{"id":3872,"date":"2017-05-15T09:39:11","date_gmt":"2017-05-15T12:39:11","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=3872"},"modified":"2017-05-04T13:45:22","modified_gmt":"2017-05-04T16:45:22","slug":"como-a-igreja-arruinou-a-vida-sexual-das-americas-com-pecado-culpa-e-preconceito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/05\/15\/como-a-igreja-arruinou-a-vida-sexual-das-americas-com-pecado-culpa-e-preconceito\/","title":{"rendered":"Como a Igreja arruinou a vida sexual das Am\u00e9ricas com pecado, culpa e preconceito"},"content":{"rendered":"<p><strong>Cynara Menezes<\/strong> &#8211; \u201cN\u00e3o existe pecado do lado de baixo do Equador\u201d, escreveu o holand\u00eas Gaspar Barleu ao se deparar com a libidinagem no Recife do s\u00e9culo 17.<\/p>\n<p>N\u00e3o existia. A liberdade sexual dos primeiros moradores do Brasil seria logo substitu\u00edda pela no\u00e7\u00e3o de transgress\u00e3o, pelo pudor excessivo, pelas proibi\u00e7\u00f5es e pelo preconceito \u2013 a homofobia, por exemplo, nascia ali. Em que contribu\u00edram os europeus para a sexualidade das Am\u00e9ricas al\u00e9m de nos apresentar \u00e0 culpa?<\/p>\n<p>Tudo o que era poss\u00edvel trazer para c\u00e1, em termos sexuais, j\u00e1 era conhecido entre os nativos: homossexualidade, bissexualidade, transexualidade, bigamia, poligamia. As posi\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m iam muito al\u00e9m do \u201cpapai-e-mam\u00e3e\u201d no escuro e sob len\u00e7\u00f3is dos colonizadores: masturba\u00e7\u00e3o m\u00fatua, sexo anal, oral, grupal. Sexualmente falando, eram os ind\u00edgenas os avan\u00e7ados e os homens brancos, os primitivos. Mas foi s\u00f3 chegar a igreja e pronto: a pretexto de civilizar-nos, destru\u00edram mil\u00eanios de conhecimento aut\u00f3ctone sobre a sexualidade.<\/p>\n<p>As pr\u00f3prias narrativas dos primeiros cronistas s\u00e3o contaminadas pelo puritanismo da \u00e9poca. No M\u00e9xico, Hern\u00e1n Cort\u00e9s escreveu: \u201cfomos informados de que s\u00e3o todos sodomitas e usam aquele abomin\u00e1vel pecado\u201d. O tema da sexualidade, \u00e9 claro, sofreu censura por parte dos colonizadores, e s\u00f3 recentemente historiadores e arque\u00f3logos t\u00eam apresentado descobertas neste campo. Cort\u00e9s estava bem informado: entre os maias, a homossexualidade era frequente, e uma esp\u00e9cie de rito de passagem da inf\u00e2ncia para a adolesc\u00eancia (como ocorre, ali\u00e1s, com tantos homens e mulheres, de forma velada, em todos os tempos).<\/p>\n<p>\u201cViam no prazer sexual um dom divino, equipar\u00e1vel ao alimento, \u00e0 alegria, ao vigor vital e ao repouso cotidiano. Era quest\u00e3o de moderar o desfrute daquele presente, como se fazia com qualquer outro bem concedido pelos deuses\u201d, escreveu o antrop\u00f3logo Alfredo L\u00f3pez Austin em um dos artigos da edi\u00e7\u00e3o especial da revistaArqueologia Mexicana sobre sexualidade entre os maias, em 2010.