{"id":4295,"date":"2017-06-26T09:01:01","date_gmt":"2017-06-26T12:01:01","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=4295"},"modified":"2017-06-25T14:05:26","modified_gmt":"2017-06-25T17:05:26","slug":"por-que-diretas-ja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/06\/26\/por-que-diretas-ja\/","title":{"rendered":"Por que Diretas J\u00e1"},"content":{"rendered":"<p><strong>ELIANE BRUM<\/strong> &#8211; \u00c9 preciso interromper a crescente fragiliza\u00e7\u00e3o da democracia para recuperar a capacidade de imaginar um pa\u00eds<\/p>\n<p>O voto no Brasil hoje vale muito pouco. E precisa voltar a valer. Diante de um buraco t\u00e3o fundo, que n\u00e3o para de se alargar, refundar a democracia depende da retomada pela popula\u00e7\u00e3o do poder de escolher quem a representa. Este seria apenas o come\u00e7o. Mas, sem ele, seguiremos girando em falso. E, mesmo aqueles que sup\u00f5em controlar as voltas, iludem-se. O que se passa hoje no Brasil n\u00e3o come\u00e7ou ontem nem terminar\u00e1 amanh\u00e3. Nos assombrar\u00e1 por muito tempo. \u00c9 urgente que o poder de decidir quem governa e com qual programa governa volte \u00e0s m\u00e3os da popula\u00e7\u00e3o como um primeiro movimento. \u00c9 preciso que Michel Temer renuncie, seja impedido ou afastado e que se fa\u00e7a elei\u00e7\u00f5es diretas. N\u00e3o se trata apenas do futuro, \u00e9 o presente que est\u00e1 interditado. E por isso \u00e9 t\u00e3o urgente. O presente n\u00e3o voltar\u00e1 a ser poss\u00edvel antes que se recupere a capacidade de imaginar um pa\u00eds.<\/p>\n<p>Dizer que o voto vale hoje muito pouco no Brasil n\u00e3o \u00e9 uma figura ret\u00f3rica. Ou mesmo um clich\u00ea. \u00c9 um fato produzido tanto pelo oportunismo quanto pela irresponsabilidade de grupos de poder. E um fato que precisa ser compreendido para al\u00e9m do que se costuma chamar de \u201cpolariza\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>O voto, no Brasil, foi tra\u00eddo duas vezes na hist\u00f3ria recente. Uma no estelionato eleitoral promovido por Dilma Rousseff, logo no in\u00edcio do seu segundo mandato, quando a presidente adotou o programa dos advers\u00e1rios. Outra quando ela foi deposta sem que o motivo alegado justificasse uma medida t\u00e3o extrema. E a trai\u00e7\u00e3o pode ainda ser ampliada muitas vezes quando contemplada pelo \u00e2ngulo da corrup\u00e7\u00e3o que atravessa tanto o Executivo quanto o Legislativo.<\/p>\n<p>Da primeira trai\u00e7\u00e3o, o PT sequer fez autocr\u00edtica. Nada indica que pretenda fazer enquanto tiver chance de voltar ao poder. Ou mesmo depois. A segunda trai\u00e7\u00e3o ao voto n\u00e3o para de se ampliar. Michel Temer, hoje investigado por corrup\u00e7\u00e3o passiva, obstru\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a e organiza\u00e7\u00e3o criminosa, tornou-se presidente pela for\u00e7a de um impeachment que n\u00e3o se sustentava. E acaba de ser salvo por um tribunal presidido por um ministro, Gilmar Mendes, que corr\u00f3i a no\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a um pouco mais a cada dia num pa\u00eds em que a justi\u00e7a tanto falta. Tudo isso \u00e9 agravado por um Congresso dominado por investigados, que negociam no balc\u00e3o reformas que alteram profundamente a vida da popula\u00e7\u00e3o. Reformas que a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o escolheu ao eleger a chapa Dilma-Temer, vale lembrar.