{"id":3886,"date":"2017-05-13T12:05:18","date_gmt":"2017-05-13T15:05:18","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=3886"},"modified":"2017-05-05T20:10:05","modified_gmt":"2017-05-05T23:10:05","slug":"sob-a-forca-dos-andes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/05\/13\/sob-a-forca-dos-andes\/","title":{"rendered":"Sob a for\u00e7a dos Andes"},"content":{"rendered":"<p><strong>CARLOS FIORAVANTI<\/strong> &#8211; Mapa exp\u00f5e uma vis\u00e3o abrangente do relevo da Am\u00e9rica do Sul, agora dividido em 35 unidades<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o dunas!\u201d, admirou-se o ge\u00f3grafo Jurandyr Ross, professor da Universidade de S\u00e3o Paulo, diante das eleva\u00e7\u00f5es de solo arenoso ocupadas por raros tufos de plantas espinhosas, ovelhas e lhamas, pr\u00f3ximas \u00e0s chapadas conhecidas como mesetas do deserto da Patag\u00f4nia, no sudoeste da Argentina, logo depois do Natal de 2015. Sob sol intenso, em uma viagem de 16 dias e 9 mil quil\u00f4metros, Ross e outros ge\u00f3grafos tiravam as d\u00favidas finais sobre as imagens de radar e sat\u00e9lite usadas para preparar o mapa de relevo da Am\u00e9rica do Sul em que ele e sua equipe trabalharam ao longo do ano. Publicado como parte de um artigo na edi\u00e7\u00e3o de agosto de 2016 da <em>Revista Brasileira de Geografia<\/em>, o novo mapa substitui o anterior, bastante simples, da d\u00e9cada de 1940, e destaca em 35 unidades distintas as particularidades dos tr\u00eas grandes blocos formadores do continente: a Cordilheira dos Andes a oeste, a grande plan\u00edcie central adjacente \u00e0s montanhas e os planaltos de baixa altitude que formam a quase totalidade do territ\u00f3rio brasileiro. As divis\u00f5es, algumas com centenas de quil\u00f4metros quadrados, oferecem uma vis\u00e3o integrada do continente e refletem a vincula\u00e7\u00e3o do relevo brasileiro com a cordilheira andina.\u201cEmbora as estruturas que sustentam o relevo brasileiro sejam muito antigas, as formas atuais resultam de fortes influ\u00eancias da atividade tect\u00f4nica dos Andes, que \u00e9 geologicamente bem mais recente\u201d, diz Ross. O soerguimento da cordilheira, como resultado da press\u00e3o de placas tect\u00f4nicas sobre o assoalho marinho, determinou a mudan\u00e7a da dire\u00e7\u00e3o \u2013 de oeste para leste \u2013 do rio Amazonas e de outros da Bacia Amaz\u00f4nica. Al\u00e9m disso, segundo o pesquisador, as serras do Mar e da Mantiqueira, ao longo do litoral, e o Vale do Para\u00edba, na regi\u00e3o de Taubat\u00e9, formaram-se como resultado da press\u00e3o e do enrugamento da cordilheira sobre a estrutura rochosa a leste.<\/p>\n<p>\u201cHoje vivemos uma \u00e9poca de calmaria tect\u00f4nica, mas a reconfigura\u00e7\u00e3o do relevo j\u00e1 foi muito mais intensa, em decorr\u00eancia dos Andes\u201d, diz o ge\u00f3grafo Silvio Rodrigues, professor da Universidade Federal de Uberl\u00e2ndia, em Minas Gerais. Segundo ele, os Andes ainda influenciam o continente porque est\u00e3o sobre duas placas tect\u00f4nicas ativas, a de Nazca e a Sul-americana, que geram energia, por meio de processos tect\u00f4nicos, que pode chegar ao litoral do Atl\u00e2ntico. \u201cComo o relevo brasileiro j\u00e1 \u00e9 bastante conhecido, o que mais interessa neste mapa \u00e9 a an\u00e1lise dos Andes e da depress\u00e3o central, entre os Andes e o territ\u00f3rio brasileiro.