{"id":3791,"date":"2017-05-10T09:03:49","date_gmt":"2017-05-10T12:03:49","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=3791"},"modified":"2017-05-01T20:07:03","modified_gmt":"2017-05-01T23:07:03","slug":"como-intelectuais-franceses-arruinaram-o-ocidente-pos-modernismo-e-seus-impactos-explicados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/05\/10\/como-intelectuais-franceses-arruinaram-o-ocidente-pos-modernismo-e-seus-impactos-explicados\/","title":{"rendered":"Como \u201cintelectuais\u201d franceses arruinaram o ocidente: p\u00f3s-modernismo e seus impactos, explicados"},"content":{"rendered":"<p><strong>Helen Pluckrose<\/strong> &#8211;\u00a0O p\u00f3s-modernismo representa uma amea\u00e7a n\u00e3o s\u00f3 \u00e0 democracia liberal, sen\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria modernidade. Isto pode soar ousado ou at\u00e9 hiperb\u00f3lico, mas a verdade \u00e9 que o conjunto de ideias e valores nas ra\u00edzes do p\u00f3s-modernismo rompeu os limites da academia e ganhou grande poder cultural na sociedade ocidental. Os \u201csintomas\u201d irracionais e identit\u00e1rios s\u00e3o f\u00e1ceis de reconhecer, e muito criticados, mas o <em>ethos <\/em>que lhes subjaz n\u00e3o \u00e9 entendido o suficiente. Isso se deve em parte aos p\u00f3s-modernos raramente se explicarem com clareza, e em parte \u00e0s contradi\u00e7\u00f5es e inconsist\u00eancias inerentes a um estilo de pensamento que nega a exist\u00eancia de uma realidade est\u00e1vel ou de conhecimento confi\u00e1vel. No entanto, h\u00e1 ideias consistentes nas ra\u00edzes do p\u00f3s-modernismo, e entend\u00ea-las \u00e9 essencial se quisermos rebat\u00ea-las. Subjazem aos problemas que vemos hoje no ativismo da justi\u00e7a social, minam a credibilidade da esquerda e perigam nos devolver a uma cultura irracional, tribal e \u201cpr\u00e9-moderna\u201d.<\/p>\n<div class=\"row inner-content\">\n<div id=\"main_content\" class=\"col-sm-8 ub-list-archive\">\n<article id=\"post-1270\" class=\"ub-blog-post post-1270 post type-post status-publish format-standard has-post-thumbnail hentry category-ativismo category-filosofia category-politica category-sociedade tag-desconstrucao tag-desconstrucionismo tag-helen-pluckrose tag-intelectuais tag-pos-modernismo\">\n<div class=\"entry-content entry-dropcap\">\n<p>O p\u00f3s-modernismo, grosso modo, \u00e9 um movimento art\u00edstico e filos\u00f3fico que come\u00e7ou na Fran\u00e7a, nos anos 1960, produziu uma arte perplexante, e uma teoria mais perplexante ainda. Aproximou-se da arte de vanguarda e surrealista e de ideias filos\u00f3ficas anteriores \u2013 em especial as de Nietzsche e Heidegger, por seu antirrealismo e rejei\u00e7\u00e3o do conceito do indiv\u00edduo unificado e coerente. Reagiu ao humanismo liberal dos movimentos modernistas art\u00edsticos e intelectuais, cujos proponentes eram vistos como universalizadores ing\u00eanuos da experi\u00eancia ocidental, de classe m\u00e9dia e de homem.<\/p>\n<p>Rejeitou a filosofia que valoriza a \u00e9tica, a raz\u00e3o e a clareza com a mesma acusa\u00e7\u00e3o. O estruturalismo, movimento que (com confian\u00e7a ami\u00fade excessiva) pretendeu analisar a cultura e a psicologia humanas conforme estruturas consistentes de rela\u00e7\u00f5es, foi atacado. O marxismo, com seu entendimento da sociedade atrav\u00e9s de classes e estruturas econ\u00f4micas, foi visto como igualmente r\u00edgido e simplista. Acima de tudo, p\u00f3s-modernos atacaram a ci\u00eancia e seu prop\u00f3sito de alcan\u00e7ar conhecimento objetivo acerca duma realidade que exista independente das percep\u00e7\u00f5es humanas, as quais t\u00eam por s\u00f3 mais uma forma de ideologia dominada por suposi\u00e7\u00f5es burguesas ocidentais. Decididamente esquerdista, o p\u00f3s-modernismo tem um <em>ethos <\/em>tanto niilista quanto revolucion\u00e1rio que raciocinava conforme um <em>Zeitgeist<\/em> ocidental p\u00f3s-guerra e p\u00f3s-imp\u00e9rio. \u00c0 medida que o p\u00f3s-modernismo continuou a desenvolver-se e diversificar-se, sua fase desconstrutiva niilista, inicialmente mais forte, tornou-se secund\u00e1ria (mas ainda fundamental) \u00e0 sua fase revolucion\u00e1ria de \u201cpol\u00edtica identit\u00e1ria\u201d.