<\/p>\n<section id=\"sumario_1|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">O PT precisa se responsabilizar pela parte que lhe cabe na corros\u00e3o da democracia<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>\u00c9 importante compreender que as trai\u00e7\u00f5es ao voto s\u00e3o duas para n\u00e3o seguirmos girando em falso. O fato de serem duas \u00e9 tamb\u00e9m o que aprofunda a crise e dificulta que se saia dela. A deposi\u00e7\u00e3o de uma presidente democraticamente eleita sem raz\u00e3o que justificasse ato t\u00e3o extremo, tanto que Dilma Rousseff sequer perdeu o direito de disputar elei\u00e7\u00f5es e ocupar cargos p\u00fablicos, \u00e9 mais traum\u00e1tica do que a trai\u00e7\u00e3o cometida por esta mesma presidente ao programa que a elegeu. E podemos supor que seja mais grave. Mas uma trai\u00e7\u00e3o n\u00e3o absolve a outra. Ambas t\u00eam efeito sobre o esvaziamento do voto e, portanto, da democracia. E o esvaziamento do voto tem consequ\u00eancia profunda \u2013 e longa \u2013 na vida do pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u00c9 importante compreender que s\u00e3o duas as trai\u00e7\u00f5es ao voto porque o Brasil tem um problema cr\u00f4nico com a mem\u00f3ria. Se o PT quiser voltar a recuperar algum respeito, a autocr\u00edtica n\u00e3o \u00e9 opcional. A autocr\u00edtica \u00e9 uma quest\u00e3o de responsabilidade. \u00c9 tamb\u00e9m uma d\u00edvida com os eleitores, mas n\u00e3o s\u00f3. \u00c9 uma d\u00edvida com a popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds que o partido governou por mais de 13 anos porque a maioria deu a ele a confian\u00e7a do seu voto. O PT precisa se responsabilizar pela parte que lhe cabe na corros\u00e3o da democracia.<\/p>\n<p>\u00c9 importante compreender que s\u00e3o duas as trai\u00e7\u00f5es ao voto por uma terceira raz\u00e3o: para localizar onde de fato est\u00e1 a oposi\u00e7\u00e3o. A \u201cpolariza\u00e7\u00e3o\u201d que se apresenta como realidade obscurece coisas demais. E produz apagamentos. \u00c9 por isso que o PT n\u00e3o pode apenas se colocar automaticamente na oposi\u00e7\u00e3ocomo se n\u00e3o tivesse nada a ver com o atual projeto no poder ou como se o impeachment de tudo o absolvesse. Apagamento da mem\u00f3ria s\u00f3 \u00e9 estrat\u00e9gia de criminoso e de mau car\u00e1ter. Tem bastante disso no PT, mas tamb\u00e9m tem muita gente honesta. Aparentemente, os honestos seguem sem voz decisiva no partido ou pouco dispostos a us\u00e1-la.<\/p>\n<section id=\"sumario_7|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">A eclos\u00e3o da viol\u00eancia nas periferias \u00e9 intimamente ligada \u00e0 fragilidade das institui\u00e7\u00f5es no centro<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Se Dilma Rousseff foi deposta sem que o motivo alegado naquele momento justificasse medida t\u00e3o extrema, \u00e9 \u00f3bvio que a perman\u00eancia de Michel Temer na presid\u00eancia do pa\u00eds \u00e9 insustent\u00e1vel. Ou deveria ser insustent\u00e1vel. A cada dia que ele fica no Planalto a vida no Brasil piora um pouco mais. A absolvi\u00e7\u00e3o da chapa Dilma-Temer no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), na \u00faltima sexta-feira (9\/6), deixou ainda mais clara a profunda crise \u00e9tica do pa\u00eds \u2013 e deixou ainda mais expl\u00edcito que o judici\u00e1rio est\u00e1 longe de escapar da lamban\u00e7a.