{"id":3931,"date":"2018-01-15T15:12:41","date_gmt":"2018-01-15T17:12:41","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=3931"},"modified":"2018-01-11T11:31:49","modified_gmt":"2018-01-11T13:31:49","slug":"o-13-de-maio-e-a-luta-pela-abolicao-da-escravidao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/01\/15\/o-13-de-maio-e-a-luta-pela-abolicao-da-escravidao\/","title":{"rendered":"O 13 de Maio e a luta pela Aboli\u00e7\u00e3o da Escravid\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><strong>AUGUSTO BUONICORE<\/strong> &#8211;\u00a0A liberta\u00e7\u00e3o dos escravos n\u00e3o ocorreu por decis\u00e3o volunt\u00e1ria dos fazendeiros paulistas, e muito menos foi uma d\u00e1diva da fam\u00edlia imperial. Ela foi fruto de uma grande luta popular, que envolveu diretamente os pr\u00f3prios escravos. O autor discorda da tese que a Aboli\u00e7\u00e3o teria sido uma &#8220;coisa de branco&#8221; e n\u00e3o teria sido &#8220;a casta dos escravos que destruiu o trabalho escravizado\u201d.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"w100 foto-conteudo\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.grabois.org.br\/uploads\/fotos\/1494621622.jpeg?resize=550%2C340\" width=\"550\" height=\"340\" \/><\/p>\n<p><em>Rio de Janeiro, 1888. Multid\u00e3o concentrada diante do Pa\u00e7o Imperial para a assinatura da Lei \u00c1urea<\/em><\/p>\n<p><em>A Jacob Gorender e Cl\u00f3vis Moura<\/em><\/p>\n<p><em>&#8220;Quando se escrever a hist\u00f3ria da escravid\u00e3o no Brasil, n\u00e3o faltar\u00e1 algum escritor venal que venha colocar esses escravocratas entre os grandes cooperadores na reden\u00e7\u00e3o dos escravos.&#8221; (Editorial do jornal abolicionista A reden\u00e7\u00e3o, de 29 de abril de 1888).<\/em><\/p>\n<p>Desde a o in\u00edcio do s\u00e9culo 19 existia uma forte press\u00e3o internacional pela aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o nas Am\u00e9ricas. A Gr\u00e3-Bretanha, principal pot\u00eancia capitalista da \u00e9poca, passou a exigir que pa\u00edses como o Brasil colocassem fim ao tr\u00e1fico intercontinental de escravos. Fazia isso menos por raz\u00f5es humanit\u00e1rias do que por raz\u00f5es econ\u00f4micas. Nos s\u00e9culos anteriores, a burguesia inglesa foi quem mais se beneficiou do tr\u00e1fico negreiro. Este, inclusive, foi uma das bases para o seu r\u00e1pido processo de acumula\u00e7\u00e3o de capital. Contudo, em 1807, ela aboliu o tr\u00e1fico nas suas col\u00f4nias. Os tempos, agora, eram outros.<\/p>\n<p>Em 1831, por press\u00e3o inglesa, o governo brasileiro proibiu a importa\u00e7\u00e3o de escravos africanos. No entanto, mais persuasivos que o &#8220;imperialismo&#8221; brit\u00e2nico eram os grandes comerciantes e latifundi\u00e1rios escravistas, for\u00e7as hegem\u00f4nicas no interior do Estado Nacional nascido ap\u00f3s a nossa Independ\u00eancia. O tratado jamais foi aplicado e, por isto mesmo, foi ironicamente encarado como uma lei apenas &#8220;para ingl\u00eas ver&#8221;.<\/p>\n<p>Naqueles anos aumentou o n\u00famero de escravos negros introduzidos no Brasil. Isto enfureceu a principal avalista internacional de nossa Independ\u00eancia. As coisas tenderam a se agravar ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o completa da escravid\u00e3o nas col\u00f4nias inglesas. No ano de 1845 o parlamento brit\u00e2nico aprovou uma lei \u2013 a Aberdeen \u2013, que dava \u00e0 sua marinha o poder de apreender navios negreiros ilegais e julgar os traficantes.