{"id":383,"date":"2016-05-24T15:20:03","date_gmt":"2016-05-24T18:20:03","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=383"},"modified":"2016-05-17T13:26:33","modified_gmt":"2016-05-17T16:26:33","slug":"e-o-vento-levou-quase-cinco-anos-da-primavera-arabe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/05\/24\/e-o-vento-levou-quase-cinco-anos-da-primavera-arabe\/","title":{"rendered":"E o vento levou: quase cinco anos da Primavera \u00c1rabe"},"content":{"rendered":"<p><strong>Moulay Hicham<\/strong>&#8211;\u00a0Ap\u00f3s a onda de revoltas iniciada na Tun\u00edsia em janeiro de 2011, a Primavera \u00c1rabe parece encurralada entre duas amea\u00e7as: o retorno dos Estados autorit\u00e1rios e o risco jihadista. Entretanto, a exig\u00eancia por dignidade e a aspira\u00e7\u00e3o por liberdade n\u00e3o desapareceram no seio da popula\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>O mundo \u00e1rabe enfrenta desafios que parecem insuper\u00e1veis, os quais precisa ultrapassar se quiser conceber um futuro mais pac\u00edfico, democr\u00e1tico e est\u00e1vel. Tais desafios residem principalmente na regress\u00e3o contrarrevolucion\u00e1ria incitada pelos Estados autorit\u00e1rios, na natureza indecisa do processo revolucion\u00e1rio e nas quest\u00f5es geopol\u00edticas e sect\u00e1rias originadas pelo flagelo da Organiza\u00e7\u00e3o do Estado Isl\u00e2mico (OEI).<\/p>\n<p>Muitos regimes \u00e1rabes se encaixam na defini\u00e7\u00e3o de Jean-Pierre Filiu de \u201cmamelucos modernos\u201d.1 No in\u00edcio, os mamelucos eram soldados escravos que a dinastia ab\u00e1ssida (750-1258) recrutava nos territ\u00f3rios situados fora do mundo mu\u00e7ulmano. Aos olhos de seus patr\u00f5es, em raz\u00e3o de sua origem n\u00e3o \u00e1rabe, os conflitos de lealdade que semeavam a disc\u00f3rdia entre muitas fam\u00edlias, tribos e comunidades n\u00e3o os afetariam de modo algum.<\/p>\n<p>Ao longo dos anos, os mamelucos adquiriram tamanha influ\u00eancia pol\u00edtica e militar que acabaram, no s\u00e9culo XII, suplantando seus patr\u00f5es e tomando o poder do Egito no Golfo. Impuseram-se ainda mais facilmente pelo fato de n\u00e3o terem liga\u00e7\u00f5es com as sociedades que dirigiam e, portanto, n\u00e3o precisarem lidar com cl\u00e3s nem com protetores. Isso os tornava quase invulner\u00e1veis, exceto a invas\u00f5es estrangeiras. Essa heran\u00e7a dos mamelucos, autocr\u00e1tica e patrimonial, \u00e9 a base das rep\u00fablicas militares \u00e1rabes de hoje, tanto na S\u00edria como no Egito.<\/p>\n<p>Tais regimes se consideram ao mesmo tempo deposit\u00e1rios do poder do Estado e estrangeiros em suas pr\u00f3prias sociedades, que sempre tiveram a voca\u00e7\u00e3o de ser governadas por m\u00e3os de ferro. Em alguns pa\u00edses, esse estado de esp\u00edrito remonta ao per\u00edodo colonial. No Egito, a heran\u00e7a mameluca ressurgiu a partir do in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, em favor do conceito de Estado civil (dawla madaniyya) evidenciado pelas reformas de Muhammad-Ali Pacha, governante de 1805 a 1849.<\/p>\n<p>Diante da Primavera \u00c1rabe, o reflexo mameluco consistia em defender por todos os meios essas prerrogativas de regalias. Os detentores do poder pretendiam garantir que o aparelho do Estado n\u00e3o ca\u00edsse nas m\u00e3os de for\u00e7as sociais consideradas de classe inferior. No Egito, depois de a revolu\u00e7\u00e3o de 2011 ter gerado a queda de Hosni Mubarak, o golpe de Estado de julho de 2013, comandado pelo general Abdel Fatah al-Sisi contra o governo eleito da Irmandade Mu\u00e7ulmana, revelou a prodigiosa determina\u00e7\u00e3o dos militares de n\u00e3o abrir m\u00e3o de nenhum de seus privil\u00e9gios. Na S\u00edria, a brutalidade com a qual o regime de Bashar al-Assad reprimiu os protestos pac\u00edficos confirmou tamb\u00e9m a incapacidade do poder de tolerar quaisquer questionamentos.