{"id":4172,"date":"2017-06-09T09:05:41","date_gmt":"2017-06-09T12:05:41","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=4172"},"modified":"2017-06-05T15:07:54","modified_gmt":"2017-06-05T18:07:54","slug":"neoliberalismo-projeto-politico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/06\/09\/neoliberalismo-projeto-politico\/","title":{"rendered":"Neoliberalismo, projeto pol\u00edtico"},"content":{"rendered":"<p><strong>Bjarke Sk\u00e6rlund Risager &#8211;\u00a0<\/strong>David Harvey provoca: cada fase do capitalismo gera uma forma de resist\u00eancia que a espelha. Por isso, distintas gera\u00e7\u00f5es da esquerda n\u00e3o deveriam se estranhar<\/p>\n<p>Autor de numerosas outras obras, o ge\u00f3grafo brit\u00e2nico David Harvey publicou em 2005 o livro <em>Uma Breve Hist\u00f3ria do Neoliberalismo<\/em> [1], que marcou \u00e9poca pela an\u00e1lise desse novo modo de domina\u00e7\u00e3o capitalista. A entrevista que reproduzimos aqui foi realizada pela <em>Jacobin.<\/em><\/p>\n<p>Um excerto de sua <em>Breve Hist\u00f3ria do Neoliberalismo<\/em>, portanto do Estado neoliberal, pode ser lido em <em>Contretemps<\/em>. Podemos igualmente consultar <a href=\"https:\/\/www.contretemps.eu\/david-harvey-retour-marxisme\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">este artigo<\/a> [em franc\u00eas] de Razmi Keucheyan, que lembra a trajet\u00f3ria e originalidade intelectual do ge\u00f3grafo marxista estadunidense.<\/p>\n<p><strong>Neoliberalismo \u00e9 um termo maci\u00e7amente utilizado em nossos dias. Mas aquilo que as pessoas projetam nele \u00e9 bastante turvo. Em seu uso mais sistem\u00e1tico, ele se refere a uma teoria, uma paleta de ideias, uma estrat\u00e9gia pol\u00edtica ou um per\u00edodo hist\u00f3rico. Voc\u00ea poderia come\u00e7ar dando sua interpreta\u00e7\u00e3o de neoliberalismo?<\/strong><\/p>\n<p>Sempre disse que o neoliberalismo era um projeto pol\u00edtico lan\u00e7ado pela classe capitalista quando ela se sentiu muito amea\u00e7ada, pol\u00edtica e economicamente, do fim dos anos 1960 at\u00e9 os anos 1970. Eles queriam desesperadamente apresentar um projeto pol\u00edtico que reduzisse a for\u00e7a da classe oper\u00e1ria.<\/p>\n<p>A classe capitalista ficou ent\u00e3o verdadeiramente com medo e se perguntou o que fazer. Ela n\u00e3o era onisciente, mas sabia que havia um certo n\u00famero de frentes nas quais devia lutar: o front ideol\u00f3gico, o front pol\u00edtico e acima de tudo a necessidade de reduzir por todos os meios poss\u00edveis o poder da classe trabalhadora. \u00c9 a partir de l\u00e1 que emergiu o projeto pol\u00edtico que chamarei de neoliberalismo.<\/p>\n<p><strong>Poderia nos dizer um pouco mais a prop\u00f3sito dos fronts pol\u00edtico e ideol\u00f3gico, assim como os ataques contra o mundo do trabalho?<\/strong><\/p>\n<p>No front ideol\u00f3gico, isso consistia em seguir o conselho de um cara chamado Lewis Powell, que havia escrito um memorando dizendo que as coisas haviam ido longe demais e que o capital precisava de um projeto coletivo. Essa nota ajudou a mobilizar a C\u00e2mara de Com\u00e9rcio e a T\u00e1vola Redonda dos neg\u00f3cios. As id\u00e9ias tinham ent\u00e3o sua import\u00e2ncia. Essa gente pensava que era imposs\u00edvel organizar as universidades porque elas eram muito progressistas; e o movimento estudantil, forte demais. De repente, eles montaram todos esses grupos de reflex\u00e3o, think tanks como o Instituto Manhattan, as funda\u00e7\u00f5es Ohlin ou Heritage. Esses grupos levaram adiante as id\u00e9ias de Friedrich Hayek, de Milton Friedman e da economia da oferta.