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do p\u00e9ssimo estilo da ret\u00f3rica dos ministros que votaram para salvar o presidente sem salva\u00e7\u00e3o, a l\u00f3gica passou longe de seus argumentos. Como era previsto, Gilmar Mendes desempatou a vota\u00e7\u00e3o dizendo exatamente o oposto do que disse antes, porque se antes interessava afundar Dilma Rousseff, agora interessa salvar seu amigo Michel. \u00c9 a politiza\u00e7\u00e3o do judici\u00e1rio num grau que parecia inimagin\u00e1vel at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<p>Gilmar Mendes torna-se hora a hora um personagem cada vez mais nocivo ao Brasil. Num artigo bem fundamentado, Conrado H\u00fcbner Mendes, professor de direito constitucional da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), afirmou: &#8220;Gilmar Mendes n\u00e3o \u00e9 <em>pol\u00eamico<\/em>, nem <em>controverso<\/em>, nem <em>corajoso<\/em>. Eufemismos jornal\u00edsticos apenas obscurecem o problema. O direito n\u00e3o \u00e9 indiferente \u00e0 anti\u00e9tica de Gilmar Mendes: seu comportamento \u00e9 ilegal&#8221;.<\/p>\n<section id=\"sumario_2|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">Gilmar Mendes se torna para o Judici\u00e1rio, no \u00e2mbito da imagem e da responsabilidade p\u00fablica, o que Eduardo Cunha foi para o Legislativo<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>E isso que o artigo foi publicado antes do julgamento no TSE. As acrobacias ret\u00f3ricas de Gilmar Mendes para absolver Temer lembraram outro personagem deste momento hist\u00f3rico, capaz de dizer qualquer absurdo com toda \u00eanfase e sem piscar. Gilmar Mendes est\u00e1 se tornando para o Judici\u00e1rio, no \u00e2mbito da imagem e da responsabilidade p\u00fablica, o que Eduardo Cunha foi para o Legislativo. Assim como Eduardo Cunha estava longe de ser \u201co\u201d problema do Congresso, tamb\u00e9m Gilmar Mendes est\u00e1 longe de esgotar os problemas do Supremo Tribunal Federal. Mas ambos encarnam a deformidade dos poderes que representam e a exp\u00f5e para serem atravessadas pela luz do dia. Agora s\u00e3o dois os vil\u00f5es do Batman em Bras\u00edlia City (ainda que um deles esteja no momento amargando uma temporada em clima mais frio).<\/p>\n<p>A cada vez que os fatos s\u00e3o torturados, o voto da popula\u00e7\u00e3o se esvazia um pouco mais. E a democracia se enfraquece. Se dep\u00f5e uma presidente pelo que se chamou de \u201cpedaladas fiscais\u201d, com grupos liderando uma massa nas ruas em nome de combater a corrup\u00e7\u00e3o, e um presidente investigado por corrup\u00e7\u00e3o, obstru\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a e organiza\u00e7\u00e3o criminosa ocupa hoje o poder sem que os mesmos grupos v\u00e3o para a rua.<\/p>\n<p>Como \u00e9 poss\u00edvel justificar o injustific\u00e1vel? O cotidiano no Brasil tem mostrado que justificar o injustific\u00e1vel (e seguir se autoproclamando \u201ccidad\u00e3o de bem\u201d) se tornou um esporte nacional. O pato da Fiesp, como j\u00e1 foi dito por tantos, mas n\u00e3o custa lembrar, somos n\u00f3s. \u00c9 importante diferenciar a massa que foi para as ruas em 2015 e 2016 dos grupos que lideraram as manifesta\u00e7\u00f5es. \u00c9 tamb\u00e9m poss\u00edvel supor, pela popularidade perto de zero de Temer, que aqueles que foram \u00e0s ruas pedir o impeachment de Dilma Rousseff n\u00e3o est\u00e3o satisfeitos com o que veio depois.<\/p>\n<p>A profunda distor\u00e7\u00e3o que marca essa \u00e9poca, com ampla responsabilidade dos tr\u00eas poderes da Rep\u00fablica e tamb\u00e9m de grupos da sociedade civil, amplia a percep\u00e7\u00e3o de que o voto \u2013 para muitos toda a participa\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica \u2013 n\u00e3o vale mais nada. E isso \u00e9 um golpe na nossa fr\u00e1gil democracia, um golpe com bra\u00e7os longos no tempo. E tamb\u00e9m por isso as elei\u00e7\u00f5es diretas se tornam imperativas.