<\/p>\n<p>A masturba\u00e7\u00e3o ritual era praticada por muitos ind\u00edgenas da Am\u00e9rica Central como uma maneira de fecundar a terra, considerada \u201cfeminina\u201d. As car\u00edcias m\u00fatuas faziam parte do coito: o homem tocava as partes \u00edntimas da mulher e a mulher tocava o homem. Moderno, n\u00e3o? Tem gente que n\u00e3o faz isso at\u00e9 hoje\u2026<\/p>\n<p>Tudo isso foi documentado em esculturas em pedra e cer\u00e2mica que ficaram escondidas, trancafiadas em salas de museu at\u00e9 a metade do s\u00e9culo 20. Uma mostra de arte er\u00f3tica pr\u00e9-colombiana organizada no <a href=\"http:\/\/www.geledes.org.br\/tag\/mexico\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">M\u00e9xico<\/a> em 1926 foi relegada a um sal\u00e3o secreto durante d\u00e9cadas. Em Uxmal e Chichen Itz\u00e1 h\u00e1 esculturas dedicadas ao \u00f3rg\u00e3o sexual masculino, cujo significado ainda permanece um mist\u00e9rio. Sup\u00f5e-se que os falos gigantescos simbolizavam a fertilidade e eram objeto de culto.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-53696 disappear mom_appear alignnone\" src=\"https:\/\/i2.wp.com\/www.geledes.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/1.jpg?resize=533%2C400\" sizes=\"auto, (max-width: 533px) 100vw, 533px\" srcset=\"https:\/\/i2.wp.com\/www.geledes.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/1.jpg?w=533 533w, https:\/\/i2.wp.com\/www.geledes.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/1.jpg?resize=300%2C225 300w\" alt=\"1\" width=\"533\" height=\"400\" \/><\/p>\n<p>No Peru, s\u00f3 em 1957 foi aberta a sala onde ficavam escondidas as cer\u00e2micas er\u00f3ticas pr\u00e9-colombianas do Museu Nacional de Antropologia. Veio a p\u00fablico ent\u00e3o uma impressionante s\u00e9rie de cer\u00e2micas da cultura mochica, anterior aos incas, representando atos sexuais de forma expl\u00edcita, em posi\u00e7\u00f5es que fariam corar ainda hoje em dia algumas senhoras de Santana da renascida direita tupiniquim. Algumas delas podem ser apreciadas no Museu Larco, em Lima.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-53697 disappear mom_appear alignnone\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.geledes.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/2.jpg?resize=755%2C502\" sizes=\"auto, (max-width: 755px) 100vw, 755px\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.geledes.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/2.jpg?w=755 755w, https:\/\/i0.wp.com\/www.geledes.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/2.jpg?resize=300%2C199 300w\" alt=\"2\" width=\"755\" height=\"502\" \/><\/p>\n<p><em>(Cer\u00e2micas do museu Larco, em Lima: sexo oral\u2026)<\/em><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-53698 disappear mom_appear\" src=\"https:\/\/i2.wp.com\/www.geledes.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/3.jpg?resize=443%2C336\" sizes=\"auto, (max-width: 443px) 100vw, 443px\" srcset=\"https:\/\/i2.wp.com\/www.geledes.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/3.jpg?w=443 443w, https:\/\/i2.wp.com\/www.geledes.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/3.jpg?resize=300%2C228 300w\" alt=\"3\" width=\"443\" height=\"336\" \/><\/p>\n<p><em>(\u202669\u2026)<\/em><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-53700 disappear mom_appear\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.geledes.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/4.jpg?resize=575%2C595\" sizes=\"auto, (max-width: 575px) 100vw, 575px\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.geledes.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/4.jpg?w=575 575w, https:\/\/i0.wp.com\/www.geledes.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/4.jpg?resize=290%2C300 290w, https:\/\/i0.wp.com\/www.geledes.