entre os personagens de Shakespeare, Balzac, Dostoi\u00e9vski e demais cl\u00e1ssicos nenhum que se compare, em mal\u00edcia e crueldade, a um St\u00e1lin, a um Hitler ou a um Mao Ts\u00e9-tung.\u201d<\/p>\n<p>Creio que o texto dispensa um coment\u00e1rio maior. Marx, Adorno, Horkheimer, Russell \u2013 este, coitado, al\u00e9m de grande l\u00f3gico, autor de uma obra pioneira de cr\u00edtica do bolchevismo \u2013, mais Diderot, Foucault e Norman Mailer, juntos a St\u00e1lin, Mao Ts\u00e9-tung e\u2026 Hitler! Hitler, tamb\u00e9m de esquerda? Todos, juntos, recebem a pecha coletiva de \u201cs\u00e1dicos, mentirosos, c\u00ednicos, estupradores, exploradores de mulheres ou ped\u00f3filos\u201d. \u00c9 mais ou menos como se algu\u00e9m tomasse alguns pensadores de direita \u2013 digamos, os fil\u00f3sofos franceses Raymond Aron e Alain Finkielkraut \u2013, pusesse-os lado a lado com os dirigentes nazistas \u2013 Goebbels, Himmler, Goering \u2013 e afirmasse que \u00e9 tudo vinho da mesma pipa. O simples alinhamento desses nomes j\u00e1 seria evidentemente uma barbaridade.<\/p>\n<p>Por fim, quanto \u00e0 forma de seu discurso: Olavo de Carvalho usa de uma s\u00e9rie de figuras sof\u00edsticas muito rodadas, que ele deve extrair de livros de ret\u00f3rica, de manuais de marketing pol\u00edtico da extrema direita americana ou mesmo de textos filos\u00f3ficos sobre a ret\u00f3rica.<\/p>\n<p>Vou dar apenas dois exemplos dessas figuras. Uma consiste em ir at\u00e9 o extremo da acusa\u00e7\u00e3o, at\u00e9 os limites do absurdo e da caricatura. Assim, como vimos, ele n\u00e3o acusa Obama de tais ou tais erros pol\u00edticos, dessa ou daquela a\u00e7\u00e3o ilegal ou desonesta: ele o acusa de estar a servi\u00e7o da conspira\u00e7\u00e3o islamista mundial. A acusa\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o absurda que ela desarma o interlocutor. Seria f\u00e1cil defender o acusado se a refer\u00eancia fosse a tal ou tal malfeito particular, um malfeito poss\u00edvel, ainda que inexistente. Por\u00e9m, quando estamos diante de uma impossibilidade total, \u00e9 como se aquele que acusa mexesse nas pr\u00f3prias bases racionais de toda cr\u00edtica e de todo julgamento. O contraditor eventual, e com ele o p\u00fablico em geral, termina como que paralisado pela enormidade do que est\u00e1 sendo dito.<\/p>\n<p>Uma segunda figura \u2013 essa um pouco mais sutil \u2013 \u00e9 o sofisma da hiperan\u00e1lise ou do desdobramento infinito das raz\u00f5es. Assim, para defender uma interven\u00e7\u00e3o militar, Olavo de Carvalho faz uma s\u00e9rie de perguntas: Est\u00e3o contra uma interven\u00e7\u00e3o militar? Mas sabem o que \u00e9 isso? Sabem que a decis\u00e3o partiria do Estado Maior do Ex\u00e9rcito? E, a prop\u00f3sito, sabem o que \u00e9 o Estado Maior? Sabem quais as media\u00e7\u00f5es que teria a decis\u00e3o de intervir? Em resumo, ele diria, n\u00e3o sabem nada sobre o que \u00e9 uma interven\u00e7\u00e3o militar, e ainda pretendem tomar posi\u00e7\u00e3o contra ela. O argumento de Carvalho se completa da seguinte maneira, num pseudoeco de Arist\u00f3teles: querem falar de um objeto \u2013 nesse caso, a interven\u00e7\u00e3o militar \u2013 e tomar posi\u00e7\u00e3o diante dele, mas dele ignoram quase tudo e s\u00f3 conhecem poss\u00edveis qualidades (se \u00e9 bom ou se \u00e9 mau, por exemplo). Mas, dir\u00e1 Carvalho, \u00e9 imposs\u00edvel conhecer a qualidade sem conhecer a subst\u00e2ncia. Ora, s\u00e3o todos ignorantes, n\u00e3o conhecem a subst\u00e2ncia, como de resto ele pretende poder provar com todas as perguntas que faz e que ningu\u00e9m seria capaz de responder.<\/p>\n<p>O sofisma \u00e9 evidente. A passagem que o seu racioc\u00ednio efetua n\u00e3o \u00e9 da qualidade para a subst\u00e2ncia, mas do essencial para o inessencial. De fato, sabemos por experi\u00eancia direta ou indireta o que significa uma \u201cinterven\u00e7\u00e3o militar\u201d. Conhecemos a ess\u00eancia dela \u2013 repress\u00e3o, desrespeito \u00e0 ordem constitucional vigente, suspens\u00e3o das liberdades fundamentais. O conhecimento dessa ess\u00eancia \u2013 que ele considera como simples \u201cqualidade\u201d \u2013 vem mistificado por elementos que ele apresenta como substanciais, mas que, na realidade, s\u00e3o inessenciais: a estrutura de comando do Ex\u00e9rcito, as media\u00e7\u00f5es por que deveria passar a decis\u00e3o de intervir, e por a\u00ed vai. Isto \u00e9, a oblitera\u00e7\u00e3o do essencial pelo inessencial \u00e9 apresentada pomposa e enganadoramente como movimento, teoricamente enriquecedor, conduzindo da simples \u201cqualidade\u201d \u00e0 subst\u00e2ncia do fen\u00f4meno. Eis como funciona a m\u00e1quina lingu\u00edstica perversa, pseudo-<em>savant<\/em> \u2013 para n\u00e3o dizer mais \u2013 do senhor Olavo de Carvalho.<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">U<\/span>ma figura de estilo diferente, porque mais jornal\u00edstico do que te\u00f3rico, \u00e9 Reinaldo Azevedo. Mas nele encontramos uma viol\u00eancia verbal compar\u00e1vel \u00e0 de Olavo de Carvalho. Quando ainda n\u00e3o era colunista da <em>Folha de <\/em><em>S.Paulo<\/em>, Azevedo costumava agredir os seus desafetos atacando menos o que diziam \u2013 seus textos \u2013 do que eles pr\u00f3prios, os autores-desafetos, pessoalmente. Isso quando n\u00e3o atacava a fam\u00edlia \u2013 mesmo o pai e a m\u00e3e \u2013 do autor do texto. Apontava, com frequ\u00eancia, as fragilidades f\u00edsicas dos seus advers\u00e1rios: a condi\u00e7\u00e3o de velho, por exemplo, podia ser mencionada, como se dem\u00e9rito fosse. Embora n\u00e3o se trate em absoluto de afirmar que Azevedo seja nazista, n\u00e3o h\u00e1 como negar que esse tipo de estrat\u00e9gia ret\u00f3rica lembra o estilo do discurso nazista. Por exemplo, a prop\u00f3sito de algu\u00e9m com ideias de esquerda e j\u00e1 em idade meio avan\u00e7ada, ele n\u00e3o hesitava em dizer mais ou menos assim: \u201c\u00c9 velho e de esquerda, portanto, burro.\u201d O que significa e o que vale tal tipo de afirma\u00e7\u00e3o? Imaginemos que algu\u00e9m escrevesse: \u201c\u00c9 jovem e de direita, portanto burro.\u201d Seria uma tolice e uma grosseria. \u00c9 claro que existem velhos de esquerda que s\u00e3o inteligentes, e jovens de direita que n\u00e3o s\u00e3o burros. E n\u00e3o me parece muito justific\u00e1vel sair por a\u00ed passando atestados de burrice a Fulano e a Beltrano. Tal tipo de agress\u00e3o n\u00e3o vale nada, nem em teoria nem na pr\u00e1tica, e visa essencialmente obter aplausos de um p\u00fablico de muito baixo n\u00edvel.<\/p>\n<p>Desde que passou a escrever na <em>Folha<\/em>, contudo, o tom de Reinaldo Azevedo mudou, tornou-se um pouco menos violento. Mas n\u00e3o melhorou muito. Como \u00e9 frequente nos ide\u00f3logos da direita, costuma p\u00f4r no mesmo plano as figuras mais diversas da esquerda. Quanto ao seu estilo de pensamento, digamos, valeria a pena examinar parte de um artigo que escreveu sobre a guerra americana no Iraque. Ali, se Azevedo n\u00e3o chega a defender a invas\u00e3o, se acomoda com ela, porque \u2013 ele explica \u2013 \u201cos imp\u00e9rios t\u00eam uma ess\u00eancia amoral\u201d. E da\u00ed passa a defender, tanto quanto a impot\u00eancia da moral, tamb\u00e9m o car\u00e1ter supostamente ben\u00e9fico das guerras e de outros horrores, pois com eles viria o progresso da civiliza\u00e7\u00e3o. \u201cQuantos de n\u00f3s, os humanistas de p\u00e9 quebrado, temos claro que a tecnologia de guerra serviu \u2013 e ainda serve, a exemplo da internet \u2013 para prolongar e tornar mais venturosa a trajet\u00f3ria humana na Terra?\u201d, ele pergunta.<\/p>\n<p>H\u00e1, nesse texto, algumas coisas a observar. Em primeiro lugar algo que se poderia chamar de generalismo. Da Guerra do Iraque, ele pula para o amoralismo dos imp\u00e9rios em geral. Mas, pelo menos do ponto de vista de uma esquerda independente, se era preciso condenar a invas\u00e3o do Iraque, que acabou tendo consequ\u00eancias as mais desastrosas, isso n\u00e3o quer dizer que toda interven\u00e7\u00e3o, e mesmo toda interven\u00e7\u00e3o americana, seja necessariamente conden\u00e1vel. \u00c9 discut\u00edvel se n\u00e3o teria sido melhor, para os norte-americanos e para o mundo, ter ousado atacar o ditador s\u00edrio Bashar al-Assad, por exemplo, em vez de recuar e se omitir. Por\u00e9m, h\u00e1 mais do que isso. O nosso autor prop\u00f5e uma filosofia da \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d cujas dificuldades s\u00e3o vis\u00edveis \u2013 e na qual se reconhece, ali\u00e1s, o esquematismo de um antigo esquerdista: no lugar da revolu\u00e7\u00e3o, ele p\u00f5e o progresso. Que as guerras tenham impulsionado muitas vezes o progresso t\u00e9cnico, ningu\u00e9m duvida. Que, para al\u00e9m disso, o capitalismo, em meio aos seus horrores ou por meio deles, tenha sido em certas circunst\u00e2ncias um fator de progresso \u00e9 tamb\u00e9m ineg\u00e1vel \u2013 este, ali\u00e1s, \u00e9 um tema marxista arquiconhecido. S\u00f3 que: 1) O horror de uma guerra compensaria sempre o progresso t\u00e9cnico advindo dela? Pensemos em cada caso singular. Quando o custo de um conflito \u00e9 enorme, n\u00e3o seria melhor se contentar com um progresso mais lento, sem pagar o pre\u00e7o do massacre? O mundo tamb\u00e9m anda nos per\u00edodos de paz; 2) O autor fala de progresso t\u00e9cnico. E o progresso social? \u201cProgresso social\u201d seria um conceito vazio? Se n\u00e3o, pergunta-se: As guerras sempre serviram ao progresso social? A Primeira Guerra Mundial, por exemplo, teria servido a esse progresso?