<\/p>\n<p>O plano era que esses think tanks fizessem pesquisas s\u00e9rias [\u2026] que seriam publicadas de maneira independente, influenciariam a imprensa e fariam pouco a pouco o cerco das universidades. Esse processo tomou um tempo. Penso que eles est\u00e3o agora num ponto em que n\u00e3o t\u00eam mais necessidade de coisas como a funda\u00e7\u00e3o Heritage. As universidades foram amplamente penetradas pelos projetos neoliberais que as cercam.<\/p>\n<p>No que diz respeito ao trabalho, o desafio consistia em tornar competitivo o custo do trabalho local em rela\u00e7\u00e3o ao custo do trabalho globalizado. Uma solu\u00e7\u00e3o teria sido demandar m\u00e3o de obra imigrante. Nos anos 1960, por exemplo, os alem\u00e3es apelaram aos turcos, os franceses aos magrebinos e os ingleses aos trabalhadores origin\u00e1rios de suas antigas col\u00f4nias. Mas isso havia criado muito descontentamento e agita\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Desta vez, os capitalistas escolheram outra via: exportar o capital de onde havia uma for\u00e7a de trabalho mais cara. Mas para que a globaliza\u00e7\u00e3o funcionasse, era preciso reduzir as tarifas e refor\u00e7ar o capital financeiro, pois esta \u00e9 a forma de capital mais m\u00f3vel. O capital financeiro e o fato de tornar as moedas flutuantes tornaram-se essenciais para conter a classe oper\u00e1ria. Ao mesmo tempo, os projetos de privatiza\u00e7\u00e3o e de desregula\u00e7\u00e3o criaram desemprego. Portanto, desemprego no interior do pa\u00eds e deslocaliza\u00e7\u00f5es para fora, assim como um terceiro componente, as mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas, a desindustrializa\u00e7\u00e3o por meio da automa\u00e7\u00e3o e da robotiza\u00e7\u00e3o. Esta foi a estrat\u00e9gia para triturar a classe oper\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>Depois da publica\u00e7\u00e3o, em 2005, da <em>Breve hist\u00f3ria do neoliberalismo<\/em>, muito foi escrito sobre esse conceito. Parece haver principalmente dois campos: os pesquisadores que est\u00e3o mais interessados na hist\u00f3ria intelectual do neoliberalismo e as pessoas que s\u00e3o sobretudo preocupadas com o \u201cneoliberalismo realmente existente\u201d. Onde voc\u00ea se situa?<\/strong><\/p>\n<p>Existe uma tend\u00eancia nas ci\u00eancias sociais, \u00e0 qual eu tento resistir, que consiste em procurar uma f\u00f3rmula m\u00e1gica para explicar um fen\u00f4meno. H\u00e1 assim uma s\u00e9rie de pessoas dizendo que o neoliberalismo \u00e9 uma ideologia e que escrevem uma hist\u00f3ria idealizada sobre ela. Um exemplo \u00e9 o conceito de Foucault de \u201cgovernabilidade\u201d [designando uma presum\u00edvel racionalidade pr\u00f3pria \u00e0 fun\u00e7\u00e3o de governar \u2013 nota do tradutor] que v\u00ea tend\u00eancias neoliberais j\u00e1 presentes no s\u00e9culo XVIII. Mas se voc\u00eas tomam o neoliberalismo unicamente como uma ideia ou um pacote de pr\u00e1ticas limitadas de \u201cgovernabilidade\u201d, encontrar\u00e3o numerosos precursores.