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/4.jpg?resize=300%2C310 300w\" alt=\"4\" width=\"575\" height=\"595\" \/><\/p>\n<p><em>(\u2026masturba\u00e7\u00e3o m\u00fatua \u2013 reparem na carinha deles -\u2026)<\/em><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-53701 disappear mom_appear\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.geledes.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/5.jpg?resize=720%2C582\" sizes=\"auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.geledes.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/5.jpg?w=720 720w, https:\/\/i0.wp.com\/www.geledes.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/5.jpg?resize=300%2C243 300w\" alt=\"5\" width=\"720\" height=\"582\" \/><\/p>\n<p><em>(\u2026e sexo anal)<\/em><\/p>\n<p>Na Am\u00e9rica protestante a repress\u00e3o n\u00e3o foi diferente. Muito igualit\u00e1ria, a sociedade Cherokee dava \u00e0s mulheres postos semelhantes aos dos homens; elas podiam integrar o conselho da tribo e ser guerreiras. O adult\u00e9rio era permitido a ambos os sexos, sem puni\u00e7\u00e3o, assim como o div\u00f3rcio: bastava a mulher colocar os pertences do homem para fora da casa.<\/p>\n<p>Havia ainda os transg\u00eaneros, encontrados em mais de 150 tribos norte-americanas. Chamados de <em>Two-Spirit<\/em> (\u201cdois esp\u00edritos\u201d) ou \u201cberdaches\u201d, eram homens que gostavam de estar entre as mulheres, fazer as coisas que elas faziam e vestir-se como elas. Ou o contr\u00e1rio: mulheres que gostavam de se vestir como homens. Os primeiros relatos de colonizadores sobre os <em>Two-Spirit<\/em> aparecem j\u00e1 no s\u00e9culo 16. O preconceito contra eles s\u00f3 vai surgir mais tarde, por influ\u00eancia do homem branco. A partir da\u00ed, eles passam a ser rejeitados por suas tribos e s\u00e3o marginalizados.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-53702 disappear mom_appear alignnone\" src=\"https:\/\/i1.wp.com\/www.geledes.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/6.jpg?resize=738%2C600\" sizes=\"auto, (max-width: 738px) 100vw, 738px\" srcset=\"https:\/\/i1.wp.com\/www.geledes.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/6.jpg?w=738 738w, https:\/\/i1.wp.com\/www.geledes.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/6.jpg?resize=300%2C244 300w\" alt=\"6\" width=\"738\" height=\"600\" \/><\/p>\n<p><em>(We-Wa, uma \u201cdois esp\u00edritos\u201d do povo Zuni, do Novo M\u00e9xico, EUA, em 1907)<\/em><\/p>\n<p>Na Am\u00e9rica cat\u00f3lica, a \u201cSanta\u201d Inquisi\u00e7\u00e3o foi convocada para reprimir sexualmente os nativos, coibindo \u201cdelitos\u201d como a bigamia ou a sodomia, embora fossem pr\u00e1ticas permitidas em algumas culturas ind\u00edgenas. No M\u00e9xico, conta-se do \u00edndio \u00c1ngel Porecu, de Michoac\u00e1n, punido por bigamia com cem chibatadas. No Brasil, um projeto da Universidade Federal do Par\u00e1 rastreou os casos de naturais da Amaz\u00f4nia, entre eles ind\u00edgenas, enviados aos tribunais do \u201cSanto\u201d Of\u00edcio em Lisboa por \u201ccrimes\u201d similares.<\/p>\n<p>Foi o caso da \u00edndia Flor\u00eancia Perp\u00e9tua, de 28 anos, acusada de bigamia em 1766, levada a Portugal e condenada \u00e0 pris\u00e3o, ap\u00f3s a qual foi solta e admoestada a viver com o primeiro marido.