{"id":4189,"date":"2017-06-12T15:23:45","date_gmt":"2017-06-12T18:23:45","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=4189"},"modified":"2017-06-05T15:26:51","modified_gmt":"2017-06-05T18:26:51","slug":"retomar-as-conquistas-e-controlar-as-financas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/06\/12\/retomar-as-conquistas-e-controlar-as-financas\/","title":{"rendered":"Retomar as conquistas e controlar as finan\u00e7as"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ladislau Dowbor &#8211;\u00a0<\/strong>\u201cO setor financeiro desvia, da sociedade e do Estado, 1,5 trilh\u00e3o de reais por ano \u2014 quase o mesmo que todo o Or\u00e7amento da Uni\u00e3o. Os rentistas, que viveram e vivem do trabalho dos outros, precisam seguir o conselho que d\u00e3o aos pobres que encontram pelas ruas\u201d<\/p>\n<p>H\u00e1 um pano de fundo na crise que vivemos que pode ser resumido no trip\u00e9 ambiental, social e financeiro. O nosso tri\u00e2ngulo das Bermudas, para os que gostam de imagens. Resumidamente \u00e9 o seguinte.<\/p>\n<p>No plano ambiental, estamos literalmente destruindo o planeta, atrav\u00e9s do aquecimento global, da perda de biodiversidade (destru\u00edmos 52% da fauna do planeta entre 1970 e 2010 segundo o WWF), da liquida\u00e7\u00e3o das florestas, da contamina\u00e7\u00e3o generalizada das \u00e1guas e assim por diante. Tecnologias de s\u00e9culo XXI, que permitem extra\u00e7\u00e3o de recursos naturais de forma quase ilimitada, e leis do s\u00e9culo passado geram uma combina\u00e7\u00e3o insustent\u00e1vel. O planeta n\u00e3o aguenta.<\/p>\n<p>No plano social temos as cifras estarrecedoras de 8 fam\u00edlias que det\u00eam mais patrim\u00f4nio do que a metade mais pobre da popula\u00e7\u00e3o mundial. Apresentado de outra forma, 1% dos mais ricos det\u00eam mais riqueza do que os 99% seguintes. Somos 7,45 bilh\u00f5es de pessoas no mundo, e 80 milh\u00f5es a mais a cada ano. Entre dois e tr\u00eas bilh\u00f5es est\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas dram\u00e1ticas, presas na chamada armadilha da pobreza, em que a pr\u00f3pria mis\u00e9ria trava as possibilidades de dela sair. E esses bilh\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o ignorantes nem resignados, sabem hoje que se pode viver melhor, e muros na fronteira mexicana ou em Israel, frotas da marinha no Mediterr\u00e2neo, ou as cercas eletrificadas na Europa n\u00e3o v\u00e3o resolver o assunto. Vivemos um universo explosivo. J\u00e1 n\u00e3o se fazem pobres como antigamente. Um New Deal planet\u00e1rio est\u00e1 na ordem do dia.<span id=\"more-14374\"><\/span><\/p>\n<p>Os desafios ambiental e social est\u00e3o devidamente estudados e sistematizados, e detalhados nos acordos de Paris e na Agenda 2030 de Nova Iorque. Sabemos o que deve ser feito e que medidas devem ser tomadas. Mas h\u00e1 o problema da mobiliza\u00e7\u00e3o dos recursos financeiros correspondentes, e a sua mobiliza\u00e7\u00e3o depende de capacidade pol\u00edtica de decis\u00e3o. Aqui nos defrontamos com o terceiro eixo, o financeiro. N\u00e3o faltam recursos. O planeta produz anualmente 80 trilh\u00f5es de reais de bens e servi\u00e7os, o equivalente a 11 mil reais por m\u00eas por fam\u00edlia de quatro pessoas. D\u00e1 para todos vivermos de maneira digna e confort\u00e1vel, mesmo sem buscar ideais de igualdade, apenas bom senso. Mas os recursos est\u00e3o essencialmente em m\u00e3os de aplicadores financeiros, n\u00e3o de investidores produtivos. Os que det\u00eam os recursos est\u00e3o interessados em fazer os pap\u00e9is render, n\u00e3o em promover o desenvolvimento. Basta lembrar que existem, segundo a revista <em>The Economist<\/em>, 20 trilh\u00f5es de d\u00f3lares em para\u00edsos fiscais, 200 vezes os 100 bilh\u00f5es que a C\u00fapula de Paris ambiciosamente se prop\u00f4s a levantar a cada ano para evitar a trag\u00e9dia clim\u00e1tica. S\u00e3o recursos que n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o s\u00e3o investidos para fomentar a economia, como sequer pagam impostos. Bem vindos \u00e0 era do capitalismo improdutivo.