<\/p>\n<p>Fruto daquela medida surgiu entre n\u00f3s um nacionalismo de conte\u00fado escravista. As elites conservadoras, sempre subservientes aos interesses estrangeiros, passaram a radicalizar seu discurso contra a interven\u00e7\u00e3o inglesa nos neg\u00f3cios internos do pa\u00eds. Um patriotismo deveras suspeito. Essas mesmas classes n\u00e3o se envergonhavam da contrata\u00e7\u00e3o de mercen\u00e1rios estrangeiros para reprimir os movimentos insurrecionais no Nordeste ou se inibiam em rela\u00e7\u00e3o aos volumosos empr\u00e9stimos externos feitos pelo governo brasileiro para pagar a nossa Independ\u00eancia.<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o da marinha inglesa tornou-se cada vez mais ousada e provocativa. Todos os navios suspeitos de tr\u00e1fico eram interceptados e alguns afundados. O mar territorial passou a n\u00e3o ser mais respeitado. At\u00e9 navios que faziam com\u00e9rcio de escravos entre prov\u00edncias foram atacados. A tens\u00e3o aumentou. Brasil e Inglaterra chegaram \u00e0 beira de entrar em guerra. Diante desse quadro completamente desfavor\u00e1vel, o governo imperial e os escravistas tiveram que ceder. Era preciso ceder os an\u00e9is (do tr\u00e1fico) para n\u00e3o perder os dedos (a escravid\u00e3o). Em 1850 foi aprovada a Lei Euz\u00e9bio de Queir\u00f3s que p\u00f4s um fim definitivo ao com\u00e9rcio infame.<\/p>\n<p>Por volta da metade do s\u00e9culo XIX, a aboli\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico e da pr\u00f3pria escravid\u00e3o era anseio de amplos setores da sociedade brasileira. O senador Ant\u00f4nio Carlos de Andrade chegou mesmo a defender a a\u00e7\u00e3o da marinha de guerra brit\u00e2nica. Mais tarde, o abolicionista e estadista Joaquim Nabuco aplaudiu aquela atitude, e somente criticou que a a\u00e7\u00e3o inglesa tenha sido voltada apenas contra pa\u00edses mais fracos e n\u00e3o contra os Estados Unidos.<\/p>\n<p>Em resposta ao nacionalismo esp\u00fario das elites escravistas se levantaria a voz de um dos maiores poetas brasileiros que, nas estrofes de seu poema \u00e9pico O Navio Negreiro, cantou: &#8220;Existe um povo que a bandeira empresta\/ Para cobrir tanta inf\u00e2mia e cobardia! \/ E deixa-a transformar nessa festa\/ Em manto impuro de bacante fria! \/ Meu Deus! Meu Deus! Mas que bandeira \u00e9 esta, \/ Que impudente na g\u00e1vea tripudia?! \/ Sil\u00eancio! (&#8230;) Musa! chora, chora tanto\/ Que o pavilh\u00e3o se lave no seu pranto!\/ (&#8230;) Auriverde pend\u00e3o de minha terra,\/ Que a brisa do Brasil beija e balan\u00e7a,\/ Estandarte que a luz do sol encerra,\/ E as promessas divinas da esperan\u00e7a\/ Tu, que da liberdade ap\u00f3s a guerra\/ Foste hasteado dos her\u00f3is na lan\u00e7a,\/ Antes te houvesse roto na batalha,\/ Que servires a um povo de mortalha!&#8221;.