<\/p>\n<p>No que se refere ao progresso social \u2013 por exemplo, \u00e0 redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho de doze a catorze horas di\u00e1rias para oito, ou \u00e0 emerg\u00eancia da democracia \u2013, seria preciso considerar n\u00e3o apenas, e n\u00e3o principalmente, as guerras, mas as lutas. Porque esses progressos foram em geral resultado de grandes lutas, nas quais, simplificando, havia um lado a favor e um lado contra. Entre os que eram a favor, estavam, ali\u00e1s, muitos inimigos das guerras, gente que acreditava no progresso pac\u00edfico da humanidade. Na prosa da extrema direita, costuma-se zombar dos que acreditavam e acreditam na possibilidade de um futuro pac\u00edfico para a humanidade, e ela se esmera, mesmo, em denunciar os resultados nefastos daquela cren\u00e7a. Ora, se no caso do comunismo uma invers\u00e3o brutal de fato ocorreu, se o sonho virou pesadelo, tamb\u00e9m \u00e9 verdade que durante anos e anos \u2013 antes, durante e depois do fast\u00edgio do bolchevismo e tamb\u00e9m do stalinismo \u2013 homens e mulheres que acreditavam num futuro pac\u00edfico para a humanidade contribu\u00edram, e muito, apesar de tudo, para o progresso social do mundo. E n\u00e3o s\u00f3 para eles pr\u00f3prios ou para os seus aliados. Pois, como j\u00e1 disse, dessas lutas n\u00e3o resultaram apenas melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho para os prolet\u00e1rios. Resultaram tamb\u00e9m grandes avan\u00e7os democr\u00e1ticos.<\/p>\n<p><em>Not least<\/em>: As guerras suscitam progresso tecnol\u00f3gico? E o progresso tecnol\u00f3gico nos levou para onde? Sem d\u00favida, a muitas coisas boas. Mas, sem progresso social e sem cr\u00edtica do mundo, cr\u00edtica que n\u00e3o cabe nas filosofias de extrema direita, ele tamb\u00e9m est\u00e1 nos levando a cat\u00e1strofes ecol\u00f3gicas que comprometem o futuro, pr\u00f3ximo e long\u00ednquo, da esp\u00e9cie. Ali\u00e1s, a direita, que se pretende t\u00e3o moderna, parece n\u00e3o se preocupar muito com o tema. N\u00e3o \u00e9 do seu feitio perder o sono por causa do destino da humanidade.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de um pouco menos de niilismo, precisamos justamente de uma filosofia complexa da hist\u00f3ria, em que, longe dos simplismos, se reconhe\u00e7am linhas de progresso coexistindo com regress\u00f5es \u2013 a saber, desigualdade social crescente, crises econ\u00f4micas, agress\u00f5es ao meio ambiente e amea\u00e7as \u00e0 sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie.<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">O<\/span>utro ide\u00f3logo da direita, este professor universit\u00e1rio e jornalista, \u00e9 Luiz Felipe Pond\u00e9. Eu o conheci um pouco, j\u00e1 faz bastante tempo; participei da banca de seu concurso de qualifica\u00e7\u00e3o de tese, no doutorado. At\u00e9 onde me lembro, seu trabalho em hist\u00f3ria da filosofia era s\u00e9rio. Na sua atividade jornal\u00edstica, Pond\u00e9 se caracteriza por fazer, em rela\u00e7\u00e3o ao grande p\u00fablico, aquilo que os franceses chamam de \u201cacariciar no sentido do pelo\u201d, tranquilizando-o em muitas de suas cren\u00e7as. Assim, em uma de suas cr\u00f4nicas, ele sugeria que os cr\u00edticos de esquerda, de modo geral ateus e infensos ao casamento, n\u00e3o tinham o sentimento de seguran\u00e7a que t\u00eam os que creem em Deus. Como se n\u00e3o bastasse, acabariam se privando tamb\u00e9m, por instabilidade afetiva, das del\u00edcias do amor monog\u00e2mico e da vida de casal. Poderia responder, no que me concerne, que prefiro enfrentar a ideia do nada que se segue \u00e0 vida do que apelar para um mito consolador. Parece-me uma atitude mais corajosa. Quanto ao amor e ao casamento, talvez valesse lembrar que algumas das grandes figuras da hist\u00f3ria da esquerda foram gente muito apaixonada e \u201crom\u00e2ntica\u201d no sentido usual, e que \u00e9 tolice supor que a esquerda n\u00e3o acredita no amor. Ocorre que a fun\u00e7\u00e3o do discurso do ide\u00f3logo \u00e9 menos a de tentar caracterizar corretamente a esquerda, ou a experi\u00eancia da religi\u00e3o e do casamento, do que a de tranquilizar o bom cidad\u00e3o conservador. Assim, a cren\u00e7a do cidad\u00e3o em Deus n\u00e3o teria nada de supersticiosa, e seu casamento representaria, apesar dos problemas, a melhor solu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. Mas ser\u00e1 mesmo assim?<\/p>\n<p>A prosa de Pond\u00e9 tem uma outra vertente, que completa essa primeira e talvez esteja mais ligada a ela do que parece. O colunista tem por h\u00e1bito assustar e escandalizar o leitor. Nesse sentido, \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u017di\u017eek da direita, em vers\u00e3o brasileira. Isso \u00e9 vis\u00edvel na sua rela\u00e7\u00e3o com a viol\u00eancia. N\u00e3o que ele a justifique. Mas ele joga com a viol\u00eancia, abusando das f\u00f3rmulas provocadoras. Faz o elogio das r\u00e9plicas de Lady Macbeth legitimando a viol\u00eancia do marido; assim, desenvolve um estranho discurso \u201cpr\u00f3-mulheres\u201d em que convida os jovens a defender as meninas contra amea\u00e7as e viol\u00eancias na base da porrada. De maneira d\u00fabia, diz ao leitor que \u00e9 preciso respeitar os terroristas \u2013 para melhor combat\u00ea-los, sem d\u00favida. Depois se descobre que o que quer dizer \u00e9 apenas que a viol\u00eancia est\u00e1 por toda parte <em>et cetera<\/em>. Compare-se com \u017di\u017eek e suas afirma\u00e7\u00f5es do tipo \u201cHitler n\u00e3o foi suficientemente longe\u201d. De forma an\u00e1loga, o leitor de \u017di\u017eek, assustado num primeiro momento pelas f\u00f3rmulas proferidas <em>pour \u00e9pater le lecteur<\/em>, \u00e9 tranquilizado em seguida, quando o autor nos explica que ele queria dizer \u201capenas\u201d que Hitler foi um falso radical, que ele foi incapaz de chegar at\u00e9 a liquida\u00e7\u00e3o do capitalismo\u2026<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos tempos o discurso de Pond\u00e9, que no passado misturava um certo elogio do conservadorismo com temas amb\u00edguos, tem se apresentado, de forma menos impura, como uma fala de simples defesa da tradi\u00e7\u00e3o te\u00f3rica liberal. S\u00f3 que a esquerda, a melhor pelo menos, nunca desprezou essa tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A maioria dos ide\u00f3logos da nova\/velha direita \u2013 tr\u00e2nsfugas da esquerda, em geral \u2013 opera, em seus ataques, uma esp\u00e9cie de homogeneiza\u00e7\u00e3o de todo o campo ideol\u00f3gico a que se op\u00f5e. Reinaldo Azevedo n\u00e3o para de afirmar que n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a entre um esquerdista de tipo stalinista e um homem de esquerda de esp\u00edrito democr\u00e1tico. Isso \u00e9 evidentemente absurdo. De nossa parte, n\u00e3o confundimos extrema direita com direita. A igualiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem rigor. \u00c9 como se Azevedo dissesse, por exemplo, que entre Andrei Jdanov, te\u00f3rico stalinista do realismo socialista, e o pensador franc\u00eas de origem grega Cornelius Castoriadis, integrante da esquerda libert\u00e1ria e democr\u00e1tica, n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a essencial. Qual o erro de tal afirma\u00e7\u00e3o? O erro est\u00e1 em que entre esses dois existe um abismo. Este abismo \u00e9 o totalitarismo. Um \u00e9 totalit\u00e1rio; o outro n\u00e3o. Essa diferen\u00e7a \u00e9 essencial.