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 \u00f3bvia: os recursos financeiros improdutivos, hoje em m\u00e3os de especuladores, precisam ser redirecionados para servir \u00e0 reconvers\u00e3o tecnol\u00f3gica que nos permita parar de destruir o planeta, e para organizar o acesso a um m\u00ednimo de renda e a inclus\u00e3o produtiva dos exclu\u00eddos. Em particular, a guerra com os pobres tem de ser transformada em guerra contra a pobreza, articulando as pol\u00edticas ambientais, sociais e financeiras.<\/p>\n<p>Este quadro global, que gerou as tr\u00eas confer\u00eancias mundiais de 2015 e desenhou a agenda m\u00ednima para 2030, se aplica rigorosamente ao Brasil. Estamos destruindo a Amaz\u00f4nia, contaminando os aqu\u00edferos e outras fontes de \u00e1gua, entupindo os alimentos de agrot\u00f3xicos, paralisando as cidades por op\u00e7\u00f5es absurdas de transporte individual. E no plano social a trag\u00e9dia \u00e9 total, com 60 mil assassinatos por ano, uma gigantesca popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria vivendo em condi\u00e7\u00f5es medievais, cerca de 20 milh\u00f5es de pessoas ainda presas na mis\u00e9ria total. Com as riquezas deste pa\u00eds, termos mis\u00e9ria \u00e9 francamente um atestado de imbecilidade profunda das nossas chamadas elites, que buscam arrancar o que podem sem ver que estar\u00edamos todos melhor com um desenvolvimento mais equilibrado. Estamos destruindo a riqueza ambiental herdada em vez de capitalizar o seu potencial, e mantendo o pa\u00eds entre os 10 mais desiguais do planeta. As compras em Miami v\u00e3o bem obrigado.<\/p>\n<p>No plano financeiro, ent\u00e3o, francamente merecemos o diploma honoris causa. Segundo o <em>Tax Justice Network<\/em> os ricos do pa\u00eds mant\u00eam 520 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em para\u00edsos fiscais, cerca de 1600 bilh\u00f5es de reais. N\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o investem, como n\u00e3o pagam impostos. E s\u00e3o os primeiros a se cobrirem de bandeiras. Esses recursos n\u00e3o est\u00e3o parados em alguma ilha, s\u00e3o administrados pelos bancos nossos e estrangeiros (se \u00e9 que a distin\u00e7\u00e3o ainda tem algum significado), como por exemplo o Ita\u00fa e o Bradesco, em Luxemburgo, no Panam\u00e1 ou outros numerosos abrigos. S\u00e3o alimentados pela evas\u00e3o fiscal, que o Sindicato dos Procuradores da Fazenda estimou em R$ 571 bilh\u00f5es em 2015. Os assalariados, que t\u00eam os impostos descontados em folha, n\u00e3o participam da festa, e pagam os impostos embutidos nos pre\u00e7os, os chamados impostos indiretos, que representam no Brasil a obscena cifra de 56% da carga tribut\u00e1ria. E para fechar o caix\u00e3o, de qualquer forma lucros e dividendos s\u00e3o isentos. No andar de cima da economia, estamos brincando de esconde-esconde com os recursos do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Naturalmente dir\u00e3o que s\u00e3o recursos deles. Eles produziram tudo isso? A parte esmagadora dos lucros prov\u00e9m de