<\/p>\n<p>As tens\u00f5es geopol\u00edticas acabaram colaborando para a estrat\u00e9gia contrarrevolucion\u00e1ria das pot\u00eancias \u00e1rabes. A amea\u00e7a crescente de um expansionismo xiita, encarnado pelo poder iraniano, tamb\u00e9m possibilitou \u00e0 Ar\u00e1bia Saudita demonizar toda oposi\u00e7\u00e3o interna e conduzir uma repress\u00e3o crescente em nome da seguran\u00e7a nacional.<\/p>\n<p>Outro exemplo dessa conjuntura funesta: o Bahrein. Para os dirigentes da pequena monarquia sunita, a oposi\u00e7\u00e3o que surgiu durante a Primavera \u00c1rabe era apenas uma marionete do Ir\u00e3, que manipulava a popula\u00e7\u00e3o xiita majorit\u00e1ria no arquip\u00e9lago. A aspira\u00e7\u00e3o por reformas democr\u00e1ticas, no entanto, nunca deixou de abalar o Bahrein desde sua independ\u00eancia em 1971. Situa\u00e7\u00e3o inversa na S\u00edria, onde Al-Assad, apoiado por Teer\u00e3, acusa a oposi\u00e7\u00e3o de participar do jogo de uma conspira\u00e7\u00e3o sunita fomentada pelos Estados Unidos para dominar o Oriente M\u00e9dio. O medo de ver a regi\u00e3o toda tomada por massas sunitas explica por que a coaliz\u00e3o pr\u00f3-Al-Assad junta as pe\u00e7as de um tamb\u00e9m grande mosaico de minorias, dos alauitas s\u00edrios aos xiitas libaneses do Hezbollah, passando pelos hutis do I\u00eamen.<\/p>\n<p>Desde o epis\u00f3dio da Primavera \u00c1rabe, o conflito entre sunitas e xiitas redobrou de intensidade. Entre os fatores que precipitaram o alastramento desse fogo est\u00e3o a queda do pre\u00e7o do petr\u00f3leo e a conclus\u00e3o do acordo internacional sobre o programa nuclear iraniano, mas tamb\u00e9m a percep\u00e7\u00e3o de que toda forma de pluralismo pol\u00edtico \u00e9 uma amea\u00e7a para a seguran\u00e7a nacional. No Egito, por exemplo, a restaura\u00e7\u00e3o do regime militar deu origem a uma repress\u00e3o brutal \u00e0 Irmandade Mu\u00e7ulmana, acusada de terrorismo, apesar de ter respeitado as regras do jogo eleitoral e renunciado \u00e0 luta armada. Nunca desde os anos 1950 os isl\u00e2micos e a oposi\u00e7\u00e3o em sua totalidade haviam sofrido persegui\u00e7\u00f5es t\u00e3o implac\u00e1veis. A estrat\u00e9gia antiterrorista do poder opera sob o modo de profecia autorrealiz\u00e1vel: a repress\u00e3o militar-policial suscita rea\u00e7\u00f5es violentas, que por sua vez justificam uma ordem ainda mais impiedosa.<\/p>\n<p>Os mamelucos modernos exploram o medo do jihadismo para que o bloco ocidental feche os olhos para sua viol\u00eancia e volte para sua pol\u00edtica de apoio incondicional aos regimes desp\u00f3ticos, o que n\u00e3o os impede de fazer jogo duplo: atacar o extremismo religioso internamente, colocando em pr\u00e1tica pol\u00edticas que o refor\u00e7am no exterior.<\/p>\n<p>Foi assim que, na L\u00edbia, as for\u00e7as do general Khalifa Haftar, apoiadas pela Europa e pelos Estados Unidos, deliberadamente deixaram a OEI assumir o controle da regi\u00e3o de Sirte, preferindo dedicar seus esfor\u00e7os a combater o governo rival de Tr\u00edpoli. Na S\u00edria, Al-Assad reagiu \u00e0 Primavera \u00c1rabe libertando da pris\u00e3o diversos mu\u00e7ulmanos e prendendo militantes de outros grupos de oposi\u00e7\u00e3o. No I\u00eamen, o governo qualificou os hutis como um movimento terrorista sustentado pelo Ir\u00e3, realizando ao mesmo tempo negocia\u00e7\u00f5es com a Al-Qaeda. J\u00e1 as monarquias do Golfo, embora n\u00e3o tenham deixado de designar a OEI como sua pior inimiga, n\u00e3o fizeram nada \u2013 ou quase nada \u2013 para impedir as organiza\u00e7\u00f5es religiosas ativas em seu territ\u00f3rio de financiar movimentos isl\u00e2micos armados fora de suas fronteiras.