<\/p>\n<p>O fim do tr\u00e1fico negreiro permitiu que parte dos capitais investidos no tr\u00e1fico se desviasse para outros setores da economia, especialmente \u00e0 incipiente ind\u00fastria. Entre os que comemoraram a medida estava o Bar\u00e3o de Mau\u00e1, o pai (ou av\u00f4) da burguesia industrial brasileira. Mas esta medida era ainda insuficiente para uma expans\u00e3o maior das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o capitalista. Isto exigia a forma\u00e7\u00e3o de um amplo mercado de m\u00e3o-de-obra formalmente livre, que era incompat\u00edvel com a predomin\u00e2ncia do escravismo.<\/p>\n<p>No ano de 1864, trinta e tr\u00eas anos depois da primeira lei que proibiu a entrada de escravos negros, um decreto emancipou os africanos que aqui haviam entrado ilegalmente desde 1831. Calculava-se que ainda existissem cerca de 500 mil negros nesta situa\u00e7\u00e3o. Os fazendeiros tudo fizeram para que essa lei tamb\u00e9m ficasse apenas no papel. Afinal, era muito dif\u00edcil para os pobres negros escravizados ilegalmente comprovarem a sua situa\u00e7\u00e3o. Em torno destes casos travou-se uma acirrada luta jur\u00eddica e pol\u00edtica na qual se destacou o eminente advogado abolicionista negro Lu\u00eds Gama.<\/p>\n<p>O movimento abolicionista adquiriu maior amplitude e ganhou amplas parcelas da popula\u00e7\u00e3o, excetuando-se os grandes fazendeiros. A luta dos abolicionistas recebeu apoio vindo do exterior. V\u00e1rias mensagens e v\u00e1rios manifestos de intelectuais progressistas europeus e americanos foram endere\u00e7ados ao governo imperial e ao parlamento brasileiro. Estes, em 1871, aprovaram a Lei do Ventre Livre que dava liberdade a todos os filhos de escravos nascidos a partir daquela data.<\/p>\n<p>Os escravistas entravam na defensiva pol\u00edtica e procuravam manobrar, adotando medidas protelat\u00f3rias. Sabiam que a aboli\u00e7\u00e3o era inevit\u00e1vel e que seria necess\u00e1rio adi\u00e1-la o quanto fosse poss\u00edvel. O pr\u00f3prio projeto aprovado dava aos propriet\u00e1rios o direito de manter o &#8220;liberto&#8221; sob sua guarda at\u00e9 os 21 anos de idade. A nova lei desorganizou momentaneamente o movimento abolicionista, afastando dele os elementos mais conciliadores.<\/p>\n<p>No in\u00edcio da d\u00e9cada de 1880, a campanha ganhou novamente as ruas. Ela adquiriu maior dimens\u00e3o e mudou de qualidade. O escravismo, ainda mais acuado, buscou deter a avalanche abolicionista com novas medidas protelat\u00f3rias. Em 1885 o parlamento imperial aprovou a Lei do Sexagen\u00e1rio. Esta libertava os escravos com mais de 60 anos, mas os obrigava a trabalhar compulsoriamente durante tr\u00eas longos anos. Exigia tamb\u00e9m que o liberto ficasse no munic\u00edpio por cinco anos, sob amea\u00e7a de pris\u00e3o.<\/p>\n<p>De um lado, o Estado escravista tentou manobrar com uma legisla\u00e7\u00e3o de fundo reformista-conservador; de outro, endureceu a repress\u00e3o contra os abolicionistas mais radicais. Ampliou a pena de pris\u00e3o aos que organizassem fugas de escravos. O pr\u00f3prio dom Pedro II, considerado por muitos como um simpatizante da aboli\u00e7\u00e3o, n\u00e3o titubeou em destituir os presidentes das prov\u00edncias do Cear\u00e1 e do Amazonas por terem permitido a aboli\u00e7\u00e3o nos seus estados. Puniu tamb\u00e9m militares abolicionistas, como Sena Madureira. Os fazendeiros escravistas resistiram o quanto puderam. Organizaram-se nos Clubes de Lavoura e formaram mil\u00edcias armadas para combater os abolicionistas. Jornais foram empastelados e militantes agredidos e mesmo mortos.