<\/p>\n<p>O que falta aqui \u00e9 a maneira como a classe capitalista desenvolveu seus esfor\u00e7os durante os anos 1970 e o in\u00edcio dos anos 1980. Penso que \u00e9 justo dizer que nessa \u00e9poca, ao menos no mundo anglo-sax\u00e3o, ela se unificou de modo suficiente. Os capitalistas se colocaram de acordo sobre muitas coisas, como a necessidade de for\u00e7as pol\u00edticas que realmente os representem.<\/p>\n<p>Esse per\u00edodo caracteriza-se por uma grande ofensiva em v\u00e1rias frentes, ideol\u00f3gicas e pol\u00edticas, e a \u00fanica maneira de explic\u00e1-la \u00e9 reconhecer o alto n\u00edvel de solidariedade da classe capitalista. O capital reorganizou seu poder numa tentativa desesperada de reencontrar sua prosperidade econ\u00f4mica e sua influ\u00eancia, que havia sido seriamente enfraquecido do fim dos anos 1960 at\u00e9 os anos 1970.<\/p>\n<p><strong>Houve v\u00e1rias crises desde 2007. Como o conceito e a hist\u00f3ria do neoliberalismo podem nos ajudar a compreend\u00ea-las?<\/strong><\/p>\n<p>Houve muito poucas crises econ\u00f4micas entre 1945 e 1973. Nesse per\u00edodo, atravessamos problemas s\u00e9rios mas n\u00e3o grandes crises. A virada para as pol\u00edticas neoliberais operou-se no decorrer dos anos 1970 no quadro de uma crise severa, e todo o sistema sofreu depois uma s\u00e9rie de outras crise. Bem entendido, estas produzem, a cada vez, todas as condi\u00e7\u00f5es para crises futuras.<\/p>\n<p>Entre 1982 e 1985, houve tamb\u00e9m a crise da d\u00edvida no M\u00e9xico, no Brasil, no Equador e, no fundo, de todos os pa\u00edses em desenvolvimento, inclusive a Pol\u00f4nia. Em 1987-1988, vimos nos Estados Unidos uma grande crise de empresas de poupan\u00e7a e empr\u00e9stimo; depois uma enorme crise em 1990 na Su\u00e9cia, onde todos os bancos tiveram de ser nacionalizados; e por certo a Indon\u00e9sia e o Sudeste asi\u00e1tico em 1997-1998, antes que a crise se espalhasse para a R\u00fassia e depois para o Brasil e a Argentina em 2001-2002. Houve enfim problemas nos Estados Unidos em 2001, que foram tirando dinheiro na Bolsa de Valores para injetar no mercado imobili\u00e1rio. Em 2007-2008, o mercado imobili\u00e1rio implodiu, e isso foi uma grande crise. Voc\u00ea pode olhar um mapa do mundo e visualizar as crises percorrendo o planeta.<\/p>\n<p>O conceito de neoliberalismo \u00e9 \u00fatil para compreender esses fen\u00f4menos. Uma das grandes mudan\u00e7as do neoliberalismo, em 1982, foi livrar o Banco Mundial e o FMI todos seus keynesianos. Eles foram substitu\u00eddos por te\u00f3ricos neocl\u00e1ssicos da oferta e a primeira coisa que estes decidiram \u00e9 que doravante o FMI seguiria, em face de todas as crises, uma pol\u00edtica de ajuste estrutural.<\/p>\n<p>Em 1982, o M\u00e9xico viveu uma crise da d\u00edvida. O FMI disse \u201cn\u00f3s vamos salv\u00e1-los\u201d. De fato, eles salvaram os bancos de investimento novaiorquinos e impuseram pol\u00edticas de austeridade. Como resultado das pol\u00edticas de ajuste estrutural do FMI, a popula\u00e7\u00e3o mexicana sofreu uma perda de poder de compra da ordem de 25% nos quatro anos que se seguiram a 1982. Depois, o M\u00e9xico sofreu quatro outros ajustes estruturais. Numerosos pa\u00edses conheceram mais de um. Essa pr\u00e1tica tornou-se cl\u00e1ssica.<\/p>\n<p>O que fazem hoje na Gr\u00e9cia? \u00c9 quase uma c\u00f3pia do que fizeram no M\u00e9xico em 1982. E \u00e9 tamb\u00e9m o que se passou nos Estados Unidos em 2007-2008. Eles resgataram os bancos e fizeram a popula\u00e7\u00e3o pagar a conta atrav\u00e9s das pol\u00edticas de austeridade.