<\/p>\n<p>Tal hipocrisia indica que a maioria dos Estados \u00e1rabes, contrariamente ao que afirmam, n\u00e3o tem a menor pressa de que a amea\u00e7a jihadista desapare\u00e7a, pois esta \u00faltima lhes fornece um pretexto perfeito para bloquear qualquer reforma democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Vencedora a curto prazo, tal estrat\u00e9gia corre o risco, no entanto, de se chocar cedo ou tarde com a natureza imprevis\u00edvel do processo revolucion\u00e1rio. Quase todos os observadores ocidentais decretaram a morte da Primavera \u00c1rabe. A seu ver, \u00e9 uma quest\u00e3o clara: apenas a fr\u00e1gil democracia tunisiana emerge ainda do campo das ru\u00ednas. Esse diagn\u00f3stico \u00e9 partilhado pelos governos \u00e1rabes, inclinados a virar a p\u00e1gina do que resta daquilo que para eles \u00e9 uma detest\u00e1vel lembran\u00e7a. A volta do bast\u00e3o que sufocou as reivindica\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas em tantos pa\u00edses parece, \u00e9 claro, dar-lhes raz\u00e3o. Mas a hist\u00f3ria ensina que as revolu\u00e7\u00f5es, bem como as ondas, ocorrem de modo c\u00edclico: a exig\u00eancia por dignidade e liberdade ressurgir\u00e1 inevitavelmente, estejam os governos preparados ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Hoje, a falta de levantes nas ruas n\u00e3o significa o desaparecimento do processo revolucion\u00e1rio. Os problemas que haviam causado a primeira onda, em 2010, n\u00e3o se dissiparam, muito pelo contr\u00e1rio. A taxa de desemprego na maior parte dos pa\u00edses \u00e1rabes ainda \u00e9 t\u00e3o elevada quanto h\u00e1 cinco anos, a economia mant\u00e9m-se fraca, a administra\u00e7\u00e3o continua ineficaz e o setor privado permanece debilitado. Nas sociedades \u00e1rabes, ainda ressoa a voz de uma juventude numerosa e efervescente, para a qual os governos fracassam em oferecer perspectivas. Os sistemas educacionais persistem em privilegiar a sele\u00e7\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o do dinheiro em vez do m\u00e9rito e em formar herdeiros que n\u00e3o ter\u00e3o as compet\u00eancias necess\u00e1rias para defender seus interesses nos mercados mundiais.<\/p>\n<p>Ainda mais grave: os dirigentes continuam privando os cidad\u00e3os de seu direito \u00e0 palavra. O conluio entre a classe pol\u00edtica e o empresariado tamb\u00e9m permanece intacto e possibilita que uma pequena elite, agarrada a seus privil\u00e9gios, controle n\u00e3o somente as institui\u00e7\u00f5es do Estado, mas tamb\u00e9m os recursos do pa\u00eds. N\u00e3o \u00e9 de admirar que o mito do desenvolvimento inspire cada vez menos confian\u00e7a nas popula\u00e7\u00f5es, inundadas por informa\u00e7\u00f5es elogiosas sobre o crescimento do PIB, em rela\u00e7\u00e3o ao qual podem constatar que n\u00e3o traz nem empregos aos desempregados nem futuro aos jovens. Crescimento de desigualdades, falta de infraestrutura, defici\u00eancias do sistema educacional, corrup\u00e7\u00e3o end\u00eamica: nenhum desses males foi resolvido desde 2010.<\/p>\n<p><strong>Reformar agora ou esperar\u00a0novas revoltas?<\/strong><\/p>\n<p>Embora os problemas estruturais persistam ou se agravem, o tecido social e cultural das sociedades \u00e1rabes, por outro lado, modificou-se sensivelmente. O cidad\u00e3o comum parou de viver com medo visceral do poder; sua obedi\u00eancia n\u00e3o pode mais ser arrancada assim t\u00e3o facilmente, pela amea\u00e7a policial ou pelo doutrinamento ideol\u00f3gico.