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m no tratamento de tend\u00eancias ou de partidos, o impulso homogeneizador \u00e9 uma caracter\u00edstica daqueles ide\u00f3logos. Assim, o PT\u00a0\u00e9 lido como um partido cujos militantes t\u00eam um perfil mais ou menos id\u00eantico. Isso \u00e9 falso: h\u00e1 certamente gente de tend\u00eancia totalit\u00e1ria no PT, mas h\u00e1 tamb\u00e9m democratas, populistas e um contingente consider\u00e1vel de personagens pura e simplesmente oportunistas. Transformar o PT\u00a0em instrumento de um compl\u00f4 totalit\u00e1rio \u00e9 teoricamente falso e, na pr\u00e1tica, mistificador.<\/p>\n<p>Mas, se os ide\u00f3logos da direita gostam de homogeneizar coisas que s\u00e3o heterog\u00eaneas, eles tamb\u00e9m incorrem na viol\u00eancia oposta: estabelecem assimetrias l\u00e1 onde n\u00e3o existem assimetrias essenciais. Reinaldo Azevedo costuma bater na tecla de que, se h\u00e1 corrup\u00e7\u00e3o por todo lado, a do PT\u00a0\u00e9 sistem\u00e1tica e visa a fins bem precisos \u2013 fins que, para ele, s\u00e3o evidentemente totalit\u00e1rios. Ora, se \u00e9 verdade que as pr\u00e1ticas de corrup\u00e7\u00e3o implementadas por gente daquele partido n\u00e3o representam simples \u201cerros\u201d, mas s\u00e3o, de fato, sistem\u00e1ticas, \u00e9 tamb\u00e9m falso dizer que no outro lado do espectro ideol\u00f3gico n\u00e3o existe sistema de corrup\u00e7\u00e3o, mas simples erro e desvio ocasional. Na realidade, a roubalheira praticada pelo \u201coutro lado\u201d \u2013 refiro-me \u00e0s estripulias do conjunto dos partidos de centro-direita, de direita ou de extrema direita no Brasil \u2013 tamb\u00e9m \u00e9, a sua maneira, sistem\u00e1tica. Al\u00e9m de encher os bolsos de muitos, ela alimenta m\u00e1quinas partid\u00e1rias que asseguram o funcionamento de uma das sociedades de maior desigualdade no mundo. Eis a\u00ed algo que \u00e9 completamente escamoteado pelos porta-vozes da direita. Tudo se passa, segundo eles, como se o \u00fanico problema fosse a corrup\u00e7\u00e3o de certa esquerda, ou mesmo a corrup\u00e7\u00e3o em geral.<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">H<\/span>\u00e1 sempre certa dificuldade em explicar por que algu\u00e9m se desloca de uma posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para outra \u2013 em particular para uma posi\u00e7\u00e3o oposta, da esquerda para a direita ou, mais precisamente, da extrema esquerda para a extrema direita. A passagem em alguns casos foi muito r\u00e1pida, ali\u00e1s. A explica\u00e7\u00e3o do mecanismo desses deslocamentos n\u00e3o \u00e9 muito simples, mas h\u00e1 pistas que nos aproximam dela. Sabe-se por experi\u00eancia hist\u00f3rica, desde os anos 20 e 30, pelo menos, que h\u00e1 um caminho relativamente curto que conduz da extrema esquerda \u00e0 extrema direita. Algu\u00e9m que militava em algum grupo dogm\u00e1tico e violento de extrema esquerda n\u00e3o tem muita dificuldade em passar \u00e0 extrema direita. Ele conserva o dogmatismo, o gosto pela viol\u00eancia. S\u00f3 elimina o que resta de melhor no grupo que abandonou: os objetivos, pelo menos em tese, igualit\u00e1rios.<\/p>\n<p>Quando vejo manifesta\u00e7\u00f5es da esquerda mais dogm\u00e1tica \u2013 por exemplo, as manifesta\u00e7\u00f5es visando impedir que a dissidente cubana Yoani S\u00e1nchez falasse durante sua visita ao Brasil h\u00e1 alguns anos \u2013, fico pensando que daqui a uns dez ou quinze anos alguns daqueles manifestantes estar\u00e3o na extrema direita. Na figura de alguns dos mais fan\u00e1ticos, vejo os Reinaldinhos dos anos 2030. Talvez a passagem da extrema esquerda \u00e0 extrema direita merecesse uma an\u00e1lise mais detalhada. A viol\u00eancia dos discursos da nova (velha) direita tem, certamente, alguma coisa a ver com aquela passagem. Creio que essa viol\u00eancia seja resultado de um ac\u00famulo de \u00f3dio. \u00d3dio que vem de v\u00e1rias fontes, em geral ligadas \u00e0quele deslocamento.<\/p>\n<p>Uma das fontes da viol\u00eancia e do dogmatismo est\u00e1, justamente, na esquerda, ou em uma de suas patologias \u2013 quero dizer, est\u00e1 no pr\u00f3prio conte\u00fado das cren\u00e7as que esses ide\u00f3logos professavam anteriormente. Sem d\u00favida, nem todos v\u00eam do stalinismo, mas de qualquer modo h\u00e1 dogmatismo e viol\u00eancia suficientes no leninismo, por exemplo, para que eles possam carrear aquelas antigas energias para o moinho da extrema direita. A isso se soma o \u00f3dio que vem do mundo burgu\u00eas. Cada burgu\u00eas ordin\u00e1rio \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 muito cioso dos seus privil\u00e9gios, mas despreza os escravos \u2013 e tem um \u00f3dio particularmente violento em rela\u00e7\u00e3o a qualquer tentativa de rebeli\u00e3o. Liberado de certos pudores esquerdistas, pode mostrar que n\u00e3o h\u00e1 nada mais intoler\u00e1vel, para ele, do que as revoltas de escravos. Sobretudo, ele n\u00e3o gostaria de ser confundido com um escravo, e tem um \u00f3dio que se volta contra si pr\u00f3prio por no passado ter pertencido \u00e0 esquerda. Para algu\u00e9m que usufrui das vantagens advindas do fato de ser membro da classe m\u00e9dia no Brasil, ou de algo melhor do que a classe m\u00e9dia, \u00e9 sempre um salto se engajar numa posi\u00e7\u00e3o de esquerda. Faz-se a\u00ed uma esp\u00e9cie de pacto de solidariedade com os explorados e oprimidos. Aquela gente, cuja trajet\u00f3ria agora leva \u00e0 direita, aceitou um dia esse pacto, e depois rompeu com ele. Creio que parte do seu \u00f3dio atual vem do fato de terem dado esse passo. \u00c9 que, em geral, o passo exige generosidade, e muitos descobrem que nunca a tiveram. Como foi poss\u00edvel, ent\u00e3o, o engajamento? Em muitas circunst\u00e2ncias, e principalmente no tempo em que a esquerda era realmente hegem\u00f4nica, o engajamento se fazia por uma esp\u00e9cie de h\u00e1bito ou de imita\u00e7\u00e3o da maioria. Seja como for, os novos direitistas t\u00eam dificuldade de se perdoar por um dia terem efetuado a passagem.<\/p>\n<p>O \u00f3dio que destilam os escritos e as falas dos nossos her\u00f3is do pensamento de extrema direita \u00e9, portanto, um condensado disso tudo: \u00f3dio de classe, \u00f3dio herdado de uma extrema esquerda mais ou menos delirante convertido em \u201c\u00f3dio de direita\u201d, e \u00f3dio de si mesmo, por terem cedido a alguma coisa que, em condi\u00e7\u00f5es normais, exige generosidade.<\/p>\n<p>Sejam quais forem as raz\u00f5es do \u00f3dio e das perip\u00e9cias ret\u00f3ricas da direita midi\u00e1tica, \u00e9 preciso reconhecer que ela passou a dispor de margem de manobra por explorar as contradi\u00e7\u00f5es e as patologias da esquerda. Essa constata\u00e7\u00e3o basta para demonstrar o quanto o combate \u00e0s deforma\u00e7\u00f5es do totalitarismo e do populismo \u00e9 essencial para a esquerda. N\u00e3o quero dizer com isso que, diante de uma esquerda democr\u00e1tica hegem\u00f4nica, a direita ficaria boazinha. Na realidade, ela continuaria a conspirar e \u00e9 at\u00e9 poss\u00edvel que viesse a se tornar ainda mais violenta, porque naquelas condi\u00e7\u00f5es a amea\u00e7a \u00e0 sua domina\u00e7\u00e3o seria maior. Por\u00e9m, se ela conspirar, pelo menos n\u00e3o conspirar\u00e1 mais nas condi\u00e7\u00f5es relativamente favor\u00e1veis em que o faz atualmente. Livre das suas piores patologias, a esquerda teria condi\u00e7\u00f5es muito mais favor\u00e1veis para ganhar a batalha.<\/p>\n<p><strong>O IMPEACHMENT<\/strong><\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">O<\/span>ra, tamb\u00e9m o impeachment de Dilma Rousseff \u00e9 fruto de uma alian\u00e7a e de um avan\u00e7o das direitas no Brasil, al\u00e9m de ser, pelo menos em parte, resultado da crise do populismo <em>sui generis<\/em> petista e de mudan\u00e7as no cen\u00e1rio econ\u00f4mico mundial.<\/p>\n<p>Dilma se reelegeu em 2014, quando a pol\u00edtica populista particular do PT\u00a0parecia seguir o seu curso sem maiores entraves. Ocorre que a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica mundial j\u00e1 havia se alterado, e n\u00e3o sob a forma de uma crise financeira mais ou menos passageira. O mercado de commodities, que de certa forma dera sustenta\u00e7\u00e3o \u00e0 capacidade dos governos Lula de conciliar interesses de classe distintos, foi atingido pela redu\u00e7\u00e3o de atividade na economia chinesa. E Dilma n\u00e3o \u00e9 Lula. N\u00e3o tem, politicamente, a mesma habilidade para conciliar contr\u00e1rios, negociando com uns e outros. A presidente, assim, se tornou v\u00edtima da crise. Diante do arrefecimento da economia, ela hesitou entre tr\u00eas modelos \u2013 que poder\u00edamos chamar o \u201csocial\u201d, o \u201cdesenvolvimentista\u201d e o \u201cliberal\u201d. Passou de um a outro. Chegou mesmo a tentar combinar todos eles, o que em si n\u00e3o \u00e9 conden\u00e1vel, s\u00f3 que trabalhando mal no plano da c\u00fapula governamental, do Legislativo e das dire\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias. Tampouco se mostrou capaz de explicar \u00e0s suas bases e \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica o sentido das mudan\u00e7as de rota.