<\/p>\n<p>\u00c9 importante lembrar que este enredo, o do progressivo esvaziamento do voto, se desenrolou num momento muito particular. Nos protestos de junho de 2013, uma multid\u00e3o nas ruas apontava justamente a insufici\u00eancia do voto como instrumento de participa\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica. Assim como colocava em xeque a representa\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria, que j\u00e1 n\u00e3o dava conta de canalizar os anseios de melhoria de vida da popula\u00e7\u00e3o. O fen\u00f4meno tem conex\u00f5es globais, mas em cada pa\u00eds evoluiu de forma particular.<\/p>\n<section id=\"sumario_3|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">A narrativa da polariza\u00e7\u00e3o serve ao apagamento das semelhan\u00e7as em vez da vocaliza\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>O que aconteceu ent\u00e3o? Em vez de escutar a polifonia das ruas e debater formas de amplia\u00e7\u00e3o dos mecanismos de participa\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, os dois \u201cpolos pol\u00edticos\u201d \u2013 PSDB e PT \u2013 optaram tanto pela repress\u00e3o quanto pela desqualifica\u00e7\u00e3o de quem protestava. Se o PSDB de Geraldo Alckmin logo jogou a Pol\u00edcia Militar sobre os manifestantes, no exemplo emblem\u00e1tico de S\u00e3o Paulo em junho de 2013, a escolha do PT de Dilma Rousseff tornou-se expl\u00edcita especialmente nas manifesta\u00e7\u00f5es contra a Copa, em 2014. De novo a narrativa da polariza\u00e7\u00e3o serve ao apagamento de semelhan\u00e7as quando finge vocalizar diferen\u00e7as.<\/p>\n<p>Na revista Piau\u00ed de junho, h\u00e1 um artigo de Fernando Haddad, ex-prefeito de S\u00e3o Paulo pelo PT. Ele foi escrito a partir de uma s\u00e9rie de depoimentos que Haddad deu ao jornalista Ivan Marsiglia. \u00c9 um alento, num momento de tanta louva\u00e7\u00e3o \u00e0 ignor\u00e2ncia e \u00e0 marquetagem rasteira, ler um texto constru\u00eddo por quem est\u00e1 disposto a pensar a experi\u00eancia pol\u00edtica vivida. \u201cVivi na pele o que aprendi nos livros\u201d \u00e9 um texto obrigat\u00f3rio para quem quer compreender o pa\u00eds. Mas, se h\u00e1 muitas qualidades nele (e h\u00e1), \u00e9 uma pena que Haddad tenha se dedicado um pouco menos a se pensar neste contexto.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise \u00e9 carente de autocr\u00edtica, mas talvez ela venha num pr\u00f3ximo cap\u00edtulo. Mas o entendimento de junho de 2013 e de suas consequ\u00eancias \u00e9 redutor do que ali se passou e ecoa at\u00e9 hoje. E <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/fernando_haddad\/a\">Haddad<\/a>, prefeito de S\u00e3o Paulo naquele momento, foi um protagonista importante demais. Havia escolhas a se fazer ali e muito pouco tempo para compreender o que at\u00e9 hoje ningu\u00e9m entendeu por completo. \u00c9 preciso pensar sobre elas sem autoindulg\u00eancia por todas as raz\u00f5es e tamb\u00e9m para expressar os limites tanto da pessoa como do governante em momentos t\u00e3o agudos.<\/p>\n<p>Naquela ocasi\u00e3o, o PT teve uma oportunidade em n\u00edvel local, no caso de S\u00e3o Paulo \u2013 e principalmente nacional. E a perdeu. J\u00e1 tinha perdido as ruas e, em vez de escut\u00e1-las e refletir sobre os porqu\u00eas, preferiu se aliar progressivamente \u00e0 trucul\u00eancia do PSDB e ao caminho autorit\u00e1rio. E isso torna o partido correspons\u00e1vel tamb\u00e9m por tudo o que veio depois. Os protestos de junho ecoar\u00e3o por muito tempo e h\u00e1 muito por se compreender. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel apagar que, ao contrapor-se ao aumento da passagem e reivindicar a tarifa zero, as manifesta\u00e7\u00f5es eclodem por um desejo de reapropria\u00e7\u00e3o da cidade e da possibilidade de se mover nela. O que \u00e9 bastante significativo.