<\/p>\n<p><strong>Haver\u00e1 qualquer coisa, nas crises recentes e no modo como elas foram geradas pelas classes dirigentes, que o faria hoje rever sua teoria do neoliberalismo?<\/strong><\/p>\n<p>Bem, n\u00e3o creio que a solidariedade da classe capitalista seja hoje o que era ent\u00e3o. Em n\u00edvel geopol\u00edtico, os Estados Unidos n\u00e3o est\u00e3o mais na posi\u00e7\u00e3o de conduzir a dan\u00e7a como faziam nos anos 1970.<\/p>\n<p>Penso que assistimos a uma regionaliza\u00e7\u00e3o das estruturas globais de poder no seio do sistema dos Estados, com hegemonias regionais como a da Alemanha na Europa, do Brasil na Am\u00e9rica Latina ou da China no Leste da \u00c1sia. Evidentemente, os Estados Unidos conservam uma posi\u00e7\u00e3o dominante, mas os tempos mudaram. Trump pode comparecer ao G20 e dizer \u201cdevemos fazer isso\u201d, e Angela Merkel lhe responder \u201cn\u00e3o o faremos\u201d, o que era inimagin\u00e1vel nos anos 1970. A situa\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica est\u00e1, portanto, regionalizada, e h\u00e1 mais autonomia. Penso que \u00e9 em parte um resultado do fim da guerra fria. Pa\u00edses como a Alemanha n\u00e3o dependem mais da prote\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, isso que chamamos \u201ca nova classe capitalista\u201d de Bill Gates, da Amazon e do Vale do Sil\u00edcio t\u00eam uma pol\u00edtica que difere da dos gigantes tradicionais do petr\u00f3leo e da energia. O resultado \u00e9 que cada um tenta seguir seu pr\u00f3prio caminho, o que leva a conflitos entre por exemplo a energia e as finan\u00e7as, a energia e o Vale do Sil\u00edcio etc. Existem s\u00e9rias diverg\u00eancias sobre temas tais como as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, por exemplo.<\/p>\n<p>Um outro aspecto que me parece crucial \u00e9 que o impulso neoliberal dos anos 1970 n\u00e3o foi imposto sem fortes resist\u00eancias. Houve importantes rea\u00e7\u00f5es da classe trabalhadora, dos partidos comunistas na Europa etc. Mas eu diria que ao final dos anos 1980 a batalha havia sido perdida. E como a classe trabalhadora n\u00e3o tem mais o poder de que dispunha \u00e0quela \u00e9poca, a solidariedade no seio da classe dirigente n\u00e3o \u00e9 mais tamb\u00e9m necess\u00e1ria. N\u00e3o h\u00e1 mais uma s\u00e9ria amea\u00e7a vindo de baixo. A classe dirigente se vira muito bem e n\u00e3o tem muita coisa a mudar.<\/p>\n<p>Se a classe capitalista se arranja bem, em contrapartida o capitalismo vai bastante mal. As taxas de lucro se recuperaram, mas as taxas de reinvestimento s\u00e3o extremamente baixas. Por isso, um monte de dinheiro n\u00e3o retorna para a produ\u00e7\u00e3o mas \u00e9 dedicado \u00e0 conquista de terras ou \u00e0 compra de ativos.<\/p>\n<p><strong>Falemos um pouco mais das resist\u00eancias. Em seu trabalho, voc\u00ea insiste no fato, aparentemente paradoxal, de que a ofensiva neoliberal se desenvolveu paralelamente a um decl\u00ednio na luta de classes, pelo menos no Norte, em favor de \u201cnovos movimentos sociais\u201d pela liberdade individual. Poderia explicar como o neoliberalismo gerou certas formas de resist\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p>Aqui est\u00e1 uma quest\u00e3o a meditar: o que faz com que cada modo de produ\u00e7\u00e3o dominante, com sua configura\u00e7\u00e3o