<\/p>\n<p>A Lei do Sexagen\u00e1rio n\u00e3o conteve o \u00edmpeto dos abolicionistas. Ningu\u00e9m aceitava mais medidas de car\u00e1ter protelat\u00f3rio. As estrat\u00e9gias reformistas pareciam derrotadas em 1886. Diante da inefic\u00e1cia dos m\u00e9todos moderados \u2014 exclusivamente jur\u00eddicos e parlamentares \u2014, uma parte dos ativistas aderiu \u00e0s posi\u00e7\u00f5es mais radicais passando a organizar fugas de escravos.<\/p>\n<p>Assim foi se formando uma ampla frente abolicionista envolvendo escravos, a pequena-burguesia, a burguesia industrial e o jovem proletariado. Cresceu em propor\u00e7\u00e3o geom\u00e9trica o n\u00famero dos casos de fugas de escravos. Estima-se que 1\/3 dos 173 mil escravos tenha escapado das fazendas paulistas nos \u00faltimos anos da escravid\u00e3o. A cidade de Rio Claro chegou a ficar sem nenhum escravo nas suas fazendas de caf\u00e9. A luta de classes, especialmente dos escravos, teve um papel fundamental para a desagrega\u00e7\u00e3o desse modo de produ\u00e7\u00e3o arcaico.<\/p>\n<p>Em outubro de 1887, o escravismo sofreu um duro golpe quando o marechal Deodoro da Fonseca, presidente do Clube Militar, solicitou que n\u00e3o se utilizasse o Ex\u00e9rcito na ca\u00e7ada de escravos fugitivos. Aumentou, assim, a cis\u00e3o no aparato repressivo e os fazendeiros n\u00e3o podiam mais contar com o bra\u00e7o armado do Estado imperial.<\/p>\n<p>Portanto, a liberta\u00e7\u00e3o dos escravos n\u00e3o ocorreu por decis\u00e3o volunt\u00e1ria dos fazendeiros paulistas, e muito menos foi uma d\u00e1diva da fam\u00edlia imperial. Ela foi fruto de uma grande luta popular, que envolveu diretamente os pr\u00f3prios escravos. O decreto que aboliu definitivamente a escravid\u00e3o foi assinado em 13 de maio de 1888. Mesmo assim, no projeto inicial, enviado pelo minist\u00e9rio da princesa Isabel, a aboli\u00e7\u00e3o era acompanhada por alguns condicionantes: ressarcimento monet\u00e1rio aos propriet\u00e1rios, obriga\u00e7\u00e3o dos libertos de prestarem servi\u00e7os compuls\u00f3rios at\u00e9 o final da safra e de permanecerem no munic\u00edpio por seis anos. Esta foi a \u00faltima tentativa dos escravistas para adiar o inadi\u00e1vel.<\/p>\n<p>A press\u00e3o popular e a recusa dos setores liberais em aprovar o projeto daquela forma o levaram a ser alterado. Expressiva foi a declara\u00e7\u00e3o de voto do deputado escravista Louren\u00e7o de Albuquerque: &#8220;Voto pela aboli\u00e7\u00e3o porque perdi a esperan\u00e7a de qualquer solu\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria; seriam baldados os esfor\u00e7os que empregasse; sendo assim, homenagem ao inevit\u00e1vel, \u00e0 fatalidade dos acontecimentos.&#8221;.<\/p>\n<p>Neste sentido discordamos da opini\u00e3o do eminente soci\u00f3logo Oct\u00e1vio Ianni que defendeu a tese de que a Aboli\u00e7\u00e3o teria sido uma &#8220;coisa de branco&#8221;, e n\u00e3o teria sido &#8220;a casta dos escravos que destruiu o trabalho escravizado\u201d. Para ele, a escravid\u00e3o foi extinta \u201cdevido a controv\u00e9rsias e antagonismos entre os brancos ou grupos e fac\u00e7\u00f5es dominantes&#8221;. Esta ideia \u00e9 hegem\u00f4nica na historiografia e na sociologia brasileira, excluindo-se aqui os nomes Cl\u00f3vis Moura, Robert Conrad, Jacob Gorender e D\u00e9cio Saes. Para estes, a Aboli\u00e7\u00e3o foi tamb\u00e9m obra da luta abnegada dos pr\u00f3prios escravos.