\u00a0A sodomia (pr\u00e1tica de sexo anal) tamb\u00e9m era raz\u00e3o para julgamento e puni\u00e7\u00e3o pela Inquisi\u00e7\u00e3o, mas apenas a masculina. \u201cA sodomia feminina n\u00e3o era alvo da Inquisi\u00e7\u00e3o porque n\u00e3o havia o derramamento de s\u00eamen, considerado pecado. A masculina era considerada bestialismo\u201d, explica o historiador Antonio Otaviano Vieira Jr.,\u00a0coordenador do trabalho.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-53703 aligncenter disappear mom_appear\" src=\"https:\/\/i2.wp.com\/www.geledes.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/7.jpg?resize=753%2C500\" sizes=\"auto, (max-width: 753px) 100vw, 753px\" srcset=\"https:\/\/i2.wp.com\/www.geledes.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/7.jpg?w=753 753w, https:\/\/i2.wp.com\/www.geledes.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/7.jpg?resize=300%2C199 300w\" alt=\"7\" width=\"753\" height=\"500\" \/><\/p>\n<p><em>(Tribunal da Inquisi\u00e7\u00e3o no M\u00e9xico)<\/em><\/p>\n<p>A ordem era vestir as \u00edndias, cobrir o que foi olhado com tanto espanto e deleite pelos primeiros exploradores. \u201cDesde o in\u00edcio da coloniza\u00e7\u00e3o lutou-se contra a nudez e aquilo que ela simbolizava. Os padres jesu\u00edtas, por exemplo, mandavam buscar tecidos de algod\u00e3o, em Portugal, para vestir as crian\u00e7as ind\u00edgenas que frequentavam suas escolas. \u2018Mandem pano para que se vistam\u2019, pedia padre Manuel da N\u00f3brega em carta a seus superiores\u201d, escreve Mary del Priore no livro<em>Hist\u00f3rias \u00cdntimas<\/em>. \u201cAos olhos dos colonizadores, a nudez do \u00edndio era semelhante \u00e0 dos animais; afinal, como as bestas, ele n\u00e3o tinha vergonha ou pudor natural. Vesti-lo era afast\u00e1-lo do mal e do pecado. O corpo nu era concebido como foco de problemas duramente combatidos pela Igreja nesses tempos: a lux\u00faria, a lasc\u00edvia, os pecados da carne. Afinal, como se queixava padre Anchieta, as ind\u00edgenas n\u00e3o se negavam a ningu\u00e9m.\u201d<\/p>\n<p>Enquanto fora de casa o homem se divertia, dentro do casamento era um pudor s\u00f3. \u201cAt\u00e9 para ter rela\u00e7\u00f5es sexuais as pessoas n\u00e3o se despiam. As mulheres levantavam as saias ou as camisas e os homens abaixavam as cal\u00e7as e ceroulas. Mesmo nos processos de sedu\u00e7\u00e3o e defloramento que guardam nossos arquivos, v\u00ea-se que os amantes n\u00e3o tiravam a roupa durante o ato\u201d, lembra Mary.<\/p>\n<p>A sexualidade dos \u00edndios no Brasil \u00e9 ainda hoje pouco estudada. H\u00e1 alguns relatos de cronistas, como o de Gabriel Soares de Sousa entre os tupinamb\u00e1s, na <em>caliente<\/em>Bahia do s\u00e9culo 16. \u201cS\u00e3o os tupinamb\u00e1s t\u00e3o luxuriosos que n\u00e3o h\u00e1 pecado de lux\u00faria que n\u00e3o cometam\u201d, escreve Gabriel no <em>Tratado Descritivo do Brasil em 1587<\/em>. Segundo ele, os \u00edndios n\u00e3o s\u00f3 transavam muito como gostavam, homens e mulheres, de falar sobre sexo desavergonhadamente.<\/p>\n<p>Havia<a href=\"http:\/\/www.geledes.org.br\/tag\/homossexualidade\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"> homossexualidade<\/a> e o adult\u00e9rio era permitido tamb\u00e9m \u00e0s mulheres, que seduziam amigas para o leito conjugal. \u201cAs que querem bem aos maridos, pelos contentarem, buscam-lhes mo\u00e7as com que eles se desenfadem, as quais lhe levam \u00e0 rede onde dormem, onde lhes pedem muito que se queira deitar com os maridos, e as peitam para isso; cousa que n\u00e3o faz nenhuma na\u00e7\u00e3o de gente, sen\u00e3o estes b\u00e1rbaros\u201d, constata, n\u00e3o sem uma pontinha de inveja, nosso cronista.