aplica\u00e7\u00f5es financeiras, n\u00e3o de investimentos produtivos. Enquanto isso, as fam\u00edlias e as empresas carregam uma d\u00edvida de 3,1 trilh\u00f5es de reais neste in\u00edcio de 2017, 48,7% do PIB. Esta carga n\u00e3o \u00e9 particularmente elevada. O que \u00e9 monstruosamente elevado \u00e9 a taxa de juros sobre estas d\u00edvidas: em m\u00e9dia 32,8% ao ano, ou seja, 1 trilh\u00e3o de reais ao ano, tirados da economia. <em>O Estado de S\u00e3o Paulo<\/em>, que n\u00e3o pode ser taxado de antipatia para com os grupos financeiros, ostentou esta manchete dominical no dia 18 de dezembro \u00faltimo: \u201cCrise de cr\u00e9dito tira R$1 trilh\u00e3o da economia e piora a recess\u00e3o\u201d. Em mat\u00e9ria interna, discretamente, este coment\u00e1rio impressionante, de que afinal a crise brasileira pode n\u00e3o ser devida ao problema do ajuste fiscal. Tal clarivid\u00eancia por parte da grande imprensa precisa ser louvada, mas s\u00f3 os desinformados puderam acreditar no conto da dona de casa que gastou demais.<\/p>\n<p>A dona de casa realmente existente no Brasil, ou seja, a demanda das fam\u00edlias, principal motor da economia, parou de funcionar por uma raz\u00e3o simples: est\u00e1 endividada. Em fevereiro de 2017, temos 58,3 milh\u00f5es de adultos \u201cnegativados\u201d, que \u00e9 o termo educado que os bancos usam para se referir aos que est\u00e3o quebrados, popularmente \u201ccom nome sujo na pra\u00e7a\u201d. Explica\u00e7\u00e3o: dos 3,1 trilh\u00f5es vistos acima, 800 bilh\u00f5es representam d\u00edvidas das pessoas f\u00edsicas em \u201ccr\u00e9dito livre\u201d, pagando uma m\u00e9dia de 73% ao ano (seriam 3% ao ano na Europa). Isto representa uma suc\u00e7\u00e3o de 500 bilh\u00f5es de reais, 8% do PIB, sobre a capacidade de compra das fam\u00edlias. Com a redu\u00e7\u00e3o do consumo das fam\u00edlias enforcadas, as empresas param pois n\u00e3o t\u00eam para quem vender. A economia privada fica paralisada. A dona de casa foi esfolada pelos juros.<\/p>\n<p>O prego no caix\u00e3o vem da d\u00edvida p\u00fablica: em 2015, com a Selic ainda em 14,5%, foram transferidos 397 bilh\u00f5es de reais dos cofres p\u00fablicos, essencialmente para intermedi\u00e1rios financeiros e a classe m\u00e9dia alta. Como funciona? Eu que sou professor de idade respeit\u00e1vel, tenho uma poupan\u00e7a, sobre a qual o banco me paga uma merreca que mal cobre a infla\u00e7\u00e3o. Mas o banco aplica estes recursos (meu dinheiro) no Tesouro Direto, onde vai render 6% acima da infla\u00e7\u00e3o, excelente rendimento ganho com dinheiro dos outros, de m\u00e3o no bolso, sem precisar produzir nada. Os 397 bilh\u00f5es (6% do PIB) poderiam estar sendo investidos pelo governo em infraestruturas e em pol\u00edticas sociais. V\u00e1 somando: 15% do PIB tirados sob forma de juros das pessoas f\u00edsicas e jur\u00eddicas, mais 6% tirados sob forma de juros por meio da d\u00edvida p\u00fablica. \u00c9 a dimens\u00e3o da farra financeira.<\/p>\n<p>Nenhum pa\u00eds pode funcionar assim. O rentismo que assola o pa\u00eds assumiu aqui uma ferocidade impressionante. Os parasitas, para usar a express\u00e3o de Michael Hudson, est\u00e3o matando o paciente. O d\u00e9ficit p\u00fablico no Brasil se deve essencialmente aos juros absurdos que pagamos sobre a d\u00edvida p\u00fablica. A taxa Selic baixou para 11%, mas com a infla\u00e7\u00e3o em baixa (caiu a demanda) em termos reais os custos para os nossos bolsos continuam iguais. De algum lugar tinha de vir o dinheiro que os bancos ganham, e isso alimenta o lucro dos bancos, a evas\u00e3o