<\/p>\n<p>Enquanto Dilma parecia n\u00e3o saber o que fazer, a direita se articulava, reunindo a centro-direita \u2013 representada pelos cardosistas \u2013, a direita \u2013 que congrega o DEM, o PSDB\u00a0n\u00e3o cardosista e outros grupos e partidos \u2013 e a extrema direita \u2013 na qual aparecem v\u00e1rias figuras mais ou menos sinistras, como Bolsonaro. Conforme disseram os pr\u00f3prios participantes, durante um longo per\u00edodo \u2013 um ano ou mais, ao que parece \u2013, organizaram-se reuni\u00f5es em que se preparava a derrubada de Dilma. A direita militar esteve pelo menos ciente do que se preparava, e provavelmente bem mais do que isso. N\u00e3o se pode esquecer tamb\u00e9m do papel muito importante que tiveram nesse processo as chamadas \u201cclasses produtoras\u201d, por meio dos seus \u00f3rg\u00e3os representativos, como a Fiesp.<\/p>\n<p>Tudo isso se passava enquanto jovens procuradores e representantes do Judici\u00e1rio come\u00e7avam a fazer uma ofensiva contra a promiscuidade entre o poder econ\u00f4mico e o poder pol\u00edtico. Em que medida a direita estava articulada com esse movimento? Duas coisas me parecem certas. Por um lado, as opera\u00e7\u00f5es do tipo Lava Jato tiveram e t\u00eam certa autonomia, e n\u00e3o s\u00e3o simples criaturas da direita. Mas \u00e9 tamb\u00e9m evidente que sua atua\u00e7\u00e3o \u2013 em si mesma positiva, pois se impunha uma ofensiva contra a corrup\u00e7\u00e3o end\u00eamica da pol\u00edtica brasileira \u2013 n\u00e3o foi sim\u00e9trica. Isso ficou claro no epis\u00f3dio da condu\u00e7\u00e3o coercitiva de Lula, levado a depor \u201cdebaixo de vara\u201d. E novamente durante o processo contra o ex-presidente, contra Dilma, os ex-ministros Aloizio Mercadante e Jos\u00e9 Eduardo Cardozo, por suposto \u201centrave \u00e0 Justi\u00e7a\u201d, ao pretenderem a nomea\u00e7\u00e3o de Lula como ministro. A assimetria est\u00e1 tamb\u00e9m \u2013 e aqui n\u00e3o se trata de assimetria no comportamento de um \u00fanico juiz, mas de diferentes ju\u00edzes e inst\u00e2ncias judici\u00e1rias \u2013 na lentid\u00e3o com que a Justi\u00e7a se ocupa dos processos em que est\u00e3o envolvidos pol\u00edticos da direita, inclusive do PSDB. Apoiada por um movimento de massas com base nos setores mais reacion\u00e1rios da classe m\u00e9dia, um pouco no estilo da famosa \u201cMarcha da Fam\u00edlia com Deus pela Liberdade\u201d de 1964, a direita obteve a den\u00fancia de Dilma por parte da C\u00e2mara dos Deputados, den\u00fancia em que o seu muito corrupto presidente, Eduardo Cunha, teve um papel relevante.<\/p>\n<p>Durante algum tempo, Cunha negociou a aceita\u00e7\u00e3o do documento pela C\u00e2mara: tratava-se de obter, em troca, a garantia da sua pr\u00f3pria impunidade. Feitos os c\u00e1lculos \u2013 e tudo isso de forma vis\u00edvel, sem que o protagonista se mascarasse \u2013, ele acabou aceitando o pedido como retalia\u00e7\u00e3o a uma decis\u00e3o da bancada do PT, de n\u00e3o apoi\u00e1-lo na Comiss\u00e3o de \u00c9tica. O documento foi submetido \u00e0 C\u00e2mara e depois aprovado, numa reuni\u00e3o ruidosa e folcl\u00f3rica. O processo, j\u00e1 duvidoso no seu conte\u00fado, foi visivelmente viciado em termos morais e pol\u00edticos, sen\u00e3o jur\u00eddicos, pela forma em que foi encaminhado.<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">O\u00a0<\/span>impeachment \u00e9 decis\u00e3o excepcional, excepcional\u00edssima mesmo, que exige nada menos do que atos que \u201catentem\u201d contra a Constitui\u00e7\u00e3o. Os atos que praticou Dilma, regulares ou irregulares, t\u00eam muito mais cara de \u201cmanobras cont\u00e1beis\u201d \u2013 praticadas, ademais, por muitos outros titulares de cargos no Executivo \u2013 do que de \u201catentados\u201d \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o. E o resultado do processo tem algo de escandaloso. Em nome da lisura administrativa, substitui-se Dilma por Michel Temer, assim como, no plano partid\u00e1rio, sai o PT\u00a0e entra o PMDB. Afinal, quem \u00e9 mais suspeito em tudo isso?<\/p>\n<p>Parece n\u00e3o haver d\u00favida de que o processo foi mais uma manobra pol\u00edtica do que o cumprimento de uma exig\u00eancia de ordem jur\u00eddica. Foi, ali\u00e1s, o que percebeu a imprensa do mundo inteiro, pelo menos toda imprensa suficientemente cr\u00edtica. Manobra pol\u00edtica para derrubar um presidente da Rep\u00fablica sem base jur\u00eddica suficiente deve ser chamada de golpe \u2013 ainda que golpe brando, jur\u00eddico ou o que for. Essa parece ser, cada vez mais, a forma moderna dos golpes. A caneta em vez do tanque. Em lugar da mobiliza\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito, a instrumentaliza\u00e7\u00e3o do Poder Judici\u00e1rio, que vem a ser sacralizado. Processos desse tipo se constroem em tr\u00eas \u201cmomentos\u201d: enquadramentos jur\u00eddicos duvidosos e arbitr\u00e1rios; formalismo, em que se abstraem as circunst\u00e2ncias; e sacraliza\u00e7\u00e3o da \u201cJusti\u00e7a\u201d. Talvez se possa acrescentar, no caso, uma circunst\u00e2ncia n\u00e3o decisiva, mas que tamb\u00e9m pesa. Se uma maioria esmagadora da popula\u00e7\u00e3o fosse favor\u00e1vel a esse desfecho, a decis\u00e3o ainda assim n\u00e3o se justificaria, mas a gravidade do caso estaria, certamente, atenuada. Ora, o que se fez foi algo muito s\u00e9rio: votar um impeachment juridicamente arquiduvidoso diante de uma opini\u00e3o p\u00fablica dividida. Como disseram alguns, produziu-se uma ferida que n\u00e3o fechar\u00e1 t\u00e3o cedo.<\/p>\n<p><strong>UM PROGRAMA<\/strong><\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">D<\/span>iante de tudo isso, diante da crise da esquerda, inclusive das ilus\u00f5es alimentadas por muitos dentro dela, e do avan\u00e7o pr\u00e1tico e ideol\u00f3gico da direita, imp\u00f5e-se a pergunta cl\u00e1ssica. Pergunta que foi formulada n\u00e3o apenas por um l\u00edder bolchevique bem conhecido e que aprecio pouco, L\u00eanin, mas muitas outras vezes, antes e depois dele, por gente politicamente muito diversa. Que fazer?<\/p>\n<p>A esquerda brasileira precisaria, antes de mais nada, de um outro tipo de discurso. Algo que se poderia definir como um discurso de <em>verdade. <\/em>At\u00e9 aqui, essa esquerda vem marcada por um estilo profundamente religioso. Temos um sistema de cren\u00e7as que nada pode abalar \u2013 nem a realidade. H\u00e1 gente de esquerda que duvida do mais \u00f3bvio, com o que revela um medo\/p\u00e2nico de enfrentar o real. No mesmo sentido, h\u00e1 textos sagrados e santos. A ret\u00f3rica faz <em>pendant <\/em>\u00e0 religi\u00e3o. De fato, como que se imp\u00f4s a ideia nefasta de que o discurso pol\u00edtico \u00e9 de ordem ret\u00f3rica, e de que, portanto, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio ter maiores preocupa\u00e7\u00f5es com a verdade ao falar de pol\u00edtica. O importante seria combater o advers\u00e1rio, como se fosse poss\u00edvel levar adiante esse combate sem respeito pela verdade.<\/p>\n<p>Apesar de todas as reservas que sempre tive diante da infla\u00e7\u00e3o do valor atribu\u00eddo ao pensador italiano Antonio Gramsci nos meios de esquerda do Brasil \u2013 creio que ele n\u00e3o nos ajuda a compreender o que foi o totalitarismo de esquerda, nem a critic\u00e1-lo \u2013, h\u00e1 que reconhecer que, apesar de tudo, a ideia de hegemonia \u00e9 muito atual \u2013 e \u00fatil. Eu a tomo despojada das implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e filos\u00f3ficas que tinha em Gramsci: tomo-a simplesmente como significando a exig\u00eancia de ganhar para a nossa perspectiva, por meios que seriam essencialmente racionais, o apoio de amplas camadas da popula\u00e7\u00e3o. Dir-se-\u00e1 que a pol\u00edtica n\u00e3o se resolve pela raz\u00e3o, mas pelas paix\u00f5es. Claro que sem os afetos n\u00e3o pode haver a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nem mobiliza\u00e7\u00e3o. Entretanto, \u00e9 essencial que o afeto surja sobre o pano de fundo de um discurso t\u00e3o objetivo e comprometido com a verdade quanto poss\u00edvel. \u00c9 evidente que a fala pol\u00edtica n\u00e3o pode ser 100% racional. Mas que se tivesse 80% ou 90% de racionalidade, e 10% de ret\u00f3rica, j\u00e1 seria muito bom. Hoje eu diria que, em muitos casos, tem-se a rela\u00e7\u00e3o inversa.