<\/p>\n<p>As mulheres mais velhas, por sua vez, \u201cdesestimadas dos homens\u201d, tratavam de iniciar sexualmente os meninos: \u201censinam-lhes a fazer o que eles n\u00e3o sabem\u201d. E os insatisfeitos com o tamanho do membro <em>\u2013<\/em>nada de novo sob o sol<em>\u2013<\/em>\u201ccostumam p\u00f4r o pelo de um bicho t\u00e3o pe\u00e7onhento, que lho faz logo inchar, com o que t\u00eam grandes dores, mais de seis meses, que se lhe v\u00e3o gastando por espa\u00e7o de tempo; com o que se lhe faz o seu cano t\u00e3o disforme de grosso que os n\u00e3o podem as mulheres esperar\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO esfor\u00e7o no sentido de fazer prosperar na col\u00f4nia estrita monogamia teve que ser tremendo\u201d, escreveu Gilberto Freyre em <em>Casa Grande &amp; Senzala<\/em>. O pernambucano, que assumia com tranquilidade suas experi\u00eancias homossexuais na juventude, prestou aten\u00e7\u00e3o nas pr\u00e1ticas entre o mesmo sexo e na bissexualidade, que n\u00e3o eram incomuns entre os ind\u00edgenas brasileiros e tampouco eram pr\u00e1ticas condenadas. Pelo contr\u00e1rio, os homossexuais eram bem-vistos e tinham relev\u00e2ncia na comunidade. Freyre sup\u00f5e que a fun\u00e7\u00e3o de curandeiro das tribos, n\u00e3o s\u00f3 brasileiras como as demais do continente, fosse destinada aos gays. Tamb\u00e9m se afirma isso sobre os <em>Two-Spirit<\/em>, que seriam os xam\u00e3s da Am\u00e9rica do Norte.<\/p>\n<div id=\"attachment_7274\" class=\"wp-caption aligncenter\"><em>(O Feiticeiro, gravura de John White, em 1585, na cidade ind\u00edgena de Pomeiooc, atual Carolina do Norte, EUA)<\/em><\/div>\n<div class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-53704 disappear mom_appear\" src=\"https:\/\/i2.wp.com\/www.geledes.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/8.jpg?resize=501%2C768\" sizes=\"auto, (max-width: 501px) 100vw, 501px\" srcset=\"https:\/\/i2.wp.com\/www.geledes.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/8.jpg?w=501 501w, https:\/\/i2.wp.com\/www.geledes.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/8.jpg?resize=196%2C300 196w, https:\/\/i2.wp.com\/www.geledes.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/8.jpg?resize=300%2C460 300w\" alt=\"8\" width=\"501\" height=\"768\" \/><\/div>\n<div class=\"wp-caption alignnone\"><em>(O Feiticeiro, gravura de John White, em 1585, na cidade ind\u00edgena de Pomeiooc, atual Carolina do Norte, EUA)<\/em><\/div>\n<p>\u201cQuanto aos paj\u00e9s, \u00e9 prov\u00e1vel que fossem daquele tipo de homens efeminados ou invertidos que a maior parte dos ind\u00edgenas da Am\u00e9rica antes respeitavam e temiam do que desprezavam ou abominavam\u201d, defende Freyre. \u201cUns, efeminados pela idade avan\u00e7ada, que tende a masculinizar certas mulheres e a efeminar certos homens; outros, talvez, por pervers\u00e3o cong\u00eanita ou adquirida. A verdade \u00e9 que para as m\u00e3os de indiv\u00edduos bissexuais ou bissexualizados pela idade resvalavam em geral os poderes e fun\u00e7\u00f5es de m\u00edsticos, de curandeiros, paj\u00e9s, conselheiros, entre v\u00e1rias tribos americanas.