fiscal e a vitalidade dos para\u00edsos fiscais. O sistema funciona, mas para os rentistas, n\u00e3o para a economia. O FMI prev\u00ea que em 2017 o nosso PIB poderia crescer 0,2%, ou seja, ficaremos parados. S\u00e3o otimistas. [1]<\/p>\n<p>Em 2013, o governo se viu frente a esta asfixia da economia pelos intermedi\u00e1rios financeiros, por rentistas que n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o produzem como travam, e iniciou uma firme redu\u00e7\u00e3o das taxas de juros; A Selic baixou at\u00e9 7,5%, cerca de 2,5% acima da infla\u00e7\u00e3o (nos EUA 1%, na Europa 0,5%). E baixou os juros que pagam as pessoas f\u00edsicas e as pessoas jur\u00eddicas utilizando os bancos p\u00fablicos. A revolta dos rentistas foi instant\u00e2nea, consideraram que o \u201cpacto\u201d fora rompido, e a partir da\u00ed n\u00e3o tivemos mais um dia de governo, e sim uma guerra permanente que culminou com o impeachment. A redu\u00e7\u00e3o dos juros era necess\u00e1ria, indispens\u00e1vel do ponto de vista econ\u00f4mico, mas n\u00e3o era vi\u00e1vel na rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as realmente existente. O resto \u00e9 uma caminhada ca\u00f3tica que se aprofunda.<\/p>\n<p>O \u201csaneamento\u201d financeiro proposto pelo governo golpista consiste essencialmente em reduzir ainda mais os direitos dos trabalhadores e dos mais pobres, de forma a puxar mais recursos para o andar de cima, visando dar \u00e0s elites econ\u00f4micas confian\u00e7a para investir e recuperar a economia. A l\u00f3gica n\u00e3o funciona: com menos direitos e recursos na massa da popula\u00e7\u00e3o, a demanda continuar\u00e1 estagnada, e ningu\u00e9m vai produzir quando n\u00e3o h\u00e1 para quem vender. E n\u00e3o \u00e9 o setor exportador, que representa apenas 10% da economia, que vai resolver.<\/p>\n<p>Esta pol\u00edtica apenas aprofunda a crise, e um n\u00famero crescente de pessoas \u2013 e curiosamente um artigo do <em>Estad\u00e3o<\/em> \u2013 se perguntam \u201cat\u00e9 quando ser\u00e1 a culpa da Dilma\u201d. Estamos indo ladeira abaixo. A previs\u00e3o de 0,2% de estagna\u00e7\u00e3o que vimos acima, por parte do FMI, representa um recuo frente \u00e0 previs\u00e3o anterior, igualmente rid\u00edcula, de 0,5% de crescimento. N\u00e3o h\u00e1 como uma economia funcionar quando os recursos s\u00e3o transferidos do sistema produtivo (p\u00fablico e privado) para rentistas que nada produzem. E enquanto fazer aplica\u00e7\u00e3o financeira render mais do que investir na produ\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 como inverter o processo. O dinheiro dos ricos vai para onde rende mais.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>No plano propositivo, \u00e9 essencial entender que o desenvolvimento sustent\u00e1vel \u00e9 o objetivo. Isto significa melhorar a vida das fam\u00edlias sem destruir o meio ambiente, e de forma socialmente mais equilibrada. O bem estar das fam\u00edlias por sua vez depende da renda e do patrim\u00f4nio acumulado em termos individuais: por exemplo ter um sal\u00e1rio decente e uma casa digna e equipada. De forma geral \u00e9 a renda que auferimos que permite assegurar o cotidiano e o patrim\u00f4nio b\u00e1sico. Mas depende essencialmente tamb\u00e9m da capacidade do Estado assegurar o acesso ao consumo coletivo.