<\/p>\n<p>No plano propriamente substantivo, ou program\u00e1tico, a esquerda deve, em primeiro lugar, ter um projeto clara e explicitamente antitotalit\u00e1rio e tamb\u00e9m antiautorit\u00e1rio \u2013 isto \u00e9, propor um programa intransigentemente democr\u00e1tico. Frequentemente nos meios de esquerda, e mais ainda de extrema esquerda, fala-se mal da \u201cdemocracia representativa\u201d. Quando se procede assim, a democracia \u00e9 quase sempre associada ao capitalismo. Em forma bastante cl\u00e1ssica, v\u00ea-se nela uma \u201cexpress\u00e3o pol\u00edtica\u201d poss\u00edvel do capitalismo. Capitalismo e \u201cdemocracia representativa\u201d andariam juntos. Na realidade, quaisquer que sejam as insufici\u00eancias das formas democr\u00e1ticas vigentes, n\u00e3o h\u00e1 por que abandonar o projeto democr\u00e1tico e mesmo \u201cdemocr\u00e1tico-representativo\u201d. Formas de democracia direta ou participativa podem ser introduzidas \u2013 quando bem planejadas, elas podem significar um progresso. Ainda assim, e por v\u00e1rias raz\u00f5es \u2013 inclusive pr\u00e1ticas \u2013, \u00e9 dif\u00edcil supor que essas formas de participa\u00e7\u00e3o direta possam substituir satisfatoriamente toda representa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A democracia, como ideologia e como pr\u00e1tica, pode, \u00e9 bem verdade, servir ao capitalismo. Mas ela \u00e9 sempre, ao mesmo tempo, uma arma muito perigosa para os poderes dominantes. Pela simples raz\u00e3o de que, no fundo, menos do que exprimir o sistema econ\u00f4mico ou possibilitar a domina\u00e7\u00e3o de classes ou grupos de privilegiados, a democracia tem um impulso pr\u00f3prio e, nesse sentido, representa um vetor de oposi\u00e7\u00e3o virtual a uma forma social em que predomina a desigualdade. Mesmo se deformada, a democracia tem como princ\u00edpio a igualdade, e nesse sentido ela \u00e9 virtualmente \u2013 e, sob certas condi\u00e7\u00f5es, efetivamente \u2013 uma for\u00e7a de oposi\u00e7\u00e3o ao capitalismo, j\u00e1 que o princ\u00edpio deste \u00e9 a desigualdade.<\/p>\n<p>A rigor, as formas sociais ditas \u201ccapitalistas\u201d s\u00e3o, de fato, \u201cdemocr\u00e1tico-capitalistas\u201d, denomina\u00e7\u00e3o que deve ser lida como uma express\u00e3o contradit\u00f3ria. Essa designa\u00e7\u00e3o rejeita tanto a caracteriza\u00e7\u00e3o liberal, que prefere dizer \u201cdemocracia\u201d simplesmente, como a alternativa marxista ou marxista ortodoxa, que prefere falar apenas em \u201ccapitalismo\u201d. Ao contr\u00e1rio do que se poderia supor, desde que n\u00e3o se perca de vista a oposi\u00e7\u00e3o que ele exprime, o nome que proponho n\u00e3o faz nenhuma concess\u00e3o ao sistema. Ele diz melhor o objeto, precisamente porque enuncia a contradi\u00e7\u00e3o que este encerra.<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">O\u00a0<\/span>projeto da esquerda deve ser, em segundo lugar, estranho a todo adesismo em rela\u00e7\u00e3o ao sistema, a saber, deve se empenhar efetivamente numa pol\u00edtica de car\u00e1ter anticapitalista.<\/p>\n<p>Que significa ser \u201canticapitalista\u201d? Aqui o peso da tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 grande, e cumpre ir al\u00e9m da vers\u00e3o hegem\u00f4nica do marxismo no pensamento de esquerda no \u00faltimo s\u00e9culo. Em primeiro lugar, ser anticapitalista n\u00e3o deve querer dizer ser contra o Estado, ainda que todo projeto leg\u00edtimo de esquerda passe por uma cr\u00edtica do Estado em sua forma atual. Tamb\u00e9m n\u00e3o se trata de visar \u00e0 liquida\u00e7\u00e3o de toda propriedade privada. Pode-se dizer, inclusive, que n\u00e3o se pretende eliminar toda propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o, o que implica validar a exist\u00eancia de alguma forma de capital. No meu entender, o objetivo da esquerda deve ser a neutraliza\u00e7\u00e3o do capital. Nesse sentido, \u00e9 o grande capital que se tem em mira. Mas n\u00e3o se pense que esse projeto \u00e9 simplesmente \u201creformista\u201d.<\/p>\n<p>Por que \u00e9 necess\u00e1rio insistir na ideia de \u201cneutralizar o grande capital\u201d? Por que insistir em submet\u00ea-lo ao controle de regras estritas, em limitar o poder dos grandes acionistas e mesmo a propriedade privada das grandes empresas? Simplesmente porque o ac\u00famulo de capital em poucas m\u00e3os n\u00e3o tem justificativa. \u00c9 injusto. E aqui enveredamos pelo caminho dos fundamentos, inevit\u00e1vel. Todo mundo ouviu falar na teoria da mais-valia de Marx, a ideia de que h\u00e1 uma diferen\u00e7a entre o que \u00e9 pago ao trabalhador e aquilo que ele produz em termos de valor. Os economistas de direita caem em cima dessa teoria, denunciando-a como sendo pouco cient\u00edfica, quando n\u00e3o pura metaf\u00edsica. H\u00e1 muita confus\u00e3o nessa cr\u00edtica. Mas a verdade \u00e9 que essa teoria encerra problemas reais. Marx a apresentou h\u00e1 mais ou menos 150 anos, e praticamente n\u00e3o se avan\u00e7ou nisso. A esquerda deveria jogar fora a teoria da mais-valia? N\u00e3o digo isso. Mas precisar\u00edamos modific\u00e1-la radicalmente, o que significaria, no limite, produzir uma nova cr\u00edtica da economia pol\u00edtica. Cr\u00edtica que aproveitaria muita coisa do <em>Capital <\/em>de Marx, mas que tamb\u00e9m mudaria outras, mesmo no plano do n\u00facleo da teoria. N\u00e3o quero encher a cabe\u00e7a do leitor com esse ponto, decerto muito t\u00e9cnico. Mas acho importante indicar pelo menos o caminho das pesquisas que venho fazendo. H\u00e1 em Marx, junto com a teoria da mais-valia, um outro tema cr\u00edtico, conexo, mas a meu ver separ\u00e1vel, que \u00e9 a ideia da impossibilidade de legitimar a posse do capital pelo trabalho do capitalista. Isto \u00e9, trata-se de mostrar que a posse do capital, e tamb\u00e9m da riqueza que vem do capital, n\u00e3o prov\u00e9m do trabalho do capitalista. E isso por uma dupla raz\u00e3o. Em primeiro lugar, porque o capital inicial de que disp\u00f5e o capitalista pode vir de muitas fontes: da heran\u00e7a, por exemplo; de resto, como se sabe, o mercado \u00e9 um verdadeiro cassino, e a partir dele se pode adquirir muita coisa sem trabalho. Em segundo lugar, porque, mesmo supondo que o capital inicial do capitalista tenha vindo do seu trabalho, a riqueza que adv\u00e9m desse capital inicial como que se autonomiza do seu trabalho, e de certo modo de todo trabalho. Em \u00faltima an\u00e1lise, essa riqueza nasce, na realidade, do pr\u00f3prio capital. Ou seja, a aquisi\u00e7\u00e3o da riqueza por meio do capital n\u00e3o tem nenhum tipo de justifica\u00e7\u00e3o ou legitima\u00e7\u00e3o (pelo trabalho do capitalista ou por outra via): o capitalista adquire mais capital porque j\u00e1 tem capital, ponto. Se a formula\u00e7\u00e3o precisa dos fundamentos dessa cr\u00edtica est\u00e1 por ser feita, a desigualdade brutal que produz o capitalismo salta aos olhos, e n\u00e3o oferece d\u00favidas. Essa desigualdade \u00e9 raz\u00e3o mais do que suficiente para que a cr\u00edtica de seus fundamentos seja retomada em termos rigorosos.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, admita-se desde logo que n\u00e3o seria razo\u00e1vel esperar atingir esse objetivo a curto prazo. De imediato, o que devemos buscar \u00e9 a sobreviv\u00eancia ou a reimplanta\u00e7\u00e3o de um Estado de bem-estar social \u2013 modelo de a\u00e7\u00e3o estatal que est\u00e1 amea\u00e7ado em toda parte, quando j\u00e1 n\u00e3o foi desmontado \u2013, luta que j\u00e1 se faz no quadro de um enfrentamento com o capital. Que medidas poderiam nos levar na dire\u00e7\u00e3o dos nossos objetivos? Em primeiro lugar, uma reforma tribut\u00e1ria. A m\u00eddia repete de modo quase un\u00edssono que o Brasil \u00e9 recordista em termos de arrecada\u00e7\u00e3o de impostos. Diz-se que \u201cse\u201d paga demais ao governo. O problema \u00e9 saber o que h\u00e1 por tr\u00e1s desse \u201cse\u201d. A boa pergunta n\u00e3o \u00e9 a que pretende descobrir se no Brasil os impostos s\u00e3o altos ou n\u00e3o. A pergunta correta \u00e9 a que diz: quem paga impostos demais no Brasil? Os ricos ou os \u201cmenos ricos\u201d? Na realidade, as nossas al\u00edquotas de imposto de renda s\u00e3o um verdadeiro esc\u00e2ndalo. Uma modesta funcion\u00e1ria paga a mesma porcentagem que um banqueiro, isso quando o banqueiro paga. Do mesmo modo, o imposto sobre heran\u00e7a e transmiss\u00e3o de bens \u00e9 tamb\u00e9m muito baixo. A acrescentar o grande problema da sonega\u00e7\u00e3o fiscal. No Brasil, embora tenha havido algum progresso, a sonega\u00e7\u00e3o continua sendo enorme. No plano internacional, deram-se alguns passos, mas os para\u00edsos fiscais seguem funcionando.