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.grabois.org.br\/uploads\/fotos\/1494619861.jpg?w=640\" alt=\"\" align=\"\" \/><\/p>\n<p><strong>Reformistas e radicais<\/strong><\/p>\n<p>No interior do movimento abolicionista se chocaram duas correntes distintas: uma reformista e outra radical-revolucion\u00e1ria. Esta \u00faltima tinha como base social as classes m\u00e9dias urbanas (advogados, jornalistas, m\u00e9dicos e pequenos funcion\u00e1rios p\u00fablicos) e os trabalhadores livres (ferrovi\u00e1rios, cocheiros, jangadeiros, tip\u00f3grafos, oper\u00e1rios fabris). Articulava uma ativa propaganda, atrav\u00e9s da imprensa, e m\u00e9todos ilegais, como patroc\u00ednio de fugas de escravos. Dois expoentes deste abolicionismo radical eram Lu\u00eds Carlos de Lacerda, no Rio de Janeiro, e Ant\u00f4nio Bento, em S\u00e3o Paulo. O \u00faltimo organizou e dirigiu o movimento dos caifazes, que ficou famoso pelas espetaculares fugas de escravos que organizou no interior paulista.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.grabois.org.br\/uploads\/fotos\/1494620158.jpg?resize=300%2C457\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"457\" align=\"right\" \/>O abolicionista paulista Raul Pompeia escreveu: &#8220;A humanidade s\u00f3 tem a felicitar-se quando um pensamento de revolta passa pelo c\u00e9rebro oprimido dos rebanhos das fazendas. A ideia de insurrei\u00e7\u00e3o indica que a natureza humana vive. Todas as viol\u00eancias em prol da liberdade violentamente acabrunhada devem ser saudadas como vendetas santas. A maior tristeza dos abolicionistas \u00e9 que estas viol\u00eancias n\u00e3o sejam frequentes e a conflagra\u00e7\u00e3o n\u00e3o seja geral.&#8221;. Na mesma linha, afirmou Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio (na imagem ao lado): &#8220;Contra a escravid\u00e3o todos os meios s\u00e3o leg\u00edtimos e bons. O escravo que se submete atenta contra Deus e contra a civiliza\u00e7\u00e3o; o seu modelo, o seu mestre, o seu ap\u00f3stolo deve ser Sp\u00e1rtaco.&#8221; Em geral, os radicais eram antimonarquistas e defendiam a reforma agr\u00e1ria.<\/p>\n<p>Por outro lado, os reformistas abominavam todas as a\u00e7\u00f5es que buscavam envolver o povo, e particularmente ousassem mobilizar a massa escrava. Um expoente deste tipo de abolicionismo era Joaquim Nabuco. Ele afirmava: &#8220;(&#8230;) \u00e9 no parlamento, e n\u00e3o em fazendas ou quilombos do interior, nem nas ruas e pra\u00e7as das cidades, que se h\u00e1 de ganhar, ou perder, a causa da liberdade.&#8221;. O abolicionismo reformista tinha como base social os dissidentes das oligarquias rurais e altos escal\u00f5es da burocracia estatal. Em geral, n\u00e3o articulavam a luta pela liberta\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o e a necessidade do fim da monarquia. Nabuco, por exemplo, sempre foi um monarquista fiel. Este setor seria fortemente refor\u00e7ado pela ades\u00e3o, de \u00faltima hora (diria, mesmo, \u00faltimo minuto), dos fazendeiros paulistas \u00e0 causa abolicionista.