<\/p>\n<p>N\u00e3o que o medo tenha desaparecido, mas sua origem mudou. No presente, ficamos incomodados principalmente com a propaga\u00e7\u00e3o da OEI e do jihadismo, bem como com o colapso dos Estados da S\u00edria e do I\u00eamen. Esse novo medo, onipresente, explica por que tantos cidad\u00e3os n\u00e3o acreditam mais na possibilidade de uma reforma democr\u00e1tica. Ela exacerba o desencantamento suscitado pela derrota dos movimentos revolucion\u00e1rios no Egito e na L\u00edbia \u2013 sem falar do Marrocos e da Jord\u00e2nia, onde as esperan\u00e7as de mudan\u00e7a foram despeda\u00e7adas nas portas do pal\u00e1cio real. N\u00e3o surpreende que a combina\u00e7\u00e3o dos medos e das decep\u00e7\u00f5es crie uma atmosfera de apatia social. Quase sempre, o apoio ao regime reflete apenas uma aceita\u00e7\u00e3o resignada em virtude de uma falta de solu\u00e7\u00f5es alternativas.<\/p>\n<p>No entanto, o medo, a desilus\u00e3o e a apatia s\u00e3o estados de esp\u00edrito ef\u00eameros, que os dirigentes n\u00e3o podem cultivar para sempre. Sua recusa em propor reformas nas quais se possa acreditar gerou rea\u00e7\u00f5es violentas h\u00e1 cinco anos; \u00e9 bem poss\u00edvel que as mesmas causas acabem produzindo efeitos iguais em breve. Eles precisam escolher: realizar reformas agora ou esperar a explos\u00e3o de novas revoltas.<\/p>\n<p>Diversos \u00edndices sugerem que esse dilema poderia num futuro muito pr\u00f3ximo tornar-se persistente. O L\u00edbano, por exemplo, passou no meio do ano por manifesta\u00e7\u00f5es maci\u00e7as, voltadas contra a incapacidade do governo de garantir a coleta de lixo. A exaspera\u00e7\u00e3o diante das montanhas de detritos acumulados nas ruas mobilizou pessoas de todas as vertentes religiosas e etnias, pois proporcionou aos libaneses, principalmente aos mais jovens, a oportunidade de expressar uma frustra\u00e7\u00e3o maior e mais profunda. N\u00e3o se tratava apenas de denunciar a neglig\u00eancia do governo, mas de derrubar um sistema sect\u00e1rio obsoleto, embora ele tenha por muito tempo assegurado ao pa\u00eds uma apar\u00eancia de estabilidade pol\u00edtica. Os manifestantes exigiam a instaura\u00e7\u00e3o de um sistema mais democr\u00e1tico, que colocaria todos os libaneses em p\u00e9 de igualdade, em vez de concentrar o poder nas m\u00e3os das elites envelhecidas cooptadas tendo por base crit\u00e9rios ultrapassados.<\/p>\n<p>Alguns meses antes, a Arg\u00e9lia fora palco de um movimento social sem precedentes. O an\u00fancio de um projeto de explora\u00e7\u00e3o de g\u00e1s de xisto no Saara impulsionou milhares de habitantes dessa regi\u00e3o pobre e des\u00e9rtica a entrar em conflito tanto contra os riscos potenciais do fraturamento hidr\u00e1ulico como contra um modelo de desenvolvimento baseado na apropria\u00e7\u00e3o das riquezas naturais. Tal luta adquire um significado particular se lembrarmos que \u00e9 na Arg\u00e9lia que a Primavera \u00c1rabe tem suas origens mais antigas. As imensas manifesta\u00e7\u00f5es de 1988 pela mudan\u00e7a e pela democracia, o sucesso eleitoral da Frente Isl\u00e2mica de Salva\u00e7\u00e3o (FIS), o golpe dos militares e a sangrenta guerra civil que se seguiu: na trag\u00e9dia, j\u00e1 se manifestava um conflito entre o Estado e a sociedade. Por mais espor\u00e1dicas e isoladas que sejam, as lutas que surgem aqui e ali indicam que o esp\u00edrito de 2010 n\u00e3o se apagou.<\/p>\n<p>A principal li\u00e7\u00e3o a extrair da Primavera \u00c1rabe, todavia, \u00e9 que uma transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social requer mais do que mobiliza\u00e7\u00f5es pontuais. Mesmo ap\u00f3s ter conseguido fazer cair o tirano odiado, as for\u00e7as de oposi\u00e7\u00e3o devem se dotar de capacidades organizacionais, de compet\u00eancias pol\u00edticas e de vis\u00e3o institucional s\u00f3lidas, coerentes e dur\u00e1veis. Foi isso o que cruelmente faltou \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o eg\u00edpcia ap\u00f3s sua breve vit\u00f3ria de 2011. Sua impot\u00eancia em impedir o retorno dos militares ficou na mem\u00f3ria de muitos como o come\u00e7o do fim da Primavera \u00c1rabe. \u00c9 verdade que, em quase todos os pa\u00edses envolvidos, os chefes da oposi\u00e7\u00e3o cometeram os mesmos erros funestos. Ser\u00e1 que aprenderam a li\u00e7\u00e3o e estar\u00e3o mais bem preparados quando a Primavera voltar?