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que o atual sistema tribut\u00e1rio \u00e9 uma m\u00e1quina de transfer\u00eancia de renda para as classes favorecidas. A imprensa que se queixa dos laxismos no uso de dinheiro p\u00fablico n\u00e3o fala nada sobre esse mecanismo de desvio de recursos e acumula\u00e7\u00e3o de riqueza nas m\u00e3os dos mais ricos. \u00c9 verdade que essa transfer\u00eancia se d\u00e1 em observ\u00e2ncia da lei \u2013 tanto quanto \u00e9 \u00f3bvio que h\u00e1 leis muito injustas e mesmo abusivas.<\/p>\n<p>Um dos efeitos mais not\u00e1veis do avan\u00e7o ideol\u00f3gico recente da direita foi a imposi\u00e7\u00e3o da ideia, amplamente aceita, de que a privatiza\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre a melhor solu\u00e7\u00e3o \u2013 de que, enfim, o dem\u00f4nio \u00e9 o chamado \u201cestatismo\u201d, obst\u00e1culo ao desenvolvimento do chamado mercado \u201clivre e sem entraves\u201d, que se sup\u00f5e sempre prof\u00edcuo. J\u00e1 n\u00e3o se trata nem de um dogma, mas de um verdadeiro mito. Mas quem disse que empresas cujo capital majorit\u00e1rio \u00e9 estatal simplesmente n\u00e3o podem funcionar bem? Houve e h\u00e1 muitos exemplos disso, no Brasil e fora dele. Se n\u00e3o se trata de liquidar o setor privado, no programa que aqui se prop\u00f5e, \u00e9 de todo modo prefer\u00edvel que as grandes empresas tenham como acionista majorit\u00e1rio o Estado. A alternativa n\u00e3o \u00e9 \u201cmonop\u00f3lio <em>versus<\/em> empresa privada livre\u201d, mas sim, quase sempre, \u201cmonop\u00f3lio p\u00fablico <em>versus<\/em> monop\u00f3lio ou oligop\u00f3lio privado\u201d. Critica-se a interven\u00e7\u00e3o do Estado e a corrup\u00e7\u00e3o dos seus agentes. Mas a corrup\u00e7\u00e3o pode estar de um lado como do outro. E sobre o dinheiro e as decis\u00f5es do Estado ao menos se pode ter algum poder: os agentes do Estado dependem direta ou indiretamente do voto popular. Quanto aos acionistas das empresas privadas, quem pode com eles?<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">E<\/span>m terceiro lugar, no seu programa e na sua pr\u00e1tica, a esquerda deve ser infensa a toda facilidade na administra\u00e7\u00e3o dos bens p\u00fablicos e na vida p\u00fablica em geral. Em nome de que princ\u00edpio se prop\u00f5e essa recusa? Tal exig\u00eancia vem do pr\u00f3prio car\u00e1ter democr\u00e1tico do projeto. Sem d\u00favida, os melhores defensores da linhagem comunista, tamb\u00e9m eles, condenavam qualquer abuso dessa ordem. Isso porque supunham, com raz\u00e3o, que o uso de tais meios acabava comprometendo os fins visados. No contexto de um projeto democr\u00e1tico, o racioc\u00ednio vale <em>a fortiori<\/em>. O uso daqueles meios \u2013 a apropria\u00e7\u00e3o de renda e riquezas p\u00fablicas \u2013 n\u00e3o apenas compromete a realiza\u00e7\u00e3o dos fins a que a esquerda se prop\u00f5e, mas aqueles meios s\u00e3o imediatamente incompat\u00edveis com os fins. N\u00e3o pode haver democracia efetiva se o governo for corrupto. Uma coisa \u00e9 incompat\u00edvel com a outra. Um ideal republicano e democr\u00e1tico invalida imediatamente toda justificativa de pr\u00e1ticas pol\u00edticas lenientes ou desonestas.<\/p>\n<p>H\u00e1 pelo menos mais um princ\u00edpio que ainda se deve acrescentar \u00e0 exig\u00eancia democr\u00e1tica, ao anticapitalismo e ao princ\u00edpio de uma \u201cgovernan\u00e7a sem corrup\u00e7\u00e3o\u201d. Trata-se, evidentemente, de um programa ecol\u00f3gico. A ecologia n\u00e3o foi, durante muito tempo, propriamente uma bandeira da esquerda. A ideia difundida em certos meios de que Marx era um ecologista <em>avant la lettre <\/em>\u00e9, pelo menos, muito exagerada. Os temas ecol\u00f3gicos foram se impondo na segunda metade do s\u00e9culo passado, \u00e0 medida que as condi\u00e7\u00f5es ambientais se deterioravam como resultado da atividade humana. Hoje, s\u00f3 uma minoria de fan\u00e1ticos duvida da gravidade do problema ecol\u00f3gico. Bem entendido, n\u00e3o foi apenas o capitalismo que levou o mundo a essa situa\u00e7\u00e3o \u2013 o chamado \u201ccomunismo\u201d n\u00e3o ficou atr\u00e1s em mat\u00e9ria de progressismo suicida. Por\u00e9m, hoje, mesmo se o totalitarismo de esquerda n\u00e3o desapareceu \u2013 mas l\u00e1 onde as suas marcas s\u00e3o mais vis\u00edveis, ele, precisamente, coexiste com um capitalismo selvagem \u2013, \u00e9 o capitalismo que comanda a corrida.<\/p>\n<p>Assim, os fatos v\u00e3o mostrando o quanto \u00e9 dif\u00edcil lutar pela preserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente enquanto n\u00e3o abandonarmos o universo da economia capitalista. E n\u00e3o se trata apenas de uma constata\u00e7\u00e3o. \u00c9 muito dif\u00edcil impor uma limita\u00e7\u00e3o da corrida produtivista no interior de um sistema cujo princ\u00edpio \u00e9 a busca ilimitada do lucro. Assim, se a democracia se revela incompat\u00edvel com o capitalismo, tamb\u00e9m a ecologia n\u00e3o vai muito bem com ele. Nesse sentido, a incorpora\u00e7\u00e3o dos problemas ambientais \u00e0s lutas tradicionais da esquerda n\u00e3o deveria representar um problema.<\/p>\n<p>Ocorre que as coisas n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o simples. Mesmo se as energias renov\u00e1veis parecem oferecer grandes possibilidades em termos de emprego e de \u201cdesenvolvimento sustent\u00e1vel\u201d, h\u00e1 resist\u00eancias contra a ado\u00e7\u00e3o de novas fontes energ\u00e9ticas. Sem d\u00favida, isso n\u00e3o se deve apenas \u00e0 incompreens\u00e3o do problema por parte das dire\u00e7\u00f5es sindicais e partid\u00e1rias. Se n\u00e3o se assegurar a reconvers\u00e3o dos postos de trabalho ligados \u00e0s fontes de energia tradicionais \u2013 algo que deve ser feito \u2013, a ado\u00e7\u00e3o de novas fontes energ\u00e9ticas pode de fato representar uma amea\u00e7a ao emprego. Mas tomadas essas precau\u00e7\u00f5es, que ali\u00e1s n\u00e3o oferecem dificuldades intranspon\u00edveis, a m\u00e9dio e longo prazo o efeito dessa \u201cconvers\u00e3o energ\u00e9tica\u201d deve ser precisamente o oposto. Cada vez mais fica evidente que a mudan\u00e7a da matriz energ\u00e9tica \u00e9 uma importante alavanca na luta contra o desemprego, e uma sa\u00edda para a crise.<\/p>\n<p>No Brasil, como em geral no Terceiro Mundo, a indiferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s amea\u00e7as ao meio ambiente, assim como a desconfian\u00e7a para com as lutas ecol\u00f3gicas, \u00e9 muito forte em muitos meios de esquerda. Na realidade, os problemas s\u00e3o principalmente dois: o ac\u00famulo de CO<sub>2<\/sub> na atmosfera, que cria perturba\u00e7\u00f5es no clima, na fauna, nos oceanos etc. E o nuclear, que significa ac\u00famulo de lixo at\u00f4mico por milhares de anos, e a certeza de novas cat\u00e1strofes. Esse \u00faltimo problema \u00e9 tamb\u00e9m brasileiro, no sentido de que as usinas de Angra s\u00e3o obsoletas e perigosas, al\u00e9m do fato de que, mais do que ningu\u00e9m, n\u00e3o precisamos disso, j\u00e1 que temos muitas fontes de energia limpa. S\u00f3 muito lentamente essas quest\u00f5es v\u00e3o sendo assimiladas. Tamb\u00e9m no que se refere \u00e0 pol\u00edtica posta em pr\u00e1tica por partidos de esquerda no poder, n\u00e3o se pode dizer que at\u00e9 agora se tenha dado prova de uma consci\u00eancia ecol\u00f3gica muito aguda. O governo Dilma Rousseff foi particularmente surdo a esse tipo de exig\u00eancia, para n\u00e3o dizer mais. Basta falar no projeto da usina de Belo Monte, projeto ecologicamente desastroso e economicamente duvidoso. Tamb\u00e9m n\u00e3o houve uma verdadeira resist\u00eancia \u00e0 press\u00e3o do agroneg\u00f3cio e dos grandes interesses rurais que visavam desmontar a legisla\u00e7\u00e3o de prote\u00e7\u00e3o \u00e0 floresta. Enfim, o balan\u00e7o dos anos Dilma Rousseff em termos de ecologia \u2013 como tamb\u00e9m a sua pol\u00edtica indigenista \u2013 foi muito ruim, embora ela tenha tentado tomar algumas medidas corretivas no \u00faltimo momento \u2013 e apenas quando j\u00e1 era tarde demais.<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">O\u00a0<\/span>discurso tradicional da esquerda \u2013 em particular o discurso marxista \u2013 se fundava numa concep\u00e7\u00e3o excessivamente otimista do homem, algo ali\u00e1s que os arautos da nova direita n\u00e3o cansam de repetir. Os rasgos negativos da esp\u00e9cie adviriam quase que pura e simplesmente do peso de maus sistemas sociais. Hoje, depois de Freud e de muitos outros \u2013 e tamb\u00e9m depois de muita experi\u00eancia hist\u00f3rica \u2013, \u00e9 imposs\u00edvel comungar com o antigo otimismo, que poderia ser chamado de \u201chumanista\u201d. \u00c9 ilus\u00f3ria a ideia de uma sociedade em que os homens apareceriam como que despojados de quase toda agressividade e viol\u00eancia. Mas isso n\u00e3o significa que a tese contr\u00e1ria, a dos chamados anti-humanistas, seja verdadeira. O homem n\u00e3o se define pelo ego\u00edsmo e pela viol\u00eancia. Mesmo se a f\u00f3rmula parece banal, \u00e9 preciso reafirmar que os humanos s\u00e3o capazes tanto do pior como do melhor. Seja como for, \u00e9 preciso admitir, como j\u00e1 sugeria Kant, que h\u00e1 limites ao tipo de vida coletiva a que se pode aspirar.