politica particular, crie um modo de oposi\u00e7\u00e3o que se constitui em seu reflexo? \u00c0 \u00e9poca da organiza\u00e7\u00e3o fordista da produ\u00e7\u00e3o, o reflexo era um movimento sindical centralizado e partidos pol\u00edticos baseados no centralismo democr\u00e1tico. \u00c0 \u00e9poca neoliberal, a organiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o para uma acumula\u00e7\u00e3o flex\u00edvel produziu uma esquerda que \u00e9 tamb\u00e9m, na verdade, seu reflexo: trabalho em redes decentralizadas, n\u00e3o hierarquizados. Penso que \u00e9 muito interessante. E at\u00e9 certo ponto, o reflexo do espelho valida o que tentava destruir. O movimento sindical, assim, sustentou o fordismo.<\/p>\n<p>Penso que neste momento muita gente \u00e0 esquerda, sendo muitos aut\u00f4nomos e anarquistas, refor\u00e7am na verdade o neoliberalismo em seu jogo final. Muita gente de esquerda n\u00e3o quer saber dessa afirma\u00e7\u00e3o. Mas a pergunta que se coloca \u00e9, evidentemente: haver\u00e1 um meio de se organizar que n\u00e3o seja no espelho do neoliberalismo? Podemos quebrar esse espelho e organizar qualquer outra coisa, que n\u00e3o jogue o jogo do neoliberalismo?<\/p>\n<p>A resist\u00eancia ao neoliberalismo pode assumir diversas formas. No meu trabalho, ressalto o fato de que o lugar de realiza\u00e7\u00e3o do valor \u00e9 tamb\u00e9m um ponto de tens\u00e3o. O valor \u00e9 produzido no processo <em>do trabalho<\/em>, e \u00e9 um aspecto muito importante da luta de classes. Mas o valor se realiza no mercado atrav\u00e9s <em>da venda<\/em>, e uma boa parte da pol\u00edtica tem a\u00ed seu lugar. Uma grande parte da resist\u00eancia \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o do capital se exprime n\u00e3o somente no lugar de produ\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m atrav\u00e9s do consumo, na esfera da realiza\u00e7\u00e3o do valor.<\/p>\n<p>Tome a ind\u00fastria de autom\u00f3veis: grandes f\u00e1bricas podiam antes empregar cerca de 25 mil pessoas, e hoje empregam 5 mil porque a tecnologia reduziu a necessidade de trabalhadores. O trabalho encontra-se assim cada vez mais deslocado da esfera da produ\u00e7\u00e3o para a esfera da vida na cidade. O principal centro de insatisfa\u00e7\u00e3o, no quadro das din\u00e2micas capitalistas, desloca-se para a esfera de realiza\u00e7\u00e3o do valor, para as pol\u00edticas que t\u00eam impacto na vida cotidiana na cidade. Os trabalhadores evidentemente preocupam-se com um monte de coisas. Se nos encontramos em Shenzhen, na China, as lutas no quadro do processo de trabalho s\u00e3o dominantes. E nos Estados Unidos ter\u00edamos apoiado a greve de Verizon [2] por exemplo.<\/p>\n<p>Mas em v\u00e1rios pontos, o que domina s\u00e3o as lutas em torno da qualidade da vida cotidiana. Vejam as grandes lutas dos dez a quinze \u00faltimos anos. Um conflito como o do Parque Gezi, em Istambul, n\u00e3o foi uma luta trabalhista. O descontentamento tinha a ver com a pol\u00edtica cotidiana, a falta de democracia e o modo de tomar decis\u00f5es. Nos levantes ocorridos das cidades brasileiras, em 2013, foram tamb\u00e9m os problemas da vida cotidiana os detonadores: os transportes e as despesas suntuosas para a constru\u00e7\u00e3o de grandes est\u00e1dios em detrimento de escolas, hospitais e moradias acess\u00edveis. Os levantes a que assistimos em Londres, em Paris ou em Estocolmo n\u00e3o estavam ligados ao processo de trabalho, mas \u00e0 vida cotidiana.