<\/p>\n<p>N\u00e3o adianta contornar erros e contradi\u00e7\u00f5es, na tentativa de convert\u00ea-los em acertos e vitimiza\u00e7\u00f5es. Mais vale assumi-los e pensar sobre eles. E o PT tem muito a refletir sobre o seu papel em 2013 e 2014. Quando hoje sindicalistas e organiza\u00e7\u00f5es ligadas ao partido denunciam a criminaliza\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais pelo atual governo, n\u00e3o d\u00e1 para esquecer que Dilma Rousseff sancionou a lei antiterrorismo que escancarou a porteira para criminalizar manifestantes e manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<section id=\"sumario_4|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">Belo Monte, mais do que a Petrobras, cont\u00e9m todas as faces das contradi\u00e7\u00f5es do Brasil atual<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Quem acompanhou o processo de constru\u00e7\u00e3o da usina hidrel\u00e9trica de Belo Monte, no rio Xingu, na Amaz\u00f4nia paraense, testemunhou as contradi\u00e7\u00f5es do PT no poder se realizando bem antes, numa obra em que p\u00fablico e privado se misturam. A coopta\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais, para minar a resist\u00eancia \u00e0 obra; a divis\u00e3o das lideran\u00e7as ind\u00edgenas e a institui\u00e7\u00e3o de uma mesada para as aldeias; a viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos mais b\u00e1sicos quando analfabetos eram pressionados a assinar pap\u00e9is que n\u00e3o eram capazes de ler, perdendo casas, ilhas e terras; a For\u00e7a Nacional colocada a servi\u00e7o da empresa para reprimir os protestos dos atingidos e tamb\u00e9m as paralisa\u00e7\u00f5es dos trabalhadores; a usina constru\u00edda pela for\u00e7a do instrumento autorit\u00e1rio da suspens\u00e3o de seguran\u00e7a, com a coniv\u00eancia de presidentes de tribunais. E, atravessando tudo, o propinoduto hoje investigado pela Lava Jato.<\/p>\n<p>Toda a anatomia do governo PT-PMDB-Empreiteiras estava l\u00e1 para quem estivesse disposto a ver. E poucos estavam. E, ao fundo, uma gigantesca trai\u00e7\u00e3o ao voto. N\u00e3o h\u00e1 autocr\u00edtica poss\u00edvel do PT, assim como responsabiliza\u00e7\u00e3o de todos os envolvidos, sem enfrentar Belo Monte. Muito mais do que a Petrobras, a empresa, Belo Monte, a obra, converte-se no monumento que cont\u00e9m todas as faces das contradi\u00e7\u00f5es. E, mais uma vez, advers\u00e1rios em todo o resto se unem no esfor\u00e7o de apagar esse cap\u00edtulo monstruoso (ou super\u00e1-lo), agora com o discurso do \u201cfato consumado\u201d.<\/p>\n<p>Em 2013 as ruas expressam n\u00e3o s\u00f3, mas tamb\u00e9m, que o voto \u00e9 insuficiente como principal instrumento de participa\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica. E expressam n\u00e3o s\u00f3, mas tamb\u00e9m, que os partidos n\u00e3o s\u00e3o mais capazes de representar anseios, mesmo que d\u00edspares. Em vez de atuar pelo fortalecimento do voto, assim como pela amplia\u00e7\u00e3o das formas de representa\u00e7\u00e3o, o que aconteceu desde ent\u00e3o foi o oposto: o esvaziamento tanto do voto quanto da capacidade de representa\u00e7\u00e3o pela via partid\u00e1ria. Ambos agravados pela corrup\u00e7\u00e3o disseminada nas principais siglas, exposta pela Lava Jato. \u00c9 tamb\u00e9m por isso que a volta da decis\u00e3o de quem vai governar o pa\u00eds \u00e0s m\u00e3os da popula\u00e7\u00e3o, pela via do voto, \u00e9 essencial neste momento do Brasil. Elei\u00e7\u00f5es indiretas s\u00f3 aprofundariam ainda mais as fraturas do pa\u00eds e enfraqueceriam ainda mais uma democracia cada vez mais desacreditada.