<\/p>\n<p>Tem sido uma querela a quest\u00e3o de se o p\u00f3s-modernismo \u00e9 uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0 modernidade. A era moderna \u00e9 o per\u00edodo da hist\u00f3ria que testemunhou o humanismo da Renascen\u00e7a, o Iluminismo, a Revolu\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica e o desenvolvimento de valores liberais e direitos humanos \u2013 o per\u00edodo em que as sociedades ocidentais pouco a pouco vieram a valorizar mais a raz\u00e3o e a ci\u00eancia do que a f\u00e9 e as supersti\u00e7\u00f5es enquanto vias para o conhecimento, e desenvolveram o conceito de pessoa como membro individual da esp\u00e9cie humana merecedor de direitos e liberdades, em vez de parte de v\u00e1rios coletivos sujeita a r\u00edgidos pap\u00e9is hier\u00e1rquicos na sociedade.<\/p>\n<p>A Enciclop\u00e9dia Brit\u00e2nica diz que o p\u00f3s-modernismo \u00e9 \u201cem grande medida uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0s suposi\u00e7\u00f5es e valores filos\u00f3ficos do per\u00edodo moderno da hist\u00f3ria ocidental (em especial a europeia)\u201d, enquanto a Enciclop\u00e9dia Stanford de Filosofia nega e diz que \u201csuas diferen\u00e7as residem antes na pr\u00f3pria modernidade, e o p\u00f3s-modernismo \u00e9 uma continua\u00e7\u00e3o do pensamento moderno em outro modo.\u201d Sugiro que a diferen\u00e7a reside em vermos a modernidade nos termos de sua produ\u00e7\u00e3o ou de sua destrui\u00e7\u00e3o. Se virmos a ess\u00eancia da modernidade como o desenvolvimento da ci\u00eancia e da raz\u00e3o, bem como do humanismo e do liberalismo universal, os p\u00f3s-modernos s\u00e3o-lhe opostos. Se virmos a modernidade como o despeda\u00e7amento das estruturas de poder, incluindo o feudalismo, a igreja, o patriarcado e o imp\u00e9rio, os p\u00f3s-modernos est\u00e3o tentando continu\u00e1-la, mas seus alvos s\u00e3o agora a ci\u00eancia e a raz\u00e3o, bem como o humanismo e o liberalismo universal. Por conseguinte, as ra\u00edzes do p\u00f3s-modernismo s\u00e3o inerentemente pol\u00edticas e revolucion\u00e1rias, se bem que de um jeito destrutivo, ou, como diriam eles,\u00a0<strong>desconstrutivo<\/strong>.<\/p>\n<p>O termo \u201cp\u00f3s-moderno\u201d foi cunhado por Jean-Fran\u00e7ois Lyotard em seu livro de 1979,\u00a0<em>A condi\u00e7\u00e3o p\u00f3s-moderna<\/em>. Ele definiu a condi\u00e7\u00e3o p\u00f3s-moderna como \u201cuma incredulidade quanto \u00e0s metanarrativas\u201d. Metanarrativa \u00e9 uma explica\u00e7\u00e3o coesiva de amplo alcance para fen\u00f4menos vastos. As religi\u00f5es e outras ideologias totalizantes s\u00e3o metanarrativas, em suas tentativas de explicar o significado da vida ou todos os males da sociedade. Lyotard defendeu a substitui\u00e7\u00e3o delas por \u201cmininarrativas\u201d para chegar a \u201cverdades\u201d menores e mais pessoais. Ele se dirigiu\u00a0ao cristianismo e ao marxismo desse jeito, mas tamb\u00e9m \u00e0 ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Em sua opini\u00e3o, \u201ch\u00e1 uma interliga\u00e7\u00e3o estrita entre o tipo de linguagem chamado ci\u00eancia e o tipo chamado \u00e9tica e pol\u00edtica\u201d (p. 8). Com ligar a ci\u00eancia ao conhecimento que ela produz para o governo e o poder, ele rejeita sua pretens\u00e3o de objetividade. Lyotard descreve esta condi\u00e7\u00e3o incr\u00e9dula p\u00f3s-moderna como geral, e defende que a partir do fim do s\u00e9c. XIX \u201cuma eros\u00e3o interna do princ\u00edpios de legitimidade do conhecimento\u201d come\u00e7ou a causar uma mudan\u00e7a no estado do conhecimento (p. 39). Pelos anos 60, a \u201cd\u00favida\u201d resultante e a \u201cdesmoraliza\u00e7\u00e3o\u201d dos cientistas teve \u201cimpacto sobre o problema central da legitima\u00e7\u00e3o.\u201d (p. 8) Nenhuma quantidade de cientistas dizendo-lhe que n\u00e3o est\u00e3o desmoralizados, nem com mais d\u00favidas do que conv\u00e9m aos praticantes de um m\u00e9todo cujos resultados s\u00e3o sempre provis\u00f3rios e cujas hip\u00f3teses nunca est\u00e3o \u201cprovadas\u201d, poderia faz\u00ea-lo hesitar.<\/p>\n<p>Vemos em Lyotard uma relatividade epist\u00eamica expl\u00edcita (cren\u00e7a em verdades ou fatos pessoal ou culturalmente espec\u00edficos) e a defesa de privilegiar-se a \u201cexperi\u00eancia vivida\u201d [\u201cviv\u00eancia\u201d] em detrimento da evid\u00eancia emp\u00edrica. Vemos tamb\u00e9m a promo\u00e7\u00e3o de uma vers\u00e3o de pluralismo que privilegia as perspectivas de grupos minorit\u00e1rios em detrimento do consenso geral de cientistas ou da \u00e9tica liberal democrata, que s\u00e3o representadas como autorit\u00e1rias e dogm\u00e1ticas. Isso \u00e9 consistente com o pensamento p\u00f3s-moderno.