<\/p>\n<p>Nesse terreno, a pol\u00edtica \u00e9 muito diferente daquela que \u00e9 implementada no local de produ\u00e7\u00e3o. Na produ\u00e7\u00e3o, o conflito op\u00f5e claramente o capital ao trabalho. As lutas pela qualidade de vida s\u00e3o menos claras em termos de configura\u00e7\u00e3o de classe. As pol\u00edticas claramente de classe, que procedem em geral de uma compreens\u00e3o do processo de produ\u00e7\u00e3o, tornam-se teoricamente mais vagas \u00e0 medida que se tornam mais concretas. Elas expressam uma disputa entre classes, mas n\u00e3o no sentido convencional.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea acha que se fala demais de neoliberalismo e n\u00e3o o suficiente de capitalismo? Quando \u00e9 mais apropriado usar um ou outro desses termos, e quais s\u00e3o os riscos de confundi-las?<\/strong><\/p>\n<p>Muitos liberais cl\u00e1ssicos dizem que o neoliberalismo foi longe demais em termos de desigualdade de renda, que todas essas privatiza\u00e7\u00f5es foram longe demais e que h\u00e1 numerosos bens comuns a proteger, como o meio ambiente. H\u00e1 tamb\u00e9m modos de falar do capitalismo, como quando falamos de uma economia de partilha, que na verdade acaba por ser extremamente capitalista e exploradora.<\/p>\n<p>H\u00e1 a no\u00e7\u00e3o de capitalismo \u00e9tico, que significa apenas ser razoavelmente honesto ao inv\u00e9s de roubar. Algumas pessoas pensam que \u00e9 poss\u00edvel uma reforma da ordem neoliberal em dire\u00e7\u00e3o a uma outra forma de capitalismo. Penso que talvez haja uma forma de capitalismo melhor que essa que existe hoje \u2013 mas n\u00e3o t\u00e3o melhor. Os problemas fundamentais tornaram-se agora t\u00e3o profundos que, sem um vasto movimento anticapitalista, ser\u00e1 de fato imposs\u00edvel chegar at\u00e9 eles. Gostaria ent\u00e3o de colocar as quest\u00f5es atuais em termos de anticapitalismo, em vez de antineoliberalismo. E quando ou\u00e7o as pessoas falarem sobre neoliberalismo, me parece que o perigo \u00e9 acreditar que n\u00e3o \u00e9 o pr\u00f3prio capitalismo, de uma forma ou de outra, que est\u00e1 em quest\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p>[1] Publicado pela Oxford University Press. https:\/\/www.amazon.com.br\/Brief-History-Neoliberalism-David-Harvey\/dp\/0199283273<\/p>\n<p>[2] Sete semanas de greve nessa gigante das telecomunica\u00e7\u00f5es possibilitaram obter 10,5% de aumento de sal\u00e1rios em tr\u00eas anos para 36 mil assalariados e a contrata\u00e7\u00e3o de 1.400 pessoas at\u00e9 2019.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"kH8RTOYbKs\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/desigualdades-mundo\/neoliberalismo-projeto-politico\/\">Neoliberalismo, projeto pol\u00edtico<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Neoliberalismo, projeto pol\u00edtico&#8221; &#8212; Outras Palavras\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/desigualdades-mundo\/neoliberalismo-projeto-politico\/embed\/#?secret=mP1lQrjDLL#?secret=kH8RTOYbKs\" data-secret=\"kH8RTOYbKs\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bjarke Sk\u00e6rlund Risager &#8211;\u00a0David Harvey provoca: cada fase do capitalismo gera uma forma de resist\u00eancia que a espelha. 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