<\/p>\n<p>Um cen\u00e1rio semelhante, contudo, sugere remover de antem\u00e3o um obst\u00e1culo por sua vez mais tem\u00edvel: a OEI. A veloz ascens\u00e3o do Daesh (segundo seu acr\u00f4nimo \u00e1rabe) se explica ao mesmo tempo pela fraqueza dos Estados que conseguiu derrubar e pelo jogo destruidor das rivalidades geopol\u00edticas e das interven\u00e7\u00f5es estrangeiras.<\/p>\n<p>A ironia do destino \u00e9 que a OEI est\u00e1 prosperando no Iraque e na S\u00edria, dois pa\u00edses h\u00e1 bastante tempo considerados modelos de estabilidade e de impermeabilidade a mudan\u00e7as, em raz\u00e3o principalmente do controle total que o aparelho do Estado exercia sobre a sociedade. Embora a ferocidade da OEI marque uma nova fase de muta\u00e7\u00e3o da ideologia jihadista, o material humano necess\u00e1rio a seu crescimento j\u00e1 se encontrava instalado.<\/p>\n<p>Na S\u00edria, sua expans\u00e3o n\u00e3o exigia somente recrutas estrangeiros, mas tamb\u00e9m um apoio local por conseguinte. Isso n\u00e3o lhe faltou, principalmente porque o Estado s\u00edrio, com um pouco de dificuldade de responder \u00e0s necessidades de sua popula\u00e7\u00e3o, havia permitido o desenvolvimento de focos de mis\u00e9ria e de marginalidade facilmente explor\u00e1veis por uma seita bem equipada.<\/p>\n<p>No Iraque, a OEI encontrou uma recep\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel no seio das comunidades sunitas discriminadas pelo governo de Nouri al-Maliki ap\u00f3s a destrui\u00e7\u00e3o do aparelho do Estado que se seguiu \u00e0 invas\u00e3o norte-americana.2 Apoiava-se nas mil\u00edcias xiitas aterrorizadas por sua viol\u00eancia, as quais alegremente acumularam os restos do material de guerra do antigo Ex\u00e9rcito iraquiano. O Hezbollah liban\u00eas lhe serviu de modelo em termos de organiza\u00e7\u00e3o, notoriedade e poder militar. Nesse sentido, a OEI n\u00e3o representava somente uma for\u00e7a de importa\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m uma rea\u00e7\u00e3o local \u00e0s persegui\u00e7\u00f5es do governo central.<\/p>\n<p>A OEI tamb\u00e9m \u00e9 uma coaliz\u00e3o de for\u00e7as na qual a ramifica\u00e7\u00e3o messi\u00e2nica convive com diversos componentes tribais, comunidades locais discriminadas e ex-oficiais ou funcion\u00e1rios do regime de Saddam Hussein. Distingue-se da Al-Qaeda em diversos pontos essenciais.3 Esta concebe o jihad como uma opera\u00e7\u00e3o exclusivamente militar. N\u00e3o est\u00e1 em seu escopo governar um territ\u00f3rio nem derrubar institui\u00e7\u00f5es, j\u00e1 que se define como uma rede de combatentes n\u00f4mades cujos objetivos de guerra s\u00f3 poder\u00e3o ser atingidos muito tempo depois de sua vida terrestre. J\u00e1 para a OEI, o combate deve gerar frutos imediatos. A viol\u00eancia n\u00e3o \u00e9 apenas um meio para chegar a um fim, mas um objetivo em si, no qual se realiza sua vis\u00e3o de mundo. A cria\u00e7\u00e3o de uma entidade territorial ressurge do mesmo imperativo religioso: o jihad imp\u00f5e conquistar terras, instaurar uma governan\u00e7a e explorar todos os recursos da geografia e da temporalidade.