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>A obra de Foucault tamb\u00e9m est\u00e1 centrada na linguagem e no relativismo, apesar de ele os aplicar \u00e0 hist\u00f3ria e \u00e0 cultura. Ele chamou esta abordagem de \u201carqueologia\u201d, porque via a si mesmo como \u201cdesenterrando\u201d aspectos da cultura hist\u00f3rica atrav\u00e9s dos discursos registrados (uma \u201cfala\u201d que assume um ponto de vista particular). Para Foucault, o discurso controla o que pode ser \u201cconhecido\u201d e, em diferentes per\u00edodos e lugares, diferentes sistemas de poder institucional controlam o discurso. Al\u00e9m disso, o conhecimento \u00e9 um produto direto do poder. \u201cEm qualquer dada cultura e em qualquer dado momento h\u00e1 sempre apenas uma \u2018episteme\u2019 que define as condi\u00e7\u00f5es de possibilidade de todo conhecimento, seja ele expresso na teoria ou silenciosamente investido na pr\u00e1tica\u201d. [1]<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, as pessoas s\u00e3o elas pr\u00f3prias constru\u00eddas culturalmente. \u201cO indiv\u00edduo, com sua identidade e caracter\u00edsticas, \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o de uma rela\u00e7\u00e3o de poder exercida sobre os corpos, multiplicidades, movimentos, desejos, for\u00e7as\u201d. [2] Ele [o poder] n\u00e3o deixa quase nenhum espa\u00e7o para a ag\u00eancia individual ou autonomia. Como Christopher Butler diz, Foucault \u201cconfia em cren\u00e7as sobre o mal inerente da posi\u00e7\u00e3o de classe do indiv\u00edduo, ou sua posi\u00e7\u00e3o profissional, vista como \u201cdiscurso\u201d, independentemente da moralidade da conduta individual\u201d. [3] Ele apresenta o feudalismo medieval e a moderna democracia liberal como igualmente opressivos, e advoga criticando e atacando institui\u00e7\u00f5es para desmascarar a \u201cviol\u00eancia pol\u00edtica que sempre tem sido exercida de forma obscura atrav\u00e9s delas.\u201d [4]<\/p>\n<p>Vemos em Foucault a express\u00e3o mais extrema do relativismo cultural lida atrav\u00e9s de estruturas de poder, na qual a humanidade compartilhada, bem como a individualidade, est\u00e3o quase inteiramente ausentes. Ao contr\u00e1rio, as pessoas s\u00e3o constru\u00eddas por suas posi\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o a ideias culturais dominantes, quer como opressoras, quer como oprimidas. Judith Butler se apoia em Foucault em seu papel fundacional na teoria <em>queer<\/em>, focando na natureza culturalmente constru\u00edda do g\u00eanero, como fez Edward Said em seu papel similar em rela\u00e7\u00e3o ao p\u00f3s-colonialismo e \u201corientalismo\u201d, bem como Kimberl\u00e9 Crenshaw, no seu desenvolvimento da \u201cinterseccionalidade\u201d e defesa das identidades pol\u00edticas. Vemos tamb\u00e9m a iguala\u00e7\u00e3o da linguagem \u00e0 viol\u00eancia e \u00e0 coer\u00e7\u00e3o, e da raz\u00e3o e do liberalismo universalista \u00e0 opress\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi Jacques Derrida quem introduziu o conceito de \u201cdesconstru\u00e7\u00e3o\u201d, e tamb\u00e9m ele quem argumentou a favor do construtivismo cultural e da relatividade pessoal e cultural. Focou-se ainda mais explicitamente na linguagem. A frase mais conhecida do autor, \u201cn\u00e3o h\u00e1 nada fora do texto\u201d, se relaciona com sua rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 ideia de que palavras se refiram a qualquer coisa para al\u00e9m delas. Pelo contr\u00e1rio, \u201ch\u00e1 apenas contextos sem os quais nenhum ponto de apoio absoluto\u201d. [5]<\/p>\n<p>Sendo assim, o autor de um texto n\u00e3o \u00e9 a autoridade em termos de seu significado. O leitor ou ouvinte constr\u00f3i seu pr\u00f3prio significado igualmente v\u00e1lido, e qualquer texto \u201cengendra indefinidamente novos contextos de uma forma totalmente n\u00e3o satur\u00e1vel\u201d. Derrida cunhou o termo <em>diff\u00e9rance,<\/em> que ele derivou do verbo \u201c<em>differer<\/em>\u201d, que quer dizer tanto \u201cretardar\u201d quanto \u201cdiferir\u201d. Isso serve para indicar que n\u00e3o apenas o significado nunca se fecha, mas tamb\u00e9m \u00e9 constru\u00eddo pelas diferen\u00e7as, especialmente pelas oposi\u00e7\u00f5es. A palavra \u201cjovem\u201d s\u00f3 faz sentido no seu relacionamento com a palavra \u201cvelho\u201d; ele argumentava, seguindo\u00a0Saussure, que o significado \u00e9 constru\u00eddo pelo conflito entre essas oposi\u00e7\u00f5es elementares, que, para ele, sempre formam um positivo e um negativo. \u201cHomem\u201d \u00e9 positivo e \u201cmulher\u201d \u00e9 negativo. \u201cOcidente\u201d \u00e9 positivo; e \u201coriente\u201d, negativo. Ele insistiu que \u201cN\u00e3o estamos lidando com uma exist\u00eancia pac\u00edfica lado a lado, mas sim com uma hierarquia violenta. Um dos dois termos governa o outro (axiologicamente, logicamente, etc.), ou est\u00e1 por cima do outro. Para desconstruir a oposi\u00e7\u00e3o, em primeiro lugar, \u00e9 necess\u00e1rio inverter a hierarquia num dado momento\u201d. [6] Desconstru\u00e7\u00e3o, assim, envolve inverter as hierarquias percebidas, tornando \u201cmulher\u201d e \u201coriente\u201d positivos e \u201chomem\u201d e \u201cocidente\u201d negativos. Isso deve ser feito ironicamente, para revelar a natureza culturalmente constru\u00edda e arbitr\u00e1ria dessas oposi\u00e7\u00f5es percebidas, num conflito desigual.<\/p>\n<p>Vemos em Derrida mais relativismo, tanto cultural quanto epist\u00eamico, e mais justificativas para as pol\u00edticas identit\u00e1rias. H\u00e1 uma nega\u00e7\u00e3o expl\u00edcita de que as diferen\u00e7as possam ser outra coisa sen\u00e3o opositoras e, portanto, h\u00e1 uma rejei\u00e7\u00e3o dos valores liberais do Iluminismo de superar a diferen\u00e7as e focar-se nos direitos humanos universais, e liberdades e empoderamento individuais. Encontramos aqui as bases da \u201cmisandria ir\u00f4nica\u201d, do mantra de que \u201cn\u00e3o existe racismo reverso\u201d, e da ideia de que a identidade determina o que pode ser entendido. Encontramos ainda a rejei\u00e7\u00e3o da necessidade de clareza no discurso e no argumento, assim de entender o ponto de vista do outro e evitar a m\u00e1 interpreta\u00e7\u00e3o. A inten\u00e7\u00e3o de quem discursa \u00e9 irrelevante. O que importa \u00e9 o impacto do discurso. Isso, somado a ideias foucauldianas, subjaz \u00e0 cren\u00e7a corrente na natureza profundamente danosa da \u201cmicroagress\u00e3o\u201d e do uso \u201cerrado\u201d de termos relacionados ao g\u00eanero, ra\u00e7a ou sexualidade.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Lyotard, Foucault e Derrida s\u00e3o apenas tr\u00eas dos pais fundadores do p\u00f3s-modernismo, mas suas ideias compartilham temas em comum com outros \u201cte\u00f3ricos\u201d influentes, e foram utilizadas por p\u00f3s-modernos posteriores que as aplicaram em um crescente espectro de disciplinas no interior das ci\u00eancias sociais e humanidades. J\u00e1 vimos que isso inclui uma sensibilidade intensa para a linguagem no n\u00edvel da palavra, e um sentimento de que o que o orador quer dizer \u00e9 menos importante do que o que \u00e9 percebido, n\u00e3o importa qu\u00e3o radical seja a interpreta\u00e7\u00e3o. A humanidade compartilhada e a individualidade s\u00e3o essencialmente ilus\u00f5es, e as pessoas s\u00e3o propagadoras ou v\u00edtimas de discursos que dependem de sua posi\u00e7\u00e3o social: uma posi\u00e7\u00e3o que \u00e9 dependente da identidade, muito mais que de seu engajamento individual na sociedade. A moralidade \u00e9 culturalmente relativa, assim como a pr\u00f3pria realidade. A evid\u00eancia emp\u00edrica \u00e9 suspeita, e tamb\u00e9m o s\u00e3o quaisquer ideias culturalmente dominantes \u2013 tais como a ci\u00eancia, a raz\u00e3o e o liberalismo universalista. Estes s\u00e3o valores iluministas ing\u00eanuos, totalizantes e opressores, e h\u00e1 uma necessidade moral de esmag\u00e1-los. Ainda mais importantes s\u00e3o a viv\u00eancia, as narrativas e as cren\u00e7as dos grupos \u201cmarginalizados\u201d que s\u00e3o igualmente \u201cverdadeiras\u201d, mas precisam agora ser privilegiadas sobre os valores do Iluminismo para reverter a opressiva, injusta e inteiramente arbitr\u00e1ria constru\u00e7\u00e3o social da realidade, da moralidade e do conhecimento.<\/p>\n<p>O desejo de esmagar o <em>status quo<\/em>, desafiar os valores e institui\u00e7\u00f5es amplamente aceitos e erguer os marginalizados \u00e9 absolutamente liberal em seu <em>ethos. <\/em>Opor-se a isso \u00e9 decerto conservador. Essa \u00e9 a realidade hist\u00f3rica, mas n\u00f3s estamos em um ponto \u00fanico da hist\u00f3ria onde o <em>status quo<\/em> \u00e9 de perfeita consist\u00eancia liberal, com um liberalismo que exalta os valores da liberdade, direitos iguais e oportunidades para todos, independente do g\u00eanero, ra\u00e7a ou sexualidade. O resultado \u00e9 a confus\u00e3o em que liberais veteranos que desejam conservar esta esp\u00e9cie de <em>status quo<\/em> liberal s\u00e3o considerados conservadores e aqueles que buscam evitar o conservadorismo