\u201d<\/p>\n<p>Depois de fazer o mapa do relevo brasileiro na escala 1:5 milh\u00f5es (de 1 para 5 milh\u00f5es; 1 cent\u00edmetro no mapa equivale a 50 quil\u00f4metros), publicado em 1996 no livro <em>Geografia do Brasil<\/em> (Edusp), e o do relevo do estado de S\u00e3o Paulo na escala 1:500.000, dois anos depois (<em>ver<\/em> Pesquisa Fapesp <em>n<sup>o<\/sup> 35<\/em>), Ross resolveu fazer uma s\u00edntese do relevo da Am\u00e9rica do Sul porque n\u00e3o encontrava nenhum mapa atualizado para usar em suas aulas. O \u00fanico que achou, j\u00e1 com seu trabalho avan\u00e7ado, era de 1942, feito pelo Servi\u00e7o Geol\u00f3gico dos Estados Unidos. Ele usou principalmente as imagens de radar do sat\u00e9lite Shuttle Radar Topography Mission (SRTM), da Nasa, a ag\u00eancia espacial dos Estados Unidos, complementadas pelas do Google Earth, pelo mapa geol\u00f3gico da Am\u00e9rica do Sul produzido pela Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM), empresa p\u00fablica do Minist\u00e9rio de Minas e Energia, e por trabalhos acad\u00eamicos.<\/p>\n<p>Na escala de 1:8 milh\u00f5es, o novo mapa pode ser \u00fatil no planejamento ambiental e econ\u00f4mico. \u201cO relevo, os solos e o clima condicionam a ocupa\u00e7\u00e3o humana e o agroneg\u00f3cio\u201d, diz Ross, associando os terrenos planos de Mato Grosso ao cultivo de soja e de cana-de-a\u00e7\u00facar, e os vales do Chile, em meio \u00e0s montanhas, com a produ\u00e7\u00e3o de frutas. As formas do relevo, ele observa, expressam tanto as for\u00e7as internas da Terra, como os movimentos do magma, quanto as externas, como a eros\u00e3o e as intemp\u00e9ries.<\/p>\n<p>O mapa delimita as unidades dos tr\u00eas blocos fundamentais do continente com base em diferen\u00e7as da constitui\u00e7\u00e3o geol\u00f3gica, solos e formas de relevo.<\/p>\n<p><a title=\"Mapa-Altos-e-Baixos_246\" href=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/Mapa-Altos-e-Baixos_246.jpg\" rel=\"attachment wp-att-222818\" data-rel=\"lightbox-0\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-222818 alignnone\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/Mapa-Altos-e-Baixos_246-300x194.jpg?resize=300%2C194\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" srcset=\"http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/Mapa-Altos-e-Baixos_246-768x497.jpg 768w, http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/Mapa-Altos-e-Baixos_246-766x496.jpg 766w, http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/Mapa-Altos-e-Baixos_246-300x194.jpg 300w, http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/Mapa-Altos-e-Baixos_246-1024x663.jpg 1024w\" alt=\"Mapa-Altos-e-Baixos_246\" width=\"300\" height=\"194\" \/><\/a><\/p>\n<p>O bloco a leste re\u00fane planaltos de baixa altitude, com as bacias dos principais rios brasileiros, delimitadas pelas \u00e1reas em azul no mapa, as depress\u00f5es em laranja, as serras litor\u00e2neas em vermelho. \u00c9 a parte mais antiga do continente, com mais de 1 bilh\u00e3o de anos, formada na era geol\u00f3gica conhecida como pr\u00e9-Cambriano.<\/p>\n<p>Esse bloco fazia parte, com as atuais \u00c1frica e \u00cdndia, do supercontinente Gondwana, que come\u00e7ou a se fragmentar cerca de 150 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s, no per\u00edodo Jur\u00e1ssico, marcado tamb\u00e9m pela abertura do Atl\u00e2ntico Sul. O cr\u00e1ton amaz\u00f4nico, a norte e sul das plan\u00edcies do rio Amazonas, forma as estruturas rochosas mais antigas do continente, com cerca de 2,5 bilh\u00f5es de anos. Em vermelho, os morros e serras representam os resqu\u00edcios j\u00e1 bastante erodidos de cordilheiras mais antigas que os Andes. \u201cQuando se formaram, entre 550 milh\u00f5es e 1,5 bilh\u00e3o de anos, eram t\u00e3o altas quanto os Andes\u201d, diz Ross.