<\/p>\n<p>O esbo\u00e7o program\u00e1tico que tracei, como talvez j\u00e1 se tenha notado, inverte a perspectiva marxista para o longo prazo. Para Marx, o objetivo era o comunismo, o que implicava o ideal de uma sociedade transparente, com a aboli\u00e7\u00e3o do Estado e da propriedade privada. Tal objetivo, para o pensador alem\u00e3o, n\u00e3o seria ut\u00f3pico. Ao contr\u00e1rio, a longo prazo nada seria mais realista. Ut\u00f3pico, diante da marcha da hist\u00f3ria, seria querer conservar alguma forma de mercado ou o Estado, mesmo se modificado, ou ainda a propriedade privada de bens de valor relativamente consider\u00e1vel \u2013 como a casa pr\u00f3pria, por exemplo.<\/p>\n<p>Na perspectiva pela qual optei, e que parece se impor \u00e0 luz da experi\u00eancia dos \u00faltimos 150 anos, tem-se o contr\u00e1rio. O comunismo e a sociedade transparente, sem Estado, \u00e9 que passam a ser ut\u00f3picos. E, pior do que ut\u00f3picos, perigosos, porque o projeto cont\u00e9m germes totalit\u00e1rios. Inversamente, prop\u00f5e-se, e n\u00e3o se v\u00ea utopia nisso, conservar o dinheiro e alguma forma de mercado, mais o Estado e a propriedade privada, ainda que n\u00e3o de todo tipo de bens. N\u00e3o me parece absurdo crer na possibilidade hist\u00f3rica de um projeto como esse. De fato, se a ideia de uma sociedade transparente foi fazendo \u00e1gua do s\u00e9culo XIX\u00a0para c\u00e1, esse fracasso n\u00e3o significa que se deva aceitar a inevitabilidade da atual forma social dominante. \u00c9 verdade que uma sociedade organizada nos termos que indiquei n\u00e3o se apresenta, de forma alguma, como uma necessidade hist\u00f3rica. Mas nada nos leva a supor que ela seja imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>A sociedade que temos em vista ser\u00e1 bem menos transparente e sem d\u00favida menos solid\u00e1ria do que aquela com que Marx sonhava. Mas nada impede que seja bastante solid\u00e1ria; bem mais solid\u00e1ria, democr\u00e1tica e justa, de toda forma, do que a que temos hoje.<a href=\"http:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/reconstruir-a-esquerda\/#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/reconstruir-a-esquerda\/#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Agrade\u00e7o a ajuda preciosa de Arthur Hussne Bernardo, C\u00edcero Ara\u00fajo, Leonardo da Hora Pereira e Luisa Lobo Fausto. Sem responsabilidade.<\/p>\n<p>http:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/reconstruir-a-esquerda\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>RUY FAUSTO &#8211;\u00a0Um balan\u00e7o cr\u00edtico da experi\u00eancia hist\u00f3rica e algumas ideias para o futuro \u00c9 preciso dizer: o discurso pol\u00edtico de Marilena Chaui tem representado uma verdadeira cat\u00e1strofe para a esquerda. Infelizmente, ela se mostra seduzida demais pelo aplauso dos audit\u00f3rios Reconstruir a esquerda? Ainda recentemente, um bom autor franc\u00eas de esquerda \u2013 Jacques Ranci\u00e8re [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":244,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[4],"tags":[49,50],"class_list":["post-4306","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-teoria","tag-conjuntura","tag-esquerda"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>RECONSTRUIR A ESQUERDA - Controversia<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/06\/27\/reconstruir-a-esquerda\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_PT\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"RECONSTRUIR A ESQUERDA - Controversia\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"RUY FAUSTO &#8211;\u00a0Um balan\u00e7o cr\u00edtico da experi\u00eancia hist\u00f3rica e algumas ideias para o futuro \u00c9 preciso dizer: o discurso pol\u00edtico de Marilena Chaui tem representado uma verdadeira cat\u00e1strofe para a esquerda. Infelizmente, ela se mostra seduzida demais pelo aplauso dos audit\u00f3rios Reconstruir a esquerda? Ainda recentemente, um bom autor franc\u00eas de esquerda \u2013 Jacques Ranci\u00e8re [&hellip;]\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/06\/27\/reconstruir-a-esquerda\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Controversia\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Controversiascontemporaneas\/\" \/>\n<meta property=\"article:author\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Controversiascontemporaneas\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-06-27T12:28:16+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/bandeira-vermelha-esquerda.jpg\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"1000\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"665\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/jpeg\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Ricardo Alvarez\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:creator\" content=\"@https:\/\/twitter.com\/contro_versia\" \/>\n<meta name=\"twitter:site\" content=\"@contro_versia\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Ricardo Alvarez\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Tempo estimado de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"78 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2017\\\/06\\\/27\\\/reconstruir-a-esquerda\\\/#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2017\\\/06\\\/27\\\/reconstruir-a-esquerda\\\/\"},\"author\":{\"name\":\"Ricardo Alvarez\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/890416adf48f0d52618900e97e15edf2\"},\"headline\":\"RECONSTRUIR A ESQUERDA\",\"datePublished\":\"2017-06-27T12:28:16+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2017\\\/06\\\/27\\\/reconstruir-a-esquerda\\\/\"},\"wordCount\":15655,\"commentCount\":0,\"publisher\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/890416adf48f0d52618900e97e15edf2\"},\"image\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2017\\\/06\\\/27\\\/reconstruir-a-esquerda\\\/#primaryimage\"},\"thumbnailUrl\":\"https:\\\/\\\/i0.wp.com\\\/controversia.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2016\\\/05\\\/bandeira-vermelha-esquerda.jpg?fit=1000%2C665&ssl=1\",\"keywords\":[\"Conjuntura\",\"Esquerda\"],\"articleSection\":[\"Teoria\"],\"inLanguage\":\"pt-PT\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"CommentAction\",\"name\":\"Comment\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2017\\\/06\\\/27\\\/reconstruir-a-esquerda\\\/#respond\"]}]},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2017\\\/06\\\/27\\\/reconstruir-a-esquerda\\\/\",\"url\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2017\\\/06\\\/27\\\/reconstruir-a-esquerda\\\/\",\"name\":\"RECONSTRUIR A ESQUERDA - Controversia\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/#website\"},\"primaryImageOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2017\\\/06\\\/27\\\/reconstruir-a-esquerda\\\/#primaryimage\"},\"image\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2017\\\/06\\\/27\\\/reconstruir-a-esquerda\\\/#primaryimage\"},\"thumbnailUrl\":\"https:\\\/\\\/i0.wp.com\\\/controversia.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2016\\\/05\\\/bandeira-vermelha-esquerda.jpg?fit=1000%2C665&ssl=1\",\"datePublished\":\"2017-06-27T12:28:16+00:00\",\"breadcrumb\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2017\\\/06\\\/27\\\/reconstruir-a-esquerda\\\/#breadcrumb\"},\"inLanguage\":\"pt-PT\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2017\\\/06\\\/27\\\/reconstruir-a-esquerda\\\/\"]}]},{\"@type\":\"ImageObject\",\"inLanguage\":\"pt-PT\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2017\\\/06\\\/27\\\/reconstruir-a-esquerda\\\/#primaryimage\",\"url\":\"https:\\\/\\\/i0.wp.com\\\/controversia.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2016\\\/05\\\/bandeira-vermelha-esquerda.jpg?fit=1000%2C665&ssl=1\",\"contentUrl\":\"https:\\\/\\\/i0.wp.com\\\/controversia.