<\/p>\n<p>Em meados de 1887 ocorreu o auge do movimento de fugas de escravos, colocando a lavoura paulista em profunda crise. As autoridades provinciais pediram refor\u00e7o militar ao governo imperial. O bar\u00e3o de Cotegipe enviou um navio de guerra e um batalh\u00e3o de infantaria. Em dois de junho daquele ano, Campos Salles iniciou o processo de emancipa\u00e7\u00e3o &#8220;volunt\u00e1ria&#8221; dos escravos \u2014 com cl\u00e1usulas de servi\u00e7o por v\u00e1rios anos \u2014 junto aos fazendeiros paulistas.<\/p>\n<p>Entre os novos convertidos \u00e0 tese abolicionista estava o paulista Ant\u00f4nio Prado, ex-ministro da agricultura do minist\u00e9rio Cotegipe. Prado havia sido um dos principais alvos dos abolicionistas ao ter regulamentado a legisla\u00e7\u00e3o emancipacionista de maneira conservadora um ano antes. Foram pol\u00edticos como este, ligados \u00e0 elite agr\u00e1ria paulista, que assumiram o comando e tiveram maior visibilidade dentro do movimento nos derradeiros momentos da aboli\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Prevendo e temendo que a Aboli\u00e7\u00e3o pudesse futuramente ficar relacionada apenas aos nomes desses homens, em 29 de abril de 1888, o editorial do jornal abolicionista A reden\u00e7\u00e3o, ligado a Ant\u00f4nio Bento, afirmou: &#8220;Quando escreverem a hist\u00f3ria da escravid\u00e3o no Brasil, n\u00e3o faltar\u00e1 algum escritor venal que venha colocar esses escravocratas entre os grandes cooperadores na reden\u00e7\u00e3o dos escravos.&#8221;.<\/p>\n<p>A Aboli\u00e7\u00e3o da Escravid\u00e3o foi um grande passo na constru\u00e7\u00e3o da nacionalidade. N\u00e3o deve ser subestimada. Ela permitiu que o pa\u00eds desse um passo no sentido do nosso desenvolvimento econ\u00f4mico e social. Corretamente, afirmou o documento elaborado pelo PCdoB intitulado 500 anos de Luta: &#8220;A aboli\u00e7\u00e3o resultou de um vasto movimento de massas, que incluiu os escravos rebelados, os setores m\u00e9dios das cidades, a intelectualidade avan\u00e7ada e os primeiros oper\u00e1rios (&#8230;). Foi uma conquista que eliminou o escravismo, criando condi\u00e7\u00f5es prop\u00edcias \u00e0 transi\u00e7\u00e3o para o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista no Brasil.&#8221; Segundo Gorender, \u201ca aboli\u00e7\u00e3o foi a \u00fanica revolu\u00e7\u00e3o social jamais ocorrida na Hist\u00f3ria de nosso pa\u00eds\u201d, pois \u201ca extin\u00e7\u00e3o do escravismo colonial retirou o principal obst\u00e1culo \u00e0 expans\u00e3o das for\u00e7as produtivas modernas e das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o capitalistas.\u201d.<\/p>\n<p>No entanto, como a Aboli\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi acompanhada de uma reforma agr\u00e1ria e de leis protetoras do trabalhador emancipado, acabou mantendo a popula\u00e7\u00e3o negra numa situa\u00e7\u00e3o de extrema mis\u00e9ria e longe de poder integrar-se \u00e0 sociedade brasileira enquanto cidad\u00e3os plenos. Alguns abolicionistas, reformistas e radicais, compreenderam estes limites. Por isto, eles apresentaram a proposta de uma reforma agr\u00e1ria, como complemento necess\u00e1rio da reforma servil. Assim pensavam Joaquim Nabuco, Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio e Andr\u00e9 Rebou\u00e7as. Mas estas reformas seriam tarefas que n\u00e3o poderiam ser realizadas por aquele Estado olig\u00e1rquico e pelas classes dominantes brasileiras \u2014 quer na sua vers\u00e3o mon\u00e1rquica ou republicana.