<\/p>\n<p>O que antes era rebeli\u00e3o hoje beira a apatia. Esta \u00e9 uma das hip\u00f3teses poss\u00edveis para explicar por que o clamor do \u201cDiretas J\u00e1\u201d ainda n\u00e3o tenha tomado as ruas com uma for\u00e7a capaz de sacudir Bras\u00edlia, embora a maioria da popula\u00e7\u00e3o seja favor\u00e1vel \u00e0s elei\u00e7\u00f5es diretas nas pesquisas. H\u00e1 muito barulho nas redes sociais sobre o que se vive hoje no pa\u00eds, mas nada acontece de fato se n\u00e3o acontecer tamb\u00e9m nas ruas. N\u00e3o foram pequenas as \u00faltimas manifesta\u00e7\u00f5es do \u201cFora Temer\u201d e \u201cDiretas J\u00e1\u201d, em especial no Rio e em S\u00e3o Paulo. Mas elas ainda n\u00e3o foram suficientemente grandes nem uniram uma popula\u00e7\u00e3o com dificuldades para compartilhar o espa\u00e7o p\u00fablico mesmo carregando suas diferen\u00e7as. O que n\u00e3o significa que as manifesta\u00e7\u00f5es n\u00e3o possam crescer se Temer for denunciado e virar r\u00e9u ou se novas den\u00fancias surgirem \u2013 ambas possibilidades bastante prov\u00e1veis.<\/p>\n<section id=\"sumario_5|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">A crescente fragiliza\u00e7\u00e3o da democracia no interior de cora\u00e7\u00f5es e mentes, entranhada no cotidiano, \u00e9 a mais perigosa<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>H\u00e1 descren\u00e7a na pol\u00edtica e nos pol\u00edticos, h\u00e1 descren\u00e7a nos partidos. E h\u00e1 uma percep\u00e7\u00e3o disseminada de que, de alguma forma, o voto ser\u00e1 mais uma vez tra\u00eddo. E, de alguma forma, os grupos de poder v\u00e3o acabar fazendo o que bem entendem, independentemente das mobiliza\u00e7\u00f5es, o que a popula\u00e7\u00e3o comprova na pr\u00e1tica do dia a dia. E, sendo assim, cada um vai cuidar da pr\u00f3pria vida que se tornou muito mais dif\u00edcil, cada vez menos convencido de que pode existir uma sa\u00edda pela via da pol\u00edtica e do voto. Essa crescente fragiliza\u00e7\u00e3o da democracia no interior de cora\u00e7\u00f5es e mentes, entranhada no cotidiano, \u00e9 a mais perigosa. E tamb\u00e9m por isso a decis\u00e3o sobre quem governar\u00e1 o pa\u00eds na hip\u00f3tese da sa\u00edda de Michel Temer deve ser do povo e das urnas.<\/p>\n<p>O que ecoa hoje no Brasil tem muito de particular \u2013 e tem muito da pr\u00f3pria crise da democracia como fen\u00f4meno global. H\u00e1 muito escrito sobre este tema. Gosto particularmente de um pequeno livro, <em>Babel \u2013 entre a incerteza e a esperan\u00e7a<\/em>(Zahar, 2016). A obra \u00e9 uma conversa bastante iluminadora entre o soci\u00f3logo polon\u00eas Zygmunt Bauman, falecido em janeiro deste ano, e o jornalista italiano Ezio Mauro. Eles discutem como a pol\u00edtica acaba sendo o \u201ctotem corrompido\u201d de um mundo que n\u00e3o funciona. E alertam para o fato de que \u201cdepois de ter derrotado as ditaduras, a democracia n\u00e3o se instala no controle para sempre\u201d.<\/p>\n<p>Ezio Mauro define com precis\u00e3o o sentimento do cidad\u00e3o que \u201cconta apenas como um, sem capacidade de se somar aos outros\u201d: \u201cEle n\u00e3o se sente desapontado, mas antes rebelde, protagonista de uma esp\u00e9cie de sucess\u00e3o republicana, quase um novo s\u00fadito pol\u00edtico na contrapol\u00edtica da rejei\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o compreende que tampouco ele tem interesse para o Estado, exceto como n\u00famero a ser registrado nas pesquisas, sem rosto e sem hist\u00f3ria. Ele n\u00e3o compreende, em outras palavras, que no momento em que sua liberdade se torna assunto privado e ele come\u00e7a a exercer seus direitos somente como indiv\u00edduo, no momento em que liberdade e direitos s\u00e3o ambos incapazes de se aglutinar num tipo qualquer de projeto com os outros, ambos se tornam irrelevantes e est\u00e9reis aos olhos do poder, j\u00e1 que perderam sua capacidade de por o que quer que seja em movimento. O Estado sabe que estou estatisticamente presente, mas tamb\u00e9m sabe que eu s\u00f3 conto como um e n\u00e3o tenho capacidade de me somar aos outros\u201d.