a todo custo est\u00e3o defendendo o irracionalismo e o antiliberalismo. Enquanto os primeiros p\u00f3s-modernos tentaram em geral desafiar discursos com discursos, os ativistas motivados por suas ideias est\u00e3o se tornando mais autorit\u00e1rios, e seguindo-as at\u00e9 \u00e0s suas conclus\u00f5es l\u00f3gicas. A liberdade de express\u00e3o [<em>free\u00a0speech<\/em>] est\u00e1 sob amea\u00e7a porque o discurso [<em>speech<\/em>] agora \u00e9 perigoso. T\u00e3o perigoso que as pessoas podem, considerando-se liberais, justificar que se o responda com viol\u00eancia. A necessidade de defender um ponto persuasivamente, utilizando o argumento racional foi, agora, substitu\u00edda pelas refer\u00eancias \u00e0 identidade e ao \u00f3dio puro.<\/p>\n<p>Mesmo com todas as evid\u00eancias de que o racismo, o sexismo, a homofobia, a transfobia e a xenofobia s\u00e3o sempre menores nas sociedades ocidentais, acad\u00eamicos esquerdistas e os ativistas da justi\u00e7a social exibem um pessimismo fatalista, possibilitado pelas \u201cleituras\u201d pr\u00e1ticas interpretativas p\u00f3s-modernas, que valorizam o vi\u00e9s da confirma\u00e7\u00e3o. O poder autorit\u00e1rio dos acad\u00eamicos e ativistas p\u00f3s-modernos parecem invis\u00edveis para si pr\u00f3prios, conquanto evidente para todos os outros. Como diz Andrew Sullivan sobre a interseccionalidade:<\/p>\n<blockquote><p><em>Coloca uma ortodoxia sob a qual toda a experi\u00eancia humana \u00e9 explicada \u2013 e atrav\u00e9s da qual todo discurso precisa ser filtrado\u2026 Qual o puritanismo outrora familiar na Nova Inglaterra, a interseccionalidade controla a linguagem e os pr\u00f3prios termos do discurso. [7]<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>O p\u00f3s-modernismo se tornou uma metanarrativa lyotardiana, um sistema de poder discursivo e uma hierarquia opressora de Derrida.<\/p>\n<p>O problema l\u00f3gico da autorreferencia\u00e7\u00e3o foi apontado aos p\u00f3s-modernos por fil\u00f3sofos com bastante const\u00e2ncia, mas isso \u00e9 algo que eles t\u00eam que abordar de forma convincente. Como Christopher Butler apontou, \u201ca plausibilidade da proposi\u00e7\u00e3o de Lyotard sobre o decl\u00ednio das metanarrativas no final do s\u00e9culo XX depende, em \u00faltima inst\u00e2ncia, de um apelo \u00e0 condi\u00e7\u00e3o cultural de uma minoria intelectual\u201d. Em outras palavras, a hip\u00f3tese de Lyotard deriva diretamente dos discursos que o rodeavam na sua bolha acad\u00eamica burguesa e \u00e9, de fato, uma metanarrativa sobre a qual ele n\u00e3o ficou nem um pouco incr\u00e9dulo. Igualmente, o argumento de Foucault de que o conhecimento \u00e9 historicamente contingente precisa ser, ele mesmo, historicamente contingente; outrossim, perguntamo-nos por que Derrida se deu ao trabalho de explicar tanto a infinita maleabilidade dos textos numa tal amplitude, se eu poderia ler todas as suas obras e afirmar que elas s\u00e3o hist\u00f3rias sobre coelhinhos com o mesmo grau de autoridade.<\/p>\n<p>Esta n\u00e3o \u00e9, claro, a \u00fanica cr\u00edtica comumente feita ao p\u00f3s-modernismo. O problema mais gritante do relativismo cultural e epist\u00eamico foi muito bem tratado por fil\u00f3sofos e cientistas. O fil\u00f3sofo Davi Detmer, em <em>Challenging Postmodernism,\u00a0<\/em>diz:<\/p>\n<blockquote><p><em>Considere este exemplo, dado por Erazim Kohak: \u201cquando eu tento, sem sucesso, enfiar uma bola de t\u00eanis dentro de uma garrafa de vinho, eu n\u00e3o preciso tentar v\u00e1rias garrafas de vinho e v\u00e1rias bolas de t\u00eanis; antes de usar o canh\u00e3o de indu\u00e7\u00e3o de Mill, eu chego, intuitivamente, \u00e0 hip\u00f3tese de que bolas de t\u00eanis n\u00e3o cabem dentro de garrafas de vinho\u2019\u2026 Estamos agora em uma posi\u00e7\u00e3o de virar a mesa [contra as afirma\u00e7\u00f5es de p\u00f3s-modernos sobre a relatividade cultural] e perguntar: se eu julgo que bolas de t\u00eanis n\u00e3o entram dentro de garrafas de vinho, voc\u00ea pode me dizer, precisamente, como meu g\u00eanero, localiza\u00e7\u00e3o espacial e hist\u00f3rica, classe, etnicidade, etc. determina a objetividade dessa constata\u00e7\u00e3o? [8]<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Entretanto, ele n\u00e3o encontrou p\u00f3s-modernos dispostos a explicar seu racioc\u00ednio, e descreve uma desconcertante conversa com uma fil\u00f3sofa p\u00f3s-moderna, Laurie Calhoun:<\/p>\n<blockquote><p><em>Quando eu tive a oportunidade de question\u00e1-la sobre se \u00e9 um fato ou n\u00e3o que girafas s\u00e3o mais altas do que formigas, ela replicou que este n\u00e3o era um fato, mas sim um artigo de f\u00e9 religiosa em nossa cultura.