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2016\\\/05\\\/bandeira-vermelha-esquerda.jpg?fit=1000%2C665&ssl=1\",\"width\":1000,\"height\":665},{\"@type\":\"BreadcrumbList\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2017\\\/06\\\/27\\\/reconstruir-a-esquerda\\\/#breadcrumb\",\"itemListElement\":[{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":1,\"name\":\"In\u00edcio\",\"item\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":2,\"name\":\"RECONSTRUIR A ESQUERDA\"}]},{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/#website\",\"url\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/\",\"name\":\"Controversia\",\"description\":\"Um site de leitura e debate\",\"publisher\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/890416adf48f0d52618900e97e15edf2\"},\"potentialAction\":[{\"@type\":\"SearchAction\",\"target\":{\"@type\":\"EntryPoint\",\"urlTemplate\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/?s={search_term_string}\"},\"query-input\":{\"@type\":\"PropertyValueSpecification\",\"valueRequired\":true,\"valueName\":\"search_term_string\"}}],\"inLanguage\":\"pt-PT\"},{\"@type\":[\"Person\",\"Organization\"],\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/890416adf48f0d52618900e97e15edf2\",\"name\":\"Ricardo Alvarez\",\"image\":{\"@type\":\"ImageObject\",\"inLanguage\":\"pt-PT\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2020\\\/05\\\/Plano-de-Fundo-1015x1024.png\",\"url\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2020\\\/05\\\/Plano-de-Fundo-1015x1024.png\",\"contentUrl\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2020\\\/05\\\/Plano-de-Fundo-1015x1024.png\",\"width\":1015,\"height\":1024,\"caption\":\"Ricardo Alvarez\"},\"logo\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2020\\\/05\\\/Plano-de-Fundo-1015x1024.png\"},\"description\":\"Professor, mestre em geografia urbana pela USP e criador do site Controv\u00e9rsia e escreve semanalmente.\",\"sameAs\":[\"http:\\\/\\\/controversia.com.br\",\"https:\\\/\\\/www.facebook.com\\\/Controversiascontemporaneas\\\/\",\"https:\\\/\\\/www.linkedin.com\\\/in\\\/controversia\\\/\",\"https:\\\/\\\/x.com\\\/https:\\\/\\\/twitter.com\\\/contro_versia\"]}]}<\/script>\n<!-- \/ Yoast SEO plugin. -->","yoast_head_json":{"title":"RECONSTRUIR A ESQUERDA - Controversia","robots":{"index":"index","follow":"follow","max-snippet":"max-snippet:-1","max-image-preview":"max-image-preview:large","max-video-preview":"max-video-preview:-1"},"canonical":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/06\/27\/reconstruir-a-esquerda\/","og_locale":"pt_PT","og_type":"article","og_title":"RECONSTRUIR A ESQUERDA - Controversia","og_description":"RUY FAUSTO &#8211;\u00a0Um balan\u00e7o cr\u00edtico da experi\u00eancia hist\u00f3rica e algumas ideias para o futuro \u00c9 preciso dizer: o discurso pol\u00edtico de Marilena Chaui tem representado uma verdadeira cat\u00e1strofe para a esquerda. Infelizmente, ela se mostra seduzida demais pelo aplauso dos audit\u00f3rios Reconstruir a esquerda? Ainda recentemente, um bom autor franc\u00eas de esquerda \u2013 Jacques Ranci\u00e8re [&hellip;]","og_url":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/06\/27\/reconstruir-a-esquerda\/","og_site_name":"Controversia","article_publisher":"https:\/\/www.facebook.com\/Controversiascontemporaneas\/","article_author":"https:\/\/www.facebook.com\/Controversiascontemporaneas\/","article_published_time":"2017-06-27T12:28:16+00:00","og_image":[{"width":1000,"height":665,"url":"https:\/\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/bandeira-vermelha-esquerda.jpg","type":"image\/jpeg"}],"author":"Ricardo Alvarez","twitter_card":"summary_large_image","twitter_creator":"@https:\/\/twitter.com\/contro_versia","twitter_site":"@contro_versia","twitter_misc":{"Escrito por":"Ricardo Alvarez","Tempo estimado de leitura":"78 minutos"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2017\/06\/27\/reconstruir-a-esquerda\/#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2017\/06\/27\/reconstruir-a-esquerda\/"},"author":{"name":"Ricardo Alvarez","@id":"https:\/\/controversia.com.br\/#\/schema\/person\/890416adf48f0d52618900e97e15edf2"},"headline":"RECONSTRUIR A ESQUERDA","datePublished":"2017-06-27T12:28:16+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2017\/06\/27\/reconstruir-a-esquerda\/"},"wordCount":15655,"commentCount":0,"publisher":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/#\/schema\/person\/890416adf48f0d52618900e97e15edf2"},"image":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2017\/06\/27\/reconstruir-a-esquerda\/#primaryimage"},"thumbnailUrl":"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/bandeira-vermelha-esquerda.jpg?fit=1000%2C665&ssl=1","keywords":["Conjuntura","Esquerda"],"articleSection":["Teoria"],"inLanguage":"pt-PT","potentialAction":[{"@type":"CommentAction","name":"Comment","target":["https:\/\/controversia.com.br\/2017\/06\/27\/reconstruir-a-esquerda\/#respond"]}]},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2017\/06\/27\/reconstruir-a-esquerda\/","url":"https:\/\/controversia.com.br\/2017\/06\/27\/reconstruir-a-esquerda\/","name":"RECONSTRUIR A ESQUERDA - Controversia","isPartOf":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/#website"},"primaryImageOfPage":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2017\/06\/27\/reconstruir-a-esquerda\/#primaryimage"},"image":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2017\/06\/27\/reconstruir-a-esquerda\/#primaryimage"},"thumbnailUrl":"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/bandeira-vermelha-esquerda.jpg?fit=1000%2C665&ssl=1","datePublished":"2017-06-27T12:28:16+00:00","breadcrumb":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2017\/06\/27\/reconstruir-a-esquerda\/#breadcrumb"},"inLanguage":"pt-PT","potentialAction":[{"@type":"ReadAction","target":["https:\/\/controversia.com.br\/2017\/06\/27\/reconstruir-a-esquerda\/"]}]},{"@type":"ImageObject","inLanguage":"pt-PT","@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2017\/06\/27\/reconstruir-a-esquerda\/#primaryimage","url":"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/bandeira-vermelha-esquerda.jpg?fit=1000%2C665&ssl=1","contentUrl":"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/bandeira-vermelha-esquerda.jpg?fit=1000%2C665&ssl=1","width":1000,"height":665},{"@type":"BreadcrumbList","@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2017\/06\/27\/reconstruir-a-esquerda\/#breadcrumb","itemListElement":[{"@type":"ListItem","position":1,"name":"In\u00edcio","item":"https:\/\/controversia.com.br\/"},{"@type":"ListItem","position":2,"name":"RECONSTRUIR A ESQUERDA"}]},{"@type":"WebSite","@id":"https:\/\/controversia.com.br\/#website","url":"https:\/\/controversia.com.br\/","name":"Controversia","description":"Um site de leitura e debate","publisher":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/#\/schema\/person\/890416adf48f0d52618900e97e15edf2"},"potentialAction":[{"@type":"SearchAction","target":{"@type":"EntryPoint","urlTemplate":"https:\/\/controversia.com.br\/?s={search_term_string}"},"query-input":{"@type":"PropertyValueSpecification","valueRequired":true,"valueName":"search_term_string"}}],"inLanguage":"pt-PT"},{"@type":["Person","Organization"],"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/#\/schema\/person\/890416adf48f0d52618900e97e15edf2","name":"Ricardo Alvarez","image":{"@type":"ImageObject","inLanguage":"pt-PT","@id":"https:\/\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Plano-de-Fundo-1015x1024.png","url":"https:\/\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Plano-de-Fundo-1015x1024.png","contentUrl":"https:\/\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Plano-de-Fundo-1015x1024.png","width":1015,"height":1024,"caption":"Ricardo Alvarez"},"logo":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Plano-de-Fundo-1015x1024.png"},"description":"Professor, mestre em geografia urbana pela USP e criador do site Controv\u00e9rsia e escreve semanalmente.","sameAs":["http:\/\/controversia.com.br","https:\/\/www.facebook.com\/Controversiascontemporaneas\/","https:\/\/www.linkedin.com\/in\/controversia\/","https:\/\/x.com\/https:\/\/twitter.com\/contro_versia"]}]}},"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/bandeira-vermelha-esquerda.jpg?fit=1000%2C665&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4306","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4306"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4306\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4307,"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4306\/revisions\/4307"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/244"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4306"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4306"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4306"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}