<\/p>\n<p>Uma vis\u00e3o radical da hist\u00f3ria do Brasil, assentada na compreens\u00e3o da centralidade da luta de classes, nos leva a encarar o \u201c13 de maio\u201d como uma data a ser comemorada. N\u00e3o como um tributo aos fazendeiros paulistas ou \u00e0 fam\u00edlia imperial brasileira, que at\u00e9 ent\u00e3o haviam sido esteios de uma ordem escravista conservadora, e sim como um tributo aos que lutaram para a constru\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds moderno e mais justo. Se este sonho ainda n\u00e3o p\u00f4de ser plenamente realizado, podemos dizer que a Aboli\u00e7\u00e3o foi um dos passos necess\u00e1rios nesta longa caminhada que apenas come\u00e7ar\u00e1 a chegar ao seu final com a conquista do socialismo. Contudo, esta \u00e9 uma tarefa para as gera\u00e7\u00f5es atuais e futuras e n\u00e3o para aquela \u00e0 qual pertenceram os combatentes abolicionistas de 1888.<\/p>\n<p>* Este artigo foi publicado no livro Marxismo, hist\u00f3ria e revolu\u00e7\u00e3o brasileira: encontros e desencontros, editado pela Funda\u00e7\u00e3o Maur\u00edcio Grabois e Editora Anita Garibaldi.<\/p>\n<p>** Augusto Buonicore \u00e9 historiador, presidente do Conselho Curador da Funda\u00e7\u00e3o Maur\u00edcio Grabois. E autor dos livros Marxismo, hist\u00f3ria e a revolu\u00e7\u00e3o brasileira: encontros e desencontros, Meu Verbo \u00e9 Lutar: a vida e o pensamento de Jo\u00e3o Amazonas e Linhas Vermelhas: marxismo e os dilemas da revolu\u00e7\u00e3o. Todos publicados pela Editora Anita Garibaldi.<\/p>\n<p><strong>Bibliografia<\/strong><\/p>\n<p>CARDOSO, Ciro Flamarion (org.). Escravid\u00e3o e aboli\u00e7\u00e3o no Brasil: Novas perspectivas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.<\/p>\n<p>CONRAD, Robert. Os \u00faltimos anos da escravatura no Brasil: 1850-1888. S\u00e3o Paulo: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1978.<\/p>\n<p>GORENDER, Jacob. A escravid\u00e3o reabilitada. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 1990.<\/p>\n<p>________. Brasil em preto &amp; branco. S\u00e3o Paulo: Senac, 2001.<\/p>\n<p>________. O escravismo colonial. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 1980.<\/p>\n<p>MOURA, Cl\u00f3vis. Rebeli\u00f5es da Senzala. S\u00e3o Paulo: Ci\u00eancias Humanas, 1981.<\/p>\n<p>SANTOS, Ronaldo Marcos dos. Resist\u00eancia e supera\u00e7\u00e3o do escravismo na Prov\u00edncia de S\u00e3o Paulo (1885-1888). S\u00e3o Paulo: IPE\/USP, 1980.<\/p>\n<p>VIOTTI DA COSTA, Em\u00edlia. Da senzala \u00e0 col\u00f4nia. S\u00e3o Paulo: Ci\u00eancias Humanas, 1982.<\/p>\n<p>http:\/\/www.grabois.org.br\/portal\/artigos\/153526\/2017-05-12\/o-13-de-maio-e-a-luta-pela-abolicao-da-escravidao#.WRdAUbBv3ew.facebook<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>AUGUSTO BUONICORE &#8211;\u00a0A liberta\u00e7\u00e3o dos escravos n\u00e3o ocorreu por decis\u00e3o volunt\u00e1ria dos fazendeiros paulistas, e muito menos foi uma d\u00e1diva da fam\u00edlia imperial. Ela foi fruto de uma grande luta popular, que envolveu diretamente os pr\u00f3prios escravos. 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