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Os f\u00edsicos Alan Sokal e Jean Bricmont trataram do mesmo problema de uma perspectiva cient\u00edfica em <em>Imposturas Intelectuais: o abuso da ci\u00eancia por pensadores p\u00f3s-modernos<\/em>.<\/p>\n<blockquote><p><em>Quem pode, agora, negar a s\u00e9rio a \u201cgrande narrativa\u201d da evolu\u00e7\u00e3o, exceto algu\u00e9m preso por uma narrativa mestra muito menos plaus\u00edvel, como o criacionismo? E quem gostaria de negar as verdades da f\u00edsica b\u00e1sica? A resposta \u00e9 \u201calguns p\u00f3s-modernos\u201d.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>E<\/p>\n<blockquote><p><em>H\u00e1, na verdade, algo muito estranho na cren\u00e7a de que, digamos, procurar por leis causais ou uma teoria unificada, ou em questionar-se sobre se \u00e1tomos realmente obedecem \u00e0s leis da mec\u00e2nica qu\u00e2ntica, as atividades dos cientistas s\u00e3o, de alguma forma, inerentemente \u201cburguesas\u201d, \u201ceuroc\u00eantricas\u201d, \u201cmasculinistas\u201d ou mesmo \u201cmilitaristas\u201d.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>O quanto o p\u00f3s-modernismo \u00e9 uma amea\u00e7a \u00e0 ci\u00eancia? H\u00e1, certamente, alguns ataques externos. Nos protestos recentes contra uma palestra de Charles Murray em Middlebury, os manifestantes gritaram, em um jogral:<\/p>\n<blockquote><p><em>A ci\u00eancia sempre foi utilizada pala legitimar o racismo, o sexismo, o classismo, a transfobia, o capacitismo e a homofobia, todos vistos como fatos e racionais, e apoiados pelo governo e pelo Estado. No mundo de hoje, h\u00e1 pouco que seja um \u201cfato\u201d verdadeiro. [9]<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Quando os organizadores da Marcha pela Ci\u00eancia tuitaram que \u201cColoniza\u00e7\u00e3o, racismo, imigra\u00e7\u00e3o, direitos, direitos ind\u00edgenas, sexismo, capacitismo, <em>queer<\/em>-trans-intersexfobia e justi\u00e7a econ\u00f4mica s\u00e3o quest\u00f5es cient\u00edficas\u201d [10] muitos cientistas criticaram esta politiza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia, e este descarrilamento do foco na preserva\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia em prol da ideologia interseccionalista. Na \u00c1frica do Sul, os movimentos progressistas de estudantes #Ci\u00eanciaDeveAcabar e #DescolonizeACi\u00eancia anunciaram que a ci\u00eancia \u00e9 apenas uma forma de saber que as pessoas foram ensinadas a aceitar. Eles sugeriram a bruxaria como uma alternativa. [11]<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Apesar disso, a ci\u00eancia como uma metodologia n\u00e3o est\u00e1 indo a lugar algum. Ela n\u00e3o pode ser \u201cadaptada\u201d para incluir o relativismo e \u201csaberes alternativos\u201d. Pode, no entanto, perder a confian\u00e7a do p\u00fablico, e assim o financiamento estatal \u2013 e isso n\u00e3o \u00e9 uma amea\u00e7a que deve ser subestimada. Ademais, numa \u00e9poca em que os l\u00edderes mundiais duvidam da mudan\u00e7a clim\u00e1tica, os pais acreditam em falsas afirma\u00e7\u00f5es sobre vacinas causarem autismo e as pessoas se voltam para homeopatas e naturopatas como solu\u00e7\u00f5es para doen\u00e7as graves, \u00e9 perigoso num n\u00edvel de amea\u00e7a \u00e0 nossa exist\u00eancia destruir ainda mais a confian\u00e7a das pessoas nas ci\u00eancias emp\u00edricas.<\/p>\n<p>As ci\u00eancias sociais e humanidades, no entanto, est\u00e3o em perigo de perder todo reconhecimento. Algumas disciplinas dentro das ci\u00eancias sociais j\u00e1 perderam. A antropologia cultural, a sociologia, os estudos culturais e os estudos de g\u00eanero, por exemplo, j\u00e1 sucumbiram quase totalmente n\u00e3o apenas ao relativismo moral, mas tamb\u00e9m ao relativismo epist\u00eamico. A literatura inglesa\u00a0tamb\u00e9m, de acordo com minha experi\u00eancia, \u00e9 ensinada a partir de uma ortodoxia p\u00f3s-moderna. A filosofia, como n\u00f3s vimos, est\u00e1 dividida, assim como a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Historiadores emp\u00edricos ami\u00fade s\u00e3o criticados pelos p\u00f3s-modernos entre n\u00f3s por afirmarem que sabem o que realmente aconteceu no passado. Christopher Butler retoma a acusa\u00e7\u00e3o de Diane Purkiss de que Keith Thomas estava permitindo um mito que fundava a identidade hist\u00f3rica masculina na \u201cfalta de poder e de fala das mulheres\u201d quando ele trouxe evid\u00eancia de que mulheres acusadas de bruxaria em geral eram indigentes sem poder algum. Presumivelmente, deveria ter afirmado, contra a evid\u00eancia, que elas eram ricas, ou melhor ainda, homens. Como Butler diz:<\/p>\n<blockquote><p><em>Parece que as afirma\u00e7\u00f5es emp\u00edricas de Thomas conflitavam com o princ\u00edpio rival de Purkiss organizador da narrativa hist\u00f3rica: o de que ela deve ser utilizada para apoiar a no\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas de empoderamento feminino (p. 36).