\u201d<\/p>\n<p>Entrevistei o antrop\u00f3logo Estev\u00e3o Fernandes, professor da Universidade de Rond\u00f4nia, que estuda a homossexualidade ind\u00edgena.<\/p>\n<p><strong>Socialista Morena \u2013\u00a0Era frequente a homossexualidade entre os \u00edndios brasileiros? Ou depende da etnia?<\/strong><\/p>\n<p><em><strong>Estev\u00e3o Fernandes<\/strong>\u00a0\u2013 N\u00e3o apenas \u201cera\u201d, como \u00e9, algo normal. Um grande desafio no tocante aos ind\u00edgenas homossexuais em v\u00e1rias terras ind\u00edgenas do Pa\u00eds \u00e9 o de romperem com uma imagem que se tem, no Brasil, de que os povos ind\u00edgenas sejam coletividades paradas no tempo. Isso faz com que ind\u00edgenas cujas sexualidades n\u00e3o se enquadram no modelo hegem\u00f4nico sejam vistos como \u201cperdendo sua cultura\u201d ou \u201cgays por causa do contato com os brancos\u201d, gerando preconceito, inclusive, em suas pr\u00f3prias aldeias \u2013muitas vezes devido ao contato com os n\u00e3o-\u00edndios, com igrejas diversas, por meio da m\u00eddia.\u00a0A perspectiva de que estas sexualidades eram abjetas chegou com a coloniza\u00e7\u00e3o, com a imposi\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es ocidentais de sexo, g\u00eanero, fam\u00edlia, pela necessidade do colonizador de se organizar o trabalho, o espa\u00e7o e o tempo nas aldeias. Assim, os homens deveriam se vestir como homens, trabalhar onde os homens trabalham, ter nome de homem, e se comportar como os homens se comportam; idem com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres. Os ind\u00edgenas que n\u00e3o se enquadravam nesta perspectiva (r)estrita de dimorfismo sexual e heteronormatividade eram castigados\u00a0\u2013h\u00e1 relatos, por exemplo, de execu\u00e7\u00f5es, cortes de cabelo for\u00e7ados, castigos f\u00edsicos, etc., levados a cabo pelos colonizadores, n\u00e3o pelos ind\u00edgenas. Neste sentido, a heteronormatividade e o preconceito s\u00e3o parte integrante da coloniza\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o das formas pelas quais os ind\u00edgenas lidavam com essas pr\u00e1ticas. Temos fontes que situam pr\u00e1ticas queer entre povos ind\u00edgenas no Brasil desde, pelo menos, meados do s\u00e9culo XVI e em diversas etnias e povos ind\u00edgenas do pa\u00eds, sem que houvesse qualquer tipo de preconceito ou exclus\u00e3o destes indiv\u00edduos em suas aldeias.<\/em><\/p>\n<p><strong>\u2013\u00a0S\u00f3 h\u00e1 relatos de homossexualidade masculina ou feminina tamb\u00e9m?<\/strong><\/p>\n<p><em>\u2013 Tanto uma quanto outra (ainda que as fontes sejam mais frequentes no tocante ao sexo entre homens, reflexo da perspectiva viricentrada e patriarcal quase sempre assumida pelos observadores).<\/em><\/p>\n<p><strong>\u2013 Gilberto Freyre prop\u00f5e que muitos dos paj\u00e9s eram homossexuais. Ser\u00e1 verdade?<\/strong><\/p>\n<p><em>\u2013 No Brasil h\u00e1 poucos dados sobre isso, ainda que existam. Isto talvez explique a persegui\u00e7\u00e3o que os homo e bissexuais sofreram ao longo da coloniza\u00e7\u00e3o. H\u00e1 v\u00e1rios relatos na literatura que nos permitem afirmar que havia (e talvez ainda haja), entre povos amer\u00edndios, o ponto de vista que relaciona homo\/bi\/transexualidade ao potencial sagrado, como mostram os Two-Spirit nos Estados Unidos e Canad\u00e1. Tamb\u00e9m h\u00e1 o caso dxs\u00a0Muxes, no M\u00e9xico, que apontam n\u00e3o apenas para esse importante papel religioso, mas tamb\u00e9m pol\u00edtico e social desempenhado por esses indiv\u00edduos.