<\/p>\n<p>Contrariamente \u00e0 Al-Qaeda, que seleciona cuidadosamente seus recrutas e lhes imp\u00f5e exig\u00eancias draconianas, a OEI contrata a torto e a direito, sendo a \u00fanica qualidade requerida a motiva\u00e7\u00e3o. Enquanto a Al-Qaeda se comp\u00f5e exclusivamente de guerrilheiros, a OEI pretende constituir uma popula\u00e7\u00e3o. Precisa, portanto, de mulheres, de fam\u00edlias e de crian\u00e7as. J\u00e1 o papel dos recrutas estrangeiros consiste menos em carregar armas e mais em veicular a imagem idealizada da comunidade de crentes (a oumma) em suas mensagens de propaganda destinadas ao mundo exterior.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que tal concep\u00e7\u00e3o de Estado representa uma provoca\u00e7\u00e3o, se n\u00e3o uma heresia, para a imensa maioria dos sunitas, raz\u00e3o pela qual a OEI mobilizou contra ela uma coaliz\u00e3o t\u00e3o grande de pa\u00edses \u00e1rabes. Mas n\u00e3o saber\u00edamos compreender o fen\u00f4meno Daesh fora do contexto das inger\u00eancias estrangeiras. A amea\u00e7a jihadista serve na verdade como \u00e1libi para pot\u00eancias como a R\u00fassia e a Turquia aplicarem suas ambi\u00e7\u00f5es no mundo \u00e1rabe. Os bombardeios russos na S\u00edria certamente est\u00e3o ligados \u00e0 OEI, mas revelam sobretudo o desejo de Moscou de expandir sua zona de influ\u00eancia no Oriente M\u00e9dio, com o objetivo de restaurar a pot\u00eancia imperialista perdida ap\u00f3s a dissolu\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.4 Ao apoiar o regime de Al-Assad, obt\u00e9m uma moeda de troca pela Ucr\u00e2nia, ou por qualquer outro territ\u00f3rio que tenha de disputar com o Ocidente.<\/p>\n<p><strong>Atentados mostram proje\u00e7\u00e3o da OEI<\/strong><\/p>\n<p>Localmente, o objetivo estrat\u00e9gico \u00e9 simples: solidificar o status quo assegurando ao presidente s\u00edrio um Estado santu\u00e1rio calcado precisamente em sua base alauita. Pode ser que a longo prazo essa estrat\u00e9gia se esgote, em virtude da falta de retorno de investimentos militares. Enquanto isso, traz \u00e0 tona a abordagem em desuso que consiste em penetrar no Oriente M\u00e9dio mais por meio do prisma de identidades \u00e9tnicas e sect\u00e1rias do que em termos de Estados juridicamente definidos.<\/p>\n<p>Pela mesma raz\u00e3o, a alian\u00e7a russo-s\u00edria corre o risco em um momento ou em outro de transbordar para o Iraque. Bagd\u00e1 renunciou progressivamente ao projeto de uma volta \u00e0 unidade nacional multissect\u00e1ria do passado. O Estado iraquiano se concebe, de agora em diante, como exclusivamente xiita. Tamb\u00e9m n\u00e3o possui nenhum interesse em uma restitui\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios conquistados pela OEI, pois isso o obrigaria a reintegrar as comunidades sunitas que execra. Preferiria certamente se beneficiar do guarda-chuva militar russo, que poderia at\u00e9 ser substitu\u00eddo a longo prazo pela defesa norte-americana.<\/p>\n<p>Os riscos de repres\u00e1lias terroristas inquietam um pouco Vladimir Putin. Enquanto a explos\u00e3o de uma bomba no metr\u00f4 de uma capital europeia fragilizaria o governo envolvido, na R\u00fassia s\u00f3 serviria \u00e0 estrat\u00e9gia do chefe de Estado: alimentar o medo do terrorismo para justificar uma pol\u00edtica de ferro, tanto no interior como no exterior de suas fronteiras.<\/p>\n<p>Apesar disso, n\u00e3o \u00e9 do interesse da R\u00fassia eliminar o monstro Daesh, que se revela bastante \u00fatil para enfraquecer os interesses europeus e conter a oposi\u00e7\u00e3o pr\u00f3-ocidental na S\u00edria. Na verdade, a OEI presta servi\u00e7os no mundo todo: o regime s\u00edrio a utiliza para fazer esquecer suas pr\u00f3prias atrocidades; a Ar\u00e1bia Saudita, para intensificar o combate ideol\u00f3gico contra os xiitas; o Ir\u00e3, para dividir o campo sunita; e a Turquia, para acertar as coisas com o Partido dos Trabalhadores do Curdist\u00e3o (PKK).