<\/p>\n<p>Muitos pa\u00edses ainda sofrem de defici\u00eancias b\u00e1sicas como ruas e estradas asfaltadas, escolas e hospitais adequados e assim por diante. Nos pa\u00edses desenvolvidos, em geral o consumo individual e o consumo coletivo s\u00e3o basicamente equilibrados. O canadense tem um sal\u00e1rio mais baixo na m\u00e9dia do que o americano, mas tem creche, escola e universidade gratuitos, um sistema de sa\u00fade universal e gratuito, as cidades s\u00e3o repletas de piscinas e outras formas de lazer p\u00fablico. O consumo coletivo universal e gratuito assegura um equil\u00edbrio muito maior da sociedade, pois gera uma igualdade maior \u00e0 partida. E \u00e9 muito mais produtivo, pois a sa\u00fade n\u00e3o vira ind\u00fastria da doen\u00e7a, nem a educa\u00e7\u00e3o ind\u00fastria do diploma. Particular import\u00e2ncia adquiriu o livre acesso \u00e0 banda-larga da internet, com muitas cidades no mundo j\u00e1 assegurando o servi\u00e7o como direito b\u00e1sico universal e gratuito. N\u00e3o \u00e0 toa h\u00e1 uma correla\u00e7\u00e3o rigorosa entre o n\u00edvel de desenvolvimento e bem estar dos pa\u00edses e a dimens\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Um terceiro eixo do bem-estar das fam\u00edlias resulta da gratuidade de acesso aos bens comuns. Nos Estados Unidos muitas praias s\u00e3o fechadas ao p\u00fablico, pertencem \u00e0s fam\u00edlias ricas ribeirinhas. Eu imagino tentarem fechar Ipanema. Mas j\u00e1 h\u00e1 fortes tentativas no litoral entre o Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo. Na Inglaterra e na Pol\u00f4nia, por exemplo, h\u00e1 o direito de caminhar livremente pelo interior, inclusive nos campos de propriedade privada, respeitando apenas uma dist\u00e2ncia das moradias. O acesso \u00e0s zonas naturais de pesca e outras fontes de lazer ou de produ\u00e7\u00e3o artesanal baseadas em bens comuns da natureza tamb\u00e9m fazem parte desta dimens\u00e3o importante do bem-estar, particularmente estudada nos trabalhos de Elinor Ostrom.[2] A gest\u00e3o dos bens comuns e a garantia de sua acessibilidade a todos fazem parte das pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Em outros termos, os avan\u00e7os n\u00e3o v\u00e3o depender dos resultados da guerra entre os que querem privatizar tudo ou os que batalham a estatiza\u00e7\u00e3o geral, mas de um equil\u00edbrio do acesso \u00e0 renda e patrim\u00f4nio individual, ao consumo coletivo e aos bens comuns. Este equil\u00edbrio exige por sua vez que haja um Estado democr\u00e1tico, e n\u00e3o capturado por grupos financeiros com interesses estreitos. O objetivo \u00e9 uma sociedade equilibrada, e n\u00e3o apenas o PIB. Note-se que o consumo coletivo e o acesso aos bens comuns simplesmente n\u00e3o aparecem na contabilidade atual. E n\u00e3o aparece nas contas da renda nacional o quanto se retira das fam\u00edlias atrav\u00e9s dos juros absurdos. No centro da vis\u00e3o propositiva, mais do que os objetivos que todos conhecemos, e que inclusive est\u00e3o bem sistematizados na Agenda 2030, est\u00e1 a quest\u00e3o da governan\u00e7a: quem decide, e atrav\u00e9s de que mecanismos de poder, a aloca\u00e7\u00e3o dos recursos.<\/p>\n<p>\u00c9 curioso como n\u00e3o estamos sozinhos nesta busca. James Galbraith resume os desafios nos EUA: \u201cA alternativa progressista ao programa econ\u00f4mico de est\u00edmulos irrespons\u00e1veis e ganhos rentistas sobre o capital \u00e9 um programa de pleno emprego, sal\u00e1rios decentes, e amplos investimentos nas necessidades sociais, culturais e ambientais, assentadas em impostos que incidam diretamente sobre as rentas, lucros de monop\u00f3lio e heran\u00e7as, desestruturando (<i>dismantling<\/i>) assim a dinastia olig\u00e1rquica que tem mandado nos Estados Unidos, atrav\u00e9s dos dois partidos, desde 1981.