<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Tive o mesmo problema ao tentar escrever sobre ra\u00e7a e g\u00eanero na virada do s\u00e9culo XVII. Argumentei que o p\u00fablico de Shakespeare n\u00e3o achou t\u00e3o dif\u00edcil de entender a atra\u00e7\u00e3o de Desd\u00eamona pelo negro Otelo, que era crist\u00e3o e soldado de Veneza, porque o preconceito contra a cor da pele s\u00f3 se tornou dominante mais para o fim do s\u00e9culo XVII, quando o tr\u00e1fico negreiro atl\u00e2ntico ganhou for\u00e7a, e as diferen\u00e7as religiosas e nacionais eram bem mais profundas antes disso. Um eminente professor me disse que isso era problem\u00e1tico, e perguntou-me como as comunidades negras nos EUA contempor\u00e2neos sentir-se-iam a respeito de minha afirma\u00e7\u00e3o. Se, hoje, afro-americanos se sentirem mal com algo, segue-se que isso n\u00e3o pode ter ocorrido no s\u00e9culo XVII, ou que \u00e9 moralmente errado mencionar o fato. Como Christopher Butler disse,<\/p>\n<blockquote><p><em>O pensamento p\u00f3s-moderno v\u00ea a cultura contendo um n\u00famero de hist\u00f3rias perpetuamente em competi\u00e7\u00e3o, cuja efetividade depende menos do apelo a um padr\u00e3o de ju\u00edzo independente do que do apelo \u00e0s comunidades nas quais elas circulam.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Eu temo pelo futuro das humanidades.<\/p>\n<p>Os perigos do p\u00f3s-modernismo, por\u00e9m, n\u00e3o est\u00e3o limitados a nichos da sociedade que orbitam ao redor da academia a da justi\u00e7a social. Ideias relativistas, sensibilidade \u00e0 linguagem e foco na identidade sobre a humanidade ou individualidade ganharam domin\u00e2ncia na\u00a0sociedade mais ampla. \u00c9 muito mais f\u00e1cil dizer como voc\u00ea se sente do que examinar rigorosamente as evid\u00eancias. A liberdade de \u201cinterpretar\u201d a realidade de acordo com os valores pr\u00f3prios de cada um alimenta a tend\u00eancia realmente humana do vi\u00e9s da confirma\u00e7\u00e3o e do racioc\u00ednio motivado.<\/p>\n<p>Tem se tornado senso comum dizer que a extrema direita est\u00e1, agora, usando as pol\u00edticas identit\u00e1rias e o relativismo epist\u00eamico num caminho muito semelhante \u00e0 da esquerda p\u00f3s-moderna. Claro, a extrema direita sempre se baseou em tem\u00e1ticas de ra\u00e7a, g\u00eanero e sexualidade e foi propensa a vis\u00f5es irracionais e anticient\u00edficas, mas o p\u00f3s-modernismo produziu uma cultura mais amplamente receptiva a isso. Kenan Malik descreve a mudan\u00e7a:<\/p>\n<blockquote><p><em>Quando sugeri mais cedo que a ideia de \u201cfatos alternativos\u201d baseou-se em \u201cum conjunto de conceitos que, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, foram utilizados por radicais\u201d, eu n\u00e3o estava sugerindo que Kellyane Conway ou Steve Bannon, muito menos Donald Trump, tinham lido Foucault ou Baudrillard\u2026 mas sim que alas da academia e da esquerda, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, ajudaram a criar uma cultura que relativiza as perspectivas sobre os fatos e o conhecimento \u2013 o que foi visto de forma inofensiva \u2013 e, assim, tornaram mais f\u00e1cil para que a direita reacion\u00e1ria n\u00e3o apenas reapropriasse ideias reacion\u00e1rias, mas tamb\u00e9m que promovesse essas ideias\u201d [12]<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Este \u201cconjunto de conceitos\u201d amea\u00e7a nos levar para uma \u00e9poca anterior ao Iluminismo, quando a \u201craz\u00e3o\u201d era vista n\u00e3o apenas como inferior \u00e0 f\u00e9, mas tamb\u00e9m como um pecado. James K. A. Smith, um te\u00f3logo protestante e professor de teologia, viu rapidamente as vantagens do p\u00f3s-modernismo para o cristianismo e viu-o como \u201cuma corrente de ar fresco do Esp\u00edrito para relativizar os ossos secos da igreja\u201d (p. 18). Em <em>Who\u2019s Afraid of