<\/p>\n<p>Talvez este seja um impasse para o movimento das Diretas J\u00e1 no Brasil. Embora existam vozes fortes lutando por elas em textos e manifestos, assim como nos carros de som e tamb\u00e9m no Congresso, as elei\u00e7\u00f5es diretas poderiam se realizar de fato, num sentido mais profundo, sem uma presen\u00e7a representativa nas ruas? E, ainda: o clamor das Diretas J\u00e1 se tornaria capaz de marcar a retomada da reinven\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica? Ou a paralisia gritada, mascarada de movimento, seguir\u00e1 pontuando o cotidiano? Os dias dir\u00e3o.<\/p>\n<p>Seguindo ainda essa conversa t\u00e3o interessante, Bauman faz uma pergunta ret\u00f3rica para expressar o descr\u00e9dito da popula\u00e7\u00e3o na capacidade de a pol\u00edtica responder aos anseios da vida: \u201cNa verdade, por que haveria voc\u00ea de se mobilizar, se preocupar e se interessar se o que se faz s\u00f3 tem, se tiver, uma liga\u00e7\u00e3o remota com o que voc\u00ea quer que seja feito e que em quase nada alivia os problemas que o afligem e os medos que o assombram?\u201d.<\/p>\n<section id=\"sumario_6|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">\u201cTempos de desesperan\u00e7a s\u00e3o repletos de tumbas de profetas desonestos e falsos salvadores\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>E ent\u00e3o Bauman faz uma refer\u00eancia que parece descrever o Brasil atual: \u201cToda vez que tentamos diagnosticar a presente crise da democracia, a verdade dos fatos nos redireciona para a celeremente deteriorada confian\u00e7a na capacidade de as institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas existentes fazer o que os cidad\u00e3os exigiriam caso ainda acreditassem que as demandas seriam ouvidas e levadas a s\u00e9rio. Entretanto, eles n\u00e3o acreditam mais. Pelo menos a maioria, e na maior parte do tempo, n\u00e3o acredita. Alguns ca\u00e7adores de votos, apresentando-se como outsiders<em>,<\/em> intocados pela podrid\u00e3o e pela paralisia \u2018que a\u00ed est\u00e3o\u2019, conseguem capitalizar a solid\u00e3o do eleitorado e captar a simpatia de alguns de seus membros, fazendo promessas que eles sabem \u2013 e a maioria das pessoas desconfia \u2013 que n\u00e3o ser\u00e3o capazes de cumprir se forem eleitos. (&#8230;) Em regra, contudo, a frustra\u00e7\u00e3o vai alcan\u00e7\u00e1-los logo depois das elei\u00e7\u00f5es. Tempos de desesperan\u00e7a s\u00e3o repletos de tumbas de profetas desonestos e falsos salvadores\u201d.<\/p>\n<p>E Mauro completa: \u201cH\u00e1 certamente um caminho. Mas n\u00f3s corremos o risco de n\u00e3o o encontrar, pois o interregno \u00e9 tamb\u00e9m um per\u00edodo em que a irracionalidade da decad\u00eancia germina sem restri\u00e7\u00e3o, numa rebeli\u00e3o mais motivada por ang\u00fastias que por liberdade verdadeira; um per\u00edodo em que surgem figuras xam\u00e2nicas que reduzem o mecanismo pol\u00edtico ao seu carisma, fazem apelos aos nossos instintos, emocionalmente, e engendram medos para transform\u00e1-los em grandes trivialidades, como se fosse poss\u00edvel haver solu\u00e7\u00f5es simples para problemas complexos\u201d.