\u201d [3]<\/p>\n<p>O Banco Mundial, na sua avalia\u00e7\u00e3o da economia brasileira em 2016, qualifica o per\u00edodo de 2003 a 2013 como <i>The<\/i> <i>Golden Decade, <\/i>a d\u00e9cada de ouro, e por s\u00f3lidas raz\u00f5es [4] O aumento da capacidade de consumo da base da popula\u00e7\u00e3o gerou um c\u00edrculo virtuoso, os programas redistributivos tiraram da mis\u00e9ria cerca de 50 milh\u00f5es, a acumula\u00e7\u00e3o de reservas cambiais protegeu o pa\u00eds dos ataques especulativos internacionais, a pol\u00edtica de soberania nas negocia\u00e7\u00f5es internacionais gerou um clima de respeito pelo Brasil, e o Brasil cresceu de maneira sustentada durante dez anos. Uma pol\u00edtica que se sustenta durante dez anos n\u00e3o \u00e9 uma experi\u00eancia fracassada, \u00e9 um caminho a ser reconquistado. E a base, em termos econ\u00f4micos, \u00e9 simples, elementar: aumentar a capacidade de consumo da base da popula\u00e7\u00e3o gera demanda, aumento de produ\u00e7\u00e3o, novos investimentos, e expans\u00e3o do emprego, o que por sua vez estimula mais demanda. E os investimentos em infraestruturas e em pol\u00edticas sociais asseguram o complemento de dinamiza\u00e7\u00e3o pelo lado do Estado. O crescimento econ\u00f4mico gerado assegura os impostos que permitem fechar a conta. Mas n\u00e3o pode sustentar um dreno dos recursos da ordem de 15% no setor privado e de 6% no setor p\u00fablico.<\/p>\n<p>Algum mist\u00e9rio? N\u00e3o h\u00e1 nada de novo a inventar, \u00e9 retomar as conquistas, o caminho estava certo. O que n\u00e3o estava certo \u00e9 o sistema de drenagem dos recursos produtivos para ganhos especulativos. Os rentistas, que viveram e vivem do trabalho dos outros, e travaram o processo, precisam seguir o conselho que d\u00e3o aos pobres que encontram pelas ruas.<\/p>\n<p>\u2014<\/p>\n<p>[1] \u00a0\u00a0\u00a0 Ver Carta Iedi 786 de 12 de maio de 2017 \u2013 \u00a0\u00a0\u00a0 <a href=\"https:\/\/mail.google.com\/mail\/u\/0\/?zx=iymwzkbf36ps#starred\">https:\/\/mail.google.com\/mail\/u\/0\/?zx=iymwzkbf36ps#starred<\/a><\/p>\n<p>[2] \u00a0\u00a0\u00a0 Elinor Ostrom \u2013 <i>Governing the Commons <\/i><i>\u00a0\u00a0\u00a0 <\/i><i>\u2013 <\/i>Cambridge, 2012<\/p>\n<p>[3] \u00a0\u00a0\u00a0 James \u00a0\u00a0\u00a0 K. Galbraith \u2013 <i>Can <\/i><i>\u00a0\u00a0\u00a0 <\/i><i>Trump Deliver on Growth? \u2013 <\/i>Spring \u00a0\u00a0\u00a0 2017 \u2013 \u00a0\u00a0\u00a0 <a href=\"https:\/\/www.dissentmagazine.org\/article\/trump-deliver-growth-jobs-infrastructure-james-k-galbraith\">https:\/\/www.dissentmagazine.org\/article\/trump-deliver-growth-jobs-infrastructure-james-k-galbraith<\/a><\/p>\n<p>[4] \u00a0\u00a0\u00a0 <i>Retaking <\/i><i>\u00a0\u00a0\u00a0 <\/i><i>the path to inclusion, growth and sustainability: Brazil Systematic <\/i><i>\u00a0\u00a0\u00a0 <\/i><i>Country Diagnostic <\/i>\u2013 \u00a0\u00a0\u00a0 World Bank, May 2016 \u2013 \u00a0\u00a0\u00a0 <a href=\"http:\/\/documents.worldbank.org\/curated\/en\/180351467995438283\/pdf\/101431-REVISED-SCD-Brazil-SCD-Final-version-May-6-2016.pdf\">http:\/\/documents.worldbank.org\/curated\/en\/180351467995438283\/pdf\/101431-REVISED-SCD-Brazil-SCD-Final-version-May-6-2016.pdf<\/a><\/p>\n<p>https:\/\/outraspalavras.net\/blog\/2017\/05\/15\/ladislau-dowbor-retomar-as-conquistas-e-controlar-as-financas\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ladislau Dowbor &#8211;\u00a0\u201cO setor financeiro desvia, da sociedade e do Estado, 1,5 trilh\u00e3o de reais por ano \u2014 quase o mesmo que todo o Or\u00e7amento da Uni\u00e3o. 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