<\/p>\n<p>A oeste encontra-se a Cordilheira dos Andes, bloco geologicamente mais recente do que a por\u00e7\u00e3o leste. Ross destacou o trecho mais antigo e mais alto, a Cordilheira Oriental, com cerca de 100 milh\u00f5es de anos de idade e altitudes de 4 mil metros, na Bol\u00edvia e na Argentina.<\/p>\n<p><strong>A Montanha Mais Jovem<\/strong><br \/>\nA cadeia montanhosa predominante, estendendo-se de norte a sul do continente, com altitudes de 1.500 a 2.600 metros, \u00e9 a Cordilheira Ocidental, formada em duas fases, uma h\u00e1 cerca de 85 milh\u00f5es de anos e outra h\u00e1 40 milh\u00f5es de anos. A Cordilheira Costeira \u00e9 ainda mais recente, do final do per\u00edodo Cenozoico, entre 1,7 milh\u00e3o e 23 milh\u00f5es de anos. Entre as montanhas h\u00e1 vales ocupados por cidades como Santiago, a 800 metros de altitude, e o deserto de Atacama, que Ross visitou em novembro, em outra viagem de checagem de campo, impressionando-se com a pel\u00edcula branca de sal sobre o solo \u00e1rido vermelho.<\/p>\n<p>Entre as montanhas e os planaltos baixos do Brasil estende-se a Depress\u00e3o Central Sul-americana, formada por plan\u00edcies com trechos alag\u00e1veis como as dos rios Orenoco na Venezuela, do Mamor\u00e9-Beni na Bol\u00edvia e do Paraguai no Brasil, Paraguai e Argentina. A idade m\u00e9dia da superf\u00edcie dessa \u00e1rea (em amarelo no mapa) varia de 10 mil a 3 milh\u00f5es de anos, com altitude m\u00e1xima de 200 metros na regi\u00e3o entre o Paraguai e a Bol\u00edvia. \u201cToda essa \u00e1rea muito baixa, com colinas de topo plano, vales levemente entalhados, plan\u00edcies e pantanais chamadas de chaco, era um grande mar, h\u00e1 milh\u00f5es de anos, antes de os Andes emergirem\u201d, diz Ross.<\/p>\n<p>A ge\u00f3grafa Isabel Cristina Gouveia, professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Presidente Prudente, comenta que dois grandes ge\u00f3grafos brasileiros do s\u00e9culo passado, Aziz Ab\u2019Saber e Fernando de Almeida, contribu\u00edram bastante para o conhecimento sobre o territ\u00f3rio nacional mesmo sem imagens de sat\u00e9lites, hoje de f\u00e1cil acesso. \u201cCuriosamente\u201d, diz ela, \u201cmesmo com imagens de alta resolu\u00e7\u00e3o e recursos de Sistemas de Informa\u00e7\u00e3o Geogr\u00e1fica, ainda s\u00e3o poucos os estudos que valorizam o mapeamento geomorfol\u00f3gico como m\u00e9todo de an\u00e1lise e sistematiza\u00e7\u00e3o do conhecimento sobre o relevo\u201d.<\/p>\n<p>http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/2016\/08\/19\/sob-a-forca-dos-andes\/?cat=ciencia<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CARLOS FIORAVANTI &#8211; Mapa exp\u00f5e uma vis\u00e3o abrangente do relevo da Am\u00e9rica do Sul, agora dividido em 35 unidades \u201cS\u00e3o dunas!\u201d, admirou-se o ge\u00f3grafo Jurandyr Ross, professor da Universidade de S\u00e3o Paulo, diante das eleva\u00e7\u00f5es de solo arenoso ocupadas por raros tufos de plantas espinhosas, ovelhas e lhamas, pr\u00f3ximas \u00e0s chapadas conhecidas como mesetas do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3887,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1,10],"tags":[],"class_list":["post-3886","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geografia","category-meio-ambiente"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - 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