<\/em><\/p>\n<p><strong>\u2013\u00a0A sexualidade ind\u00edgena \u00e9 um assunto muito pouco estudado no Brasil. Por qu\u00ea? Qual a principal dificuldade em pesquisar este campo?<\/strong><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0Ainda \u00e9, embora venham surgindo boas pesquisas a este respeito.\u00a0Uma das hip\u00f3teses \u00e9, talvez, a pr\u00f3pria resist\u00eancia que algumas lideran\u00e7as ind\u00edgenas t\u00eam em tocar no assunto, por temerem o preconceito em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s suas comunidades\u2026 Outra \u00e9 a relativamente pouca penetra\u00e7\u00e3o de ideias como as teorias queer na academia brasileira. Neste sentido, um grande desafio \u00e9 trazer o queer para uma discuss\u00e3o mais pr\u00f3xima da etnologia ind\u00edgena e da cr\u00edtica \u00e0s pr\u00e1ticas coloniais, administrativas e pol\u00edticas empregadas junto aos povos ind\u00edgenas.\u00a0Por outro lado, fico feliz em ver que alguns e algumas ind\u00edgenas j\u00e1 se mobilizam em suas comunidades para pensar estas quest\u00f5es, inclusive trazendo estas reflex\u00f5es para a pr\u00f3pria academia \u2013um exemplo \u00e9 o texto Sexual Modernity in Amazonia, escrito em coautoria com uma ind\u00edgena Tikuna, aluna da UFAM (Universidade Federal do Amazonas).<\/em><\/p>\n<p><strong>\u2013\u00a0Os relatos dos primeiros cronistas sobre sexualidade eram sempre permeados de julgamentos e preconceitos. H\u00e1 alguma exce\u00e7\u00e3o? Algum cronista foi mais, digamos, permissivo?<\/strong><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0At\u00e9 onde pude observar, n\u00e3o h\u00e1 exce\u00e7\u00f5es\u2026 Quase sempre o enquadramento a partir do qual a sexualidade ind\u00edgena \u00e9 vista reflete as perspectivas e preconceitos do observador\u2026 No tocante aos mission\u00e1rios e cronistas \u00e9 ainda mais evidente como a sexualidade era vista, junto com a poligamia e a antropofagia, como prova da necessidade de se converter \u2013quase sempre pelo uso do medo\u2013 os ind\u00edgenas.<\/em><\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Talvez a pr\u00f3pria imagem do ind\u00edgena como \u201cinocente\u201d ou \u201cassexuado\u201d tenha sido \u00fatil \u00e0 Igreja para disseminar suas teorias sobre c\u00e9u e inferno. A analogia com Ad\u00e3o e Eva era perfeita: nus, no \u201cPara\u00edso\u201d, os \u201cinocentes\u201d foram tentados pela serpente do \u201cpecado\u201d. Era preciso faz\u00ea-los sentir-se mal em rela\u00e7\u00e3o a algo natural e convert\u00ea-los \u00e0 \u201cf\u00e9\u201d. E assim morria, no \u201cdescobrimento\u201d, a genu\u00edna sexualidade das Am\u00e9ricas. Mas o pecado, Barleu tinha raz\u00e3o, n\u00e3o est\u00e1 mesmo em nosso DNA.<\/p>\n<p>http:\/\/www.geledes.org.br\/como-igreja-arruinou-vida-sexual-das-americas-com-pecado-culpa-e-preconceito\/#gs.null<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cynara Menezes &#8211; \u201cN\u00e3o existe pecado do lado de baixo do Equador\u201d, escreveu o holand\u00eas Gaspar Barleu ao se deparar com a libidinagem no Recife do s\u00e9culo 17. N\u00e3o existia. 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