<\/p>\n<p>No caso da Turquia, a estrat\u00e9gia de instrumentaliza\u00e7\u00e3o do monstro Daesh \u00e9 essencial para uso interno. Consiste em fazer reinar um clima permanente de tens\u00e3o, de medo e de divis\u00e3o para que o presidente Recep Tayyip Erdogan e seu governo apare\u00e7am como a \u00faltima defesa diante do caos. A coaliz\u00e3o anti-OEI, da qual participa formalmente, oferece \u00e0 Turquia uma barreira para atacar n\u00e3o somente os curdos no seio de sua pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m os da S\u00edria e do Iraque. O fato de que essa escalada possa agravar a instabilidade geral e criar um novo eixo de conflito n\u00e3o parece incomodar Erdogan, que est\u00e1 mais preocupado com os ganhos eleitorais que pode obter com essa pol\u00edtica do quanto pior, melhor.<\/p>\n<p>Os atentados de Paris marcam uma mudan\u00e7a na estrat\u00e9gia da OEI. As viol\u00eancias se enquadram como continua\u00e7\u00e3o dos atentados de Beirute contra o Hezbollah, que apoia o regime de Al-Assad, e contra um avi\u00e3o civil russo no Sinai, no Egito. Demonstram certa capacidade de proje\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o fora da S\u00edria e do Iraque de atingir os atores mais vis\u00edveis da coaliz\u00e3o unida contra ela. Ao mesmo tempo, atestam o fato que a organiza\u00e7\u00e3o se ressente dos duros golpes que recebe dentro de seus basti\u00f5es: os contra-ataques conduzidos no exterior traduzem a perda de seu impulso ofensivo no campo de batalha interno. Resumindo, essa viol\u00eancia aparentemente irracional n\u00e3o \u00e9 incoerente e difere da l\u00f3gica apocal\u00edptica da Al-Qaeda.<\/p>\n<p>O Ocidente pode intensificar sua campanha militar a\u00e9rea; ainda assim n\u00e3o conseguir\u00e1 erradicar a OEI. A experi\u00eancia mostra a efic\u00e1cia dos atores n\u00e3o estatais em conduzir uma reconquista no campo de batalha. O ataque vitorioso dos curdos no Sinjar \u00e9 testemunha, bem como a interven\u00e7\u00e3o das tribos bedu\u00ednas Chammar no conflito contra a OEI. Por\u00e9m, uma verdadeira contraofensiva requer uma estrat\u00e9gia de reuni\u00e3o de todas as for\u00e7as presentes no cen\u00e1rio dos combates que minimize os interesses divergentes e as rivalidades geopol\u00edticas.<\/p>\n<p>Efeito domin\u00f3 contrarrevolucion\u00e1rio no comando dos Estados, possibilidades de ressurgimento da Primavera \u00c1rabe, emaranhados de interesses em torno da hidra jihadista: cercado por essas tr\u00eas perspectivas, o futuro do mundo \u00e1rabe parece bastante incerto.<\/p>\n<p><strong>BOX: O financiamento da OEI<\/strong><\/p>\n<p>Durante a c\u00fapula do G20 ocorrida em Ant\u00e1lia, na Turquia, em 15 e 16 de novembro de 2015, o presidente russo, Vladimir Putin, afirmou que a Organiza\u00e7\u00e3o do Estado Isl\u00e2mico (OEI) era financiada por quarenta pa\u00edses, entre os quais alguns participantes do G20. Embora, no in\u00edcio, os recursos do califado autoproclamado proviessem de doa\u00e7\u00f5es de cidad\u00e3os de pa\u00edses como Kuwait, Ar\u00e1bia Saudita e Catar \u2013 principalmente de membros das fam\u00edlias dominantes \u2013 destinadas \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o s\u00edria e aos sunitas do Iraque, elas em seguida acabaram por se diversificar.