<\/p>\n<p>No cotidiano de exce\u00e7\u00e3o que hoje vivemos no Brasil, \u00e9 preciso interromper o processo cont\u00ednuo de esvaziamento do voto por todas as raz\u00f5es e por uma em particular. O fato de uma presidente democraticamente eleita ter sido tirada do poder de forma t\u00e3o ligeira fortaleceu em grupos cuja viol\u00eancia mantinha-se ainda sob algum controle a certeza de que se pode tudo. De que o resultado das urnas n\u00e3o \u00e9 soberano e a democracia \u00e9 uma quest\u00e3o de interpreta\u00e7\u00e3o. Quando o vice que se tornou presidente pela for\u00e7a do impeachment \u00e9 investigado por crimes graves e ainda assim se mant\u00e9m no poder, cercado por um minist\u00e9rio de investigados, essa percep\u00e7\u00e3o s\u00f3 se fortalece. Vira convic\u00e7\u00e3o. Tudo parece depender da ocasi\u00e3o e de quem pode mais \u2013 e n\u00e3o da lei.<\/p>\n<p>Essa convic\u00e7\u00e3o \u00e9 demonstrada na articula\u00e7\u00e3o da bancada ruralista, que lidera vota\u00e7\u00f5es no Congresso para desproteger terras p\u00fablicas para amplia\u00e7\u00e3o da sua explora\u00e7\u00e3o privada. E j\u00e1 avan\u00e7a na tentativa de mudar o mapa do Brasil, ao aprovar a mutila\u00e7\u00e3o de florestas e legalizar a grilagem. E essa convic\u00e7\u00e3o se realiza na escalada de viol\u00eancia. Os grileiros se tornaram visivelmente mais desenvoltos na floresta amaz\u00f4nica, avan\u00e7ando com mais \u00edmpeto sobre unidades de conserva\u00e7\u00e3o e terras ind\u00edgenas, na certeza da impunidade. Personagens que se mantinham em estado de lat\u00eancia, como alguns parasitas que habitam nossos intestinos, voltaram a irromper na superf\u00edcie do tecido social. A eclos\u00e3o da viol\u00eancia nas periferias \u00e9 intimamente ligada \u00e0 fragilidade das institui\u00e7\u00f5es no centro. Como j\u00e1 escrevi na coluna anterior, os mais fr\u00e1geis morrem primeiro. Longe acontece primeiro.<\/p>\n<p>No cotidiano de exce\u00e7\u00e3o que hoje vivemos no Brasil, interromper o processo cont\u00ednuo de esvaziamento do voto \u00e9 s\u00f3 um come\u00e7o. O caminho ser\u00e1 longo e dif\u00edcil. Por v\u00e1rias raz\u00f5es e tamb\u00e9m porque o principal projeto de pa\u00eds da hist\u00f3ria recente, simbolizado pelo PT, corrompeu-se e ruiu. O caminho ser\u00e1 longo e dif\u00edcil qualquer que seja o cen\u00e1rio. Mas \u00e9 importante escolher a sa\u00edda capaz de interromper o processo de fragiliza\u00e7\u00e3o da democracia. \u00c9 importante que a resist\u00eancia democr\u00e1tica se converta em ato \u2013 o ato de votar, a responsabilidade pela escolha.<\/p>\n<p>A elei\u00e7\u00e3o direta, pela via constitucional, n\u00e3o \u00e9 um atalho irrespons\u00e1vel, como dizem alguns. Mas sim uma repara\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel da democracia, em processo acelerado de esvaziamento, por obra de uma corros\u00e3o promovida pelos dois lados da dita polariza\u00e7\u00e3o. Uma nova ideia de Brasil n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1 nem c\u00e1, mas em m\u00faltiplos lugares. O Brasil precisa voltar a ser imaginado. E para isso precisa que o voto volte a valer.<\/p>\n<p>http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/06\/12\/opinion\/1497277042_854155.html<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ELIANE BRUM &#8211; \u00c9 preciso interromper a crescente fragiliza\u00e7\u00e3o da democracia para recuperar a capacidade de imaginar um pa\u00eds O voto no Brasil hoje vale muito pouco. E precisa voltar a valer. 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