Postmodernism? Taking Derrida, Lyotard, and Foucault to Church<\/em>, ele diz:<\/p>\n<blockquote><p><em>Um envolvimento s\u00e9rio com o p\u00f3s-modernismo nos encorajar\u00e1 a olhar para tr\u00e1s. Veremos que muito que est\u00e1 sob o r\u00f3tulo de filosofia p\u00f3s-moderna tem um olho em fontes antigas e medievais, e constituem uma significativa recupera\u00e7\u00e3o de formas pr\u00e9-modernas de conhecer, ser e fazer\u201d (p. 25)<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>E<\/p>\n<blockquote><p><em>O p\u00f3s-modernismo pode ser um catalisador para a Igreja retomar sua f\u00e9 n\u00e3o como um sistema de verdade ditado por uma raz\u00e3o neutra, mas sim como uma hist\u00f3ria que requer \u201colhos para ver e ouvidos para ouvir\u201d (p. 125)<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>N\u00f3s, na esquerda, devemos ter muito medo do que o \u201cnosso lado\u201d produziu. Claro, nem todo o problema na sociedade hoje em dia \u00e9 culpa do pensamento p\u00f3s-moderno, e n\u00e3o ajuda em nada sugerir que seja. O crescimento do populismo e do nacionalismo nos EUA e na Europa tamb\u00e9m se deve a uma extrema-direita de longa data e ao medo do islamismo promovido pela crise dos refugiados. Filiar-se a uma posi\u00e7\u00e3o r\u00edgida \u201cantijusticeiros sociais\u201d e criticar tudo que vem desta por\u00e7\u00e3o da esquerda \u00e9 tamb\u00e9m um efeito do racioc\u00ednio motivado e do vi\u00e9s da confirma\u00e7\u00e3o. A esquerda n\u00e3o \u00e9 respons\u00e1vel pela extrema-direita, nem pela direita religiosa, nem pelo nacionalismo secular, mas \u00e9 respons\u00e1vel por n\u00e3o se preocupar com quest\u00f5es razo\u00e1veis, tornando mais dif\u00edcil para que pessoas razo\u00e1veis a apoiem. \u00c9 respons\u00e1vel pela sua pr\u00f3pria fragmenta\u00e7\u00e3o, pelas exig\u00eancias de pureza e pelo diss\u00eddio, que fazem at\u00e9 a extrema-direita parecer coesa e coerente em compara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para recuperar a credibilidade, a esquerda necessita retomar um forte, coerente e razo\u00e1vel liberalismo. Para isso, precisamos superar em discurso a esquerda p\u00f3s-moderna. Precisamos\u00a0 enfrentar suas oposi\u00e7\u00f5es, divis\u00f5es e hierarquias com nossos princ\u00edpios universais da liberdade, igualdade e justi\u00e7a. \u00c9 necess\u00e1ria uma consist\u00eancia de princ\u00edpios liberais para opormo-nos a todas as tentativas de avaliar ou limitar pessoas pela ra\u00e7a, g\u00eanero ou sexualidade. Precisamos expressar nossas preocupa\u00e7\u00f5es com imigra\u00e7\u00e3o, globalismo e pol\u00edticas identit\u00e1rias autorit\u00e1rias que est\u00e3o dando poder \u00e0 extrema-direita, em vez de tratar pessoas que as expressam de \u201cracista\u201d, \u201csexista\u201d ou \u201chomof\u00f3bico\u201d e acus\u00e1-las de querer cometer viol\u00eancia discursiva. Podemos fazer isso enquanto continuamos a nos opor \u00e0s fra\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias da direita que s\u00e3o genuinamente racistas, sexistas e homof\u00f3bicas, mas que agora podem se esconder atr\u00e1s de uma fachada de oposi\u00e7\u00e3o razo\u00e1vel \u00e0 esquerda p\u00f3s-moderna.<\/p>\n<p>Nossa crise atual n\u00e3o \u00e9 da esquerda contra a direita, mas da consist\u00eancia, da raz\u00e3o, da humildade e do liberalismo universalista contra a inconsist\u00eancia, o irracionalismo, a certeza fan\u00e1tica e o autoritarismo tribalista. O futuro da liberdade, igualdade e justi\u00e7a parece igualmente sombrio tanto com a esquerda p\u00f3s-moderna quanto com a direita p\u00f3s-verdade vencendo a guerra atual. Aqueles dentre n\u00f3s que valorizam a democracia liberal e os frutos do Iluminismo e da Revolu\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica \u2013 e a pr\u00f3pria modernidade \u2013 precisam oferecer uma op\u00e7\u00e3o melhor do que ambas.<\/p>\n<p>http:\/\/xibolete.uk\/intelectuais-franceses\/<\/p>\n<\/div>\n<\/article>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Helen Pluckrose &#8211;\u00a0O p\u00f3s-modernismo representa uma amea\u00e7a n\u00e3o s\u00f3 \u00e0 democracia liberal, sen\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria modernidade. Isto pode soar ousado ou at\u00e9 hiperb\u00f3lico, mas a verdade \u00e9 que o conjunto de ideias e valores nas ra\u00edzes do p\u00f3s-modernismo rompeu os limites da academia e ganhou grande poder cultural na sociedade ocidental. 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