<\/p>\n<p>Os pedidos de resgate que acompanham as campanhas de terror e de intimida\u00e7\u00e3o (como as decapita\u00e7\u00f5es de ref\u00e9ns) permitiram instalar uma rede de extors\u00e3o estendida a diversos pa\u00edses. Mas foram sobretudo as conquistas territoriais da organiza\u00e7\u00e3o que alimentaram seu tesouro de guerra. Ao tomar o controle de Mossul, segunda maior cidade do Iraque, em julho de 2014, a OEI colocou as m\u00e3os sobre uma parte das reservas do Banco Central do Iraque; um saque estimado pelo governo geral da cidade em US$ 430 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a OEI controla territ\u00f3rios importantes e funciona como um Estado, cuja popula\u00e7\u00e3o deve pagar impostos. Disp\u00f5e tamb\u00e9m de recursos aut\u00f4nomos, que se juntam a um conjunto de redes fragmentadas, constitu\u00eddas de indiv\u00edduos radicalizados de origens variadas. A jun\u00e7\u00e3o entre a S\u00edria e o Iraque permitiu-lhe dominar um territ\u00f3rio do tamanho da metade da Fran\u00e7a, povoado por cerca de 10 milh\u00f5es de habitantes, e onde se encontram os campos petrol\u00edferos s\u00edrios, bem como terras ricas em recursos naturais (petr\u00f3leo, g\u00e1s, fosfatos, trigo e cevada). As redes de contrabando, as quais, em sua maioria, remontam ao embargo dos anos 1990, possibilitam escoar o petr\u00f3leo e uma s\u00e9rie de outros produtos (em especial bens confiscados das popula\u00e7\u00f5es de cidades conquistadas), em grande parte atrav\u00e9s da vizinha Turquia. Tais produtos, vendidos a pre\u00e7os muito inferiores aos do mercado, sempre encontram compradores.<\/p>\n<p>A lista de fontes de renda da OEI \u00e9 hoje conhecida, embora os valores envolvidos sejam objeto de avalia\u00e7\u00f5es divergentes e, \u00e0s vezes, fantasiosas: vendas de petr\u00f3leo (estimadas pelo Tesouro norte-americano em US$ 500 milh\u00f5es por ano), tr\u00e1fico de antiguidades, contrabando, impostos, ped\u00e1gios e extors\u00f5es em geral alimentam um or\u00e7amento anual estimado pela pr\u00f3pria OEI em US$ 2 bilh\u00f5es.1 Em novembro de 2015, para estabelecer sua legitimidade pol\u00edtico-religiosa e aumentar sua influ\u00eancia nos territ\u00f3rios que ocupa, o califado autoproclamado come\u00e7ou at\u00e9 a produzir moedas (o \u201cdinar isl\u00e2mico\u201d).<\/p>\n<p>1 Kathy Gilsinan, \u201cHow is ISIS still making money?\u201d [Como o Isis ainda est\u00e1 ganhando dinheiro?], The Atlantic, Boston, 23 nov. 2015.<\/p>\n<p class=\"textoTimes12Autor\">Moulay Hicham<\/p>\n<p>*Moulay Hicham \u00e9 presidente da Funda\u00e7\u00e3o Moulay Hicham e membro da Funda\u00e7\u00e3o Carnegie para a Paz Internacional. Autor de Journal d\u2019un prince banni. Demain, le Maroc [Di\u00e1rio de um pr\u00edncipe banido. Amanh\u00e3, o Marrocos], Grasset, Paris, 2014. Uma primeira vers\u00e3o deste texto foi apresentada em 23 de outubro de 2015 na Universidade de Northwestern, durante o Programa de Estudos sobre o Oriente M\u00e9dio e a \u00c1frica do Norte.<\/p>\n<p>Ilustra\u00e7\u00e3o: Zeinab Mohamed\/cc<br \/>\n1 Jean-Pierre Filiu, \u201cMamelouks modernes, mafias s\u00e9curitaires et djihadistes\u201d [Mamelucos modernos, m\u00e1fias securit\u00e1rias e jihadistas], Orient XXI, 15 set. 2015. Dispon\u00edvel em: http:\/\/orientxxi.info.<\/p>\n<p>2 Ler Peter Harling, \u201cCe qu\u2019annonce l\u2019\u00e9clatement irakien\u201d [O que anuncia a explos\u00e3o iraquiana], Le Monde diplomatique, jul. 2014.<\/p>\n<p>3 Ler Julien Th\u00e9ron, \u201cFuneste rivalit\u00e9 entre Al-Qaida et l\u2019Organisation de l\u2019\u00c9tat islamique\u201d [Funesta rivalidade entre a Al-Qaeda e a Organiza\u00e7\u00e3o do Estado Isl\u00e2mico], Le Monde diplomatique, fev. 2015.<\/p>\n<p>4 Ler Alexe\u00ef Malachenko, \u201cLe pari syrien de Moscou\u201d [A aposta s\u00edria de Moscou], Le Monde diplomatique, nov. 2015.<\/p>\n<p>http:\/\/www.diplomatique.org.br\/artigo.php?id=2001<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Moulay Hicham&#8211;\u00a0Ap\u00f3s a onda de revoltas iniciada na Tun\u00edsia em janeiro de 2011, a Primavera \u00c1rabe parece encurralada entre duas amea\u00e7as: o retorno dos Estados autorit\u00e1rios e o risco jihadista. 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